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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.37 no.4 São Paulo Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342003000400006 

A prescrição médica eletrônica em um hospital universitário: falhas de redação e opiniões de usuários

 

Computerized physician order entry in a university hospital: writing failure and users´ opinions

 

La prescripción médica electrónica en un hospital universitario: fallas en la redacción y opinión de los usuarios

 

 

Silvia Helena de Bortoli CassianiI; Cláudia Câmara FreireII; Fernanda Raphael Escobar GimenesIII

IProfessora Associada do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP (EERP/USP). shbcassi@eerp.usp.br
IIEnfermeira graduada pela EERP/ USP
IIIGraduanda do 7º semestre do Curso de Enfermagem e Obstetrícia da EERP/ USP

 

 


RESUMO

Este estudo analisou as falhas de redação da prescrição médica eletrônica e opiniões dos usuários acerca das suas vantagens e desvantagens. Foram analisadas 1.351 prescrições médicas de um hospital universitário e entrevistados 84 profissionais da área da enfermagem e medicina. Os resultados indicaram que 17,7% das prescrições apresentavam rasuras, em 16,8 % havia medicamentos suspensos, em 28,2% havia informações que podiam deixar os profissionais em dúvida e em 25% havia medicamentos prescritos manualmente. Os profissionais indicaram as seguintes vantagens: facilidade de leitura dos dados e rapidez com que a prescrição é feita e liberada e como desvantagens: repetição de prescrições de dias anteriores sem revisão e informações digitadas de forma incorreta. Conclui-se que apesar de ser uma estratégia importante na redução de erros, é preciso revisão desse sistema e educação dos profissionais na sua utilização.

Palavras-chave: Prescrição de medicamentos. Erros de medicação. Enfermagem.


ABSTRACT

This study analyzed the writing failure of the computerized physician order entry system and its advantages and disadvantages according to users. At a university hospital 1,351 physician orders were analyzed and 84 nursing and medical professionals were interviewed. The results showed that 17.7% of the orders presented erasures, medication had been suspended in 16.8%, in 28.2% there was dubious or misleading information and in 25% medication had been prescribed manually. The professionals indicated advantages such as: ease of data reading and the quickness with which the order is entered and released, among others. They also reported disadvantages such as the repetition of orders from previous days without a review and incorrectly typed information. Therefore, it is concluded that, despite representing an important strategy for error reduction, this system must be overhauled and professionals must be trained to use it.

Keywords: Prescriptions drug. Medication errors. Nursing.


RESUMEN

Este estudio tuvo por objetivo identificar las fallas en la redacción de la prescripción médica electrónica y las opiniones de los usuarios sobre sus ventajas y desventajas. Fueron analizadas 1351 prescripciones médicas de un hospital universitario y entrevistados 84 profesionales de las áreas de enfermería y medicina. Los resultados indicaron que el 17,7% de las prescripciones presentaban rasgaduras, en el 16,8% habían medicamentos suspendidos, en el 28,2% habían informaciones que podían dejar a los profesionales en duda y en el 25% habían medicamentos prescriptos manualmente. Los profesionales indicaron algunas ventajas como: facilidad para leer los datos y rapidez con que la prescripción es realizada y liberada, entre otras, y como desventajas: repetición de prescripciones de días anteriores sin revisión e informaciones digitadas incorrectamente. Se concluye que a pesar de ser una estrategia importante para la reducción de errores, es necesario una revisión de ese sistema y educación de los profesionales en su utilización.

Palabras clave: Prescripción de medicamentos. Errores de medicación. Enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

Eventos adversos à medicação são definidos como aqueles responsáveis por causarem qualquer dano ao paciente, estando eles relacionados à administração de medicamentos. Esses eventos podem ser evitáveis quando, por exemplo, identificamos uma dose incorreta antes de ministrar o medicamento ao paciente, ou não evitáveis como é o caso da alergia a determinados antibióticos e que não era conhecida previamente. Eventos adversos não evitáveis são também chamados de reações adversas aos medicamentos. A definição de "reação adversa" da Organização Mundial da Saúde,entretanto, exclui as reações associadas aos erros (1).

