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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.35 no.1 São Paulo Mar. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342001000100014 

ARTIGOS ORIGINAIS

 

Estudo exploratório sobre a utilização dos recursos de informática por alunos do curso de graduação em enfermagem

 

Exploratory study about the use of informatic resourses by undergraduate nursing students

 

 

Heloisa Helena Ciqueto PeresI; Yeda Aparecida de Oliveira DuarteII; Sayuri Tanaka MaedaII; Luciana Almeida ColveroII

IProfessores Doutores da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
IIProfessoras Assistentes da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo

 

 


RESUMO

Atualmente a influência da informatização na educação é uma realidade irreversível. Isto obriga-nos a repensar o método de ensino-aprendizagem tradicionais. Frente a isto a Comissão de Informática da EEUSP desenvolveu um estudo exploratório-descritivo dos alunos de graduação em relação ao conhecimento dos recursos de informática e habilidades em seu manuseio. Os resultados revelaram que há uma relação direta entre o tempo de utilização e a habilidade no manuseio do computador. A aquisição de conhecimentos, até o momento, ocorre independentemente da política institucional. Pode-se perceber a importância da informatização no ensino de enfermagem e a necessidade das instituições de ensino adequarem a metodologia educacional às novas tecnologias.

Palavras-chave: Informática. Informática em enfermagem. Tecnologia.


ABSTRACT

Nowdays influence of informatization in education is an irreversible reality. This situation obligate us to reconsider the tradicional teaching - learning method. Face that the Informatic Commission of EEUSP developed ari exploratory - descriptive study of undergraduate nursing students relating to knowledge of informatic resourses and habilities on it. The results revealed that there is a straight relationship between time of use and hability on using computer. The acquirement of knowlendges, until now, occurs independently of institutional policy. It permitted perceive the significance of informatization on teaching nursing and that teaching institutions need to adapt its educational methodology to the new technology.

Keywords: Informatics. Nursing informatics. Tecnology.


 

 

1 INTRODUÇÃO

Estamos convivendo com um processo de grande mudança quantitativa e qualitativa no modo de vida e na cultura da sociedade.

A informação e a tecnologia são forças propulsoras destas modificações representando uma mudança de paradigma (DRUCKER, 1996). Tal tendência fora anteriormente prenunciada por TOFFLER (1980) quando a denominou de "terceira onda" que surgiu subseqüentemente à agricultura e à indústria. Nesta, a velocidade da informação é o cerne da produtividade e inovação no trabalho, o que determina a necessidade premente de repensar os processos de tomada de decisões. Esta revolução tecnológica, em andamento, relaciona-se às tecnologias de manipulação de informação por meio de recursos informatizados, levando a humanidade à denominada "Sociedade da informação" na entrada do terceiro milênio.

Hoje o contexto econômico exige produtividade e inovação no trabalho que são resultados da aplicação do conhecimento e da informação, isto é, o homem deve estar preparado para saber como alocar conhecimento e informação utilizando a informática como síntese na produção (DRUCKER, 1996).

Tais reflexões tornam-se cada vez mais necessárias para a compreensão dos recursos de informática como um meio de acessar, analisar e relacionar informações de forma a facilitar o desenvolvimento das mais diversas atividades, rápida e eficientemente, e não como um fim em si mesma.

Atualmente, é difícil apontar uma profissão que possa prescindir da informática. Assim é fundamental que haja uma familiarização desses recursos tecnológicos nos cursos de graduação, possibiltando que no futuro profissional, possa otimizar ao máximo a utilização dos mesmos no desenvolvimento de seu campo de atuação.

Frente a essas evidências, a Universidade de São Paulo propôs diretrizes relacionadas à informática visando facilitar a pesquisa; apoiar e impulsionar o ensino, dinamizar a administração universitária e proporcionar melhores condições para a prestação de serviços à comunidade (DELYRA, 1997).

A Escola de Enfermagem, neste contexto, criou a Comissão de Informática em setembro de 1986, nessa época, denominada "Comissão Especial". Sua meta principal foi a elaboração do Projeto de Informatização da unidade que propunha em linhas gerais, a criação da Seção de Informática e a implementação de infraestrutura para apoio e desenvolvimento nas áreas administrativas, de ensino, pesquisa e extensão da Escola.

