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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.4 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000400027 

ARTIGO ORIGINAL

 

Enfermidades tratadas e tratáveis pela acupuntura segundo percepção de enfermeiras*

 

Enfermedades tratadas y tratables por acupuntura, según la percepción de las enfermeras

 

 

Leonice Fumiko Sato KurebayashiI; Genival Fernandes de FreitasII; Taka OguissoIII

IEnfermeira acupunturista. Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Membro do Grupo de Estudos de Práticas Complementares de Saúde do CNPq. São Paulo, SP, Brasil. fumie_ibez@yahoo.com.br
IIEnfermeiro. Professor Doutor da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. genivalf@usp.br
IIIEnfermeira. Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil. takaoguisso@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Esse trabalho objetivou identificar e analisar as percepções dos enfermeiros acerca das enfermidades tratadas e tratáveis pela acupuntura. Foram consideradas: (1) as enfermidades das entrevistadas que já haviam se submetido ao tratamento com acupuntura; (2) as enfermidades que as enfermeiras têm e que poderiam ser tratáveis pela acupuntura; (3) sugestões de doenças tratáveis pela acupuntura para o paciente de Unidades de Saúde. Pesquisa de natureza exploratória foi realizada com 33 enfermeiras, em 11 Unidades de Saúde da Região Sudeste do Município de São Paulo, onde havia a terapia de acupuntura. Os resultados demonstraram que a acupuntura foi mais utilizada para o tratamento de estresse (3/21, equivalente a 10,7%) e para ansiedade, enxaqueca, lombalgia, mioma e obesidade (2/21, correspondente a 7,1% cada uma). Foi mais sugerida para o tratamento de doenças músculo-esqueléticas (34/82, equivalente a 41,5%), e doenças crônico-degenerativas (8/82, equivalente a 10%).

Descritores: Acupuntura. Terapias complementares. Enfermagem em saúde pública.


RESUMEN

Este trabajo objetivó identificar y analizar las percepciones de las enfermeras acerca de las enfermedades tratadas y tratables por la acupuntura. Fueron consideradas: (1) las enfermedades de las entrevistadas que ya se habían sometido al tratamiento con acupuntura; (2) las enfermedades que las enfermeras tienen que podrían ser tratables por la acupuntura; (3) las sugestiones de enfermedades tratables por la acupuntura para el paciente de Unidades de Salud. Investigación de naturaleza exploratoria fue realizada con 33 enfermeras, en 11 Unidades de Salud de la Región Sureste del Municipio de São Paulo, donde había la terapia de acupuntura. Los resultados demostraron que la acupuntura fue más utilizada para el tratamiento de estrés (3/21, equivalente a 10,7%) y para ansiedad, migraña, lumbalgia, mioma y obesidad (2/21, correspondiente a 7,1% cada una). Fue más sugerida para el tratamiento de enfermedades músculo-esqueléticas (34/82, equivalente a 41,5%), y enfermedades crónico degenerativas (8/82, equivalente a 10%).

Descriptores: Acupuntura. Terapias complementarias. Enfermería en salud pública.


 

 

INTRODUÇÃO

Esse trabalho originou-se da necessidade de conhecer as opiniões dos enfermeiros de Unidades de Saúde Pública sobre a utilização da acupuntura no tratamento de diferentes enfermidades, visto ser, na atualidade, uma das práticas integrativas de maior aceitabilidade mundial. É admitida a relevância da acupuntura no Sistema de Saúde Pública na China, país onde se originou a prática há milênios. Divulgações da World Health Organization (WHO) como o Caderno publicado em 1985, intitulado The role of Traditional Medicine in Primary Health Care in China relatam o uso e importância das terapias tradicionais chinesas para os cuidados de saúde primários nesse país, na prevenção e promoção à saúde(1).

Com efeito, a acupuntura é uma técnica antiga que objetiva diagnosticar doenças e promover a cura pela estimulação da força de autocura do corpo. Esse processo se dá pelo realinhamento e redirecionamento da energia, por meio da estimulação de pontos de acupuntura por agulhas finas metálicas, laser, pressão e outras formas de abordagem. A acupuntura, entretanto, é somente uma das terapêuticas da Medicina Tradicional Chinesa, pois essa medicina inclui ervas, dietas, massagem e exercícios. Todas essas técnicas são desenvolvidas com base no princípio da indissociabilidade do corpo com o ambiente, das relações intrínsecas entre o microcosmo e o universo, permeado com a mesma energia.

