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Revista de Administração (São Paulo)

Print version ISSN 0080-2107On-line version ISSN 1984-6142

Rev. Adm. (São Paulo) vol.49 no.1 São Paulo Jan./Mar. 2014

http://dx.doi.org/10.5700/rausp1141 

ESTRATÉGIA & ECONOMIA DE EMPRESAS

 

O banco do futuro: perspectivas e desafios

 

The bank of the future: prospects and challenges

 

El banco del futuro: perspectivas y desafíos

 

 

André Accorsi

Graduado em Engenharia de Produção, Mestre e Doutor em Administração pela Universidade de São Paulo, é Professor Assistente Doutor na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (CEP 05014-901 – São Paulo/SP, Brasil) e Professor Adjunto 2 da Escola Superior de Propaganda e Marketing. E-mail: andre.accorsi@uol.com.br

Endereço

 

 


RESUMO

Neste artigo, apresentam-se as perspectivas e os desafios dos bancos no futuro. Com o referencial teórico sobre o tema, construiu-se um questionário para identificar o grau de importância atribuído a 20 diferentes questões. Na pesquisa de campo, abarcaram-se 93 bancários dos níveis gerencial e operacional dos principais bancos brasileiros e 9 professores universitários especialistas em mercado financeiro. Os dados coletados foram analisados estatisticamente usando-se o software Statistical Package for the Social Sciences, versão 13.0. Observando-se as principais conclusões da amostra, não há diferença estatística entre os funcionários dos bancos pesquisados, mas o mesmo não ocorreu entre bancários e professores. Algumas variáveis apresentaram maior relevância: combate às fraudes, business intelligence, bancarização e atendimento rápido. A partir da análise fatorial, identificaram-se seis fatores: sustentabilidade e papel do Brasil; mobilidade e segurança; regulação e novas tecnologias; globalização, inserção e privacidade; atendimento inteligente e bancarização. Pela análise discriminante, classificaram-se corretamente 79,3 e 66,7% dos funcionários do Bradesco e do Banco do Brasil, respectivamente, e 78,8% dos gerentes.

Palavras-chave: bancos, sistema financeiro, perspectivas futuras.


ABSTRACT

In this article, the prospects and challenges for banks in the future are presented. The theoretical framework on the subject allowed constructing a questionnaire to identify the degree of importance assigned to 20 different issues. In the survey, 93 employees of the management and operational levels of the major Brazilian banks and 9 university professors who are experts in financial market were encompassed. The data were statistically analyzed using Statistical Package for the Social Sciences, version 13.0. According to the main findings of the sample, there was no statistical difference between the employees of the surveyed banks, but it did not occur between bank employees and professors. Some variables have gained greater importance: the fight against fraud, business intelligence, banking and quick service. Six factors were identified from factor analysis: sustainability and the role of Brazil; mobility and security; regulation and new technologies; globalization, integration and privacy; smart services and banking. In the discriminant analysis, 79.3% and 66.7% of Bradesco and Banco do Brazil employees, respectively, were correctly classified, as well as 78.8% of the managers.

Keywords: banks, financial system, future prospects.


RESUMEN

El artículo presenta las perspectivas y retos de los bancos en el futuro. Con la referencia teórica sobre el tema, se construyó un cuestionario para identificar el grado de importancia atribuido a 20 cuestiones diferentes. La pesquisa de campo que abarca 93 bancarios de los niveles gerencial y operativo de los principales bancos de Brasil y 9 profesores universitarios especialistas en mercado financiero. Los datos colectados fueron analizados estadísticamente usando el software Statistical Package for the Social Sciences, versión 13.0. Las principales conclusiones de la muestra indican que no hay diferencia estadística entre los empleados de los bancos estudiados, pero no ocurrió lo mismo entre bancarios y profesores. Algunas variables ganaron mayor relevancia: el combate a los fraudes, business intelligence, bancarización y atención rápida. A partir del análisis factorial se identificaron seis factores: sustentabilidad y papel del Brasil, movilidad y seguridad, regulación y nuevas tecnologías, globalización, inserción y privacidad, atención inteligente y bancarización. Mediante el análisis discriminante se clasificaron correctamente 79,3% y 66,7% de los empleados del Bradesco y del Banco do Brasil, respectivamente, y el 78,8% de los gerentes.

