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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.38 no.4 São Paulo Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342004000400013 

RELATO DE EXPERIÊNCIA

 

Educação de Enfermagem sem distâncias - uma ruptura espaço/temporal*

 

Nursing education with no distance: a space and time rupture

 

Educación de Enfermería sin distancias: una ruptura espacio/temporal

 

 

Denise Costa DiasI; Silvia Helena de Bortoli CassianiII

IProfessora Adjunta Curso de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE). denisedias@brturbo.com denisecd@unioeste.br
IIProfessora Associada do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da EERP/ USP

Correspondência para

 

 


RESUMO

Este artigo apresenta concepções pedagógicas e aspectos sobre a legislação da educação a distância, assim como tece considerações sobre tecnologias educacionais e relata a experiência de utilização de ambiente on-line de aprendizagem na graduação de Enfermagem. Foi oferecido um curso via Internet, no ambiente WebCT. O tema do curso foi Terapia Intravenosa (TIV). Inscreveram-se 49 alunos, destes, 25 concluíram 50% das atividades previstas. A utilização da Internet pode motivar o aprendiz e facilitar a inclusão digital do aluno de Enfermagem. Assim, a Internet pode ser vista como uma ferramenta auxiliar útil que possibilita uma ruptura espaço/temporal, em que o tempo e o espaço são estabelecidos de acordo com as necessidades, os interesses e a disponibilidade dos discentes.

Descritores: Educação em enfermagem. Internet. Infusões endovenosas. Educação a distância. Tecnologia educacional.


ABSTRACT

This article presents pedagogical assumptions and some distance educational policies. It also presents considerations about educational technologies, and describes the experience of using the Internet in the nursing education undergraduate courses. It was offered a course via Internet, in the WebCT environment. The subject theme was Intravenous Therapy. Initially 49 students enrolled in the course, among these, 25 completed 50% of the course activities. Internet can stimulate and facilitate the nursing student digital inclusion. Thus, Internet can be seen as a useful auxiliary tool that allows a space and time flexibility, where these factors are determined according to learner's interests and availability.

Descriptors: Nursing Education. Internet. Intravenous infusions. Education at distance. Educational technology.


RESUMEN

Este artículo presenta concepciones pedagógicas y aspectos de la legislación de la educación a distancia. Presenta también consideraciones sobre las tecnologías educativas y relata la experiencia de la utilización de la Internet en la educación de enfermería. Fue ofrecido un curso vía Internet, en ambiente WebCT, sobre el tema Terapia Intravenosa. Se inscribieron en el curso 49 estudiantes de los cuales 25 concluyeron el 50% de las actividades previstas. Así, la Internet puede ser vista como una herramienta auxiliar útil que posibilita una ruptura espacio/temporal, donde el tiempo y el espacio son establecidos de acuerdo con las necesidades, las metas y la disposición de los aprendices.

Descriptores: Educación en Enfermería. Internet. Infusiones intravenosas. Educación a distancia. Tecnología educativa.


 

 

INTRODUÇÃO

Vamos começar nosso artigo com uma estória: Era uma vez... uma aula realmente maravilhosa..., que foi ministrada por uma professora de filosofia que se utilizou da própria voz, e minimamente do giz e do quadro. Mas utilizou sua voz de uma forma cativante, construindo um ambiente de afetividade, estimulando o diálogo, colocando perguntas que, embora pueris, eram sábias, isentas de preconceito e que veiculavam uma sede de saber contagiante. Utilizou perguntas como: "o claro pode ser escuro? Compare o cinza no branco e o cinza no preto".

Lançava outras questões instigantes, como: "O doce pode ser amargo?" E argumentava que depende. "Se você sentir azia depois, ele pode virar amargo". Essas questões incitaram a imaginação dos alunos e suscitaram inúmeras reflexões. Para encurtar a história, todos adoraram a aula.

