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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.1 São Paulo Mar. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000100027 

ESTUDO TEÓRICO

 

Do Sensível ao Inteligível: novos rumos comunicacionais em saúde por meio do estudo da Teoria Quântica

 

De lo sensible a lo inteligible: nuevas maneras de comunicación en salud a través del estudio de la Teoría Cuántica

 

 

Ramon Moraes PenhaI; Maria Júlia Paes da SilvaII

IEnfermeiro. Mestrando em Enfermagem na Saúde do Adulto. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa de Comunicação em Enfermagem da Universidade de São Paulo. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. São Paulo, SP, Brasil. rvamus@usp.br
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisa de Comunicação em Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. juliaps@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo se propõe a apresentar uma reflexão teórica sobre a relação entre os conceitos de Ser Humano, saúde e doença, e as perspectivas advindas com o desenvolvimento da Teoria Quântica. Apresenta argumentos para a compreensão de que a partir do momento em que há o reconhecimento da dimensão espiritual, existe a necessidade de reformulações dos conceitos que norteiam a prática profissional, uma vez que são estes que possibilitam a interpretação e direcionam a resposta comunicacional que, no caso da saúde, resulta no atendimento ao doente. Entende como imperativa a necessidade, para o atendimento e compreensão da dimensão espiritual do Ser Humano, do aprofundamento do nível comunicacional que exercemos com as pessoas.

Descritores: Espiritualidade. Religião. Comunicação. Teoria Quantum


RESUMEN

Este estudio se propone presentar una reflexión teórica sobre la relación entre los conceptos de Ser Humano, salud y enfermedad, y las perspectivas provenientes del desarrollo de la Teoría Cuántica. Presenta argumentos para la comprensión de que a partir del momento en que se reconoce la dimensión espiritual, existe la necesidad de realizar reformulaciones de los conceptos que orientan la práctica profesional, una vez que son estos los que posibilitan la interpretación y dirigen la respuesta de comunicación que, en el caso de la salud, resulta en la atención al enfermo. Entiende como imperativa la necesidad de atender y comprender la dimensión espiritual del Ser Humano y, de profundizar el nivel de comunicación que ejercemos con las personas.

Descriptores: Espiritualidad. Religión. Comunicación. Teoría de Quantum


 

 

Mas o que leva tantos se persuadirem de que há dificuldade em conhecer Deus e em conhecer também o que é a alma, é o fato de não elevarem nunca o espírito acima das coisas sensíveis e estarem de tal forma acostumados a só considerar as coisas imaginando, o que é um modo de pensar particular às coisas materiais, que tudo o que não é imaginável lhes parece inteligível.

Renè Descartes

 

INTRODUÇÃO

Podemos no perguntar com o que temos nos comunicado em saúde. É aos curiosos que convidamos a dialogar acerca das novas perspectivas comunicacionais advindas com a teoria quântica, que permitiu que adentrássemos em um oceano de possibilidades, uma vez que o modo como questionamos o mundo vem sendo radicalmente modificado. Na filosofia antiga, por exemplo, as perguntas eram pensadas no intuito de conhecer o que são as coisas. Com o advento das denominadas ciências, a forma de compreender o mundo parte de questões que visavam desvendar como funcionam as coisas, haja vista que as investigações tanto da física quanto seus princípios aplicados a ciências médicas, buscavam adentrar os forames da vida humana mediante aquilo que fosse visível, palpável, que pudesse ser dissecado e delimitado numericamente.

A partir do desenvolvimento da Teoria Quântica o tom inicial das perguntas é modificado radicalmente para por que não conceber e pesquisar os fenômenos com um olhar transcendente à matéria, visto que ela já não mais se explica por si mesma e que o modelo mecanicista de conhecimento do mundo já não é mais suficiente. Faltam números e fórmulas para explicar a complexidade comunicacional do homem. Neste sentido, por que não aprofundar o nível da comunicação que exercemos diuturnamente, tendo como base os princípios propostos pela nova física ou a Física da Alma(1).

