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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.34 no.4 São Paulo Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342000000400002 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Suicídio - um ensaio em busca de um des-velamento do tema*

 

Suicide - one essay in a search of a revealment of the theme

 

 

Mauren Alexandra SampaioI; Magali Roseira BoemerII

IEnfermeira graduada pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto – USP em 1995. Bolsista do Programa de Iniciação Científica do CNPq 1993 e 1994, e da da FAPESP em 1995. Ribeirão Preto -SP-Brasil
IIOrientadora do estudo. Coordenadora Projeto Integrado CNPq. Professor livre-docente aposentado EERP-USP

 

 


RESUMO

Este ensaio propõe-se a des-velar facetas do tema suicídio por meio do discurso de diferentes autores que tratam do tema, bem como mediante os contatos que pude ter, durante os estágios de aprendizado, coin pessoas que tentaram suicídio. Minha trajetória acadêmica inclui uma incursão pelas idéias da fenomnenologia, particularmente pelos pensamentos de Heidegger, ou seja, análise existencial do homem enquanto ser-aí. Nesse sentido, a compreensão da pessoa que decide colocar fim à sua existência, pode se constituir, na perspectiva desta análise, como um caminho para reconstrução e redimensionamento de suas perspectivas existenciais.

Palavras-chave: Suicídio. Existencialismo.


ABSTRACT

This essay proposes to reveal facets of the suicide through the discourse of differents authors treating this theme as well as through contacts that I was able to have in my nursing training, through my academic trajectory. This trajectory includes an incursion by phenomenological ideas, mainly by the ideas of Heidegger and his existencial analysis of the man as being-there. In this way, the understanding of a person who decides to finalize his/her existence, can be, by the existencial analysis perspective, a way to reconstruct and redimension his/her existencial perspectives.

Keywords: Suicide. Existentialism.


 

 

1 INTRODUÇÃO

O tema morte tem despertado em mim curiosidade desde a infância, quando tive os meus primeiros contatos através da vivência de morte em familiares. Outras situações as quais vivenciei, envolvendo a morte, sucederam-se a estas, quando da morte de amigos e em visitas a cemitérios que me remetiam a algo oculto, embutido nas imagens de suas construções.

Subseqüentemente a estas experiências delinea-se meu envolvimento acadêmico com o tema, quando tive a oportunidade de inserir-me em um projeto de estudos a temática morte. Pude, então, realizar leituras que me possibilitaram a compreensão do fenômeno morte em suas diversas facetas, emergentes no discurso de diferentes autores, em abordagem multidisciplinar 6,9,15,17,23

Neste percurso deparei-me com a questão da finitude do SER no estudo de BOEMER 5   que busca captar o estar vivenciando a morte por meio dos discursos dos pacientes terminais, compreendido ontologicamente pela existência do Ser segundo a hermenêutica heideggeriana. Neste momento foi necessário um empenho de minha parte na tentativa de captar o pensar de Heidegger, na obra SER e TEMPO 13 , na qual o filósofo introduz a questão do ente, enquanto aquilo que é; o fato de que todo ente é em seu SER o deixa atônito. Assim, busca o seu significado considerando sua qualidade essencial ou "quididade", sua insinuação antes de tudo.

O SER é "lançado" no mundo e esse "lançamento" é seu "aí", pretendendo sugerir a facticidade de ser entregue a. O homem é um "ser-aí" e aí é o mundo cotidiano. Ser humano é estar imerso na trivialidade cotidiana do mundo e, para expressar essa imersão, Heidegger usa a hifenação "ser-no-mundo". Nesse lançamento, o homem enquanto ser-aí, é necessariamente com-os-outros homens, igualmente lançados no mundo. Desta forma, ser-no-mundo é ser-no-mundo-com, envolvendo todas as possibilidades do interagir humano: amor, ódio, solicitude, cuidado.

