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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.2 São Paulo June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000200003 

ARTIGO ORIGINAL

 

Elaboração de instrumento para análise da imagem do enfermeiro frente a alunos do ensino médio*

 

Elaboración de un instrumento para analizar la imagen del enfermero entre los alumnos de la enseñanza media

 

 

Luciana Barizon LuchesiI; Isabel Amélia Costa MendesII; Gilberto Tadeu ShiniyashikiIII; Moacyr Lobo da Costa JuniorIV

IEnfermeira, Professora Doutoura do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. luchesi@eerp.usp.br
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. iamendes@eerp.usp.br
IIIPsicólogo, Professor Doutor da Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. gtshinya@usp.br
IVEstatístico, Professor Livre Docente do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. mlobojr@eerp.usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

O objetivo do presente trabalho foi a realização de um estudo quantitativo-descritivo piloto, que apoiará a futura validação de constructo de um instrumento de coleta de dados para analisar a percepção de alunos do terceiro ano do ensino médio sobre a Enfermagem. O instrumento de coleta de dados teve como base a literatura de História da Enfermagem, Psicologia Social e Escolha de Carreira e foi submetido à validação de conteúdo por juízes. A amostra de conveniência foi constituída de 46 alunos, sendo 28 do sexo feminino. A Enfermagem ficou em 8º lugar no status social em um ranking de 14 profissões. Com relação à percepção salarial à Enfermagem caiu para o 9º lugar. A associação da Enfermagem com aspectos que denotam conhecimento científico sugere a atualização da imagem do Profissional de Enfermagem junto aos estudantes no município de Ribeirão Preto-SP.

Descritores: Enfermagem. História da enfermagem. Atitude. Escolha da profissão.


RESUMEN

El objetivo del presente trabajo fue realizar un estudio cuantitativo y descriptivo piloto que apoyará la futura validación de constructo de un instrumento de recolección de datos para analizar la percepción, de los alumnos del tercer año de enseñanza media, sobre la Enfermería. El instrumento de recolección de datos tuvo como base: la literatura de la Historia de la Enfermería, la Psicología Social y la Elección de una Carrera; fue sometido a la validación del contenido por jueces. La muestra por conveniencia fue constituida de 46 alumnos, siendo 28 del sexo femenino. La Enfermería quedó en 8º lugar en el status social en un ranking de 14 profesiones. Con relación a la percepción salarial la Enfermería cayó al 9º lugar. La asociación de la Enfermería, con aspectos que denotan conocimiento científico, sugiere la actualización de la imagen del Profesional de Enfermería junto a los estudiantes en el municipio de Ribeirao Preto-SP.

Descriptores: Enfermería. Historia de la enfermería. Actitud. Selección de profesión.


 

 

INTRODUÇÃO

Em pleno século XXI, a Enfermagem ainda enfrenta problemas para divulgar a verdadeira imagem da profissão. Este contexto torna-se um agravante frente à crise mundial de recursos humanos em saúde, que já atinge o Canadá e os Estados Unidos, provocando uma crescente imigração de profissionais, atraídos por propagandas sedutoras, aumentado a crise em seus países de origem.

Diante desta realidade, a América voltou seu olhar para os profissionais da saúde e denominou o período de 2006-2015 Década de Recursos Humanos em Saúde, buscando valorização dos profissionais e melhoria no acesso à saúde(1). Desta forma, a resolução do problema de recrutamento na área de Enfermagem torna-se visível e requer resoluções urgentes. Muitos artigos podem ser encontrados sobre a imagem social do Enfermeiro, entretanto, poucos artigos são resultados de pesquisa, o que aponta para uma necessidade de estudos nesta área.

Por mais que nossa vivência nos remeta à História da Enfermagem para justificar a presença de estereótipos negativos na sociedade atual, não se pode perder de vista o processo psíquico da formação destes mitos. Assim, parece crucial, não apenas o entendimento da História, mas também de como se dá a construção mental dos estereótipos e o processo da escolha de carreira para entender a imagem atual da profissão. Para melhor compreender o fenômeno e de como ele se comporta, estratégias de marketing que consideram as variáveis envolvidas poderão ser traçadas dentro das necessidades.

