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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.1 São Paulo Mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000100017 

ARTIGO ORIGINAL

 

Uso problemático de álcool e outras drogas em moradia estudantil: conhecer para enfrentar

 

Uso problemático de alcohol y otras drogas e residencias estudiantiles: conocer para enfrentar

 

 

Marília Rita Ribeiro ZalafI; Rosa Maria Godoy Serpa da FonsecaII

IAssistente Social. Mestre em Enfermagem em Saúde Coletiva. Assistente Social da Coordenadoria de Assistência Social da Universidade de São Paulo. Egressa do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem. Área de Concentração Enfermagem em Saúde Coletiva. São Paulo, SP, Brasil. mazalaf@usp.br
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Orientadora do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, área de concentração Enfermagem em Saúde Coletiva. São Paulo, SP, Brasil. rmgsfon@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este artigo trata do uso problemático de álcool e outras drogas na moradia estudantil da Universidade de São Paulo. Seus objetivos foram compreender como se dá o processo saúde-doença dos moradores referente ao uso problemático de drogas, identificar as condições objetivas do uso de drogas e analisar as manifestações subjacentes às questões de gênero relacionadas ao uso de drogas pelos estudantes. A análise está apoiada na Teoria da Determinação Social. Os dados foram coletados em entrevistas semi-estruturadas que focalizaram a história do processo saúde-doença relacionado ao uso problemático de álcool e de outras drogas antes e depois do ingresso no Conjunto Residencial da USP (Crusp). Nos resultados obtidos, a moradia estudantil apareceu como mais um elemento favorecedor ao uso problemático de drogas, aliado à depressão, ao desemprego e às características próprias desse espaço acadêmico. Estereotipias de gênero relacionadas ao uso de drogas, como subalternidade feminina, preconceito e culpabilização, mostraram-se refletidas na moradia estudantil.

Descritores: Alcoolismo. Transtornos relacionados ao uso de substâncias. Estudantes. Processo saúde-doença.


RESUMEN

Este artículo trata del uso problemático de alcohol y otras drogas en la residencia estudiantil de la Universidad de San Pablo. Sus objetivos fueron comprender como ocurre el proceso salud-enfermedad de los residentes en lo que se refiere al uso problemático de drogas, identificar las condiciones objetivas del uso de drogas y analizar las manifestaciones subyacentes a las cuestiones de género relacionadas al uso de drogas por los estudiantes. El análisis está apoyado en la Teoría de la Determinación Social. Los datos fueron recolectados en entrevistas semi-estructuradas que focalizaron la historia del proceso salud-enfermedad relacionado al uso problemático de alcohol y de otras drogas antes y después del ingreso en el Conjunto Residencial de la USP (Crusp). En los resultados obtenidos, la vivienda estudiantil apareció como otro elemento que favorece el uso problemático de drogas, aliado a la depresión, al desempleo y a las características propias de ese espacio académico. Estereotipos de género relacionadas al uso de drogas, como sumisión femenina, prejuicios y culpa, se mostraron reflejados en la residencia estudiantil.

Descriptores: Alcoholismo. Transtornos relacionados ao uso de substâncias. Estudientes. Proceso salud-enfermedad.


 

 

INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA

Este artigo se baseia numa pesquisa sobre o uso problemático de álcool e de outras drogas que constitui problema para alunos que habitam o Crusp, moradia estudantil do campus Butantã da Universidade de São Paulo, com a finalidade de obter subsídios para o planejamento de programas de prevenção e assistência voltados especialmente para tal população.

A base teórico-metodológica utilizada foi a Teoria da Determinação Social do Processo Saúde-Doença, para a qual o fenômeno saúde-doença é parte integrante de um só processo em que o biológico e o social interagem e resultam na qualidade de vida dos sujeitos, de acordo com a inserção nos processos de produção e reprodução social. Assim, diferentes classes sociais têm diferentes condições de vida e, portanto, diferentes condições de saúde-doença(1).

