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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.35 no.4 São Paulo Dec. 2001

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342001000400013 

Vivenciando a inexorabilidade do tempo e as suas mudanças com perdas e possibilidades: a mulher na fase do climatério*

 

Living the inexorability of time and its changes with losses and possibilities: the woman in climacterium

 

Vivenciando la inexorabilidad del tiempo y sus cambios con pérdidas y posibilidades: la mujer en la fase del climaterio

 

 

Josefa Vieira de LimaI; Margareth AngeloII

IEnfermeira, Professora Adjunto Doutor do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual do Ceará-UECE
IIEnfermeira, Professor Doutor do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Psiquiatria da Escola de Enfermagem da Universidade .de São Paulo-USP

 

 


RESUMO

Este estudo versa sobre a experiência da mulher na fase do climatério. O Interacionismo Simbólico e a Teoria Fundamentada nos Dados foram as abordagens teóricas e metodológicas que nortearam o estudo tendo em vista os seguintes objetivos: compreender como a experiência do climatério é definida pela mulher; quais os processos psicossociais de interação vividos pela mulher e desenvolver um modelo teórico representativo da vivência da mulher na fase do climatério. As estratégias utilizadas para a obtenção dos dados foram a observação e a entrevista. Tomamos como sujeito da investigação a mulher na faixa etária de 45 a 60 anos, perfazendo um total de 30 mulheres. Através deste estudo foi possível descobrir que a experiência do climatério pode ser constituída por dois fenômenos: REJEITANDO AS MUDANÇAS, no qual o climatério é caracterizado pela mulher como um momento de perda e BUSCANDO SUPERAR AS MUDANÇAS, que representa um momento na construção de novos conceitos, com possibilidades de renovação. A partir desses fenômenos identificamos a categoria central: VIVENCIANDO A INEXORABILIDADE DO TEMPO E SUAS MUDANÇAS COM PERDAS E POSSIBILIDADES, que é fundamental para o modelo teórico representativo da experiência da mulher na fase do climatério.

Palavras-chave: Climatério. Saúde da mulher. Menopausa.


ABSTRACT

This research deals with the experience of women in climacterium. Symbolic interactionism and Grounded Theory were the theoretical and methodological framework of the study. Its objectives were to understand: how the experience of the climacterium is defined by the women; what were the psychosocial processes of interaction lived by the women; and to develop a theoretical model representing the experience of the women in climacterium. The strategies used to collect the data were participant observation and open ended interviews. The subjects were women in the age group of 45 to 60. The sample was of 30 women. The study revealed that the climacterium experience may be constituted of two phenomena: REJECTING CHANGES which is characterized by the women as a moment of loss and TRYING TO COPE WITH CHANGES, which represents the moment construction of new concepts with possibilities of reconstruction of life. Supported by these two phenomena, the central cathegory was generated: LIVING THE INEXORABILITY OF TIME AND ITS CHANGES WITH LOSSES AND POSSIBILITIES which is fundamental to the generation of the theoretical model representing the experience of women in climacterium.

Keywords: Climacteric. Women's health. Menopause.


RESUMEN

Este estudio trata de la experiencia de la mujer en el período del climaterio. El Interaccionismo Simbólico y la Teoria Fundamentada en los Datos fueron los abordajes teórico y metodológico que nortearon el estudio teniendo en cuenta el alcance de los siguientes objetivos: comprender como la experiencia del climaterio es definida por la mujer; cuales son los procesos psicosociales de interacción vividos por la mujer y desenvolver un modelo teórico representativo dela vivencia de la mujer en la fase del climaterio. Las estrategias utilizadas para la obtención de los datos fueron la observación y la entrevista. Tomé como sujetos de la investigación la mujer en la faja etaria de 45 a 60 anos, completando un total de 30 mujeres. A través de este estudio fue posible descubrir que la experiencia del climaterio puede ser constituida por dos fenómenos: RECHAZANDO LOS CÂMBIOS, en el cual el climaterio es caracterizado por la mujer como un momento de pérdida e INTENTANDO SUPERAR LOS CÂMBIOS, que representa un momento en la construcción de nuevos conceptos, con posibilidades de renovación. A partir de esos fenómenos identifiqué la categoria central: VIVENCIANDO LA INEXORABILIDAD DEL TIEMPO Y SUS CÂMBIOS CON PERDIDAS Y POSIBILIDADES que es fundamental para el modelo teórico representativo de la experiencia de la mujer en la fase del climaterio.