No campo da construção dos estereótipos, a Psicologia Social contribui bastante para a compreensão do fenômeno. Dentro desta disciplina, em sua maioria, encontra-se o estereótipo dentro da construção da atitude, a que pode ser definida como

uma organização duradoura de crenças e cognições em geral, dotada de carga afetiva pró ou contra um objeto social definido, que predispõe a uma ação coerente com as cognições e afetos relativos a este objeto.

As atitudes são compostas de três componentes: cognitivo, afetivo e comportamental(2). Dentre as funções da atitude pode-se destacar: função instrumental (expressam especificamente desejos de recompensa e esquiva de punições); função de conhecimento (auxilia a compreensão do mundo e na organização de esquemas); expressão de valores; função de defesa do ego e função de ajustamento social (auxiliam o indivíduo a se perceber como integrante de uma comunidade social)(3).

O preconceito pode ser definido como atitudes hostis ou de cunho negativo contra determinados grupos, não implicando necessariamente atos hostis, sendo criado e perpetuado pela cultura e pela sociedade(2-3).

Para se construir uma atitude será necessário possuir uma representação cognitiva do objeto social, que são crenças e demais componentes cognitivos como o olhar sobre o objeto e o conhecimento deste. O componente cognitivo do preconceito é denominado estereótipo, portanto, estereótipos são as crenças sobre aspectos individuais que atribuímos a determinados grupos ou indivíduos. A justificativa dada à construção dos estereótipos é o excesso de informações a que somos submetidos diariamente; estereotipando estamos simplificando nossa visão de mundo e poupando energia(2).

Desta forma, entender o estereótipo como um componente cognitivo de uma atitude e a relação entre os componentes cognitivo, afetivo e comportamental como algo interligado e mutável, já aponta para possíveis estratégias de intervenção, ou seja, mudando-se as crenças sociais podem ser mudadas as atitudes. Referindo-se a Enfermagem, ocorreriam mudanças de crenças negativas, potencializando a mudança da atitude de não escolha da carreira para a aceitação desta possibilidade, assim como valorização da sociedade.

Entretanto, os três componentes das atitudes não são alheios à uma série de fatores externos, que podem promover um comportamento inverso às crenças do indivíduo. Assim, entender esses fatores externos e agir sobre eles pode potencializar mudanças significativas. Na Enfermagem deve-se estar atento, principalmente, ao fator cultural(2).

A cultura exerce grande influência na construção dos estereótipos. Portanto, avaliar a influência cultural na profissão, pode ser realizado através da análise da História da Enfermagem e desta no contexto histórico e sócio-político mundial.

A imagem da Enfermagem constitui

uma rede de representações sociais da Enfermagem, as quais por meio de um conjunto de conceitos, afirmações, explicações, reproduz e é reproduzido pelas ideologias originadas no cotidiano das práticas sociais, interna/externa a ela. A imagem profissional remete-nos à própria identidade profissional, em sua intrincada rede de significados que se pretendem exclusivos e, portanto, inerentes àquela profissão. A imagem profissional se consubstancia, assim, na própria representação da identidade profissional que é em si um fenômeno histórico, social e político(4).

Em uma revisão bibliográfica sobre imagem do Enfermeiro, observou-se que a maioria dos trabalhos remetem à História da Enfermagem e ao papel feminino através dos tempos. Este fenômeno tem implicações até hoje, provocando anacronismo e dificultando o processo de definição da identidade profissional do Enfermeiro(5).

Os estereótipos negativos relativos à interação profissional Enfermagem-Medicina, como uma relação de submissão, são muito claros na sociedade. Os clientes acreditam ser o médico o único capaz na solução dos seus problemas, pois a Enfermagem é vista como mero complemento das ações médicas(6).

Esta interação, também, pode ser discutida no âmbito do gênero; uma vez que os conflitos pelos espaços de poder entre a Enfermagem e a Medicina também se dão no âmbito de gênero, socialmente consideradas de domínio feminino e masculino respectivamente. Uma vez atribuída a conotação de domínio feminino, carrega as conotações sociais do gênero, assim como os estereótipos em relação ao trabalho doméstico.

