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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.42 no.4 São Paulo Dec. 2008

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342008000400020 

ARTIGO ORIGINAL

 

Produção do conhecimento em enfermagem: a (in) visibilidade da atenção à saúde do idoso

 

Producción del conocimiento en enfermería: la (in) visibilidad en la atención a la salud del anciano

 

 

Kátia Conceição Guimarães VeigaI; Tânia Maria de Oliva MenezesII

IDoutoranda em Enfermagem da Escola de Enfermagem, Universidade Federal da Bahia. Docente da Escola de Enfermagem da Universidade Federal da Bahia (EE/UFBA). Pesquisadora do Grupo de Estudos e Pesquisa em Administração dos Serviços de Enfermagem da Escola de Enfermagem, Universidade Federal da Bahia (EE/UFBA). Salvador, BA, Brasil. katiaveiga@oi.com.br
IIDoutoranda em Enfermagem da Escola de Enfermagem, Universidade Federal da Bahia. Docente da Escola de Enfermagem, Universidade Federal da Bahia (EE/UFBA Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa da Saúde do Idoso (NESPI) da EE/UFBA. Salvador, BA, Brasil. tomenezes@uol.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Esta pesquisa bibliográfica, exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa, objetivou identificar a ocorrência de estudos de enfermagem na atenção à saúde do idoso e analisar a produção deste conhecimento em cinco periódicos de enfermagem publicados em 2005. Os resultados demonstraram que o número de publicações nesta área é bastante limitado, 3,7%. Estas publicações estão concentradas nos estados de São Paulo, 40%, e Rio de Janeiro, 28%; predominou a abordagem qualitativa, 50%, sendo identificados vários referenciais teórico-metodológicos. Os objetos mais estudados foram as necessidades em saúde e o cuidador, com 33,3% cada; o docente esteve presente na autoria de todas as publicações. Concluiu-se que há necessidade de produção de conhecimento de Enfermagem em Atenção à Saúde do Idoso e, para dar visibilidade a esta temática, faz-se necessário o reconhecimento e a consolidação desta especialidade enquanto área de atuação profissional, pesquisadores competentes e política nacional de incentivo a pesquisa.

Descritores: Enfermagem geriátrica. Saúde do idoso. Comunicação e divulgação científica.


RESUMEN

Esta investigación bibliográfica, exploratoria y descriptiva con enfoque cuantitativo, buscó identificar estudios de enfermería en la atención a la salud del anciano y analizar la producción de este conocimiento en cinco periódicos de enfermería publicados en 2005. Los resultados demostraron que el número de publicaciones en esta área es muy limitada (3.7%). Estando centralizada en los estados de São Paulo (40%) y Rio de Janeiro (28%),predominó el enfoque cualitativo (50%), siendo identificados varios referenciales teóricos-metodológicos. Los objetos más estudiados fueron las necesidades de salud y el cuidador, con 33.3% para cada caso, el profesor estuvo presente como autor de todas las publicaciones. Se concluyó que existe necesidad de producir en Enfermería conocimiento sobre la Atención a la Salud del Anciano, así como para dar visibilidad a esta temática, siendo necesario reconocer y consolidar esta especialidad como una área profesional, con investigadores competentes y políticas nacionales e incentivos a la investigación.

Descriptores: Enfermería geriátrica. Salud del anciano. Comunicación y divulgación científica.


 

 

INTRODUÇÃO

O conhecimento vem sendo a grande alavanca do desenvolvimento da humanidade desde o início dos tempos. No momento atual, o que torna o uso do conhecimento diferenciado é a intensidade, a velocidade e a abrangência com as quais as informações são disseminadas e utilizadas, produzindo novos conhecimentos.

Na era da globalização, constitui-se polêmica a avaliação da produção científica, no entanto, interessa-nos, neste momento especificamente, a produção na área de enfermagem. Esta tem buscado na pesquisa os instrumentos para assegurar seu campo de atuação, configurando um saber próprio, sendo a atividade de investigação científica fortalecida e melhor instrumentalizada com as grandes descobertas tecnológicas, vivenciadas no final do século XX, com o desenvolvimento de recursos eletroeletrônicos(1).