Um levantamento bibliográfico, efetuado nos bancos de dados virtuais, por intermédio do portal da Biblioteca Virtual de Saúde, revelou que, no conjunto da produção científica referente ao uso e abuso de drogas em ambientes estudantis principalmente dos Estados Unidos e da América Latina, foram encontrados aproximadamente 150 estudos, sendo que uma parte significativa deles refere-se a estudantes de ensino médio. A maioria relata levantamentos epidemiológicos de uso ou trata de efeitos físicos e psicológicos. Muitos abordam a violência decorrente do uso de drogas, outros, o comportamento sexual ou os discursos dos pais e de professores. Grande quantidade utiliza questionários com perguntas fechadas e de autopreenchimento dos quais são colhidos dados numéricos de uso de substâncias psicoativas. Na maioria estão ausentes abordagens que relacionam condições socioeconômicas com uso de álcool e outras drogas. Grande parte refere-se a estudos sobre drogas em geral e há muitas revisões bibliográficas.

Uma das pesquisas encontradas sobre o uso de álcool e outras drogas, por alunos de graduação da Universidade de São Paulo(2), avaliou o padrão desse uso no Campus São Paulo e concluiu que a prevalência era alta em relação à da população em geral, porém semelhante à encontrada em estudantes de outras universidades brasileiras. Concluiu também que os homens fazem mais uso de álcool, inalantes, anabolizantes, crack, cocaína, alucinógenos e maconha e as mulheres fazem mais uso de tranqüilizantes, anfetaminas e opiáceos. Para o autor dessa pesquisa,

os aspectos familiares, normas favoráveis ao uso de álcool e drogas compartilhadas com as redes sociais que os estudantes formam dentro da universidade, uso pessoal e dos amigos, de álcool e drogas são variáveis que mostraram associação positiva com o uso corrente de álcool e recente de drogas ilegais(2).

Outra conclusão é que

estudantes com mais fracos suportes sociais, menos engajamentos e com menos vínculos e atividades coletivas dentro da universidade são os que apresentam maiores riscos para o desenvolvimento do abuso e dependência do álcool e outras drogas(2).

Especificamente, abordando o problema das drogas no ambiente da moradia estudantil da Universidade de São Paulo (CRUSP), foi encontrado apenas um estudo. Trata-se de uma dissertação de mestrado apresentada em 2003, à Escola de Enfermagem da USP, intitulada O CRUSP: processos de socialização e consumo de drogas(3). A autora estudou o discurso dos moradores sobre o consumo de drogas com o objetivo de conhecer a ideologia a respeito de seus processos de socialização e do consumo de drogas. Concluiu que os alunos moradores têm pouco conhecimento sobre a história daquela moradia, que encontram as soluções para seus problemas individualmente e que portam tanto a concepção mais antiga de guerra às drogas quanto a mais recente de redução de danos. Quanto à prevenção, especificamente, as idéias dos moradores são favoráveis aos pressupostos da redução de danos e sugerem que o tema seja amplamente discutido na comunidade.

Dado que a moradia estudantil se destina para estudantes com dificuldades socio-econômicas, muitos portam situações de carência não só financeira, como afetiva e social. Ademais disso, não conseguem manter contato freqüente com as famílias por falta de condições financeiras, de tempo e distância. Nos fins de semana dedicam-se às tarefas domésticas, aos estudos e ao lazer, este último o que é possível em termos financeiros. Os espaços que utilizam para festas são os comuns da moradia, como as cozinhas coletivas, por exemplo. Nessas ocasiões, o álcool e outras drogas estão sempre presentes, muitas vezes como parte principal da festa, favorecendo o consumo, tanto para os que já são usuários, como para aqueles que ainda não iniciaram o uso. Tais condições propiciam o acesso, em última análise, para aqueles com menor suporte preventivo.

Atualmente, na Universidade de São Paulo, não há uma política claramente estabelecida em relação às drogas. Algumas unidades de ensino e de prestação de serviços tomam iniciativas tímidas, individuais e louváveis de atividades de prevenção, porém, não há um programa geral de prevenção padronizado e institucionalizado voltado tanto para os trabalhadores, como para a comunidade discente. Não existem protocolos de encaminhamento para os casos que requerem tratamento. Os registros do Serviço de Ação Comunitária e Segurança, da Coordenadoria de Assistência Social, demonstram um número significativo de casos de intoxicação alcoólica no ambiente da moradia estudantil que terminam em discussões, agressões físicas, males súbitos e até problemas policiais, com algumas especificidades. O número de ocorrências registradas envolvendo mulheres é maior do que o de homens e isso não quer dizer necessariamente que as mulheres usem mais álcool e outras drogas que os homens. Tais números levam à hipótese de que os casos de intoxicação nas mulheres são mais ressaltados e observados pelos agentes comunitários, talvez pela reprodução do preconceito e da pouca tolerância na aceitação dessa problemática em mulheres pela sociedade(4).

