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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.4 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000400015 

ARTIGO ORIGINAL

 

O estresse entre enfermeiros que atuam em Unidade de Terapia Intensiva

 

El estrés entre enfermeros que actúan en las Unidades de Terapia Intensiva

 

 

Vivian Aline PretoI; Luiz Jorge PedrãoII

IEnfermeira. Docente do Centro Universitário Católico Unisalesiano Auxilium. Araçatuba, SP, Brasil. viviusp@yahoo.com.br
IIEnfermeiro. Professor Doutor da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. lujope@eerp.usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

A presença de estresse tem sido verificada em diferentes profissionais e também entre enfermeiros de UTI, pelo fato de ser grande sua proximidade com os pacientes em sofrimento e com risco de morte. Esse fato se agrava devido à necessidade de cuidados diretos e intensivos. Este estudo, seguindo uma metodologia quantitativa, objetivou caracterizar os enfermeiros que desenvolvem suas atividades em UTI e verificar a presença de estresse entre eles. Para isso, vinte e um enfermeiros de UTIs de cinco hospitais do interior do estado de São Paulo responderam a um roteiro de perguntas direcionadas a sua caracterização e ao Inventário do Estresse em Enfermeiros. Os resultados mostraram que 57,1% dos enfermeiros estudados consideraram a UTI um local estressante e 23,8% deles apresentaram um escore elevado, indicando a presença de estresse. Tal fato demonstra que o estresse, mesmo sendo discutido desde longa data, ainda acomete esses profissionais, e as instituições ainda não oferecem atenção especial aos enfermeiros no sentido de promover sua saúde integral.

Descritores: Estresse. Enfermagem. Unidades de Terapia Intensiva.


RESUMEN

La presencia de estrés ha sido verificada en diferentes profesionales y también entre enfermeros de UTIs, debido al hecho de su gran proximidad con los pacientes en sufrimiento y con riesgo de muerte. Ese hecho se agrava debido a la necesidad de prestar cuidados directos e intensivos. Este estudio, siguiendo una metodología cuantitativa, objetivó caracterizar los enfermeros que desarrollan sus actividades en la UTI y verificar la presencia de estrés entre ellos. Para esto, veintiún enfermeros de UTIs de cinco hospitales del interior del estado de São Paulo respondieron un cuestionario de preguntas dirigidas a su caracterización y al Inventario del Estrés en Enfermeros. Los resultados mostraron que 57,1% de los enfermeros estudiados consideraron la UTI un local causador de estrés y 23,8% de ellos presentaron un puntaje elevado, indicando la presencia de estrés. Este hecho demuestra que el estrés, inclusive siendo discutido desde hace mucho tiempo, todavía acomete a esos profesionales, y las instituciones todavía no ofrecen atención especial a los enfermeros en el sentido de promover su salud integral.

Descriptores: Estrés. Enfermería. Unidades de Terapia Intensiva.


 

 

INTRODUÇÃO

A palavra estresse tem sido muito utilizada, sendo associada a sensações de desconforto, aumentando a cada dia o número de pessoas que se definem como estressados ou julgam indivíduos nas mais adversas situações como estressados. Essas diferentes situações, dependendo do ponto de vista individual, podem desencadear diversos tipos de reações emocionais. Muitas pessoas qualificam principalmente as situações desagradáveis como estressoras. Assim, a compreensão e a avaliação do estresse não se fazem relevante à situação em que o indivíduo se encontra, mas sim, se relaciona à percepção que ele tem sobre a situação que vive usando seu processo psicológico e sua compreensão dos fatos.

O estresse é considerado o mal do século, como uma epidemia semelhante àquelas que em épocas como a Idade Média dizimou populações. Na área da saúde, esse poder de disseminação é até considerado exagerado, pois os profissionais estão tão envolvidos com o assistir aos pacientes que, muitas vezes, não conseguem diagnosticar suas próprias vulnerabilidades ao referido mal(1).

