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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.43 no.spe2 São Paulo Dec. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342009000600030 

ESTUDO TEÓRICO

 

O corpo e a saúde da mulher

 

El cuerpo y la salud de la mujer

 

 

Dulce Maria Rosa GualdaI; Neide de Souza PraçaII; Miriam Aparecida Barbosa MerighiIII; Luiza Akiko Komura HogaIV; Roselena Bazilli BergamascoV; Natália Rejane SalimVI; Fabiana de Souza OrlandiVII; Sebastião CaldeiraVIII

IObstetriz. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. drgualda@usp.br
IIEnfermeira Obstétrica. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. ndspraca@usp.br
IIIEnfermeira Obstétrica. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. merighi@usp.br
IVEnfermeira Obstétrica. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. kikatuca@usp.br
VEnfermeira Obstétrica. Professora Doutora do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Psiquiátrica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. roselena@usp.br
VIBacharel em Obstetrícia. Doutoranda do Programa Interunidades de Doutoramento em Enfermagem da Escola de Enfermagem e Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. jenat@usp.br
VIIEnfermeira. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. orlandi@usp.br
VIIIEnfermeiro. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, SP, Brasil. dcalr09@usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

O artigo teve como objetivo realizar uma reflexão teórica sobre corpo durante eventos no curso da vida da mulher na perspectiva teórica fenomenológica e os métodos de pesquisa usados na sua abordagem, conduzidas por docentes da área da Saúde da Mulher da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Esta temática foi escolhida em decorrência da centralidade adquirida pelo corpo na sociedade atual e a relevância do tema. Neste texto mostramos sua aplicabilidade na área da Saúde da Mulher, os resultados de algumas pesquisas com diferentes métodos, tendo como foco o corpo em eventos do curso da vida da mulher.

Descritores: Corpo humano. Saúde da mulher. Pesquisa qualitativa.


RESUMEN

El estudio tuvo como objetivo hacer una reflexión teórica sobre la temática del cuerpo durante los eventos del curso de la vida de la mujer en la perspectiva fenomenológica y los métodos de investigación utilizados en su enfoque, dirigidos por profesores del area de Salud de la Mujer en la Escuela de Enfermería de la Universidad de São Paulo. Este tema fue elegido debido a la centralización adquirida por el cuerpo en la sociedad contemporánea y la importancia del tema. En este trabajo se presenta su aplicabilidad en el ámbito de la salud de la mujer, los resultados de algunos estudios sobre los diferentes métodos, centrados en el cuerpo acerca de los acontecimientos del curso de la vida de la mujer.

Descriptores: Cuerpo humano. Salud de la mujer. Investigación cualitativa.


 

 

INTRODUÇÃO

Estudar a apropriação social do corpo é de suma importância, pois ele é o primeiro e o mais concreto patrimônio do ser humano, visto que adquire lugar próprio na compreensão da experiência e do cuidado humano. É no corpo que surgem fenômenos singulares para os quais concorrem a natureza orgânica e a natureza social do ser humano. É a sociedade que indica aquilo que os indivíduos devem fazer com seus corpos, nas ações cotidianas e diante das modificações vivenciadas em seu processo existencial.

Recentemente, o corpo deixou de ser exclusividade das Ciências Naturais e se tornou objeto de estudo de várias disciplinas humanas como a História, a Filosofia, e as Ciências Sociais. Vale acrescentar que a valorização do corpo surgiu dos movimentos sociais dos anos 1960, com destaque para o feminismo, para os movimentos pela igualdade racial e para a contracultura que o transformaram em objeto de estudo. O corpo oferece inúmeras possibilidades e indícios para a análise de temas discutidos na área da enfermagem, particularmente na saúde da mulher, uma vez que é objeto de cuidados.

Nas sociedades, o corpo tem sido muito valorizado, principalmente pelos aspectos que chamam a atenção, como a estética, a sexualidade e as relações sociais de gênero, as quais se encontram intimamente vinculadas. Ainda que, em decorrência de um modelo corporal preconizado socialmente que beira à perfeição, muitas mulheres apresentam problemas na esfera da libido e deixam de viver plenamente.