 

A COMUNICAÇÃO COMO MODO DE COMPREENDER O MUNDO: O SENSÍVEL E O INTELIGÍVEL

Em tempos de pós-modernidade, são poucas as certeza nesta vida; que precisamos nos comunicar é uma delas. A comunicação é o meio pelo qual compreendemos o mundo através do processamento de códigos que proporcionam formulações de significados e através destes experimentamos a existência(2). O Ser Humano desenvolveu, no decorrer da história, diversas maneiras de se comunicar com as coisas, com os outros e consigo. Inicialmente pela criação de símbolos e posteriormente pelo desenvolvimento da linguagem e organização complexa do pensamento. A descrição e a interpretação dos fenômenos captados pelos sentidos humanos decorrem primariamente da observação, que é um exercício e carece de apurada percepção. A observação é a percepção consciente dos sinais e símbolos comunicativos que permitem a identificação de um estado físico, psíquico, emocional e, quem sabe, espiritual, não apenas a partir da fala, mas das minúcias da comunicação não-verbal, que ocorre em todo relacionamento humano(3). A essência do relacionamento humano é a comunicação, presente até mesmo no mais profundo silêncio. Neste não-dito podemos captar a essência do diálogo através das expressões faciais, gestos, posturas corporais, o olhar, entre outras.

Nos últimos anos, com o desenvolvimento dos estudos voltados para a comunicação, esta se tornou o veículo para os mais belos discursos de humanização em Saúde. A ênfase do toque não-técnico, do olhar não direcionado à busca de patologias, da aproximação sincera e fraterna, quando não amorosa, tem resgatado valores humanos que ficaram em algum lugar no tempo e no espaço da história do homem que, por sua vez, desenvolveu novos modos de adoecer. É preciso criar novas formas de cuidar. E cuidar é, fundamentalmente, uma expressão comunicacional. Assim, a palavra de ordem já não é apenas humanizar, mas também espiritualizar. Exemplo disto é a inclusão da dimensão não material ou espiritual no conceito de Saúde proposto pela Assembléia Mundial de Saúde.

É com esta nova faceta, a espiritual, que estamos carentes de comunicação. Inúmeras referências estão a nosso alcance no que diz respeito ao modo (verbal e não-verbal) como Seres Humanos se comunicam, contudo com o que esta comunicação é exercida tem sido generalizado à expressão visível do mundo. Apenas mais recentemente, com a desintegração da matéria proposta pela mecânica quântica, é que dimensões extra-físicas tem sido aceitas pelas ciências da saúde. O paradigma de comunicação entre consciências foi posto: a comunicação com a alma, sendo que a espiritualidade é o meio pelo qual os sentidos transcendem o corpo e se elevam ao espírito.

Entretanto, o alerta para a necessidade de transcender o material, já era postulado na filosofia grega. Sob olhar platônico, nossa idéia acerca dos objetos é demasiadamente limitada. Este filósofo(4) propunha cinco modos de conhecimento das coisas, onde o primeiro refere-se ao nome, seguido da definição, o terceiro a imagem, o quarto o conhecimento propriamente dito e o um quinto elemento: o objeto em si.

Tomemos um objeto chamado de círculo. Seu nome é esta palavra que acaba de ser escrita ou pronunciada. A seguir vem sua definição, composta de substantivos, adjetivos e verbos: círculo é objeto cujas extremidades, em todas as direções, são eqüidistantes de seu centro. Este objeto pode ser representado, como faz a ciência da geometria: pode ser traçado, pode ser construído em algum material e pode ser apagado ou destruído, coisa que, para Platão, não acontece com o círculo real, pois este não se confunde nem com o nome, nem com a definição, nem com a figura. O círculo real ou verdadeiro não é composto de sons [...], traços, mas existe apenas na inteligência ou na alma, como algo imaterial - é uma idéia, uma forma inteligível(4).

O filósofo grego(5) afirmava que existem duas esferas de concentração do conhecimento no que diz respeito aos sentidos: O Mundo Sensível e o Mundo Inteligível. No primeiro, considerado inferior, o conhecimento é obtido a partir de imagens (eikasia) e opiniões (doxá). No segundo, superior, o conhecimento parte do raciocínio (dianóia) à episteme (nóesis). Via de regra, partimos do Doxá rumo a Nóesis, o conhecimento da essência, forma inteligível (eîdos). A observação do objeto conduz naturalmente à necessidade de codificar esta sensação, num processo que podemos chamar de linguagem. Em relação a isto, Aristóteles fazia distinção de Logos (estudo) em três reinos: Techne: saberes transmitidos pela linguagem que produz objetos no mundo cuja reprodução pode ser diferenciada; Práxis: o trabalho direcionado para a construção da Boa Vida onde estamos em movimento cósmico que nos desafia a tomar decisões sobre as melhores ações que visam o benefício individual e coletivo; Episteme: a ciência no auxílio do conhecimento que consiste em descrever, explicar e predizer uma realidade, isto é, analisar o que ocorre, determinar por que ocorre dessa forma e utilizar estes conhecimentos para antecipar uma realidade futura(6).

