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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.40 no.3 São Paulo Sept. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342006000300015 

RELATO DE PESQUISA

 

Estudo das atividades desenvolvidas pelos enfermeiros em um hospital-escola

 

Study of tasks performed by nurses in a teaching hospital

 

Estudio de las tareas desempeñadas por los enfermeros en un hospital escuela

 

 

Rita de Almeida CostaI; Helena Eri ShimizuII

IEnfermeira da UTI Cardio Pediátrica do InCor Brasília rita_costa@terra.com.br
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade de Brasília shimizu@unb.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Trata-se de estudo descritivo com objetivo de analisar as atividades desenvolvidas pelos enfermeiros nas unidades de internação de um hospital-escola. Foi realizada entrevista com 20 enfermeiros da Maternidade e das Clínicas Médica, Cirúrgica e Pediátrica. Os resultados demonstraram que os enfermeiros se dedicam às atividades assistenciais, seguidas das administrativas, relacionadas ao sistema de informação e educativas. Além disso, foi constatado que os enfermeiros se deparam com diversos fatores que dificultam sua atuação, como a falta de recursos humanos, infra-estrutura, valorização do trabalho e do trabalhador de enfermagem, organização do serviço e integração dos membros da equipe multidisciplinar.

Descritores: Papel do profissional de enfermagem. Serviço hospitalar de enfermagem. Hospitais de ensino.


ABSTRACT

The purpose of this study was to analyze tasks performed by nurses at hospitalization units (maternity, general medicine, surgical and pediatric) in a training hospital in order to better know which factors make it difficult to outline their role as well as the meaning of their actions. It's a descriptive-type qualitative research. Twenty nurses were interviewed following a half-structured script. Nurses perceive that they perform help-providing tasks more frequently, followed by administrative tasks, dealing with the information system and educational tasks. The lack of skilled human resources, essentially nurses, infra-structure, valorization of nursing care and its workers, work organization and integration among members of the multi-disciplinary staff were identified as work-hampering factors.

Key words: Nurse's role. Nursing service, hospitals. Hospitals, teaching.

RESUMEN

Se trata de un estudio descriptivo realizado con el objetivo de analizar las actividades desarrolladas por los enfermeros en las unidades de internamiento de un hospital-escuela. Fueron entrevistados 20 enfermeros de la Maternidad y de las Clínicas Médico, Quirúrgicas y Pediátrica. Los resultados demostraron que los enfermeros se dedican a las actividades asistenciales, seguidas de las administrativas, relacionadas al sistema de información y educativas. Además de eso, fue constatado que los enfermeros se deparan con diversos factores que dificultan su actuación, como la falta de recursos humanos, infra-estructura, valorización del trabajo y del trabajador de enfermería, organización del servicio e integración de los miembros del equipo multidisciplinario.

Descriptores: Rol de la enfermera. Servício de enfermería en hospital. Hospitales escuela.


 

 

INTRODUÇÃO

Sabe-se que os enfermeiros têm assumido no cotidiano de trabalho nas instituições de saúde, das atividades assistenciais, com maior freqüência, os cuidados dos pacientes mais graves e os procedimentos de maior complexidade, e das administrativas, as atividades de organização e coordenação do serviço(1-3).

Cabe salientar que, para o desenvolvimento das atividades administrativas, os enfermeiros têm seguido rotinas preestabelecidas pela instituição, que não abre margens para que desempenhem o gerenciamento do serviço de enfermagem com maior autonomia, flexibilidade e criatividade(1-3). Nesse sentido, a organização do trabalho na área hospitalar tem diminuído as possibilidades dos enfermeiros contribuírem mais efetivamente para o alcance da qualidade da assistência.

As instituições comumente utilizam o enfoque da racionalidade administrativa, conseqüentemente esperam que os enfermeiros cumpram regras e regulamentos burocráticos, observem a hierarquia de autoridade e não se desviem para o novo e inesperado, ou para fatos não contemplados. Essas expectativas por parte da instituição são percebidas como descaracterizadoras do papel do enfermeiro.