Tentando seguir o estilo da professora mencionada, colocaremos alguns questionamentos sobre a educação a distância:

O distante pode ser perto? Estar em frente ou ao lado de alguém significa estar perto? O aluno que dorme na frente do professor está perto ou distante? O aluno que pensa na namorada, nos filhos, ou que estuda para uma prova de outra disciplina em frente ao professor é um aluno próximo ou distante? O professor que dá uma atividade qualquer para o alunado cumprir em sala de aula, enquanto ele, dentro da mesma sala, corrige provas, ou lê qualquer coisa, está perto ou distante? Assim, a aula presencial, de "perto" pode ser muito distante, se for de corpo presente e espírito ausente.

E o tempo pode ser relativo? Nas horas os dias são iguais, mas podem ser curtos ou longos, sendo que a diferença deve estar naquilo que a gente faz. As reflexões que deram origem a introdução deste artigo, por exemplo, foram elaboradas ao mesmo tempo em eu descascava uma abóbora. Foi um tempo aproveitado de um dia que não foi nem curto, nem longo, por que tudo depende daquilo que a gente faz. E continuando a falar em tempo, "o amanhã de ontem é hoje, o hoje é ontem de amanhã"(1), assim as "novas" tecnologias educacionais de ontem podem não ser tão novas hoje para quem já as utiliza, mas podem continuar muito novas, ou mesmo desconhecidas, para quem ainda não teve contato com elas. Dessa forma o hoje pode continuar a ser o ontem.

Assim, a educação a distância poderá ser realmente distante se for fornecida através de textos, rádio, televisão ou programas de computador a um estudante isolado que possui pouca ou nenhuma interação com o instrutor ou seus colegas. Entretanto, as tecnologias atuais de informação permitem um alto poder de interação entre os participantes em um ambiente de Aprendizagem Cooperativa Apoiada por Computadores (ACAC)(2). Desta forma, o que era distante pode tornar-se "perto". Isto possibilita uma ruptura espaço/temporal, onde o tempo e o espaço são estabelecidos de acordo com as necessidades, interesses e a vontade dos aprendizes. A mudança não se dá somente em termos de espaço e tempo, mas, também, nas dimensões psicológica, sociológica e pedagógica, permitindo que a educação torne-se mais abrangente(3).

Na combinação dos recursos das telecomunicações com a informática, originando a Telemática, surge uma nova fase de sistemas de educação a distância, caracterizando-se como sistemas interativos abertos com o uso de redes telemáticas, que podem fazer uso de mensagens de texto, audio e vídeo, num sistema interativo de todos com um, um com todos e todos com todos. Essa nova fase pode oferecer soluções aos problemas de interatividade e de individuação, considerando o sujeito aprendiz em sua singularidade e contexto.

Para que a utilização de novas tecnologias em um contexto educacional seja realmente efetiva, é fundamental que exista uma profunda ligação entre as bases epistemológicas da conduta educacional do professor e da abordagem pedagógica adotada no projeto do ambiente. Sem esta ligação, estaremos simplesmente fazendo uma pseudo-modernização de uma prática educativa sem significado(2).

 

LEGISLAÇÃO E CONSIDERAÇÕES SOBRE EDUCAÇÃO À DISTÂNCIA

A nova Lei de Diretrizes e Bases da educação nacional (LDB), lei federal nº 9394 destaca no artigo 80 o incentivo à educação à distância.

Art. 80- O poder público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada(4).

Posteriormente, o decreto nº 2494 de 10 de fevereiro de 1998 regulamenta o artigo 80 acima, estabelecendo que:

Art. 1º - Educação a distância é uma forma de ensino que possibilita a auto-aprendizagem com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados, apresentados em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação(5).

No entanto, considerando que, se é possível conviver, interagir e cooperar num ambiente virtual, as distâncias podem ser transpostas e transformadas em proximidade, por isso preferimos utilizar a expressão "educação sem distâncias".