Alguns eventos são cruciais para o desenvolvimento feminino porque envolvem alterações físicas, emocionais e sociais complexas que interferem na dinâmica pessoal. Este aspecto, associado à centralidade adquirida pelo corpo, na sociedade atual, e dado à relevância das várias abordagens possíveis, tem-no tornado alvo da atenção de pesquisadores vinculados à área de Saúde da Mulher da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Assim, algumas abordagens conceituais e metodologias de estudos salientando a temática do corpo, trabalhado de forma transversal ou como foco central nas pesquisas, são discutidas no presente artigo.

 

OBJETIVO

Realizar uma reflexão teórica sobre o corpo durante eventos no curso da vida da mulher na perspectiva teórica fenomenológica e apresentar métodos de pesquisa usados na sua abordagem, em pesquisas conduzidas por docentes da área da Saúde da Mulher da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo.

Por perspectiva teórica entende-se a postura filosófica que dá suporte à metodologia. Diferentes maneiras de ver o mundo condicionam a adoção de diferentes metodologias. Por metodologia nos referimos ao desenho da investigação que condiciona a escolha de métodos para obtenção dos resultados desejados. Nos métodos de pesquisa incluem-se as técnicas ou procedimentos utilizados para coletar e ou analisar os dados relacionados a uma questão de pesquisa. Neste texto, o corpo é a temática de escolha.

 

PERSPECTIVA TEÓRICA FENOMENOLÓGICA

Em nossos trabalhos o elemento unificador é o conceito que considera a mente e o corpo como aspectos de um processo orgânico no qual o significado, o pensamento e a linguagem são dimensões da atividade encarnada.

Partimos do pressuposto de que uma pessoa não é um corpo e uma mente, pois não existem as duas dimensões misteriosamente combinadas. O que chamamos de pessoa é um organismo que tem um cérebro que opera em um corpo e que está em permanente interação com o contexto, material e social, num processo contínuo de construção da experiência. Nesta perspectiva, mente e corpo são apenas aspectos abstratos das interações com o meio que constituem a experiência.

O corpo é a origem do nosso modo de ser, de reagir ao mundo, representa a forma como nos relacionamos com o mundo. É considerado um objeto cuja história é o resultado das relações mantidas com o mundo. É, portanto, um objeto do mundo que tem sua origem no coração da experiência vivida. O filósofo afirma: Eu não tenho um corpo. Eu sou o meu corpo; é por meio deste corpo que compreendo o outro e percebo as coisas(1).

O corpo destina-se a atender as necessidades biológicas e sociais do homem, o que se reflete na sua consciência corporal (autoimagem) e na busca de sua identidade (autoconceito). Da relação com a sociedade, resultam os comportamentos e estilos de vida, dependentes, também, de sua noção de tempo e de espaço em relação ao meio ambiente(2).

O corpo é temporário, mutável e transitório.

O corpo se altera com a passagem do tempo, com a doença, com mudanças de hábitos alimentares e de vida, com possibilidades distintas de prazer ou com novas formas de intervenção médica e tecnológica(3).

No processo saúde-doença, a relação entre corpo e risco deve considerar uma ampla diversidade de caminhos envolvidos no comportamento da pessoa. A percepção de risco por segmentos da população depende de sua assimilação de informações sobre um agravo à saúde, com realce para as características corporais e sua relação com ser doente ou ser saudável. Outro aspecto sugere que as pessoas podem tornar-se mais reflexivas sobre seus corpos e, assim, enfatizam situações que julgam estar sob controle, mesmo que mantenham seus comportamentos de alto risco para uma doença.

As pesquisas com base fenomenológica podem ter como metodologia a etnografia, típica da antropologia e da antropologia médica, ou a metodologia própria da fenomenologia que tem suas raízes nas diversas áreas da psicologia. A perspectiva fenomenológica, portanto, abre um leque que permite diversos enfoques conceituais.

Na perspectiva antropológica temos desenvolvido pesquisas que buscam compreender a mulher no seu curso de vida, tanto nas experiências significativas como o nascimento e menopausa e, quanto os processos de adoecimento. O referencial teórico que norteia algumas de nossas investigações é o desenvolvido pelos seguidores do antropólogo americano Clifford Geertz. Neste campo de estudo, o foco central são as pessoas em diferentes culturas e grupos sociais e como explicam as causas relacionadas à saúde e à doença, as suas crenças sobre os tratamentos e as pessoas a quem recorrer para resolver alguma questão de saúde. Tem destaque as práticas relativas ao corpo, tanto em estado de saúde quanto no de doença. O significado e o conhecimento têm sempre, como referência, o mundo constituído na experiência humana, formulado e apreendido por meio de formas simbólicas e práticas interpretativas distintas. O corpo é um reflexo da sociedade, não sendo possível conceber processos exclusivamente biológicos. Ao corpo se aplicam sentimentos e práticas que estão na base de nossa vida social.

