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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.40 no.3 São Paulo Sept. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342006000300003 

RELATO DE PESQUISA

 

Como acompanhar a progressão da competência comunicativa no aluno de Enfermagem*

 

How to follow communicative competence progress in nursing students

 

Cómo acompañar la progresión de la competencia comunicativa en el alumno de Enfermería

 

 

Eliana Mara BragaI; Maria Júlia Paes da SilvaII

IEnfermeira. Professora Assistente Doutora do Departamento de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Botucatu-UNESP elmara@fmb.unesp.br
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da EEUSP juliaps@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objetivo propor bases metodológicas para o acompanhamento da progressão da competência comunicativa no aluno de Enfermagem. Utilizando metodologia qualitativa e referencial teórico de comunicação interpessoal, desenvolvemos a pesquisa entrevistando 13 professores com experiência acumulada em atividades de ensino e pesquisa de comunicação em Enfermagem. Nos dados obtidos, os entrevistados relataram que o acompanhamento da progressão da competência comunicativa do aluno ocorre: observando a evolução das habilidades comunicativas nos alunos e pacientes; viabilizando momentos de expressão de pensamentos, sentimentos e percepções; fornecendo feedback sobre o desenvolvimento das habilidades comunicativas; estimulando-os ao desenvolvimento das habilidades em comunicação; realizando avaliação formativa e tutorando o aluno.

Descritores: Relações interpessoais. Educação em enfermagem. Competência profissional. Estudantes de enfermagem.


ABSTRACT

This work is aimed at suggesting methodological foundations for following Nursing student's progress in communicative competence. Using qualitative methodology and theoretical reference of interpersonal communication, the research was developed through interviews with 13 professors with experience both in teaching activities and communication research in Nursing. Interviewees reported that they follow their students' progress in communicative competence through the observation of their communicative abilities with patients; by fostering moments for the expression of thoughts, feelings and perceptions; by giving feedback on the development of communicative abilities; by stimulating their communication abilities; by performing formative assessments and tutoring.

Key Words: Interpersonal relations. Education, nursing. Professional competence. Students, nursing.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivo proponer bases metodológicas para el acompañamiento de la progresión de la competencia comunicativa en el alumno de Enfermería. Utilizando metodología cualitativa y referencial teórico de comunicación interpersonal, desarrollamos la búsqueda entrevistando a 13 profesores con experiencia acumulada en actividades de enseñanza y búsqueda de comunicación en Enfermería. En los datos obtenidos, los entrevistados relataron que el acompañamiento de la progresión de la competencia comunicativa del alumno ocurre: observando la evolución de las habilidades comunicativas en los alumnos y pacientes; viabilizando momentos de expresión de pensamientos, sentimientos y percepciones; suministrando feedback sobre el desarrollo de las habilidades comunicativas; estimulándolos al desarrollo de las habilidades en comunicación; realizando evaluación formativa y acompañamiento del alumno.

Descriptores: Relaciones interpersonales. Educación en enfermería. Competencia profesional. Estudiantes de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A comunicação faz com que as pessoas se relacionem, compartilhando experiências, idéias e sentimentos e, ao se relacionarem, influenciem-se, modificando a realidade em que estão inseridas(1).

A comunicação é importante para nosso crescimento como seres humanos, faz parte de nossas experiências anteriores e também daquelas adquiridas a cada dia. Somos seres de relações e esta compreensão nos leva a buscar maiores entendimentos sobre conceitos, princípios e habilidades a serem adquiridas no processo comunicativo.

Neste sentido, adquirir competência é ter capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação, apoiada em conhecimentos, mas sem limitar-se a eles(2-3). Não existem competências que não se apóiem em conhecimentos, quase a totalidade das ações humanas exige algum tipo de conhecimento, às vezes superficial, outras vezes aprofundado, oriundo da experiência pessoal, do senso comum, da cultura partilhada em um círculo de especialistas, ou da pesquisa tecnológica ou científica. São representações da realidade, que construímos e armazenamos ao sabor de nossa experiência e de nossa formação.