O próprio Ministério de Educação e Cultura (MEC) já reconhece que o conceito de Educação a Distância ganha uma dimensão renovada, tornando-se, na verdade, uma educação sem distância(a).

Tem sido observado que a denominação "Educação a Distância" começa a ficar ultrapassada, pois observa-se que a distância na educação além de relativa pode ser vista sob diferentes enfoques, e o que realmente importa é a sensação de distância percebida pelo aprendiz(6).

 

OS DILEMAS DA TECNOLOGIA EDUCACIONAL

Existem dilemas relacionados ao uso de tecnologias educacionais, onde de um lado os apocalípticos vêem nessa opção uma via de desmoronamento da cultura, com conseqüências destrutivas para a própria dimensão humana. Prevêem o desenvolvimento de uma sociedade mais fechada, a sociedade de controle extremo, a sociedade não-reflexiva, de preponderância imagística, em que o próprio conhecimento corre o risco de ser perdido. E, de outro lado, os otimistas que vêem inúmeras possibilidades para a promoção do ser humano, uma sociedade do conhecimento, um coletivo voltado à maior socialidade, uma inteligência coletiva. Anuncia-se a possibilidade de uma nova e completa infraestrutura de aprendizagem instalada na rede (Internet), desde enciclopédias, bibliotecas virtuais, museus de arte, até escolas, oficinas literárias e de arte interativas e universidades abertas, conectando alunos de todos os cantos do mundo(7). O mesmo deverá ocorrer com a saúde e a pesquisa.

Observa-se ainda que, numa posição intermediária estão os que, embora reconheçam as possibilidades para uma sociedade do conhecimento, solidária e democrática, consideram também as dificuldades de uma sociedade informacional, onde a abundância da informação contrasta com a comunicação de sentido único e o seu manejo atrelado a pressupostos de uma ainda sociedade industrial, entre os quais a concentração na produção e distribuição, o controle, a programação e a especialização de tarefas(7).

É fato conhecido que o avanço científico-tecnológico não tem contribuído, como o esperado, para a melhoria das condições de vida de grande parte da humanidade, tendo ao contrário aumentado as desigualdades sociais e regionais.

As alunas de Enfermagem, de maneira geral, são procedentes de um extrato sócio-econômico mais baixo, se comparadas a outros cursos superiores, e as enfermeiras são historicamente "submissas". A escola vem tendo um papel de reforçadora da submissão, preconizando como postura profissional valores que subentendem à discrição, controle, disciplina, obediência, docilidade e acriticidade que justificam e/ou reforçam a dominação/subordinação de gênero e de classe na área da saúde(8). Desta maneira, acreditamos que a utilização de novas tecnologias propicia à aluna de Enfermagem a inclusão digital e o aprendizado ativo em busca de informações disponíveis na rede, minimizando desigualdades sociais e de informação.

As razões para a utilização de recursos da telemática na educação de Enfermagem são muitas, entre elas, destaca-se o fato de que um número crescente de organizações começa a fazer uso dos métodos de comunicação eletrônica, e isso tem transformado a informática numa parte importante do currículo, em todos os níveis. Outra razão é familiarizar os profissionais para a busca e utilização consciente de informações via Internet, pois é recomendável que estes aprendam mais acerca dessa tecnologia e a utilizem como forma de comunicação com seus pares, orientação de pacientes, coordenação de grupos de auto-ajuda, atualização profissional, entre outras possibilidades oferecidas pela rede.

 

CURSO EXTRACURRICULAR VIA INTERNET PARA DISCENTES DE GRADUAÇÃO DE ENFERMAGEM

É reconhecida a necessidade de utilização de tecnologias da informação na educação de Enfermagem. No entanto, esse ainda é um tópico negligenciado em muitas escolas de Enfermagem no Brasil, independente do caráter de pública/privada.