Palabras clave: bancos, sistema financiero, perspectivas futuras.


 

 

1. INTRODUÇÃO

O sistema financeiro desempenha papel fundamental na economia moderna ao concentrar recursos dos poupadores e canalizá-los aos investidores, os quais agregam mais produtos e serviços à sociedade. Quando os bancos se desviam desse objetivo, podem ocorrer sérias consequências, como ficou muito claro na crise de 2008. Obras interessantes sobre as crises no sistema financeiro e, em particular, a de 2008, foram escritas por Wolf (2009), Rogoff e Reinhart (2010) e pelo Banco Mundial (World Bank, 2010).

A preocupação atual dos órgãos reguladores é tentar fazer com que as instituições financeiras se tornem mais seguras e, para tanto, são aperfeiçoados, em escala mundial, os controles internos e de gestão de riscos. O esforço de regulamentação concentra-se no Acordo de Basiléia, hoje na sua terceira versão (Bank for International Settements, 2010). Maiores informações sobre o conteúdo do Acordo de Basiléia podem ser obtidas no site <www.bis.org>.

Os bancos implantaram sofisticados sistemas de informação com a finalidade de diminuir custos e agilizar atendimento e negócios. A quantidade e a velocidade atual das operações executadas no mercado financeiro seriam difíceis de prever a alguns anos. Os recursos investidos em tecnologia da informação (TI), durante décadas, tornaram as instituições financeiras muito avançadas nessa área, comparativamente a outros segmentos da economia.

No presente estudo, buscou-se investigar quais serão as características dos bancos no futuro. Os principais pontos de apoio para o trabalho são os livros publicados por Diniz, Fonseca e Meirelles (2010) e King (2010), que são complementados por pesquisas realizadas pelo IBM Institute for Business Value (2009a, 2009b, 2010). Para avaliar a percepção de profissionais que trabalham em instituições financeiras, foi aplicado um questionário a duas turmas que participavam de curso preparatório para obter a certificação conhecida como CPA-20 e a professores de finanças que conhecem e atuam com disciplinas envolvendo o mercado financeiro.

O trabalho está organizado da seguinte forma: na seção 2 apresenta-se o referencial teórico; na seção 3, discute-se a metodologia de pesquisa; na seção 4, descrevem-se as características da amostra e as variáveis utilizadas; na seção 5, analisam-se os resultados obtidos; e na seção 6, são expostas as considerações finais.

 

2. REFERENCIAL TEÓRICO

No referencial do estudo, inicialmente será feita uma síntese das principais conclusões do livro de Diniz et al. (2010). A obra é resultado de depoimentos de 59 profissionais que vivenciaram a automação bancária no Brasil e de um fórum que reuniu 66 especialistas de bancos, da indústria de TI, de consultorias e institutos de pesquisa, professores e acadêmicos da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP-FGV), em abril de 2010. As inovações previstas para os bancos nos próximos anos foram agrupadas em sete blocos: perfil do consumidor da geração Y, mobilidade, papel do Brasil no cenário mundial, regulamentação, segurança e biometria, sustentabilidade e tecnologias disruptivas. Os resultados consolidados dos blocos aparecem nos Quadros 1 a 7. O espaço dedicado ao livro dos três autores mencionados é justificado, porque foi a base para a construção das questões formuladas no questionário de pesquisa (apresentado na seção 3).