Nos últimos anos, em função do reconhecimento da importância do enfermeiro assumir, além do cuidado direto ao paciente, o gerenciamento da assistência de enfermagem - que envolve a organização da infra-estrutura da unidade, o planejamento da assistência ao paciente e a coordenação da equipe de enfermagem voltada para a eficiência e humanização do cuidado - foram enfatizados nos currículos dos cursos de graduação de enfermagem o ensino da Administração dos Serviços de Enfermagem.

Contudo, na prática, tem sido observado que os enfermeiros não conseguem dedicar-se ao gerenciamento da assistência, pois estão voltados para a realização de atividades administrativas burocráticas(1-3).

Em um estudo realizado em um hospital público e de ensino do Distrito Federal, verificou-se que os enfermeiros estão bastante distanciados dos cuidados diretos aos pacientes, pois executam apenas esporadicamente alguns procedimentos de enfermagem mais complexos. Das atividades administrativas, observou-se que eles realizam àquelas mais voltadas para o funcionamento e manutenção do serviço, principalmente as relacionadas às condições necessárias para a realização das atividades médicas, em detrimento das ações voltadas para o cuidado de enfermagem(4), o que evidenciou a necessidade de estudos que demonstrem os fatores que contribuem para a ocorrência dessa situação.

Atualmente, percebe-se que os enfermeiros ainda não conseguem priorizar as atividades essenciais de enfermagem nas instituições de saúde. Possivelmente diversos fatores contribuem para a ocorrência dessa situação. Dentre eles, a falta ou a não explicitação de uma filosofia do serviço de enfermagem que contemple todas as convicções do grupo, o que corrobora para que cada elemento da equipe de enfermagem norteie suas ações de acordo com suas próprias convicções(5).

A filosofia do serviço de enfermagem é importante por conformar um marco referencial que serve de guia para o trabalho do enfermeiro permitindo integrar a teoria com a prática(6). Assim, a filosofia é operacionalizada pelo estabelecimento de objetivos que permitam converter convicções em ações. Dessa forma ela norteia a pratica de enfermagem, não só explicitando seus fundamentos, como também lhes conferindo significado.

Alguns estudiosos da enfermagem afirmam que a melhor compreensão e delimitação das ações desempenhadas pelos enfermeiros são imprescindíveis para eliminarem muitos dos problemas existentes na organização hospitalar. Além disso, promovem a melhor articulação entre os componentes da equipe de enfermagem, favorecendo seu reconhecimento pela equipe de saúde, instituição e principalmente pelo paciente e ainda permite elevar a qualidade e eficácia da assistência(1-5).

Diante do acima exposto, é evidente a necessidade de estudos que analisem o que os enfermeiros estão realizando na prática cotidiana, para redimensionar as suas funções.

Além disso, os estudos sobre o reconhecimento das atividades desempenhadas pelos profissionais permitirão conhecer mais profundamente porque os enfermeiros estão distanciados do seu objeto, os fatores dificultadores de seu trabalho, bem como o sentido de suas ações. Ademais, a reflexão sobre a prática é importante, pois ajuda a transformar e humanizar o exercício da enfermagem(6).

Assim, este estudo tem como objetivos identificar e analisar as atividades desenvolvidas pelos enfermeiros e os fatores dificultadores para o desempenho de suas funções nas unidades de internação de um hospital-escola do Distrito Federal, a fim de proporcionar informações para aprimorar a sua prática profissional.

 

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, realizado em um hospital-escola geral e de grande porte do Distrito Federal, na Maternidade e Clínicas Médica, Cirúrgica e Pediátrica.

Participaram do estudo 20 enfermeiros assistenciais, sendo 06 da clínica médica, 5 da clínica cirúrgica, 4 da pediatria clínica e 5 da maternidade, o que representou a totalidade dos enfermeiros dessas unidades.

Foi solicitado ao Comitê de Ética da instituição autorização para realização da pesquisa. Um termo de consentimento livre e esclarecido serviu como sinal de aceite para participação na pesquisa e foi assinado por todos os sujeitos do estudo. A coleta de dados foi realizada no período de dezembro de 2002 a maio de 2003; utilizou-se a técnica de entrevista com um roteiro semi-estruturado, testado previamente, que continha as seguintes questões: 1) Quais são as atividades mais desenvolvidas por você no cotidiano de trabalho? 2) Por ordem de relevância, identifique as atividades desenvolvidas por você no serviço de enfermagem. Explique por que essas atividades são importantes. 3) Cite as atividades que você gostaria de desenvolver na unidade. Por quê? 4) Quais são os principais fatores que dificultam o desenvolvimento dessas atividades. Por quê?