A China do início do século XX era um país altamente populoso e decadente, cuja organização social, política e econômica não oferecia à sua população condições mínimas de saúde, educação, saneamento, moradia, etc. Somente em meados do século XX, com a República Popular da China e o renascimento da Medicina Tradicional Chinesa realizado por Mao-Tsé-Tung, que a acupuntura reencontrou seu lugar. Ela foi retomada juntamente com outras práticas populares como uma solução emergencial no âmbito da saúde, para retirar a população chinesa do caos e abandono em que se encontrava. Até hoje, em muitos países pobres, a medicina tradicional é a principal forma de atenção à população carente. Cumpre lembrar que a acupuntura é denominada medicina tradicional no contexto dos países que utilizam essas práticas tradicionais e populares como a principal forma de atenção à saúde. Ela foi nomeada como Medicina Complementar e Alternativa nos países onde a principal forma de medicina praticada é alopática. A WHO publicou diretrizes para 2002-2005, no sentido de integrar a Medicina Tradicional/ Medicina Complementar e Alternativa (MT/MCA) nos sistemas de saúde nacionais, desenvolvendo e implantando políticas e programas nacionais. Buscou publicar diretrizes para normatização e controle de qualidade dos serviços de acupuntura e medicina tradicional. Esse documento pretendia, entre outras coisas, ampliar a acessibilidade, disponibilidade e exeqüibilidade da acupuntura em outros países. Enfatizou-se a importância do acesso da técnica às populações pobres e fomento ao uso racional e terapêutico por parte de provedores e consumidores de saúde(2).

Em 2003, para dar maior visibilidade e fundamentação à acupuntura como terapêutica eficaz e segura para uma grande quantidade de enfermidades, a WHO fez divulgações de doenças tratáveis pela acupuntura(3). Foi feita uma listagem sobre estudos clínicos controlados de acupuntura em diferentes enfermidades, coletados nos anos anteriores a 2002 e provenientes de diversos países do mundo. Para justificar a importância das publicações realizadas pela Organização Mundial de Saúde, cumpre ressaltar que essa listagem foi também referenciada pelo governo do Distrito Federal no Manual de Normas e Procedimentos das atividades do Núcleo de Medicina Natural e Terapêuticas de Integração em 2005(4).

Segundo o documento organizado pela WHO, há uma ampla gama de possibilidades terapêuticas da acupuntura para doenças agudas e crônicas, para todas as faixas etárias, inclusive e especialmente para idosos. Ela pode ser sugerida para todos os níveis de atenção com alto grau de resolutividade e eficiência. Embora a acupuntura tenha credibilidade no Ocidente como método eficaz para alívio de dor, seu uso se estende para desordens dos sistemas respiratório, digestivo, nervoso, bem como para problemas psicológicos e emocionais. Ressalte-se que o principal foco do tratamento pela acupuntura deve ser prioritariamente o todo da pessoa e não o alívio de sintomas. Portanto, ao se realizar o diagnóstico e tratamento pela acupuntura, múltiplos sintomas podem ter remissão completa ou parcial simultaneamente, pois é o todo energético que está implicado no tratamento.

No Brasil, muito antes dessas iniciativas, uma enfermeira já relatava em 1983 o crescente interesse pela população brasileira sobre o uso das Terapias Alternativas e Complementares (TAC) e a importância do enfermeiro não ficar alheio a esse movimento. Esse interesse, segundo a autora, devia-se principalmente a alguns fatores: o preço elevado da assistência médica privada, o alto custo de medicamentos, precariedade da assistência dos serviços de saúde pública, eficácia da terapêutica e menores efeitos colaterais(5).

Mais recentemente, em 2002, a Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura Municipal de São Paulo aprovou o uso de práticas integrativas e complementares e lançou um Caderno Temático de Medicina Tradicional Chinesa. A acupuntura, entretanto, tem sido realizada desde então somente pelos profissionais médicos, embora tenha sido reconhecida como especialidade de outras categorias profissionais de saúde(6). A partir de 2006, entretanto, surgiu a Portaria de nº 971(7), de maio de 2006, que aprovou em âmbito nacional, a Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares pelo Ministério da Saúde, estabelecendo-se diretrizes para a regularização do uso dessas terapêuticas em Unidades de Saúde Pública no país. A novidade, no entanto, é que se espera que a partir dessa portaria, a acupuntura possa vir a ser praticada por toda a equipe de saúde, uma vez que institui a acupuntura como atividade multiprofissional. Essas medidas podem ampliar o volume de serviços prestados à população que é atendida nas unidades de saúde referidas e estão em consonância com os princípios e preceitos preconizados pelo Sistema Único de Saúde. É preciso, entretanto, que os profissionais enfermeiros tenham conhecimento e estejam atualizados quanto às oportunidades que lhes são oferecidas.