O conceito de estresse é entendido como uma avaliação que o indivíduo faz das situações as quais é exposto como sendo mais ou menos desgastantes. Isso é, o que em seu trabalho é identificado como uma situação negativa, de difícil enfrentamento(2).

O trabalho nos dias atuais parece ser um importante fator gerador de estresse. Dentro do ambiente laboral, é de suma importância aprender a enfrentá-lo de forma que ele venha a se tornar positivo, trazendo benefícios individuais e grupais(3). O profissional sabendo identificar quais são os fatores que o estressa, pode de alguma forma lidar com o que lhe incomoda e melhorar sua qualidade de trabalho e de vida.

A enfermagem é uma profissão estressante e esse fato se relaciona ao trabalho com pessoas que sofrem e requerem grande demanda de atenção, compaixão e simpatia. O enfermeiro quando lida com essa situação pode se sentir irritado, deprimido e desapontado. Esses sentimentos podem ser considerados incompatíveis com o desempenho profissional, trazendo conseqüentemente a culpa e o aumento da ansiedade(4).

Nas últimas décadas, a busca, entre outras coisas, por uma assistência cada vez mais qualificada ao indivíduo doente tem estimulado as inovações tecnológicas e a modernização das instituições hospitalares, e, assim sendo, o presente estudo enfocou o trabalho em Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no sentido de contribuir ainda mais para o desenvolvimento de uma assistência de enfermagem qualificada, mesmo sabendo que são unidades hospitalares já bastante exploradas como objetos e locais de pesquisa.

O objetivo dessas unidades visa à recuperação do paciente em tempo hábil, dentro de um ambiente físico e psicológico adequado, onde cada profissional deve estar apto para utilizar as facilidades técnicas existentes e aproveitá-las, assim como estar preparados para atividades complexas que envolvem uma difícil carga de trabalho, exigindo um bom preparo teórico e prático, físico e mental, pois, essas unidades, constituem-se em ambientes onde se encontram pacientes que necessitam de cuidados diretos e intensivos, por apresentarem graves quadros com grande comprometimento da saúde, podendo, inclusive, evoluir para a morte(5).

A presença do profissional de enfermagem em UTI é indispensável. O enfermeiro desenvolve atividades gerenciais e assistênciais, além de desempenhar um papel importante na preservação da integridade física e psicossocial dos pacientes. O profissional precisa ser capacitado para realizar atividades complexas, as quais a fundamentação teórica, aliada a liderança, dicernimento, responsabilidade e prática são importantíssimos.

Existem muitas situações de estresses dentro das UTIs em virtude da constante expectativa de situações de emergência, da alta complexidade tecnológica e da concentração de pacientes graves, sujeitos a mudanças súbitas no estado geral. Desta forma, o ambiente de trabalho caracteriza-se como estressante e gerador de uma atmosfera emocionalmente comprometida, tanto para os profissionais como para os pacientes e seus familiares(6).

Estudos demonstram que enfermeiros que trabalham com cuidados críticos estão mais propensos ao estresse(7) enquanto outros estudos ressaltam que a sobrecarga de trabalho e os problemas de relações interpessoais aparecem como estressores mais evidentes junto ao ambiente organizacional entre enfermeiros de UTI(8).

É muito importante a compreensão da realidade vivenciada pela equipe multiprofissional que atua em terapia intensiva. Essa compreensão requer, entre outras coisas, a identificação dos fatores que dificultam a sua atuação, os quais podem estar contribuindo para a despersonalização do atendimento ao paciente e sua família, gerando o distanciamento, o estresse e o sofrimento da equipe. O ambiente de uma UTI é bastante estressante e o grupo que atua nesse local requer cuidados, pois o resultado do trabalho depende da equipe como um todo(9).

O perfil emocional de enfermeiros que atuam em UTIs sofre alterações no decorrer do plantão, o que pode estar relacionado ao desgaste e estresse próprios da atividade de prestar assistência, sobretudo nestas unidades, onde há exigência de alto nível de habilidades e necessidade de respostas imediatas em emergências(10).