As entrevistas foram gravadas após o consentimento dos sujeitos e transcritas na íntegra. Posteriormente, tendo como base os pressupostos da técnica da análise de conteúdo, foram realizadas várias leituras dos depoimentos para a compreensão do trabalho realizado pelos enfermeiros. A seguir destacaram-se as atividades freqüentemente desempenhadas e categorizadas, segundo suas características em administrativas, assistenciais, relativas ao sistema de informação e atividades educativas, nas quais:

As atividades administrativas são àquelas referentes ao planejamento, organização, comando, coordenação e controle de atividades desenvolvidas nas unidades(1-3). As atividades assistenciais constituem as funções desempenhadas diretamente com ou para o paciente, ou seja, os cuidados diretos prestados pelo enfermeiro ao cliente, como também os cuidados indiretos(1-3). As atividades relativas ao sistema de informação são atividades que dizem respeito à forma como é processada a comunicação da equipe de enfermagem tanto no seu âmbito interno quanto na interação com os demais integrantes da equipe de saúde(1-3). As atividades educativas são aquelas relacionadas com a aquisição de novos conhecimentos do enfermeiro e do pessoal de enfermagem. Assim, estas ações seriam as atividades de pesquisa em trabalho realizadas pelo enfermeiro e a promoção e colaboração do ensino de funcionários de enfermagem pela educação continuada. A seguir, as atividades foram codificadas em tabelas demonstrativas, utilizando o software Excel, visando a melhor compreensão da dimensão e característica das ações desenvolvidas pelos enfermeiros.

 

APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS

Na Tabela 1 é demonstrada a freqüência das atividades relatadas pelos enfermeiros como sendo as mais desenvolvidas nas unidades de internação, ou seja, são as atividades que o serviço exige que desenvolvam cotidianamente. Do total de 20 atividades referidas, as atividades assistenciais foram as mais citadas pelos enfermeiros (44,4%), seguido das atividades administrativas (33,7%), das relacionadas ao sistema de informação (14,2%) e das educativas (7,7%).

Das atividades assistenciais desenvolvidas, verificou-se que os enfermeiros afirmam que se dedicam à realização de procedimentos, principalmente aqueles considerados de maior complexidade técnica, tais como a realização de curativos, sondagens e punções venosas. Além disso, eles se responsabilizam pelas atividades relativas ao controle das condições dos pacientes internados (visita de enfermagem e avaliação do quadro clínico dos pacientes) e pelos cuidados aos pacientes graves.

Com relação às atividades administrativas desempenhadas pelos enfermeiros, constatou-se que desenvolvem um grande número de atividades relativas ao gerenciamento de recursos humanos. Verificou-se, porém, que a maioria dessas atividades tem como finalidade o controle e distribuição das atividades de assistência para a equipe de enfermagem. Os enfermeiros desenvolvem, também, várias atividades que visam a organização e manutenção das condições para o desenvolvimento da assistência. Além disso, realizam diversas atividades administrativas burocráticas que têm como objetivo contribuir para o tratamento do paciente.

Das atividades relativas ao sistema de informação, que visam a comunicação das informações acerca das condições clínicas dos pacientes entre os membros da equipe de saúde, os enfermeiros citaram a realização de passagem de plantão, anotações e evoluções de enfermagem, leitura do prontuário e relatório de enfermagem e troca de informações com a equipe de saúde. Em outro estudo realizado na mesma instituição e nas mesmas unidades, por meio da observação direta das atividades desempenhadas pelos enfermeiros, constatou-se que esses profissionais despendem grande parte do seu tempo realizando anotação e leitura do relatório de enfermagem sobre condições gerais dos pacientes devido à falta ou esporadicidade das passagens de plantão(5). Logo, os enfermeiros tentam conseguir por esses meios obter dados sobre os pacientes para poderem desenvolver o seu trabalho, o que demonstra a necessidade de passagem de plantão sistematizada e regular.