A partir dessas considerações iniciais, define-se como objetivo dessa pesquisa a discussão e análise das percepções das enfermeiras sobre a acupuntura e sua aplicabilidade, à luz de outras pesquisas e especialmente a partir da listagem de doenças tratadas pela acupuntura, publicados pela WHO em 2003. Pretende-se com isso, contribuir para a divulgação da acupuntura como prática multiprofissional na rede pública de saúde.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório, realizado com 33 enfermeiras de 11 Unidades de Saúde Pública da Região Sudeste do Município de São Paulo, com utilização de um questionário semi-estruturado. Os dados foram coletados após orientação, esclarecimento e assinatura do Termo de Consentimeno Livre e Esclarecido. O instrumento de coleta de dados consistiu de 3 questões: (1) você já se tratou com acupuntura? Se sim, para que finalidade? (2) Se não se tratou, você se trataria e para que finalidade? (3) Em que casos você sugeriria acupuntura? A entrevista foi feita durante o período de trabalho das enfermeiras, com data previamente agendada, no período entre Junho e Julho de 2007, em Unidades Básicas de Saúde e Ambulatórios de Especialidade. Essas unidades ofereciam acupuntura à população, realizada pelos médicos acupunturistas. A pesquisa foi aprovada pelo Parecer de nº 104/07, pelo Conselho de Ética da Prefeitura do Município de São Paulo. Os resultados foram gravados e transcritos e a análise estatística foi feita a partir da descrição dos resultados em freqüências e proporções das respostas encontradas quanto às enfermidades tratadas e sugeridas para acupuntura.

 

RESULTADOS

A Tabela 1 foi construída a partir das respostas sobre as enfermidades das enfermeiras que se submeteram ao tratamento com acupuntura, em resposta à questão: Você já se tratou com acupuntura? Se sim, para qual finalidade?

 

 

Na Tabela 1 podem-se observar os percentuais encontrados com relação às doenças. Da lista de doenças tratadas entre as enfermeiras, encontramos maiores percentuais para estresse (3/21), correspondente a 10,7% e para ansiedade, enxaqueca, lombalgia, mioma e obesidade (2/21), correspondente a 7,1% cada uma. As demais enfermidades tiveram apenas 1 única ocorrência (1/21), correspondente a 3,6% do total.

Ainda com relação às enfermeiras entrevistadas que nunca haviam se tratado com acupuntura, foi questionado, se elas se tratariam e para qual fim. Deste questionamento surgiu a Tabela 2. Dos problemas vivenciados pelas enfermeiras entrevistadas, que se tratariam com acupuntura, mas que por motivos diversos ainda não o fizeram, tivemos como principal queixa a dor nas costas e os problemas de coluna, com 3/15, correspondente a 18,8% de ocorrência.

 

 

E por fim apresentamos as sugestões de enfermidades que seriam tratáveis pela acupuntura na vivência das enfermeiras entrevistadas, na Tabela 3, em resposta à questão: Em que casos você sugeriria acupuntura?

 

 

Constatamos grande ocorrência de sugestões da acupuntura como terapêutica para dores em geral, dores na coluna, dores articulares, dores musculares, fibromialgia e tendinite, com 34/82, correspondente a 41,5% das indicações. E em segundo lugar, as doenças crônicas, o diabetes, a hipertensão e obesidade, como tratáveis pela acupuntura, segundo a vivência das enfermeiras entrevistadas, com 10% das indicações (8/82).

 

DISCUSSÃO

A Organização Mundial de Saúde organizou uma revisão das experiências clínicas de acupuntura realizadas nas últimas duas décadas e fez uma consulta sobre acupuntura em diferentes países pelo mundo. Os resultados foram publicados em um documento intitulado Acupuncture: review and analysis of reports on controlled clinical trials. Foram listadas 43 doenças tratadas e tratáveis pela técnica. Entretanto, o próprio documento salientou que não houve o mesmo rigor científico nas pesquisas o que torna a credibilidade de seus resultados em parte questionável. Ressaltou a importância da inclusão do uso de acupuntura sham ou placebo ou de um desenho experimental que pudesse responder às questões de efetividade e alcance da técnica(3).

Foram criadas quatro categorias principais dentre elas a categoria um, que se refere às doenças, sintomas ou condições para as quais a acupuntura foi comprovada como tratamento efetivo. Foram citadas enfermidades tais como: artrite reumatóide, cefaléia, ciática, depressão, dores cervicais, de joelho, lombar, dor pós-operatória, hipertensão essencial, indução de parto, leucopenia, náuseas e vômitos, reações à radioterapia e quimioterapia e muitas outras condições. Na Categoria dois foram listadas as doenças, sintomas ou condições em que a acupuntura demonstrou efeitos terapêuticos, mas que precisam de mais comprovações tais como: artrite gotosa, asma, colite, dependência a drogas, diabetes tipo II, fibromialgia, insônia, obesidade, síndrome de estresse de competição, etc. Outras duas categorias foram também criadas para doenças, cujos estudos precisam de maior aprofundamento.

O estresse foi a primeira queixa apresentada pelas enfermeiras entrevistadas, como enfermidade tratada indicada pela Tabela 1. Embora a dor tenha sido no Ocidente, o mais freqüente desconforto para o tratamento de acupuntura, parece que o estresse entre as enfermeiras entrevistadas tem sido a pior condição de desequilíbrio. Segundo estudiosos na área, muitos são os fatores que podem levar ao estresse no âmbito da enfermagem e dentre eles relacionam-se alguns tantos aspectos: estrutura do ambiente de trabalho, equipe de enfermagem, o número reduzido de funcionários, o ambiente físico, o tempo mínimo para a realização da assistência de enfermagem, o cumprimento de tarefas burocráticas, as atividades administrativas que despendem muito tempo para sua realização, distanciando o enfermeiro de um contato direto com o cliente e outros(8).

No contexto das Unidades de Saúde, o enfermeiro tende a absorver tudo como sendo seu, sem especificidade e delimitação em seu próprio papel, o que o leva a tornar-se invisível à instituição e à equipe de saúde. Caracteriza-se por uma imagem de argamassa, de aglutinador de atividades desenvolvidas no processo de trabalho em saúde, ocupando espaços vazios deixados pela equipe multiprofissional(9). É nesse contexto que a falta de autonomia e de respaldo constitui-se em elemento estressor para o enfermeiro. As organizações podem reduzir o impacto desses fatores estressores, quando oferecem um ambiente organizacional que respeita as opiniões, ações e posições assumidas pelos enfermeiros em seu processo de trabalho, sendo reconhecido em seu papel frente à instituição e à equipe multiprofissional.

Com relação ao tratamento de ansiedade e estresse vale a pena citar um estudo realizado na Áustria, com utilização da acupuntura auricular. Eram 36 pacientes com problemas gastrintestinais e que estavam sendo transportados para o hospital por ambulância. Dezessete foram escolhidos para a aplicação do ponto de relaxamento e 19 para a utilização do ponto falso ou ponto sham no pavilhão auricular. Constatou-se que a acupuntura auricular é um tratamento efetivo para a diminuição do estresse e da ansiedade, pois os pacientes do grupo relaxamento informaram significativa diminuição da ansiedade, comparativamente ao grupo falso na chegada ao hospital. A percepção de dor dos pacientes durante o tratamento e os resultados para suas enfermidades foram mais positivas no grupo relaxamento(10).

A completa listagem organizada no documento da WHO apresenta uma infinidade de afecções do corpo humano, das físicas às mentais e emocionais. Mas, sem dúvida, as afecções dolorosas são as mais citadas, com o efeito da acupuntura sendo comparável à da morfina. De fato, a dor tem sido possivelmente a causa mais comum e decisiva para que uma pessoa procure o serviço médico. As pessoas que tem dor experimentam graus variáveis de angústia, sendo as principais ações da acupuntura, os efeitos analgésicos, sedantes, homeostáticos, imunodefensivos, psicológicos e de recuperação motora.

Observamos esse mesmo ponto de vista na Tabela 2 e 3 que referem que a acupuntura seria bastante interessante para o tratamento de dores em geral. Na Tabela 2 temos como principal indicação para as entrevistadas que nunca haviam sido submetidas ao tratamento de acupuntura, mas que gostariam de realizar o tratamento, as queixas de dor nas costas e os problemas de coluna, com 3/15, correspondente a 18,8% de ocorrência. Podemos ainda considerar na Tabela 2, outras queixas de dor: bursite, cálculo renal, enxaqueca, dores em geral, tendinite com a porcentagem de 6,7% (1/15) para cada uma das enfermidades.

A acupuntura não somente tem sido uma terapêutica complementar importante na atuação do enfermeiro, bem como para o tratamento da própria equipe de enfermagem, que permanentemente sofre de dores crônicas de coluna, especialmente as lombares, por esforço associado ao trabalho. As afecções lombares afetam mais do que 9 milhões de pessoas nos Estados Unidos causando 25% das incapacitações por lesões relacionadas ao trabalho. Na área de enfermagem, a incidência de dores lombares é acima de 80% e causa mais do que 150 milhões/dólares de dias de trabalho/ano perdidos. Segundo os autores, o tratamento ocidental para dor crônica é controvertido e freqüentemente ineficaz. A acupuntura, como intervenção terapêutica, tem se mostrado benéfica, quando a resposta ao tratamento prévio com medicamentos, repouso, injeção epidural, fisioterapia, osteopatia, quiropraxia e cirurgia têm falhado(11).

Na Tabela 3 ainda encontramos como principais enfermidades sugeridas para o tratamento de acupuntura as dores em geral, dores na coluna, dores articulares, dores musculares, fibromialgia e tendinite, com 34/82, correspondente a 41,5% das indicações. E em segundo lugar, as doenças crônicas, o diabetes, a hipertensão e obesidade, como tratáveis pela acupuntura, segundo a vivência das enfermeiras entrevistadas, com 10% das indicações. São significativas também as indicações para enxaqueca (7,3%) equivalente a 6 ocorrências de 82; problemas respiratórios, asma e bronquite com 7,3% (6/82) e ansiedade com 6,1% (5/82).

Com efeito, a acupuntura pode trazer benefícios no tratamento de enfermidades crônicas consideradas prevalentes nos idosos de São Paulo. A Região Sudeste do município de São Paulo configura-se como a segunda em menor taxa de crescimento populacional do município. Isso mostra que a taxa de população idosa é maior do que a de outras regiões. Os dados de mortalidade apresentam como as três primeiras causas de morte: as doenças isquêmicas do coração, cérebro-vasculares e a pneumonia(12).

As doenças que foram tratadas, tratáveis e sugeridas pelas enfermeiras também o foram pela Organização Mundial de Saúde. Ao estudarmos o levantamento de doenças tratáveis pela acupuntura realizada pela WHO, encontramos dados importantes selecionados na primeira categoria como tratáveis: a hipertensão arterial essencial e acidente vascular encefálico. São condições de alta prevalência como causas de mortalidade na região onde foi realizada a pesquisa, principalmente entre idosos, justificando o incentivo a essa prática da rede pública de saúde. Na Categoria dois, relacionada como doenças, sintomas ou condições em que a acupuntura demonstrou efeitos terapêuticos, mas que precisam de mais comprovações, encontramos outras enfermidades selecionadas como diabetes mellitus tipo II, obesidade e asma brônquica. Essas condições foram selecionadas também pelas enfermeiras que sugeriram a acupuntura para tratamento de diabéticos, hipertensos e obesos.

Alguns pesquisadores comentam que os pacientes têm procurado a acupuntura em países ocidentais, por ser essa uma escolha mais natural e constituir uma técnica complementar integrativa segura no tratamento de doenças crônicas(13). Apesar do grande progresso alcançado pela Medicina Ocidental, o tratamento de doenças crônicas têm sido um dos seus grandes desafios. Com efeito, em um estudo realizado em 2000 - publicado pela Revista Mexicana de Medicina Física y Rehabilitación - sobre utilização de terapias complementares em doenças crônicas, os autores concluíram que parece haver uma incidência grande do uso de terapia complementar em pacientes com enfermidades crônicas concomitantemente com a medicina convencional alopática. Doenças como câncer, artrite, depressão, AIDS, enfermidades gastrintestinais, insuficiência renal crônica, Alzheimer, esclerose múltipla e até enfermidades dermatológicas. Mas, cabe salientar que grande parte dos pacientes não comunica a seu médico que está se submetendo a uma terapia complementar, por temor de sofrer censuras(14).