Boa parte dos profissionais de saúde permanece preso ao mundo sensível, o das aparências, o supérfluo ou, segundo o conceito aristotélico, no Techne. Por exemplo: tomemos um indivíduo, Bianca. O segundo passo, o da definição, é bastante variado na literatura e, num geral, refere que este é um Ser Humano complexo dotado de dimensões bio-psico-sócio-espirituais, cujas características físicas são características da espécime. A mensuração do que é bio-psico e social, as ciências já o fizeram e muito bem. Possuímos uma imagem de Ser Humano que, no geral, deve ser dotado de braços, pernas, nariz, olhos, cabelos, ou não, enfim, características estabelecidas pelos padrões de normalidade. Ao nos deparamos com uma ou mais características que fogem destes padrões, experimentamos a sensação de estranhamento. São com estas imagens de Ser Humano que nos relacionamos. Reagimos reciprocamente a maneira com que estas formas são captadas pelos órgãos do sentido. Mas o que é o Ser em Si, o inteligível?

No romance da história da psiquiatria, o autor(7) discorre sobre o início do estudo da natureza humana por essa especialidade, que avançou desde as primeiras intervenções neurocirúrgicas, com Charles Bell, até a utilização da hipnose, vislumbrando o descobrimento da fonte da loucura. A seguir um pequeno trecho da obra que expressa a angústia de um dos grandes homens da ciência, no que tange a discussão acerca desta dimensão não-material do homem(7).

Estamos no laboratório do Dr. James Papez, esse famoso laboratório da Cornell University onde se encontra a coleção de cérebros mais primitivos. Aqui, durante 25 anos ou mais, o Dr. Papez tem medido, pesado, comparado estes cérebros mortos, numa tentativa para descobrir... o quê? Alguma explicação do desconhecido em termos do conhecido, uma espécie de ponte entre esta coisa tangível, o cérebro, e esta intangível,o espírito.

- Que há nisto - pergunta ele, descansando o compasso sobre um cérebro humano - que explique as campanhas de Napoleão, as teorias de Copérnico, uma sonata de Beethoven, os princípios de Euclides, um poema de Keats? Mil cérebros estão diante de mim: cérebros de sábios e cérebros de idiotas, cérebros de crianças e cérebros de adultos[...]. Cérebros de embrião humano em cada fase de desenvolvimento[...].

Não há indagação que haja interessado o homem com mais persistência e paixão do que a busca da natureza dessa parte imaterial de si próprio, que ele chama, diversamente, de espírito, mente, alma. Os maiores espíritos de cada século, procuraram sem cessar, a origem desta parte superior do homem(7).

É referente a esta busca que o outro autor(6) provoca a reflexão acerca do corpo, corporeidade e subjetivação, ao refletir:

Queria contribuir para que se tomasse consciência de algo que, no fundo todos sabemos, e é que a ciência moderna e o seu ideal da objetivação significa para todos - médicos, pacientes ou simples cidadãos alerta e preocupados - uma tremenda alienação(6).

Não é muito difícil encontrar o motivo da alienação que nos prende no sensível. Ao vasculhamos os livros de história da medicina e o desenvolvimento dos conceitos em saúde, é notável o interesse pelo instrumento do espírito, o corpo.

 

O SENSÍVEL: O CORPO HUMANO COMO INSTRUMENTO DE CONTEMPLAÇÃO

Principalmente com Galeno, a medicina se preocupou com a estrutura e funcionamento do corpo do homem. As idéias galênicas foram revolucionárias para a época, em especial no que dizia respeito à fisiologia nutricional e respiratória. Paracelso (1493-1541) refutou as teses galênicas e aprimorou as técnicas de exploração do corpo, uma vez que Galeno não realizava pessoalmente dissecações. Possuía um ajudante que fazia este trabalho(8). Mais tarde, Andréas Vessalius (1514-1564) realizou profundo estudo da anatomia humana, que culminou na produção do tratado De Humani Corporis Fabrica, Libri Septem (mais conhecido comoFabricae dividido em sete partes: ossos, músculos, sistema circulatório, sistema nervoso, abdome, coração e pulmões, e cérebro)(8). O corpo é entendido então como a complexa máquina cujo funcionamento é extraordinário.