O corpo é uma construção na qual são inscritas diferentes marcas em diferentes contextos culturais: tempos, espaços e grupos sociais. A noção de saúde ou doença é uma construção social. A pessoa se torna um doente segundo a classificação de sua sociedade, com base nos critérios que ela estabelece. Neste sentido, o sintoma diz respeito ao doente e o sinal é a busca do médico no corpo doente. Da mesma forma, doença diz respeito aos processos fisiopatológicos e illness trata da experiência do doente. Para uma melhor compreensão de significado, o termo original em inglês será mantido(4).

Na perspectiva fenomenológica, foram desenvolvidos trabalhos que utilizaram o referencial filosófico de Maurice Merleau-Ponty para estudar as relações de corpo com o vivido, o experienciado. Para este filósofo, o corpo é o modo de ser humano; o mundo é o prolongamento do nosso corpo. O corpo vivido é aquele experienciado no cotidiano existencial. Este corpo permite que as sensações de cada momento possam expandir o nosso existir humano. O homem, ao entrar em contato com o objeto, com as coisas, entra em contato consigo mesmo, portanto, o corpo passa a ser considerado como corporeidade, pois é fonte de sentidos e rede de significados existenciais(1).

Corpo e corporeidade são conceitos que se entrelaçam, pois são interdependentes na experiência existencial do ser humano. Não existe corpo sem corporeidade e, da mesma forma, a corporeidade necessita do corpo para se concretizar enquanto fenômeno humano. A corporeidade compõe-se das nossas atitudes, da nossa forma de interagir, dos nossos valores e emoções, nos diferentes contextos sociais, desde o nascimento até a morte. Constitui-se da forma como nos apresentamos diante das pessoas, da sociedade e dos fatos cotidianos, tudo o que construímos enquanto ser existencial. Por meio da corporeidade, construímos a nossa existência e a nossa história.

Na perspectiva antropológica da Pós-Modernidade, o corpo tem na sua condição física relação com o fenômeno doença e a maneira como esta é encarada remete-nos para além da abordagem pessoal (individual), mas a uma relação do corpo no contexto sociocultural, daí a responsabilidade da pessoa na manutenção da própria saúde(4).

Metodologia dos estudos

O período reprodutivo é caracterizado por grandes mudanças, tanto no âmbito fisiológico como psicossocial da vida da mulher. As mudanças corporais neste período muitas vezes estão ligadas às transformações na forma que a mulher vê a si mesma, o que por sua vez pode afetar sua auto-estima, a auto-imagem e seu relacionamento social. A forma que cada mulher lida com essas mudanças está relacionada com a subjetividade e a percepção do próprio corpo e de si mesma. A sexualidade está integrada a todo este novo processo que a mulher vivencia.

Ao se considerar os aspectos anteriormente mencionados, realizou-se um estudo sobre o corpo e a sexualidade no puerpério(5). Esse estudo teve como objetivo compreender como um grupo de mulheres lida com as mudanças e a sexualidade durante o período puerperal. Os métodos adotados para a coleta de dados foram a observação e a entrevista. A amostra constituiu-se de seis puérperas que estavam por volta do 55° dia de pós-parto. Algumas mulheres relataram que se sentiram incomodadas com seus corpos o que afetou na sua auto-imagem e auto-estima e no seu comportamento familiar, social e no relacionamento e atividade sexual com o parceiro, apesar de estes referirem que não estavam preocupados com o corpo da mulher neste momento. Os sentimentos de insatisfação com o corpo se manifestaram pela vergonha e pelo fato de não se sentirem à vontade diante dos parceiros o que despertou o ciúme de outras mulheres e insegurança no relacionamento. Com relação à mudança no períneo, as mulheres relataram preocupação com a sua recuperação e com o seu cuidado.

O parceiro, bem como familiares e amigos que já haviam passado pela experiência foram fontes de ajuda naquele momento. As mulheres referiram que as mudanças em suas vidas foram intensas e significativas, mas que o tempo favoreceu a adaptação. Diante desses resultados, podemos afirmar que a maternidade é uma construção diária na vida das mulheres e das famílias e implica transformações no comportamento e na organização familiar que se dão conforme as vivências e os relacionamentos na vida das mulheres durante este período.

A seguir apresentamos os resultados de uma pesquisa de abordagem fenomenológica, tendo Maurice Merleau-Ponty como referencial teórico-filosófico para interpretação da experiência vivida com mulher no climatério. Destacamos o tema desvelado Conscientiza-se do mundo por meio do seu corpo no tempo e no espaço(6).

Os depoimentos das mulheres que culminaram neste tema permitem-nos afirmar que cada organismo tem o seu próprio modo de comunicar-se com o mundo. Toda a percepção consciente que a mulher tem de si significa que ela experiencia o que está ocorrendo. Muitas mulheres perderam essa habilidade de estarem presentes e sintonizadas com seu próprio corpo e o vêem como o corpo inespecífico de uma mulher.

A vivência desta fase da vida traz para a mulher a constatação da incapacidade reprodutiva, ou seja: com a menopausa dá-se por, senão encerrada, dificultada a possibilidade de procriação, do Ser perpetuar-se pela geração. Afinal, procriar é enraizar-se no mundo, é manter-se sendo no mundo.

As mulheres revelaram tanto o viver cotidiano como os bloqueios físico-emocionais decorrentes do climatério. Esse processo permeia o organismo inteiro, interferindo no desenvolvimento de suas atividades diárias, criando um novo modo de ser e uma existência de sofrimento.

A mulher no climatério, ao perceber-se exteriormente, percebe seu corpo no mundo, está no mundo e nele permanece sendo-com-o-outro. A mulher é um Ser de relações e por meio delas dá-se conta de seu corpo co-existindo com outros no convívio social, na intercorporeidade, no movimento que aproxima e distancia o corpo de si mesmo, de nós mesmos e do mundo que habitamos. Todo este movimento merece ser compreendido para que melhor habite seu espaço e seu tempo. Ao vivenciar o climatério vai adquirindo a consciência de seu novo corpo mediante suas percepções e experiências até transformá-las em conhecimento para então estabelecer prioridades e assumir novos modos de vida. Na realidade, não existe fim e sim um processo de vivências encadeadas umas às outras e todas numa única consciência.

Por outro lado, ao estudarmos o processo saúde-doença cabe destaque à Pós-Modernidade, que além dos avanços que trouxe na tecnologia, na economia e para a sociedade mundiais, caracteriza-se, também, por um momento de desconstrução da ordem social, e é nesse contexto de transformações que surgiu a aids que, no limiar de trinta anos de trajetória, continua ceifando vidas, e interferindo nas relações socioculturais e econômicas em nível global.

Nessa ótica, destacamos a relação entre o corpo, o risco, e o estilo de vida. Sob esta perspectiva, interessa-nos o estudo do comportamento da pessoa, de suas crenças em saúde e da promoção em saúde, quando se considera sua ação diante de determinados aspectos de estilos de vida e sua correspondência com doenças específicas(7).

Dessa maneira, a relação entre corpo e doença, em especial, a aids, nos remete a aspectos relevantes, pois, mesmo considerando que a pessoa tenha conhecimento satisfatório sobre a transmissibilidade do HIV, há indivíduos que subestimam os riscos a que estão expostos, pois percebem que esta condição pode ser considerada como uma variabilidade cultural. Por outro lado, uma visão de maior clareza, com foco no corpo, explicaria algumas das diferenças nas respostas sobre risco encontradas na literatura(7).

A relação entre risco e aids, quando analisada diante das várias visões acadêmicas com abordagem no risco mostra que o comportamento das pessoas pode refletir sua visão sobre um tema e direciona suas ações diante de uma situação de risco para a manutenção da integridade de seu corpo (saúde), porém os componentes de sua cultura também exercem influência nesta decisão. Ao agir, a pessoa pondera sobre os prejuízos e os benefícios que determinada situação trará para a saúde de seu corpo, e age conforme sua maneira de encarar o ambiente, suas relações e estilo de vida, considerando suas crenças e seus valores culturais. De onde se deduz que ao posicionar-se diante de uma condição de risco, a pessoa não está decidindo sem reflexão, nem está isolada de seu contexto(8).