Os estudos patrocinados pelo IBM Institute for Business Value (2009a, 2009b e 2010) , apresentados no formato de relatórios executivos, discutem os futuros caminhos possíveis para o sistema financeiro após a crise de 2008 e apontam algumas dificuldades. O estudo mais amplo, realizado em 2009, atingiu 7.300 clientes bancários em 13 países, 2.500 dirigentes de 500 empresas, além de 117 bancos dentre os 200 com mais ativos em todo o mundo. As principais constatações foram que: a especialização é um tema vencedor dentro do ecossistema bancário; há necessidade de aumentar a eficiência via fusões e aquisições e diminuição de custos; a integração das funções front e back office precisa ser melhorada; os clientes não confiam em bancos quando oferecem produtos e serviços que busquem os interesses dos consumidores; os itens classificados como de alto valor pelos clientes incluem excelência de serviço, conselho sem influência, transparência e reputação/integridade; a estrutura de gerenciamento de riscos deve ser integrada em toda instituição financeira. O XXI Congresso e Exposição de Tecnologia da Informação das Instituições Financeiras (FEBRABAN, 2011), realizado em 2011, destaca alguns dados: Internet Banking já representa 23% das 56 bilhões transações realizadas em 2010; aumento do total de caixas eletrônicos e diminuição da quantidade de agências; crescimento de 15% nos gastos com TI entre 2009 e 2010; número de clientes com Internet Banking cresce mais rápido do que o de contas correntes, com destaque para o Mobile Banking; transações por correspondentes não bancários e Internet têm aumentado sua participação, apesar de os principais meios transacionais ainda serem o autoatendimento e os automáticos internos.

King (2010) analisa como as mudanças no perfil do consumidor bancário e na tecnologia alterarão os serviços financeiros. Destaca as mudanças de comportamento das gerações Y e Z, que revolucionarão as formas de distribuição e consumo dos serviços bancários. O movimento futuro é fruto de um consumidor familiarizado com as redes sociais e com as novas tecnologias e que se recusa a aceitar que as tarefas bancárias sejam complicadas, como ocorre hoje com uma simples transferência de recursos. Ressalta, ainda, os novos sistemas de pagamento que funcionam independentemente das instituições financeiras, o desaparecimento dos cheques e cartões de crédito, o papel da tecnologia na inclusão social e a necessidade de o serviço bancário ser oferecido no local do negócio (e não mais em agências).

Outra obra essencial é o relatório publicado pela London School of Economics and Political Science (Turner et al., 2010). O texto aponta tendências futuras para o mercado financeiro, destacando a necessidade de se repensar o arcabouço regulatório vigente.

 

3. METODOLOGIA DE PESQUISA

A metodologia adotada compreendeu duas etapas distintas. Na primeira levantou-se o referencial teórico necessário (apresentado no item anterior) para a construção de um questionário a ser aplicado em profissionais de bancos (que buscavam a certificação CPA-20) e professores do Ensino Superior que trabalham com mercado financeiro. A segunda etapa compreendeu o pré-teste do questionário (Quadro 8), a pesquisa de campo e a posterior análise.

O questionário reúne 20 perguntas e segmenta a amostra por cargo e banco. O respondente, usando uma escala Likert, atribuiu a cada questão uma nota: 0 = discordo, 1 = sem importância, 2 = pouco importante, 3 = importante, ou 4 = muito importante. Os questionários válidos chegaram a 102 e foram coletados entre os meses de março e maio de 2011.

As respostas obtidas foram analisadas usando-se o software Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 13.0. O software mencionado é muito utilizado nos meios acadêmicos e empresariais para analisar dados com rigor estatístico.

A análise dos dados coletados compreendeu métodos paramétricos e não paramétricos, descritos a seguir.