Erros na medicação são definidos como aqueles que ocorrem durante a prescrição, transcrição, dispensação, administração ou monitoramento das reações no paciente(1). Eventos adversos potenciais são aqueles eventos onde o erro ocorreu, mas não causou nenhum dano ao paciente por qualquer razão. Todos os eventos adversos potenciais são erros na medicação.

A literatura indica com freqüência dados do Instituto Americano de Medicina o qual estima que, nos EUA, a cada ano, cerca de 44.000 a 98.000 pessoas morrem devido a uma lesão iatrogênica, sendo esta a causa principal ou a contribuinte. Os eventos adversos mais comuns são as complicações decorrentes do uso de medicamentos seguido das úlceras de pressão, complicações cirúrgicas e erros nos diagnósticos (2).

Os erros na medicação têm relação com o aumento do número de medicamentos disponíveis no mercado, com as várias vias de administração, com os regimes terapêuticos complexos e com as dificuldades dos profissionais em atualizarem os seus conhecimentos quanto às características do medicamento (indicações, efeitos colaterais etc.).

Entretanto a abordagem atual dos erros na medicação focaliza que os problemas estão no sistema e não simplesmente responsabiliza os profissionais pelos erros. Ambientes de trabalho que prezam pela segurança dos pacientes são aqueles onde os profissionais são educados, há a criação de uma cultura não punitiva em que se incentiva o relato dos erros, processos são simplificados e há avaliação e verificação constantes, a fim de interceptar os possíveis erros antes que eles atinjam o paciente(1).

Após a publicação feita pelo Instituto Americano de Medicina vários estudos sobre a segurança do paciente estão sendo produzidos nos Estados Unidos da América e outros países como Canadá, Inglaterra, Austrália(2-5). No Brasil, conseqüentemente, também a atenção tem sido dirigida à terapêutica medicamentosa, os erros na medicação e ao sistema hospitalar (6-8).

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) tem desenvolvido ações para a prevenção de reações adversas na medicação. A rede sentinela de hospitais tem trabalhado, através de diversas estrastégias, com essa questão, embora o Brasil ainda não faça parte do rol de países onde o programa de relatórios dos erros na medicação foi estabelecido(9).

Entre os vários aspectos citados pela literatura para prevenir ou reduzir os erros na medicação está a tecnologia de informação. Assim, o uso do código de barras nas embalagens dos medicamentos e a prescrição médica eletrônica estão entre estas estratégias.

A prescrição médica eletrônica, objeto deste estudo, é aquela onde o médico (ou o transcritor)ao invés de escrever manualmente a prescrição numa folha, utiliza um computador para digitá-la seguindo um modelo já estabelecido. Essa tem a capacidade de reduzir a quantidade de erros, uma vez que elimina a dificuldade na leitura e no entendimento ocasionados pela letra ilegível do médico e possibilita que os erros de digitação sejam corrigidos no momento da elaboração da prescrição sem que, para isto, haja rasuras ou rabiscos que dificultam ainda mais o entendimento das informações (10).

Há poucos estudos realizados no Brasil na temática de prescrições eletrônicas, mesmo porque são poucos os hospitais que a estão empregando, embora a literatura indique que sua introdução é uma das tentativas mais sérias e efetivas para a prevenção dos erros na medicação (10-12). Vale destacar que mesmo nos Estados Unidos da América são poucas as instituições que já a utilizam(13).

No hospital em que este estudo foi conduzido, a prescrição eletrônica foi introduzida em janeiro de 1998, inicialmente na clínica de pediatria, alcançando a totalidade das clínicas em dezembro desse mesmo ano. A implantação deste sistema deveu-se, principalmente, às falhas na comunicação identi-ficadas entre as áreas de medicina, enfermagem e farmácia e a necessidade de controlar os custos.Decorrem, portanto, cinco anos desde a sua implantação.

Tais aspectos motivaram a condução dessa investigação cujo propósito é o de analisar as prescrições médicas eletrônicas redigidas em um hospital universitário e verificar a opinião de seus usuários. Espera-se, com a divulgação desse estudo, contribuir com as instituições e com os profissionais que pretendem implantar esse tipo de prescrição e auxiliar o aperfeiçoamento do sistema nas instituições em que ela já está empregada.

 

OBJETIVOS

O objetivo desta investigação foi, portanto, analisar as falhas na redação e as vantagens e as desvantagens da prescrição médica eletrônica através da opinião de seus usuários: profissionais da equipe de enfermagem e da medicina.

 

METODOLOGIA

Tipo de Estudo

Trata-se de um estudo avaliativo que é uma forma aplicada de pesquisa que envolve descobrir como um programa, prática ou política, está funcionando (14).

População e Amostra

Na primeira fase do estudo foram analisadas todas as prescrições médicas eletrônicas realizadas na clínica cirúrgica, médica e ortopédica de uma instituição hospitalar de grande porte do estado de São Paulo e que foram prescritas durante 30 dias consecutivos, correspondendo a um total de 1.351 prescrições.

A amostra, na segunda fase do estudo, foi composta por profissionais de enfermagem, oficiais administrativos e médicos que estavam atuando nestas clínicas durante o período da coleta de dados e que concordaram em participar da pesquisa, correspon-dendo a um total de 84 profissionais.

Procedimentos para a coleta de dados

A coleta dos dados foi realizada em julho de 2001 na clínica médica e ortopédica e em julho de 2002 na clínica cirúrgica. Para análise das prescrições médicas foi utilizado um formulário estruturado com itens relacionados à análise da redação da prescrição.

Na segunda fase do estudo, foi aplicado um questionário semi-estruturado aos profissionais da equipe de enfermagem e aos médicos residentes. Este instrumento continha questões que procuravam abordar a opinião destes profissionais quanto à redação, às vantagens e desvantagens da prescrição médica eletrônica e às sugestões para o seu aperfeiçoamento.

Procedimentos Éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do hospital em questão. Foi esclarecido aos participantes que os resultados da pesquisa seriam destinados à publicação e foram garantidos o sigilo e o anonimato dos entrevistados. Cada participante foi orientado a emitir registro por escrito de sua participação voluntária, bem como tomar conhecimento do termo de consentimento livre e esclarecido.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Fase I: Análise das prescrições médicas eletrônicas

Foram analisadas 1.351 prescrições médicas eletrônicas, sendo 392 da clínica ortopedia, 535 prescrições da clínica médica e 424 da clínica cirúrgica, que corresponderam a todas as prescrições eletrônicas emitidas e analisadas em 30 dias não consecutivos.

Nas 1351 prescrições médicas eletrônicas analisadas, 17% (91) das prescrições na clínica médica; 5,4%(21) na clínica ortopedia e 30% (127) na clínica cirúrgica apresentavam rasuras (riscos ou círculos) em um desses itens: nome dos medicamentos, dose, freqüência ou número de dias que os medicamentos estavam sendo prescritos. Portanto, no conjunto das prescrições analisadas 17,7% (239) das prescrições apresentavam rasuras. Sabe-se que a presença de rasuras pode causar confusão na leitura resultando em erros e possíveis danos ao paciente e é preciso atentar para os riscos decorrentes desta prática. As rasuras estavam relacionadas principalmente à suspensão de medicamentos, modificações na dosagem ou na via de administração e eram realizadas manualmente após a prescrição ter sido impressa.

Quanto à presença de medicamentos suspensos, na Clínica Médica, 17,6% (94) das prescrições analisadas continham medicamentos suspensos, sendo que destas, apenas 3,2% foram suspensos digitalmente. Na Ortopedia, 9%(35) das prescrições analisadas continham medicamentos suspensos, sendo que em todas os medicamentos foram suspensos pelo método manual. Na clínica cirúrgica 23,1% (98) das prescrições continham medicamentos suspensos e também em todas essas os medicamentos foram suspensos manualmente. Dessa forma, do total de prescrições analisadas, em 16,8% (227) havia medicamentos suspensos, sendo que destes apenas 3,2% (43) não havia sido suspenso manualmente.

É preciso ficar atento para o potencial que tal prática tem sobre os erros na medicação nessas clínicas. O problema resultante é que, muitas vezes, não há comunicação à equipe de enfermagem da alteração, que seguindo a uma cópia da prescrição anterior administra o medicamento prescrito no horário previsto e no momento de registrar a administração do medicamento, descobre que o mesmo já havia sido suspenso ou modificado. Embora seja um consenso de que a prescrição médica deve acompanhar o profissional no momento da administração, a observação empírica indica que muitas vezes a equipe de enfermagem segue uma cópia da prescrição e que se não houver comunicação das alterações, continua seguindo um regime terapêutico desatualizado.

Tais dados indicam que há probabilidade de que em 16,8% dos pacientes internados nessas clínicas poderia ter sido ministrado um medicamento (ou dose) já suspenso pelo médico, ao menos que a equipe de enfermagem tenha sido avisada anteriormente ou conferido a prescrição médica.

No que concerne à presença de informações que podiam deixar os profissionais em dúvida, foram consideradas a presença nas prescrições de abreviaturas, siglas ou dificuldade na leitura dos medicamentos prescritos manualmente, ou frases incompletas e também o uso de decimais. Considerou-se, portanto, aquelas informações não claramente expressas e que podiam confundir a equipe de enfermagem no momento do preparo e administração dos medicamentos.

Vale destacar que atualmente o sistema permite que o médico também faça prescrições manuais, principalmente naqueles casos de mudança da condição do paciente, suspensão de medicamentos ou inserção de novos medicamentos. Isso se deve ao fato de a enfermagem realizar o registro do medicamento administrado na própria folha impressa da prescrição e uma nova folha com outros medicamentos ou suspensão dos atuais no mesmo dia poderia ser um fator a mais na ocorrência de erros. Além do que, os auxiliares de enfermagem nesta instituição, tem por prática seguir a uma cópia da prescrição emitida pela farmácia com os medicamentos dispensados e não seguir a que se encontra no prontuário do paciente, só a utilizando para registrar a administração no final do turno.

Observou-se que a Clínica Ortopédica apresentou uma porcentagem maior dessas informações: 37,9% (148). Na Clínica Médica ocorreu em 21,1% (113) das prescrições e, na Clínica Cirúrgica, em 28,5% (121) . Portanto 28,2% (382) das prescrições apresentavam em seu conteúdo informações que podiam deixar os profissionais em dúvida quando da administração de medicamentos e que conseqüentemente poderiam levar a um erro na medicação, elevando o tempo da internação e resultando em custos para o paciente e instituições.

Para diminuir essa dúvida os profissionais podem ter recorrido a colegas, médicos, enfermeiros ou tentado resolver por si próprio, o que seria ainda mais prejudicial.

Estudos constataram que os erros na medicação são relacionados também a informações que podem causar dúvidas nos profissionais, tais como o uso de abreviações em vias de administração(15).

Quanto à prescrição manual de medicamentos constatou-se que 16,7% (65) das prescrições da Clínica Ortopedica continham medicamentos escritos manualmente, enquanto que na Clínica Médica, 28,6% (153) das prescrições e na Clínica Cirúrgica 12,5% (120) das prescrições.

Ressalta-se ainda que muitos destes medicamentos estavam escritos de forma ilegível. Esse fator contribui para aumentar as chances de erro, visto que as dificuldades decorrentes da letra do médico podem gerar dúvidas nos profissionais. Assim, em cerca de 25% (338) das prescrições havia medicamentos prescritos de forma manual.

O registro da administração dos medicamentos é, nessa instituição, realizado na própria prescrição. Quando o profissional pretende suspendê-lo ou acrescentá-lo na folha, ele o faz manualmente para não ter que elaborar e imprimir uma nova prescrição, como já mencionado.

No que concerne à presença de informações sobre a via de administração obteve-se que na Clínica Ortopédica, 4,1% (16) das prescrições não continham informações sobre a via de administração e na Clínica Médica, 6,9% (37). Na clínica cirúrgica 6,2 % (59) das prescrições não tinham também essa informação.

Esses números podem não ser muito significativos, porém a presença dessa informação é de vital importância para a administração correta da medicação e assim, em 8,2% das prescrições houve necessidade de o profissional da enfermagem tirar sua dúvida. Do contrário, o medicamento poderia ser administrado em uma via inadequada, gerando graves danos ao paciente. Vale acrescentar que esses dados se referem principalmente às medicações prescritas manualmente, já que nas por via eletrônica o campo deve ser,obrigatoriamente, preenchido.

Quanto à presença de informações sobre o horário de administração ou freqüência, 7,3%(39) das prescrições na clínica médica não continham o horário, na Ortopedia, 3,3% (13) e na clínica cirúrgica cerca de 15,8 % (67) das prescrições. Portanto, em 8,8% (119) das prescrições, faltavam informações sobre o horário da administração ou freqüência dos medicamentos. Destaca-se que a decisão sobre o horário em que o medicamento será administrado é de responsabilidade da equipe de enfermagem e não do médico, embora se siga, obviamente, a freqüência por ele indicada. Provavelmente, nesses casos, a equipe de enfermagem ainda não havia indicado os horários nessas prescrições.

A Tabela 1 sintetiza os resultados obtidos comparando-os por clínica analisada.

 

 

Com respeito às políticas sobre a prescrição médica e sua relação na redução de sérios erros na medicação, o National Coordinating Council for Medication Error Reporting and Prevention (NCCMERP) recomenda que todas as prescrições devem ser legíveis, por via eletrônica; escritas em sistema métrico exceto para terapias que usam procedimentos padronizados tais como insulina, vitamina etc; incluir o nome do medicamento a dose e concentração; o zero deve sempre preceder às expressões numéricas abaixo de um; o zero terminal não deve nunca ser usado após décimo; evitar uso de abreviações e instruções vagas como: tomar conforme indicado ou quando necessário (15).

Após essas análises os profissionais-usuários foram entrevistados e os resultados apresentados a seguir.

Fase II:Entrevista com os profissionais-usuários

Os dados desta fase não foram separados por clínica devido à semelhança das respostas dos entrevistados.

Dos 84 entrevistados que concordaram em participar da pesquisa, 14 eram médicos ou médicos residentes, 17 enfermeiros, 40 auxiliares de enfermagem, 5 técnicos de enfermagem e 8 eram oficiais administrativos. Em relação ao tempo de utilização da prescrição eletrônica, 16 utilizam-na há até 1 ano; 18 há mais de 1 ano e até 2 anos e 50 há mais de 2 anos, ou seja, desde que a mesma havia sido implementada no hospital.

Desses entrevistados 69 (82,2%) referiram identificar erros nestas prescrições, 13 (11%) referiram não identificar erros e 2 (1,7%) não opinaram sobre isto. Questionados onde identificavam os erros, informaram principalmente na redação da dose, via de administração ou na freqüência. Sendo assim, houve 49 referências a erros na via de administração, 43 referências a erros na dose do medicamento, 31 referências a erros na freqüência com que o medicamento é administrado, 7 referências a erros na dose do medicamento, 11 no nome do medicamento (prescrição manual) e 7 referiram outros problemas como medicações suspensas e não comunicada à enfermagem; repetição de medicamentos que foram suspensos em prescrições anteriores; erro de cálculo e de digitação do número de gotas/min ou de ml/hora na soroterapia (Tabela 2).

 

 

Quanto às vantagens da utilização da prescrição médica eletrônica, os profissionais mencionaram a facilidade de leitura dos dados como sua principal vantagem (64 ocorrências), rapidez com que a prescrição é feita e liberada (35 ocorrências), diminuição do número de erros na prescrição (20 ocorrências), maior organização e praticidade (14 ocorrências), agilidade com a farmácia (10 ocorrências), arquivamento de dados (6 ocorrências), ficha de antimicrobiano inclusa (5 ocorrências), padronização de medicamentos (4 ocorrências), o nome da pessoa que prescreve (3 ocorrências) e outros (10 ocorrências) (Figura 1) .

Acresce-se o fato de que esse tipo de prescrição é mais organizada e prática de ser manuseada do que a prescrição manual anteriormente utilizada. O tamanho reduzido da letra na prescrição médica eletrônica, quando comparado com a manuscrita, permite o uso mais racional do papel, já que, no segundo caso seriam gastas mais folhas devido ao espaço maior utilizado para prescrever.

Muitos especialistas, assim como os entrevistados, afirmam que a liberação das prescrições via computador aumenta a eficiência na dispensação de medicamentos (16).

A padronização de medicamentos foi citada como uma das vantagens e essa é uma das inovações do sistema.As prescrições contendo o nome digitado do médico que as prescreveu também são consideradas uma vantagem pelos profissionais. Isto porque o sistema impede que sejam emitidas prescrições sem o número do CRM e/ou nome do profissional que a formulou e isso acaba facilitando a identificação do profissional quando existe alguma dúvida sobre a prescrição.

Quando questionados sobre as desvantagens as mais mencionadas oram: a repetição de prescrições de dias anteriores sem revisão (28 ocorrências), informações digitadas de forma incorreta (14 ocorrências), o computador pode falhar / dependência do sistema eletrônico (9 ocorrências), alterações nas prescrições realizadas manualmente (6 ocorrências), as vezes a prescrição fica confusa (5 ocorrências), perda de dinamismo em situações de emergências (4 ocorrências), falta de receituário feito eletronicamente (3 ocorrências), dificuldade para acrescentar informações novas (3 ocorrências), custo elevado (2 ocorrências) e outros (10 ocorrências)(Figura 2).

 

 

Os avanços tecnológicos, em particular, e o sistema computadorizado da prescrição da medicação reduzem a freqüência de muitos, mas não de todos os erros conforme pôde ser demonstrado (16), Outras desvantagens mencionadas foram alterações na prescrição que acabam sendo realizadas de forma manual, entre outros, como a perda de dinamismo em situações de emergência. O médico, nessas situações, precisaria acessar o sistema para prescrever um medicamento de necessidade imediata e isso levaria mais tempo em detrimento da prescrição manual. Ainda foram abordados: pequeno número de computadores disponíveis, a dificuldade de acrescentar novas informações, a necessidade de inserir, manualmente, os horários da administração do medicamento.

As sugestões apontadas pelos profissionais para melhorar o sistema foram as seguintes: revisão das prescrições/evitar repetição (11 ocorrências), preenchimento de receituários no sistema (8 ocorrências), maior atenção do profissional ao prescrever (5 ocorrências), simplificar o programa (5 ocorrências), maior número de computadores, impressoras e manutenção destes (2 ocorrências), requisição informatizada de quimioterápicos e psicotrópicos (2 ocorrências) e outros (9 ocorrências).

 

CONCLUSÕES

Os dados obtidos neste estudo indicam que foram identificadas prescrições rasuradas, com medicamentos suspensos e escritos de forma manual. Além disso, muitas prescrições apresentaram informações que deixaram dúvidas nos profissionais de enfermagem, em outras havia omissão de informações como dose de apresentação e dose prescrita, horário, via de administração e número de dias que antibióticos estão prescritos.

Quanto à opinião dos profissionais no que se refere à prescrição eletrônica notou-se que a maioria referiu identificar fatores causais de erros. Entretanto, relataram várias vantagens deste tipo de prescrição quando comparada à prescrição manual, sendo as mais citadas a legibilidade, rapidez e organização da primeira. No que concerne às desvantagens apontadas, observou-se que o problema mais mencionado foi o uso inadequado do sistema, tal como a repetição de prescrições de dias anteriores sem revisão e informações escritas de forma incorreta.

Embora o sistema computadorizado de prescrições apresente diferenças significativas quando comparado com a prescrição manual, esse estudo revelou que o sistema computadorizado, da forma como utilizado, não erradicou a possibilidade de ocorrência de fatores causais de erros na medicação, principalmente quando há também prescrições manuais, embora represente um grande avanço dentro das estratégias utilizadas para minimizar erros decorrentes de prescrições mal formuladas.

Algumas modificações nesse sistema tornam-se necessárias, como:

1) Elaborar sistemas cujos programas alertem os médicos quanto à dose exacerbada, histórico de alergia do paciente, freqüência inadequada, e interações medica-mentosas(17-19). O uso de abreviações e símbolos deve ser impossível quando implementado este programa(20).

2) Proporcionar maior conscientização dos médicos e residentes quanto à importância dos programas de treinamento para utilização do sistema, o qual visa limitar os erros adversos conseqüentes a prescrições mal elaboradas(21).

3) Existência de um número maior de computadores disponíveis nas clínicas; e

4) Adotar um sistema que possibilite a requisição do medicamento diretamente à farmácia pelo médico no momento em que a prescrição está sendo feita, agilizando o serviço e diminuindo a possibilidade de solicitar medicamentos inadequados.

Os dados analisados neste estudo indicaram que 17,7% das prescrições médicas eletrônicas analisadas apresentavam rasuras, em 16,8 medicamentos suspensos sendo que apenas 3,2% destes foram suspensos por via eletrônica, em 28,2% das prescrições analisadas havia informações que podiam deixar os profissionais em dúvida, em 25% das prescrições havia medicamentos prescritos manualmente. Foi observado que em algumas prescrições havia falta de informações como: em 8,2% destas faltava informação sobre a via de administração, em 8,8% sobre o horário da administração ou freqüência dos medicamentos.

Com o aperfeiçoamento do sistema e com educação por parte daqueles que prescrevem será possível tornar as prescrições mais detalhadas, informativas, corretas e fáceis de serem compreendidas pelos profissionais que as manuseiam, já que este é um grande avanço nas estratégias para redução de erros. A segurança do paciente e a melhoria da qualidade do serviço de saúde são metas que os profissionais têm e assim acredita-se que a prescrição eletrônica sendo bem utilizada pode contribuir no alcance dessas metas.

Esse estudo contribui para a discussão dos erros na medicação na medida em que indica que a tecnologia pode contribuir para prevení-los ou diminuií-los,entretanto é preciso que não se crie novos erros. A introdução da prescrição eletrônica ainda é novidade mesmo em países com reconhecido desenvolvimento tecnológico como é o caso dos E.U.A, por essa razão sua implantação deve ter avaliações periódicas para que o sistema seja aperfeiçoado. Bates em 2000, informa que o futuro do sistema de medicações nos hospitais será o de ter o médico escrevendo suas ordens em prescrições eletronicas e recebendo informações, via computador, sobre problemas como alergias e apoio à sua decisão na escolha do melhor tratamento. As prescrições serão enviadas eletronicamente pela farmácia e os farmacêuticos terão uma papel com mais orientação clínica e a enfermagem terá máquinas para a dispensação de medicamentos e códigos de barra determinarão as doses administradas a quem, por quem e quando. Alguns hospitais no Brasil já tem alguns desses sistemas, portanto o futuro pode estar mais próximo do que podemos imaginar.

 

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Recebido: 07/05/2003
Aprovado: 09/08/2003