O homem, enquanto ser-aí, é um ente cujo Ser é um ser-para-a-morte. Sua única certeza é a morte, a cessação de sua existência. O resto são possibilidades. A grande angústia existencial do homem é conviver com esta certeza: saber que vai morrer e que vai deixar uma história. Essas idéias embrionárias do pensamento heideggeriano, consubstancialmente descritas e clareadas por STEINER 22 , remeteram-me ao estudo de BOEMER 5 , no qual a autora relata seu conviver com pacientes terminais, compreendendo-os em seu morrendo, quando o seu ser-para-a-morte se lhes apresentava de forma iminente. A morte como possibilidade de suas existências é muito presente. Uma possibilidade que eles não escolheram e que emerge em suas existências, atravessando-as, em decorrência de uma doença grave.

Nesse momento, direcionei meu olhar para as situações nas quais a morte pode se apresentar, não em decorrência de uma doença grave ou outro evento qualquer, mas como uma opção por não mais-ser-nesse-mundo-com-os-outros homens. Decidi, então, por me deter na faceta de morte sob a perspectiva do ato suicida.

Ao deparar-me com essa condição de angústia do ser humano, pude entender que esse ente ontologicamente não nega a morte e sim, tenta antecipá-la como um acontecimento que revela sua finitude como ser-aí. Tudo isso me inquietava como que pedindo um aclaramento no sentido de compreender o seu manifestar-se. Entretanto, ainda não havia vivenciado situações que me possibilitassem um interagir com pessoas nessa situação. Considerando que a natureza de tal interagir requer um preparo acadêmico, não vimos (minha orientadora e eu) possibilidades de buscar nesse momento a compreensão do fenômeno que questiona sobre a questão ôntica do suicídio. Assim, optamos pela realização de um ensaio como forma de iniciar-me no mundo da pesquisa sobre o tema em questão.

O ensaio é uma exposição lógica e reflexiva e uma argumentação rigorosa com alto nível de interpretação e julgamento pessoal, onde o autor tem liberdade em defender uma determinada posição sem que tenha de se apoiar no rigoroso e objetivo aparato de documentação empírica e bibliográfica. Informações e questões são lançadas acerca de um tema sem que haja o intuíto de um trabalho acabado 20   Segundo Sontag, citada por SILVA 21 , "os ensaios precisam ser de alguma forma, discussões e, para isso, precisam conter opiniões e juízos. Sob esta perspectiva, busquei na literatura conhecimentos que me possibilitassem a compreensão do suicídio tal como se mostra a diversos autores, de forma a propiciar-me uma imersão no tema. Paralelamente, exponho alguns questionamentos emergentes em minha trajetória de incursão pela temática e interligados ao meu vivenciar acadêmico nos estágios curriculares.

 

2 A BUSCA DE ESTUDOS SOBRE O TEMA

A literatura que trata do tema suicídio é consideravelmente numerosa, porém, no Brasil há poucos estudos na área. Existem hipóteses, teorias, tentativas de explicação em torno desta questão tão profunda, sob diversos enfoques. Neste item procuro expor como vários autores tentam compreender o suicídio, tangenciando alguns pontos que me parecem essenciais para o início de uma reflexão.

2.1 Suicídio - da história e do tabu

As transformações que o pensamento acerca do fenômeno suicídio e do suicida vêm sofrendo estão relacionadas às diferentes formas que as relações humanas vêm adquirindo, as quais podem ser expressas social, política, religiosa, antropológica e filosoficamente.

Na antiguidade, segundo relata a história (19) , o princípio que norteava os regimes de condução do Estado dos povos em apogeu baseava-se em normas básicas que regiam sua vida dentro da comunidade. A religiosidade mostra-se presente de maneira amena, sem grandes influências na vida do indivíduo que era totalmente vinculado ao seu Estado; a vida além túmulo, pobremente concebida, não apresenta verdadeiramente consolos e a morte é presente na vida cotidiana em decorrência de guerras e batalhas frequentes na época.