Dentre as atividades educativas citadas, verificou-se que os enfermeiros se dedicam à orientação aos pacientes e à supervisão e orientação de alunos de enfermagem. Isso se deve ao fato da instituição pesquisada ser um hospital-escola e campo de estágios de alunos de enfermagem da graduação e de nível técnico.

A Tabela 2 apresenta a freqüência das atividades mencionadas pelos enfermeiros como importantes de serem desenvolvidas no serviço de enfermagem. Essas são, dentre as atividades que desempenham, as consideradas mais relevantes, ou seja, aquelas que contribuem para uma melhor qualidade da assistência. Do total de 16 atividades citadas, 37,8% corresponderam às atividades assistenciais, 30,5% às atividades administrativas, 22,0% às atividades relacionadas ao sistema de informação e 9,8% às atividades educativas.

Verificou-se que das atividades assistenciais, os enfermeiros afirmaram como sendo as mais importantes as relacionadas à avaliação do quadro clínico do paciente, à realização de visita de enfermagem e à realização de procedimentos de enfermagem, o que demonstra que os enfermeiros se responsabilizam pelas atividades relativas ao controle das condições dos pacientes internados. A realização da visita de enfermagem é importante para o enfermeiro, pois possibilita uma maior visão da situação da unidade, conseqüentemente do planejamento da assistência a ser prestada aos pacientes. Comparando esses dados com a Tabela 1, constata-se que os enfermeiros realizam o que consideram relevante de ser desenvolvido no serviço de enfermagem.

Cabe ressaltar que esses dados demonstram, também, que os enfermeiros não têm percebido, quer seja pelo seu envolvimento com um grande número de atividades e rotinas, como pela falta de reflexão acerca do seu fazer, que desenvolvem com freqüência apenas atividades assistenciais consideradas mais complexas, como curativos e sondagens, o que dificulta sua dedicação ao cuidado integral do paciente.

Das atividades administrativas, foram consideradas pelos enfermeiros como atividades relevantes de serem desempenhadas aquelas que dizem respeito à supervisão e delegação de tarefas assistenciais para os elementos da equipe de enfermagem e as voltadas para o provimento das condições necessárias para a assistência ao paciente. Comparando-se com as atividades administrativas demonstradas na Tabela 1, verifica-se que os enfermeiros não têm como relevantes de serem realizadas as atividades administrativas burocráticas. Esse dado demonstra que os enfermeiros acreditam ser mais relevante delegar e supervisionar funções do que realizar atividades administrativas burocráticas. Todavia, não basta apenas a simples delegação de funções, os enfermeiros ao desempenharem a função supervisão devem acompanhar efetivamente as atividades delegadas primando pela qualidade da assistência de enfermagem.

No que tange as atividades relativas ao sistema de informação, observou-se a coincidência entre a maioria das atividades que realizam e o que acham relevante de ser desenvolvido. Destaca-se, ainda, que os enfermeiros não consideraram importante a leitura do prontuário do paciente, atividade considerada de fundamental importância para subsidiar o planejamento da assistência. Além disso, estudos demonstram que as anotações de enfermagem são inconsistentes, ilegíveis e subjetivas, não havendo uma definição metodológica estruturada(7).

A enfermagem produz, diariamente, muitas informações inerentes ao cuidado dos pacientes, portanto, tem um papel importante nesse contexto, em virtude da complexidade de suas ações, bem como do volume de dados e informações que circulam em sua volta para registrar e organizar os dados clínicos no ambiente hospitalar, levando-se em consideração a diversidade de sua prática(7). Entretanto, compilar essa massa de informação, que cresce em progressão geométrica nos protocolos e registros manuais, torna o gerenciamento da assistência de enfermagem ineficiente, burocratizado e truncado para uma tomada de decisão racional e objetiva(7).

Foi constatado, também, que os enfermeiros acreditam ser essencial estimular a integração entre os elementos da equipe de enfermagem. Neste sentido, estudos apontam que as estruturas verticalizadas e centralizadas adotadas pelos Serviços de Enfermagem, de modo geral, têm favorecido a impessoalidade das relações hierárquicas, o que vem impedindo ao longo dos anos o fortalecimento do trabalho em equipe, refletindo uma assistência descontínua, fragmentada e sem vínculos com os clientes(8-9). Assim, torna-se relevante a valorização das relações interpessoais, tentando diminuir os níveis hierárquicos e aproximar as chefias dos seus colaboradores(8-9). Além disso, estratégias como reuniões devem ser utilizadas para estimular a abertura do diálogo, propiciando a troca de informações de forma democrática, o que corrobora para a geração de decisões compartilhadas e mais próximas dos reais problemas encontrados nas unidades de internação, favorecendo a agilidade do processo de trabalho(8-9).

