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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.40 no.3 São Paulo Sept. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342006000300001 

EDITORIAL

 

A investigação qualitativa: zelo pelo rigor e pela ética

 

 

Profª Drª Magali Roseira Boemer

Membro do Corpo Editorial da Revista da Escola de Enfermagem da USP

 

 

O termo Saúde implica em uma área na qual atuam vários profissionais e a primeira idéia a ser abordada é a composição deste grupo. É necessário atentar para as distintas perspectivas desses profissionais, o que se coaduna com a tendência atual de multiprofissionalidade. Um olhar mais abrangente talvez venha a requerer que alcancemos mais um degrau nessa visão, ou seja, implementar a idéia de composição de nossos saberes, de sua interseção (pois ainda são enfocados de modo fragmentado), o que supõe a construção de interdisciplinaridade.

Uma maior abrangência pode significar ainda o entendimento da relação Profissional Saúde-Paciente como uma relação fundamentalmente entre pessoas, o que envolve encontro de subjetividades. A idéia do homem inserido no mundo, em toda sua facticidade, vem sendo resgatada por diversos pesquisadores e sob distintos referenciais. A própria introdução do ensino da bioética, em algumas escolas de saúde, veio substanciar mudanças de enfoques na forma de olharmos o homem a quem cuidamos e que vem sendo sujeito-objeto de nossas investigações.

Entretanto, construir relações que contemplem a dignidade do homem não é algo estabelecido, mas um processo em permanente construção, envolvendo pessoas em seus movimentos existenciais. Parece-nos que justamente aí reside o grande desafio: - lidar com essa ambigüidade inerente à condição humana:

- a possibilidade de mudanças, considerando nossa dimensão criativa, sensível, solidária, co-existindo com aquela possibilidade de "mesmice", do uso exclusivo do raciocínio lógico formal, do controle do homem sobre o homem, do medo de mudar.(a)

Um olhar abrangente para a relação pessoa-pessoa, numa condição que envolva a saúde e a doença, vai requerer o reconhecimento de vulnerabilidades, fragilidades e possibilidades humanas, presentes no ser cuidador e naquele a ser cuidado. Transcendendo a dimensão técnico-científica, essa dicotomia não encontra respaldo numa perspectiva existencial, na qual todos nos encontramos em contínuo movimento de cuidar de ser.

Sob a ótica da investigação científica, essa visão implica em zelo com dois pólos relevantes: o zelo pelo rigor científico e ético da investigação.

No que se refere à pesquisa em suas modalidades qualitativas, a literatura e a experiência de pesquisar em enfermagem nos demonstram que o melhor indicador para um trabalho de investigação é a sua coerência interna, o rigor na utilização do método e a fidedignidade do autor ao seu referencial teórico.

O crescente prestígio das metodologias qualitativas nem sempre tem sido acompanhado da utilização adequada de metodologias que permitam lidar de maneira competente, com o problema proposto. Está se tornando comum a aceitação acrítica de metodologias alternativas que, por vezes, podem travestir a ausência de método. A literatura vem expressando essa preocupação.

Do ponto de vista ético, há enfrentamentos na pesquisa qualitativa que carecem de respostas ou norteamentos, como por exemplo, a preocupação com a guarda dos dados registrados em gravador, diários de campo e outros recursos; os riscos a que estão expostos os participantes de pesquisas baseadas em entrevistas, narrativas ou histórias de vida, quando estão em jogo a perspectiva do pesquisador, a dos participantes e a dos comitês de ética em pesquisa.

A pesquisa científica requer uma discussão ética pertinente, qualquer que seja a área em que os alvos da investigação digam respeito a distintos aspectos da natureza que impliquem na existência humana. Isto se potencializa quando os objetos de estudo são os próprios humanos.

Ainda sob a perspectiva da ética, há outro alerta que diz respeito à forma de conduzirmos nossos orientandos pelos caminhos da pesquisa, ajudando-os nas aberturas de possibilidades, policiando-nos para não transformarmos as técnicas e recursos básicos em "camisas-de-força" no processo de coleta de dados. Por outro lado, haverá sempre o zelo pelo rigor científico.

Os princípios da ética em pesquisa devem ser resguardados no próprio desenho da investigação, seu objeto, objetivos, referenciais teóricos, estratégias de investigação, divulgação dos resultados e finalidades a que se propõem os pesquisadores.

Finalizando, diríamos que a ética na Ciência vem se apresentando como relevante para os pesquisadores e, nesse sentido, há de se ressaltar a realização de um Seminário sobre esse tema com o objetivo de apresentar estudos sobre a elaboração de uma proposta de declaração mundial de ética em ciência, que poderá servir de base para um código de conduta para os pesquisadores (agência de notícias da FAPESP, 19/05/2006).

 

 

(a) Boemer MR, Correa AK. Repensando a relação do enfermeiro com o doente: o resgate da singularidade humana. In:Branco RFGR. A relação com o paciente: teoria, ensino e prática. Rio de Janeiro: Guanabra-Koogan; 2003. p. 263-9.