A noção de risco, no contexto de interesse deste texto, tem significado de perigo e quando envolve prejuízo à saúde associa-se à prevenção. Quanto à aids, a prevenção tem como objetivo promover mudanças de comportamentos, e de estilos de vida, no entanto, são difíceis as mudanças de comportamento voltadas à prevenção de doenças devido aos limites culturais(9).

Diante dessa abordagem, e ao considerar o delineamento da situação da mulher com idade igual ou superior a 50 anos, bem como a carência de estudos neste recorte etário, no país, realizamos estudos com enfoque na percepção de risco de adoecer com aids, por este segmento populacional, tendo como foco de atenção, a aids e seus reflexos sobre o corpo. Os resultados obtidos permitem-nos afirmar que a grande maioria das entrevistadas reconhecia a aids como um agravo que debilita o corpo, tornando-o emagrecido e vulnerável a outras doenças(10-11).

Os mesmos estudos mostraram que ao comparar os benefícios que teriam diante da adoção de medidas de prevenção da infecção pelo HIV com as barreiras que enfrentariam para realizar sexo mais seguro, as mulheres demonstraram que nem sempre o homem aceita o uso do preservativo, e que diante deste fato, têm dificuldade em solicitar seu uso. Chamou atenção o reduzido percentual de mulheres que se percebiam sob risco de infecção pelo HIV, pela via sexual, porém, em sua maioria, orientavam os familiares jovens sobre medidas preventivas da infecção, as quais elas próprias não seguiam, na tentativa de manter filhos e netos, em especial do sexo masculino, livres do risco de infecção pelo HIV.

 

MÉTODO

Os referenciais adotados nos estudos aqui apresentados, e em outros por nós realizados, nortearam a trajetória para a obtenção dos resultados. Neste caminhar, vários métodos inovadores de coleta de dados foram utilizados nas abordagens sobre questões referentes ao corpo.

Dentre eles, citamos: grupo focal que foi empregado com a finalidade de deixar emergir as diferentes visões e entender em profundidade o comportamento da pessoa em relação ao corpo e à sua sexualidade na relação com a enfermagem. A tese Vivenciando a sexualidade na assistência de enfermagem: um estudo na perspectiva cultural(12) teve como conceito fundamental a sexualidade como construção histórica-social-cultural progressiva, singular, dinâmica flexível e contextualizada. Não teve o objetivo de mudar comportamentos, pois, em se tratando de uma análise cultural buscou-se a revelação das diferenças e das diversidades existentes no mesmo contexto.

As oficinas representaram nova possibilidade de conduzir pesquisa, não apenas porque utilizam técnicas diversas das comumente empregadas nos estudos qualitativos, mas, por constituir outra maneira de estruturar o conhecimento, a reflexão e ação. Foram utilizadas na tese A Sagração das Flores: um ritual para encantar o corpo da mulher no cuidado(13) que teve como ponto de partida a inquietação diante do silêncio a respeito das concepções e das crenças das enfermeiras sobre o corpo da mulher cuidada no contexto da enfermagem brasileira. As oficinas se diferenciam das demais técnicas, pois os sujeitos pesquisados constroem, apropriam-se e validam, coletivamente, o conhecimento e há incorporação da criatividade de tipo artístico na construção do conhecimento, possibilitando o encontro entre ciência e arte.

A narrativa, modalidade de pesquisa que compreende o relato do conjunto de experiências individuais, suas proposições e suas verdades, permite mostrar a versão dos fatos, conforme a visão de mundo da pessoa, que é soberana para revelar ou ocultar casos, situações e identidades. O depoente é considerado o sujeito primordial, tem a liberdade para dissertar sobre sua experiência pessoal e participa em todo o processo sendo denominado colaborador(14). Foi utilizada no estudo É a vida de sempre: corpo e sexualidade no processo de nascimento(5), que buscou compreender o significado do corpo para um grupo de gestantes, como estas mulheres vivenciam os processos fisiológicos do seu corpo durante a gestação e a sua repercussão na sexualidade, bem como conhecer a percepção relacionada ao parto normal e sua implicação para a atividade sexual.

A fotoetnografia foi utilizada na tese Experiências e expressões de gestantes na interação com o sistema de saúde: um enfoque fotoetnográfico(15), que buscou compreender a experiência da mulher, no seu contato com o sistema de saúde, por ocasião do parto. A fotografia foi o recurso visual escolhido, acreditando-se que a mesma poderia criar alternativas para a expressão das colaboradoras, auxiliando-as na construção de suas narrativas, no questionamento dos tópicos culturais e no alargamento de seus universos interpretativos, ao estimular a memória e dar à entrevista um caráter de proximidade com os objetos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Neste artigo discutimos a abordagem do corpo enquanto objeto de estudo na enfermagem na área da Saúde da Mulher. Partimos do pressuposto que corpo não é um objeto, mas um agente. É um organismo biológico que percebe, se movimenta, responde e transforma o ambiente. Seus diversos sistemas trabalham de forma coordenada o que possibilita a manifestação de seus atributos, a visão das imagens, a expressão dos sentimentos, e as formas de pensamento. É o corpo que vive e experimenta, enquanto que a vida social e as relações de intersubjetividade coordenam a experiência. As pessoas são capazes de ser quem são em função da sua capacidade intersubjetiva de comunicar os significados compartilhados. Artefatos culturais, práticas, instituições, rituais, modos de interações transcendem e modelam o corpo e as ações realizadas por ele. Assim sendo, podemos falar em múltiplos corpos, e seu número depende de quantos de seus aspectos se deseja desvendar.

Esta maneira de conceber o corpo determina diferentes métodos de investigação. Nenhum método por si só é capaz de capturar a totalidade sobre os fenômenos do corpo e seus significados. Eventos de manifestação e manutenção da saúde e decorrentes do adoecimento têm significados singulares para cada pessoa e para sua família e cada sociedade em cada momento.

Neste artigo foram apresentadas algumas das formas de se abordar o corpo da mulher durante o processo de saúde doença no seu curso de vida. Nenhuma é superior a outra, mas são maneiras diversas de responder determinadas inquietações. Para que se tenha a resposta apropriada, é necessária a articulação de interesses particulares com a metodologia e os métodos de busca e de análise de dados.

 

REFERÊNCIAS

1. Merleau-Ponty. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes; 1999.         [ Links ]

2. Nanni D. Ensino da dança. Rio de Janeiro: Shape; 2003.         [ Links ]

3. Louro GL, organizador. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Belo Horizonte: Autêntica; 2007. Pedagogias da sexualidade; p.14.         [ Links ]

4. Kleinman A. The illness narratives: suffering, healing and the human condition. New York: Basic Books; 1988.         [ Links ]

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8. Praça NS. Risco de aids em mulheres: desenho de uma trajetória de pesquisa em enfermagem. [tese]. São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo; 2004.         [ Links ]

9. Martin D. Riscos na prostituição: um olhar antropológico. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP; 2003.         [ Links ]

10. Lima DA. A mulher com idade igual ou superior a 50 anos e a epidemia de aids: percepção e ações de moradoras de uma comunidade de baixa renda [dissertação] São Paulo: Escola de Enfermagem, Universidade de São Paulo; 2006.         [ Links ]

11. Praça NS, Barbosa FOS. HIV/aids e a mulher com idade igual ou superior a 50 anos. In: Paula CC, Padoin SMM, Schaurich D, organizadores. Aids: o que ainda há para ser dito? Santa Maria: Ed. UFSM; 2007. p.157-68.         [ Links ]

12. Ressel LB, Beck CLC, Gualda DMR, Hoffmann I, Silva RM, Sehnem GD. O uso do grupo focal em pesquisa qualitativa. Texto Contexto Enferm. 2008;17(4):779-86.         [ Links ]

13. Silveira MFA, Gualda DMR, Sobral V, Garcia MAS. Workshops of sensitivity, expressiveness and creativity: a path to integrate subjectivity and reflection in qualitative research. Forum Qualitative Sozialforschung /Forum. Qual Soc Res [serial on the Internet]. 2003 [cited 2009 Sep1];4(2):[about 15 p.] Available from: http://www.qualitative-research.net/index.php/fqs/article/view/715         [ Links ]

14. Mattingly C, Garro LC. Introduction. Soc Sci Med. 1994;38 (6):771-4.         [ Links ]

15. Melleiro MM, Gualda DMR . Experiências e expressões de gestantes na interação com o sistema de saúde: um enfoque fotoetnográfico. Rev Lat Am Enferm. 2004;12(3):503-10.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Roselena Bazilli Bergamasco
Av. Dr. Éneas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 15/09/2009
Aprovado: 11/11/2009