No final do século XVI inicia-se o período de liberdade científica que proporcionou os grandes avanços no campo da biologia experimental, a edificação das academias, o desenvolvimento da anatomia e fisiologia, as técnicas cirúrgicas, farmacologia, exploração das causas das epidemias e conceitos de higiene, entre outros eventos. Grandes desbravadores desta área como Ambroise Paré, Willian Harvey, Realdo Colombo, Marcelo Malphigi, Guy Patin, Antonio Maria Valsalva, Giulio Casseri, entre tantos outros, adentraram nos forames mais profundos da corporeidade humana desvendando os segredos do controle da hemorragia, sistematização da circulação sanguínea, exploração da anatomia das plantas e dos invertebrados, divisão e funcionamento do aparelho auditivo, fonação e dos órgãos da cavidade abdominal, respectivamente(8). Estas foram, sem dúvida, as bases do conhecimento sobre o funcionamento e estrutura do corpo. No entanto, o homem foi, definitivamente, fragmentado.

Foi neste contexto histórico que ecoou nos guetos e nas sessões públicas de estudos anatômicos do ocidente o grito cartesiano de Cogito, ergo sum (Penso, logo existo) e a dualidade Corpo e Alma é posta. O Método Científico é criado. Entretanto, uma observação faz-se necessária. Como boa parte dos filósofos da época, Descartes mantinha grande afinidade com o pensamento cosmológico. Prova disto é que, alguns anos antes da postulação da dualidade humana, mais especificamente no ano de 1619, o filósofo refere que:

neste ano fui visitado por um sonho que me veio de cima... ouvi o estrondo de um trovão... Era o Espírito da Verdade que descia para assenhorear-se de mim(9).

Por mais estranho que possa parecer, Descartes definia muito bem o que era cada uma das duas facetas do seu dualismo:

Meu corpo, como posso ver claramente, é uma substância. É uma substância material, assim como minha alma é uma sustância pensante. A coisa chamada eu, consiste de duas partes distintas - a máquina que se move, ou corpo, e a mecânica que pensa, ou a alma (9).

Esta alma pensante, cerne do Ser Humano, é por ele imortalizada:

Disto infiro que sou uma substância cuja natureza toda consiste em pensar e para cuja existência não há necessidade de lugar nenhum, nem Ele depende de nenhuma coisa material; de sorte que eu, isto é, a alma pelo que sou, é inteiramente distinta de meu corpo e é até mais fácil de ser conhecida do que este último; e mesmo se o corpo não existisse, não deixaria a Alma de ser o que é(9).

Alguns poucos anos depois, o físico e matemático Isaac Newton (1643-1727) surge com sua explicação mecanicista do mundo. Se a medicina já estava encantada pelo corpo e pelas doenças, com a gama de recursos para descrever os fenômenos observados e métodos avançados de calcular massa e volume, todas as atenções estavam direcionadas a decifrar este complexo corpóreo, que alguns davam o nome de Ser Humano. Newton foi importante para o desenvolvimento das ciências positivistas. No entanto, a natureza foi reduzida a aglomerados de massa, cujos movimentos devem ser descritos em um sistema de espaço e tempo regidos por forças muito bem definidas e confiáveis. Real é o que pode ser visto, tocado e, principalmente, mensurado(10-11).

Foi neste tom que a medicina adentra no século XVIII até a primeira metade do século XIX. Surgem os sistemas especulativos, criação da então denominada anatomia patológica que ganha terreno fértil no campo da filosofia materialista de Wilhelm Leibsnitz e Karl Marx e são fortalecidas as bases da exploração cirúrgica através do surgimento da anestesia com Morton(8). A doença se torna o foco comunicacional e o sujeito é o hospedeiro que carrega o mal a ser conhecido.