Palabras-clave: Climatério. Salud de las mujeres. Menopausia.


 

 

Em 1968, a Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) definiu climatério como o período de vida da mulher que vai do fim da fase reprodutiva (FFR), considerando seu início aos 45 anos, até o início da senectude (IS) aos 60 anos. Neste contexto, situa a menopausa entre os 50-51 anos(1).

Climatério é um fenômeno biopsicossocial que representa a fase de transição entre o menacme e a senectude e abrange os seguintes processos: transição do estádio reprodutor ao estádio não reprodutor, diminuição da função estrogênica ovariana, abolição do ovário como fonte de hormônio esteróidicos, envelhecimento biológico, adaptação psicossocial (2).

O período do climatério está associado a sintomas resultantes tanto da deficiência hormonal, como de fatores socioculturais e psicológicos. Consideram o climatério uma transição da fase reprodutora para a fase não reprodutora, no processo de envelhecimento da mulher, marcado pela menopausa, que indica o final do período menstrual (3).

Outro ponto evidenciado entre os estudiosos do assunto, diz respeito aos limites etários para definição deste período da vida da mulher que variam entre os diferentes autores. O início do climatério assim como seu fim são variáveis por serem extremamente diversas as características individuais, as influências raciais, hereditárias, constitucionais, e sócio-econômicas da mulher (4).

O climatério pode ser dividido em três décadas: a primeira corresponde ao período de 35 a 45 anos, cujos sintomas se relacionam a problemas associados com a esteroidogênese anormal, período este representado por hemorragia uterina disfuncional e síndrome de tensão pré-menstrual; a segunda, denominada perimenopausa, corresponde à faixa etária dos 46 aos 55 anos, na qual ocorrem os clássicos sintomas de menopausa: alterações no ciclo menstrual e ondas de calor; a terceira década tem intervalo etário dos 56 aos 65 anos e nessa fase prevalecem os sintomas da osteoporose e das doenças cardiovasculares estrogênicas (5)

Quando se discute a faixa etária do climatério, afirma-se que esta deve ser interpretada em termos de evolução, como qualquer outro fenômeno da Biologia Humana ou Animal. Para ele não parece racional que todos os processos evolutivos do gênero humano, em termos de evolução, estejam se modificando e que somente a idade da menopausa não faça parte desse processo(1).

Outro aspecto que merece ser destacado é aquele relacionado à sintomatologia do climatério, aspecto muito discutido pelos estudiosos da área de Ginecologia, muito embora se considere que nem toda mulher apresenta sintomas nesse período.

Os sintomas que emergem no climatério são:

"fogachos, náuseas, angústias, depressão ou irritação, falta de memória, insônia, dispnéia, dor precordial, palpitações, digestão difícil, cefaleia e enxaqueca, sudo-rese, prurido, dores articulares, cansaço, formigamento, vertigens, lombalgia, o desejo sexual se apaga ou se exacerba. Podem ocorrer também fluxos menstruais escassos ou abundantes, ciclos curtos e longos, sangramentos intermenstrual" (6).

Alguns autores também identificam o climatério com mudanças fisiológicas, afirmam que elas podem se apresentar tanto como manifestações sutis ou como mudanças acentuadas, dependendo da maneira como a mulher encara o período, interferindo ou não nas suas funções (7).

Resumindo, no que diz respeito à sintoma-tologia, o que observamos é que a maioria dos autores é unânime em valorizar a existência de sinais e sintomas próprios do período pelo prisma fisiológico.