Entretanto, algumas pesquisas têm observado a presença de estereótipos sobre a carreira entre estudantes de Enfermagem e profissionais. Geralmente, estas crenças referem-se ao início da carreira, onde o estudante traz crenças advindas da mídia e da família, as quais vão sendo substituídas pela realidade da profissão ao longo do curso(7-8).

Em estudo com 25 Enfermeiras/mães de um hospital do município do Rio de Janeiro, os profissionais entrevistados descrevem a Enfermagem como polivalente, baixa remuneração e reduzido reconhecimento pelo trabalho. A falta de incentivo, entre outros aspectos, pode levar o profissional à descontentamento no exercício da profissão(9).

Analisando 278 estudantes de Enfermagem em duas faculdades diferentes, no estado de São Paulo, apenas 39,9% tinham a carreira de Enfermagem como primeira opção e, 32,8% trocariam de profissão se pudessem. O estudo ainda aponta que, se o estudante fez uma escolha vocacional equivocada, poderá resultar em fragilidade no processo de socialização de valores como status, incorporação das competências profissionais e valorização da carreira(10).

Esses dados são preocupantes, pois se os pré-juízos iniciais forem muitos dissonantes da profissão, o estudante tende a desistir do curso. Neste momento, o papel do apoio da equipe docente e profissionais de campo, através de um bom relacionamento interpessoal, é fundamental para a retenção deste estudante em processo de dissonância, auxiliando-o na busca do seu próprio conceito sobre a profissão, melhorando sua auto-estima, tornando-o consciente e crítico sobre sua importância social(7).

Além disso, a dissonância de um indivíduo que acredita que a imagem social de sua profissão é inferior à imagem que ele tem de si mesmo como profissional pode impactar negativamente sua satisfação no trabalho, sua auto-estima e auto-conceito(11).

Em relação aos fatores de escolha da carreira, para jovens, a imagem é um componente fundamental. Para resolver a deficiência no recrutamento é essencial que se identifique a imagem que estes jovens possuem quanto a profissão. Este tipo de estudo deve ser realizado antes de iniciar campanhas de marketing, pois se economiza recursos financeiros, tempo e pode-se atingir estereótipos centrais que precisam ser modificados(12).

Os estudantes tenderão a optar por carreiras que possuam afinidade e isto se dá através do conhecimento, entendimento e imagem que o estudante possui sobre determinada profissão. Um estudo realizado em Hong Kong, com o objetivo de investigar a percepção dos alunos de ensino médio sobre a Enfermagem numa amostra de 19 estudantes (10 mulheres e 9 homens), de três escolas diferentes, reportou-se que as tarefas atribuídas ao Enfermeiro foram: auxiliar o cliente com a higiene e medicação; auxiliar o médico; obedecer ordens; limpeza e ensino a novos Enfermeiros. A profissão, também foi apontada como estressante e potencialmente perigosa (contaminação)(13).

Em Ribeirão Preto, na década de 60, foi realizado um levantamento sobre a imagem da Enfermeira, a fim de compreender a baixa procura de candidatas, à Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. A amostra constou de 202 indivíduos e foi analisada a resposta à seguinte questão: Quais são, a seu ver, as tarefas realizadas pela Enfermeira?. Entre os estereótipos encontrados, pôde-se destacar: atividade relacionada ao sexo feminino (meiguice, carinho, paciência, piedade, abnegação, caridade e alguns relacionados ao papel materno), atividades de natureza religiosa (trabalho missionário), trabalho árduo e penoso, baixo nível intelectual, dependente, menos capaz de iniciativa que o homem, porém não houve menções quanto a moral(14).

O problema da imagem social do Enfermeiro é um fenômeno mundial, assim como os artigos sobre o tema e a preocupação acerca do jovem, o que corresponde ao campo de recrutamento profissional no Brasil. Entretanto, na grande maioria dos artigos sobre imagem social do Enfermeiro, a discussão é feita somente à luz da teoria, não apresentando resultados de pesquisas.

