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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.spe São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000500008 

ARTIGO ORIGINAL

 

Desenvolvimento e validação de uma versão reduzida do instrumento para avaliação da Qualidade de Vida no Trabalho de enfermeiros em hospitais

 

Desarrolo y validación de una versión reducida del instrumento para la evaluación de la Calidad de Vida en el Trabajo de enfermeras en hospitales

 

 

Miako KimuraI; Dirley Maria CarandinaII

IEnfermeira. Professora Livre-Docente do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP). São Paulo, SP, Brasil. mikimura@usp.br
IIEnfermeira. Professora Doutora da Faculdade de Enfermagem da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. dirley.carandina@fcmscsp.edu.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo tem como objetivos desenvolver a versão reduzida de um instrumento para avaliação da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) de enfermeiros hospitalares e analisar a sua confiabilidade e validade. O estudo foi desenvolvido com uma amostra probabilística de 348 enfermeiros selecionados em quatro hospitais da cidade de São Paulo. Os métodos clinimétrico e psicométrico foram utilizados no processo de redução de itens, obtendo-se um instrumento com 31 itens e quatro domínios: Valorização e reconhecimento institucional; Condições de trabalho, segurança e remuneração; Identidade e imagem profissional e Integração com a equipe. Na análise da consistência interna, obtiveram-se coeficientes alfa de Cronbach de 0,94 para o total de itens e de 0,77 a 0,92 para os domínios. Estes resultados e os obtidos nas análises de validade convergente, de critério e discriminante sugerem que o instrumento reduzido é adequado para a mensuração da QVT de enfermeiros em hospitais.

Descritores: Qualidade de vida. Trabalho. Enfermagem. Recursos Humanos de Enfermagem no Hospital. Estudos de validação.


RESUMEN

Este estudio tiene como objetivo desarrollar una versión reducida de un instrumento para evaluar la Calidad de Vida en el Trabajo (CVT) de enfermeros en hospitales y evaluar su fiabilidad y validez. El estudio fue desarrollado con una muestra probabilística de 348 enfermeros seleccionados en cuatro hospitales da la ciudad de São Paulo, Brasil. Los métodos clinimétrico y psicométrico fueran utilizados en la reducción de ítems, obteniendo-se un instrumento con 31 ítems y cuatro dominios: Valorización y reconocimiento institucional; Condiciones de trabajo, seguridad y remuneración; Identidad y imagen profesional y Integración con el equipo. En la análisis de consistencia interna se obtuvieran coeficientes alfa de Cronbach de 0,94 para lo total de ítems y de 0,77 a 0,92 para los dominios. Estos resultados y los obtenidos en el análisis de validez convergente, de criterio y discriminante sugieren que el instrumento reducido es adecuado para la medición de CVT de enfermeros en hospitales.

Descriptores: Calidad de vida. Trabajo. Enfermería. Personal de Enfermería en Hospital. Estudios de validación.


 

 

INTRODUÇÃO

A qualidade de vida relacionada ao trabalho de profissionais da área de saúde é um tema que vem despertando crescente interesse nos últimos anos, em vista da importância de fatores pessoais, ambientais e organizacionais envolvidos no contexto do trabalho e sua relação com a qualidade da assistência prestada. Apesar disso, há carência de instrumentos próprios para mensuração da qualidade de vida no trabalho de profissionais da saúde, que considerem a especificidade da sua atividade profissional.

Na Enfermagem, assim como em outras áreas, a mensuração da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) pressupõe a necessidade de identificar previamente indicadores objetivos e subjetivos, oriundos do próprio contexto da prática e da percepção dos profissionais da área acerca do seu trabalho.

Temas relacionados ao trabalho e à QVT dos profissionais de Enfermagem vêm sendo abordados nos últimos anos, em diferentes áreas, perspectivas e métodos(1).