Em uma situação interacional, todo comportamento tem valor de mensagem, ou seja, é comunicação, além disso, toda a comunicação é um compromisso, pois transmite uma informação e impõe um comportamento(4).

Os alunos esperam ser emissores e receptores, em situação de igualdade com o professor, nos encontros em sala de aula e desejam poder participar ativamente das interações, pois são indivíduos com capacidade suficiente para perceberem aspectos positivos ou negativos, que proporcionem transformações nos processos de troca(5).

A universidade é uma instituição com o compromisso catalisador do processo educacional, deve transformar os indivíduos, professores e alunos em cidadãos autônomos, adaptados à realidade e com competências adequadas à sua profissão(6).

Competência é a capacidade de fazer e fazer-se oportunidade. Inclui questionamento reconstrutivo como base inovadora por meio do conhecimento e como processo de formação do sujeito histórico capaz. O conhecimento é uma ferramenta importante da competência, mas não assegura uma ação competente, é a capacidade e a coragem para inovar, associada a outras habilidades cognitivas e comportamentais que configuram o perfil do indivíduo competente(7).

Entendendo que apreender o processo comunicativo é fundamental para o ensino e o aprendizado da Enfermagem, temos como objetivo neste estudo, propor bases metodológicas para o acompanhamento da progressão da competência comunicativa no aluno de Enfermagem.

 

PERCURSO METODOLÓGICO

Este é um estudo exploratório, com metodologia qualitativa para o qual utilizamos o referencial teórico da comunicação interpessoal verbal e não-verbal de Silva(8).

O estudo foi desenvolvido em Universidades brasileiras, públicas e privadas por serem os locais de origem dos professores que têm desenvolvido estudos relativos a competências comunicativas como instrumento no ensino da Enfermagem.

Os sujeitos do estudo foram treze professores com experiência acumulada em atividades de ensino e pesquisa na área de comunicação em Enfermagem, destacados e localizados por meio de um levantamento de publicações e referências na área de comunicação em Enfermagem em nível nacional e internacional, nos últimos dez anos.

Inicialmente, o projeto desta pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista-UNESP de Botucatu, Estado de São Paulo, tendo recebido do mesmo, parecer favorável para a realização do estudo.

O procedimento escolhido para a coleta de dados foi a entrevista e os enfermeiros, selecionados de acordo com os critérios previamente estabelecidos, foram contatados por telefone e ou e-mail, onde foram explicitados o projeto e seus objetivos e, a partir da pré-disposição dos mesmos, agendadas as entrevistas que foram gravadas após a autorização e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Durante as entrevistas, foram apresentadas questões norteadoras que visavam orientar os entrevistados e promover uma ampliação e aprofundamento da comunicação: A questão norteadora a ser explorada, neste estudo, foi: Como você acompanha a progressão de competência comunicativa no aluno?

Os dados obtidos com a população por meio das entrevistas foram transcritos em sua íntegra e, posteriormente, devolvidos aos sujeitos para ciência e para que os mesmos tivessem a oportunidade de corrigir e ou acrescentar quaisquer outros aspectos que julgassem necessários.

Como método científico para o tratamento e análise dos dados, utilizou-se a Análise de Conteúdo(9), a qual é um conjunto de técnicas de análise das comunicações, visando obter, mediante procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores, quantitativos ou não, que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) dessas mensagens.

São três as etapas que caracterizam o método da Análise de Conteúdo: a pré-análise, a exploração do material, e o tratamento dos resultados (inferência e interpretação). Na pré-análise fizemos a transcrição das entrevistas na íntegra e uma leitura flutuante dos textos, tomando contato exaustivo com o material.

A seguir, na fase de descrição analítica, fizemos recortes e a escolha das unidades de registro, elegendo-as e codificando-as, mediante a convergência com o fenômeno. Desta forma, classificamos as unidades temáticas sob um título genérico, com base em um grupo de elementos, num processo chamado categorização, mais especificamente a categorização semântica, ou seja, os elementos foram agrupados conforme o tema pesquisado.

As categorias são empregadas para se estabelecerem classificações, e trabalhar com categorias significa agrupar elementos, idéias ou expressões em torno de um conceito capaz de abranger tudo isso(9).