Neste sentido, faz-se necessário o desenvolvimento de ações diretivas para melhorar o recrutamento de alunos e despertar verdadeiras vocações para a Enfermagem moderna e científica. A realização de campanhas de marketing poderá promover reconhecimento social do profissional, melhorando sua auto-estima, num recrutamento mais eficaz em que serão transmitidas informações fidedignas. Contudo, estereótipos negativos, encontrados na sociedade e entre os profissionais, evocam discussões necessárias nos dois âmbitos.

Melhorar a imagem social do Enfermeiro, neste sentido, é intervir na imagem social da Enfermagem junto ao público e, junto aos profissionais da área. Entretanto, devido a falta de pesquisas nesta temática, a Enfermagem ainda encontra-se num processo de entendimento do fenômeno, agravado pela falta de instrumentos de análise validados cientificamente para a língua portuguesa, dificultando ainda mais este avanço.

Buscando contribuir para este avanço, o presente trabalho discursa sobre as primeiras etapas da construção de um instrumento de coleta de dados para a realidade brasileira.

A grande maioria dos artigos sobre imagem social do Enfermeiro, a discussão é feita somente à luz da teoria, não apresentando resultados de pesquisas.

 

OBJETIVO

Analisar, junto a alunos do terceiro ano do ensino médio, de escolas públicas, a percepção sobre a Enfermagem e lançar hipóteses sobre a presença ou ausência de estereótipos negativos.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo quantitativo descritivo piloto, que apoiará futura validação de consctruto de um instrumento de coleta de dados, elaborado para o estudo da temática imagem social da Enfermagem. As questões para a construção de um instrumento formal quantitativo podem derivar da experiência clínica, teoria ou pesquisa anterior. Estes itens são submetidos, então, a testes rigorosos(15).

A construção dos itens do instrumento deriva da literatura acerca da Psicologia Social, referindo-se a algumas variáveis, que influenciam a construção das atitudes, dos estereótipos, da escolha de carreira e na literatura de Enfermagem e História da Enfermagem sobre estereótipos encontrados ao longo dos tempos na sociedade.

O instrumento de coleta de dados se constitui de dois questionários (A e B), que são preenchidos separadamente e em seqüência. O questionário A possui 24 questões fechadas e abertas, referindo-se à idade, gênero, carreira escolhida, fatores de interesse para a escolha da carreira, exposição à profissão escolhida, status social e econômico de 14 profissões (sendo 9 da saúde, incluindo a Enfermagem e 5 das mais procuradas na FUVEST 2004), relação com a família e familiaridade com papéis de gênero.

O instrumento B contém 8 questões fechadas e abertas (5 apresentam sub-itens), referindo-se a questões baseadas em fatores, que influenciam a formação de estereótipos relatados na literatura, diferenciação entre os profissionais de Enfermagem, contato com o profissional (quantidade e qualidade), atribuições do Enfermeiro e identificação de estereótipos relatados na literatura.

O instrumento foi submetido à validade de conteúdo, que consiste em solicitar que avaliadores/especialistas, na área de enfoque do instrumento, respondam se cada item avalia uma característica ou dimensão do tema pesquisado(16). Para este fim, foi convidado um grupo de 4 profissionais especializados na temática: 2 Psicólogos (1 com titulação de Professor Doutor e 1 Especialista, em virtude dos conhecimentos na área de Psicologia Social e escolha de carreira), 1 Enfermeiro (Titulação de Professor Doutor com pesquisas na área de História da Enfermagem) e 1 Matemático (Titulação de Professor Doutor, com experiência na área de pesquisas de opinião). Os juízes receberam esclarecimentos sobre os objetivos da pesquisa, sobre os procedimentos éticos e apresentou-se o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Foi entregue aos juízes um guia instrucional que identifica o objetivo da questão e dados da literatura que geraram a mesma, solicitando que avaliasse se o item media o que o pesquisador estava propondo e se o item seria claro para um grupo de estudantes de terceiro ano do ensino médio.