Com outra abordagem, porém, considera-se que as modificações psicológicas variam consideravelmente e dependem, em grande parte, da formação da mulher e de sua concepção prévia sobre o climatério e seu significado. Essa concepção, por sua vez, parece ser influenciada pelo fato de a mulher ser solteira ou casada, ter ou não ter filhos e netos ou estar rodeada por uma família estável. Segundo o autor, para a mulher que aceita as modificações dessa fase, as alterações psicológicas são poucas e insignificantes, não passando de um período de ligeira instabilidade emocional. Para ele, a razão fundamental para o distúrbio psicológico, verificado no climatério, deve-se à menopausa, que representa, para a mulher, o fim de sua vida reprodutiva. Isso tem um significado importante para todas as mulheres, mesmo para as que tiveram tantos filhos quanto quiseram. Para ele, inevitavelmente, a menopausa parece ter um impacto maior sobre as mulheres estéreis e solteiras, que viveram, anteriormente, na esperança de uma gravidez (8).

Autores corroboram essa visão ao afirmarem que, para a mulher o papel de mãe é definidor de todos os outros, uma vez que ela é vista potencialmente como mãe, identidade sustentada socialmente. Por isso, é compreensível que, com o seu declínio reprodutivo, e a consciência de estar perdendo o seu papel principal na sociedade, a mulher passe a demonstrar alterações psicológicas(9)

Para que a mulher consiga encarar com equilíbrio essa fase, sugere que a realização de um "exercício psicológico" de preparação para esse momento. Nesse sentido, a época ideal para aprender sobre a fase do climatério não é quando se está passando por ela, e sim quando a mulher ainda tem vinte ou trinta anos e pode prevenir positivamente o que é inevitável. Entretanto, como salienta a autora, é quase impossível esse tipo de "prevenção", .uma vez que aos vinte anos a mulher está preocupada com a juventude, enfim, com outros objetivos, além do apego ao que é jovem e saudável (10).

O que podemos concluir é que a maioria dos autores refere sempre as manifestações psicológicas como um aspecto bastante vulnerável, comumente associado ao envelhecimento do corpo a perda da função reprodutiva e por conseqüência a uma menor qualidade da atividade sexual.

Destaca o cerne da questão sexual quando denuncia a discriminação que há entre o sexo e a idade madura. Em nossa cultura, admite-se que as pessoas mais velhas não têm desejo e não podem ter vida sexual, haja vista que sua sexualidade tem como finalidade principal a reprodução e essa capacidade se extingue nessa fase da vida. O que se espera é que a mulher cuide dos netos, sobrinhos, afilhados, enfim, que se mantenha em seu lugar, isto é, o lugar que a sociedade predeterminou para ela (11)

Adentrando na literatura produzida por pesquisadores da área de enfermagem, identificamos que as mudanças ocorridas durante o climatério têm importância marcante no comportamento, tanto do homem como da mulher, nesta fase de sua vida. Por conseqüência interferem no ritmo normal de suas vidas pessoal, social e principalmente conjugal. Neste sentido, afirma que é de suma importância, a orientação dos casais de meia-idade, com a finalidade de ajudá-los a superar os problemas característicos desta fase, principalmente pelos enfermeiros que se ocupam da saúde a nível individual, familiar e comunitário(12).

Diante da diversidade de significados atribuídos pela literatura consultada e o nosso interesse em efetuar uma investigação que revelasse o significado do climatério, principalmente por um prisma até então pouco valorizado, no entanto fundamental para se

compreender o período: a perspectiva da mulher que o vivência. Para tanto, traçamos os seguintes objetivos:

1. Compreender:

  • como a experiência do climatério é definida pela mulher;
  • os processos psicossociais de interação vividos pela mulher e

2. Desenvolver:

  • um modelo teórico representativo da vivência da mulher na fase do climatério.

 

BUSCANDO UM REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO

Para servir de suporte teórico-metodológico a essa pesquisa, optamos pelo Interacionismo Simbólico e a Teoria Fundamentada nos Dados, que permitiram apreender e desenvolver conceitos explicativos da experiência vivenciada pela mulher na fase do climatério.

O Interacionismo Simbólico é uma teoria sobre o comportamento humano(13), tem como finalidade o significado dos eventos para as pessoas, no ambiente natural, razão da relevância dada aos significados sociais que as pessoas atribuem ao mundo em torno delas. Sobre esses aspectos(14), o Interacionismo Simbólico apoia-se em três premissas básicas:

  • Na primeira, os indivíduos agem em direção às situações, incluindo outros indivíduos. O significado dessas situações influencia a formação do comportamento, o que os leva a entender a ação humana;
  • Na segunda, o significado das situações surge durante a interação que os indivíduos têm uns com os outros; estes aprendem a ver o mundo, a partir da perspectiva dos outros, pois o significado não é inerente à situação, nem é uma união de elementos psicológicos que o indivíduo tem em relação a elas;
  • Na terceira, os significados são manipulados e modificados através do processo interpretativo atribuído pelo indivíduo ao vivenciar a situação.