No tratamento dos resultados obtidos, na inferência e na interpretação, os dados emergiram como significativos e válidos, portanto, nesta fase, tendo à disposição os dados organizados, pudemos compreender as propostas de referenciais e competências comunicativas interpessoais para o ensino da Enfermagem, apontadas por estudiosos da área.

 

APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS E ANÁLISE DOS DADOS

Os entrevistados relataram que o acompanhamento da progressão da competência comunicativa do aluno ocorre:

• observando a evolução das habilidades comunicativas nos alunos e pacientes;

• viabilizando momentos de expressão de pensamentos, sentimentos e percepções;

• fornecendo feedback sobre o desenvolvimento das habilidades comunicativas;

• estimulando-os ao desenvolvimento das habilidades em comunicação;

• realizando avaliação formativa;

• tutorando o aluno.

Observando a evolução das habilidades comunicativas nos alunos e pacientes

A observação da evolução das habilidades no dia-a-dia das relações interpessoais, a evolução dos pacientes, o interesse que demonstram pelo outro, as situações que surgem, mostram sua própria evolução e segurança como aluno.

Observando, estando junto na hora das interações com os pacientes. (E 1)

A gente observa essa progressão no dia-a-dia das relações, não só com o paciente, mas com o colega e com outros profissionais da equipe. (E 4)

Através da evolução dos pacientes, de quando começou a ser cuidado, de repente ele vai se transformando ou os alunos vão ficando mais seguros e todas as questões vão sendo trabalhadas. (E 6)

Pelo interesse que demonstram pelo contato com o outro, a forma de expressar-se com o outro, o cuidado que têm no sentido de provocar efeitos positivos... (E 7)

No dia-a-dia com o aluno a gente vê a questão da comunicação, a questão técnica, quer dizer a gente vê tanto as habilidades humanas, como a interação, a comunicação, a liderança. Então a gente vê o fazer a ponte da teoria com a prática, incluindo a técnica também. Essa progressão é no dia-a-dia, nas nossas atividades teórico-práticas, no hospital e aqui, na sala de aula. (E 8)

Estando atenta às perguntas que o aluno faz, ali na cabeceira quando ele está começando, trocando a cama ou encaminhando o paciente para o banho. Se você perceber que o aluno faz quatro perguntas em seguida, e o paciente não consegue respirar para responder nenhuma, é hora de você intervir, é hora de mostrar, talvez, não na frente do paciente, mas é hora de mostrar, num momento adequado que ele deve esperar o paciente responder cada uma das perguntas ou, então, perguntar ao paciente se ele está em condições de responder às perguntas do aluno. (E 9)

Observo o desempenho de cada aluno na interação com os pacientes, familiares, profissionais de saúde e colegas de turma. (E 13)

Dentre as dez competências para ensinar, apontadas, uma delas é administrar a progressão das atividades e o autor indica como uma das formas, o observar e avaliar os alunos em situações de aprendizagem(3). Afirma que para gerir a progressão das aprendizagens, não se pode deixar de fazer balanços periódicos das aquisições dos alunos, que nada substituem as observações dos alunos no trabalho, quando o objetivo é conhecer suas competências. É importante que o professor saiba determinar, interpretar e memorizar momentos significativos que contribuem para estabelecer um quadro de conjunas com diversas tarefas. É evidente que a observação contínua não tem apenas a função de coletar dados, sua primeira intenção deve ser formativa.

Viabilizando momentos para expressão de pensamentos, sentimentos e percepções

O resultado deste estudo mostra que, mais do que ouvir o aluno, os docentes precisam viabilizar momentos para a expressão dos sentimentos, pensamentos e percepções. Docentes e alunos necessitam desses momentos, em que a utilização das habilidades comunicativas ou a falta delas vão sendo mostradas e, nessa relação e ou interação, os indivíduos vão se conhecendo e amadurecendo mutuamente.