Existem as variáveis que também interferem na atuação de enfermeiros em UTIs, tais como: ambiente extremamente seco, refrigerado, fechado e iluminação artificial; ruído interno contínuo e intermitente; inter-relacionamento constante entre as mesmas pessoas da equipe, durante todo o turno, bem como, a exigência excessiva de segurança, respeito e responsabilidade para o paciente, em sofrimento, dor e com morte iminente, para a garantia da qualidade da assistência. Esses indicadores certamente resultam em um clima de trabalho exaustivo e tenso, provocando desmotivação, conflito entre os membros da equipe e estresse ao grupo de trabalho e em particular, ao trabalhador, individualmente(11).

Outros fatores desencadeadores de estresse dentro das UTIs são traduzidos na dificuldade de aceitação da morte, na escassez de recursos materiais (leitos e equipamentos) e de recursos humanos e na tomada de decisões conflitantes relacionadas com a seleção dos pacientes que serão atendidos. Esses são alguns dos dilemas éticos e profissionais vivenciados cotidianamente pela equipe multiprofissional que atua em terapia intensiva. Essas situações criam tensão entre os profissionais, que, em geral, influenciam negativamente na qualidade da assistência prestada aos clientes(9).

 

JUSTIFICATIVA

De acordo com o exposto, acredita-se ser de fundamental importância à atenção especial aos profissionais enfermeiros que atuam em UTIs, daí a realização deste estudo ser considerado de grande valor para a Área da Enfermagem de um modo geral, tendo em vista a necessidade da busca de meios propícios que venham promover a saúde integral desses trabalhadores. Estudos sobre as manifestações do estresse ocupacional entre enfermeiros, principalmente os que desenvolvem suas atividades profissionais em UTIs, podem auxiliar uma melhor compreensão dos problemas enfrentados pela classe e permitir propostas de intervenções e busca de soluções.

 

OBJETIVO

Caracterizar os enfermeiros que trabalham em UTI e verificar a presença de estresse entre eles.

 

MÉTODO

Este estudo foi realizado de forma quantitativa, baseado principalmente em uma linguagem numérica, utilizando um instrumento de medida capaz de oferecer respostas diretas aos seus objetivos.

Foi solicitado autorização de 8 hospitais do interior do estado de São Paulo, dos quais apenas 5 concordaram em participar. Para evitar uma possível identificação dos sujeitos, optou-se-se por não divulgar as cidades e nem os nomes dos hospitais que aceitaram participar, visto que, em alguns, apenas 2 ou 3 enfermeiros foram inclusos. Sendo assim, para uma simples caracterização considerou-se oportuno nomear os hospitais de A; B; C; D e F.

Os hospitais A e B são instituições filantrópicas considerados de médio porte, suas UTIs possuem 10 leitos e o quadro de enfermeiros que atuam na unidade é de 4 e 5 respectivamente. Os hospitais C e D são também instituições filantrópicas, classificados como de grande porte e suas UTIs possuem respectivamente 11 e 13 leitos, sendo o quadro de enfermeiros do hospital C de 7 e do hospital D de 10 profissionais. O hospital F é um hospital privado, classificado como de pequeno porte, sua UTI possui 5 leitos e seu corpo de enfermeiros é de 3. Todas as UTIs inclusas no estudo se destinam ao atendimento de pacientes clínicos e cirúrgicos.

No hospital titulado de A, 2 enfermeiros participaram da pesquisa; no B, foram 3; no C foram 5 enfermeiros; no D foram 9 enfermeiros, e no F participaram 2 enfermeiros. O número total de sujeitos possível foi de 29, mas, como mostrado, foram inclusos na presente pesquisa 21, devido aos seguintes motivos: 3 estavam de férias; 1 estava de licença gestante e 4 tinham menos de um ano de atuação nas UTIs locais do estudo, não sendo inclusos pelo fato de estarem no início do desenvolvimento de suas atividades nesses ambientes, e, portanto, vivenciando ainda um processo de adaptação, consequentemente com o risco de criarem viésses em suas respostas aos instrumentos utilizados para coleta de dados.