A Teoria Fundamentada nos Dados é um método de análise que consiste na descoberta e desenvolvi-mento de teorias a partir de informações obtidas e analisadas sistemática e comparativamente, o que possibilita um constante "ir e vir" da coleta para a análise e da análise para a coleta de dados(13).

A Teoria Fundamentada nos Dados é uma abordagem de pesquisa qualitativa(15). Suas técnicas sistemáticas e procedimentos de análise capacitam o pesquisador a desenvolver uma teoria substantiva com precisão, rigor e comprovação.

A opção por essa abordagem metodológica fundamenta-se na necessidade de direcionar a análise e a coleta dos dados estabelece como primeiro passo da análise a transcrição das entrevistas, momento em que tem início as primeiras observações do pesquisador. As outras etapas consistem de codificações, categorização, construção e densificação de conceitos e finalmente a modificação e integração desses conceitos (16).

Por fim, a amostragem se completa quando ocorre a saturação das categorias. Esta é obtida no momento em que não há mais possibilidade de surgimento de nenhum dado relevante relacionado com o desenvolvimento das propriedades da categoria, ou seja, quando se completa sua densificação(17).

 

O DESENHO METODOLÓGICO

Participaram da pesquisa trinta mulheres, das quais vinte e cinco freqüentavam o ambulatório de ginecologia de um hospital de referência, na cidade de São Paulo, e cinco mulheres não vinculadas a qualquer serviço. Essa instituição foi escolhida por ter um serviço de atenção à mulher no climatério, com uma demanda aproximadamente de 90 mulheres por dia, provenientes das mais diferentes regiões do país.

Na coleta de dados foram constituídos quatro grupos amostrais. O primeiro grupo foi composto por 15 mulheres na faixa etária de 45 a 60 anos, teve como objetivo descobrir as categorias iniciais de análise. O segundo grupo amostral foi constituído por seis mulheres, que trabalhavam fora do lar, tendo em vista ampliar as categorias identificadas. Já o terceiro grupo amostral foi formado por quatro mulheres, que não tinham filhos, visando a densificação de novas categorias de relevância teórica para o estudo. O quarto e último grupo amostral foi constituído por 5 mulheres, que não pertenciam ao grupo da Instituição pesquisada, cujo objetivo foi o de refinar as categorias construídas e compreender a totalidade da experiência da mulher na fase do climatério.

Os dados foram coletados através da observação e de entrevistas, que foram gravadas e transcritas em seguida pela própria pesquisadora.

A aproximação com a mulher permitiu a compreensão da experiência de vida dela e direcionou a escolha de grupos amostrais que ajudaram a desenvolver o fenômeno. Com o olhar atento a cada observação, procurei refletir sobre os significados que a fala da mulher expressava, procurando reconstruir o processo como um todo, tendo em vista evidências para elucidar os objetivos propostos. Por meio da leitura detalhada dos dados, procuramos construir questões que revelassem a subjetividade da mulher, as suas expectativas, as suas vivências e as possíveis dificuldades encontradas na fase do climatério.

Além da gravação das entrevistas, à proporção que a mulher ia falando, anotamos comportamentos como o silêncio, o choro, e as expressões faciais. Ao responder às questões, era inevitável que a mulher resgatasse sua história de vida. O número de entrevistas não foi preestabelecido e, logo no primeiro contato, foi comunicado às mulheres que, se necessário, novas entrevistas seriam realizadas.

 

INTERPRETANDO E SIGNIFICANDO AS EXPERIÊNCIAS

A análise comparativa e constante dos dados possibilitou identificar, segundo os passos da Teoria Fundamentada nos Dados, o significado atribuído pela mulher à experiência vivida no climatério. A proporção que a mulher passa a vivenciar o climatério, vai construindo uma definição simbólica para esse período, que neste estudo compõe-se de dois fenômenos, representativos das duas dimensões de viver essa experiência. Os fenômenos desenvolvidos REJEITANDO AS MUDANÇAS e BUSCANDO SUPERAR AS MUDANÇAS.