O desenvolvimento da atividade de pesquisa na enfermagem é relativamente recente, datando da década de 1950, sob influência da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEN), e das Escolas de Enfermagem, que a partir da década de 1970 introduzem programas de pós-graduação, atualmente um forte núcleo de construção do conhecimento em enfermagem. As vertentes de pensamento crítico sobre esta questão assinalam para a necessidade de uma avaliação qualitativa da produção, apesar da sua contribuição para a humanidade em geral, ou nas transformações das condições de vida e de saúde da população. Contudo, a maior dificuldade é avaliar os trabalhos científicos em relação aos impactos que geram na ciência e na tecnologia, capazes de criar novos produtos e assegurar a transferência de seus resultados de modo efetivo e produtivo para a sociedade(1).

Na ciência moderna, o conhecimento avança pela especialização, tornando-se mais rigoroso quanto mais restrito for o objeto sobre o qual incide, contribuindo paraque o cientista se torne um ignorante especializado, acarretando efeitosnegativos. A fragmentação pós-moderna é temática, e os temas conduzem o conhecimento ao encontro um dos outros, avançando à medida que o objeto se amplia(2).

Nesse sentido, o progresso está na especialização do trabalho, por permitir o desenvolvimento dos conhecimentos, porém produz também regressão, uma vez que os conhecimentos fragmentários e não comunicantes que progridem significam simultaneamente o progresso de um conhecimento mutilado, e conduzem sempre a uma prática mutilante(3) .

Sendo assim, a enfermagem brasileira vem procurando discutir as questões do contexto sócio-político que interferem nos vários setores da sociedade, constituindo-se num dos desafios impostos pela atualidade o processo do envelhecimento populacional. Segundo o censo demográfico de 2000, a população de pessoas idosas com 60 anos ou mais é de 14,6 milhões, correspondendo a 8,5% da população total no Brasil. As projeções demográficas indicam para 2025 a presença de 32 milhões de pessoas nessa faixa etária, o que corresponderá a 15% da população brasileira. O aumento deste extrato populacional tende a conduzir para a maior incidência de doenças crônico-degenerativas, com suas co-morbidades comuns na velhice.

Os modelos vigentes de atenção ao idoso têm se mostrado pouco adequados, e até mesmo inviáveis, em função do atendimento à demanda desta clientela. Este fato evidencia a fragilidade dos serviços convencionais de saúde, que não atendem ainda a demanda de idosos que reclamam por uma atenção especializada em qualidade e quantidade. Fez-se necessário à implementação e consolidação de práticas que contemplem esta população na especificidade de atenção à saúde, segundo os princípios fundamentais do Sistema Único de Saúde, de universalidade, equidade e integralidade.

Preocupados com esta situação, o Governo sancionou em 1994 a Lei nº 8842, que dispõe sobre a Política Nacional de Saúde do Idoso (PNSI), criando o Conselho Nacional do Idoso, que propõe o atendimento as especificidades deste grupo, e ações que promovam o envelhecimento saudável, a manutenção ou reabilitação da capacidade funcional, provêem assistência às necessidades de saúde, apóia o desenvolvimento de cuidados informais e capacitação de recursos humanos especializados, além de estudos e pesquisas na área.

Neste contexto, a enfermagem na atenção à saúde do idoso configura-se numa área de conhecimento necessária ao conjunto dos programas de saúde para a população geral, constituindo-se desafio para estes profissionais ultrapassarem da abordagem clínico-curativa, para uma atuação com postura multiprofissional e interdisciplinar. Assim, elegeu-se como objeto deste estudo a ocorrência de estudos de enfermagem na atenção à saúde do idoso publicado em periódicos.

Partindo do pressuposto que as diversas formas de apresentação das publicações em enfermagem revelam o avanço científico na especialidade da atenção à saúde do idoso, consolidando-se como área do saber, definiram-se como objetivos deste estudo identificar a ocorrência de estudos de enfermagem geral e enfermagem na atenção à saúde do idoso em cinco periódicos de enfermagem publicados no ano de 2005 e analisar a produção do conhecimento em enfermagem na atenção à saúde do idoso.

 

MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, exploratória e descritiva, com abordagem quantitativa, tendo em vista a preocupação com a descrição dos elementos que tomam parte no fenômeno investigado. O método exploratório descritivo permite o aprofundamento do investigador em um determinado problema sem manipulá-lo(4).

A coleta dos dados foi realizada no mês de julho de 2006, utilizando duas fichas para buscar informações referentes às publicações, as quais nos permitiram identificar a ocorrência de publicações na área de atenção à saúde do idoso no cenário brasileiro entre as publicações de natureza geral, bem como analisá-las descritivamente, o que se constituiu em nosso objeto de estudo. Foram selecionados cinco periódicos das regiões sul, sudeste e centro-oeste do país, totalizando 23 números, correspondendo a 100% da produção relativa ao ano de 2005.

A opção por estes periódicos foi devida a sua classificação pelo Qualis da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal em Nível Superior (CAPES), como internacional B, um, o qual foi denominado de periódico IV, e quatro em internacional C, nomeados de I, II, III e V respectivamente; quatro são publicados por instituições com programas de pós-graduação stricto sensu, e ainda recebem matérias de todas as áreas de atuação da enfermagem.

Os dados foram descritos com indicação de freqüências absolutas e relativas, e apresentados sob a forma de tabelas e figuras.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O levantamento bibliográfico realizado totalizou 484 publicações e dessas, 19 estavam relacionadas com o objeto da pesquisa, a Enfermagem na Atenção à Saúde do Idoso, o que corresponde a 3,9% das mesmas. Entretanto, uma destas publicações teve como objeto, além do idoso, a população adulta, e outra, foi desenvolvida em Mallorca-Espanha, sendo esta última desconsiderada por estar fora do cenário brasileiro, somando, assim, 18 publicações, o que representa 3,7%. Na Tabela 1 apresentamos a distribuição das publicações de Enfermagem na Atenção a Saúde do Idoso em cinco periódicos de Enfermagem do ano de 2005.

 

 

Esta tabela evidencia que o periódico classificado pelo sistema QUALIS/CAPES como internacional B, IV, apresentou o maior percentual de publicações na área de atenção à saúde do idoso, com 33,3% (06) das mesmas; segue-se a ela o periódico III com 27,8 %(05); o periódico V não publicou trabalho nesta área. Vale ressaltar que o periódico internacional B é uma publicação bimensal, e no referido ano, apresentou dois números especiais.

As diretrizes da CAPES para avaliação de programas de pós-graduação stricto sensu têm direcionado os programas a manterem periódicos com perfil internacional, os quais têm custo de publicação elevado, levando os enfermeiros a buscá-los, no Brasil, o que parece justificar a maior demanda de artigos em periódicos internacionais(5).

O interesse pelo estudo da velhice nas suas relações sociais, nas suas experiências de vida, nas suas possibilidades e na sua cidadania, surge de fato na década de 70, no âmbito da atual sociedade brasileira(6).

Considerando este fato e o aumento da longevidade da população, fenômeno considerado global, e evidenciado na realidade brasileira, a pouca ocorrência de publicação de pesquisa na atenção à saúde do idoso evidencia a necessidade da enfermagem, priorizar esta atividade em suas ações de cuidar, pois, diferentemente dos países desenvolvidos, o Brasil sofre mudanças rápidas no aumento da população idosa, as quais trazem consigo conseqüências de toda ordem das áreas de atividade humana, provocando necessidades múltiplas e complexas, que demandam conhecimentos específicos(7).

Assim, merece destaque à constatação da escassa produção científica em enfermagem abordando o envelhecimento, pelo fato deste ser considerado um fenômeno de grande repercussão na saúde, e que passou a ser foco de atenção das ciências já a partir da década de 70.

O atraso na construção do conhecimento em gerontologia, mais particularmente nas áreas de ensino e pesquisa, embora hoje possam ser consideradas como altamente promissoras, deve-se a importância que a geriatria teve durante muito tempo sobre os demais campos desta área; a dificuldade da gerontologia se firmar como disciplina ou mesmo ciência e, com isto, poder definir um campo de atuação e de construção do conhecimento e, ainda, a resistência à realização de investigação com caráter interdisciplinar(8).

A Tabela 2 apresenta a distribuição das publicações de Enfermagem na Atenção à saúde do idoso segundo o tipo de artigo e periódico no ano de 2005.

Conforme apresentado na Tabela 2, o maior percentual de publicações de enfermagem na atenção a saúde do idoso está classificado como artigo de pesquisa ou original 72,2%(13), seguido de relato de experiência, com 16,7%(3) das mesmas.

Nesse sentido, o desenvolvimento e a utilização do conhecimento são essenciais para a melhoria constante no atendimento de enfermagem ao paciente. Defende-se que as enfermeiras adotem a prática baseada em pesquisa, utilizando os resultados desta para fundamentar suas decisões, ações e interações com os pacientes, aceitando esta necessidade como indicador de que suas ações são clinicamente apropriadas, tem custo efetivo e trazem resultados positivos para a clientela sob sua responsabilidade, fortalecendo a identidade da enfermagem como profissão(9).

A Figura 1 apresenta a distribuição das publicações pela enfermagem na Atenção à Saúde do Idoso segundo procedência das pesquisas.

 

 

A Figura 1 evidencia a concentração da publicação dessas pesquisas em dois estados brasileiros, São Paulo (08 trabalhos) e Rio de Janeiro (05 trabalhos), os quais foram pioneiros na criação de cursos de pós-graduação, nas modalidades de mestrado e doutorado, o que vem confirmar o desenvolvimento da produção científica de enfermagem emergindo a partir dos centros de qualificação profissional em cursos stricto sensu, iniciado no Brasil a partir de 1969, com a Reforma Universitária(10).

A distribuição geográfica desta produção científica na enfermagem brasileira não é uniforme, e corresponde à localização dos cursos de pós-graduação. Isto pode ser depreendido da distribuição dos núcleos produtores do conhecimento, os quais se concentram na região sudeste, notadamente(11).

A produção científica de enfermagem surge no contexto da reforma da educação brasileira, e está condicionada à oferta de vagas de orientação que, prioritariamente, ocorrem nas regiões Sudeste e Sul. Isso vem ao encontro das atuais políticas públicas educacionais e de saúde, que priorizam as regiões mais desenvolvidas e de maior poder econômico, em detrimento das demais regiões do país(12).

Assim, a pós-graduação se configura como um espaço de prática que possibilita o desenvolvimento de pesquisadores, de ações investigativas, de processo de construção de conhecimentos e novas tecnologias. Estes programas geralmente publicam periódicos para divulgarem as suas produções.

Na Figura 2 apresentamos a distribuição das publicações de Enfermagem da área em estudo segundo o tipo de abordagem da pesquisa.

 

 

Observa-se, nesta figura, a predominância dos estudos com abordagem qualitativa, com 50% dos mesmos, enquanto que os estudos quantitativos apresentaram-se em 22,0% das publicações e os que combinam os métodos quali e quantitativo apenas 6,0%. Esses resultados refletem a crescente tendência de estudos qualitativos na enfermagem, a qual teve início no final da década de 80, demarcando a transição de uma perspectiva de investigação científica positivista, a qual permitia uma visão parcial dos processos vivenciais(13).

A adoção de métodos qualitativos reflete a mudança de paradigmas em busca da compreensão do fenômeno e maior aproximação com a realidade, ou seja, uma mudança profunda do pensamento, percepção e valores que formam uma determinada visão da realidade(14).

Nesse sentido, quando ocorre uma revolução científica numa sociedade, ela própria revolucionada pela ciência, o paradigma emergente dela não pode ser apenas científico, o paradigma de um conhecimento prudente, deverá ser também social, o paradigma de uma vida decente(2) .

O incremento das pesquisas desta natureza ocorreu na maioria dos programas de pós-graduação, tornando-se, desse modo, a principal abordagem de pesquisa na área de enfermagem. Essa tendência parece explicar o motivo pelos quais os objetos de estudos que abordam a compreensão da realidade têm demonstrado ser importantes para o avanço e consolidação do conhecimento em enfermagem(13).

No que se refere aos métodos quantitativos, a ciência moderna reconheceu a matemática como o instrumento que permitia a análise, a lógica da investigação e o modelo de representação da estrutura da matéria. Com base nesse posicionamento central, surgiram duas conseqüências importantes que influenciaram todo o pensamento científico. Uma se refere ao fato de que, para conhecer é preciso quantificar, e o rigor científico é dado pelo rigor das medições. Assim, as qualidades do objeto não têm valor científico. A outra está relacionada ao pensamento científico moderno, em que para conhecer, é preciso dividir, classificar, para depois tentar compreender as relações das coisas em separado(15).

Concordamos com a assertiva de que a transição da hegemonia dos métodos quantitativos para os qualitativos, reflete o interesse em objetos de estudo que resultam em produção para o domínio da prática de enfermagem voltada a uma construção teórica mais ampla no setor saúde(13).

Apresentamos na tabela 3 o referencial teórico-metodológico adotado pelos diversos autores nas publicações de Enfermagem na Atenção à saúde do idoso.

