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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.2 São Paulo June 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000200022 

ARTIGO ORIGINAL

 

Enfermeiros com doença crônica: as relações com o adoecimento, a prevenção e o processo de trabalho*

 

Enfermeros con enfermedad crónica, las relaciones con la enfermedad, la prevención y el proceso de trabajo

 

 

Rosária de Campos TeixeiraI; Maria de Fátima MantovaniII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Membro do Grupo de Estudos Multiprofissional em Saúde do Adulto (GEMSA). Enfermeira do Trabalho da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, PR, Brasil. rosariact@ig.com.br
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal do Paraná. Coordenadora do Grupo de Estudos Multiprofissional de Saúde do Adulto (GEMSA) e do Programa de Pós Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, PR, Brasil. mantovan@ufpr.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Os enfermeiros atuam na interface do processo de adoecimento da população e das doenças relacionadas ao trabalho. Ali se evidenciam doenças crônicas, que interferem no processo de trabalho. O estudo teve como objetivos identificar nos enfermeiros as medidas de prevenção de agravos à saúde na presença de doença crônica, analisar a relação entre o conhecimento e suas atitudes frente a elas e verificar a relação dos fatores de risco com o seu processo de trabalho. Trata-se de uma pesquisa quantitativa e descritiva, realizada com 23 enfermeiros portadores de doenças crônicas, representando 76,7% dos 30 enfermeiros com diagnóstico de enfermidade crônica em uma Instituição Hospitalar Federal, sendo 22 do sexo feminino. Verificou-se que os enfermeiros aderem ao tratamento proposto para sua doença, possuem estratégias efetivas para enfrentar o adoecimento com mudança no estilo de vida, e relatam fatores de seu ambiente de trabalho que contribuem para o seu agravamento.

Descritores: Doença crônica. Enfermagem. Processo de trabalho. Estresse.


RESUMEN

Los enfermeros actúan en la interface del proceso de enfermarse de la población y de las enfermedades relacionadas al trabajo, en que se pone en evidencia las enfermedades crónicas, las cuales interfieren en el proceso de trabajo. El estudio tuvo como objetivos identificar, en los enfermeros, las medidas de prevención de problemas de salud en la presencia de una enfermedad crónica, analizar la relación entre el conocimiento y sus actitudes frente a ellas y verificar la relación de los factores de riesgo con su proceso de trabajo. Se trata de una investigación cuantitativa, descriptiva, realizada con 23 enfermeros portadores de enfermedades crónicas, representando 76,7% de los 30 enfermeros con diagnóstico de enfermedad crónica de una Institución Hospitalaria Federal, siendo 22 del sexo femenino. Se verificó que los enfermeros adhieren al tratamiento propuesto para su enfermedad, poseen estrategias efectivas para enfrentar la enfermedad con cambio en el estilo de vida, y relatan factores del ambiente de trabajo que contribuyen para su agravamiento.

Descriptores: Enfermedad crónica. Enfermería. Proceso de trabajo. Estrés.


 

 

INTRODUÇÃO

Os enfermeiros compartilham os perfis de adoecimento e morte da população em geral, em função de sua idade, gênero, grupo social ou inserção em um grupo específico de risco. Além disso, podem adoecer ou morrer por causas relacionadas ao trabalho, como conseqüência da profissão que exercem ou exerceram, ou pelas condições adversas em que este é ou foi realizado(1) .

As investigações sobre este complexo ambiente de trabalho e seus trabalhadores datam da década de 80, do século XX, mas o conhecimento de que o trabalho adoece é milenar e reconhecido desde que a relação causa e efeitos sejam agentes químicos, físicos e biológicos, menos aceito é que o trabalho em si ou o processo de trabalho sejam o fator causal das doenças(2).

A enfermagem tem algumas características peculiares tais como: é prestadora de assistência ininterrupta 24 horas por dia, com atividades diretamente relacionadas ao cuidado e a recuperação das condições satisfatórias de bem-estar, é responsável pela execução de cerca de 60% das ações de saúde. São os trabalhadores da saúde que mais entram em contato com os doentes, e soma-se a isto a predominância do gênero feminino e a formação profissional fragmentada e hierarquizada(3) .

Conhecendo todos estes fatos e no decorrer da trajetória profissional como enfermeira do trabalho, por várias vezes desenvolvi e participei de Programas de Prevenção de Doenças Crônicas com exames médicos periódicos dos servidores de toda a comunidade universitária. Durante a realização de um deles, me deparei com alterações em 60% nos exames capilares de sangue dos trabalhadores advindos do Hospital Universitário, que incluía profissionais das equipes, médica e de enfermagem, os quais apresentavam risco para o desenvolvimento de doenças crônicas.