O modo de relacionamento entre homem e mundo estava posto. Newton se equivocou ao postular que nos comunicamos com aquilo que tem uma forma, uma imagem que pode ser captada pelos cinco sentidos:

Não conhecemos a extensão dos corpos senão pelos nossos sentidos, que não a atingem em todos os corpos; mas, por percebermos a extensão em todos os corpos perceptíveis, atribuímo-la, também, a todos os outros. Aprendemos, por experiência, que a maior parte dos corpos é dura; e como a dureza do todo depende da dureza das partes, nós justamente inferimos, portanto, a dureza das partículas não divididas não somente dos corpos que percebemos, mas também de todos os outros. Não é da razão, mas sim, da sensação que concluem que todos os corpos são impenetráveis(10).

Em 1832, Sir Willian Crookies, físico e químico Inglês, inicia as investigações daquilo que atualmente chamamos de plasma(a) e fundamentou suas pesquisas nas correntes espiritualistas, uma vez que os princípios do materialismo não possuíam recursos para explicar seus achados. A matéria então começa a ser desintegrada. Pouco mais adiante, em 1895, Wilhelm Conrad Rontgen descobre o Raio X e James Clerk Maxwell, na primeira metade do século XIX, adverte sobre a existência de ondas magnéticas que pouco tempo depois, dá origem ao eletromagnetismo(12). Estes achados estremecem os pilares da ciência.

 

O INTELIGÍVEL: A NOVA VISÃO DE MUNDO ATRAVÉS DA FÍSICA QUÂNTICA

A partir do físico alemão Max Karl Ludwig Planck, que em Dezembro de 1900 apresentou dados de seus experimentos em um congresso de Física, um novo paradigma foi posto. Os pilares materialistas outrora estremecidos, mais se enfraquecem. Planck descobriu a lei da radiação térmica, que foi a base fundamental para estruturação dos princípios da nova física, ou a Física Quântica. Pouco depois, Albert Einstein, Niels Bohr, Heisemberg e Schodinger desenvolvem os princípios fundamentais da Teoria Quântica. Re-significaram a matéria. Mergulharam a existencialidade humana em um mar de possibilidades(12).

As leis da física quântica contrastam com as newtonianas pelo fato de não determinarem uma realidade, ou seja, o mundo real não é aquele que sentimos (mundo sensível) e sim aquele que pensamos (mundo inteligível). Na antiga física newtoniana, a localização dos corpos poderia ser determinada desde que se soubesse suas condições iniciais (posição e velocidade). Este princípio ficou conhecido como Determinismo Causal e, até os dias atuais, é ensinado nas disciplinas de física e matemática de boa parte das escolas do mundo todo. O matemático Pierre Laplace foi quem melhor definiu os princípios do determinismo ao publicar seu livro sobre a mecânica celeste, cujo conteúdo explicava o movimento do universo através dos números. Laplace foi chamado por Napoleão para alguns esclarecimentos, uma vez que era de praxe fazer citação a Deus nos temas relacionados aos mistérios do universo. Napoleão teria perguntado a Laplace: - Monsieur Laplace, o senhor não mencionou Deus, nem uma única vez, em seu livro. Por que? - Por que não precisei desta hipótese(13).

Para entendermos com clareza a inovação trazida pela Física Quântica, é necessário explicitar as convicções, crenças e valores da Física Clássica, liderada por Newton, Maxwell, entre outros grandes estudiosos que se debruçaram no estudo dos fenômenos físicos até as subjacências da Teoria da Relatividade de Einstein. Ao todo, são cinco os conceitos que fundamentam o determinismo: Continuidade (todo movimento ou mudança nos elétrons, átomos e no mundo macroscópico são contínuos e podem ser predeterminados), Localidade (objetos materiais - independente do tamanho - viajam pelo tempo em uma velocidade finita), Objetividade forte (o mundo material está posto, pronto e independe da consciência - no caso de nós observadores - para existir), Monismo Materialista e Reducionismo (tudo no mundo é matéria - átomos e outras partículas menores - e pode ser reduzido em números) e, por fim, o Epifenomenalismo (todos os fenômenos subjetivos são secundários à matéria, ou seja, tudo ocorre de modo ascendente: partículas formam átomos, que formam moléculas, que formam células, que formam o homem, em especial o cérebro que pensa e cria). A partir destes, ficou estabelecido o Realismo Científico(12-13).