Nesta tabela observa-se que o positivismo está presente em 27,8%(5) das publicações de enfermagem na atenção à saúde do idoso. Este fato dificulta a possibilidade de intervenção, uma vez que na linha de pensamento do positivismo, a intencionalidade é identificar, descrever e comparar, não fundamentando intervenções que visem a transformação da realidade(16). Ressaltamos que no item não cita estão inclusas três publicações sob a forma de relato de experiência/caso.

Apesar deste referencial estar fortemente presente nas pesquisas de enfermagem, a adoção de outros referenciais teóricos pelos autores nas publicações de enfermagem na atenção à saúde do idoso indicam uma forte tendência de apropriação de quadro teórico pertencentes às ciências humanas, sociais e comportamentais, evidenciando a necessidade de compreensão dos aspectos subjetivos da experiência prática, vivenciada pela enfermagem.

O interesse e a realização de pesquisas qualitativas têm sido freqüentes no campo da saúde e, consequentemente, uma maior demanda nos programas de pesquisa institucional e nas publicações dos periódicos científicos(17).

Nesse sentido, e considerando não ser possível um conhecimento absoluto sobre o que se passa com o outro, faz-se necessário uma teoria baseada em pressupostos flexíveis que possibilite o diálogo com a diversidade de movimentos e expressões desse sujeito, com suas potencialidades e diversidades de processos, os quais incutirão na pesquisa a marca da incompletude. Portanto, a noção sobre a subjetividade deve privilegiar sempre os cenários dos sujeitos, suas qualidades, formas de linguagem, sentidos e configurações específicas, as quais apontam para uma complexidade própria(18).

Este fato permite considerar que a trajetória da adoção de diferentes enfoques metodológicos apoiados em diferentes correntes de pensamento, pelos pesquisadores de enfermagem evidencia a mudança de paradigmas, quando enfocam objetos distintos.

Nesse contexto, todas as disciplinas, tanto das ciências naturais como das ciências humanas, podem ser mobilizadas hoje, de modo a convergir para a condição humana(19).

A Figura 3 apresenta os objetos estudados nas publicações de Enfermagem na Atenção a Saúde do Idoso.

Nesta figura verificou-se a predominância de objetos de pesquisa relacionados às necessidades de saúde do idoso e ao cuidador, com 33,3% cada, seguido do ensino de enfermagem gerontológica, 16,7%. Os conhecimentos centrados na doença constituem-se a base da cultura geral da enfermagem, sendo complementados pelos conhecimentos centrados na técnica ou na prática do cuidar(20).

Esses resultados parecem indicar que, em virtude do envelhecimento populacional que se acelera em vários países, inclusive no Brasil, e pelas mudanças no padrão de morbidade observada nos idosos, está crescendo o número de familiares e, notadamente, de mulheres como cuidadoras do idoso. Estas têm que conciliar as diversas atividades profissionais e domésticas, e, normalmente, sem nenhuma ajuda informal ou formal sistemática, que a prepare para atender às necessidades dos idosos. Aliam-se a isso, as pressões econômicas e provenientes do próprio sistema de saúde, igualmente despreparado para acolher os idosos e suas famílias(21).

Nessa perspectiva, a atividade de pesquisa parece suprir a necessidade de construir uma prática baseada na ciência, remetendo os estudos técnicos e assistenciais para o cotidiano do fazer em enfermagem na atenção à saúde do idoso, dando visibilidade, reconhecimento e consolidação dessa especialidade, contribuindo, assim, para o avanço científico e tecnológico da profissão enquanto prática social, em consonância com a Política Nacional de Saúde do Idoso.

A Tabela 4 apresenta a distribuição das publicações de enfermagem na atenção à saúde do idoso segundo a natureza da atividade profissional do pesquisador.

 

 

Esta tabela evidencia que o maior percentual de publicações esteve presente entre os docentes e acadêmicos de pós-graduação com 33,3%(06) trabalhando em co-autoria, seguido de docentes 27,8%(05) e docentes e enfermeiros, 16,7%(3). Observou-se ainda que o docente esteve presente na autoria de todas as publicações analisadas.

Considerando o aumento da oferta de cursos de pós-graduação stricto sensu na modalidade de doutorado nas últimas duas décadas, tendo como um dos principais objetivos a formação de doutores em enfermagem capazes de desenvolver a pesquisa, o ensino e a liderança na área de saúde, esses passam a representar a possibilidade não só de qualificação dos profissionais, como também de atualização do conhecimento, constituindo-se, assim, a base de sustentação para a retro alimentação da pesquisa e o redirecionamento da prática(22). Nesse sentido, o professor pesquisador universitário em particular, levado pelo exercício de seus papéis de ensinante e investigador da ciência, sente-se impelido a se dedicar de modo mais efetivo a tal atividade(23).