Fenômeno 1: Rejeitando as mudanças

Representa a primeira reação da mulher frente as mudanças e em primeira instância, aponta para o processo biológico inevitável, que provoca alterações no corpo, na sexualidade e no comportamento. É um processo biológico agravado pela repercussão social, que culmina com a aposentadoria, o crescimento dos filhos e, principalmente, com o envelhecimento. Nesse sentido, a fase do climatério é percebida, pela mulher como momento de perda marcado pelo sofrimento emocional e pelo espanto do envelhecimento, fatos que a levam a rejeitar aquilo que ela chama de tempo de mudança.

Percebendo mudanças em sua vida

Esta categoria é a condição causal da experiência e resulta de como a mulher se percebe e vê a sua vida até então. Para a mulher que rejeita as mudanças, estas são focalizadas com aspectos de perdas: perda da menstruação, da beleza, da cor do cabelo, da saúde, do prazer sexual, da vontade de sair, atributos estes importantes para ela.

É possível perceber que as mudanças provocam na mulher a sensação de estar percebendo-se diferente, tornando difícil lidar com essa nova situação, principalmente pelo fato dela se reconhecer não sendo como era antes, percebendo o corpo  diferente, e perdendo o interesse pelo sexo.

Esses componentes fazem parte da experiência da mulher que percebendo-se diferente da pessoa que era antes, não admite as mudanças que estão ocorrendo na sua vida, pelo fato de alterá-la física, emocional e pessoalmente. Dessa forma, a mulher passa a valorizar sua condição de vida anterior, negando-se a aceitar o que acontece no presente. Além disso, ela sente dificuldade em adequar sua vida a certos limites que são estabelecidos, independente de sua vontade.

"...agora não tenho mais menstruação. Eu também tenho muita calor e dor de cabeça, minha vida mudou bastante... Eu tenho esquecimento demais... A cabeça parece que ficou meio oca.. Eu percebo que estou envelhecendo...os cabelos estão ficando brancos...A vista meio embaralhada... está ocorrendo uma mudança..."

A mulher passa a identificar as mudanças através de uma comparação com o passado onde tudo era melhor, por isso o presente é percebido como o tempo desconfortável, desagradável e confuso. Embora as mudanças não cheguem a interromper a rotina da mulher, são suficientes para que ela perceba a fase do climatério como um período freqüentemente associado ao sentimento de perda, o que normalmente parece desencorajá-la, e a leva a perder o entusiasmo pela vida. A mulher que se percebe não sendo como era antes resgata somente as boas lembranças do passado, o que evidencia haver a necessidade de um referencial para situar o processo que está vivenciando, revelando nessa atitude de interação com a fase do climatério a negação do tempo de agora. É como se a mulher quisesse guardar o tempo, sem a possibilidade de viver o novo.

"...Agora estou mudando...Estou sofrendo uma transformação... Minha vida mudou, mudou muito. Eu não era assim...eu queria ser o que eu era antes..."

Vendo-se sem perspectiva, a mulher passa a conviver com as restrições do mercado de trabalho, o que gera medo, principalmente quando o trabalho significa a sobrevivência para ela e para a sua família. Principalmente quando ela começa a vivenciar o preconceito do mercado de trabalho em relação à idade, a fase do climatério passa a ser associada à perda de possibilidade do trabalho.

"Eu diria que sem perspectiva de futuro..., um pouco deprimida por situação econômica... Perdi o emprego, sou uma desempregada... É uma luta muito grande por emprego...e eu não vejo perspectiva para frente."

A categoria SENTINDO-SE INSATISFEITA revela que diante das mudanças, a mulher manifesta profunda insatisfação, responsabilizando o climatério por todas as dificuldades ocorridos nessa fase de sua vida. O grau de insatisfação depende das interações exercidas pela mulher durante a sua vida.

"Eu queria ser aquela mulher de antes... Eu queria que aparecesse um jeito de eu ficar uma pessoa que nem eu era antes...A vida antes era diferente..."

