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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.spe2 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000600025 

ARTIGO ORIGINAL

 

Prazer e sofrimento no processo de trabalho do enfermeiro docente

 

Placer y sufrimiento en el trabajo del enfermero docente

 

 

Elaine Maria FerreiraI; Maria de Fátima Prado FernandesII; Cláudia PradoIII; Patricia Campos Pavan BaptistaIV; Genival Fernandes de FreitasV; Bárbara Barrionuevo BoniniVI

IEnfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. elainemogi@yahoo.com.br
IIEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. Fátima@usp.br
IIIEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. claupra@usp.br
IVEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. pavanpati@usp.br
VEnfermeiro. Professor Doutor do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. genivalf@usp.br
VIEnfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. barbarabbonini@gmail.com

Correspondência

 

 


RESUMO

Trata-se de um estudo exploratório e descritivo com abordagem qualitativa, que compreende sentimentos que perpassam o processo de trabalho do enfermeiro em três universidades privadas do Município de São Paulo, revelando-se experiências enriquecedoras de significados do saber-fazer na prática docente. Assim, a presente investigação tem como objetivo identificar os aspectos geradores de prazer e de sofrimento no processo de trabalho do enfermeiro docente, analisados segundo o referencial teórico de Christophe Dejours, pontuando-se a importância de fatores psicossociais em relação ao objeto estudado. Os resultados da investigação apontam para as relações ambíguas presentes no processo de trabalho dos docentes, expressando sentimentos de prazer e sofrimento decorrentes dessa prática e evidenciando as condições e a organização do trabalho como elementos que podem potencializar tais sentimentos no cotidiano do trabalho do enfermeiro naquelas instituições.

Descritores: Docentes. Docente de Enfermagem. Ensino. Educação em enfermagem.


RESUMEN

Se trata de un estudio exploratorio y descriptivo, que comprende los sentimientos que pasan por el proceso de trabajo del enfermero en tres universidades privadas de la ciudad de São Paulo, mostrando experiencias ricas de significados del saber hacer de la práctica docente. Así, el presente estudio tiene como objetivo identificar los aspectos generadores de placer y de sufrimiento en el proceso de trabajo del enfermero docente, analizados según el referencial teórico de Christophe Dejours, señalando la importancia de factores psicosociales en relación con el objeto de estudio. Los resultados de la investigación apuntan para las relaciones ambiguas presentes en el proceso de trabajo de los docentes, expresando sentimientos de placer y sufrimiento derivados de esa práctica y evidenciando las condiciones y la organización del trabajo como elementos que pueden potenciar estos sentimientos en el cotidiano del trabajo enfermero en estas instituciones.

Descriptores: Docentes. Docente de Enfermería. Enseñanza. Educación en enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A partir dos estudos realizados pelo psiquiatra francês Christophe Dejours, sobre o sofrimento no âmbito da Psicopatologia do Trabalho, identifica-se que a

satisfação no trabalho está associada à saúde dos trabalhadores nos seus aspectos saúde mental e capacidade para o trabalho, mostrando a importância dos fatores psicossociais em relação ao prazer e sofrimento no trabalho(1).

Esse referencial sustenta a normalidade como sendo o equilíbrio psíquico entre constrangimento do trabalho desestabilizante ou patogênico e defesas psíquicas, onde o equilíbrio é o resultado de uma regulação que requer estratégias defensivas, elaboradas pelos próprios trabalhadores(2).

Nesse aspecto, o trabalho é aquilo que implica, do ponto de vista humano, saber-fazer, a mobilização da inteligência, a capacidade de refletir, de interpretar e de reagir às situações; é o poder de sentir, de pensar e de inventar. Em outros termos, o trabalho não é em primeira instância a relação salarial ou o emprego; mas um modo de inserção social que tem o poder extraordinário de revelar a subjetividade, uma vez que seja qualificado, ou o poder de destruir a subjetividade, quando desqualificado, repetitivo e desprovido de sentido. O bem-estar está relacionado à idéia de ambiente gratificante e, assim, quando o mesmo é realizado em tal ambiência, leva os trabalhadores a gostarem do produto realizado e o sofrimento no trabalho compreendido como o espaço de luta que ocorre no campo situado entre, de um lado, o bem-estar, e, de outro, a doença mental ou a loucura(3-4).