No que se refere à medida da QVT, constata-se que, na Enfermagem brasileira, há poucos instrumentos especificamente construídos e validados para avaliação da QVT de enfermeiros(1). Justificam-se, portanto, iniciativas com o propósito de desenvolver instrumentos com essa finalidade, em nosso meio, a partir de indicadores obtidos dos próprios profissionais e do seu contexto de trabalho. Com base em referencial teórico-metodológico bem estabelecido para elaboração de medidas de fenômenos subjetivos(2), um estudo de doutorado(3) desenvolveu um instrumento de QVT para enfermeiros em hospitais públicos e privados, composto por 71 itens e 13 domínios. As análises evidenciaram propriedades bastante satisfatórias de confiabilidade (alfa total de 0,93 e entre 0,92 e 0,93 nos domínios) e de validade (discriminante, convergente e de critério concorrente), indicando a sua adequação para medir a QVT de enfermeiros em hospitais.

O instrumento construído permite avaliar, de forma detalhada e abrangente, os diferentes aspectos da QVT desses enfermeiros. Entretanto, a obtenção de uma versão reduzida, que preserve adequadas propriedades métricas, é altamente desejável, uma vez que a praticidade e a economia de tempo e esforço são fatores importantes, tanto para quem aplica como para quem responde o instrumento.

Com o objetivo de obter formas curtas (short-forms, minimum item sets) de instrumentos longos já existentes, pesquisadores(4-8) têm reduzido diferentes tipos de questionários a um número mínimo de itens relevantes que mantenham a representação do construto de interesse.

Este artigo descreve estudo realizado com a finalidade de disponibilizar a versão reduzida de um instrumento já existente(3) para avaliação da QVT de enfermeiros em hospitais.

 

OBJETIVOS

Os objetivos do estudo foram: desenvolver uma forma reduzida do instrumento de avaliação de QVT de enfermeiros em hospitais e analisar a confiabilidade e a validade do instrumento reduzido.

 

MÉTODO

O estudo foi realizado com base em dados secundários provenientes de enfermeiros de dois hospitais públicos e dois privados localizados na cidade de São Paulo, Brasil. O projeto de pesquisa foi aprovado pelos respectivos Comitês de Ética em Pesquisa.

A população foi composta pelos enfermeiros em atividade profissional nos referidos hospitais, que concordaram voluntariamente em participar do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Do total de 756 enfermeiros encontrados nos quatro hospitais, 352 foram selecionados aleatoriamente, por sorteio, garantindo-se proporções semelhantes ao total de enfermeiros em atividade em cada hospital.

Dos 352 enfermeiros, quatro não devolveram os questionários preenchidos, sendo de 348 o total da amostra estudada. Deste total, 214 (61,5 %) eram enfermeiros de hospitais públicos e 134 (38,5 %) de hospitais privados.

 

INSTRUMENTOS DE COLETA DE DADOS

O instrumento de caracterização sociodemográfica e do trabalho dos participantes e o instrumento original de avaliação da QVT foram distribuídos individualmente a todos os enfermeiros previamente selecionados.

Descrição do instrumento original de QVT

O conceito de QVT medido pelo instrumento é expresso como a percepção de satisfação dos enfermeiros com aspectos do trabalho que são considerados importantes para eles. A medida da QVT baseia-se nos graus de satisfação e de importância percebidos pelos enfermeiros em relação a diferentes aspectos do seu trabalho(3).

O instrumento original compõe-se de duas partes de 71 itens: a primeira avalia o nível de satisfação e a segunda, o nível de importância. Valores numéricos de 1 a 5 são atribuídos em escalas do tipo Likert, de forma que o valor 1 corresponde às respostas muito insatisfeito e nada importante e o valor 5, às respostas muito satisfeito e muito importante. O instrumento inclui ainda uma opção de resposta, com valor 0, que possibilita assinalar quando a situação retratada no item não se aplica ao respondente.

O primeiro item do instrumento refere-se a uma avaliação global da QVT e não é computado no cálculo dos escores. Os outros 70 itens estão distribuídos em 13 domínios, resultantes de análise fatorial exploratória. O instrumento pode ser aplicado por meio de entrevista ou por auto-preenchimento.

