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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.4 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000400001 

EDITORIAL

Revistas brasileiras de enfermagem: grandes conquistas, novos desafios

 

Piotr Trzesniak

Físico. Professor Titular da Universidade Federal de Itajubá. Itajubá, MG, Brasil. piotrze@unifei.edu.br

 

 

O ano era 1998, e eu ocupava algum cargo (menor) na Diretoria da Associação Brasileira de Editores Científicos. Recebemos uma consulta da ABEn para um minicurso no contexto do Encontro Nacional, que seria realizado em Salvador. Apesar dos atrativos turísticos, todos os que eram mais importantes que eu não podiam ir, e lá me fui. Aventurava-me pela primeira vez na enfermagem, mas já havia me arriscado com biblioteconomia e ciência da informação, o que me deixava confiante – porém apenas um pouquinho mais do que o mínimo.

Claro que, para ir, precisava fazer alguma lição de casa. Felizmente, na cidade onde trabalhava, Itajubá/Minas Gerais, existe a Escola de Enfermagem Wenceslau Brás e sua biblioteca. Fui ver o que havia em termos de revistas brasileiras na área, e encontrei cerca de quinze títulos – todos impressos. Atenção, você com menos de trinta anos: nem faz tanto tempo – digamos meia geração –, não havia periódicos eletrônicos!

Agora, em setembro de 2009, são cinco somente na SciELO (um deles está também na RedALyC), e há outros cinco (diferentes) que utilizam a plataforma SEER/OJS (sem mencionar alguns de temática geral na área de saúde, que tem enfermagem como um dos assuntos contemplados). Que riqueza, que facilidade. Vejam, estas informações consegui em dez minutos, apenas fazendo uma pequena pausa na preparação deste texto. Então, sem dúvida: a primeira e maior conquista da Ciência (em nível de infraestrutura, se podemos assim dizer) foi a difusão eletrônica. E a enfermagem (como área), e esta REEUSP de todos nós, se mantiveram totalmente em sintonia com este contexto.

Outro passo relevante diz respeito às indexações. Não levantei essa informação em 1998. Poderia até recuperá-la agora, mas pensando bem, de que serviria? É quase certo que houvesse algumas indexações na base Lilacs, mas pouco mais do que isso. Hoje, o panorama é muito mais pujante, a começar pelas próprias bases, muito mais abrangentes em termos de títulos, muito mais amigáveis em termos de facilidade de consulta, muito, mas muito mais rápidas em oferecimento de respostas. Também nesta dimensão, a REEUSP destes últimos anos se sai galhardamente: SciELO, ISI/Thomson Reuters, Scopus. Denominações que implicam respeito por parte da comunidade, prestígio para a revista, satisfação pelo sentimento de dever bem cumprido para a equipe editorial.

Acho que já está bom quanto às conquistas; importantes mesmo são os desafios. E acho que o maior deles encontro já em minha transparência de 1998. Naquele tempo, eram manuscritas, com uma canetinha especial, sobre filme plástico transparente.

Escrevi lá: fui à biblioteca e encontrei várias revistas. Vi melhorias que poderiam ser introduzidas em algumas delas, mas fiquei com uma dúvida: qual é o conhecimento próprio da enfermagem? Qual parte não é emprestada de outras áreas? Não sei, mas estou certo de que vocês sabem.

Sim, com certeza os vocês, editoras e editores que lá estavam em 1998, sabiam. Mas e todas as demais enfermeiras, e aqueles poucos todos, sabem? A Enfermagem é uma das áreas cuja dimensão profissional é bem mais desenvolvida e atuante que a científica, e as/os profissionais muitas vezes estão demasiadamente ocupados para pensar academicamente. Mas é preciso fazê-lo, por pelo menos duas razões: (i) sob o ponto de vista da avaliação Capes, todas as áreas são predominantemente científicas; e (ii) mesmo não sendo acadêmico, é preciso ter a visão de cientista (explico depois) para produzir bons artigos.

Ops,acabei mencionando o segundo grande desafio (bons artigos) sem concluir o primeiro (a ciência própria da enfermagem). Melhor tratar um de cada vez.

Ciência da enfermagem: se entrei no Congresso da ABEn inquieto quanto a esse ponto, não demorei a me tranquilizar. Identifiquei no cuidar a ciência da enfermagem, e isso desfez minha angústia. Venha algo da Psicologia, da Física, da Bioquímica ou da Economia: a enfermagem vai acrescentar a dimensão cuidar, e transformar esse algo em um conhecimento próprio.