O preconceito social marca a mulher que faz uso do álcool como alguém promíscua, amoral e o estereótipo que mostra as mulheres como fracas, inferiores e com dificuldades sexuais somente colabora para reforçar a resistência na aceitação de sua problemática(5).

Quando se trata de uma aluna moradora, envolvida com uso abusivo de álcool e outras drogas, a problematização do fenômeno é um processo mais difícil do que para um aluno morador homem.

Vários estudos tecem importantes considerações sobre o uso problemático de drogas por mulheres. Por ser o uso de drogas, historicamente, uma atividade mais ligada ao homem do que à mulher, apenas ultimamente passou a existir preocupação com mulheres dependentes. Os programas de prevenção, na sua maioria, são estruturados para reabilitar homens e dificilmente incluem linhas atuação específicas para mulheres(5).

Diante do exposto, o objeto deste estudo é o uso problemático de álcool e de outras drogas dos alunos moradores do Crusp a fim de propiciar bases científicas para o direcionamento de ações preventivas e de apoio voltadas especificamente para essa população, consideradas as diferenças de gênero.

 

OBJETIVOS

A pesquisa teve como objetivos: compreender como se dá o processo saúde-doença dos estudantes na moradia estudantil, no que se refere ao uso problemático de álcool e outras drogas; identificar as condições objetivas do uso de drogas por moradores e analisar as manifestações subjacentes às questões de gênero relacionadas a esse uso.

 

MÉTODO

Cenário do estudo

O Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (Crusp) está localizado na Cidade Universitária Armando de Salles Oliveira - campus da USP, em São Paulo. É administrado pela Coordenadoria de Assistência Social da USP (COSEAS) que é uma unidade de administração direta, responsável também pelas creches, pelos restaurantes universitários e por programas de apoio à permanência estudantil, para alunos com insuficiência socioeconômica para concluir os estudos.

É constituído por sete blocos de moradia, cinco destinados para alunos de graduação e dois para alunos de pós-graduação, com seis andares e onze apartamentos por andar. Cada apartamento comporta três moradores regulares que podem hospedar um outro aluno por apartamento, desde que seja também aluno regular da USP. Há um andar destinado a estudantes com filhos, com instalações físicas especialmente adaptadas para crianças. No Crusp existem cozinhas coletivas e salas de estudos. A moradia é gratuita e a permanência do morador está vinculada ao tempo do curso e à reavaliação anual socioeconômica e acadêmica. Considerando-se os moradores e hóspedes regulares, atualmente, a população gira em torno de 1.500 alunos.

Sujeitos do estudo

Participaram da pesquisa homens e mulheres moradores ou hóspedes regulares dos sete blocos da moradia (graduação e pós-graduação) que à época da coleta de dados haviam estado ou estavam envolvidos com uso problemático de álcool e outras drogas. Dos oito sujeitos participantes, sete foram identificados por meio de registro de ocorrências do Serviço de Ação Comunitária, por terem passado por atendimento pelas assistentes sociais ou por encaminhamentos de outros programas de atendimento. O oitavo sujeito da pesquisa não deveria participar, pois faleceu pouco antes do início deste trabalho. No entanto, sua companheira, ao tomar conhecimento deste trabalho, entregou à pesquisadora um depoimento escrito por ela, em nome do aluno, solicitando que ele também se tornasse um sujeito da pesquisa.

Para a realização do estudo, o projeto foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética da Escola de Enfermagem da USP que autorizou a utilização do depoimento do oitavo participante, desde que fosse garantido o anonimato do sujeito e de seus familiares. Foram obedecidas todas as normas éticas para pesquisa envolvendo seres humanos, conforme a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (Processo nº 535/2006).

Coleta, tratamento e análise dos dados

Os dados foram coletados entre junho e agosto de 2006, por meio de entrevistas semi-estruturadas, combinando questões fechadas e abertas acerca da história do processo saúde-doença relacionado ao uso problemático de álcool e outras drogas, durante a vida anterior e posterior ao ingresso no Crusp. Os locais das entrevistas foram escolhidos pelos sujeitos, ora em seus apartamentos, dependendo das condições favoráveis para a pesquisadora e o sujeito ficarem a sós, ora na própria sala de atendimento da pesquisadora, local onde, segundo alguns, se sentiriam mais à vontade.