A categoria PERDENDO O ENCANTO PELA VIDA significa a total falta de motivação e de capacidade real de enfrentamento da mulher, além da pouca confiança em si mesma. Esta relação gera conflitos, provocando a emergência de emoções intensas, tais como a idéia de suicídio, tristeza, desânimo e a perda de vontade de lutar pela vida. Na fase do climatério, a mulher perde o gosto pela vida e começa a sentir-se como que niilista, identificando o período com a finitude.

"Eu não tenho mais prazer com minha vida... Eu acho que já acabei, eu acho que não sou mais nada, eu vivo por viver..."

Fenômeno 2: Buscando superar as mudanças

Outra forma de a mulher experienciar o climatério é aquela que vê possibilidades no processo de mudanças. Ela olha para dentro de si e faz uma reavaliação de seu passado e de sua capacidade de luta quando passa a acreditar em seus potenciais, BUSCANDO SUPERAR, AS MUDANÇAS. É um movimento que significa a construção de novos conceitos, com possibilidades positivas de renovação, que se faz no sentido de encontrar em sua internalidade modos de enfrentamento para a situação que está vivenciando.

Com esta visão positiva das mudanças a mulher dá à sua vida possibilidade de renovação, pois embora não deixem de ser aludidas, as mudanças do presente são percebidas com menor intensidade e sem caráter negativo, sendo esse restrito aos acontecimentos do passado.

INVESTINDO EM SI MESMA refere-se à possibilidade que a mulher tem de conquistar uma nova forma de vida. Ela vai se dando conta que é capaz de enfrentar as mudanças como novos desafios. Nesta perspectiva, ela adota medidas que lhe possibilitem uma melhor qualidade de vida, procurando assim explorar mais amplamente seus potenciais.

A mulher tenta descobrir possibilidades que a conduzam a uma situação de vida mais tranqüila, mais confortável, de modo a preparar um futuro melhor para si, buscando qualidade de vida. Ela busca sossego, saúde, encontrar uma "felicidade" que talvez nunca tenha tido oportunidade nem de procurar, e quem sabe, nem de reconhecê-la, ou mesmo merecê-la.

"...Eu quero um lugar para eu descansar, sair daqui de São Paulo. Quero sair com meu marido e ir para um canto, sossegar. Estou lutando por isso..."

Dessa forma, procura usufruir intensamente o momento que está vivenciando e experimenta a urgência de realizar seus desejos. E como se a mulher se agarrasse a todas as possibilidades da vida, tentando recuperar o tempo perdido. Utilizando suas próprias palavras, significa dizer que "nunca é tarde para viver". Ela vislumbra maneiras novas e mais significativas de viver, isto é, enxerga possibilidades até então despercebidas e utiliza melhor o tempo e os recursos disponíveis de agora para frente.

"Eu quero reativar minha memória, vou ler, vou me cuidar. Tem uma idade que você tem que desfrutar do trabalho..."

SENTINDO-SE SATISFEITA constitui uma conseqüência característica do sentimento da mulher, no fenômeno BUSCANDO SUPERAR AS MUDANÇAS. E a forma como a mulher percebe-se diante dela mesma, diante da vida e diante do seu mundo social. O que significa estar em harmonia consigo, mesmo quando vivencia a experiência do climatério. Desta maneira, ao perceber-se SENTINDO-SE SATISFEITA caminha em direção às suas metas, olha para dentro de si e vê a possibilidade de prosseguir na busca de outro tipo de vida.

A mulher considera-se vitoriosa apesar das dificuldades, e um dos motivos prioritários deve-se ao fato de ter conseguido criar e educar os filhos. Ela revela um certo orgulho de ter saído vencedora na história que construiu, por isso ela toma decisão, inova a vida e procura viver o tempo presente como um despertar de possibilidades, considerando-se vitoriosa.

 

DESCOBRINDO A CATEGORIA CENTRAL A PARTIR DA INTERAÇÃO DOS FENÔMENOS

Para a mulher inserida no fenômeno REJEITANDO AS MUDANÇAS, estas significam, sobretudo um percebendo-se diferente. Diferente de que? Diferente do que era antes. Ela acredita que o passado era melhor do que o momento presente, o que suscita a sensação de fragilidade e de desconforto, assim como evidencia o apego ao passado idealizando-o enquanto uma fase de sua vida gratificante e plena de realizações.