Nesse contexto, segundo apontam KALINA; KOVADLOFF 14 , o fenômeno suicídio emerge no conviver destas sociedades como algo testemunhado, para o qual o indivíduo deveria pedir permissão ao Estado para, então, consumá-lo. Caso este processo não ocorresse, o suicida era considerado um transgressor de regras e, como tal, seu ato era classificado como delitivo, não por ter posto fim à sua vida, mas por tê-lo feito sem que fosse autorizado. Este suicida, considerado clandestino, era privado das honras de sepultura regular e as mãos do cadáver eram amputadas e enterradas à parte.

Caminhando para Idade Média, esses autores lembram que algumas das características acima mencionadas ainda preponderavam, porém, evidencia-se nesta época a influência teológica sobre o fenômeno suicídio. Nesse momento, a religiosidade era muito presente na vida do homem medieval e acreditava-se e que a qualidade desta vida estaria estreitamente ligada aos atos pecaminosos ocorridos antes da morte. Assim, quanto mais transgressões religiosas o indivíduo cometesse, menos chances sua alma teria de descansar após a morte. Nessa perspectiva, a vida não era propriedade do indivíduo mas pertencia a Deus, criador do homem e, portanto, atentar contra algo que não lhe pe rtencesse significava cometer um delito. Matar-se equivalia, então, a um sacrilégio e o suicida era considerado como não merecedor da misericórdia divina, não recebendo a salvação de sua alma. Assim, penas religiosas foram instituídas tais como: arrastar o cadáver pelas ruas, pendurá-los pelos pés, queimar-lhes o corpo publicamente. Cabe mencionar que esses cadáveres eram expostos nús, o que contribuiu para diminuir o número de suicídios, dado o temor da exposição do corpo nú após morte, temor esse sentido principalmente pelas mulheres.

Novas transformações ocorreram nas relações humanas e o indivíduo passa a ter mais autonomia em sua vida pessoal à medida que as influências e pressões do Estado e Igreja tornam-se menos evidentes. A revolução francesa, embasada nos ideais de igualdade, fraternidade e liberdade, vem excluir as medidas repressivas tomadas contra o indivíduo suicida.

Atualmente o ato suicida tem como característica ser clandestino, ou seja, sem testemunhos, dissimulado, ocorrendo como se estivesse transgredindo regras expressas por nossa sociedade capitalista na qual a morte é banida, não enfrentada e evitada. O suicida, de certa forma, ainda é compreendido como um transgressor, porém, de regras legitimadas pela cultura social. Ameaça o sentimento de onipotência humana que não aceita a possibilidade da morte e vive a cultura da vida. A negação da vida e a busca da morte, expressas no ato suicida, significam o rompimento do tabu existente em torno da morte.

Já na sociedade oriental, o suicídio, segundo aponta DIAS 10 , tem uma conotação positiva e é valorizado. Nessa sociedade é expressa sua aceitação, em determinados contextos. Assim, no oriente pode ser visto como um ato honroso. ANGERAMI 3   lembra uma das facetas contemporâneas mais polêmicas ao citar o caso dos Kamikazes, no Japão, que praticavam o suicídio como um ato heróico em função da guerra.

Ao lado de toda desaprovação social, há estudiosos do tema que defendem o direito de se decidir sobre a própria morte, já que ela pertence a cada um. GUILLON; BONNIEC 12   são autores que defendem esta idéia em sua obra "Suicídio: modo de usar", a qual foi intensamente criticada e seus autores polemizados, na Europa. O capítulo X desta obra, que gerou a crítica, corresponde a um "guia do suicídio”. Neste capítulo os autores descrevem meios eficazes de se consumar o ato sem erros e de maneira suave. Citam drogas que podem ser utilizadas, sua ação, dose letal e aconselhável bem como drogas adjuvantes que facilitem a ação das primeiras, sem causar desconforto ao suicida. Com isto, procuram defender a idéia de livre-arbítrio e do direito do homem sobre sua própria vida e morte que parecem ter-lhe sido confiscado pela sociedade.