  • O Alfa de Cronbach foi utilizado para medir a consistência das 20 questões que compõem o questionário de pesquisa (Quadro 8). O coeficiente é um dos mais usados para medir a confiabilidade ou fidedignidade de dados paramétricos. Baseia-se na consistência interna de uma escala, isto é, na correlação média dos itens no interior de uma escala. A correlação média de um item com todos os outros de uma escala permite dizer em que medida trata-se de uma entidade comum. Seu valor atingiu 0,658 (valor aceitável em uma escala na qual o máximo possível é 1), indicando que o questionário é consistente. A eliminação de qualquer pergunta não aumentou o valor do Alfa, ou seja, todas as questões são pertinentes ao problema estudado.
  • O teste de Kolmogorov-Smirnov é uma técnica não paramétrica. Seu objetivo é medir o grau de concordância (aderência) entre a distribuição de um conjunto de valores amostrais e determinada distribuição teórica específica. Determina se os valores da amostra podem razoavelmente ser considerados como provenientes de uma população com aquela distribuição teórica, sendo a normal a mais utilizada. A aplicação do teste mostrou que todas as questões tiveram nível de significância inferior a 0,05, indicando que a distribuição de probabilidades dos dados não é normal. Por esse motivo, sempre que possível, na análise de dados utilizar-se-á uma técnica não paramétrica.
  • A prova de Kruskal-Wallis é um teste não paramétrico. É extremamente útil para decidir se k amostras independentes provêm de populações diferentes. A prova supõe que a variável em estudo tenha distribuição inerente contínua e exige mensuração no mínimo ordinal. A prova não faz qualquer outra suposição além dessa. Assemelha-se à análise de variância (técnica paramétrica usada para comparar várias médias ao mesmo tempo), sendo empregada quando os dados não são quantificáveis. O teste de Kruskal-Wallis foi utilizado para identificar se há diferença estatística no grau de importância atribuído a cada pergunta ao se segmentar a amostra por bancos ou por funções.
  • O teste de Friedman é uma prova não paramétrica, semelhante à análise de variância, utilizado quando se quer comparar várias médias ao mesmo tempo. O objetivo de seu uso foi identificar a existência de diferença estatística no grau de importância dentro do conjunto das 20 questões pesquisadas.
  • Os métodos de Scheffé e Tukey complementam a análise de variância, a qual permite dizer se há evidência de diferença na comparação de múltiplas médias, sem identificar quais são diferentes. Os métodos de Scheffé e Tukey identificam quais médias são diferentes dentro da comparação realizada, desde que seja assumida variância constante. O método de Scheffé deve ser utilizado quando as amostras têm tamanhos diferentes e o método de Tukey, quando as amostras são de mesmo tamanho. O método de Tamhane é usado quando se assume variância não constante. Os testes mencionados ajudaram a identificar quais questões são mais ou menos importantes.
  • A análise fatorial é uma técnica paramétrica. Seu objetivo é identificar um número relativamente pequeno de fatores que podem ser usados para representar relacionamentos entre conjuntos de muitas variáveis inter-relacionados. A hipótese básica é que há dimensões latentes ou fatores, explicativos de um fenômeno complexo. A técnica foi utilizada para tentar reduzir o número de perguntas do questionário, simplificando um futuro trabalho de campo.
  • A análise discriminante é uma técnica paramétrica utilizada para determinar se o objeto estudado faz parte de um grupo definido. No artigo, foi usada com o objetivo de classificar (discriminar) os respondentes de acordo com a segmentação por bancos ou funções. A técnica permite medir, estatisticamente, o grau de acerto dessa classificação e verificar se é possível construir, no futuro, um modelo para os bancos e funções pesquisados.

 

4. DESCRIÇÃO DA AMOSTRA

A amostra de conveniência é composta por 102 respondentes, com perfil detalhado na Tabela 1. Todos os bancários que responderam ao questionário o fizeram durante curso preparatório para o exame de certificação conhecido como CPA-20. A participação no curso indica a intenção e o interesse de continuar na área. Participaram profissionais do Bradesco (29), Banco do Brasil (24), Santander (10), Itaú Unibanco (9), HSBC (8), Safra (2) e outros (11), totalizando 93 respondentes. Os bancários foram segmentados, segundo os cargos ocupados, em gerência e operacional.

Os nove professores pesquisados atuam no Ensino Superior, na área de finanças, com foco no mercado financeiro, em escolas públicas ou privadas.

 

5. RESULTADOS

Todos os resultados e tabelas que se seguem foram gerados com o auxílio do software SPSS, versão 13.0.