Analisando a instituição de origem do pesquisador, constatou-se que em 94,4% (17) das publicações, este estava vinculado à instituição de ensino pública, sobressaindo-se essa como a maior produtora de conhecimento científico em saúde do idoso. Esse fato se deve, em parte, ao fato delas servirem de campo de fomento a pesquisa para as disciplinas em geral, e da área de saúde em particular, o que requer a atualização constante e a integração de docentes, enfermeiros e outros profissionais que atuem nestas instituições para a produção de conhecimento. Acredita-se, também, que a produção científica está relacionada à avaliação constante para a busca de transformação e renovação da realidade, como forma de garantir a qualidade(24).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O levantamento bibliográfico realizado em cinco periódicos de enfermagem publicados no ano de 2005, com os objetivos de identificar a ocorrência de estudos de enfermagem na atenção à saúde do idoso, bem como analisar a produção deste conhecimento, permitiu-nos vislumbrar que é tímido o avanço de publicações sobre esta temática neste contexto, tornando evidente a necessidade dos profissionais e pesquisadores visualizar o idoso na produção de pesquisas e publicações desse conhecimento específico, a fim de contribuir para reorientar a prática do ensino e assistência na área de enfermagem gerontológica.

Os resultados demonstraram que, na área de atenção à saúde do idoso, o número de publicações é ainda bastante limitado, 3,7%, o que deve despertar o interesse dos profissionais que atuam na geriatria e gerontologia para a necessidade de desenvolver trabalhos, haja vista as tendências e demandas da prática, exigindo um conhecimento específico para atender o segmento idoso da população.

Nesse sentido, a pesquisa em enfermagem é essencial para que as enfermeiras entendam as várias dimensões de sua profissão; permita a descrição das características de uma situação particular de enfermagem, sobre há qual pouco se sabe; explique os fenômenos que devem ser considerados no planejamento das ações de enfermagem; preveja os prováveis resultados das decisões a serem tomadas; controle a ocorrência de resultados indesejáveis e o início de atividades que promovam o comportamento desejado do paciente(9).

Quanto à produção do conhecimento em enfermagem na atenção à saúde do idoso, verificou-se que ela está concentrada nos estados de São Paulo, 40% e Rio de Janeiro, 28%, predominando a abordagem qualitativa, 50%, sendo identificados vários referenciais teórico-metodológicos. Os objetos mais estudados foram as necessidades em saúde e o cuidador, com 33,3% cada, e o docente esteve presente na autoria de todas as publicações analisadas.

Considerando-se que a prática de enfermagem foi mantida através da tradição oral em nível do exercício profissional, observa-se que esta se sente pouco envolvida com o processo de construção do conhecimento como um elemento de formação de base, do que como instrumento de trabalho(20), o que vem confirmar os dados desta pesquisa.

Para tanto, um dos grandes desafios na superação desta limitação, que faz parte da história da enfermagem, é o planejamento de atividades de pesquisa através de parcerias entre os órgãos de fomento, o governo e as instituições públicas e privadas para o seu financiamento e execução, além da implementação de um sistema de avaliação da produção científica na área de atenção à saúde do idoso e da democratização do conhecimento, por meio de um sistema de divulgação das informações, acessível a toda sociedade.

Outra alternativa seria a organização dos pesquisadores em grupos de pesquisa, como uma estratégia para articular e consolidar as linhas de pesquisa e produção do conhecimento na enfermagem gerontológica.

Com base nesses resultados, concluiu-se que há necessidade de produção de conhecimentos na Enfermagem em Atenção à Saúde do Idoso, pois, para dar visibilidade a esta temática, faz-se necessário o reconhecimento e a consolidação desta especialidade enquanto área de atuação profissional, garantindo o avanço científico e tecnológico da profissão que, por sua vez, precisa de pesquisadores competentes e uma vasta política nacional de incentivo à pesquisa, de modo a atender a demanda crescente desta área de atenção à saúde.

 

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Correspondência:
Katia Conceição Guimarães Veiga
Rua Camuripeba, Condomínio São Francisco, Lt 07
CEP 41650-035 - Salvador, BA, Brasil

Recebido: 04/12/2006
Aprovado: 23/06/2008

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