O tratamento dos dados foi feito utilizando-se a análise de conteúdo que busca a compreensão do significado da fala com a conexão entre o tema abordado, os conflitos e as contradições que constroem o discurso(6), combinada com a metodologia em que pequenas novelas que mostram o sofrimento relatado pelos que o vivem facilitam a compreensão do porquê as pessoas fazem o que fazem(7) .

A análise dos dados foi ancorada na Teoria da Determinação Social incorporando a categoria gênero, entendida como sexo social e historicamente construído, entendendo que essa concepção (explica, à luz das relações de poder, as manifestações sociais das mulheres, entre elas o processo saúde-doença)(8) e ainda enquanto categoria analítica na área da saúde, permite (uma melhor compreensão das desigualdades sociais e da qualidade que assume o processo saúde-doença em cada sujeito ou em cada grupo social)(9).

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O tratamento dos dados possibilitou a emergência de oito categorias empíricas: a droga na vida; Crusp como espaço favorecedor para uso de álcool e outras drogas; o uso de álcool e outras drogas: hereditariedade ou influência familiar?; o uso de álcool e outras drogas como instrumento fuga da realidade; uso de álcool e outras drogas e discriminação; uso problemático de álcool e outras drogas por homens e mulheres: diferenças de sexo e gênero; uso problemático de álcool e outras drogas e saúde mental e uso problemático de álcool e outras drogas e violência.

Na categoria A droga na vida, os resultados revelaram que dos oito sujeitos do estudo, seis iniciaram o uso de drogas na infância ou na adolescência. Estes achados estão de acordo com uma pesquisa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que registra como idade de início para o uso de drogas os 13 anos de idade(10). Para os participantes do presente estudo, o uso freqüente de drogas causou perdas significativas na esfera social, acadêmica, da saúde e financeira. Em pesquisa da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP)(2) foi constatado que a maioria dos estudantes que fazia uso freqüente de drogas achava que esta prática não interferia em nenhuma das esferas de suas vidas. A maioria deles fazia parte das classes sociais médias e média-altas e tiveram acesso a melhores níveis de qualidade de vida, diferentemente das condições de vida a que os participantes da nossa pesquisa estão inseridos, ou seja, em classes sociais de baixa renda (minoria na USP), com quadros familiares problemáticos, desde a infância e vivendo em situações precárias e restritivas que não permitiram o acesso a melhores condições de vida. Ainda, tais estudantes, de alguma forma, tiveram o lado emocional afetado por estados de angústia, desânimo e depressão que puderam ser aliviados com o uso de drogas tanto ilegais, quanto medicamentos. De acordo com a Teoria da Determinação Social do Processo Saúde-Doença, nota-se como o uso de drogas se refletiu de modos diferentes em classes sociais diferentes com processo saúde-doença específico para tais grupos populacionais.

Na categoria empíricaCrusp como espaço favorecedor para uso de álcool e outras drogas, a moradia estudantil apareceu como um elemento favorecedor do uso problemático de álcool e outras drogas. Alguns sujeitos fizeram referência ao ambiente de liberdade e fácil acesso a esses produtos. O campus Butantã da Universidade de São Paulo se localiza ao lado de uma enorme favela, onde existem muitas bocas (pontos de comércio ilegal de drogas) que são freqüentadas por alunos e funcionários da USP, conforme relatos dos próprios alunos. Ao mesmo tempo, ressaltaram que a compulsão e a vontade da droga, as situações difíceis de sobrevivência e os conflitos emocionais também são condições fortemente favoráveis para esse consumo na moradia estudantil.