Eu solicito ao aluno que escreva sobre um momento em que ele estava cuidando e sentiu muita ansiedade. Peço que o analise ou um momento em que percebeu ansiedade no paciente. Isto para que ele perceba bem a situação, porque o aluno não tem aquela coisa de achar que você vai estranhar o que ele fala. O profissional já teria. O aluno não tem que provar nada, inclusive, numa disciplina como essa, é interessante você deixar tudo muito aberto, o aluno fala o que ele acha, fala e expressa sem medo ou vergonha, não se preocupa se a professora vai dar nota baixa porque ele falou que ficou ansioso ou ficou com raiva. Os alunos falam livremente, é aconselhável criar um clima sem crítica, pois quando o aluno começa contando, tal médico, tal enfermeira, tal auxiliar, enfim, a se posicionar, eu falo: primeiro de tudo, nós não estamos aqui para criticar nem para fazer isso com ninguém, certo? Cada pessoa faz como pode; falo isso para banir um pouco essa coisa de crítica, especialmente, a negativa. Banir um pouco isso de crítica, de certo, de errado. Não é simples, mas quando você se propõe, você consegue. A partir do que ele relata e algumas vezes, eu noto que a turma está estressada, agitada, eu paro a aula, suspendo a aula e a gente vai tratar daquelas questões. Esse é o momento em que aparece o retorno que é possível ter, do aprendizado. Às vezes, o aluno fala: "professora é difícil, não consigo", eu falo: é, mas vamos tentar, se hoje você não consegue, na próxima vez você vai pensar nisso que não deu certo e vai tentar e é assim que se aprende. Acho que é dessa forma. (E 6)

Por exemplo, estimular o aluno a falar como ele se sente, tem uma aula que eu dou sobre auto-expressão, não se fala autoconhecimento, não chega a tanto, é uma dinâmica de grupo em que os alunos falam sobre si mesmos, coisas que eles jamais falariam num contexto onde houvesse autoritarismo, não mesmo! (E 6)Relaciones interpersonales.

O exercício da competência está atrelado aos valores humanos, princípios e ideais éticos que refletem o compromisso da profissão com ações dotadas de tolerância e respeito de todos os gêneros. Uma ação competente agrega perspicácia e vigilância por parte do profissional, visto que existem condições sociais, culturais e familiares influenciando uma prática que deve ser dotada de cidadania, solidariedade e justiça, portanto, a qualidade da comunicação e das relações, certamente, alicerça o exercício da competência(10).

A habilidade em comunicação é, especialmente, importante quando se trata de viabilizar momentos de expressão de pensamentos e sentimentos. A comunicação verbal mostra que as palavras são importantes ferramentas de contato, são usadas de modo mais consciente, mas sabemos que o ato de falar é complexo, pois influencia o relacionamento entre as pessoas.

Sob este aspecto, é muito importante saber usar bem as palavras, indica para prestar atenção no que dizemos e perceber se, realmente, é o que queremos transmitir, pois ao usarmos as palavras com cuidado, estaremos evitando muitos desentendimentos(11).

No entanto, está comprovado que existe uma relação dialética entre a comunicação verbal e não-verbal. A idéia comum é que só o mundo verbal é real, entretanto as palavras são, tantas vezes, apenas um pretexto ou um começo. Quanto menor a dissociação entre fala e expressão, mais integrada e inteira será a pessoa(12).

Em estudos realizados na psicologia social, a expressão do pensamento se faz 7% com palavras, 38% com sinais paralingüísticos (entonação de voz, velocidade da fala, entre outros) e 55% por meio dos sinais do corpo(8).

Desta forma, a comunicação não-verbal é responsável por mais de 90% dos sinais que chegam ao cérebro por meio dos sentidos da visão, do toque, da audição e da respiração.

Para que se possa perceber a expressão dos pensamentos e sentimentos do outro, é necessário o desenvolvimento da competência interpessoal, que é a habilidade de lidar, eficazmente, com as relações interpessoais, estando com as outras pessoas de forma adequada às necessidades de cada uma e às exigências da situação(13).

Fornecendo feedback para os alunos sobre o desenvolvimento das habilidades comunicativas

Os docentes entrevistados citam a importância de se fornecer um retorno avaliativo, um momento para feedback no qual os professores explicitam ao aluno como estão sua comunicação verbal e a não-verbal e o que pode ser melhorado. Os entrevistados relatam que o próprio aluno, nesses momentos, faz uma auto-avaliação de suas interações.