2.2 O Suicídio sob a perspectiva da sociologia, psicologia e psicanálise

Prosseguindo em minha busca encontrei a obra de DURKHEIN 11 que se constituiu em um marco para o início da compreensão do suicídio. O autor realizou seu estudo sob uma perspectiva sociológica, baseando-se em um método social que procura demonstrar a participação das variantes sociais como fatores causadores do suicídio. Considera a sociedade e o indivíduo um binômio indivisível, em constante interação; o ato suicida seria um dos resultados gerados por esta inter-relação. Com base nisto, elaborou uma teoria sociológica do suicídio, classificando-o em categorias que são bem explicitadas em sua obra.

Sob uma perspectiva psicológica, ANGERAMI 3 , clareia a questão do suicídio enquanto um fenômeno emergente em um contexto existencial preemente. Realiza atendimentos a pessoas que tentaram suicídio no sentido de oferecer um sustentáculo emocional para que possam descobrir novas possibilidades e alternativas para suas vidas. Para tanto, tem utilizado o método fenomenológico que vai ao encontro do real significado das coisas considera o existir enquanto ele mesmo e a tentativa de suicídio como possibilidade, distante das teorizações que tornam obscura a própria realidade da existência.

MENNINGER 18 postula que o fenômeno suicídio não se resume a um ato de impulsão, incidental, inexplicável ou lógico, mas a algo que pode ser compreendido como manifestações conscientes ou inconscientes das tendências de vida - morte do ser humano. Segundo este autor, o suicídio envolve três elementos internos: desejo de matar, desejo de ser morto e desejo de morrer.

DIAS 10 realizou um estudo sob um enfoque psicanalítico e antropológico, envolvendo mensagens de adeus, ao analisar notas de despedida, em forma de cartas, bilhetes e fitas de audio, de pessoas que se suicidaram. Trata-se de um trabalho pioneiro no Brasil e mesmo no exterior, onde os estudos têm merecido apenas um enfoque estatístico no sentido de informar a porcentagem de suicidas que deixavam cartas. Emerge nestas mensagens a mortesem conotação de fim, considerada pelo suicida como uma passagem para um outro tipo de vida ou, ainda, como se fosse possível continuar a viver, evidenciando um pensamento mágico que põe fim à atual existência. Em verdade, a pessoa está buscando a vida por meio da morte.

 

3 SOBRE O SUICÍDIO - ALGUMAS REFLEXÕES ACERCA DAS LEITURAS E VIVÊNCIAS.

Todas estas leituras possibilitaram-me uma aproximação ao tema suscitando-me algumas reflexões. Pude compreender que o fenômeno suicídio não merece uma consideração simplista e óbvia, no sentido de que não significa apenas um "desejo pela morte" como tem sido entendido ou um sinônimo de morte. Caminhando em busca do seu significado entendo que ele pode emergir de uma série de envolvimentos inerentes a uma pessoa e o seu contexto de vida em determinado momento, podendo manifestar-se não só em um ato suicida, mas em tentativas de suicídio e em comportamentos autodestrutivos.

Em virtude da não abordagem do suicídio em um contexto mais amplo, considerando sua implícita e indissociável associação com idéia de morte, um certo tabu tem sido criado em torno do mesmo, evidenciado pelo descaso e pelo comportamento das pessoas que não pensam séria e concretamente no suicídio, como se preferissem acreditar que este ato "absurdo e fruto de fanatismo de alguns" não ocorre. Assim, tem sido aceito enquanto fantasia, tendo lugar prioritário em romances, peças teatrais, poesias e lendas.

No Brasil, esta lacuna está presente no mundo científico na medida em que são escassos os estudos e pesquisas nesta área. Em um olhar atentivo para a produção acerca do tema na área de enfermagem, optei por realizar um levantamento em um de seus periódicos nacionais mais expressivos -Revista Brasileira de Enfermagem -no período de 1973 a 1993, o que permitiu-me detectar a ausência de publicações acerca do suicídio. Consultei também os catálogos do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn) de 1979 a 1989, por entender que expressam um contingente importante do trabalho acadêmico no que se refere à produção científica dos cursos de Pós-Graduação. Dentre os volumes consultados não havia nenhum trabalho acerca do suicídio.