No que se refere à categoria Uso de álcool e outras drogas: hereditariedade ou influência familiar, os resultados mostraram que quatro dos oito sujeitos apontaram o início de uso por influência familiar (pais, irmãos e outros parentes). O que está demonstrado nesta categoria empírica é que, de acordo com a Teoria da Determinação Social, as condições socioeconômicas e a qualidade de vida as quais os sujeitos entrevistados estão submetidos desde a infância, mostraram-se favoráveis ao início do uso. A forma de inserção dessas pessoas nos processos de produção e reprodução social determinou os níveis de consumo e, assim, o acesso a bens materiais de vida, como alimentação, moradia e acesso à assistência médica foram prejudicados. Além disso, a falta de suporte familiar, educacional e de outros elementos os expuseram a riscos e contribuíram para o desenvolvimento do processo saúde-doença. Ainda, de acordo com pesquisas(11), a hereditariedade é um fator de risco para o uso de drogas, mas não isoladamente, necessitando de outras condições, como as já expostas, para que a dependência se instale. Quando adultos, os filhos de pais alcoólatras apresentam índices maiores de baixa auto-estima, depressão, ansiedade, condições estas, favoráveis a maior consumo de álcool e outras drogas(12).

Na categoria empírica Uso de álcool e outras drogas como instrumento de fuga da realidade todos os sujeitos informaram que usam drogas para conseguir suportar dificuldades, anestesiar suas dores e esquecer os problemas, por carências e situações mal resolvidas. Novamente, os achados diferem dos achados na pesquisa sobre o uso de drogas na Universidade(2), cujos sujeitos justificaram o consumo apenas para curtir seus efeitos e reduzir o estresse.

Na categoria empírica Uso de álcool e outras drogas e discriminação, sete sujeitos referiram já ter enfrentado algum tipo de discriminação em diversos lugares, porém, especificamente no ambiente da moradia, referiram sentir pouca discriminação. Alguns deles referiram auto-discriminação, isto é, reprovavam a si mesmos cada vez que usavam drogas de maneira abusiva. As duas mulheres manifestaram grande preocupação com a sua imagem perante a sociedade pelo uso problemático de álcool e outras drogas, preocupação essa justificada pelo fato de haver um preconceito social em relação às mulheres usuárias de drogas. Em pesquisa de psicóloga da USP(3), foi verificado que, no ambiente da moradia estudantil, há discursos sobre drogas de cunho conservador e de desvalorização, por parte de moradores que se sentem ameaçados. A estigmatização dos usuários de drogas é comum, tendo em vista a generalização das formas e os motivos do uso que desprezam a condição da classe social e as conseqüências dessa condição na forma de vida. Nesse sentido, abordagens que levam em consideração o momento histórico, cultural e a condição social do usuário contribuem para a compreensão do processo saúde-doença dos usuários.

Outra categoria empírica analisada foi Uso problemático de álcool e outras drogas por homens e mulheres: diferenças de sexo e de gênero, em que se percebe similaridade com a pesquisa do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID)(13) , no que se refere ao número de dependentes por sexo, ou seja, foi constatado que para o sexo masculino, a dependência de álcool é três vezes maior do que para o sexo feminino e que para a dependência de benzodiazepínicos e barbitúricos a porcentagem é maior no sexo feminino. Nesta pesquisa, a despeito de ter sido usada uma metodologia qualitativa, para a qual as freqüências numéricas não são importantes, das duas mulheres participantes, uma referiu dependência de droga farmacêutica. Nesta categoria também surgiu a relação do uso de álcool pelas mulheres com a sedução e o uso de álcool pelos homens relacionado a demonstrações de machismo, o que foi confirmado pelos resultados. O risco das mulheres sofrerem abuso sexual quando intoxicadas foi manifestado pela maioria dos sujeitos. Ambas as entrevistadas relataram já ter sofrido esse abuso, na forma de estupro. Sabe-se que a sociedade olha com desprezo para as mulheres que possuem quadro de dependência de drogas e algumas atitudes transparecem também em profissionais de saúde, conforme foi constatado nos relatos das duas moradoras. Talvez, por fatos como esses, as mulheres optem pela omissão do consumo de drogas aos profissionais da saúde e por isso a dependência nem sempre é diagnosticada. Tal fato poderia ser modificado se houvesse um enfoque de gênero por parte desses profissionais quanto ao atendimento, por tratar-se de uma categoria teórica de análise que considera a construção social da feminilidade e da masculinidade e as desigualdades sociais entre homens e mulheres decorrentes das relações de poder que são estabelecidas entre eles. As representações quanto à construção social da feminilidade e da masculinidade foram refletidas também ao ser ressaltado que o dever do homem ser forte e demonstrar poder e o dever da mulher é ser frágil e por isso precisar ser protegida pelo homem. Outra evidência de questão de gênero foi a separação das esferas do público - a rua - como sendo do homem e a do privado - a casa - como sendo da mulher, além de situações de subalternidade feminina ao sexo oposto. Em um dos relatos, esteve presente a relação de subalternidade da mulher, que, para não perder o homem com quem mantinha relação afetiva, se deixava explorar financeiramente por ele para que este pudesse usar drogas, além de se submeter ao uso junto. Outro dado marcante foi a culpabilização das mulheres por serem usuárias de drogas, tanto por si mesmas como pelos demais. Mostraram-se conscientes de que a sociedade exige delas a preservação da imagem e da moral para que possam exercer seu papel de forma idealizada. Quando se autoculpabilizam e adotam posturas deterministas, reforçam concepções como esta que dificulta a compreensão da drogadição como problema de saúde e ainda as possibilidades de superação do problema.