A população do estudo é constituída por alunos regularmente matriculados no terceiro ano do ensino médio municipal, do período diurno de Ribeirão Preto-SP, no ano de 2005. Após a aprovação de todos os itens do instrumento pelos juízes, uma amostra proposital de duas escolas (A e B) foi selecionada devido a localização em áreas centrais na cidade. Solicitou-se autorização da Secretaria Municipal da Educação de Ribeirão Preto e das próprias escolas para realização do teste do instrumento. Após o contato com as escolas, excluiu-se a escola B, pois os alunos do terceiro ano estavam somente no período noturno, não compondo o perfil da população desejada.

A amostra por conveniência foi composta por todos os alunos do 3º ano do ensino médio da escola A, que pudessem participar da coleta em um único dia, evitando-se a comunicação entre estudantes e a possibilidade de mudança de atitudes. Havia quatro salas de terceiro ano, entretanto a coleta, em uma das salas, foi inviabilizada, pois seria a última aula (quando os estudantes já se apresentavam um pouco cansados e ansiosos pelo retorno ao lar) ou educação física (atividade muito esperada pelos alunos podendo causar uma reação negativa frente à pesquisa). Portanto três salas participaram do estudo piloto. Dos 69 alunos presentes no dia da coleta 46 (67%) participaram do estudo.

Considerando-se que o pesquisador é sempre um fator de influência junto aos pesquisados, buscou-se a neutralidade através da não revelação da profissão do pesquisador, nem a profissão central do foco da pesquisa. Buscou-se, desta forma, garantir a ausência da influência dos pais durante o preenchimento do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ou a influência da profissão do pesquisador. Como o questionário A apresenta a Enfermagem, conjuntamente, com outras profissões e sem questões exclusivas sobre a carreira, o estudante não consegue identificar o enfoque à Enfermagem. Este protocolo foi utilizado buscando eliminar a influência prévia dos pais no questionário A e B e do pesquisador no Questionário A, já que o questionário B foca-se somente na Enfermagem, momento em que o aluno reconhece o enfoque à profissão. Este protocolo foi minuciosamente justificado junto ao Comitê de Ética em Pesquisa (Protocolo CEP nº 0577/2005), à direção da escola escolhida e, junto, aos pais dos estudantes no termo de Consentimento Livre e Esclarecido e aprovado por todos.

Os alunos da Escola A foram esclarecidos sobre a finalidade da pesquisa, justificando-se tratar de um estudo onde seriam abordados aspectos sobre escolha de carreira e o que eles pensavam sobre uma profissão específica que não poderia ser revelada antecipadamente, evitando-se influencias externas. Foi solicitado o Consentimento Livre e Esclarecido dos alunos e dos pais para a participação na pesquisa. O pesquisador identificou-se como mestrando da Universidade de São Paulo, explicando as razões pelas quais não revelaria sua profissão antes da coleta de dados. Um bate papo sobre vestibular e Enfermagem foi realizado com os estudantes, após a coleta de dados, a fim de trazer informações importantes sobre o assunto, momento em que o pesquisador pode revelar sua profissão e foi novamente esclarecido que os alunos poderiam desistir da sua participação se assim desejassem. Todos os alunos mantiveram suas participações.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A amostra foi constituída de 46 alunos, sendo 28 (60,9%) mulheres. Um aluno não colocou data de nascimento nem sexo, impossibilitando a sua identificação. Argüidos sobre a perspectiva de estudos para o ano seguinte, 28 alunos (60,9%) querem fazer curso universitário. Os mais desejados foram: Direito 5 alunos (10,9%), Psicologia 5 alunos (10,9%), Administração 3 alunos (6,5%), Matemática 3 alunos (6,5%) e Medicina 3 alunos (6,5%).

Os fatores mais importantes mencionados para escolha da carreira foi a realização pessoal, mercado de trabalho, salário, poucas horas de trabalho por semana e apoio da família respectivamente. O prestígio social ficou em sexto lugar.

Em estudo realizado em Campinas, no mesmo estado brasileiro, na década de 90, junto a estudantes de ensino fundamental e médio de uma escola pública e outra privada mostrou que os alunos da escola pública tendiam a dar mais valor ao prestígio social e ao fator econômico das profissões. Talvez por uma expectativa de que a profissão trouxesse a ascensão social deste indivíduo(17).