Compreendo que tal constatação expressa a idéia de que, no período desse levantamento, o tema vem sendo pouco abordado pela comunidade acadêmica, particularmente na área de enfermagem.

Um questionamento que emergiu parale-lamente à minha busca pela compreensão desta temática refere-se a como os profissionais de saúde vêm lidando com esta faceta da morte que se encontra presente na rotina dos atendimentos das urgências em clínicas médica e psiquiátrica e cirúrgica. Será que existe uma abordagem que contemple as facetas que envolvem o suicídio?

CASSORLA 8   denuncia a existência de um certo preconceito em torno da pessoa que tenta o suicídio, expresso pelo desprezo, agressividade e, às vezes, do próprio maltrato dos profissionais da área de saúde ao depararem-se com esta situação de assistência. Uma vez que foram treinados para salvar vidas e atenuar-lhes os sofrimentos, quando deparam-se com situação tal que o paciente deseja ou aparenta desejar a morte, o seu sentimento de onipotência é substituído por uma certa impotência. Assim, ao invés de se estabelecer uma relação desejável e de atenção à pessoa que necessita do atendimento, o que se observa, em geral, é uma relação conflitante e agressiva.

Em estágios nas disciplinas de psiquiatria e enfermagem cirúrgica pude vivenciar algumas situações nas quais foi possível observar posturas inadequadas no atendimento de pessoas que tentaram o suicídio, em urgências psiquiátricas e sala de recuperação. Pude apreender uma sintonia entre o que trata a literatura e as situações por mim experienciadas. Assim, no geral, o setor de urgência em clínica médica atende essas pessoas em um primeiro momento, até o restabelecimento de suas condições vitais. É notável a ansiedade dos profissionais desta clínica no sentido que esses pacientes recebam alta hospitalar tão logo seu quadro orgânico se estabilize, de forma que possam ser "passados" à psiquiatria, pois julgam serem "casos" desta área como se estas pessoas, agora convertidas em "pacientes", estivessem "fora de lugar". O atendimento oferecido na urgência psiquiátrica nestes casos é focalizado no pós-crise. Dessa forma é feita uma consulta e o paciente geralmente é encaminhado para a continuidade do tratamento. Dependendo da avaliação de seu quadro, pode ser indicada hospitalização em uma unidade psiquiátrica, acompanhamento em hospital-dia ou consultórios.

Um dos atendimentos que pude observar provocou-me reflexões. Uma paciente chegou para ser atendida, acompanhada de um familiar. Havia tentado suicídio no dia anterior através da ingestão de uma quantidade considerável de tranquilizantes. Logo a sua presença causou um certo desconforto, expresso pelos comentários de uma auxiliar de enfermagem e de uma aluna do curso de graduação em enfermagem:

"Estes casos são comuns aqui. Ih! tem de monte" (auxiliar de enfermagem)

Nesta fala emerge a questão da incredulidade no ato suicida como fato concreto. É como se ele não fosse levado a sério, com um certo desdém, até mesmo pelo profissional da saúde.

"Como é que pode, né ? " (aluna de enfermagem)

Posteriormente, já vivenciando uma situação de estágio em uma sala de recuperação pós anestésica, presenciei o atendimento a um paciente que havia tentado suicídio por ingestão de soda caústica. Ele foi submetido a uma gastrostomia pois apresentava estenose de esôfago. Chegou à sala de recuperação referindo dor e frequentemente tentava levantar-se do leito e gritava por ajuda.