Ao analisarmos o processo de trabalho da enfermagem, destacamos vários estudos que relatam o sofrimento dos enfermeiros nos hospitais, considerando demandas de um trabalho tão desgastante, principalmente pela proximidade com o sofrimento, a dor e a morte(5-6).

Mais recentemente, a preocupação com o sofrimento no trabalho do enfermeiro tem se estendido para o ambiente universitário, revelando conflitos e exigências no desempenho dos papéis de enfermeiro, docente e pesquisador. Assim, o interesse em desenvolver este estudo surge das vivências dos pesquisadores como docentes em universidades, onde a multiplicidade de tarefas aliada às exigências da prática pedagógica compõe um cotidiano antagônico de prazer e sofrimento no trabalho(7).

Estudos na área do ensino de enfermagem em universidades privadas tem constatado que, os docentes, ao desenvolverem suas ações no dia-a-dia da prática pedagógica, demonstram vivenciar sentimentos distintos que transitam entre satisfação, prazer, gratificação e facilidade na condução do seu trabalho. Porém, identifica-se também um desgaste destes professores quanto a sua remuneração, às condições de trabalho, as dificuldades em se submeter a determinados critérios organizacionais, que merece uma investigação mais aprofundada(7-9).

Deste modo, este artigo reveste-se de significativa relevância à medida que expõe, de maneira sintética, um pouco do pensamento dejouriano sobre prazer e sofrimento no trabalho; tema tão presente e vinculado à realidade do exercer enfermagem, pelo impacto que a satisfação profissional no trabalho pode representar na vida do indivíduo e por ainda não ter sido suficientemente estudada no âmbito da saúde e do ensino concomitantemente.

 

OBJETIVO

Identificar os aspectos geradores de sofrimento e prazer no processo de trabalho do enfermeiro docente.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo exploratório e descritivo com abordagem qualitativa. O estudo foi realizado em três Escolas de Ensino Superior em Enfermagem, de caráter privado, localizadas no Município de São Paulo. Para a seleção dos sujeitos, utilizou-se como critério de inclusão estar vinculado à Instituição no período mínimo de três anos e possuir o título de doutor. Dessa forma, participaram do presente estudo, seis enfermeiras docentes.

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Parecer n° 1539). Após assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), as entrevistas foram realizadas por um dos pesquisadores no mês de outubro de 2007, utilizando-se a seguinte questão norteadora: Quais os aspectos geradores de prazer e sofrimento em seu processo de trabalho como enfermeira docente? As entrevistas foram cessadas no momento em que responderam o objeto do estudo, conforme preconiza a literatura(10). Os discursos foram gravados em áudio e com o intuito de preservar o anonimato dos sujeitos, utilizamos nomes fictícios para a identificação das docentes.

Para a análise dos discursos, adotamos a técnica de análise de conteúdo preconizada por Bardin, organizada em três fases: pré-análise (leitura flutuante e preparação dos dados), exploração do material e tratamento dos resultados e interpretação(11). A partir da metodologia, nas estruturas do conteúdo foram feitos recortes em unidades de contexto e de registro, por meio da análise e seleção dos aspectos geradores de prazer e sofrimento no trabalho do enfermeiro docente, as quais expressaram sentido e consonância com objeto de estudo.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Partindo do referencial dejouriano, os discursos foram analisados buscando a apreensão dos aspectos geradores de prazer e dos aspectos geradores de desgaste no trabalho docente. Desse modo, a análise dos discursos possibilitou a formulação de duas categorias: Sentindo prazer no trabalho e Sentindo sofrimento no trabalho, as quais serão explicitadas a seguir, conforme os relatos.