Fazendo reuniões no final do período do estágio para ver quais as dificuldades, contar para o aluno no que ele pode melhorar na comunicação verbal ou não-verbal. Ouvindo o que ele tem a dizer sobre suas dificuldades, do que ele está enfrentando de dificuldades na comunicação. É muito comum acontecer de o aluno tomar contato com muitas coisas dele, de fazer uma auto-avaliação mesmo, muito mais do que eu ficar avaliando e aí termos que dar um suporte para o aluno pela questão do autoconhecimento.(E 1)

Dou o feedback, discutimos em pequenos grupos. No final, peço a auto-avaliação qualitativa referente ao desempenho na relação interpessoal, com base nas referências básicas estudadas anteriormente e aconselho aqueles que tiveram dificuldades importantes. Darei exemplo: detectei alunas com timidez extrema, ofereci suporte e percebi que necessitavam de ajuda profissional. Da mesma forma, alunos extremamente ansiosos, autoritários, passivos/submissos. (E 13)

O estudo sobre os obstáculos de comunicação, encontrados entre enfermeiros, revela que existem dificuldades em dar feedback, em demonstrar sentimentos e emoções, desencontros de informações e conflitos, entre outros, o que confirma a falta de investimentos no ensino de habilidades comunicativas aos enfermeiros(14).

A capacidade de dar e receber feedback permite a construção de relacionamentos autênticos, evidentemente, esta habilidade de percepção precisa de treino, exigindo coragem e disponibilidade, e um longo processo de crescimento pessoal.

Lembremos que dar feedback envolve auto-exposição, ou seja, revelar ao outro o que o seu comportamento nos causa em termos de pensamentos e emoções. Buscar feedback consiste em solicitar e estar aberto para receber as reações dos outros, também, em termos de pensamentos e emoções, demonstrados de maneira verbal e não-verbal, em relação ao nosso comportamento(8).

Estimulando os alunos no desenvolvimento das habilidades comunicativas

Os alunos precisam de estímulo, de dinâmicas diversas em sala de aula e de apoio teórico por meio de leituras para o desenvolvimento das habilidades comunicativas. O registro das interações, para posterior análise, foi citado como um importante parâmetro desse desenvolvimento.

Trabalho teoricamente, estimulando a leitura, fazendo dinâmicas em sala e tentando estimular a participação do aluno, procuro usar técnicas de comunicação verbal e não-verbal para tentar estimular o aluno para que ele chegue no campo de estágio um pouco mais receptivo. (E 1)

Eu uso bastante, como recurso a dramatização, role playing, coisas assim, mas principalmente estimulo os alunos a utilizarem na prática e trazerem registro de interação. (E 6)

De acordo com nosso referencial teórico(8), a motivação é fator fundamental para a aquisição da habilidade comunicativa, especialmente, a não-verbal, pois implica querer tornar consciente muito da linguagem inconsciente. A motivação aumenta quando percebemos os efeitos dessa habilidade na vida pessoal e profissional.

Competência é a capacidade de mobilizar todos os tipos de recursos cognitivos, não é um saber procedimental, codificado, que pode ser aplicado literalmente. Ela mobiliza saberes declarativos, que descrevem o real, procedimentais, que prescrevem o caminho a ser seguido, e condicionais que dizem em que momento se deve realizar determinada ação(15).

Mobilizar, seriamente, as competências é um ato demorado que exige situações de formação mais criativas e complexas que as alternâncias entre aulas e exercícios(15). Um adulto pode aprender sozinho por meio de reflexões pessoais e de leitura, é preciso não o deixar dependente do formador, mas é necessário acelerar seu processo de autotransfor-mação por intermédio de uma prática reflexiva contex-tualizada, com fundamentos teóricos e conceituais. O desenvolvimento das competências está no cerne da profissão do formador que tem o aprendiz como o centro, assim, observa-o, chama a atenção, sugere e motiva, sempre tentando estimulá-lo e não a controlá-lo.

Realizando avaliação formativa

Os resultados deste estudo mostram ser importante a realização da avaliação formativa para a percepção da evolução dos alunos, cuja realização deve ser explicitada em seus objetivos, logo no início de cada atividade.

Faço uma avaliação do aluno, deixando claro logo no início do estágio, sobre o que ele está sendo avaliado para que ele se esforce, para que ele tenha essa atenção, essa intenção, para que ele pense na possibilidade de desenvolver o vínculo com o paciente, a confiança, porque na saúde mental ele não vai conseguir se comunicar nunca, se não tiver isso. Então, que ele pense que esta avaliação, apesar de subjetiva, vai estar acontecendo.Também avalio a evolução dele, de quando ele começa o estágio e de quando ele termina. A gente faz uma prévia no primeiro dia e no último dia, ou seja, como ele entrou e como ele está saindo. (E 1)

Faço uma avaliação no final da disciplina onde eu pergunto e o aluno me responde, bastante livre, mas eu dou todos os tópicos sobre o conteúdo, sobre condução desse ensino, sobre o que ele aprendeu, sobre o que foi importante nesse aprendizado, quer dizer, faço uma avaliação com roteiro e, eu já fiz várias vezes, um acompanhamento dos alunos depois de um tempo. Têm dois ou três, três trabalhos publicados acompanhando essa avaliação. (E 5)

A aprendizagem é um processo contínuo e uma avaliação consciente, deve levar em conta o progresso que o aluno revela no uso e conexões, no emprego de habilidades, no poder de construir novas contextualizações e na sensibilidade para perceber linguagens diferentes(16).

Na concepção construtivista, uma avaliação formativa é contínua e tem como finalidade fundamental a formação integral da pessoa, compreende observar as diferentes fases experimentadas na construção das habilidades desejadas pelos alunos e professores.

No processo de avaliação formativa, são consideradas as seguintes fases(2,10,17):

• avaliação inicial: aquela que permite conhecer qual é a situação de partida, em função de objetivos gerais bem definidos, bem como conhecer o que cada aluno sabe, o que quer saber, quais os instrumentos que já dispõe e quais as limitações já vivenciadas;

• avaliação reguladora: parte dos objetivos e conteúdos de aprendizagem previstos, o professor estabelece as atividades e as tarefas e vai percebendo a maneira como cada aluno aprende e as necessidades de aprendizagens ou alterações que podem ser realizadas;

• avaliação final: analisa-se o desempenho do aluno, ou seja, se ele atingiu os resultados, se adquiriu as competências desejadas. O progresso de cada aluno sempre será analisado em relação aos objetivos propostos;

• avaliação integradora: professor e aluno devem discutir a respeito do que foi desenvolvido e realizar previsões sobre o que é necessário continuar fazendo ou refazer. Esta etapa é importante para que o aluno possa continuar sua formação, considerando suas características específicas.

Tutorando o aluno

Os resultados das entrevistas mostram que o aluno precisa ser cuidado pelo professor, isto é, a comunicação, como base prática do cuidar, deve ser ampliada ao aluno para que ele possa evoluir em seu aprendizado.

Os relatos afirmam que o docente deve ensinar no modelo e na convivência, evidenciando, a ação da competência em comunicação na prática. O professor precisa proteger o aluno, expondo o lado positivo das interações, mesmo que tenham ocorrido falhas. Esta proteção pode se estender até, se for o caso, com interferência em uma interação que não tem condições de continuar.

A gente tenta fazer um acompanhamento individualizado deste aluno, até mesmo fazendo o papel de alguém que está cuidando deste aluno, para que ele tenha condições de ultrapassar essas barreiras e aprender um pouco mais sobre isso. (E 1)

Ensinar na convivência, ensinar no modelo, ensinar na cobrança da forma. Quantas vezes você chega para um aluno e fala: olha o tratamento, você não tem condições de continuar. Tirar o aluno de cena e mostrar para ele que ele pode melhorar em muito a relação e voltar de uma forma engrandecida. Nem sempre tirar um aluno é punir, muitas vezes é proteger. Você consegue, às vezes, dar exemplos para aquele que está direto com você, chamar atenção. É mais fácil identificar os desvios do que as situações positivas. Às vezes falta reforço da conduta correta para ele (o aluno) sedimentar. É bom você dizer, olha você teve uma conversa interessante com seu paciente, no final aconteceu isso ou aquilo, mas pensa nesse lado positivo. A gente não faz isso com o aluno. O nosso ensino é aversivo, hostil. (E 9)