Essa informação nos leva a entender que ainda há um percurso a ser vencido quanto à utilização da acupuntura pelos médicos ocidentais. Pretende-se, entretanto, que no futuro, a união das medicinas proporcione bem-estar principalmente para idosos, grávidas, hipertensos, doentes renais e hepáticos crônicos. A acupuntura pode ser aplicada em condições de dor aguda ou crônica, afecções neurológicas, ortopédicas, fisiátricas, reumatológicas, gineco-obstétricas e em áreas de clínica geral e cirúrgica(15).

Diante do exposto, compreendemos que a acupuntura abrange um amplo espectro de enfermidades tratáveis. Cabe ressaltar, entretanto, que sua ênfase está no tratamento das causas, do desequilíbrio energético nos canais e meridianos, que permite a manifestação, e por que não? - a materialização de uma doença. Com efeito, no Caderno Temático de Medicina Tradicional Chinesa organizado pela Secretaria municipal de saúde de São Paulo, são enfatizados esses princípios. Devem ser tratados os fatores primários que sustentam o desequilíbrio energético, conjuntamente com a supressão de sintomas. Depreende-se daí que a classificação das doenças na medicina tradicional chinesa é referida - em termos tanto diagnósticos quanto terapêuticos - aos sujeitos doentes e suas constituições individuais. Essa peculiaridade a diferencia da Medicina Ocidental que elege como objeto de estudo a doença, sua identificação, etiologia e classificação. Por sua vez, na medicina tradicional chinesa, os elementos cosmológicos estão presentes no diagnóstico e no modelo terapêutico(6).

O aumento da utilização da acupuntura nos serviços de saúde pública tem sido observado em diversos países do Ocidente, inclusive no Brasil e simultaneamente vivencia-se o crescente perfil demográfico da população idosa. Sabe-se que acima dos 60 anos a incidência de afecções crônicas aumenta e traz para o idoso, dificuldade na realização de atividades de vida diária. Junte-se a isso um sentimento de anulação e segregação, de limitação política e convivência social. A complexidade dos fatores que são inerentes ao envelhecimento leva à necessidade de se indicarem modalidades assistenciais multidisciplinares e, entre elas, a acupuntura(16).

 

CONCLUSÃO

A partir das opiniões coletadas nas entrevistas e dos estudos realizados, concluiu-se que a acupuntura pode estar inserida, pelos princípios holísticos orientais chineses que a regem, como técnica preventiva, curativa e reabilitadora para diversas enfermidades, agudas ou crônicas . Pode ter um importante papel na prevenção de doenças, pois um de seus focos é o tratamento das desordens energéticas, primárias e anteriores às doenças. Os resultados demonstraram que a percepção da acupuntura pelas entrevistadas quanto às possibilidades terapêuticas da técnica não difere da listagem organizada pela Organização Mundial de Saúde. A acupuntura foi vivenciada pelas entrevistadas para o tratamento de estresse, ansiedade, enxaqueca, lombalgia, mioma, obesidade entre outras condições. Foi sugerida para o tratamento de doenças músculo-esqueléticas, tais como dores nas costas, coluna, hérnia de disco, bursite, enxaqueca, tendinite e doenças crônico-degenerativas tais como diabetes mellitus, hipertensão e obesidade. Embora as entrevistadas demonstrassem conhecimento quanto às muitas ações terapêuticas da acupuntura, essa experiência era advinda da prática da acupuntura como pacientes, espectadoras e ouvintes dos pacientes atendidos nas unidades de saúde pesquisadas. Concluímos que mais estudos devem ser realizados nessa área, para que sejam propalados os benefícios da acupuntura para um maior número de pessoas e para que a prática se torne extensiva a toda equipe multiprofissional que atua na rede pública de saúde.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Leonice Fumiko Sato Kurebayashi
Rua Belmiro Zanetti Esteves, 264 - Vila Santa Catarina
CEP 04377-060 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 31/03/2008
Aprovado: 10/12/2008

 

 

* Extraído da dissertação "Acupuntura na Saúde Pública: uma realidade histórica e atual para enfermeiros", Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo, 2007.