Os objetivos deste estudo foram desenvolver material educacional sobre Terapia Intravenosa (TIV) e disponibilizar na Internet, dentro do ambiente WebCT. Avaliar o material educacional desenvolvido envolvendo especialistas no ensino de Enfermagem. E avaliar a utilização do material e das ferramentas disponíveis no ambiente WebCT pelas alunas e a participação/interação.

Optamos por um estudo descritivo, desenvolvido em duas etapas, a saber:

• etapa 1: Construção dos módulos do curso sobre TIV, avaliação preliminar e disponibilização no ambiente WebCT.

• etapa 2: Avaliação formativa e final pelos alunos que participaram do curso on-line sobre TIV.

O estudo foi desenvolvido em escolas e cursos de graduação de Enfermagem de três localidades: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo - USP, Faculdade de Enfermagem do Centro Educacional Barão de Mauá, de Ribeirão Preto - SP; Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, de Porto Alegre - RS; e cursos de Enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE e da Universidade Paranaense - UNIPAR, ambas de Cascavel - PR.

Na etapa 1, a população foi constituída por 4 enfermeiras, professoras do ensino superior, mestres em enfermagem, que voluntariamente avaliaram o conteúdo dos módulos.

Ainda nessa etapa contamos com 15 alunas do curso de enfermagem da Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE que participaram da versão piloto do curso on-line sobre TIV e o avaliaram.

Na etapa 2, a população foi constituída por alunas de graduação em Enfermagem, preferencialmente do 5º semestre em diante, pois era importante que já tivessem alguma exposição ao conteúdo sobre terapia intravenosa para que pudessem participar discutindo suas experiências e dificuldades relacionadas ao tema. Inscreveram-se no curso 49 alunos, e fizeram parte da amostra 25 alunas que completaram até 50% das atividades do curso, de acordo com critérios de inclusão estipulados.

O projeto de pesquisa foi submetido à análise da Comissão de Ética em Pesquisa da EERP-USP e considerado aprovado em 17 de abril de 2002, após o que foi iniciada a coleta de dados. As alunas participantes foram orientadas sobre os objetivos da pesquisa e consentiram em participar assinando termo de consentimento informado.

Com duração de três semanas, o curso foi ministrado no final do primeiro semestre de 2002 para discentes de graduação de enfermagem. Todas as alunas participaram voluntariamente. Como pré-requisito, foi solicitado que tivessem familiaridade com a Internet e e-mail.

O curso foi planejado de forma a propiciar uma avaliação formativa, tanto do conteúdo quanto da modalidade de ensino. Foram desenvolvidos instrumentos para possibilitar essa avaliação formativa.

Antes de iniciar o curso On-line sobre Terapia Intravenosa, foi solicitado aos participantes que respondessem um questionário de entrada e com base nesses dados elaborou-se o perfil dos inscritos no curso. Este dado foi importante para possibilitar a valorização de aspectos de identidade individual e grupal, um investimento na resignificação de experiências pregressas dotadas de poder mobilizador do aprendizado atual e o trabalho agregando ações diferenciadas conforme seus sujeitos. No desafio de veicular um conteúdo significativo, entendemos como fundamental considerar não apenas o "como" e "o que", mas, também, "o quem", envolvidos nas relações de ensino-aprendizagem.

O ambiente utilizado para disponibilizar o curso na Internet, o WebCT, é um software licenciado pela Universidade de São Paulo, que oferece ferramentas para a criação, a aplicação e a administração de cursos baseados na Internet. O WebCT não precisa ser instalado na máquina de cada usuário, mas funciona de forma centralizada em um servidor, onde os usuários acessam de qualquer computador que possua um navegador na Internet. Esse software auxilia o docente na disponibilização de conteúdo e no gerenciamento de atividades educacionais na Internet, sem que esse necessite aprender html ou outras habilidades computacionais mais complexas.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

Resultados da Etapa 1

Inicialmente foi realizado levantamento bibliográfico relacionado ao tema e o desenvolvimento do conteúdo foi organizado em módulos, em seqüência lógica, com definição dos objetivos para o aprendizado de cada módulo. Na elaboração de cada módulo tentou-se incluir atividades que demandassem a participação ativa do aluno. O conteúdo foi desenvolvido considerando-se a importância de minimizar riscos relacionados à Terapia Intravenosa, preparando o alunado para reconhecer complicações e propor intervenções de enfermagem adequadas.