Aproximou-se uma funcionária que assim referiu-se ao paciente:

"Faz suas besteiras e depois vem dar trabalho pra nós; você trata de ficar quie tinho se não eu vou "te conter". (auxiliar de enfermagem)

Em seguida, outros profissionais, sendo um anestesista e uma enfermeira, juntam-se à auxiliar de enfermagem afim de inteirar-se do caso. Alguns comentários são feitos:

"Será que ele não sabe que soda caústicanão mata? Se eu fosse ele e quisesse morrer tomava logo cianureto que mata na hora" (auxiliar de enfermagem)

"A vida é tão bela !" (enfermeira)

"Infelizmente temos que lidar com estas coisas"(anestesista)

Pude captar nestas falas a não compreensão e o despreparo destes profissionais que freqüen-temente estão em contato com situações como esta. A agressividade, o preconceito, a incompreensão emergem em seus discursos.

Este contexto sugere que o atendimento à essas pessoas não tem merecido uma atenção específica por parte dos profissionais de saúde nos hospitais gerais e nas urgências. Salvo raras exceções, que envolvem alguns pacientes que são seguidos em atendimentos psiquiátricos, o que ainda predomina é o fato deles se re m ro tulados se gundo o chavão "PQU"*, incapazes de conduzir suas vidas ou de conviver "normalmente" em sociedade.

No Brasil existe um serviço organizado e específico ao atendimento às pessoas que buscam ou buscaram a morte voluntária, vislumbrando a sua prevenção: o C.V.V. (Centro de Valorização da Vida), cujo trabalho é voluntário, gratuito, areligioso, apartidário, apolítico e sigiloso. Os atendimentos pode m se r re alizados por tele fone e també m pessoalmente. O voluntário C.V.V. procura, em um clima de disponibilidade, estar-com a pessoa durante os momentos de atendimento, compreendendo-a em seu universo de sentimentos e funcionando como um elemento catalizador das tendências construtivas desta pessoa.

Experenciei o ser voluntário C.V.V. durante um ano e deparei-me com algumas situações que me surpreenderam. Vivenciando este serviço, pude estar-com alguém que ligava para ter uma companhia durante a madrugada que lhe parecia infindável em meio à sua solidão ou compartilhar com alguém a dor da doença incurável e seu sofrimento diante da família inconformada.

 

4 O SUICÍDIO SOB A PERSPECTIVA DO PENSAMENTO HEIDEGGERIANO

Prosseguindo em meu caminhar passei a questionar como o suicídio tem se mostrado mediante os discursos dos autores mencionados neste texto. Diante disso, passei a relacionar a teoria com a prática a partir da minha experiência no mundo hospitalar e no Centro de Valorização da Vida junto às pessoas potencialmente suicidas. Os estudos abordados neste ensaio procuram demonstrar teorias e hipóteses acerca da temática, pretendendo explicar ou tentar explicá-la. Ao tomarem o tema como objeto de pesquisa, os autores objetivam encontrar a causa que leva alguém a cometer ou tentar suicídio. A relação de causalidade vem representar, então, a condição da possibilidade de que aquilo que foi ocasionado venha a aparecer sem, contudo, significar o fenômeno enquanto ele mesmo.

Estas teorizações, embora tenham a sua importância na busca das explicações do fato, tornam obscuras a própria realidade do fenômeno, de sua compreensão, ao limitarem-se à visão parcial daquilo que visam atingir por inteiro.

O fenômeno suicídio é uma situação vivenciada por uma pessoa que, em determinada condição existencial, não vê alternativa para continuar sendo. Esta é uma perspectiva diversa das possíveis condições ou causas que fazem com que o suicídio venha a ocorrer. Este caminho em direção da compreensão do fenômeno através da busca de sua essência pode ser trilhado pela investigação fenomenológica. Tal investigação vislumbra trazer à luz o que se mostra do próprio fenômeno observado, como si mesmo, ao observador.

Sob esta perspectiva, existem vários fenomenólogos que desenvolveram seu próprio referencial teórico acerca da questão do Ser. Neste ensaio, serão apresentadas algumas idéias do pensamento de Martin Heidegger, com as quais estou me familiarizando e que me remetem ao meu interrogar o fenômeno suicídio e para o que tomei como base as obras de STEINER 22   e LUIJPEN 16

De acordo com Heidegger, a essência do Ser manifesta-se em sua existência à medida que o humano "ex-siste" no sentido de que ele pode "pensar o seu Ser", pode aflorar, emergir. O existir pressupõe estar sujeito a, estar entregue a possibilidades factuais que podem ocorrer independente do homem desejá-las ou não; é assim que o aí se mostra ao Ser. A existência, segundo menciona Heidegger, é a capacidade do homem para ficar fora de si mesmo, onde o Ser não é em si mesmo; é em seu aí e, neste momento, pode decidir e agir conforme si mesmo, manifestando suas escolhas. Essas duas condições, de ser e de aí, fundem-se e confundem-se, sugerindo uma síntese do homem com o mundo que é trazido pelo Dasein, como ser no mundo. Como ser-aí o homem de para-se comum horizonte de possibilidades, ou seja, o seu ser inclui um poder-ser.

Assim, todo homem tem um "projeto" de vir-a-ser, portanto, ele se constroi em sua existência e, neste horizonte de possibilidades, a morte emerge como o modo de poder-ser que é próprio do homem, ou seja, é a sua única certeza, a possibilidade de sua impossibilidade. O homem é, portanto, um ser-para-a-morte. Isto o distingue dos demais entes, dado que é ciente de sua finitude. Por outro lado, o ser-para-morte pode deixar de ser uma possibilidade enquanto estrutura fundamental do homem, à medida que o ser-aí escolhe não-mais-ser-aí, entregando o seu ser à morte. O ato suicida priva o ser de ser-para-morte em seu curso natural. Ocorre quando o ser, em sua situacionalidade, vê uma única possibilidade : a de não-poder-ser e, assim, busca como alternativa o não-ser-mais-ser-aí, o que põe fim à angústia diante de uma existência sem sentido, aos seus olhos.

Compreender o ser-suicida de forma que sua situcionalidade seja contemplada constitui-se numa recomendação final deste trabalho. Este caminho poder ser trilhado na perspectiva do pensamento heideggeriano - Daseinanalyse. É sob esse referencial que esboçarei algumas idéias com vistas a vislumbrar as perspectivas que se abrem a partir dessa forma de compreensão do homem.

 

5 DASEINSANALYSE E A SUA PERS-PECTIVA DE COMPREENSÃO DO HOMEM QUE BUSCA, VOLUNTARIAMENTE, A PRÓPRIA MORTE

A análise existencial tem sido descrita por autores que iniciaram seus estudos na tentativa de buscar uma nova compreensão científica para os problemas relativos ao homem. Este movimento, iniciado na Europa, tem como base as idéias de Martin Heidegger acerca do SER 13 . De acordo com BINSWANGER 4 , Heidegger contribuiu para uma nova dimensão de compreensão do homem através da análise da existência. Nesta perspectiva, o homem já não é compreendido em termos de alguma teoria, seja mecanicista, biológica ou psicológica, mas em termos de uma elucidação puramente fenome-nológica ao seu ser-no-mundo.

A Daseinanalyse, termo alemão, que pode ser traduzido para o português como análise da existência ou do ser-aí, constitui, assim, um método que propicia uma aproximação do existir humano na tentativa de compreendê-lo, o que inclui o seu modo de ser, seus projetos, angústias, esperanças. Como ser-aí constrõe-se através de seus movimentos de interiorização, exteriorização e transcendência. Conforme assinala BOSS 7 , a maneira particular do homem ser-no-mundo é comparável com o aflorar de uma luz, em cujo resplendor pode dar-se a presença de tudo o que é, onde todas as coisas podem aparecer e revelar-se em sua própria natureza.

Esta nova perspectiva da compreensão humana, a Daseinanalyse, constitui uma recomendação, neste ensaio, de assistência às pessoas potencialmente suicidas ou que já tentaram a morte voluntária. O não-ser-mais-aí através do suicídio é vislumbrado pelo ser-aí enquanto possibilidade de por fim à uma situação existencial na qual não vê outras possibilidades. O suicídio emerge, então, enquanto uma alternativa de renúncia à vida vazia em seu vir-a-ser. Sob esta ótica, o ser-suicida pode ser apreendido em seu existir como tal. A análise existencial propicia fazer uma articulação entre essas duas condições, ser-suicida e ser-aí, mostrando à pessoa o quão é possível a realização da plenitude de sua existência, o quão amplo é esse horizonte. Pode possibilitar também a idéia de redimensionamento de projetos e de perspectivas futurais, em consonância com a continuidade de sua existência. Este caminho pode ser trilhado por meio do processo do autoconhecimento do ser, em seu sendo e em seu aí. Nesta trajetória em busca da essência de sua existência, o ser pode descobrir potencialidades que estavam veladas e que podem emergir enquanto alternativas para um vir-a-ser.

Desta forma, admitir que a pessoa possa decidir-se pela não continuidade de sua vida, significa compreender essa situação como possibilidades a novas aberturas. Paradoxalmente, pode ser um caminho em direção à dimensão preventiva do suicídio, na medida em que, sob sua ótica e a partir dela, é possível um trabalho compartilhado de reconstrução existencial, de redimensionamento, de um olhar prismático sobre as várias faces de sua existência. Aceitar essa possibilidade pode tornar-se uma via de acesso ao ser que não deseja ser-mais-aí, desvelando com e para esse ser, outras perspectivas desse aí que, nesse momento, lhe estão ocultas.

ALENCASTRE 1 , em seu estudo de doutorado, evidencia aproximações entre a enfermagem psiquiátrica e as idéias da fenomenologia. Lembra que essas áreas do conhecimento têm como fio condutor as relações humanas. A mesma autora, em estudo recente 2, resgata algumas idéias da fenomenologia existencial por entender que esse referencial pode clarear e apoiar a questão das relações humanas na enfermagem.

Vemos, portanto, que a área da enfermagem e, particularmente, a enfermagem psiquiátrica, pode se apropriar desse referencial para compreensão e assistência das pessoas que não vêm sentido na continuidade de suas existências. Para nós, profissionais da saúde, ajudá-los na atribuição de significados à sua existência pode se constituir em um caminho para o cuidar autêntico.

 

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este ensaio possibilitou o des-velamento de algumas facetas relevantes para a compreensão de como tem sido tratado o fenômeno suicídio em diferentes enfoques. Trazer à luz perspectivas de compreensão desta faceta da morte pode se constituir em subsídios para nortear a assistência às pessoas que tentaram o suicídio, no sentido de prevenir reincidências bem como evitar a sua ocorrência em indivíduos potencialmente suicidas e proporcionar um atendimento que contemple a sua situcionalidade e temporalidade.

Neste sentido, a minha trajetória em busca do aclaramento do fenômeno suicídio me mostrou que atualmente este tema tem sido envolto em um certo tabu quando considerada a sua implícita relação com a morte e tem merecido, por parte de diferentes autores, uma abordagem que busca explicações através de suas causas.

A postura dos profissionais da saúde têm evidenciado seu despreparo na assistência às pessoas que tentaram o suicídio, expresso pelo desprezo, agressividade e preconceito com que alguns as tratam. A análise existencial vem propiciar uma perspectiva de compreensão deste fenômeno e este caminho constitui-se em uma recomendação final deste ensaio, onde a Daseinanalyse emerge como alternativa para contemplar a situcionalidade dessas pessoas. As dificuldades dos profissionais de saúde acerca desse tema precisam ser repensadas e trabalhadas em várias instâncias educativas, de forma que a dignidade das pessoas que atentam contra a própria vida possa ser respeitada e preservada.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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* Trabalho premiado no 47º Congresso Brasileiro de Enf. 1995, Goiânia. Prêmio Marina Andrade Rezende-2º lugar
* Paciente Psiquiátrico.

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