As atividades educativas receberam importância secundária, sendo que, ao total e entre as quatro categorias de atividades estudadas, esta foi a menos mencionada por parte dos enfermeiros, resumindo-se na orientação de paciente. O enfermeiro necessita estar constantemente atualizado, influenciando seu grupo de maneira positiva, criando um ambiente que vise o crescimento individual e coletivo, para que acompanhem a crescente incorporação de novas tecnologias, a mudança nos processos de trabalho e no perfil dos clientes, que estão ficando cada vez mais exigentes, buscando serviços de qualidade(3).

A Tabela 3 demonstra a freqüência das atividades que os enfermeiros gostariam que fossem desenvolvidas nas unidades de internação. Na percepção dos enfermeiros, essas são as atividades pouco desenvolvidas ou não desenvolvidas, mas que são consideradas necessárias para uma melhor qualidade da assistência. Foram mencionadas 16 atividades.

Verificou-se que, dentre as atividades administrativas percebidas como sendo as mais importantes de serem desenvolvidas pelos enfermeiros, elaborar manuais, normas e rotinas na unidade e implementá-las foram as mais citadas, evidenciando a preocupação desses profissionais em desenvolver atividades que auxiliem na organização do serviço de enfermagem. Foram seguidas pelas atividades voltadas para o gerenciamento de recursos humanos, quais sejam, atividades de orientação, supervisão e distribuição da equipe de enfermagem. Cabe ressaltar a importância da realização de uma supervisão que extrapole apenas o controle das atividades executadas pela equipe de enfermagem, ou seja, que tenha um cunho mais educativo. A função da supervisão caracteriza-se em essência, pela atividade de orientação visando o desenvolvimento técnico e humano dos supervisionados, cabendo, portanto, ao enfermeiro o desenvolvimento do seu pessoal. Também foi enfatizado o desejo dos enfermeiros pela integração entre a equipe de enfermagem.

Os dados demonstram que os enfermeiros não percebem a necessidade de incluírem no seu cotidiano de trabalho as atividades administrativas mais voltadas para o gerenciamento da assistência, ou seja, as relacionadas ao planejamento, acompanhamento e avaliação da assistência de enfermagem(2-3,5-6).

Com relação às atividades assistenciais, percebeu-se a preocupação com a prestação de assistência de qualidade e sistematizada, o cuidado com a área emocional dos pacientes e a realização de atividades de lazer e integração junto ao paciente. Estes dados demonstram que os enfermeiros desejam prestar uma assistência mais global e humanizada aos pacientes. A utilização da sistematização da assistência de enfermagem é de fundamental importância para a qualidade e eficiência do cuidado prestado. No entanto, existe a necessidade de aprofundar a compreensão sobre a sistematização da assistência e as contradições inerentes a essa metodologia para não utilizá-la meramente como instrumento, desvinculado do contexto de trabalho e das abordagens teóricas que fundamentam sua aplicação, quais sejam, as concepções sobre o processo saúde-doença, necessidades de saúde e cuidado de enfermagem(10).

Realizar educação continuada, aprimoramento profissional e estudos de caso, orientar pacientes e rever técnicas de enfermagem foram as atividades educativas apontadas pelos enfermeiros. Compete ao enfermeiro, como líder, atualizar-se e levar a equipe a uma atualização constante.

Das atividades relativas ao sistema de informação que os enfermeiros citaram como sendo as que gostariam de desenvolver, estão aquelas que visam proporcionar maior integração com outros setores e profissionais, como a participação em reuniões multidisciplinares e em visita médica. As visitas aos pacientes realizadas conjuntamente pelas duas equipes, de enfermagem e médica, iriam facilitar a comunicação e interação entre os profissionais, bem como a assistência prestada ao paciente(11). Essas atividades são importantes no sentido de tornar a equipe de saúde unida e coesa. Ressalta-se também a necessidade dos enfermeiros buscarem aprimorar o sistema de informação entre os elementos da equipe de enfermagem por meio de reuniões e passagens de plantão regulares, onde possa haver a integração e discussão sobre o serviço de enfermagem, bem como da assistência a ser prestada aos pacientes na unidade. A maior ou menor eficácia da passagem de plantão depende da participação do enfermeiro como líder da equipe(12). Pelo fato do enfermeiro ter maior possibilidade de ter uma visão de conjunto em relação às atividades da equipe, é que se recomenda que seja ele o responsável em coordenar a passagem de plantão(12).