No ranking de prestígio social das profissões, (Tabela 1), a Enfermagem ficou em 8º Lugar. Quando solicitados a fazer o ranking em relação ao ganho salarial apresentou poucas alterações, verificando-se que a Enfermagem perde o 8º lugar para Computação. Este resultado sugere uma atualização sobre os papéis social da profissão nos últimos 40 anos, visto que em uma pesquisa de natureza semelhante, realizado no mesmo município, na década de 60 do século XX, a Enfermagem ficou abaixo de todas as profissões de nível Universitário e acima das ocupações(14).

 

 

Quanto à escolaridade das mães, 20 (43,5%) tinham o segundo grau completo e apenas uma em cada cinco mães tinha nível universitário. Duas (2) em cada cinco mães são donas de casa, fato este, que indicava a possibilidade de altos índices de estereótipos de gênero, pois muitos alunos cresceram num ambiente onde a mãe cuida da casa e o pai trabalha. O ambiente familiar é apontado pela Psicologia Social, como variável importante, na aceitação de papéis de gênero, principalmente, para o feminino(1).

Esta informação é importante, pois a identificação a uma profissão pode estar atrelada pelas experiências do indivíduo junto a família na infância e sua história de vida(18).

A Tabela 2 demonstra a percepção dos sujeitos quanto ao caráter feminino ou masculino das profissões em pauta. Para a composição desta tabela foi mantida a seqüência de profissões no ranking salarial. Houve uma neutralidade de opiniões, dos estudantes, para a maioria das profissões podendo sinalizar a hipótese de uma diminuição de aceitação de estereótipos de gênero em relação às profissões neste município. Apenas Nutrição e Engenharia receberam classificação de gênero pela maioria dos estudantes. Interessante observar que, as profissões que receberam mais indicações como apropriadas para o gênero masculino situaram-se em boas posições do ranking salarial, excetuando-se Computação. Contraditoriamente, a maioria das profissões que receberam mais indicações como femininas ficaram em posições inferiores no ranking salarial.

 

 

Muitos estudos têm apontado uma supervalorização da família para o gênero feminino, pressupondo-se que este seja o lugar da mulher. Isto vai refletir-se nas profissões discriminadas pelo gênero do profissional. Como decorrência, a mulher tenderá a escolher profissões femininas. Assim, estas profissões tornam-se desvalorizadas e pouco remuneradas, pois o homem tenderá a menosprezar essas carreiras em sua escolha profissional, contribuindo para que esses cursos femininos se transformem em cursos menos concorridos nos exames vestibulares(19).

No entanto, a mudança atual no mercado de trabalho para a mulher e a crescente exposição de grandes lideranças femininas na mídia colaboram para uma mudança desse cenário. A mulher está entrando em áreas antes dominadas pelo gênero masculino, fato que a longo prazo pode trazer conseqüências para Enfermagem, bifurcando-se em crise de recrutamento para ambos os gêneros.

Em relação ao contato com o profissional de Enfermagem, a maioria dos alunos recebeu atendimento em locais de saúde e mais de 35 alunos (76%) consideraram o atendimento competente, simpático e atencioso, mostrando coerência com o bom posicionamento da Enfermagem no ranking de status. O contato positivo com profissionais de Enfermagem pode influenciar uma redução do nível de estereótipos na população, pois toda vez que o indivíduo é confrontado com a realidade do objeto social, ele pode reconstruir ou manter os estereótipos existentes.

Alguns estudos apontam para esta linha de pensamento: uma aproximação com o tema foi realizado em 1999, numa amostra de 24 alunos de terceiro ano de ensino médio. O índice de estereótipos negativos no pré-teste não atingiu significância estatística. Entretanto, a porcentagem de estereótipo reduziu a quase zero após uma ação educativa que englobou palestra e visita a uma faculdade de Enfermagem(20).

No presente estudo, 14 alunos (30,4%) desconheciam que o Enfermeiro possui maior escolaridade que o auxiliar de Enfermagem e que o Técnico de Enfermagem, 17 alunos (37%) classificaram o nível de escolaridade do Enfermeiro que trabalha no hospital como 2º grau completo e curso técnico, contudo, 25 alunos (54,3%) classificaram corretamente. Quando questionados sobre o baixo índice de homens na profissão de Enfermagem, a maioria dos estudantes respondeu que a profissão é mais atraente ao gênero feminino, inexistindo o estereótipo do Enfermeiro afeminado.