São a esses conceitos que a física quântica faz oposição. Onde havia Continuidade, agora existe os Saltos Quânticos ou Descontinuidade (no mundo subatômico, os elétrons são instáveis, ou seja, não percorrem um caminho específico, mas sim, saltam aleatoriamente de uma órbita para outra do átomo), a Localidade cede espaço para a Não Localidade Quântica(os elétrons podem estar em mais de um lugar ao mesmo tempo e apenas são localizados no tempo-espaço quando observados. A velocidade não é totalmente conhecida visto que não existe linearidade). A Objetividade, o Monismo Materialista e o Reducionismo foram postos em Incerteza, Probabilidade e Possibilidade, uma vez que não é possível identificar com a exatidão absoluta de Newton, a posição e velocidade inicial dos elétrons(12-13).

Enquanto ciência experimental, a física quântica acompanha por intermédio de seus avançados aparelhos de desagregação molecular, o comportamento das estruturas subatômicas que dão origem ao mundo macroscópico, mas o porque elas se comportam de determinadas maneiras é uma questão que permanece no campo das incertezas e possibilidades. Neste sentido, de acordo com a física clássica, o corpo é um agregado de átomos que, pela ação do acaso são agrupados e assim originam as estruturas que conhecemos (órgãos e tecidos). A física quântica, a partir da desagregação atômica, observou que os elétrons estão em vários lugares ao mesmo tempo, cuja localização específica não é possível até que haja a interferência de um observador, que é denominado Consciência. Sob este ponto de vista, o corpo seria resultado da criação da consciência, que se vale das moléculas que estão a disposição por todo universo. A esta consciência tem se dado o nome de Espírito ou Alma(1). Este é o ponto primordial da teoria quântica. Na ausência de respostas mensuráveis, houve a aproximação dos cientistas quânticos pelas correntes filosóficas ligadas, principalmente, ao espiritualismo a fim de buscar subsídios teóricos para formulação de novas hipóteses sobre o que seria esta consciência. A prerrogativa inicial é a de que, frente a um princípio de incerteza e não localidade, como então nossa realidade é criada.

Para a teoria quântica, a realidade é criada a partir de um mecanismo chamado de Efeito Observador. Este efeito determina que o mundo depende de você e daquilo que você comunica a outras pessoas. Ele também depende daquilo que você acredita que é real(12). Este fato é possível a partir da premissa de que um objeto quântico, percorre mais de um caminho simultaneamente e harmônico com a nossa vontade. Esses caminhos quânticos são sempre caminhos possíveis e os objetos são ondas de possibilidades até que nossa observação permita que eles se manifestem. Reforçando, não há, sob um prisma quântico, tempo nem espaço até a consciência escolher o caminho a ser traçado; somos criadores de nossa realidade.

A questão que vem sendo discutida é, se somos criadores de nossa realidade, por que não percebemos isto? Um físico(13) afirma que, raramente estamos em estado de consciência dotado de liberdade de escolha. Ele só ocorre quando estamos criativos, por exemplo, quando sentimos profunda compaixão por outro ser, quando temos insights morais ou quando estamos em comunhão com a natureza. Vivemos, na maioria das vezes, a realidade dos outros, na materialidade alheia. Tudo o que está posto no mundo passou, primeiramente, pela consciência, pelo mundo inteligível, antes de tomar forma.

Surge a questão: se formos criadores da realidade, onde estaria Deus? Os pesquisadores e autores quânticos não têm uma definição específica do que seja Deus. Contudo acreditam em sua existência e o tomam como a Inteligência Superior, fonte da matéria prima (mundo subatômico), para que nós, centelhas do Seu amor possamos estar-no-mundo. A estas centelhas tem se dado o nome de consciência(12-13).

Importante ressaltar que a física quântica tem buscado eixos conceituais para o termo consciência em correntes espiritualistas, visto que a matéria não é estática e previsível como se pensava ser. A matéria transforma-se então em movimentos da consciência. A nova ciência aprofunda-se nas velhas afirmações platônicas e cartesianas da existência do espírito, a consciência que habita o corpo mas não é definitivamente ligada a ela. Esta ciência tem sido referida como Física da Alma(1) e que nos tem permitido sair do mundo fechado de Copérnico e partir rumo ao universo infinito.