Sentindo prazer no cotidiano de trabalho

Esta categoria revela que o trabalho do enfermeiro docente apresenta componentes positivos geradores de satisfação e prazer, onde os mesmos se sentem responsáveis pelo aprendizado e formação dos alunos. Assim, os relatos evidenciam os aspectos presentes no cotidiano que tornam o trabalho repleto de significado:

O que me traz motivação são os alunos. Eles são meu maior motivo. Um trabalho bem feito, uma aula em que eles te questionam, te perguntam, em que você percebe que mexeu com a cabecinha deles; uma aula que eles gostaram, ou não gostaram mais vem te procurar pra questionar, pra discutir, pra buscar material (Amélia).

Com os alunos, é muito prazeroso trabalhar com eles e eu os valorizo muito, porque o nosso público são alunos trabalhadores... Hoje, eles trabalham, as vezes até em dois empregos e buscam um aprimoramento de seus conhecimentos. Eu valorizo muito esse perfil do nosso aluno porque vivencio com eles as dificuldades de estar conciliando família, emprego e faculdade. Você vê que é um aluno bem sofrido, mas por outro lado é um aluno muito interessado e muito criativo.... Isso me satisfaz, imensamente (Márcia).

Os trechos extraídos dos discursos apresentam a relação aluno-professor como um ponto revigorante no processo de trabalho, uma vez que os docentes se sentem compromissados na construção do conhecimento e os alunos devolvem por meio da confiança, interesse e criatividade.

Devido às suas peculiaridades, o ensino de enfermagem é realizado em um ambiente onde os fenômenos pedagógicos são realizados por meio de uma relação complexa, na medida em que além do professor e aluno, existe a pessoa do paciente. Esta conformação faz com que, ao sujeito da ação pedagógica, seja necessário algo mais do que a formação técnica e científica, representado pela inclusão de uma formação ética, obrigando que o professor assuma de forma competente, esta função, voltada para a transformação social(12).

O reconhecimento por parte dos alunos em relação ao trabalho realizado é um fator que influencia nos aspectos benéficos do trabalho, ou seja, os enfermeiros docentes relatam satisfação na relação ensino-aprendizagem, onde o prazer é evidenciado não somente pela capacidade criativa que exercem, mas pelo reconhecimento dos alunos, conforme evidencia o trecho a seguir:

E ser reconhecida: quando vou aos hospitais sempre tem um ex-aluno que, muitas vezes a gente nem se lembra o nome e tal, e ele nos reconhece. Isso é uma satisfação (Joana).

A Escola Dejouriana destaca que a inventividade, a cooperação, a confiança e sensação de utilidade social são aspectos essenciais no sentimento de prazer no trabalho(4). Nesse sentido, ao se perceberem parte integrante no processo de construção de um novo profissional, os enfermeiros docentes manifestam sentimentos de prazer no trabalho:

É ver o aluno que está iniciando o curso de graduação nessa instituição e, logo depois, ele consegue passar em vários processos seletivos, são chamados para essa e outras instituições e, assim, nós podemos ver uma renovação do profissional enfermeiro, de forma geral. E trabalho de alunos, de conclusão de curso sendo aprovados para apresentação em congressos, em eventos internacionais... Acho que essa é a resposta do compromisso profissional da gente (Luísa).

É importante destacar que o bem estar no processo de trabalho, não advém só da ausência de funcionamento, mas, pelo contrário, de um livre funcionamento, articulado dialeticamente com o conteúdo da tarefa, expresso, por sua vez, na própria tarefa e revigorado por ela(4).

Observa-se que para os docentes, a diversidade de tarefas, o contato com as pessoas e o processo de elaborar uma aula, representa espaço para o exercício da criatividade e da sua autonomia, tornando-se um componente relevante na significação das tarefas, como apresentado:

Felizmente, cada aula é um desafio novo. Se você é daquele professor que está dando a mesma aula há dez anos, vai ficar ali e não vai adiantar. Cada turma é uma turma; cada aula é uma aula. Tenho oito turmas atualmente, e o desafio de dar a mesma aula oito vezes de forma diferente, de acordo com as características de cada turma, é uma delícia (Sônia).