Procedimentos de coleta

O projeto dessa pesquisa obedeceu as normas da resolução 196/96 do Ministério da Saúde e foi apreciado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa Envolvendo Seres Humanos da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, sob o protocolo de aprovação nº 0693/2006. Os enfermeiros que se dispuseram a participar do estudo assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Após as aprovações anteriormente descritas quanto aos procedimentos éticos, foram feitos contatos com os sujeitos do estudo para o convite à participação e o envio do material da pesquisa referente a coleta de dados. O material constituíu-se em:

a) Roteiro de perguntas sobre as características pessoais do sujeito para permitir uma avaliação do perfil dos enfermeiros sujeitos do estudo;

b) Inventário de Estresse em Enfermeiros (IEE), adaptado e padronizado para a população brasileira, o qual investiga os principais estressores da profissão enfermeiro(12). O referido instrumento é constituído por itens que abordam diversos aspectos direcionados a situações comuns à atuação do enfermeiro, que podem ser vistas como fontes de tensão ou estresse. Esses itens compõem fatores que avaliam as relações interpessoais, os papéis estressores da carreira e os próprios intrínsecos ao trabalho, além de itens isolados que complementam tal avaliação. O inventário é composto por três fatores específicos denominados: Fator 1 - Relações Interpessoais; Fator 2 - Papéis Estressores da Carreira e Fator 3 - Fatores Intrínsecos ao Trabalho. Durante a análise fatorial, os autores discriminaram 6 itens que não apresentavam comunalidades, sendo eles os de número: 1; 18; 19; 20; 32 e 44, porém os mesmos os mantiveram na escala devido ao fato de que, extraindo os alfas, observaram que é possível ter magnitudes aceitáveis até esse número de fatores; os resultados indicaram confiabilidade. Os autores definem que valores acima de 145 são forte indicadores de que o profissional percebe seu local de trabalho como estressante (Anexo).

 

RESULTADOS

A enfermagem é uma profissão predominantemente feminina e os sujeitos do presente estudo confirmaram essa predominância, onde os participantes inclusos se constituíram em 90,5% do sexo feminino.

A faixa etária dos enfermeiros participantes no estudo entre 24 a 30 anos foi de 47,6 % e entre 31 a 40 anos foi de 42,8%, que permite afirmar que 90,4% estão na faixa etária de 24 a 40 anos. Os enfermeiros com mais de 40 anos participantes no estudo, tem um pequeno índice, representando apenas por 9,6%

Em relação à experiência desses profissionais em UTI, 42,8% possuem experiência de 1 a 4 anos e 38% possuem experiência de 5 a 8 anos. Um pequeno percentual tem experiência de mais de 10 anos, mas significa um percentual de 59,2% de enfermeiros com mais de 5 anos de experiência. A Tabela 1 mostra esses resultados.

 

 

Nota-se que 57,1% dos enfermeiros pesquisados trabalham em média 36 horas semanais com pacientes críticos, com uma média diária de 6 horas. Observa-se também que 66,6% desses profissionais têm outro emprego em outra instituição de saúde.

Atenta-se para o fato de que 14 ou 66,6% dos profissionais participantes no estudo possuíam curso de especialização dos quais 11 possuíam especialização específica em UTI.

Quando questionados sobre seu local de trabalho, doze sujeitos (57,1%) avaliam sua unidade de trabalho como fonte geradora de estresse (Figura 1).

 

 

O Quadro 1 mostra as respostas dos enfermeiros ao IEE.

 

 

DISCUSSÃO

Na Tabela 1 pode-se observar que a mulher, enquanto enfermeira, representa maioria como principal provedora de cuidados no ambiente hospitalar, aspecto que reflete a tradição cultural ressaltando que a questão do gênero está associada à atribuição de tarefas, de um modo geral, e aos papéis, particularmente na profissão de enfermeiro(13).