O sistema de pontuação foi baseado no modelo de Ferrans e Powers(9) e foi desenvolvido de tal forma que cada item da primeira parte (Satisfação) é ponderado pelo seu correspondente da segunda parte (Importância). Dessa ponderação, resultam valores combinados, onde os mais altos representam alta satisfação e alta importância e os mais baixos, baixa satisfação e alta importância. Este esquema de pontuação baseia-se na premissa de que pessoas satisfeitas com áreas consideradas importantes para elas desfrutam de melhor qualidade de vida do que pessoas insatisfeitas com aspectos que consideram importantes(9).

O procedimento para a atribuição dos escores requer, primeiramente, que a pontuação dos itens de satisfação seja recodificada com a finalidade de centralizar o zero na escala. Esta recodificação é feita subtraindo-se o valor 3 (três) dos escores atribuídos a cada um dos cinco níveis de satisfação, resultando em pontuações de -2, -1, 0, +1 e +2, para as pontuações iniciais de 1, 2, 3, 4 e 5, respectivamente.

Em seguida, os escores recodificados de cada item de satisfação (de -2 a +2) são multiplicados pelos valores brutos dos escores atribuídos aos respectivos itens de importância (de 1 a 5). O escore total é obtido somando-se os valores ponderados de todos os itens respondidos e dividindo-se pelo total de itens respondidos. Até este ponto, os escores podem variar de -10 a +10. Para eliminar pontuações negativas no escore final, soma-se 10 aos valores obtidos, resultando numa variação possível de 0 a 20. Os maiores valores indicam melhor QVT.

Os passos para o cálculo dos escores de cada domínio são os mesmos acima descritos, devendo-se apenas considerar o total de itens respondidos do domínio em questão. O escore total de cada domínio varia também de 0 a 20.

Em resumo, para o cálculo do índice de QVT (total e por domínio) adota-se a seguinte fórmula(3), de acordo com as orientações anteriormente descritas:

Escore total = [(SAT x IMP) de cada item ÷ número de itens respondidos] + 10,

sendo:

SAT = valor recodificado de cada item de satisfação (-2 a +2)

e

IMP = valor bruto de cada item de importância (1a 5)

Procedimentos para redução dos itens

Como primeiro procedimento para a redução dos itens, utilizou-se o método clinimétrico (8,10). Este método baseia-se no impacto clínico dos itens, avaliado a partir de dois critérios: a freqüência e a importância de cada item. A freqüência refere-se ao percentual de indivíduos que indica um item como importante e a importância é medida pelo escore de importância atribuído ao item. O produto da freqüência pela importância de cada item é tomado como a expressão do seu impacto para os respondentes. Os itens com menores produtos são considerados como os de menor impacto, sendo, assim, candidatos à exclusão do instrumento(8,10). No presente estudo, considerou-se o valor da mediana como o escore de importância do item.

Dois instrumentos foram utilizados nessa primeira etapa: um para caracterização do respondente e outro, contendo a lista de 70 itens para avaliação da sua importância pelos enfermeiros.

Os 348 enfermeiros incluídos no estudo avaliaram o grau de importância de cada um dos 70 itens, de acordo com a escala de 5 pontos, que varia de nada importante (escore 1) a muito importante (escore 5). Após a multiplicação da freqüência de respostas pela mediana do escore de importância, os itens foram dispostos em ordem decrescente de acordo com o escore de impacto, eliminando-se aqueles com valores abaixo do percentil 25. Cabe destacar que o item 1 (avaliação global da QVT) não foi incluído nessa avaliação.

Com base em estudos anteriores(5-6,10), critérios adicionais foram adotados para eliminação de itens: 1) se o item não fosse aplicável para mais de 5% dos respondentes; 2) se houvesse freqüência igual ou maior que 60% dos respondentes no nível satisfeito da escala; 3) se houvesse itens com correlação linear > 0,70. Neste último critério, foi utilizado o coeficiente de correlação de Pearson, considerando-se os escores combinados das duas partes do instrumento (de satisfação e de importância).

O instrumento reduzido a partir dos critérios expostos foi submetido à análise fatorial exploratória, método que identifica agrupamentos de variáveis ou elementos(11). Consiste, portanto, no exame da dimensionalidade do instrumento e é uma das estratégias para validação de construto. O método utilizado foi o de Componentes Principais, extraindo-se os fatores com autovalores (eigenvalues) maiores que 1 e que agregassem, pelo menos, três itens com cargas fatoriais > 0,4. Os itens foram alocados nos fatores com base nas maiores correlações item-fator, sendo removidos aqueles com carga fatorial inferior a 0,40(5).

O método Varimax foi utilizado para a rotação dos fatores retidos. A rotação é um procedimento empregado na análise fatorial com a finalidade de ajustar os fatores para melhorar a correlação entre as variáveis (itens) e os fatores, dando-lhes melhor significado interpretativo(12).

Uma vez definida a estrutura fatorial, o instrumento foi submetido à análise da sua confiabilidade e validade.

Procedimentos para análise da confiabilidade e validade do instrumento reduzido

A confiabilidade foi analisada pela consistência interna dos itens e dos domínios. A consistência interna do instrumento é testada verificando a congruência que cada item do teste tem com o restante dos itens do mesmo teste(11). Para tal verificação, costuma-se usar o coeficiente alfa de Cronbach que reflete o grau de covariância dos itens entre si, servindo assim, de indicador da consistência interna do próprio teste(11). O valor do coeficiente alfa varia de 0 a 1 e, quanto mais próximo de um, maior a consistência interna dos itens. Foi considerado aceitável um alfa > 0,70 para os domínios e > 0,80 para o total dos itens do instrumento(5,11).

A correlação item-total do domínio menor que 0,40 foi o critério para identificação de itens inconsistentes(5-6). Estes itens foram analisados quanto ao seu conteúdo e à influência da sua exclusão no valor do coeficiente alfa.

Para testar a validade convergente, o instrumento reduzido foi comparado com o Inventário de Burnout de Maslach validado em português(13), partindo da hipótese de associação negativa deste construto com a QVT. Esse Inventário, utilizado para avaliar sentimentos e atitudes dos enfermeiros em relação ao seu trabalho, é composto por 22 itens em três subescalas - Desgaste emocional (9 itens), Despersonalização (5 itens) e Incompetência Profissional (8 itens). Para cada um dos itens avalia-se: com que freqüência sente isso?, sendo que o respondente deve optar por apenas uma das seguintes alternativas da escala: 0 - Nunca, 1 - Algumas vezes ao ano, 2 - Algumas vezes ao mês, 3 - Algumas vezes na semana e 4 - Diariamente. Na subescala Incompetência Profissional, a pontuação dos itens deve ser invertida para o cálculo do seu escore. A confiabilidade do Inventário de Burnout de Maslach foi testada na amostra deste estudo pela análise da sua consistência interna.

A validade de critério concorrente foi testada pela correlação do escore da questão 1 do instrumento (avaliação global da QVT), com o escore total e os de cada domínio do instrumento. A avaliação global da QVT foi considerada como o critério-padrão com o qual o conceito medido pelo instrumento deveria se relacionar(9,14).

A validade discriminante foi analisada pela comparação das médias dos escores dos enfermeiros das instituições governamentais e privadas, considerando as diferenças observadas nas condições de trabalho dessas instituições. Foi aplicado o teste não paramétrico de Mann-Whitney para análise das diferenças dos escores entre os dois grupos de enfermeiros.

 

RESULTADOS

Dos 348 enfermeiros incluídos no estudo, quase a totalidade (94,8%) era do sexo feminino. A idade variou de 21 a 64 anos, com média de 35,7 anos (± 8,0). Com relação ao estado conjugal, predominaram os solteiros (46,2%), havendo também 39,1% de enfermeiros casados. A maioria não tinha filhos (54,5%) e, entre aqueles com filhos, 82,5% tinham de um a dois. Entre os 307 enfermeiros que informaram o seu salário, a média foi de R$ 2.159,40 (± R$ 679,20). As variações para menos e para mais corresponderam aos valores referentes aos cargos ocupados na hierarquia de cada instituição. Os enfermeiros dessa amostra estavam formados, em média, há 9,7 anos, com variação de oito meses a 31 anos. Cerca de 20% não havia freqüentado nenhum curso após a graduação, mas a maioria possuía cursos de especialização (68,4%); poucos enfermeiros tinham completado o mestrado (9,1%) ou o doutorado (1,2%). Predominaram os enfermeiros alocados em Unidades de Internação (39,2%), exercendo atividades assistenciais (75,1%). Os participantes do estudo trabalhavam como enfermeiros há 110 meses (± 9,2). O tempo médio de trabalho na instituição foi de 98 meses (± 8,2). A maioria (70,4%) trabalhava em horário fixo e 72,9% não tinham outro vínculo empregatício. Quanto aos benefícios oferecidos pelos hospitais, 38,7% dos enfermeiros recebiam benefícios, como convênio médico, creche, estacionamento e auxílio à educação, própria ou dos filhos.

Redução de itens do instrumento original

Na primeira etapa do processo de redução dos itens, buscou-se identificar os itens mais importantes para os enfermeiros, entre os 70 itens do instrumento original. O produto da freqüência pela importância de cada item resultou em valores numéricos representativos do seu impacto na QVT dos enfermeiros. Esses valores foram ordenados de forma decrescente e o número 668, correspondente ao percentil 25, foi o ponto de corte abaixo do qual foram excluídos 15 itens. Pelo critério de ser indicado como não aplicável para mais de 5% dos respondentes foram excluídos mais quatro itens e, a seguir, oito itens foram eliminados por terem concentrado mais de 60% dos enfermeiros no nível satisfeito. Dessa forma, foram excluídos 27 dos 70 itens iniciais. Os 43 itens remanescentes foram submetidos aos procedimentos subseqüentes para redução de itens.

Na matriz de correlação inter-itens, observou-se que, dos 43 itens, 11 apresentaram correlação > 0,70 com um ou mais itens. A análise do conteúdo dos 11 itens redundantes fundamentou a eliminação de sete. Excluídos estes sete itens, os 36 restantes no instrumento foram submetidos à análise fatorial exploratória. Nessa análise, a matriz dos componentes rotacionados mostrou que cinco itens apresentavam carga fatorial inferior a 0,4 em todos os fatores, sendo, portanto, excluídos.

Com estes procedimentos, obteve-se um instrumento reduzido a 31 itens, o qual foi submetido à nova análise fatorial exploratória. A adequação dos dados para esta análise foi demonstrada pelos testes de esfericidade de Bartlett (p=0,000) e de Kaiser-Meyer-Olkin (0,926). Foram extraídos quatro fatores com autovalores maiores que 1, que explicaram, no conjunto, 54,8% da variância total.

A Tabela 1, a seguir, apresenta a matriz rotacionada dos quatro fatores, com as cargas fatoriais de cada item.

 

 

O primeiro fator foi composto por 12 itens. Em vista da natureza dos aspectos agregados neste fator, optou-se por denominá-lo como a dimensão da QVT relativa à Valorização e Reconhecimento Institucional. Refere-se às oportunidades para desenvolver e utilizar habilidades e conhecimentos, ao exercício da autonomia, ao fluxo de informações no ambiente de trabalho e às normas institucionais.

O segundo fator incluiu 10 itens. Esse fator foi interpretado como representativo da dimensão Condições de trabalho, segurança e compensação, permitindo avaliar a adequação do ambiente físico para a saúde e bem-estar dos trabalhadores, a infra-estrutura para o trabalho, a remuneração e os benefícios oferecidos pela instituição.

O terceiro fator resultou em cinco itens, que tratam de aspectos relacionados à Identidade e Imagem Profissional. Estes itens permitem explorar a opinião dos enfermeiros sobre o reconhecimento que recebem dos pacientes, a comunicação com outros profissionais, a imagem da sua profissão e de si mesmos, como enfermeiros.

O quarto fator abarcou quatro itens, compondo uma dimensão denominada como Integração com a Equipe. Embora o item 4 (ordem no local de trabalho) aparentemente não tenha relação com os demais, esta dimensão parece estar representando aspectos do ambiente físico (ordem) e social do trabalho (apoio mútuo e relacionamento interpessoal), necessários à organização do trabalho em equipe.

Com essa estrutura fatorial, o Instrumento de Qualidade de Vida no Trabalho de Enfermeiros (IQVTE) foi submetido à análise da sua confiabilidade e validade.

Análise da confiabilidade e validade do IQVTE

Análise da consistência interna

A Tabela 2 apresenta os resultados da análise de consistência interna das dimensões do instrumento. O coeficiente alfa de Cronbach para o total de 31 itens foi de 0,94 e, em todas as dimensões, foi atingido o critério de alfa > 0,70, indicando alto grau de consistência interna.

 

 

Dimensão 1 = Valorização e reconhecimento institucional; Dimensão 2 = Condições de trabalho, segurança e remuneração; Dimensão 3 =:Identidade e imagem profissional; Dimensão 4 = Integração com a equipe. Os dados da Tabela 2 mostram que o item 4, da quarta dimensão, foi o único que, se excluído, melhoraria o valor do alfa de Cronbach. A exclusão deste item (ordem no local de trabalho) aumentaria o coeficiente de 0,77 para 0,78. Entretanto, em vista da contribuição de apenas 0,01 no valor do coeficiente, optou-se pela sua manutenção.

Todos os 31 itens apresentaram correlações significativas e maiores que 0,40 com o escore total da respectiva dimensão.

A Tabela 3 mostra a estatística descritiva dos escores obtidos pelo instrumento e os coeficientes de consistência interna, por dimensão e no total dos itens.

 

 

Numa variação possível de 0 a 20, a dimensão 2 Condições de trabalho, segurança e compensação foi a que obteve a menor pontuação média (14,92 ±3,38), enquanto que a maior pontuação (18,32±3,43) foi observada na dimensão 3 Identidade e imagem profissional.

Análise da validade

Validade convergente

O Índice de Burnout de Maslach foi inicialmente testado quanto à consistência interna, obtendo-se valores do alfa de Cronbach de 0,62 para o domínio Despersonalização, de 0,77 para Incompetência profissional, de 0,87 para Desgaste emocional e de 0,88 para o total dos itens. Exceto pelo menor valor do coeficiente no domínio Despersonalização, os demais resultados permitem atestar a confiabilidade do instrumento para a amostra do estudo.

Os dados da Tabela 4, a seguir, mostram que o instrumento reduzido se correlacionou de forma significativa e no sentido esperado com o escore total de Burnout e com duas das três dimensões (Desgaste emocional e Incompetência profissional).

 

 

Validade de critério concorrente

A Tabela 5 mostra que as correlações entre os escores do IQVTE e do item 1, de avaliação global da QVT, foram todas altamente significativas.

 

 

Validade discriminante

Os resultados da comparação entre as médias dos postos dos escores do IQVTE obtidos por enfermeiros de hospitais públicos e privados estão apresentados na Tabela 6.

 

 

Observa-se na Tabela 6, que a dimensão 2 Condições de trabalho, segurança e remuneração e o instrumento na sua totalidade discriminaram de forma estatisticamente significativa os enfermeiros de hospitais públicos e privados. As dimensões 1, 3 e 4 não mostraram diferenças significativas, embora, nos hospitais privados, as médias dos postos tenham sido superiores às encontradas nos hospitais públicos.

 

DISCUSSÃO

As principais linhas metodológicas que orientam os procedimentos para seleção dos itens de um instrumento têm se baseado em dois métodos: o clinimético e o psicométrico(10). Ambos foram adotados neste estudo para selecionar, entre os itens do instrumento original, aqueles mais relevantes para a medida da QVT de enfermeiros em hospitais. Dessa forma, as opiniões dos enfermeiros sobre a importância dos itens foram levadas em consideração, tanto quanto os resultados dos testes psicométricos.

O processo de redução dos itens do instrumento original resultou numa versão com 31 itens, agrupados em quatro dimensões pela análise fatorial: 1) Valorização e reconhecimento institucional (12 itens); 2) Condições de trabalho, segurança e remuneração (10 itens); 3) Identidade e imagem profissional (5 itens) e 4) Integração com a equipe (4 itens). As dimensões que compuseram a versão final do instrumento reduzido explicam 54,78% da variância total e incluem indicadores de QVT identificados em diferentes modelos teóricos(3).

A QVT dos enfermeiros foi representada por fatores individuais, do contexto do trabalho e da estrutura organizacional (Tabela 1) que, inter-relacionados, compõem um conjunto de interesses diversos e contraditórios, presentes nos ambientes e condições de trabalho, em empresas públicas e privadas(15). Tais fatores referem-se não apenas aos da organização e do trabalho em si, mas também aos de natureza subjetiva (sentimentos, aspirações, crenças e valores). Ratifica-se, portanto, a concepção de que a QVT é um construto multidimensional e subjetivo, o que caracteriza a sua complexidade teórica e a dificuldade para sua mensuração.

O instrumento desenvolvido apresentou características satisfatórias de confiabilidade e validade, em uma amostra heterogênea de enfermeiros hospitalares.

Os valores do coeficiente alfa de Cronbach superiores a 0,70 em todas as dimensões e no total dos 31 itens atestaram a sua alta consistência interna. As correlações item-total, todas maiores que 0,40, indicam que os itens retidos no instrumento estão adequadamente inter-relacionados para a medida da QVT de enfermeiros.

Os resultados deste estudo permitiram ainda demonstrar a validade do IQVTE, sob diferentes estratégias.

Os escores das dimensões e do total de itens apresentaram correlações inversas significativas com os do Índice de Burnout, dando suporte à sua validade convergente. As relações entre burnout e características do trabalho de enfermagem encontradas no presente estudo são ratificadas por diversas publicações nacionais e internacionais(3,13,16-18).

A validade de critério concorrente foi demonstrada pelas correlações significativas com o escore de avaliação global da QVT. Em vista da dificuldade de estabelecer um padrão-ouro para qualidade de vida, o escore de avaliação global tem sido utilizado como critério em análises de validação concorrente(9,14), obtendo-se resultados semelhantes aos deste estudo.

O IQVTE mostrou sua validade discriminante, ao distinguir, de forma significativa, enfermeiros de hospitais públicos e privados quanto ao escore total de QVT e o da dimensão 2 Condições de trabalho, segurança e remuneração. De todos os elementos que configuram ou determinam a QVT, os mais importantes são os que englobam a autonomia, a participação dos trabalhadores nos processos de trabalho, as questões de saúde, a segurança e suas relações com a organização do trabalho (15), aspectos estes contemplados na segunda dimensão do IQVTE.

Embora não se tenha obtido significância estatística nas demais dimensões do IQVTE, os resultados indicam que os 31 itens do instrumento e os 10 itens da dimensão 2 podem ser úteis para detectar diferenças na QVT de enfermeiros de hospitais públicos e privados.

Os dados desta pesquisa foram provenientes de 348 enfermeiros hospitalares, correspondendo a 98,9% de um total aleatoriamente selecionado. Esta amostra pode ser considerada representativa dos enfermeiros vinculados aos hospitais estudados, porém os resultados obtidos podem não ser extensivos a profissionais em outras áreas de atuação. Novos estudos serão necessários para avaliar a aplicabilidade mais ampla do instrumento.

O delineamento transversal do presente estudo não permitiu testar a estabilidade e a responsividade do instrumento reduzido, ou seja, a sua capacidade de reproduzir os mesmos resultados em aplicações sucessivas e de detectar mudanças na QVT ao longo do tempo. O uso deste instrumento em estudos prospectivos possibilitará analisar essas propriedades.

Apesar das limitações apontadas, os resultados obtidos permitem autorizar a utilização do instrumento tanto para o diagnóstico da QVT de enfermeiros em ambiente hospitalar, como em futuras pesquisas, com diferentes delineamentos e contextos de trabalho. Espera-se, assim, contribuir para ampliar o conhecimento sobre a prática profissional dos enfermeiros e oferecer subsídios para a melhoria da sua Qualidade de Vida no Trabalho.

 

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Correspondência:
Miako Kimura
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 01/07/2009
Aprovado: 24/08/2009

 

 

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