Traz satisfação o fato de poder atuar na teoria e na prática... do fato de poder me relacionar com o paciente, de me comunicar com as pessoas. Quando você é professora, as situações que ocorrem são bastante diversificadas de um grupo pro outro; mesmo que você tenha um enfoque em determinado assunto, sempre ele acaba se tornando novo pela participação das pessoas que são diferentes... Eu gosto muito! (Paula).

O trabalhar nunca é apenas produzir, é também viver junto. Assim, o trabalho é oportunidade insubstituível de aprender o respeito pelo outro, a confiança, a convivência, a solidariedade e de aprender a trazer uma contribuição para a construção de regras de trabalho que, não se limitam absolutamente a regras técnicas, mas regras sociais que possam favorecer os aspectos prazerosos na atividade laboral(3-4).

Sentindo sofrimento no trabalho

Os discursos referentes à categoria trazem os aspectos negativos presentes na organização do trabalho que geram sofrimento aos docentes. Lembrando que, a divisão de tarefas, a hierarquia, o comando, e a ausência de autonomia são componentes importantes no processo de sofrimento no trabalho. As pressões ligadas às condições de trabalho têm por alvo principal o corpo dos trabalhadores, onde elas podem ocasionar desgaste, envelhecimento e doenças somáticas(4).

A única coisa que me aborrece na docência é ver o desinteresse do aluno. Acho que a responsabilidade que ele vai ter como futuro profissional, de conhecer as matérias exigidas dele. Ele deve ter esse conhecimento; deve saber atender bem os seus clientes. Então, quando eu vejo um aluno desinteressado, que não estuda, que fica dependendo somente daquelas coisas teóricas que lhe são transmitidas, que não vão além, isso é a maior causa de desânimo pra mim (Amélia).

Nesse sentido, a literatura tem apontado algumas dificuldades, os alunos trabalhadores que cursam a graduação de enfermagem apresentam características próprias como a restrição de tempo devido a um cotidiano assoberbado, dando a entender que as atividades de trabalho tomam a maior parte do seu tempo(13).

... Na faculdade privada, hoje, o aluno manda e desmanda em professor que fica ou não fica... é uma coisa estranha; uma inversão de valores muito grande... (Sônia).

Quando o aluno não está muito interessado no que eu gostaria de transmitir, quando ele não atribui valor ao que estou tentando ensinar (Luísa).

O desinteresse dos alunos aparece como um fator importante no processo de trabalho, capaz de gerar sofrimento, uma vez que, o docente está engajado na construção do profissional e sente-se desvalorizado quanto a seu papel.

As situações comuns de trabalho são permeadas por acontecimentos inesperados, panes, incidentes, incoerência organizacional, imprevistos provenientes tanto da matéria, das ferramentas e das máquinas, quanto dos outros trabalhadores, colegas, chefes, subordinados, equipe, hierarquia, clientes(2). Dessa forma, a instituição no aspecto formal também carrega em si elementos geradores de sofrimento no cotidiano do docente, como explicitados nos trechos:

A gente sabe que existem algumas restrições que ficam além dela, é da instituição em termos de estrutura física, equipamentos e tal... mas a gente procura manter uma relação bem aberta (Joana).

...são as exigências burocráticas da faculdade. Então, existe exercício domiciliar, avaliação processual... tudo tem um papelzinho para ser feito. Por exemplo, aqui a gente já está pedindo há um certo tempo a implantação de um sistema de nota informatizado, que seria muito mais tranqüilo pra gente. Ainda não tem, então você precisa ficar passando notas, uma a uma no diário... (Sônia).

Estudos realizados com docentes retratam dificuldades inerentes à organização como a existência de turmas com grande quantidade de alunos, recursos indisponíveis, dificuldade de participação do corpo discente, carga horária imprópria para a matéria; entre outros(9).