Os enfermeiros destacaram diversos fatores dificultadores do desenvolvimento do seu trabalho, demonstrados na Tabela 4. Os relacionados aos recursos humanos representaram 42,8%. Dentre eles, a falta de recursos humanos foi o de maior freqüência, abrangendo um percentual de 15,5%, bem como a falta de médicos residentes, o que representou 2,4%. Esses resultados demonstram que os recursos humanos existentes são insuficientes para o desenvolvimento dos cuidados aos pacientes. A sobrecarga de atividades (13,1%) e a falta de tempo dos enfermeiros (11,9%) também foram fatores relevantes citados. Isso evidencia a insuficiência do número de enfermeiros nas unidades que, sobrecarregados com atividades administrativas predominantemente burocráticas, como foi demonstrado anteriormente, delegam suas funções ao pessoal auxiliar e não conseguem supervisionar todos os cuidados prestados aos pacientes.O número reduzido de enfermeiros e sua atuação limitada os impedem de ter um posicionamento mais efetivo, como líderes e agentes responsáveis pela promoção da própria equipe e da assistência de enfermagem.

Os fatores dificultadores do desenvolvimento das atividades pelos enfermeiros relacionados à infra-estrutura hospitalar representaram 26,1%. Dentre eles, temos a falta de medicação, recursos materiais, roupas para os cuidados dos pacientes e espaço físico insuficiente e mal localizado.

Constatou-se que 18% dos fatores dificultadores estavam relacionados à falta de valorização do trabalho e do trabalhador de enfermagem. Assim, temos a falta de consciência e compromisso com o trabalho e a resistência a mudanças pelos trabalhadores, e ainda o desinteresse dos enfermeiros. Nesse sentido os enfermeiros revelaram que a equipe de enfermagem desenvolve as suas atividades cotidianas baseadas apenas na rotina, e pouco se empenha para melhorar e/ou inovar o trabalhado. Além disso, observou-se a formação e atualização profissional insuficientes, a falta de incentivo, salários incompatíveis com a responsabilidade do profissional e condições de trabalho inadequadas, revelando um baixo ou inexistente investimento da instituição na categoria. Notou-se também a ausência de delimitação do papel entre os elementos da equipe de enfermagem, o que interfere no desenvolvimento de uma assistência eficiente e de qualidade e corrobora, também, para a insatisfação dos funcionários e pressões da instituição e dos funcionários sobre os enfermeiros. A interferência e o desrespeito da equipe médica no desenvolvimento do trabalho da equipe de enfermagem também foram citados como fatores dificultadores. Estão entre eles, o fato de os procedimentos de enfermagem serem realizados por profissionais médicos e a prescrições dos pacientes serem liberadas tardiamente pela equipe médica.

Outro fator que limita a realização das atividades, segundo os enfermeiros, seria o relacionamento insatisfatório com outros profissionais de saúde e equipe de enfermagem (6,0%). Podemos considerar que o bom relacionamento no ambiente de trabalho precisa ser garantido para que seja reduzida ao máximo a insatisfação no contexto de trabalho. A falta de passagem de plantão (4,8%) e a falta de organização da unidade (2,4%) também foram destacados.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Foi possível verificar, por meio da análise das entrevistas, que os enfermeiros realizam as atividades assistenciais, seguidas das atividades administrativas, relacionadas ao sistema de informação e educativas nas unidades de internação. Os resultados demonstraram, ainda, que as atividades descritas pelos enfermeiros como as mais desenvolvidas no seu cotidiano de trabalho são, também, em sua maioria, as atividades consideradas mais relevantes de serem desenvolvidas no serviço de enfermagem.