Desde então este projeto vem sendo implementado e avaliado de acordo com a política geral de informática da Universidade que visa atender as especificidades de cada Unidade.

A enfermagem como uma profissão constituída por um corpo específico de conhecimentos e de maior representatividade de trabalho na área da saúde, não pode prescindir do processo de informatização para a melhoria da eficiência e eficácia da produtividade.

A informática na enfermagem enfatiza a busca, armazenamento, manipulação e distribuição de dados de enfermagem (MCGONIGLE; EGGERS, 1991; EVORA, 1998; NAGELKERK et al., 1998), para o suporte da prática, administração, educação e pesquisa nesta área.

Dessa forma o processo educacional de enfermagem deve contemplar a capacitação dos graduandos para atuarem nesse contexto sócio, econômico e cultural tendo em vista uma sociedade do conhecimento, onde quem não o detém não pode sobreviver no mercado de trabalho. Para tanto a informática na enfermagem torna-se uma ferramenta indispensável para o desenvolvimento da profissão.

O ensino de informática na enfermagem, no entanto, não deve restringir-se a cursos que objetivam ensinar aos alunos, somente, utilizarem o computador, mas sim um instrumento em sala de aula, facilitador/ potencializador do processo ensino aprendizagem. Acreditamos que a aproximação dos docentes e discentes por meio desse processo fornecerá a implementação da informática na prática da enfermagem.

Como os conhecimentos relativos à informática não se restringem aos meios acadêmicos, o reconhecimento do potencial existente é fundamental para a estruturação de qualquer proposta de ensino. Assim, neste estudo buscou-se caracterizar o perfil dos alunos de graduação em enfermagem relacionado ao conhecimento e habilidades de informática para fornecer subsídios ao ensino de informática da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP).

 

2 OBJETIVOS

Caracterizar o perfil dos alunos de graduação em relação ao conhecimento de informática;

Identificar as facilidades e dificuldades dos alunos de graduação em relação a utilização da informática;

Obter subsídios para nortear o ensino de informática na EEUSP.

 

3 POPULAÇÃO E MÉTODO

Este estudo exploratório e descritivo, teve como finalidade caracterizar o perfil dos alunos do curso de graduação em enfermagem em relação ao conhecimento de informática, identificando suas facilidades e dificuldades frente à utilização do computador, o tempo de uso, temor versus habilidades na manipulação dos equipamentos e por fim o uso da internet na busca de conhecimentos.

A pesquisa foi realizada na Escola de Enfermagem da USP, no primeiro semestre de 1998 e direcionou-se aos alunos de graduação de todos os semestres sendo a participação dos mesmos espontânea. No período pesquisado contávamos com 325 alunos matriculados tendo-se obtido a colaboração de 174 alunos (53,54%). Estes responderam um questionário (Anexo I) elaborado pelos docentes, membros da Comissão de Informática, constituído de 12 questões, sendo 11 com alternativas fechadas e uma questão dissertativa.

 

4. RESULTADOS E DISCUSSÃO

4.1 Caracterização dos alunos

Do total de alunos que participaram deste levantamento, 9 (5,17%) eram do sexo masculino e  165 (94,83%) do sexo feminino o que reflete o perfil de gênero ainda dominante não só na Escola mas na enfermagem em geral.

Com relação à faixa etária, verifica-se a predominância dos alunos entre 21 e 30 anos conforme pode ser observado no gráfico 1 abaixo:

 

 

Em sua maioria, os alunos estavam no períodoregular de curso da Escola a menos de 5 anos (97,7%).

Ao verificarmos a distribuição dos alunos por semestre podemos observar o que se segue:

 

 

Pode observar-se que não houve homogeneidade na distribuição dos participantes por semestre, no entanto os alunos do 5ºe 6º semestres foram predominantes.

4.2 Caracterização dos participantes do estudo quanto a utilização do computador

Do total de alunos de graduação que participaram do estudo verifica-se que a maioria, ou seja, 149 (85,63%) costumam utilizar os computadores na Escala e apenas 25 (14,36%) não o fazem.

Considerando o número de computadores disponíveis na Escola para os alunos utilizarem, observamos uma certa defasagem, pois na instituição há uma proporção de 1 computador para 18,6 alunos que podem fazer uso por duas horas cada, num período de 8 horas/dia. Assim, teoricamente somente 32 alunos podem acessar os recursos informatizados disponíveis o que se mostra insuficiente numérica e temporalmente. Essas normas de utilização dos equipamentos são estabelecidas pelo Centro de Computação Eletrônica da Universidade para todas as unidades.

Dos que referiram utilizar os computadores na Escola (149), 37 (24,83%) o fazem a menos de um ano, 104 (69,79%) o utilizam de 1 a 3 anos e apenas 4 (2,68%) não responderam. Destes, 85 (57,04%) referiram possuir computador em casa e 64 (42,96%) não o possuem o que demonstra que, apesar de muitos já possuírem equipamentos particulares é ainda expressivo o número de alunos que necessitam utilizar os recursos disponíveis na Escola.

Quando indagados sobre a utilização dos computadores fora das dependências da Escolaverificamos que do total de respondentes, 130 (74,71%) costumam fazê-lo, 42 (42,13%) não o fazem e 2 (1,14%) não responderam. Destes 95 (54,59%) possuem equipamento próprio. Quando comparados com os anteriores observamos que 10 alunos provavelmente só utilizam os próprios computadores talvez devido a indisponibilidade de acesso aos mesmos na EEUSP.

Quando indagados quanto ao tempo de uso de computadores observa-se que a maioria, 113 (64,94%) o fazem entre 1 e três anos o que pode estar associado ao tempo que freqüenta a Escola.

4.3 Habilidade na utilização dos recursos de informática

 

 

Observa-se que a maioria absoluta dos alunos que utilizam o computador de 1 a 3 anos sabem ligá-lo. Assim, o fator tempo de uso é determinate para adquirir tal habilidade.

Quando indagados sobre o temor na manipulação dos equipamentos verificamos o seguinte:

 

 

Verificamos que no grupo de alunos que fazem uso do computador de 1 a 3 anos a maioria, 94 (83,18%) alunos, não refere temor. Este resultado sugere que quanto maior o tempo de utilização dos equipamentos menos receio os usuários apresentam, provavelmente devido à familiaridade com o mesmo. Contudo, o medo de manipular os equipamentos de informática apresentou-se numericamente igual entre os que manipulam os equipamentos a menos de 1 ano e os que o fazem de 1 a 3 anos.

4.4 Obtenção de conhecimentos de informática

Do total de alunos participantes a expressiva maioria, 173 (99,42%) refere ter obtido seus conhecimentos de informática fora da Escola, dentre estes, 61 (35,03%) referiram ainda ser autodidatas e 172 (98,85%) admitiram recorrer a ajuda de outros para seu aprendizado. Tais resultados demonstram que a participação da Escola na aquisição de conhecimentos e habilidades de informática ainda não é preponderante. Considerando que esta capacitação é cada vez mais solicitada pelo mercado de trabalho, urge um repensar a inserção da informática no ensino de enfermagem.

4.5 Habilidades na manipulação de programas

 

 

Observa-se que os programas mais utilizados pelos alunos referem-se aos editores de texto e de apresentação, o que sugere ser compatível com o que lhes é mais solicitado na Escola. Os programas de construção e análise de bancos de dados são pouco utilizados e quando o são, a presença de dificuldades em seu manuseio é referida.

4.6 UTILIZAÇÃO DA INTERNET

Do total de alunos que responderam ao questionário, 103 (59,19%) referiram saber navegar na internet, 65 (37,35%) referiram não saber e 4 (2,29),não responderam. Destes a maioria, 101 (58,04%) utilizam o e-mail, e (56,43%) o fazem com facilidade. A Escola é responsável pela maior parte do acesso à rede, pois 108 (62,06%) alunos referiram utilizar os equipamentos da instituição para esta finalidade e apenas 14 (8,04%) referiram fazê-lo do domicílio; no entanto 52 (29,88%) não responderam a questão.

É importante ressaltar que a política da instituição é oferecer a todos os alunos de graduação o acesso a rede internet. Este fato possibilita um diferencial na formação e capacitação dos graduandos para o mercado de trabalho, o que vem ao encontro das exigências do novo perfil profissional da sociedade da informação e do conhecimento.

Nesta perspectiva um dos indicadores encontrados neste estudo é a utilização da rede para pesquisas bibliográficas, que dos 122 alunos que acessam a rede, 71(58,19%) fazem este tipo de busca e 38 (31,14%) utilizam a rede para outras finalidades que não esta.

Este estudo pemitiu-nos verificar a predominância de gênero na profissão (sexo feminino) e a presença de adultos jovens na graduação (21-30 anos). Destes, a maioria utiliza habitualmente o computador, sem temor, em suas atividadesde graduação (intra e extra unidade de ensino) sendo esta otimizada a partir de sua entrada na Universidade. Depreende-se que a maioria dos alunos obtiveram seusconhecimentos fora da instituição de ensinodestacando-se o auto desenvolvimento por iniciativa própria ou com auxílio de terceiros. Os graduandos utilizam, predominantemente, os programas editores de texto e os de apresentação além dos recursos da internet como e-mail e www.

A rede internet é utilizada pela maioria dos alunos para a realização de buscas bibliográficas, caracterizando novas formas de acesso as informações, por essa geração de estudantes.

Nessa perspectiva vislumbra-se desafios voltados a capacitação dos graduandos para a utilização de novas tecnologias no processo de trabalho assistir, gerenciar, educar e pesquisar do enfermeiro e a incorporação da informática como uma ferramenta que cria novas dimensões na prática profissional, delineando limites e possibilidades.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante destacar que a inclusão da informática no ensino poderá possibilitar a individualização do ensino e o repensar a natureza da aprendizagem, por dissolver a distinção entre educação formal e informal, devido a democratização da informação, abrindo novas oportunidades para todos que querem e podem ensinar e aprender. Assim, os recursos da informática abrem novas perspectivas na educação.

A nossa experiência permite avaliar o ensino de enfermagem ainda pautado num modelo educacional convencional e/ou tradicional em que o mesmo permanece estático e resistente às mudanças. A tendência para o futuro ao nosso ver, nos mostra um modelo educacional voltado mais para o aprendizado que propriamente ao ensino, onde o conhecimento é considerado como uma ação e comunicação construída socialmente (BATES, 1993, EVORA, 1998).

Diante do exposto, a proposta de um levantamento do perfil de discentes é importante por possibilitar uma caracterização das habilidades e conhecimentos sobre informática, objetivando a capacitação do pessoal e adequação dos recursos em uma instituição de ensino.

 

6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BATES, AW. Educational aspects of telecomunications revolution in teleteaching North Holland. IFIP. 1993.         [ Links ]

DELYRA, JL. A uníversidade e a revolução informática. Rev USP, n.35, p.77-85, 1997.         [ Links ]

DRUCKER, PF. Sociedade pós-capitalista. São Paulo, Pioneira. 1996.         [ Links ]

ÉVORA, YDM. O paradigma da informática em enfermagem. Ribeirão Preto, 1998. 140p. Tese (Livre Docência) - Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Universidade de São Paulo.         [ Links ]

MCGONIGLE, D.; EGGERS, R. Establishing a nursing informatics program. Comput Nurs, v.9, n. 5, p. 184-88, 1991.         [ Links ]

NAGELKERK, J.; BITOLA, PM.; VANDORT, PJ. Nursing informatics: the trend of the future. J Contin Educ Nurs, v.29, n. 1, p. 17-21, 1998.         [ Links ]

TOFFLER, A. A terceira onda. Rio de Janeiro, Record. 1980.         [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 15/12/99
Artigo aprovado em 11/09/01

 

 

 


Anexo 1 - Clique para ampliar

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