A análise da categoria empírica Uso problemático de álcool e outras drogas e saúde mentalressaltou que todos os sujeitos sofriam de algum tipo de desconforto mental, relatado como depressão em sua maioria. Três deles relataram ocorrência de surtos psicóticos. Em pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), foi contatado que 44% dos participantes eram portadores de doença depressiva grave e 75% manifestaram depressão antes de aparecer a dependência(14). Estudos realizados nos Estados Unidos da América e na Europa demonstram efeitos negativos do uso e dependência de drogas em pacientes com transtornos mentais, confirmando que até mesmo o uso recreacional pode acarretar transtorno mental(15). A co-morbidade psiquiátrica pode estar presente nos casos de drogadição e alcoolismo e tem sido objeto de muitos estudos recentemente. O abuso de drogas é o agravo mais freqüente entre os portadores de transtornos mentais como os de humor, ansiedade, conduta, depressão, déficit de atenção, hiperatividade e esquizofrenia(15).

Na última categoria empírica analisada, Uso de álcool e outras drogas e violência, todos os entrevistados relataram que praticaram ou sofreram algum tipo de violência (física, verbal, doméstica, sexual ou contra o patrimônio público) quando intoxicados. As duas mulheres apresentaram maior número de episódios que se caracterizaram como algum tipo de violência, quase sempre na situação de vítima. Conforme já foi dito, ambas relataram ter sofrido violência sexual (estupro) quando estavam drogadas e os companheiros também, o que revela uma grande desigualdade de gênero, pois não foram relatadas agressões sexuais pelos homens, na situação de vítima. Todos os sujeitos desta pesquisa narraram que se envolveram em situações de risco, como discussões, brigas e ao irem buscar drogas em pontos de tráfico, confirmando os achados da pesquisa do CEBRID(12), a qual constatou que os homens foram os que apresentaram maior número de prática de agressões sob o efeito de alguma droga, cerca de cinco vezes mais do que as mulheres. Quanto às discussões, 5,9% dos homens afirmaram, naquela pesquisa, que tinham discutido quando estavam sob o efeito de alguma droga, enquanto que para as mulheres essa porcentagem ficou em 1,8%. O abuso do álcool apareceu também como condição favorável para as várias situações ressaltadas de violência doméstica (entre companheiros, entre pais e filhos e vice-versa). Ainda, a violência física (uso da força com intenção de ferir), a violência psicológica (humilhação, desrespeito) e a violência verbal (uso de palavras) estiveram presentes(16).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esta pesquisa focou o processo saúde-doença de alunos moradores do Crusp que já apresentavam quadro de dependência de drogas estabelecido antes do ingresso na Universidade e buscou compreender como esse processo continuou se desenvolvendo, consideradas as condições impostas pelo ambiente de uma moradia estudantil. Buscou também compreender como se manifestaram as questões de gênero nesse contexto.

A história de vida dos oito sujeitos participantes, assim como as histórias da maior parte dos moradores do Crusp, é marcada por carências financeiras, limitações sociais e problemas familiares, determinados socialmente de acordo com sua inserção nos processos de produção e reprodução social.

Por meio dos relatos dos participantes da pesquisa, a moradia estudantil não apareceu como o elemento responsável pelo uso problemático de drogas, mas como mais um favorecedor. As condições favoráveis desse ambiente para o uso de drogas se referiram basicamente à liberdade para conduzir a própria vida, longe do controle familiar ou de outros adultos. As situações de angústia, o stress, a falta de dinheiro, o desemprego e os desentendimentos familiares, aliados ao contexto do ambiente universitário, a despeito de serem freqüentes reflexões sobre questões sociais e filosóficas, também se mostraram presentes.