Na primeira análise procurou-se identificar diferenças estatísticas nos dados coletados ao segmentá-los por bancos. O objetivo era localizar divergências de opinião entre todos os diversos bancos pesquisados. Nesse sentido, foi utilizado o teste de Kruskal-Wallis, abordado na metodologia de pesquisa. A segmentação não evidenciou diferença estatística para 19 perguntas do questionário (todas tiveram nível de significância acima de 0,05). A exceção foi a pergunta que tratava do aumento da preocupação do cliente com sua privacidade (nível de significância de 0,026). Para identificar quais eram os bancos que apresentavam divergências, empregaram-se a análise de variância e os testes de Tukey, Scheffé e Tamhane, descritos na metodologia de pesquisa. A partir dos três testes, concluiu-se que não era possível diferenciar estatisticamente os bancos, reforçando os resultados do teste de Kruskal-Wallis. Em suma, todos os bancos apresentaram estatisticamente o mesmo padrão de respostas nas perguntas do questionário.

O teste de Kruskal-Wallis foi repetido dividindo-se a amostra por cargo. A segmentação não evidenciou diferença estatística para 14 perguntas do questionário. As seis perguntas restantes aparecem na Tabela 2 e foram analisadas usando-se análise de variância e os testes de Tukey, Scheffé e Tamhane.

A análise dos resultados da Tabela 2 permite afirmar que as diferenças ocorreram entre os acadêmicos e os bancários (principalmente na gerência). Em todas as respostas, os bancários atribuíram maior grau de importância ao que era perguntado em comparação aos acadêmicos. A única exceção foi a diferença ocorrida entre a gerência e o pessoal operacional na pergunta em que se abordava infraestrutura segmentada e modular. Os gerentes concederam maior importância ao item.

A Tabela 2 deixa transparecer que as diferenças mais consistentes entre gerência/operacional e acadêmicos ocorrem nas perguntas que tratam do peso do Brasil na definição de normas e em pesquisa e desenvolvimento (P&D), além da preocupação com sustentabilidade. A diferença entre gerência e acadêmicos também é forte na pergunta que trata de computação em nuvens. As perguntas que tratam do uso de redes sociais, adesão aos marcos regulatórios e infraestrutura segmentada e modular não obtiveram unanimidade nos testes realizados.

A próxima análise buscou identificar diferença estatística no grau de importância atribuído para o conjunto de 20 questões, ou seja, se alguns quesitos eram mais importantes do que outros. Para tanto, foi usado o teste de Friedman, descrito na metodologia de pesquisa. Com o teste, obteve-se um nível de significância de 0,000. Como o resultado é menor do que 0,05, pode-se afirmar que pelo menos uma das questões difere estatisticamente das demais no quesito grau de importância. O mesmo teste permitiu medir estatisticamente quais questões eram mais ou menos importantes com nível de significância de 5% (Tabela 3).

Os resultados da Tabela 3 destacam a maior importância dos itens combate às fraudes, business intelligence, acesso da população aos produtos e serviços bancários (bancarização), atendimento rápido e exclusivo pela Internet. Com importância um pouco menor, aparecem sustentabilidade, privacidade, uso do cartão com chip e certificação digital, adesão aos marcos regulatórios e desenvolvimento de produtos de crédito sustentáveis, biometria e segurança, investimentos no mercado de capitais brasileiro e das empresas brasileiras no exterior e, finalmente, crescimento do peso do Brasil na definição das normas internacionais e na área de P&D.

A Tabela 3 mostra ainda que ataques cada vez mais sofisticados aos sistemas bancários, mobilidade e infraestrutura modular e segmentada são mais importantes do que o desenvolvimento de tecnologias que minimizem as defasagens sociais e culturais, cloud computing, inteligência cognitiva para tomar decisões cotidianas, evolução da postura empresarial e serviços financeiros da visão regional para o mercado global, o uso de redes sociais e a menor fidelidade dos clientes aos bancos.

A utilização da análise fatorial, já mencionada na metodologia de pesquisa, buscou reduzir o número de perguntas do questionário e identificar relações entre as questões. Com o teste de Bartlett, verifica-se se a matriz de correlação obtida é uma matriz identidade, o que invalidaria o uso da análise fatorial. O teste acusou um nível de significância de 0,000, o que significa que os dados coletados são adequados para o uso da análise fatorial. Cinco questões não alcançaram carga fatorial superior a 0,50 em nenhum fator e foram descartadas: business intelligence, ataques aos sistemas bancários, cartão com chip e certificação digital, postura empresarial, infraestrutura modular e segmentada. As 15 restantes geraram seis fatores que, juntos, explicavam 62% da variância total. A Tabela 4 apresenta os resultados da análise fatorial.

Os fatores obtidos na análise fatorial foram baseados na análise de componentes principais, modelo apoiado na variância total. O primeiro fator tem a maior variância e os seguintes têm variância cada vez menor. A rotação fatorial usou o método Varimax, o mais utilizado entre os ortogonais. O método Varimax minimiza o número de variáveis que têm alta carga fatorial em cada fator, facilitando a interpretação dos resultados. O método Varimax pode usar a normalização de Kaiser sobre a matriz inicial dos fatores gerados.

As questões agrupadas nos fatores permitem nomear cada um deles: Fator 1 – Sustentabilidade e papel do Brasil; Fator 2 – Mobilidade e segurança; Fator 3 – Regulação e novas tecnologias; Fator 4 – Globalização, inserção e privacidade; Fator 5 – Atendimento inteligente; e Fator 6 – Bancarização.

A última análise realizada foi a discriminante. Como dito na metodologia de pesquisa, o objetivo aqui é verificar estatisticamente o nível de acerto do agrupamento dos respondentes nos diferentes bancos e funções. As Tabelas 5 e 6 apresentam os resultados obtidos no SPSS.

A análise discriminante classificou corretamente 79,3% dos funcionários do Bradesco contra apenas 20% do Santander. O resultado indica que pode haver um padrão de respostas no Bradesco (e, em menor escala, no Banco do Brasil, com acerto de 66,7%). Nos bancos Itaú Unibanco, HSBC e Safra, o acerto oscilou entre 50% e 55,6%. A análise de variância, entretanto, mostrou que não foram obtidas diferenças significativas na segmentação por bancos. Muitos bancários de outros bancos acabaram sendo classificados como funcionários do Bradesco.

Na Tabela 6, pode-se observar que 78,8% dos gerentes foram classificados corretamente contra 66,7% dos professores e 58,5% do pessoal operacional. Na análise discriminante, 39% dos bancários do nível operacional acabaram enquadrados como gerentes, o que indica um padrão de respostas próximo entre os dois grupos. Cabe observar que, nos dois grupos citados, raros foram os casos de classificação como professores. O resultado reforça as diferenças significativas entre os bancários e os professores. Já entre os professores, 33,3% foram identificados como gerentes e nenhum como operacional.

 

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo do trabalho foi estudar qual deve ser o futuro dos bancos. O referencial teórico apresentado destaca as tendências que devem marcar a atividade bancária nos próximos anos:

  • Um consumidor mais familiarizado com as novas tecnologias, que exige um serviço rápido e onipresente e se recusa a aceitar processos complicados quando necessita do banco.
  • A ênfase na mobilidade – a transação deve ocorrer no local do negócio e não mais na agência.
  • Um peso maior do Brasil na definição de normas internacionais.
  • Uma maior preocupação com segurança no acesso ao sistema dos bancos.
  • Ênfase no desenvolvimento de produtos de crédito susten-táveis.
  • Surgimento de novas tecnologias que podem alterar bastante o relacionamento banco-cliente, ameaçando, inclusive, a necessidade futura da existência de bancos.

Os estudos realizados pelo IBM Institute for Business Value, particularmente os de 2009, e pela London School of Economics and Political Science (Turner et al., 2010) destacam a desconfiança atual sobre as práticas bancárias, por parte tanto dos clientes quanto dos órgãos reguladores do mercado. Ambos apontam a necessidade de os bancos conhecerem melhor seus clientes de maneira a atender seus valores, necessidades e esperanças.

O trabalho apresenta, ainda, o questionário construído a partir de referencial teórico e que foi a base para uma pesquisa de campo que reuniu 102 bancários e professores. Os bancários foram divididos em dois grupos: gerentes e pessoal operacional. Os nove professores universitários pesquisados eram atuantes em finanças e especialistas em mercado financeiro.

A análise estatística dos dados da pesquisa de campo possibilitou chegar a algumas conclusões, resumidas a seguir.

