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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.36 no.1 São Paulo Mar. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342002000100004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Um estudo comparativo sobre a identificação dos riscos ocupacionais por trabalhadores de enfermagem de duas Unidades Básicas de Saúde do município de São Paulo

 

A comparative study about identification of occupational risks by nursing workers of two Basic Health Units of São Paulo

 

Un estudio comparativo sobre la identificación de los riesgos ocupacionales por trabajadores de enfermería de duas Unidades Basicas de Salud del municipio de São Paulo

 

 

Rita de Cassia Gengo e SilvaI; Vanda Elisa Andres FelliII

IAluna do 8º semestre do curso de graduação da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo
IIEnfermeira. Professora Doutora junto ao Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da USP

 

 


RESUMO

Os riscos ocupacionais do trabalho de enfermagem em Unidades Básicas de Saúde (UBS) não têm sido frequentemente abordados, o que nos estimulou a realizar este estudo com os objetivos de comparar a percepção dos trabalhadores deenfermagem de duas UBS sobre esses riscos e estabelecer um paralelo sobre os problemas de saúde relacionados com a suaexposição. Os dados foram coletados através da entrevista e analisados segundo suas frequências relativa e absoluta ecoeficientes de risco. Os maiores coeficientes de risco estão relacionados a exposição aos riscos biológicos. Conclui-se que os trabalhadores têm dificuldade em apreender a gênese dos riscos ocupacionais.

PALAVRAS-CHAVE: Saúde ocupacional. Riscos ocupacionais- Enfermagem.


ABSTRACT

Occupational risks of nursing work in Basic Health Units have not been study frequently, so it stimulate us to develop this paper, whose objective are: to compare the perception of nursing workers of two Basic Health Units about these risks and toestablish a parallel between the health problems with their exposition to occupational risks- Data were collected by aninterview and were analyzed according to their frequencies. Biological risks were observed more frequently. The conclusionsshow that nursing workers have difficult to understand the genesis of occupational risks.

KEYWORDS: Occupational health. Occupational risks.Nursing.


RESUMEN

Los riesgos ocupacionales del trabajo de enfermeria en Unidades Básicas de Salud (UBS) no han sido frecuentemente abordados, lo que nos estimuló en realizar este estudio con el objetivo de comparar la percepción de los trabajadores de enfermería de dos UBS sobre estos riesgos y establecer un paralelo sobre los problemas de salud relacionados con suexposición. Los datos fueron recolectados a través de una entrevista y analizados según sus frecuencias relativa, absolutay coeficientes de riesgo. Los mayores coeficientes de riesgo estan relacionados a la exposición de riesgos biológicos. Seconcluye que los trabaj adores tienen dificultades en aprender la génesis de los riesgos ocupacionales.

PALABRAS-CLAVE: Salud ocupacional. Riesgos laborales.Enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

Os ambientes de trabalho em que atuam osprofissionais de enfermagem, por sua natureza, con-centram uma série de riscos que podem trazer diversos problemas de saúde aos profissionais que nele trabalham, especialmente aos trabalhadores de enfermagem.

Esses problemas são gerados pela exposição dos trabalhadores aos riscos ocupacionais, entendidos como agentes nocivos isolados que são capazes de causar doença(1).

Silva (2)constrói um perfil de morbidade dos trabalhadores de enfermagem onde se destacam: ferimentos pérfuro-cortantes, doenças do aparelho ósteo-músculo-articular, doenças infecciosas ouinfecto-contagiosas e parasitárias.

Laurell (1), ao sistematizar a relação trabalho-saúde, conceituam as cargas de trabalho, entendendo que estas abarcam os riscos ocupacionais, segundo a materialidade que assumem em relação ao corpo dotrabalhador. Assim, as cargas podem ser de materialidade externa (independem do corpo dotrabalhador) ou interna (quando só podem ser identifi-cadas através do corpo do trabalhador). Silva(2),considerando o conceito de cargas de trabalho segundoLaurell (1), as classifica da seguinte maneira para otrabalho de enfermagem:

• Cargas biológicas: são evidenciadas pelocontato do trabalhador com pacientes portadores de doenças infecciosas, infecto-contagiosas eparasitárias; pela manipulação de materialcontaminado e pela presença de insetos nocivos, além do grande número de microrganismos presentes em seu ambiente de trabalho;

• Cargas físicas: são aquelas a que ostrabalhadores se expõem quando submetidos à condições inadequadas de iluminação, ventilação e umidade, à mudanças bruscas de temperatura, à vibração, ao ruído, a incêndios e choques elétricos e à radiação ionizante;

• Cargas químicas: são as decorrentes damanipulação de substâncias químicas (detergentes, desinfetantes, anestésicos, etc.), da manipulação de medicamentos, do contato com materiais de borracha (látex) e a fumaça do cigarro;

• Cargas mecânicas: são as que se evidenciampelas quedas e agressões, além da manipulação demateriais pontiagudos e cortantes;

• Cargas fisiológicas: são aquelas a que ostrabalhadores se expõem quando manipulam peso excessivo, trabalham em pé, assumem posiçõesincômodas durante sua jornada de trabalho e quando são submetidos ao trabalho noturno e rodízio de turnos;

• Cargas psíquicas: são observadas quando ostrabalhadores estão submetidos à atenção constante esupervisão estrita, à pressão da chefia e de outros profis-sionais, a horas extras e dobras de plantão, à falta de comunicação, à tensão, estresse e fadiga, à insatisfação,ao ritmo acelerado de trabalho, ao trabalho monótono e repetitivo e, ainda, a fatores como a falta de criatividadee autonomia e aqueles que levam ao abuso de álcoo e drogas, além da falta de articulação de defesas coletivas.

Independente da terminologia e da fundamen-tação teórica que a embase, as cargas ou os riscosocupacionais do trabalho de enfermagem em Unidades Básicas de Saúde-UBS não têm sido abordados, o que nos estimulou a realizar este estudo. Portanto, nossaatenção está centrada no aprimoramento dacompreensão sobre a percepção desses trabalhadoresacerca dos riscos ocupacionais, a fim de melhorapreender a exposição desses trabalhadores nas UBS. Adotamos neste estudo o termo risco ocupacional por ser a terminologia mais conhecida pelos trabalhadores.

 

OBJETIVOS

- Captar a percepção dos trabalhadores deenfermagem de duas UBS sobre os riscos ocupacionais;

- Estabelecer um paralelo sobre os problemasde saúde relatados por esses trabalhadores comodecorrentes da exposição a esses riscos.

 

MÉTODO

O estudo foi realizado em duas Unidades Básicasde Saúde (UBS-1 e UBS-2), caracterizadas comoCentro de Saúde, cujo regime de atendimento não prevê internações. Estão localizadas na cidade de São Paulo, são instituições públicas, que têm como finalidades a assistência, ensino e pesquisa.

A população deste estudo foi composta por todosos trabalhadores de enfermagem presentes nas instituições durante o período de coleta de dados,perfazendo um total de 33 trabalhadores, sendo que02 enfermeiros, 18 auxiliares de enfermagem, 05visitadores sanitários e 01 atendente de enfermagem pertenciam à UBS-1 (total de 26 trabalhadores) e 05 auxiliares de enfermagem e 02 visitadores sanitários, à UBS-2 (total de 7 trabalhadores). Deve-se destacar que os técnicos de enfermagem não participaram deste estudo, pois não estavam presentes nas instituições no período de coleta de dados e que os enfermeiros da UBS-2 também não participaram da coleta de dados.

Elegeu-se a entrevista como técnica de coleta de dados, utilizando-se para isso um instrumentoelaborado especificamente para este estudo. Com este instrumento buscou-se caracterizar os trabalhadores de enfermagem em relação ao sexo, faixa etária e tempode serviço; captar a percepção dos trabalhadores em relação aos riscos ocupacionais a que estão expostosno trabalho e a relação que estabelecem com osproblemas de saúde. As entrevistas foram realizadas entre os meses de janeiro e fevereiro de 1999, de formaque o maior número possível de trabalhadores estivessem presentes e pudessem colaborar com o estudo. A todos os trabalhadores foi solicitado o consentimento livre e esclarecido para participaçãono estudo, preservando todos os princípios éticos.

Os dados foram analisados de acordo aestatística descritiva, segundo as freqüências relativae absoluta. Para a análise, foram consideradas acaracterização dos trabalhadores que constituíram a população deste estudo, a sua percepção acerca dosriscos ocupacionais a que estão expostos e os problemas de saúde por eles referidos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Resultados relativos à caracterização dapopulação do estudo

A população caracterizou-se como predominan-temente feminina nas duas unidades, sendo que na UBS-2 nenhum entrevistado era do sexo masculino, como pode ser visualizado na tabela 1. Esta composição é condi-zente com a força de trabalho de enfermagem do País, que é constituída predominan-temente por mulheres.

 

 

Quanto à faixa etária, observa-se na tabela 02 que mais de um terço dos trabalhadores de enfermagem das duas unidades têm entre 35 a 39 anos. Chama a atenção, a composição da força de trabalho das duas unidades, pois enquanto os trabalhadores da UBS-1 acima de 45 anos representam cerca de 77%, na UBS-2 eles constituem 42,87% do total da população estudada. No entanto, na UBS-1 existe uma maior distribuição nas faixas etárias mais jovens. Provavelmente, este fato relaciona-se ao tempo de existência dessas UBS, uma vez que o início defuncionamento da UBS-1 é mais recente que da UBS--2 eàinserção dos trabalhadores na unidade. Por outro lado, ambas são instituições públicas, o que garante ao servidor estabilidade no emprego, o que pode ter contribuído para a permanência dos trabalhadores da UBS-2 em seus cargos até idades mais elevadas.

 

 

Como é possível verificar, 69,23% dostrabalhadores da UBS-1 e 71,43% dos trabalhadores da UBS-2 exercem sua profissão há 10 anos ou mais. Isso significa que na duas unidades, cerca de 70% dostrabalhadores têm experiência no trabalho querealizam. Apenas uma pequena parcela da população tem um tempo de exercício profissional menor ou iguala 4 aros na UBS-1 e na UBS-2, este percentual émaior, representam 28,57%.

Comparando-se as tabelas 02 e 03, verifica-se que na UBS-2 a porcentagem de trabalhadores commais de 44 anos é maior e, também, a freqüência detrabalhadores com mais de 20 anos de exercício profissional, o indica que os trabalhadores temsignificativa vivência profissional.

 

 

Em relação à categoria profissional, verifica-se no Gráfico 01, que 6,06% dos trabalhadores da UBS--1 são enfermeiros; uma vez que estes profissionais nãoparticiparam do estudo na UBS-2. Cerca de 70% são auxiliares de enfermagem, 20% visitadores sanitáriose 3% são atendentes de enfermagem. Observa-se nesta constituição de força de trabalho, ainda, a participaçãodo atendente, que contraria a lei do exercício profissional. Observa-se, também, uma pequenaparticipação dos enfermeiros na equipe de trabalho.

Resultados relativos à percepção dos trabalhadores acerca dos riscos ocupacionais eaos problemas de saúde

A totalidade dos trabalhadores de enfermagementrevistados considerou-se exposta a pelo menos umtipo de risco ocupacional. Lopes(3) verificaram que 80,90%dos trabalhadores de enfermagem declararam aexistência de riscos á saúde em seu ambiente de trabalho.

Esses trabalhadores evidenciaram em suaprática profissional exposição aos riscos:

• Biológicos - caracterizado pela transmissão depatógenos através das vias aéreas, e/ou secreções e sangue e através do contato direto com o cliente;

• Mecânicos - evidenciados pelos trabalhadorescomo os acidentes com objetos pérfuro-cortantes,quedas e agressão física;

• Psíquicos - apreendidos como o estresse,pressão, insatisfação com a situação da saúde pública(falta de medicamentos, campanhas de saúde públicaineficientes) e situações angustiantes (convívio comos problemas de saúde apresentados pelos clientes);

• Fisiológicos - apreendidos pelos trabalhadorescomo os agravos à coluna, danos ósteo-músculo-articulares, caminhadas excessivas durante a jornadade trabalho, necessidade de subir e descer escadas emdemasia, execução de movimentos repetitivos, e a presença de mobílias inadequadas (que colaborampara a adoção de posturas incômodas);

• R iscos químicos - evidenciados pela exposiçãoà medicações, vacinas e odores fortes; e aos riscosfísicos, evidenciados através das queimaduras.

No Gráfico 02, é possível observar os tipos deriscos ocupacionais aos quais os trabalhadores de enfermagem das UBS-1 e UBS-2 consideraram-seexpostos.

Verifica-se, no Gráfico 02, que na UBS-1 69%dos trabalhadores de enfermagem consideraram-se expostos aos riscos biológicos; 35% relataramexposição aos riscos mecânicos; a exposição aos riscospsíquicos foi evidenciada por % dos trabalhadores; e8% referiram exposição aos riscos físicos.

Em relação à UBS-2, observa-se que os trabalhadores de enfermagem não se consideraram expostos aos riscos psíquicos e físicos. Entretanto,86% dos trabalhadores evidenciaram exposição aosriscos biológicos; 14%, aos riscos mecânicos e aosriscos fisiológicos; e 57%, aos riscos químicos. Essesachados podem estar relacionados às formas deorganização e divisão do trabalho nesta instituição, bem como à utilização dos meios e instrumentos detrabalho, as quais possivelmente diferem daquelasencontradas na UBS-1.

Ainda, quanto à exposição aos riscosocupacionais, 2 trabalhadores de enfermagem de cadauma das UBS consideraram-se expostos a todos osriscos, sem, no entanto, especificá-los.

Deste modo, depreende-se que os trabalhadoresde enfermagem da UBS-2 consideraram estar mais expostos aos riscos biológicos e químicos que ostrabalhadores da UBS-1; no entanto, estes observarammaior exposição aos riscos mecânicos, psíquicos,fisiológicos e físicos que os trabalhadores da UBS-2.

Em comparação à realidade de trabalhohospitalar, Silva(4)realizou estudo sobre os acidentesde trabalho entre os trabalhadores de enfermagem daUnidade de Centro de Material - UCM de sete hospitais da rede pública no Estado de São Paulo, no qual foramidentificados todos os tipos de riscos ocupacionais, exceto os riscos psíquicos, assemelhando-se aos resultados encontrados para a UBS-2 no presenteestudo.

Por outro lado, Silva(5)afirma que as morbidadespsíquicas e as doenças psicossomáticas têm grandeexpressividade nas estatísticas brasileiras de auxílio-doença e, portanto, existe uma vinculação importanteentre a Saúde do Trabalho e a Saúde Mental. Ressalte-se, ainda, que na gênese dos riscos psíquicos encontra-se a exposição simultânea a outros tipos de riscos(2).

Os trabalhadores, sujeitos deste estudo, foramquestionados sobre quais situações geravam maiorexposição aos riscos ocupacionais. As situações poreles referidas foram agrupadas segundo o tipo de riscoa que expunham os trabalhadores (tabela 04), de modoque fosse possível a comparação das mesmas com ostipos de riscos ocupacionais a que os trabalhadoreshaviam se considerado expostos.

 

 

Apreende-se da tabela 04 que, com exceção dassituações geradoras dos riscos biológicos, aidentificação de exposição às situações geradoras dos diferentes tipos de riscos ocupacionais foi maior entreos trabalhadores da UBS-1. Provavelmente, tal fato éum indicativo de que os trabalhadores desta instituiçãoestejam mais preparados, pois é a instituição quetambém conta com maior número de enfermeiros naforça de trabalho, profissionais estes que, no papelgerencial, exercem a orientação da equipe de trabalho.Assim,. foram capazes de identificar mais situaçõesgeradoras de riscos ocupacionais do que os trabalhadores da UBS-2, que têm maior tempo deserviço e suposta experiência profissional.

Quanto aos riscos biológicos, os dadosencontrados na UBS-1 são concordantes com aquelesanteriormente apresentados, uma vez que a frequênciacom que as situações geradoras deste tipo de risco émaior do que para as demais situações. Observa-sediferenças, em relação aos dados obtidos sobre aexposição aos riscos mecânicos, químicos e fisiológicose as situações geradoras desses riscos na UBS-1.

Os trabalhadores da UBS-2 não referiram nenhuma situação que fosse geradora dos riscos físicos, o que está de acordo com os resultados apresentados, ou seja, esses trabalhadores não seconsideraram expostos a tais riscos. Há concordância,também, no que se refere aos riscos biológicos, poisas situações geradoras desses riscos foram referidas pela totalidade dos trabalhadores de enfermagem daUBS-2. As situações geradoras de riscos psíquicosforam evidenciadas por 6% dos trabalhadores da UBS-2. Tal fato chama a atenção, pois a exposição a estesriscos não havia sido identificada por estes trabalhadores. Por outro lado, os riscos químicos apresentaram um quadro inverso, uma vez quesomente 3% dos trabalhadores evidenciaram exposiçãoàs situações geradoras desses riscos, sendo queanteriormente 57% haviam relatado exposição a taisriscos.

Esses resultados sugerem que tanto os trabalhadores da UBS-1 quanto aqueles da UBS-2 possuem dificuldades em reconhecer a gênese dos problemas de saúde decorrentes do trabalho. Tnão estabelecem, assim, a relação causa-efeito entre as situações vivenciadas por eles em seu ambiente de trabalho e a exposição aos riscos ocupacionais queessas situações proporcionam.

A tabela 05 mostra os problemas de saúde referidos pelos trabalhadores das UBS-1 e UBS-2,como decorrentes da exposição aos riscos ocupacionais.

 

 

Como é possível verificar os 26 trabalhadores de enfermagem da UBS-1 referiram 45 problemas de saúde,enquanto os sete da UBS-2 relataram apenas 08. Sendo assim, estes identificaram somente problemas de saúde que se relacionam com a exposição aos riscos biológicos (18%), mecânicos (3%) e psíquicos (3%). Os problemas de saúde relacionados à exposição aos riscos químicos não foram identificados por nenhum dos trabalhadores.

Esses dados vêm reforçar a dificuldade dostrabalhadores em apreender as relações de causa-efeitoentre as situações vivenciadas por eles em seu ambiente de trabalho, a exposição aos riscos ocupacionais que essas situações predispõem e os problemas de saúde gerados a partir dessa exposição.As doenças infecciosas ou infecto-contagiosas apresentaram maior freqüência em ambas as UBS, sendo que 61% dos trabalhadores da UBS-1 e 18%dos trabalhadores da UBS-2 referiram que podemadoecer de alguma das morbidades que constituem essa categoria em decorrência da exposição aos riscos ocupacionais.

Diferentemente do que foi encontrado em estudos realizados em instituições hospitalares, os trabalhadores da UBS não referiram problemas respiratórios, enxaqueca e cefaléia, alergias e dermatites, intoxicação por substâncias químicas, problemas auditivos, problemas gastrintestinais,problemas de vias urinárias ou alcoolismo.

Em seu estudo sobre o desgaste de trabalhadores de enfermagem hospitalar, Gelbeck(6)verificou que os mesmos referiram o estresse e a fadiga, os problemas de coluna, a enxaqueca e a cefaléia, a infecção de viasaéreas superiores, as varizes, outros problemasortopédicos, a gastrite, os problemas gênito-urinários,os problemas dermatológicos, a dor abdominal, a hipertensão arterial sistêmica, os acidentes detrabalho e as doenças infecciosas e parasitárias comosintomas ou doenças decorrentes da exposiçãoocupacional.

No hospital, também Silva(2)observou que os trabalhadores de enfermagem em seu estudoidentificaram os seguintes sintomas ou doenças, em ordem decrescente de importância: ferimentos pérfuro-cortantes, doenças infecciosas, infecto-contagiosas e parasitárias; problemas respiratórios, desequilíbrio mental e desgaste emocional; enxaqueca e cefaléia; problemas de pele, problemas oculares e problemasauditivos; intoxicação por substâncias químicas, estresse, estafa e cansaço; distúrbios do sono;problemas gastrointestinais, dificuldade circulatória, varizes e dor nas pernas e irritabilidade; problemasde vias urinárias e hipertensão arterial; e doença psicossomática. Além desses, encontrou, ainda, problemas psiquiátricos e trauma emocional por pressão psicológica e ansiedade e o alcoolismo, osquais não tiveram uma ordem de classificação

 

CONCLUSÕES

O presente estudo evidenciou a predominânciado sexo feminino dentre os sujeitos, nas duasunidades; maior freqüência de trabalhadores nas faixas etárias acima dos 45 anos na UBS-1 e abaixo desta idade na UBS-2, indicando uma inserção diferenciada dos trabalhadores nas duas unidades estudadas.

Em relação a percepção da exposição aos riscosocupacionais, os trabalhadores de ambas UBSreferiram, com freqüência maior que 60%, a exposiçãoaos riscos biológicos, sendo que pouco referiram osdemais. Evidenciou-se, assim, que os trabalhadores das duas UBS possuem dificuldades em reconhecer a gênese dos riscos ocupacionais, ou seja, de estabeleceras relações de causa-efeito entre as situaçõesvivenciadas no ambiente de trabalho, a exposição aos riscos ocupacionais que essas situações proporcioname os problemas de saúde gerados a partir dessaexposição.

Mesmo assim, os tipos de riscos evidenciados foram semelhantes aos referidos para o trabalho em instituições hospitalares. No entanto, as freqüências observadas neste estudo, permitiram analisar que esta exposição percebida é diferenciada, tanto entre as UBS e as instituições hospitalares, quanto entre as duasUBS estudadas, principalmente no que se refereàpercepção dos riscos biológicos em relação aos outros riscos.

A freqüência dos problemas de saúde referidos, relacionados à exposição a estes riscos, é condizentecom a exposição aos riscos biológicos, mecânicos efisiológicos, permitindo evidenciar a importância dasdoenças infecto-contagiosas, os ferimentos pérfuro-cortantes, o estresse e o desgaste emocional e asdoenças do aparelho ósteo-músculo-articularcompondo o perfil de morbidade destes trabalhadores.Estes dados permitem evidenciar a relação entre as atividades realizadas e o perfil saúde-doença dostrabalhadores.

Ao considerármos aos duas unidades de estudo,este perfil é semelhante ao evidenciado para ostrabalhadores hospitalares. Diferenciam-se nas situações de exposição dos trabalhadores ao riscos na interaçãocom a natureza do objeto de trabalho, os meios einstrumentos de trabalho e as formas de organização do trabalho. Desse modo, ao intencio-nármos a preservação da saúde do trabalhador, é imperativo estabelecer arelação entre a interação do trabalhador com esseselementos e a exposição às cargas de trabalho e a geração de problemas de saúde particulares.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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(2)Silva VEF. O desgaste do trabalhador de enfermagem: -relação trabalho de enfermagem e saúde do trabalhador.[Tese] São Paulo(SP): Escola de Enfermagem daUniversidade de São Paulo; 1996.         [ Links ]

(3)Lopes GT, Spindola T, Martins ERC. O adoecer emenfermagem segundo seus profissionais: estudospreliminares. Rev Enferm UERJ 1996; 4(1):9-18.         [ Links ]

(4)Silva A. Trabalhador de enfermagem na unidade de centrode material e os acidentes de trabalho. [Tese] SãoPaulo(SP):Escola de Enfermagem da Universidade de SãoPaulo; 1996.         [ Links ]

(5)Silva ES. Uma história de "crises de nervos": saúde mentale trabalho. In: Buschinelli JTP, Rocha E, Rigotto RM.organizador. Isto é trabalho de gente? vida, doença e trabalhono Brasil. São Paulo: Vozes; 1993. p. 609-35         [ Links ]

(6)Gelbcke FL. Processo saúde-doença e processo de trabalho: a visão dos trabalhadores de enfermagem de um hospitalescola. [Dissertação] Rio de Janeiro(RJ): Escola deEnfermagem Alfredo Pinto da Universidade do Rio deJaneiro; 1991        [ Links ]

 

 

Artigo recebido em 13/11/00
Artigoaprovado em 15/08/02