Solicitou-se também que os estudantes opinassem entre 21 características, aquelas que seriam da Medicina, da Enfermagem ou de ambos. A maioria dos alunos que respondeu a questão (excetuando os não sabiam) apontou as características Prescrição medicamentos, Liderança/Líder, Conhecimento sobre doenças e diagnósticos, Gerente/Gerenciamento, Autoritário como prioritária ao médico. A característica Obediência à ordens de outros profissionais foi apontada como sendo isoladamente característica da Enfermagem por 22 alunos (47,8%). Contudo, outros 22 alunos (47,8%) responderam que Obediência à ordens de outros profissionais é característica da Enfermagem e da Medicina, levantando a hipótese de uma maior visibilidade para o trabalho da equipe multiprofissional e a saída do foco da cura como ato exclusivo à Medicina.

As demais características foram apontadas como próprias da Enfermagem e Medicina pela maioria dos alunos (excetuando os que não sabiam) Habilidade em exame físico, Administrador do trabalho, Orienta família e paciente na volta ao lar, Raciocínio rápido, Conhecimento sobre alimentação, Conhecimento de anatomia e fisiologia, Conhecimento sobre curativos, Prescrição de cuidados, Domínio de cálculos matemáticos, Humanitário/Humanitarismo, Conhecimento sobre medicamentos, denotando importância para a Enfermagem, pois apontaram detenção de conhecimento reconhecido pela grande maioria da amostra.

 

CONCLUSÃO

Deve-se destacar que se trata de uma amostra pequena, que pode ser não significativa da população. Assim, as conclusões advindas desse trabalho não devem ser interpretadas como inferência para a população, mas sim como hipóteses a serem testadas em estudo futuro, com uma amostra estatisticamente representativa da população.

Os estudantes da amostra, em sua maioria, vivem em ambientes familiares clássicos: mãe doméstica e pai trabalhando fora, entretanto, a maioria das profissões foi classificada de forma neutra quanto ao gênero, mesmo que, aparentemente, tenha ocorrido uma maior valorização de status para as carreiras de conotação social masculinas.

No ranking das profissões, a Enfermagem ocupou uma importante posição (8º em status e 9º salarial) e a maioria dos estudantes atribuiu importantes características como pertencentes à Enfermagem e Medicina que sugerem detenção de conhecimento. Entretanto, observa-se na amostra uma compreensão confusa em relação aos componentes da equipe de Enfermagem e à escolaridade do Enfermeiro, que apesar de não constituir a maioria dos estudantes ainda é um índice que merece intervenção (mais de 30%), destaca-se, também, a visão da Medicina como coordenadora do trabalho em saúde.

Desta forma, o presente estudo aponta para as seguintes hipóteses:

1. Está ocorrendo uma atualização da imagem social do Enfermeiro junto a população,

2. O estudante ainda desconhece as categorias da equipe de Enfermagem,

3. O estudante atribui a coordenação do trabalho em saúde à Medicina.

Neste sentido, daremos continuidade a este trabalho estudando uma amostra representativa de alunos do ensino médio das escolas públicas de Ribeirão Preto, finalizando assim a validação do instrumento e iniciando um estudo amplo da efetividade do marketing profissional junto à pré-vestibulandos, onde a avaliação realizada pelo instrumento indicar esta necessidade.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Luciana Barizon Luchesi
Av. Bandeirantes, 3900 - Campus Universitário USP - Monte Alegre
CEP 14040-902- Ribeirão Preto, SP, Brasil

Recebido: 07/01/2008
Aprovado: 01/07/2008

 

 

Agradecimentos Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela concessão da bolsa de Mestrado, aos juízes do instrumento de coleta de dados pela colaboração e aos estudantes.
* Extraído da dissertação " Imagem do Enfermeiro sob a ótica de alunos do ensino médio: elaboração de instrumento" , Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, 2005.