No estudo sobre o professor real e o ideal, na visão de graduandos de Enfermagem, as autoras citam que os alunos apontam atitudes negativas e indesejáveis dos piores professores, considerados por eles. Afirmando que os aspectos afetivos da relação professor-aluno são mediadores para que, pelo domínio do conteúdo e dos aspectos didático-pedagógicos dos docentes, o processo de ensino-aprendizagem concretize-se com sucesso(18).

A orientação do aluno é papel do educador, expressa o cuidado com sua aprendizagem e deve libertar, sem abandoná-lo. Orientar é convidar à emancipação, e esta é uma situação humana de extrema complexidade, pode ser muito efetiva, até mesmo rápida, como pode se perder no tempo e jamais se realizar.

Perscrutar as motivações do aluno, entender seus anseios, tocar as cordas corretas da emoção, provocar sem oprimir, admoestar sem imbecilizar, é fina arte, sensibilidade sutil, perspicácia a toda prova. Tem sempre a vantagem de evitar o tratamento unificado de pessoas tão diversificadas, provocando contextos mais flexíveis e alternativos de socialização(19).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As bases metodológicas emergentes para o acompanhamento da progressão da competência comunicativa no aluno de Enfermagem são: observar a evolução das habilidades comunicativas nos alunos e pacientes; viabilizar momentos de expressão de pensamentos, sentimentos e percepções; fornecer feedback sobre o desenvolvimento das habilidades comunicativas; estimular o desenvolvimento das habilidades em comunicação; realizar avaliação formativa e tutorar o aluno.

Os resultados deste estudo permitem verificar que a aquisição da competência em comunicação interpessoal é fundamental para a formação do enfermeiro, devendo ter como base a abertura na relação professor-aluno, permitindo troca e reciprocidade, apontando caminhos com benefícios profissionais e pessoais aos envolvidos.

Relações interpessoais autênticas promovem a capacidade de compreensão dos sentimentos e pensamentos próprios e do outro. Na formação do aluno estas interações não podem ser casuais, devem ter objetivos educacionais a serem atingidos, pois as competências não estão estabelecidas, mas são construídas no cotidiano das interações(20).

 

REFERÊNCIAS

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(3) Perrenoud P. 10 novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed; 2000.         [ Links ]

(4) Watzlawick P, Beavin JH, Jackson DD. Pragmática da comunicação humana. 21ª ed. São Paulo: Cultrix; 2004.         [ Links ]

(5) Rocha EM. Comportamento comunicativo do docente de enfermagem e sua influência na aprendizagem do educando [dissertação]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 1999.         [ Links ]

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(13) Moscovici F. Desenvolvimento interpessoal. 7ª ed. Rio de Janeiro: José Olympio; 1997.         [ Links ]

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(16) Antunes C. Como transformar informações em conhecimento. 3ª ed. Petrópolis: Vozes; 2001.         [ Links ]

(17) Zabala A. A prática educativa. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998.         [ Links ]

(18) Gabrielli JMW, Pelá NTR. O professor real e o ideal na visão de um grupo de graduandos de enfermagem. Rev Esc Enferm USP. 2004;38(2):168-74.         [ Links ]

(19) Demo P. Complexidade e aprendizagem: a dinâmica não linear do conhecimento. São Paulo: Atlas; 2002.         [ Links ]

(20) Braga EM. Competência em comunicação: uma ponte entre aprendizado e ensino na enfermagem [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem da USP; 2004.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Eliana Mara Braga
Rua Carlos Guadagnini, 1214
CEP 18610-120 - Botucatu - SP
e-mail:elmara@fmb.unesp.br

Recebido: 18/10/2004
Aprovado: 02/05/2005

 

 

*Extraído da Tese "Competência em comunicação: uma ponte entre aprendizado e ensino na Enfermagem", Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP), 2004.