 

ESPIRITUALIDADE: A PONTE COMUNICACIONAL ENTRE CORPO E ESPÍRITO

Diuturnamente, profissionais de saúde utilizam princípios da física clássica em sua prática, seja na verificação de temperatura, ritmo e freqüência cardíaca, pressão arterial, nos cálculos epidemiológicos, nos diagnósticos por imagem de última geração, exames laboratoriais, cirurgias a laser, entre outros. Os instrumentos de mensuração têm sido os meios mais comuns de comunicação entre profissionais e pacientes. Esta possibilidade de desvendar os mistérios da doença somente foi possível com a possibilidade descritiva da antiga física, edificada sob os princípios da linearidade newtoniana associada ao avanço matemático. Sob este aspecto é irrefutável sua contribuição para com as ciências da saúde. Contudo, são regulados para captar a expressão materializada da alma, ou consciência.

Até o momento, com raras exceções das correntes espiritualistas e espiritistas, nossas consciências têm sido aprisionadas nos átomos de carbono que compõem o corpo humano. O paradigma quântico, ou do espírito, lança o olhar muito mais além daquilo que nossos limitados sentidos são capazes de mostrar: o Mundo Inteligível, o lugar onde a vida acontece.

Assim, a espiritualidade tem sido o termo de reconciliação entre a Ciência, Filosofia e Religião, uma vez que a visão materialista de mundo e do outro já não fornecem mais subsídios teóricos para compreensão do mundo pós-moderno. Apagamos da memória histórica os ensinamentos platônicos que nos alertavam para a necessidade de buscar o conhecimento além do sensível, ou seja, para além daquilo que nos chegam pelos órgãos dos sentidos. Nunca se falou tanto em Ciência e Espiritualidade como nos dias de hoje(12,14-17).

A partir do momento em que há o reconhecimento da dimensão espiritual, existe a necessidade de reformulações dos conceitos que norteiam a prática profissional, uma vez que são estes que possibilitam a interpretação e direcionam a resposta comunicacional que, no caso da saúde, resulta no atendimento ao doente. A espiritualização comunicacional talvez seja um dos meios de reinterpretar as percepções do mundo sensível. Onde visualizamos imagens de sofrimento, composta de figuras caracterizadas por gestos, expressões e sons, percebemos, através de um olhar espiritualizado, que estas são as exteriorizações da alma.

Existe um número bastante variado de conceituações do termo espiritualidade na literatura mundial. Do ponto de vista etimológico, Espiritualidade é referente ao que é espiritual, que por sua vez advém do latim Spiritualis - próprio da respiração; sopro divino; próprio do espírito ou a ele pertencente; desprovido de corporeidade; imaterial(18). Vários são os autores que buscam assumir a raiz etimológica ao fazer referência a um conceito de espiritualidade. Entretanto, o descuido conceitual tem levado autores a confundir, propositalmente ou não, espiritualidade com religiosidade. Neste sentido, um respeitado teólogo é categórico ao afirmar que espiritualidade não é monopólio das religiões e sim uma dimensão da individualidade humana. As religiões são, a sua maneira, um dos diversos meios que conduzem a uma experiência de transcendência.

Florence Nightingale, precursora da ciência do cuidado, a Enfermagem, definia espiritualidade como [...] sentimentos que emergem pela consciência de uma presença da natureza superior do homem, desconexa do campo material [...](17). Seguindo este mesmo caminho, Jean Watson, entende que espiritualidade seja [...] da natureza transcendente do homem [...] que pode ir adiante, com o uso da mente, para níveis conscienciais elevados, encontrando sentido e harmonia na existência(19).

Neste contexto conceitual, assumir a dimensão espiritual como mecanismo de transcendência para o mundo inteligível é transpor as barreiras comunicacionais ora impregnadas pelo hábito materialista de estar-no-mundo. Se o paradigma quântico pressupõe que a consciência, ou alma, vem em primeiro lugar e é a criadora da realidade, por que então, não pensar a espiritualidade como a ponte comunicacional entre corpo e espírito? Por que não utilizá-la como meio para perceber as necessidades da alma, uma vez que a doença é reflexo da realidade materializada por uma consciência adoecida? Àqueles que desejam partir para reflexões sobre esta possibilidade, parece ser necessário reajustar o olhar, extrair o pó materialista que ofusca a imagem do todo e aliviar a carga do cientificismo que foi acumulada nos últimos séculos.