A pressão organizacional, a instabilidade quanto às cargas horárias e a própria manutenção empregatícia também são outra causa de sofrimento no trabalho dos docentes, como evidenciado a seguir:

Em relação à instituição de ensino, que é uma coisa geral que vem acontecendo, é a rotatividade de professores em relação à salários. Muitas vezes o professor é titulado e corre o risco de ser demitido por que se acha que o salário dele é muito alto. Isso é um desestímulo também, porque, à final de contas, como professor a gente precisa estudar e se atualizar, e depois essa titulação se volta contra você mesmo (Paula).

O que me deixa mais insatisfeita e insegura é que não é uma carga horária fixa. O curso é semestral e você nunca sabe o que vai acontecer no próximo semestre, em termos de carga horária... Não é uma carga horária fixa, e nem para um ano, é para seis meses. Então, agora a gente já está preocupado em como vai ser o próximo semestre, quantas horas a gente vai ter (Joana).

As situações apresentadas pelas docentes revelam que o sofrimento tem uma relação importante com a organização do trabalho, sendo esta entendida como a divisão do trabalho, o sistema hierárquico, as relações de poder e comando, os objetivos e metas da organização, as quais repercutem na saúde dos trabalhadores(3).

Assim, a cultura de uma organização sustenta o processo de socializações por meio do sistema de valores, sendo tais valores vivenciados como uma experiência subjetiva compartilhada, que necessita atender aos objetivos organizacionais e às necessidades dos indivíduos(14).

Sob esse enfoque, a autonomia é imprescindível para um trabalho enriquecedor e prazeroso e quando os docentes não têm a liberdade de criar, surge o sofrimento:

Como uma instituição privada, nós docentes não temos muita liberdade, muito tempo destinado à pesquisa, destinado à reunião entre os docentes, para estar inclusive discutindo o tipo de ensino que nós estamos desenvolvendo (Márcia).

As dificuldades inerentes ao relacionamento interpessoal também têm importância no sofrimento, já que este é um espaço para interagir e se sociabilizar com os pares. Quando isto não ocorre, o sofrimento é relatado:

São as dificuldades no relacionamento com os pares. Não sei se é devido ao gênero feminino, mas é muito complicado lidar em um local em que só tem mulher. Não sei o que acontece... Existe uma competição muito grande, muitas vezes desonesta... Você vê a puxação de tapete muito grande e nitidamente. Só continuo nessa instituição porque tenho um apoio muito grande da chefia. Em outras instituições em que trabalhei, também via essas situações, mas como eram instituições maiores elas se diluíam. Aqui, não. Aqui, o local é pequeno, poucos professores e poucos são os que você pode contar para manter relação pessoal. As relações profissionais são complicadíssimas; trabalhos que você tenta fazer são barrados por motivos irrisórios. São criadas dificuldades e burocracias muitas vezes desnecessárias, na aprovação e publicação de trabalhos, por exemplo (Amélia).

Desse modo, é possível perceber a relação antagônica no processo de trabalho dos enfermeiros docentes, evidenciando que as condições e a organização do trabalho podem interferir e potencializar situações de sofrimento e prazer. A multiplicidade de atividades, as exigências institucionais, as dificuldades de relacionamento entre os pares e o perfil do aluno nas universidades privadas são elementos importantes na apreensão do processo de trabalho dos docentes.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A realização do presente estudo possibilitou identificar os aspectos geradores de prazer e sofrimento no processo de trabalho docente. A interação docente-aluno, o engajamento com as atividades didático-pedagógicas e o compromisso com a formação profissional são elementos importantes na sensação de prazer no trabalho, à medida que permite o exercício da criatividade e atribui um significado social na atividade. O sofrimento surge quando há uma desarticulação entre o empenho do docente e do aluno, marcado por desinteresse ou descompromisso. Observa-se também questões importantes relacionadas à organização do trabalho e relacionamento interpessoal, as quais potencializam o sofrimento no trabalho.

 

REFERÊNCIAS

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14. Mendes AM, Tamayo A. Valores organizacionais e prazer-sofrimento no trabalho. Psico USF. 2001;6(1):39-46.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Elaine Maria Ferreira
Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 15/09/2009
Aprovado: 13/11/2009

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