Os enfermeiros evidenciaram que gostariam de estar desenvolvendo outras atividades para melhorar o serviço de enfermagem, dentre elas, foram mencionadas a elaboração e implementação de manuais, normas e rotinas, como as principais. É necessário salientar, contudo, que se não houver uma preocupação anterior em realizar uma discussão acerca da filosofia e dos objetivos do serviço de enfermagem, esse anseio dos enfermeiros, apesar de válido, pouco poderia contribuir para superar os problemas enfrentados.

Foi verificado, também, que os enfermeiros se centram muito mais no desenvolvimento das atividades administrativas burocráticas relacionadas à organização e estruturação do serviço de enfermagem. Esses dados indicam que esses profissionais têm-se ocupado com as atividades burocráticas que visam contemplar as expectativas médicas e da administração do hospital, tendendo a negligenciar suas próprias funções profissionais.

Os enfermeiros devem estar voltados para a administração da assistência de enfermagem, que deve ter como centro o paciente e envolver o planejamento, a direção, a supervisão e a avaliação das atividades desenvolvidas, visando uma assistência global e humanizada. Nesse sentido, torna-se necessária a integração de novos conhecimentos e habilidades, sintonizados a uma prática administrativa mais aberta, mais flexível e participativa(12).

Os dados revelam ainda que os enfermeiros estão distanciados da assistência direta e integral aos pacientes, pois desenvolvem atividades de cuidados esporadicamente, sobretudo aqueles considerados de maior complexidade e que visam um certo controle da assistência desenvolvida pelos demais elementos da equipe. Nesse sentido, demonstra-se a necessidade dos enfermeiros estarem mais presentes, assumindo mais globalmente as atividades assistenciais, a fim de contribuírem para a melhoria da qualidade e humanização da assistência.

Quanto à questão das atividades relativas ao sistema de informação, a análise dessas atividades permitiu evidenciar que os enfermeiros se voltam mais para o desenvolvimento de atividades caracterizadas como burocráticas, em detrimento de atividades que poderiam contribuir e melhorar o fluxo de comunicação/informação entre os elementos da equipe de enfermagem e saúde, e conseqüentemente, aprimorar o trabalho em equipe e a qualidade da assistência ao paciente.

No que se refere às atividades educativas, foi constatado que receberam atenção secundária dos enfermeiros, ficando restritas à orientação e esclarecimento de dúvidas de pacientes e acompanhantes e orientação e esclarecimento de dúvidas de funcionários com relação a normas, atribuições e rotinas. Percebe-se que os enfermeiros precisam ampliar as atividades educativas tanto para pacientes e familiares, visando garantir o seu autocuidado, quanto para a equipe de enfermagem, objetivando mantê-la atualizada e capaz de assumir novas competências profissionais.

Foram destacados diversos fatores que interferem diretamente na distribuição do tempo e conseqüentemente no desenvolvimento do seu trabalho e na qualidade do cuidado. Dentre eles, o déficit de recursos humanos, infra-estrutura inadequada, falta de valorização do trabalho e dos profissionais e falta de integração entre os elementos da equipe de saúde.

Em suma, os resultados deste estudo demonstraram ue os enfermeiros precisam refletir mais profundamente sobre a sua própria prática para redirecionar as suas ações. Nesse sentido, ficou evidenciado que é necessário que se voltem efetivamente para o gerenciamento da assistência de enfermagem, que deve ter como centro o paciente, tendo como instrumentos de trabalho o planejamento, a coordenação, a supervisão e avaliação, visando um cuidado global e humanizado. Para tanto, é importante a adoção de uma postura crítico-reflexiva, no cotidiano de trabalho, a fim de buscar as possíveis distorções e dificuldades existentes no desempenho das funções.

Por fim, percebe-se a necessidade de busca de novas alternativas para organizar o trabalho gerencial. E, nessa perspectiva, cabe a adoção de abordagens gerenciais que contemplem a flexibilidade, a redução da hierarquia e o trabalho em equipe, a fim de alcançar a qualidade e satisfação dos clientes.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Rita de Almeida Costa
Av. Central, Bloco 1265 - Casa 2 - Núcleo Bandeirantes
CEP71710-028 - Brasília - DF
e-mail: rita_costa@terra.com.br

Recebido: 05/03/2004
Aprovado: 12/09/2005