Quanto à idade, o fato da maioria dos profissionais pesquisados estarem em uma faixa etária de 24 a 40 anos, portanto de grande produtividade, certamente garante ainda uma grande abertura ao conhecimento de tecnologia de alta complexidade, aprimoramentos e especializações. Estes achados foram semelhantes ao encontrado em outro estudo realizado em UTI, onde 87,4% dos enfermeiros estavam na faixa etária de 20 a 40 anos(14), levando ao entendimento de que são os enfermeiros mais jovens que se envolvem com áreas de grande complexidade, talvez na busca de experiência profissional. Uma considerável redução do número de enfermeiros com mais de 40 anos atuando em UTI, pode estar relacionado ao indício de que esses profissionais, quando atingem essa idade, são absorvidos em outros setores, procuram cargos administrativos, buscam a área de ensino ou até mesmo desistem da profissão(15).

Em relação ao tempo de experiência profissional, o resultado pode ser entendido como favorável a um equilíbrio no sentido de um bom desempenho profissional no que diz respeito ao desenvolvimento dos procedimentos gerais da profissão. Assim, os com menos experiência, têm sempre grandes chances de discutir suas dificuldades com aqueles com mais experiência que provavelmente dividem o mesmo espaço no mesmo intervalo de tempo. Relacionando isso com o fator estresse, há um significado especial, pois quanto maior o tempo de formado, menor é o estresse, devido o profissional ter chances maiores de apresentar maior segurança técnica, e, consequentemente, chances maiores de facilidades nos controles de situações, particularmente as mais críticas(16).

A dupla jornada de trabalho, evidenciada no estudo, provavelmente se deve aos salários da classe profissional, que, segundo o sindicato dos enfermeiros do estado de São Paulo (SEESP), apresenta um piso em torno de R$ 1.248,00 (um mil e duzentos e quarenta e oito reais)/U$ 585,91 (quinhentos e oitenta e cinco dólares e noventa e um centavos) aos que prestam serviço no interior do referido estado. Assim, é de se supor que o fato de o profissional enfermeiro cumprir dois turnos de serviço com todas as responsabilidades que lhe são atribuídas, acentua a chance de apresentarem estresse.

Desta forma, seguramente a dupla jornada de trabalho dos enfermeiros se faz necessário, devido, principalmente, aos baixos salários atribuídos à categoria, que os leva os a procurar nova fonte de renda. Assim, o enfrentamento desta dupla atividade constitui-se em um fator que interfere fortemente em alguns aspectos referentes à presença de estresse e à qualidade de vida(17).

O número de profissionais com especialização demonstra que o mercado de trabalho em unidades de grande complexidade exige uma melhor qualificação do profissional. Acredita-se que o fato do profissional estar mais preparado para lidar com pacientes críticos, facilita uma maior adaptação ao setor, amenizando assim os sinais indicativos de estresse, fato ocorrido no presente estudo, onde, os enfermeiros sem nenhum curso de especialização, apresentaram-se como mais estressados que enfermeiros com pelo menos um curso de especialização(15).

Em relação às unidades de trabalho, a porcentagem elevada de sujeitos que as avaliaram como fonte geradora de estresse, pode ser atribuída à exposição prolongada a situações difíceis, á excessiva carga de trabalho e ao contato intenso com pacientes críticos. Um estudo realizado com 100 enfermeiros demonstrou que 90% deles mencionaram que trabalhar em UTI é estressante, desgastante e cansativo(11).

Apesar de uma porcentagem elevada de enfermeiros considerarem as UTIs que trabalham um ambiente estressante, observou-se, nos escores do IEE, um indicativo de que houve uma resposta de adaptação, pois apenas 5 enfermeiros (E5, E6, E9, E18, E19) apresentaram um índice de percepção de estresse elevado, ou seja, acima de 145. Esses resultados vão de encontro aos obtidos em outro estudo com 42 enfermeiros de UTI onde os resultados revelaram que 62% deles não apresentavam estresse(13).