 

À TÍTULO DE FINALIZAÇÃO

O auto-conhecimento, a busca do belo, das artes, da poesia, da música, podem instrumentalizar a consciência com conteúdos filosóficos e emocionais que permitam um novo modo de perceber os movimentos do mundo. Assim, a espiritualidade passa a ser o modo pelo qual percebemos o novo, a esperança e desenvolvemos a capacidade de auto-transcendência, que permite alçar vôo para o Mundo Inteligível. Parece não existir fórmula mágica para espiritualização da atenção em saúde. Existem possibilidades quânticas. O primeiro passo é inspirar a coragem de romper os grilhões que nos mantém no comodismo histórico do materialismo. Somos os observadores e a possibilidade de transcender o mundo sensível para o inteligível depende, exclusivamente, da ativação do pensamento através da vontade.

Sofia Amundsen, personagem criada em um conhecido romance da filosofia, depara-se com um envelope misterioso. Nele está escrito: Quem é você?. A partir da leitura do bilhete, tem início a um curso de filosofia, via correio, com um professor desconhecido. Então, Sofia é convidada a ver o mundo de um modo diferente. Tudo o que parece ser real é problematizado pelo professor e assim se desenvolve a história, cujo final é surpreendente(20).

Existe um trecho do livro(20) que nos valemos para finalizar. Este fragmento diz respeito a uma explicação do professor de filosofia acerca da alma, baseado em uma concepção do filósofo grego Plotino (antecessor de Platão).

Plotino via o mundo separado em dois pólos. Num extremo está a Luz Divina [...]; no outro extremo reina a escuridão total que a Luz Divina não alcança. Mas para Plotino esta escuridão não existe de fato. É apenas a ausência de Luz. Imagine uma enorme fogueira que arde na noite, Sofia. Do fogo jorram centelhas em todas as direções. Ao redor da fogueira a noite fica iluminada e a alguns quilômetros de distância ainda se pode ver um débil clarão. Se nos afastarmos ainda mais, vemos um minúsculo ponto luminoso [...] e se nos afastarmos ainda mais, deixamos de ver a Luz.

Imagina agora a realidade como se fosse esse fogo. O que arde é Deus e a escuridão exterior é a matéria gelada de que homens e animais são feitos. Junto de Deus estão as idéias eternas que são arquétipos de todas as criaturas. A alma humana é sobretudo uma Centelha de Fogo. Mas em toda natureza brilha um pouco desta Luz Divina. Podemos vê-la em todos os seres vivos, inclusive em uma rosa [...]. Vemos que Ele cintila em um girassol ou numa papoula. Temos uma idéia mais clara desse mistério impenetrável numa borboleta que levanta vôo de um ramo [...]. Mas estamos mais próximos de Deus em nossa própria alma. Só aí podemos nos unir ao Grande Mistério da Vida(20).

Neste sentido, entendemos que a comunicação quântica em saúde, a que resgata o Ser Espiritual enquanto consciência transcendente, pode ser estratégia para um novo modo de diálogo entre as diversas correntes científicas, filosóficas, espiritualistas e religiosas. Talvez esta forma de relacionamento com o mundo permita com que os profissionais de saúde compreendam um pouco melhor e com mais dignidade a condição humana enquanto expressão da consciência espiritual, minimizando assim os entraves comunicacionais pertinentes nas relações interpessoais em saúde(21).

 

REFERÊNCIAS

1. Goswami A. A física da alma: a explicação científica para a reencarnação, a imortalidade e experiências de quase morte. São Paulo: Aleph; 2005.         [ Links ]

2. Silva MJP. O aprendizado da linguagem não-verbal e o cuidar. In: Stefanelli MC, Carvalho EC, editoras. A comunicação nos diferentes contextos da enfermagem. Barueri: Manole; 2005. p. 47-61.         [ Links ]

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Correspondência:
Ramon Moraes Penha
Rua Visconde de Laguna, 178 - Apto. 01 - Moóca
CEP 03112-110 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 16/04/2007
Aprovado: 05/11/2007

 

 

(a) O termo foi proposto pelo físico Irving Lagmvir, em 1928. Também é conhecido como o quarto estado da matéria, pois contém propriedades diferentes dos elementos sólidos, líquidos ou gasosos. Um exemplo de plasma natural é a aurora boreal, fenômeno este visível a olho nu em regiões glaciais durante algumas épocas do ano.

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