  • Não foi possível, para a amostra coletada, identificar diferença estatística nas respostas obtidas quando a segmentação foi por bancos. O resultado indica uma avaliação parecida, independentemente de qual seja o banco, do que deve ser o futuro do sistema financeiro.
  • O mesmo não ocorreu quando a segmentação se deu por funções. Foram apontadas diferenças estatísticas, principalmente entre bancários e professores, no grau de importância do uso futuro das redes sociais, do peso do Brasil na definição de normas internacionais, da adesão dos bancos aos marcos regulatórios, da preocupação com a sustentabilidade, do uso futuro da computação em nuvens e da ampliação da infraestrutura segmentada e modular.
  • Há variáveis mais importantes dentro do conjunto pesquisado. As mais relevantes, pela ordem, seriam: combate às fraudes, business intelligence, bancarização, atendimento rápido e exclusivo pela Internet; sustentabilidade, privacidade, uso do cartão com chip e certificação digital, adesão aos marcos regulatórios, desenvolvimento de produtos de crédito sustentáveis, biometria, investimentos no mercado de capitais e internacionalização das empresas brasileiras, peso do Brasil na definição de normas internacionais e na área de P&D; ataques sofisticados aos sistemas bancários, mobilidade e infraestrutura modular; desenvolvimento de tecnologias que minimizem diferenças sociais e culturais, computação em nuvens, inteligência cognitiva, evolução da postura empresarial, uso de redes sociais e fidelidade dos clientes aos bancos.
  • A análise fatorial identificou seis fatores, nomeados como: Sustentabilidade e papel do Brasil; Mobilidade e segurança; Regulação e novas tecnologias; Globalização, inserção e privacidade; Atendimento inteligente; e Bancarização. Os fatores gerados podem orientar futuras pesquisas sobre o tema pesquisado neste estudo.
  • A análise discriminante classificou corretamente 79,3% e 66,7% dos funcionários do Bradesco e do Banco do Brasil, respectivamente. Os dois bancos, na amostra coletada, destacaram-se em termos da consistência de um padrão interno entre seus funcionários. Já no Santander aconteceu exatamente o contrário, fato explicado pelas grandes fusões e incorporações realizadas por esse banco no período recente.
  • A mesma análise discriminante foi correta para 78,8% dos gerentes, mas o grau de acerto diminuiu para professores (66,7%) e o pessoal operacional (58,5%). Dois fatos devem ser destacados: foram raros os casos de bancários classificados como professores, indicando diferenças importantes entre os dois grupos, e muitos funcionários operacionais tiveram respostas parecidas com as dos gerentes, o que revela forte identificação com o nível mais alto da hierarquia.

Sugere-se, como continuidade de pesquisa, o aperfeiçoamento do questionário construído, observando-se com mais cuidado os resultados da análise fatorial. A incorporação de novas variáveis e o desmembramento das atuais poderiam refinar a análise em futuras pesquisas.

Por fim, a ampliação da base de respondentes poderia deixar mais claro se há diferenças sobre a visão futura do mercado financeiro entre os funcionários de bancos. Outro ponto interessante seria desenvolver futuras pesquisas para entender as razões da diferenciação ocorrida entre bancários e professores acerca da evolução dos bancos.

 

REFERÊNCIAS

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Diniz, E. H., Fonseca, C. E. C., & Meirelles, F. S. (2010). Tecnologia bancária no Brasil: uma história de conquistas, uma visão do futuro. São Paulo: FGV.         [ Links ]

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Turner, A., Haldane, A., Woolley, P., Wadhwani, S., Goodhart, C., Smithers, A. et al. (2010). The future of finance: the LSE report. London: London School of Economics and Political Science.         [ Links ]

Wolf, M. (2009). A reconstrução do sistema financeiro global. Rio de Janeiro: Elsevier.         [ Links ]

World Bank (2010). Global development finance 2010. Washington DC: World Bank.         [ Links ]

 

 

Endereço:
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Rua Monte Alegre, 984
05014-901 – São Paulo – SP

Recebido em 19/outubro/2011
Aprovado em 01/outubro/2012

 

 

Sistema de Avaliação: Double Blind Review
Editor Científico: Nicolau Reinhard

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