É importante ressaltar que todos os entrevistados fizeram questão de não responsabilizar o CRUSP por sua doença mas assinalaram que é como um elemento protetor, em especial pelas ações que são desenvolvidas para o enfrentamento desse grave problema. Assim, é de extrema importância reforçar projetos voltados para a melhoria de qualidade de vida no Crusp, de forma que amenizem as situações de isolamento e angústia, principalmente, para aqueles que já se encontram em quadro de dependência química. Programas de caráter sociocupacional também poderiam ajudar de forma positiva aqueles que estão em processo de recuperação, uma vez que a ociosidade causada pelo desemprego e a falta de condições psicológicas de freqüência às aulas, de acordo com os relatos, funcionam como válvulas propulsoras para o uso de drogas. O Crusp deve ser visto também como espaço bastante viável para os traficantes que lá se infiltram e os órgãos públicos competentes devem estar atentos a esse fato.

Embora a discriminação em relação aos usuários de drogas não tenha se mostrado tão presente e sim a rotulação, a conscientização do fenômeno da drogadição, como um problema mundial, poderia ser mais abordada, inclusive para sensibilizar os estudantes quanto à extensão das conseqüências e implicações tanto para a sociedade em geral, como para o meio estudantil e, particularmente, a moradia.

Quanto ao uso problemático de álcool e outras drogas por homens e mulheres, ficou visível a reprodução das questões de gênero. Projetos, como o já existente SOS Mulher, desenvolvido por assistentes sociais da COSEAS, poderiam ampliar as discussões sobre o tema, de forma a ampliar o nível de consciência para uma questão tão recentemente abordada no meio científico brasileiro como se apresentam os estudos de gênero.

Os desconfortos mentais, nesta pesquisa, generalizados como depressão, também estiveram presentes em 90% das entrevistas. A fuga da realidade e a necessidade de usar drogas para suportar as condições desfavoráveis de vida foram expressas de forma até insistente. Um programa de busca ativa, em que fosse possível detectar, ainda na fase inicial, possíveis casos de depressão, permitiria um trabalho preventivo de forma que o agravamento do quadro não se concretizasse. Talvez os agentes desse programa devessem ser alguns dos próprios moradores, orientados por profissionais, pois estes têm mais acesso e aceitação no ambiente da moradia.

Quanto à violência relacionada ao uso problemático de álcool e outras drogas, mostrou-se bastante presente no CRUSP. Ações que visem à sensibilização, problematização e prevenção de todos os tipos de violência devem ser elaboradas envolvendo tanto a instituição COSEAS, como os moradores.

Considerando os relatos dos sujeitos desta pesquisa, pessoas que já eram dependentes antes de ingressarem no Crusp, foi constatado que um programa estabelecido de acompanhamento e apoio a tratamento no próprio ambiente, fez diferença no processo saúde-doença dessas pessoas. Pôde-se concluir a necessidade de intensificar esse programa, assim como a necessidade de um programa de prevenção para usuários não-problemáticos, com o objetivo de que não venham a ter agravamento do quadro ou instalação da cronicidade.

A Universidade de São Paulo deve ter uma política clara, uniforme e efetiva para o enfrentamento da questão das drogas, prevenção e tratamento, que seja voltada especificamente para sua comunidade, trabalhadores e estudantes, e que atenda às suas necessidades, evitando assim, que alunos em situação de dependência abandonem seus cursos, caiam na marginalidade ou morram.

Por fim, para a melhoria do quadro que se apresenta, enquanto as transformações na dimensão estrutural (políticas públicas de segurança e saúde) do cenário desta pesquisa estão acontecendo a longo prazo, intervenções que propiciem transformações na dimensão particular (Crusp) e singular (moradores), mostram-se imprescindíveis e possíveis a curto prazo, desde que tenham a aprovação e o apoio dos órgãos competentes.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Marília Rita Ribeiro Zalaf
Av. Heitor Antonio Eiras Garcia, 943 - Apto 74 - Jd. Esmeralda
CEP 05588-001 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 03/05/2007
Aprovado: 18/09/2007

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