Diante das mudanças, a mulher estabelece estratégias de enfrentamento da situação, visando fortalecer-se para uma melhor convivência com a nova realidade, entendendo que para vivenciá-la precisa de uma força interior, o que é representada pela Categoria; TENTANDO NÃO SE ENTREGAR.

A insatisfação é gerada pela falta de conhecimento sobre o processo que está vivenciando, o que perpassa pela tristeza, medo, angústia, isolamento do mundo social e pelo sofrimento levando-a a PERDER O ENOANTO PELA VIDA, não encontrando dentro de si a força necessária para viver a situação.

Outra forma que a mulher tem para vivenciar a fase do climatério é revelada pelo fenômeno BUSCANDO SUPERAR AS MUDANÇAS. Neste momento a mulher olha para dentro de si, reflete e re-orienta suas ações o que a conduz a um repensar, quando consegue vislumbrar uma luz, possibilitando um olhar positivo sobre a vida.

Assim, à medida que a mulher vai passando pelo processo, vai definindo e redefinindo a sua linha de enfrentamento e a primeira delas é TOMANDO DECISÃO, que inclui desde a aposentadoria, para poder dispor melhor do seu tempo, até a decisão de se cuidar mais. Dessa forma, INVESTINDO EM SE MESMA representa essa guinada que a mulher dá em sua vida, valorizando o presente.

Nos dois fenômenos, o que se observa é o poder implacável do tempo; percebido pela mulher do fenômeno REJEITANDO AS MUDANÇAS os sinais do climatério traduzem a velhice iminente, por isso ela o rejeita; para a mulher do fenômeno BUSCANDO SUPERAR AS MUDANÇAS, esse aspecto denota a urgência de uma vida melhor, porque sente que o seu tempo está acabando. É por isso, que a categoria central que emerge desses significados e melhor explicita esses fenômenos é: VIVENCIANDO A INEXORABILIDADE DO TEMPO E SUAS MUDANÇAS COM PERDAS E POSSIBILIDADES.

 

PALAVRAS FINAIS

VIVENCIANDO A INEXORABILIDADE DO TEMPO E SUAS MUDANÇAS COM PERDAS E POSSIBILIDADES ocorre como parte do processo do ciclo vital da mulher, ao mesmo tempo inserido em um contexto e influenciado por este. E é esse contexto que faz com que a experiência seja única, o que não significa dizer que não haja similaridade na experiência.

Compreender a mulher na fase do climatério, através do Interacionismo Simbólico, é apreender sua internalidade atribuindo significados sob a sua perspectiva, assim como a possibilidade de criar situações interacionais que tornem propicio à mulher agir, refletir, redefinir e redirecionar sua própria experiência.

É relevante assinalar, que só é possível compreender a experiência da mulher na fase do climatério quando se reconhece que cada uma experiência esta fase de forma única, visto que a vivência deste momento incorpora significados diferentes para cada mulher, não podendo ser reduzida a explicações fechadas em modelos universais por se tratar de um acontecimento muito individual, para permitir generalizações.

O conhecimento da vivência experienciada pela mulher, na fase do climatério, favorece o estabelecimento de uma política mais adequada de atenção a lhe ser prestada, assim como também serve de guia para um contínuo levantamento de dados, além de uma avaliação das suas necessidades nesta fase do seu ciclo vital. O ideal é que esse conhecimento se traduza em resultados que privilegiem uma assistência mais global e individualizada, embasada em suporte humanístico e teórico adequado a esta fase do desenvolvimento que a mulher atravessa.

Independentemente de sua postura frente às mudanças do climatério, a mulher inexoravelmente coloca-se frente ao envelhecimento. É por isso que o passado se torna a peça fundamental para compreender sua experiência definida no VIVENCIANDO A INEXORABILIDADE DO TEMPO E SUAS MUDANÇAS COM PERDAS E POSSIBILIDADES.

 

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Artigo recebido em 19/09/00
Artigo aprovado em 06/06/02

 

 

*Trabalho baseado na Tese de Doutorado: Vivenciando a inexorabilidade do tempo e suas mudanças com perdas e   possibilidades: a mulher na fase do climatério, defendida em 1999.

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