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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.spe2 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000600014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Articulação teoria-prática e processo ensino-aprendizagem em uma disciplina de Enfermagem em Saúde Coletiva

 

Articulación teoría-práctica y proceso enseñanza-aprendizaje en un curso de enfermería en Salud Colectiva

 

 

Célia Maria Sivalli CamposI; Cássia Baldini SoaresII; Carla Andréa TrapéIII; Bárbara Ribeiro Buffette SilvaIV; Tatiana Cristina SilvaV

IProfessora Doutora do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. celiasiv@usp.br
IIProfessora Associada do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. cassiaso@usp.br
IIIMestre em Enfermagem em Saúde Coletiva e Doutoranda do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Enfermeira da Unidade Básica de Saúde Jardim Boa Vista. São Paulo, SP, Brasil. carlaens@usp.br
IVGraduanda em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Bolsista de Iniciação Científica na modalidade Ensinar com Pesquisa da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. babibuffette@usp.br
VGraduanda em enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Bolsista de Iniciação Científica na modalidade Ensinar com Pesquisa da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. tatiana.cristina.silva@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo tomou como objeto a articulação teoria-prática da disciplina Fundamentos e Práticas da Enfermagem em Saúde Coletiva, do curso de graduação em enfermagem da EEUSP, e como objetivos: identificar a apreensão dos conceitos da disciplina e verificar sua aplicação nas práticas de enfermagem entre esses estudantes de graduação. Utilizou questionário com questões fechadas e abertas para apreensão empírica do objeto, através de análise de conteúdo. Os resultados indicam que a dimensão teórica apenas em parte possibilitou sínteses capazes de fomentar práticas sociais coerentes com o arcabouço teórico-conceitual da Saúde Coletiva. Para superar essa dificuldade faz-se necessário explicitar as diferentes abordagens teórico-metodológicas que fundamentam as práticas e que o educador direcione o educando para elaboração de sínteses, com a finalidade de formar enfermeiros comprometidos com a interpretação da saúde-doença como processo social e da saúde como direito social e, portanto, com a transformação das práticas reiterativas do modelo hegemônico.

Descritores: Ensino. Enfermagem. Enfermagem em saúde pública. Educação em enfermagem.


RESUMEN

Este estudio tuvo como objeto la articulación teoría-práctica del curso Fundamentos y Prácticas de Enfermería en Salud Colectiva, para alumnos de graduación de la Escuela de Enfermería de la Universidad de Sao Paulo. Se buscó identificar la aprehensión de los conceptos del curso y evaluar su aplicación en las prácticas de enfermería. Se utilizó un cuestionario para aprehender empíricamente el objeto. Las informaciones fueron analizadas con análisis de contenido. Resultados: la dimensión teórica, apenas en parte, posibilitó una síntesis capaz de fomentar prácticas sociales coherentes con la estructura teórica-conceptual de Salud Colectiva. Para superar esa dificultad es necesario explicar los diferentes enfoques teórico-metodológicos que fundamentan las prácticas y que el educador conduzca al educando en la elaboración de síntesis. De esta manera, formar enfermeros comprometidos con la interpretación de salud-enfermedad como proceso social, con la salud como derecho social y con la transformación de las prácticas reiterativas del modelo hegemónico.

Descriptores: Enseñanza. Enfermería. Enfermería en salud pública. Educación en enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

O Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva (ENS) da Escola de Enfermagem da USP (EEUSP) se instituiu no movimento de formação do campo da Saúde Coletiva, cujo arcabouço teórico-metodológico, de inspiração histórico-estrutural, passou a ser central para alicerçar o trabalho de pesquisa e ensino, tendo por finalidade o desenvolvimento de políticas de transformação das condições de saúde e de atenção à saúde no Brasil.

O referencial teórico-metodológico que subsidia a Saúde Coletiva foi buscado para fazer a crítica radical à abordagem funcionalista que sustenta a explicação multifatorial do processo saúde-doença, hegemônica na Saúde Pública. Inspirado em uma epistemologia interdisciplinar, a Saúde Coletiva procurou suas fontes especialmente nas Ciências Sociais de caráter histórico-estrutural, capazes de articular conceitualmente a maneira como os grupos sociais se reproduzem socialmente à explicação do processo saúde-doença(1) e propor práticas coerentes com essa interpretação.

Essa interdisciplinaridade, embora imprescindível – pela característica multifacetada e complexa do objeto da Saúde Coletiva – se apresenta de maneira frágil na formação dos trabalhadores de saúde, que reforça as disciplinas biomédicas em detrimento da intersecção destas com as ciências sociais(2) e que dificulta articulação dos conceitos com as práticas.

A compreensão de qualquer fenômeno social, dentre eles os relacionados ao processo saúde-doença, requer o conhecimento das suas várias dimensões, integradas tanto no interior das disciplinas, quanto na articulação destas nos currículos que pautam a formação de trabalhadores de saúde(3-4), e particularmente na formação de enfermeiros(4).

Discute-se a necessidade de formação de trabalhadores de saúde que enfrentem, com práticas e modelos de atenção inovadores, o desafio de construir o SUS, tomando-se como uma das diretrizes da prática educacional a articulação teoria-prática(4). Ainda são poucas, no entanto, as iniciativas de implementação de propostas curriculares que respondam a essa necessidade(3). Particularmente no ensino de enfermagem desenvolvem-se práticas pedagógicas inovadoras que integram conteúdos, para construir um conhecimento mais totalizante, que por sua vez é o que tem potência para apreender o objeto da saúde na sua completude(5).

O departamento ENS vem desenvolvendo disciplinas de graduação com a intencionalidade de formar enfermeiros capazes de uma prática social que considere os determinantes sociais do processo saúde-doença no processo de transformação do objeto do trabalho em saúde. Dentre essas, a disciplina Fundamentos e Práticas da Enfermagem em Saúde Coletiva (ENS 235) tem a finalidade de instrumentalizar os estudantes na leitura das necessidades de saúde de grupos sociais que conformam o território de abrangência de uma UBS, reconhecendo a saúde como processo socialmente determinado e como direito social.

Essa disciplina é composta por aulas em que são apresentados conceitos do campo da Saúde Coletiva, que instrumentalizam os estudantes para as ações realizadas nas aulas práticas, em UBS.

O processo ensino-aprendizagem dessa disciplina apóia-se no desenvolvimento de uma investigação de características relativas à reprodução social de famílias da área de abrangência de uma UBS – que possibilita ao estudante problematizar a realidade encontrada - e a implementação de um projeto de educação em saúde que possa por um lado responder em alguma medida a necessidades de saúde apreendidas e por outro, como instrumento do processo de ensino-aprendizagem, possibilitar a elaboração de práticas condizentes com essas necessidades, superando as práticas reiterativas, reproduzidas nos serviços primordialmente segundo a lógica programática.

 

OBJETIVOS

Os objetivos deste estudo foram identificar a apreensão dos conceitos da Saúde Coletiva e verificar sua aplicação nas práticas de enfermagem, entre estudantes de graduação da EEUSP.

 

CONSIDERAÇÕES TEÓRICAS

A práxis é uma categoria potente para explicar a conexão/discussão entre o conhecimento acumulado (apreensão dos conceitos de Saúde Coletiva pelos estudantes) e a sua aplicação nas práticas de enfermagem; trata-se de uma atividade ajustada a objetivos, guiada pela consciência (atividade teórica) para transformar um dado objeto, a partir de um projeto intencionalizado(6).

A forma como a consciência está presente na atividade prática do sujeito configura diferentes níveis de práxis, sendo possível distinguir práxis criadoras de práxis reiterativas. A práxis reiterativa é uma prática que segue uma lei previamente traçada, com produtos análogos. A práxis criadora, dado que advém de projeto consciente, não se adapta plenamente a uma lei previamente traçada e culmina num produto novo e único(6).

Nessa perspectiva, a produção do conhecimento é determinada por finalidades práticas, no entanto, o problema prático que o mobilizou - o objeto desse processo - requer o conhecimento

sobre um desconhecido que se necessita conhecer. Ou seja, sem o domínio do conhecimento não é possível incursionar no desconhecido [...]. Portanto, a proposição da experimentação ou da problematização como ponto de partida para a construção do conhecimento requer, a priori, um domínio conceitual básico. Caso contrário, a decodificação dos dados identificados pode não alçar a superação de um conhecimento imediato, circunscrito ao pensamento empírico(7).

É um equívoco privilegiar o conhecimento imediato (empírico) em detrimento daquele fundamentado em conceitos, na falsa idéia de que a teoria (uma abstração) é desprovida de objetividade(8). Inexiste prática sem teoria, bem como teoria desprovida de prática. Nesse movimento teoria-prática

o conhecimento teórico é prenhe de conteúdos empíricos, que, por sua vez, se configuram como conhecimento verdadeiramente humano, por suas mediações teórico-abstratas[...] Se, por um lado, as abstrações, os conceitos se distanciam do objeto, por outro lado, nada há mais apto para se aproximar de sua essencialidade, uma vez que o verdadeiro conhecimento não nos é dado pela contemplação viva ou pelo contato imediato. [...] o código genético (concreto pensado) jamais será apreendido imediatamente pela observação do sangue (concreto aparente) [...](7).

 

MÉTODO

Trata-se de estudo descritivo, com população de acesso composta por estudantes de graduação em Enfermagem da EEUSP, 70 que estavam cursando a disciplina em 2007, somados a outros 72 do mesmo curso de graduação, que haviam cursado a disciplina em 2005 ou em 2006.

A participação foi voluntária, a partir de convite e da apresentação dos objetivos da pesquisa, com assinatura de um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da EEUSP (processo 620/2007).

A coleta dos dados foi feita por meio de questionário, com questões que versaram sobre a apreensão dos conceitos da Saúde Coletiva (pediu-se para todos, que citassem todos os conceitos ministrados na disciplina, que se lembrassem). Para os estudantes que estavam cursando a disciplina perguntou-se também como poderia utilizar em sua prática futura os conceitos da Saúde Coletiva que ele citou anteriormente. Já para os estudantes que haviam cursado a disciplina em anos anteriores, como utilizou os conceitos por ele citados em outras disciplinas curriculares, especialmente nos espaços de práticas de cuidados de enfermagem. Havia também questões sobre as potencialidades da disciplina ENS 235 para efetivar a articulação teoria-prática desses conceitos.

Os dados obtidos foram submetidos à análise de conteúdo(8), que permitiu tanto a análise de freqüências das respostas das questões fechadas, quanto a elaboração dos significados dos discursos, apresentados nas questões abertas, em dois temas: sedimentação dos conceitos e sínteses que promovem articulação teoria-prática.

 

RESULTADOS

Dentre os 70 estudantes que estavam cursando a disciplina em 2007, 45 (64%) responderam o questionário e entre os 72 estudantes que haviam freqüentado a disciplina em 2005 ou 2006, 36 (50%) responderam o questionário. Os demais estudantes que não responderam estavam ausentes no dia ou optaram por não participar da pesquisa.

Dentre os respondentes, 40 (88,9%) dos que estavam freqüentando a disciplina e 26 (72,2%) dos que haviam cursado em anos anteriores, citaram conceitos, como mostra a Tabela 1.

 

 

Dentre os que citaram conceitos, o mais lembrado foi o da determinação social do processo saúde-doença, tanto por estudantes que estavam cursando a disciplina 33 (82,5%), quanto pelos que a haviam cursado nos anos anteriores 24 (92,3%), como mostra a Tabela 2.

 

 

Sedimentação dos conceitos

Foram também averiguadas as potencialidades da disciplina para sedimentação dos conceitos. A maioria dos estudantes que cursaram a disciplina em anos anteriores – 26 (92,8%) – afirmou a potencialidade da disciplina, que se propõe a articular os conceitos às aulas práticas em UBS, onde os conceitos são aproximados às situações da realidade objetiva - estratégia considerada pelos estudantes como fundamental para a consolidação dos conceitos, como descreve o exemplo:

A disciplina foi fundamental para sedimentar os conceitos, uma vez que possibilitou a discussão dos mesmos, ou seja, partiu dos conceitos que já sabíamos e os ampliou. Posteriormente, com os estágios, foi possível observar os conteúdos de forma prática e ver como eles se estabeleciam nesse campo.

Um número menor dos que já haviam cursado a disciplina, 15 (53,5%), citou limitações da mesma para efetivar o aprendizado dos conceitos: carga horária insuficiente, desarticulação entre as docentes que ministram a disciplina, falta de integração entre as aulas teóricas e as aulas práticas.

Já dentre os estudantes que estavam cursando a disciplina, 26 (57,7%), deram respostas genéricas de que as aulas práticas eram importantes para a concretização da teoria na prática. Porém, 10 estudantes (22,2%) descreveram como essas contribuíram, como exemplificado abaixo:

Na prática vi muitos problemas, vi que de fato o SUS é perfeito apenas na teoria e que há muito, mas muito a ser feito. Vendo erros alheios, transmitindo o que aprendemos na teoria para outros profissionais, ajuda muito sedimentar a teoria. Além disso, poder confirmar e observar que a determinação social do processo – doença está, de fato, presente no dia-a-dia através dos inquéritos, auxiliou na sedimentação de conceitos e possibilitou uma melhor visualização da determinação social.

Apenas 5 (11,1%) estudantes cursando a disciplina relataram muita dificuldade na articulação teórico-prática, 40 (88,8%) informaram ter pouca ou nenhuma dificuldade. Dentre as dificuldades citadas, (19 - 57,5%) associaram-se à insuficiência da disciplina em promover a articulação dos conceitos com as atividades práticas, como mostram os excertos abaixo:

Não saberei responder, achei a disciplina muito abstrata, sei que é, mas não simpatizei com termos desse tipo, apesar de serem importantíssimos. Acho que faltou mais interação entre a teoria e a prática. Parece uma coisa só, primeiro estudamos a teoria e depois quando vamos para a prática esquecemos da teoria.

Acho que deveria ter um profissional que pudesse fazer a transição da teoria para prática. Acho que ficaria mais fácil apreender.

Sínteses que promovem articulação teoria-prática

Uma vez que o conceito mais memorizado foi o da determinação social do processo saúde-doença, esperava-se que os estudantes associassem a leitura dos determinantes e condicionantes do processo saúde-doença nas práticas realizadas. No entanto, entre os estudantes que haviam cursado a disciplina em anos anteriores, apenas parte (36%) descreveu a utilização do conceito em alguma prática realizada em outras disciplinas da graduação, como descrito no exemplo abaixo:

Eu observei que o processo saúde-doença não depende apenas do indivíduo, mas da população na qual ele está inserido e nas condições de vida desta população; que é o conceito de saúde coletiva que eu utilizei. Na prática perguntava ao paciente sobre onde morava, sobre sua família, bairro, etc.

Quanto aos estudantes que estavam cursando a disciplina no momento da pesquisa, foi mais expressiva a porcentagem (62%) dos que afirmaram e exemplificaram como articular conceitos apresentados na disciplina a práticas de enfermagem.

Creio que ter em mente o conceito de território, reconhecer os diversos perfis epidemiológicos da comunidade, perceber as características sociais, os potenciais de desgaste e fortalecimento, enfim, todo o conteúdo abordado na disciplina me instrumentalizou para a minha futura prática profissional como enfermeira, seja fazendo um curativo, uma consulta de enfermagem, medicando e/ou realizando ações educativas. Lógico que essa instrumentalização ainda não está completa, mas disciplina pode me ajudar a me orientar.

A dificuldade de apreensão dos conceitos foi percebida, por um lado pelo número de estudantes que não citou nenhum conceito ministrado na disciplina e por outro pela dificuldade, dos que citaram conceitos, em exemplificar sua utilização nas práticas de enfermagem.

 

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo sinalizaram que os respondentes memorizaram conceitos, mais lembrados entre os estudantes que cursavam a disciplina, provavelmente porque o preenchimento do questionário por esses alunos foi realizado no último dia da disciplina, o que significa que tiveram mais facilidade de resgatá-los de suas memórias.

O conceito mais lembrado pelos estudantes foi o da determinação social do processo saúde-doença. Uma vez que esse é um dos conceitos fundamentais desenvolvidos na disciplina, seria esperado que os estudantes articulassem esse conceito às atividades realizadas no ensino prático, exemplificando sua utilização nas práticas de saúde, na particularidade das ações de enfermagem. No entanto, a descrição dessa articulação não acompanhou a mesma proporcionalidade descrita na memorização do conceito.

Vale ressaltar, todavia, que se por um lado mais estudantes que cursavam a disciplina conseguiram descrever como os conceitos da Saúde Coletiva podem ser utilizados na sua futura prática, entre os estudantes que já haviam cursado a disciplina foi maior a proporção de articulação do conceito de determinação social do processo saúde-doença às práticas, demonstrando que houve mais apreensão desse conceito entre esses estudantes.

Esse resultado tem coerência com as definições de apreensão de conceito como processo, os estudantes que cursaram a disciplina em anos anteriores tiveram mais possibilidades teórico-práticas de elaboração de sínteses, corroborando a noção que a apreensão dos conceitos não se dá numa única vivência de ensino teórico-prático, situação ocorrida com os estudantes que cursavam a disciplina por ocasião da coleta dos dados.

No entanto, das 4305 horas das disciplinas obrigatórias que compõem o currículo de enfermagem, as disciplinas do depto ENS somam 825 horas, ou 19,2% de todo o currículo, distribuídas em 6 das 44 disciplinas obrigatórias no currículo da graduação em enfermagem.

Dessa forma, pode-se inferir que no currículo de graduação da EEUSP o espaço destinado ao ensino-aprendizagem dos conceitos da Saúde Coletiva, portanto, as oportunidades de utilização desses conceitos em práticas de enfermagem pelos estudantes, se reduzem às oportunidades oferecidas pelas disciplinas do departamento ENS. Vale ressaltar que conceitos ministrados pela disciplina, em parte advindos do escopo teórico que conformou o campo da Saúde Coletiva, não são advindos da teoria dominante, que é pautada nos conhecimentos da clínica e da epidemiologia, segundo uma visão funcionalista classificatória.

No entanto, o currículo é uma instância reprodutora de valores. Na modernidade o conhecimento tem sido fragmentado, sob a justificativa da necessidade de aprofundamento. Porém, após o conhecimento aprofundado das partes, não se tem assistido à recomposição do objeto do conhecimento, num movimento necessário para se processar a síntese, e com isso há uma valorização da restrição do conhecimento à restrição da especialidade, uma intolerância à interferência de valores e a distinção dicotômica entre sujeito e objeto(9). Dessa forma, hegemonicamente o conhecimento continua pautado na classificação e na fragmentação.

Para superar a dificuldade de articulação teórico-prática trazida pelos estudantes, derivada do funcionalismo que também fragmenta o ensino em disciplinas, propõe-se o conceito de práxis criadora, que tem potência para apoiar a elaboração de um currículo que privilegie a articulação teoria-prática e a integração disciplinar.

A prática social pressupõe domínios teóricos e práticos e, assim sendo, quando o sujeito do conhecimento empreende um pensamento sobre a realidade, tendo em vista nela intervir, a qualidade da sua intervenção estará na dependência dos domínios conceituais que lhe estão disponibilizados, ou seja, o pensamento (como expressão da capacidade de conhecer) não é um bem espontâneo que se ativa automaticamente quando um indivíduo é exposto à realidade. Ele se desenvolve como conquista do ser social, em processos de ensino, cujo acervo resulta da história humana objetivada como riqueza pela ação práxica dos indivíduos que se apropriam dessas conquistas históricas(7).

Ensinar um objeto complexo, como o da Saúde Coletiva exige, além da integração interdisciplinar, um processo pedagógico que articule as dimensões teórica e prática e a presença diretiva do educador na elaboração de sínteses.

A necessidade de maior integração entre as disciplinas e os departamentos vem sendo discutida no processo de reformulação curricular em curso na EEUSP, que propõe disciplinas teórico-práticas que integrem conteúdos interdepartamentais(10).

Porém, a simples justaposição de conteúdos interdepartamentais por si não possibilitará a superação da dicotomia assinalada pelos estudantes. Para isso será necessário integrá-los de fato, ou seja, explicitar as diferentes abordagens teórico-metodológicas que fundamentam a operacionalização das práticas, permitindo que o estudante identifique e compreenda as contradições entre os conceitos apresentados na disciplina e as ações desenvolvidas nos serviços de saúde que se configuram como campo de práticas desses estudantes, hegemonicamente fundamentadas em referenciais funcionalistas.

 

CONCLUSÃO

A análise dos resultados deste estudo mostrou que há dificuldade de apreensão dos conceitos da Saúde Coletiva pelos estudantes de graduação da EEUSP. Embora os estudantes que cursavam a disciplina no momento da coleta de dados tivessem reproduzido os conteúdos teóricos e conseguissem ter uma perspectiva da utilização desses conceitos numa prática futura, ainda que não tivessem feito a apreensão dos mesmos, os estudantes que já haviam cursado a disciplina não demonstraram apreensão dos conceitos, levando-nos a inferir que essa possibilidade de reproduzir a dimensão teórica não se transformou em síntese, ao longo dos anos de graduação.

Os resultados, especialmente os trazidos por estudantes que cursavam a disciplina, assinalaram na direção de uma desarticulação entre conteúdos teóricos e sua aplicação nas aulas práticas. Foi avaliada pelos estudantes a necessidade de alguém que fizesse essa articulação nas atividades práticas.

Para que o estudante consiga fazer a síntese teoria-prática é imprescindível a diretividade do educador, através da análise, que na relação educador-educando é quem domina a categoria teórica e por isso sabe ver e analisar as distorções das práticas, as possibilidades e as formas de superação.

Para formular essa crítica e superar a percepção da impotência em estabelecer práticas coerentes com o referencial teórico-metodológico da Saúde Coletiva, é imprescindível que o educador direcione o educando para elaboração de sínteses, com a finalidade de formar enfermeiros comprometidos com a interpretação da saúde-doença como processo social e da saúde como direito social e, portanto, com a transformação das práticas reiterativas do modelo hegemônico.

Por último, assinala-se que há uma limitação neste estudo, inerente ao desenho metodológico, por ter apreendido potencialidades da disciplina somente após o término da mesma.

Conforme tem sido recomendado, é desejável que os estudos de ensino-aprendizagem se pautem nos pressupostos da avaliação formativa, que acompanha processualmente o cotidiano dos estudantes nas atividades teórico-práticas(5).

 

REFERÊNCIAS

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2. Nunes ED. As Ciências Sociais e a saúde: o pensamento recente de alguns pesquisadores. In: Canesqui AM, organizadora. Dilemas e desafios das ciências sociais na saúde coletiva. São Paulo: Hucitec; 1995. p. 53-61.         [ Links ]

3. Vilela EM, Mendes IJM. Interdisciplinaridade e saúde: estudo bibliográfico. Rev Lat Am Enferm. 2003;11(4):525-31.         [ Links ]

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10. Oliveira MAC, Veríssimo MDLÓR, Püschel VA, Riesco MLG. Desafios da formação em enfermagem no Brasil: proposta curricular da EEUSP para o bacharelado em enfermagem. Rev Esc Enferm USP. 2007;41(n.esp):820-5.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Célia Maria Sivalli Campos
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 15/09/2009
Aprovado: 01/12/2009

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