O conteúdo desenvolvido foi submetido a avaliação de peritas, que preencheram instrumento avaliativo, e de maneira geral, consideraram o conteúdo satisfatório em termo de: abrangência, pertinência, organização, seqüência lógica, clareza, objetivos instrucionais adequados e exercícios que respondam a esses, atualização e correção conceitual.

Após disponibilizarmos os módulos do curso no ambiente WebCT realizamos um teste piloto com alunas de graduação em Enfermagem. Estas, de maneira geral, concordaram com a apropriação da apresentação do conteúdo em termos de texto e ilustrações, clareza dos comandos do programa (conexão e ícones), interatividade do material, adequação do relacionamento interpessoal entre as alunas e entre estas e a instrutora, e relataram que sentiram-se estimuladas pela novidade. Esta experiência propiciou, sobretudo, experiência para a docente sobre a utilização das ferramentas do ambiente.

Resultados da Etapa 2

Foi avaliada a utilização do material disponibilizado no WebCT e utilizado por alunas de graduação de Enfermagem de três diferentes localidades. Cabe notar que não foram observadas diferenças em termos de participação no curso entre alunos de diferentes localidades. Concluímos que a distância não foi um impedimento ao aprendizado uma vez que a ferramenta utilizada aproximou os alunos entre si e com a instrutora. Na avaliação, as alunas mencionaram aspectos limitadores e aspectos facilitadores da ferramenta. Colocaram suas opiniões sobre a sua participação, assim como a de suas colegas e da instrutora, no ambiente on-line de aprendizagem.

Verificamos que entre os aspectos facilitadores, houve destaque para a flexibilidade espaço-temporal possibilitada pelo ambiente virtual, acesso a recursos técnicos, a interação positiva com a instrutora e aspectos relacionados à organização e clareza do conteúdo do curso. E entre os aspectos dificultadores destacaram-se: problemas técnicos, a falta de tempo por parte dos alunos e falta de interação pessoal.

Sobre os aspectos que facilitaram houve destaque para a conveniência desta modalidade educacional, como a liberdade de hora e local, sendo esta também ressaltada na literatura como uma das principais vantagens. Em estudo realizado anteriormente, o alunado mencionou esta vantagem, e quanto mais distante do campus residiam, mais conveniente acharam o curso via Internet(9).

As alunas que completaram o curso, de maneira geral, avaliaram positivamente a oportunidade de aprendizagem no ambiente on-line, como vemos abaixo na avaliação de uma delas:

...De primeira mão, posso dizer que adorei a idéia do curso on-line! Foi muito tranqüilo para mim, li aos poucos, voltei quando precisei, acessei os sites sugeridos e respondi às perguntas, tudo ao meu tempo. É bem diferente de um curso com palestras, exposições de slides e transparências em que a gente não sabe se presta atenção no palestrante ou faz anotações. Jóia demais...(A5)

Embora as alunas tenham valorizado a experiência, percebeu-se uma elevada evasão (49%) durante o curso, e ao serem contatadas, a maioria informou que a dificuldade maior era a falta de tempo, seguida de dificuldade de acesso. Outros estudos sobre a modalidade de educação via Internet constataram taxas elevadas de evasão, e foi observado que entre os fatores determinantes para a desistência as respostas revelavam a "falta de tempo"(10-11). Aparentemente os participantes não anteciparam a necessidade real de tempo ou não gerenciam o tempo de estudo com autonomia.

Motivação ou "fome" de aprender algo necessário para o seu futuro desempenho como profissional é condição que inferimos ter contribuído para a participação dos alunos, e aqueles que deixaram de participar possivelmente não sentiram essa necessidade no momento em que o curso estava sendo oferecido. Ou mesmo sentindo a necessidade, deixaram de participar por falta de tempo. No entanto, consideramos que, neste caso, possa ter havido falha de organização e planejamento por parte dos alunos, pois caso não houvesse tempo livre suficiente o aluno não deveria inscrever-se, uma vez que o tempo livre foi um pré-requisito solicitado. Mas, cabe ainda observar que:

Não paramos de renunciar a muitas coisas que, por um momento, parecem-nos desejáveis, pois no uso damo-nos conta de que o investimento é mais pesado do que pensávamos, ou de que entra em conflito com outros projetos ou outros desejos(12).

Observamos que a participação dos alunos foi maior inicialmente, decrescendo ao decorrer do curso. Observa-se que a motivação individual pode sofrer, com relação à mesma pessoa, variações ao longo do tempo, tendo em vista que uma necessidade motivacional atendida desaparece, dando origem a novos estados de carência(13).

Outro fator, observado em cursos on-line(14), foi que os alunos que estavam regularmente matriculados na disciplina, e conseqüentemente teriam uma nota associada em seu histórico, tinham em geral uma participação e envolvimento maior que os outros. Os mesmos autores comentam que a falta de uma recompensa (nota) que sirva de incentivo para a participação pode trazer efeitos indesejados de falta de interação, pois os participantes acabam dando prioridade a seus afazeres pessoais e/ou profissionais. Ou seja, as atividades estão direcionadas a um objetivo ou ganho final. Segundo esses autores, uma nova experiência deveria ser realizadas com alunos regularmente matriculados em disciplinas obrigatórias, até que eles sejam motivados por uma estrutura curricular a cursar outras atividades de sua livre escolha com créditos incorporados ao curso.

Ao avaliarmos a utilização do material disponibilizado no WebCT, também questionamos os alunos quanto a aspectos relacionados a utilização das ferramentas disponíveis no ambiente. E, de maneira geral, os alunos avaliaram positivamente aspectos como clareza dos comandos para conexão e ícones; interatividade do material, velocidade de carregamento das telas e a ajuda oferecida pelo programa.

Esta investigação concebeu a educação na abordagem da Teoria da Atividade onde existe a necessidade de desconstrução do paradigma tradicional de ensino, do qual os alunos e a própria instrutora/pesquisadora foram alvo ao longo de sua vida estudantil. Existe a necessidade de participação ativa tanto dos alunos, como do instrutor que deve atuar como mediador, com o intuito de viabilizar a aprendizagem.

Os participantes do curso, suas ações, relações e os artefatos utilizados constituem uma ecologia de aprendizado, um espaço de trocas energéticas, de experiências e de informações. O uso da Internet na educação, assim como de outras tecnologias (como a própria escrita) é um recurso externo, que pode ampliar as atividades humanas no processo de ensino/aprendizagem, ampliando recursos internos e facilitando o alcance de objetivos. Esse recurso deve ser utilizado na educação de Enfermagem, e mostra-se útil para o ensino específico da TIV e pode ser expandido para outros conteúdos próprios da Enfermagem.

A utilização de ambientes de aprendizagem colaborativa, por meio da Internet, pode motivar o aprendiz e facilitar a inclusão digital do discente de Enfermagem.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Acreditamos que na educação de Enfermagem, ao oferecer cursos baseados na Internet, ou nela apoiados, estaremos propiciando ao corpo discente uma familiarização com tecnologias de informação atuais. No entanto, não podemos utilizar essa ferramenta ingenuamente, e sabemos da necessidade de buscar espaços dentro da profissão para reflexões críticas sobre as novas tecnologias.

Para finalizar, é preciso lembrar que na educação, o tempo e distância, o claro e escuro, dependerão do jeito que se vê e do jeito que se faz. Aquela aula maravilhosa da professora que se utilizou, acima de tudo da própria voz, e de uma abordagem pedagógica muito apropriada, continuará sempre por nós resgatada. No entanto, vale lembrar que para assistir essa aula foi preciso viajar quase 1000 Km, o que pode ser difícil, ou às vezes impossível. Assim, a Internet vem contribuindo para transpor barreiras geográficas e, principalmente para aproximar pessoas no espaço virtual. Para aproximar os alunos e propiciar o aprendizado é preciso que o docente faça o máximo para cativar, para construir um ambiente de afetividade e estimular o diálogo, sem estes ingredientes o uso de qualquer modalidade educacional poderá estar fadado ao insucesso.

 

REFERÊNCIAS

(1) Masur J. O frio pode ser quente? São Paulo: Ática; 1985.         [ Links ]

(2) Nitzke JA, Carneiro MLF, Franco SRK. Ambientes de aprendizagem cooperativa apoiada pelo computador e sua epistemologia. Rev Inform Educ: teor prát 2002; 5(1):13-23.         [ Links ]

(3) Subtil MJD. Considerações gerais sobre a educação à distância a partir da perspectiva de alguns autores. Rev Inform Educ: teor prát 2002; 5(1):25-30.         [ Links ]

(4) Brasil. Lei n. 9394, de 20 de dezembro de 1996. Dispõe sobre as diretrizes para a educação nacional. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, 23 dez. 1996. Seção 1, p. 2354.         [ Links ]

(5) Kramer EAWC, Miragem R, Silva MS, Oliveira MMG, Souza OS, Daniel PM. Educação à distância: da teoria à prática. Porto Alegre: Alternativa; 1999; p. 70        [ Links ]

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(7) Axt M. Tecnologia na educação, tecnologia para a educação: um texto em construção. Rev Inform Educ: teor prát 2000; 3(1):51-62.         [ Links ]

(8) Meyer DE. A formação da enfermeira na perspectiva do gênero: uma abordagem sócio-histórica. In: Waldow VR, Lopes MJM, Meyer DE. Maneiras de cuidar, maneiras de ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas; 1995. Cap. 4, p. 63.         [ Links ]

(9) Billings DM, Connors HR, Skiba DJ. Benchmarking best practices in web-based nursing courses. ANS Adv Nurs Sci 2001; 23(3):41-52.         [ Links ]

(10) Coelho ML. A evasão nos cursos de formação continuada de professores universitários na modalidade de educação a distância via Internet [online]. 2002 Disponível em: http://www.abed.org.br/publique/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm? UserActive Template= 4abed&infoid=195&sid=102. (24 fev. 2003)        [ Links ]

(11) Moraes RAO. Aula virtual e democracia [online]. Disponível em: www. pedagogia. pro.br/aula%20virtual%20democracia.htm (12 fev. 2003)        [ Links ]

(12) Perrenoud P. Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 2000.         [ Links ]

(13) Bergamini CW. Motivação nas organizações.4ª ed. São Paulo: Atlas; 1997.         [ Links ]

(14) Fuks H, Gerosa MA, Lucena CJP. Sobre o desenvolvimento e aplicação de cursos totalmente a distância na internet. Rev Bras Inform Educ 2001; 9:61-79.         [ Links ]

 

 

Correspondência para:
Denise Costa Dias
Rua Terra Roxa, 1408 - Jd. Nova York
Cascavel CEP - 85816-360 - PR

Recebido: 08/10/2002
Aprovado: 21/06/2004

 

 

(a) Maiores informações: http://www.mec.gov.br/sesu/ftp/EAD.pdf Relatório da comissão assessora para educação superior a distância
*Extraído da Tese "Educação sem distância: Utilização do WebCT como ferramenta de apoio para o ensino da Terapia Intravenosa na graduação de enfermagem" , Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EERP/USP), 2003.