A presença de uma doença crônica pode representar contínua ameaça tanto para a própria pessoa, quanto para os que estão próximos a ela, pois essa condição afeta sua vida como um todo, alterando dramaticamente seu cotidiano(4), interferindo de formas diferentes no estilo de vida das pessoas e pode interromper ou dificultar a sua inserção no meio de produção da sociedade e diminuir o acesso aos bens de consumo, o que se aplica aos enfermeiros(5).

Na abordagem destes trabalhadores, é conveniente, um tratamento diferenciado que considere suas características próprias, visto que estes se dedicam permanentemente aos cuidados diretos de pacientes acometidos das mais variadas doenças, muitas das quais, infecto-contagiosas. A constante exposição acaba por atingir seu condicionamento psicológico com elevado nível de estresse causado pela angústia e sofrimento de seu semelhante doente. Este quadro é agravado pela extensa jornada de trabalho, pois muitos enfermeiros possuem duplo ou triplo vínculo empregatício e a relação saúde-trabalho e as maneiras de cuidar de sua saúde são muito importantes para a prevenção de agravos e do adoecimento crônico.

 

OBJETIVOS

Esta pesquisa teve como objetivos identificar nos enfermeiros as medidas de prevenção de agravos à saúde na presença da doença crônica, analisar a relação entre conhecimento dos enfermeiros sobre doenças crônicas e as atitudes frente a elas e verificar a relação dos fatores de risco das doenças crônicas com o trabalho de enfermagem. Sua justificativa dá-se pela necessidade de conhecer esta realidade e a partir daí propor medidas visando evitar o agravamento destas em enfermeiros.

 

REVISÃO DE LITERATURA

As doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT), objeto deste estudo são a Hipertensão Arterial, o Diabetes Mellitus e as Dislipidemias. Para estas, existem vários fatores de risco inter-relacionados, cuja prevenção reduziria o aparecimento de novos doentes, atenuaria o surgimento de lesões irreversíveis ou complicações que levariam a graus variáveis de incapacidades, até invalidez permanente. A prevenção de agravos no enfermeiro surge como uma medida de extrema importância.

A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) ocupa lugar de destaque no contexto da transição epidemiológica, por ser uma doença crônico-degenerativa, assintomática, com maior exposição e susceptibilidade de pessoas a uma série de agravos que podem prejudicar a qualidade de vida. É a doença de mais alta prevalência dentre as doenças e agravos não transmissíveis. Trata-se de doença de relativa gravidade em decorrência de sua cronicidade e de sua evolução para lesões de órgãos alvos, no desenvolvimento de várias outras enfermidades como aneurismas, doença vascular periférica, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, afecções retinianas, entre outras, contribuindo com mais de um terço de todas as mortes. Segundo a Organização Mundial de Saúde, em nível global a hipertensão arterial atinge mais de 20% da população e encontra-se em crescimento na maioria dos países. É responsável por 7,1 milhões de mortes, correspondendo a 13% do total em 2002. Estima-se que um terço das aposentadorias no Brasil ocorra por invalidez e tem como principal causa a HAS. Além disso, estas aposentadorias sobrevêm precocemente, em média aos 55 anos de idade(6).

O Diabetes Mellitus (DM) não é uma única doença, mas um grupo heterogêneo de distúrbios metabólicos que apresentam em comum a hiperglicemia, de maior prevalência na atualidade e estima-se que 11% da população brasileira de 40 anos ou mais seja portadora. Em 1996, a prevalência da doença era de 120 milhões de pessoas no mundo e a previsão é que atinja 250 milhões em 2025, devido ao envelhecimento crescente, à obesidade, ao estilo de vida sedentário e às modificações nos padrões diabéticos(7).

As Dislipidemias podem ser causa e conseqüências de várias desordens, sobretudo de natureza cardiovascular e endócrina. Aumentos no colesterol total, sobretudo às custas de LDL, resultam em elevado risco de Aterosclerose, Diabetes Mellitus, Alcoolismo, Hipertiroidismo evoluem com hiperlipidemia(8).

O trabalho exerce forte influência sobre a saúde, as condições de trabalho refletem valores e regras sociais e as doenças dos trabalhadores relacionam-se com diversas variáveis pessoais e institucionais. Muitas das alterações de saúde pelas quais as pessoas passam estão associadas à forma como reagem e respondem aos eventos do trabalho, e o mesmo ocorre com os enfermeiros.

O processo de trabalho do enfermeiro apresenta inúmeras situações que o expõe a um desgaste contínuo com conseqüentes perdas das condições satisfatórias de vida. A literatura internacional refere que a sobrecarga de trabalho, as relações interpessoais, as situações constantes de dor e morte, a falta de autonomia e o excesso de autoridade dos supervisores no trabalho do enfermeiro são estudos que têm provocado discussões. No Brasil, pesquisas têm sido realizadas sobre esta temática, mas apesar de identificarem os diversos fatores de risco e cargas de trabalho, em particular com o trabalho da equipe de enfermagem, não relacionam esses fatores aos processos de trabalho e ao adoecimento crônico(9).

Dessa forma, é importante o enfermeiro conhecer o seu processo de trabalho, fazer a reflexão necessária para a compreensão dele em cada local, sua práxis, seu papel para o desenvolvimento de uma forma mais criativa de trabalhar que beneficie a si mesmo, ao doente e a profissão como um todo. O trabalho excessivo não favorece a profissão no contexto atual, além de prejudicar o individual.

 

MÉTODO

A abordagem da pesquisa foi de natureza quantitativa, descritiva, escolhida para a análise por representar de forma expressiva os objetivos expostos.

O local do estudo foi um Hospital de Ensino Público Federal, Centro de Referência na atenção à saúde de média e alta complexidade do Sistema Único de Saúde (SUS) com 643 leitos distribuídos em diversas especialidades, 510 ambulatórios, 288 consultórios e 6524 colaboradores, local em que circulam diariamente cerca de 11.000 pessoas.

A população da pesquisa foi composta por 235 enfermeiros com vínculo Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) e estatutárias do Regime Jurídico Único (RJU), que compõem o quadro funcional da Instituição hospitalar.

De posse da quantidade e do nome dos enfermeiros realizou-se uma busca nos prontuários médicos dos mesmos no Serviço Especializado de Segurança e Medicina do Trabalho - SESMT e na Junta Médica Pericial com prévia autorização das Chefias destes setores, focalizando os critérios de inclusão que foram: 1) atuantes na assistência, sem afastamento médico no período da coleta de dados, 2) com idade variando de 30 a 60 anos, 3) com doença crônica diagnosticada HAS e/ou Diabetes e/ou Dislipidemias e 4) dispostos a participar da presente da amostra. Foram selecionados 30 enfermeiros e destes 23 aceitaram participar da pesquisa

O projeto da pesquisa foi encaminhado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Setor de Ciências da Saúde (CEP/SD: 344.024.07.04, CAAE: 0081.0.208.091-07).

A coleta de dados foi realizada entre maio e setembro de 2007, mediante a utilização de um questionário estruturado, fechado e auto-aplicável(10), com 28 questões, disposto em duas modalidades distintas: a primeira foi elaborada com a intenção de realizar uma análise situacional a partir do perfil destes enfermeiros, a segunda, organizada em forma de perguntas abertas.

Os dados foram descritos e sistematizados em planilhas e inseridos num banco de dados no programa Microsoft Excel 2003, possibilitando uma primeira categorização das informações fornecidas pelos enfermeiros que depois de agrupados, foram processados. Planilhas eletrônicas foram construídas e analisadas por uma estatística com ajuda do Programa para computador Statistical Packages for the Social Sciences (SPSS) for Windows 5.0, na análise da relação entre as variáveis, comparando-se os resultados obtidos e os que esperávamos. As respostas das questões abertas foram categorizadas por afinidade e similaridade em modalidades, apresentadas em quadros e tabelas.

 

RESULTADOS

Caracterização dos enfermeiros

A pesquisa evidenciou que a idade dos enfermeiros variou de 35 a 58 anos, com média de 47,3 anos, o tempo de atuação profissional esteve num mínimo de 10 e máximo de 38 anos, com média de 22,7 anos. Houve uma prevalência de enfermeiras casadas 14 (60,87%). A carga horária semanal apresentou uma variação de 30 a 70 horas, com média de 37,5 horas por semana. A maioria dos enfermeiros, 69,57% pertence à religião católica e 17,39% deles afirmaram não ter religião. O tempo de trabalho na Instituição atual oscila entre 10 a 25 anos, permanecendo o enfermeiro na mesma Instituição por muitos anos. A maioria dos enfermeiros (86,96%) possui planos de saúde.

Relação dos fatores de risco das doenças crônicas com o processo de trabalho da enfermagem

A relação entre os fatores de risco das doenças crônicas e as relações com o processo de trabalho da enfermagem foi observado analisando variáveis como: respostas dos enfermeiros por fator de risco para doenças crônicas e os fatores que contribuem para o adoecimento crônico citados por eles, a lotação dos enfermeiros, tipo de atividade e doenças, a porcentagem de enfermeiros por tempo de trabalho na instituição e tempo de diagnóstico, turno de trabalho versus doenças e tempo de diagnóstico, número de vínculos dos enfermeiros e doenças.

Analisando a figura a seguir observamos que esta população relata quatro fatores de risco para doenças cardiovasculares em especial: estresse (25,60%), Hipertensão arterial (21,10%), seguido dos antecedentes familiares de doenças crônicas (18,90%) e obesidade (14,40%).

 

 

A enfermagem foi classificada pela Health Education Authority como a quarta profissão mais estressante, no setor público, que vem tentando profissionalmente afirmar-se para obter maior reconhecimento social(11). Para estas autoras alguns elementos são conhecidos como ameaçadores ao meio ambiente ocupacional do enfermeiro, entre os quais o número reduzido de profissionais de enfermagem no atendimento em saúde, em relação ao excesso de atividades que executam, as dificuldades em delimitar os diferentes papéis entre enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, e a falta de reconhecimento nítido entre o público em geral de quem é o enfermeiro.

Com relação entre o tipo de atividade desempenhada pelos enfermeiros na Instituição e sua relação com as doenças crônicas encontramos os dados a seguir:

 

 

Verifica-se que o enfermeiro com atividades assistenciais conjugadas ou não às administrativas, apresenta maior número de doenças que os que atuam em atividades administrativas. Pode-se verificar que 19 enfermeiros (78,3%) com doenças crônicas atuam na área assistencial, sendo necessário discutir as condições de trabalho destes.

Medidas de prevenção de agravos à saúde adotada pelos enfermeiros na presença da doença crônica

Neste item verificamos o conhecimento dos enfermeiros sobre sua doença e complicações, a quantidade de vínculos empregatícios e o número de atividades de lazer, a porcentagem de enfermeiros por atividade de lazer, o tempo de diagnóstico das doenças e a quantidade de atividades de lazer. Verificamos, também, as atitudes de prevenção citadas pelos enfermeiros, as formas de cuidado de saúde citadas, as mudanças ocorridas no cotidiano dos enfermeiros após a doença, o que pensam ser necessário modificar no ambiente de trabalho e as sugestões para a melhoria deste e equilíbrio da saúde destes profissionais.

Quando questionados sobre o que conhecem de suas doenças e os agravos a ela relacionados, suas respostas foram agrupadas nos dois temas acima pela similaridade, na tabela a seguir:

 

 

Os enfermeiros, na maioria (82,60%), conhecem suas doenças e os agravos. Dos 23 enfermeiros, 19 conheciam os sinais e sintomas, as complicações, o tratamento medicamentoso necessários para o não agravamento de suas doenças. Os outros 4 (17,40%) enfermeiros conheciam a doença, as complicações, mas não mencionaram o tratamento, o que não significa que o desconhecem.

Cruzando os dados sobre a quantidade de vínculos empregatícios e número de atividades de lazer praticadas pelos enfermeiros observou-se que não há diferença entre número de vínculos e atividades de lazer, indicando que mesmo com mais de uma relação empregatícia, os enfermeiros se preocupam em desenvolver algum tipo de atividade de lazer, o que contribui para a manutenção da saúde.

Na questão aberta, o que faz para prevenir complicações das doenças crônicas, os enfermeiros relataram em sua maioria (57,70%) adesão ao tratamento não medicamentoso como, por exemplo, realização de atividade física e controle alimentar, seguidas pela realização de adesão ao tratamento medicamentoso (28,85%), como demonstrado na Tabela 3.

 

 

Na questão aberta, o que faz para prevenir complicações das doenças crônicas, os enfermeiros relataram em sua maioria (57,70%) adesão ao tratamento não medicamentoso como, por exemplo, realização de atividade física e controle alimentar, seguidas pela realização de adesão ao tratamento medicamentoso (28,85%).

Quando questionados sobre quais os problemas de saúde os levam a procurar ajuda e que profissionais procuram observou-se que geralmente buscam médicos, e devido a doenças não a sintomas específicos, como por exemplo, problemas osteoarticulares (17,4%), emocionais (17,4%), respiratórios (13,0%) e metabólicos gerais (13,0%) entre outros.

Conforme se observa na Tabela 4 os enfermeiros responderam genericamente sobre quais as mudanças ocorridas na sua vida após o diagnóstico de doença crônica e em sua maioria referem-se à esfera física (44,83%) como, por exemplo, ao controle do peso, e as mudanças comportamentais (20,69%) como renúncia a determinadas metas profissionais e redução de envolvimento com paciente.

 

 

DISCUSSÃO

A atividade primordial dos enfermeiros é o cuidado ao ser humano e sua família, e faz parte dele lidar com a dor, a doença e a morte. É um trabalho complexo e desgastante, contudo pouco se tem investido em pesquisas que especifiquem os seus papéis tanto como usuários quanto como prestadores de serviços, e na análise de seus agravos.

Os enfermeiros formam um grupo populacional que cumpre um dos mais importantes papéis sociais e humanitários, e numericamente, também ocupam posição expressiva(12). A elevada tensão emocional advinda do cuidado direto de pessoas enfermas, associada às longas jornadas, à baixa remuneração da maioria dos profissionais, ao freqüente emprego duplo, ao desenvolvimento de tarefas desagradáveis, gera danos à saúde, propiciadores de acidentes, de encurtamento de vida e até mesmo de morte prematura dos trabalhadores de enfermagem(13).

Cada um possui uma forma singular de lidar com o aparecimento da doença e o tratamento, bem como, com o impacto que eles provocam na vida das pessoas que compõem sua rede social. Fatores como vontade de viver, suporte dos entes queridos, conformismo perante o inevitável, fé em Deus, dentre outros, são utilizados como uma maneira para resistir e prosseguir em sua jornada(14). Estas atitudes evidentemente variam de pessoa para pessoa e são influenciadas por suas crenças e valores, mas penso que são utilizados pelos enfermeiros.

Nesta pesquisa quanto às características dos sujeitos verificou-se a predominância do sexo feminino que é atributo da profissão, com média da idade elevada (47,3 anos) associada ao tempo de trabalho entre 10 a 25 anos encontrados na mesma instituição.

O conhecimento dos enfermeiros sobre sua doença e complicações evidenciou-se, pois eles demonstraram na maioria (82,60%) que conhecem suas doenças e os agravos. O tempo de diagnóstico destas doenças é em média de 8,5 anos verificando-se que enfermeiros que estão no início do tratamento, realizam mais atividades de lazer, porém com a evolução do tempo de diagnóstico tendem a reduzir em até 50% estas atividades.

A quantidade de vínculos empregatícios não influencia o número de atividades de lazer, sendo este mais de entretenimento (44,44%), seguido por atividades físicas (30,87%) e viagens (24,69%). Entende-se que o lazer tem papel fundamental enquanto meio alternativo para o relaxamento e alívio dos problemas advindos do contexto e do cotidiano do indivíduo(15).

Como atividades de prevenção 57,70% dos enfermeiros relataram adesão ao tratamento não medicamentoso, seguido pela realização de adesão ao tratamento medicamentoso (28,85%). A totalidade realiza pelo menos um tipo de tratamento, sendo que a maioria deles segue as orientações obtidas dos seus médicos como a utilização dos medicamentos recomendados, a dieta balanceada e a prática de exercícios físicos, contrariando literatura sobre o assunto que refere a não adesão a tratamentos, principalmente no caso da Hipertensão Arterial. Até 80% dos casos de doenças coronarianas, 90% dos casos de diabetes tipo 2 e 1/3 dos casos de câncer e suas complicações podem ser evitados mediante aumento da atividade física, mudanças nos hábitos alimentares e abandono do tabagismo(16).

Pacientes que não aderem às recomendações de mudança de estilo de vida e/ou não seguem as prescrições, dificilmente apresentarão níveis de pressão arterial controlados, ou melhoria das outras doenças crônicas, fato que não ocorre com os enfermeiros desta pesquisa, pois aderiram em sua maioria(17).

Nas formas de cuidado com a saúde, eles investem nas atividades religiosas, na família e atividades sociais, no lazer, atividades físicas, realizam mudanças no que é possível no trabalho como: diminuição de carga horária, não realização de horário extraordinário, redução da carga de trabalho, evitar se expor ao estresse, controlar a agitação e não realizar plantão noturno.

Ao indagar sobre as modificações posteriores ao diagnóstico de doenças crônicas, a fim de entender o processo de adoecimento, percebe-se que para a maioria (86,20%) o diagnóstico da doença mudou a vida, porém para outros (13,80%) não houve mudança significativa, e referem-se a esfera física (44,82%) como, por exemplo, o controle do peso, e as mudanças comportamentais (20,69%), como renúncia a determinadas metas profissionais e a redução de envolvimento com paciente. A principal mudança foi a incorporação das atividades físicas no dia-a-dia dos enfermeiros. O próprio tratamento prolongado das doenças crônicas faz com que os enfermeiros se lembrem a toda hora que ações de autocuidado precisam ser praticadas para se manter o equilíbrio da saúde.

As doenças crônicas provocam mudanças na vida das pessoas, não só na estrutura e funcionamento do organismo, mas também nas condições e qualidade de vida, com o desenvolvimento da necessidade de novos hábitos, revisão de papéis sociais e da incorporação da doença em seu processo de viver(18), fato que pode ser evidenciado neste estudo porque os enfermeiros modificaram hábitos, realizaram alterações no trabalho como evitar situações estressoras e modificaram atitudes que agravavam suas enfermidades.

Em relação aos fatores de risco das doenças crônicas e as relações com o processo de trabalho de enfermagem, a maioria dos enfermeiros relatou o estresse (25,60%), a Hipertensão Arterial (21,10%), seguido dos antecedentes familiares de doenças crônicas (18,90%) e obesidade (14,40%) como os predominantes.

Nesta pesquisa, com base na riqueza dos dados obtidos verificou-se que um dos pressupostos por nós elaborados, o de que o trabalho da enfermagem concorre para o adoecimento crônico, e o seu trabalhador precisa perceber-se como alguém que enfrenta este processo, não foi possível comprovar devido a algumas limitações como: a população estudada não retratou o número real de enfermeiros com doença crônica na Instituição, pois nem todos as relatam ao Serviço de Saúde Ocupacional ou a Junta Médica Pericial, geralmente só os que se afastam por estes motivos; a realização da pesquisa em uma única Instituição, não possibilita generalizar os resultados encontrados; a abordagem quantitativa não permitiu uma análise aprofundada das questões abertas que mereceria um estudo qualitativo. É importante ressaltar que o fato dos sujeitos desta pesquisa serem enfermeiros com o mesmo nível de escolaridade e, portanto, conhecerem as doenças crônicas estudadas, visto que todos os cursos de enfermagem as abordam, influenciou de alguma forma as respostas aos questionamentos realizados, pois a tendência deles foi responder o que é correto, mas não necessariamente o que efetivamente praticam.

 

CONCLUSÕES

Os agravos à saúde do trabalhador enfermeiro são verdadeiros e merecem destaque importante no trabalho hospitalar e no conjunto da saúde. Assim, recomenda-se que deve ser incorporada ao cotidiano desses profissionais, a prevenção através do Serviço de Saúde Ocupacional do Hospital, oferecendo condições de reajustes na sua condição de vida e trabalho, com adaptação em funções, setores e horários menos estressantes para melhor enfrentamento dos estímulos externos e internos, sendo esse fundamental para o não aparecimento ou agravamento da condição crônica de saúde, assim como a realização de estudos com outras abordagens metodológicas com enfermeiros portadores de doenças crônicas e a ampliação desta pesquisa para outras instituições.

Por fim, considera-se que esta pesquisa possa vir a subsidiar futuros estudos se os enfermeiros tiverem consciência do seu processo de trabalho, do desgaste, do estresse, bem como o conhecimento científico para o enfrentamento dos agravos de saúde e das situações presentes no local de trabalho.

Os enfermeiros se sentem cuidados à medida que o ambiente, em termos sociais e estruturais, provê as condições e meios necessários para que possam experimentar conforto, bem-estar, realização e valorização no âmbito profissional e pessoal, bem como possibilitar a expressão de suas emoções e pontos de vista, pois o trabalho saudável deve ser adequado no que diz respeito as potencialidades e limites das condições humanas, das organizações, das adaptações quando possível ao local de trabalho para minimizar o aparecimento de doenças crônicas.

 

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Correspondência:
Rosária de Campos Teixeira
Rua Benedito Berillo Fangueiro, 233 - Sobrado 02 - Bairro Uberaba
CEP 81540-420 - Curitiba, PR, Brasil

Recebido: 14/04/2008
Aprovado: 21/08/2008

 

 

* Extraído da dissertação "Enfermeiros com doença crônica: as relações com o adoecimento, a prevenção e o processo de trabalho", Universidade Federal do Paraná, 2007.

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