Cumpre explicar um pouco como pensa um físico: essa... etnia fica satisfeita com uma hipótese plausível, e fica com ela até que se revele inadequada. Não lhes importa muito se ela é de fato correta. Então, se essa ideia do cuidar for correta, que bom. Mas se não for, que bom também: no próximo editorial, uma enfermeira (ou enfermeiro) que, diferente de mim, de fato entenda do assunto, pode escrever um editorial e me corrigir...

(mas, por favor, não bata muito fortemente em mim, veja antes o último parágrafo).

Bons artigos resultam da combinação de um novo conhecimento com o adequado cumprimento dos respectivos papéis pelos atores do processo editorial. Há muitos anos, defini tal processo como uma cumplicidade cordial entre autores/as, revisores/as e editor/a, rumo à excelência do conhecimento. Essa conceituação até hoje me agrada, e vou tentar torná-la mais explícita a seguir.

1. O Conhecimento: um artigo científico deve representar um avanço no conhecimento, baseado em uma pesquisa original de suas autoras e seus autores. De modo muitíssimo breve, conhecimento é o que nos capacita a controlar o universo (natural e humano) em benefício da humanidade (sobrevivência, prazer, qualidade de vida, lazer,...). Antes da pesquisa, o conhecimento não existe; após a conclusão da pesquisa, o conhecimento está descoberto, mas ainda não existe! Somente depois de publicado numa revista com visibilidade, o conhecimento passa a existir!

2. O papel da Editora ou Editor: a principal e maior responsabilidade da Editora ou do Editor é colocar o melhor e mais recente conhecimento à disposição da humanidade. Melhor conhecimento não é aquele que apenas tem dois pareceres favoráveis, mas sim, aquele que (i) está bem construído e bem justificado, e (ii) é relevante, ou seja, vai trazer consequências diretas para o benefício da humanidade, ou então (iii) vai oferecer uma base para outros trabalhos que trarão consequencias diretas para o benefício da humanidade (apresenta potencial de citação).

O editor (a editora) tem que estar convicto de que o que está publicando é bom!

3. O papel do autor ou autora: antes de tudo, pesquisar, pesquisar, pesquisar, ficando grávido(a) de novo conhecimento. Terminada a gestação (não se preocupe, você saberá a hora), aí sim, escrever!

Não enviar o artigo desejando, esperando, exigindo que seja publicado, mas com o espírito de construção do conhecimento. O processo editorial das revistas é parte dessa construção; um compuscrito em versão final não é conhecimento concluído.

Desejar, esperar e exigir, sim, bons pareceres, e estar preparado para refazer o trabalho, considerando as sugestões construtivas neles contidas (garantir que os pareceres sejam bons e construtivos é responsabilidade da editora ou editor).

O autor (a autora) tem que estar convicto/a de que o que está submetendo é bom! Nunca enviar qualquer coisa, no espírito do se colar, colou!; não delegar para cima, transferindo as responsabilidades de autoria, espe-cialmente correções triviais, para as revisoras e o editor. Tais ações oportunistas sujeitam autores/as a, merecidamente, receber respostas duras da editora e/ou dos revisores.

4. O papel do revisor ou revisora: basta lembrar-se de que todo revisor, toda revisora tem seu dia de autor. Você espera pareceres bons e construtivos, no prazo? Então dê pareceres bons e construtivos, no prazo!

A sua recompensa, o seu retorno maior pelos bons pareceres que der serão os pareceres que irá receber.

5. Mais para a Editora ou Editor: Cabe ao Editor/Editora zelar para que (i) revisores/as só recebam compuscritos promissores, e (ii) autores/as recebam sempre pareceres bons e construtivos.

Prometi algo especial para o último parágrafo, e é uma mensagem bem pessoal à comunidade de enfermagem. Foi de fato muito fácil encontrar as cópias das transparências de 1998 entre os muitos papéis de 40 anos (comecei bem jovem!) de vida acadêmica, mesmo tendo passado por três mudanças (e dizem que duas já equivalem a um incêndio!). A razão não é que eu seja muito organizado. É que eu (man)tenho um legítimo caso de amor com a enfermagem e, se ele não transpareceu nos parágrafos anteriores, que fique bem claro por aqui.

E muito, muito obrigado pela generosa acolhida.