Destaca-se que dois , dos 5 enfermeiros que apresentaram indices indicativos de estresse são profissionais de enfermagem em início de carreira, desenvolvendo suas atividades em uma unidade de assistência extremamente complexa, com uma carga horária mensal elevada e no período noturno. Soma-se a isso a falta de preparo específico, levando ao entendimento de que esses enfermeiros complementam o seu preparo técnico/científico no próprio local de trabalho, provavelmente sem chance de nenhum tipo de supervisão. Essas características, em um primeiro momento, e para um profissional bastante jovem, podem não ter ainda um significado importante em termos de fatores causadores de estresse, porém, ao longo de um período de tempo, se não houver uma busca ao aprimoramento e a alternativas que facilitem o alívio das tensões provocadas pelo ambiente exaustivo e tenso e pelo árduo trabalho, é de se supor que levarão esse profissional a desenvolver quadros patológicos, entre eles o estresse, que certamente comprometerão sua qualidade de vida.

Quanto aos outros 3 enfermeiros que também apresentaram índices perceptivos de estresse elevados, Observou-se que eles já trabalhavam na unidade há mais tempo, sendo 2, 3 e 7 anos respectivamente. Chama a atenção o fato de que 2 não tinham especialização na área e um tinha especialização na área de Saúde Pública. Nota-se que 2 deles possuíam 2 empregos, confirmando assim, que a qualificação profissional, a situação econômica e o ambiente de trabalho, constituem-se em fatores que influenciam fortemente no desenvolvimento de quadros de estresse.

 

CONCLUSÃO

Este estudo permitiu afirmar que os profissionais de enfermagem, nas UTIs estudadas, são em sua grande maioria do sexo feminino e que a faixa etária da maioria dos participantes do estudo esteve entre 24 e 40 anos, levando a conclusão de que são os enfermeiros mais jovens que procuram essas unidades para o desenvolvimento de suas atividades profissionais. É possível concluir, também, que por serem mais jovens, buscam uma jornada dupla de trabalho no sentido de complementarem seus salários.

Esses profissionais demonstram estar cientes das necessidades e importâncias de se manterem atualizados e que cursos de especialização amenizam as sobrecargas impostas pelas jornadas de trabalho.

O IEE mostrou-se um bom instrumento para a avaliação do estresse em enfermeiros que atuam em UTIs. Constituiu-se em um instrumento de fácil aplicabilidade e amplo nos aspectos que se propôs a avaliar. O número relativamente pequeno de enfermeiros que apresentaram avaliações de aspectos relacionados ao exercício profissional indicativos de fonte geradora de estresse, na verdade é um número extremamente importante, possibilitando a conclusão de que, em um ambiente saudável de trabalho, os profissionais de enfermagem acometidos pelo estresse deveriam ser extremamente menores.

Ainda que limitados a esse estudo, com uma amostra pequena de enfermeiros, considera-se que ele seja de real valia para chamar atenção ao fato de que, apesar do estresse ser discutido e estudado por diversos pesquisadores ao longo de vários anos, esses profissionais ainda não recebem das instituições uma atenção especial para enfrentarem suas fontes geradoras.

Finalmente, conclui-se que os investimentos administrados no sentido de busca de ambientes saudáveis e melhores condições de trabalho indiscutivelmente refletiriam em melhorias, não apenas para o profissional, mas também na qualidade da assistência prestada ao cliente, contribuindo para diminuição do tempo de internação e possibilitando uma recuperação mais rápida, mesmo em se tratando de UTIs, proporcionando assim menos gastos à instituição hospitalar.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Vivian Aline Preto
Rua Argentina, 435 - Vila Carvalho
CEP 16025-240 - Araçatuba, SP, Brasil

Recebido: 11/03/2008
Aprovado: 05/02/2009

 

 

ANEXO

INVENTÁRIO DE ESTRESSE EM ENFERMEIROS

Leia cuidadosamente cada uma das sentenças abaixo, que apontam situações comuns à atuação do(a) enfermeiro(a). Considerando o ambiente de trabalho onde se encontra no momento, indique se nos ultimos seis meses elas representaram para você fontes de tensão ou estresse, de acordo com as seguintes escalas: