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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.44 no.1 São Paulo Mar. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342010000100028 

ARTIGO ORIGINAL

 

Produção de conhecimento sobre o cuidado ao recém-nascido em UTI Neonatal: contribuição da enfermagem brasileira

 

Generación de conocimientos sobre el cuidado al recién nacido en UTI Neonatal: contribución de la Enfermería brasileña

 

 

Roberta CostaI; Maria Itayra PadilhaII; Marisa MonticelliIII

IMestre em Enfermagem. Enfermeira da Unidade Neonatal do Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina. Doutoranda em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Membro do Grupo de Estudos de História do Conhecimento de Enfermagem (GEHCE). Florianópolis, SC, Brasil. robertanfr@hotmail.com
IIDoutora em Enfermagem. Pos-Doutora pela Lawrence Bloomberg Faculty of Nursing at University of Toronto. Canada. Professora Associada do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Líder do Grupo de Estudos de História do Conhecimento de Enfermagem (GEHCE). Pesquisadora do CNPq. Florianópolis, SC, Brasil. padilha@nfr.ufsc.br
IIIDoutora em Enfermagem. Professora Associado do Departamento de Enfermagem e do PEN/UFSC. Vice-líder do Grupo de Pesquisa em Enfermagem na Saúde da Mulher e do Recém-nascido (GRUPESMUR). Florianópolis, SC, Brasil. marisa@nfr.ufsc.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Esta pesquisa documental teve como objetivo refletir sobre o estado da arte na Enfermagem brasileira acerca do cuidado ao recém-nascido em UTI neonatal. A fonte de pesquisa foi o Banco de Teses e Dissertações da Associação Brasileira de Enfermagem. Foram identificados 81 estudos. A análise dos dados foi feita em duas etapas: primeiro realizamos a caracterização dos trabalhos; após, organizamos o material a partir de dados evidentes nos estudos, dando lugar às categorias temáticas: cuidado centrado nos aspectos fisiológicos do recém-nascido; a família que acompanha os cuidados ao recém-nascido em UTI neonatal; e a equipe de saúde que atua no cuidado ao recém-nascido em UTI neonatal. Constatamos que a pesquisa em enfermagem busca novas formas de cuidar, e proporciona uma aproximação entre a teoria e a prática, garantindo sua sustentação enquanto profissão, e contribuindo na produção de conhecimento em neonatologia.

Descritores: Recém-nascido; Unidades de Terapia Intensiva Neonatal; Enfermagem neonatal; Pesquisa em enfermagem.


RESUMEN

Esta investigación documental tuvo como objetivo reflexionar sobre el estado del arte de la Enfermería brasileña respecto de los cuidados al recién nacido en UTI neonatal. La fuente de la investigación fue el Banco de Tesis y Disertaciones de la Asociación Brasileña de Enfermería. Fueron identificados 81 estudios. El análisis de los datos fue hecho en dos etapas: primero, realizamos la caracterización de los trabajos, y luego organizamos el material a partir de datos evidentes en los estudios, dando lugar así a las categorías temáticas: Cuidado centrado en los aspectos fisiológicos del recién nacido, La familia que colabora con los cuidados al recién nacido en UTI Neonatal y El equipo de salud que actúa en el cuidado del recién nacido en la UTI Neonatal. Se constató que la investigación en enfermería busca nuevas formas de cuidar y proporciona una aproximación entre la teoría y la práctica, garantizando su sustentación como profesión y contribuyendo a la generación de conocimientos en Neonatología.

Descriptores: Recién nacido; Unidades de Terapia Intensiva Neonatal; Enfermería neonatal; Investigación en enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A assistência neonatal vem passando por muitas transformações e o advento de novas tecnologias trouxe um universo mais amplo ao cuidado aos recém-nascidos (RN). Durante décadas, os avanços nos cuidados intensivos têm possibilitado maior sobrevida aos RNs prematuros extremos(1). Nos últimos anos, grandes mudanças vêm ocorrendo no ambiente das unidades neonatais no Brasil, de certa forma acompanhando a tendência mundial.

O cuidado ao RN está cercado de paradoxos que fazem parte do dia-a-dia da pesquisa e da assistência. De um lado, os avanços obtidos são estarrecedores, como por exemplo, a sobrevivência crescente de bebês cada vez mais prematuros e daqueles portadores de malformações antes consideradas incompatíveis com a vida. Por outro lado, a sobrevivência destes bebês impõe um desafio quase que intransponível: a missão de devolver às famílias e à sociedade uma criança capaz de desenvolver de maneira plena o seu potencial afetivo, cognitivo e produtivo(2).

No esteio da transformação que vem ocorrendo na ciência da enfermagem, acompanhando o desenvolvimento tecnológico que se processou no campo da saúde nas últimas décadas, especialmente em neonatologia, o conhecimento acumulado é notório. Tal fato contribui para que os enfermeiros que atuam nesta especialidade necessitem ter acesso disponibilizado ao material de referências bibliográficas produzidos para acompanharem e suplementarem seus conhecimentos(3).

A neonatologia, apesar de ser uma seara especializada do conhecimento, ainda é uma ciência nova e relativamente emergente em nosso país. Conhecer o caminho percorrido pela enfermagem brasileira na construção do conhecimento acerca do cuidado ao RN pode contribuir para compreender os conflitos, avanços e retrocessos, fatores que interferem na qualidade da assistência em saúde, subsidiar a avaliação da formação e capacitação dos profissionais, bem como no desenvolvimento de novas pesquisas que tenham impacto para a melhoria da saúde da população(4).

 

OBJETIVO

Procurando entender e visualizar tal processo de produção do conhecimento este artigo tem por objetivo refletir sobre o estado da arte na Enfermagem acerca do cuidado ao RN em unidade de terapia intensiva neonatal (UTIN), a partir das Teses e Dissertações produzidas no período de 1981 a 2006.

 

MÉTODO

É um estudo que utiliza a pesquisa documental como método para analisar a produção científica da enfermagem brasileira sobre o cuidado ao RN. A fonte de pesquisa foi Banco de Teses e Dissertações do Centro de Estudos e Pesquisas em Enfermagem (CEPEn) da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn). Inicialmente a busca se deu por consulta dirigida aos resumos dos trabalhos cujo título evidenciasse qualquer possibilidade de relação com o tema. Constatamos que, no período de 1979 a 2006, foram produzidas 87 Teses e Dissertações sobre o assunto.

Os achados foram então analisados sob duas perspectivas, quanti e qualitativamente. Na primeira etapa de análise dos dados organizamos os trabalhos em relação ao tipo de estudo (Dissertação ou Tese), ano de publicação e Instituições de origem dos estudos. Concluída esta fase de classificação passamos à análise qualitativa dos dados. Na segunda etapa da análise o material foi organizado a partir de dados evidentes nos estudos (elementos componentes), agrupados por semelhanças, dando lugar às subcategorias (03) a partir das quais se compuseram as categorias temáticas amplas: cuidado centrado nos aspectos fisiológicos do RN; a família que acompanha os cuidados ao RN em UTIN e; a equipe de saúde que atua no cuidado ao RN em UTIN.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Ao lançarmos luz sob a produção da enfermagem brasileira, percebemos que muitos estudos vêm contribuindo para a produção de conhecimento sobre o cuidado ao RN. Quanto ao tipo de estudo foram encontradas 71 dissertações (81,6%) e 16 teses (18,4%). Com relação ao número anual de publicações percebemos que os estudos datam de 1981 a 2006, sendo que houve um aumento significativo nas publicações a partir de 1999, conforme mostra a Figura 1. O marco inicial foi a dissertação de Nely Pereira Gomes intitulada Sistematização da verificação de temperatura do recém-nato de baixo peso - um instrumento de controle da enfermagem, publicada em 1981 pela EEAN/UFRJ.

 

 

No que diz respeito às Instituições onde foram realizados os trabalhos observamos que a região Sudeste foi a que gerou mais estudos (75,8%), com maior incidência de defesas advindas da Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto e São Paulo (16,1% e 14,9%). Em seguida, a região Nordeste contribui com 12,6% (com maior expressão da Universidade Federal do Ceará e Universidade Federal da Bahia); a região Sul contribuiu com 9,2% dos trabalhos (maior prevalência da Universidade Federal de Santa Catarina com 8%); e a Centro-Oeste, com 1,2% (representado pela Universidade Federal de Goiás). Foi encontrada ainda uma dissertação defendida na Chiba University - School of Nursing, do Japão.

Esta distribuição de trabalhos por região pode ser explicada, pois ocorrem enormes "desigualdades regionais no país, no que diz respeito à disponibilidade de Programas de Pós-Graduação e a quantidade de recursos humanos qualificados em nível de Doutorado e Mestrado"(5). Estes desequilíbrios são evidenciados quando se considera a distribuição regional de programas, o qual indica que a região sudeste ocupa a posição de liderança nos Programas de Pós-Graduação (57%), na região sul encontra-se 20,5% dos Programas, seguido de 18% na região nordeste e que pouco mais de 4%, encontram-se na região centro-oeste(6).

Por outro lado, ao cruzarmos os dados dos estudos com a distribuição dos leitos neonatais pelo Brasil, podemos também justificar porque ocorre uma expressiva maioria dos trabalhos na região sudeste. Constatamos então que a distribuição das pesquisas está variando de acordo com a distribuição dos leitos (Figura 2), o que nos permite inferir que a necessidade de produção de conhecimento possivelmente vem emergindo da prática dos profissionais de saúde nas UTINs. Somado a estes fatores, destacamos que a maioria dos estudos são Dissertações, e o título de Mestre passou a ser uma exigência institucional e não apenas a meta profissional dos docentes(7).

 

 

A análise dos dados encontrados por semelhança, deram origem a três categorias temáticas amplas: cuidado centrado nos aspectos fisiológicos do RN, a família que acompanha os cuidados ao RN em UTIN e a equipe de saúde que atua no cuidado ao RN em UTIN (Figura 3), que expressam a forma como o tema vem sendo abordado na produção de conhecimentos nos estudos da enfermagem brasileira.

 

 

A seguir apresentamos as três categorias, com o intuito de favorecer um amplo olhar ao tema e auxiliar no estado da arte do conhecimento produzido pela enfermagem brasileira.

Cuidado centrado nos aspectos fisiológicos do RN – agrupamos nesta categoria os trabalhos que abordam os aspectos fisiológicos do RN em UTIN (29,9%). Deste modo, os estudos analisam variáveis como: temperatura, peso ponderal, freqüência cardíaca, freqüência respiratória, saturação de oxigênio, respostas comportamentais e aleitamento materno. Podemos destacar os estudos que tratam de analisar a evolução ponderal de RNs prematuros inseridos no Método Canguru; controlar a temperatura corporal do RN de baixo peso; identificar as respostas fisiológicas e comportamentais apresentadas por bebês no momento de realização dos cuidados de enfermagem; analisar as atividades de estimulação realizadas pelas enfermeiras nas UTINs com RN pré-termos; descrever a assistência e as dificuldades no processo da amamentação de prematuros e; identificar a habilidade do RN pré-termo e de muito baixo peso para sugar à mamadeira e ao seio materno e comparar os efeitos destes, sobre a saturação de oxigênio, a temperatura e as freqüências cardíaca e respiratória.

O conhecimento de aspectos fisiológicos dos bebês direcionou as práticas de atenção a este segmento populacional. O reconhecimento das intercorrências que os RNs apresentavam em termos de debilidades nas funções fisiológicas contribuiu para a diminuição da mortalidade infantil(8).

Nesta categoria existem referências, ainda, aos estudos que descrevem e avaliam os procedimentos de enfermagem na UTIN. É relevante destacar os estudos com relação a estratégias para prevenção e controle das infecções hospitalares; cuidados na manutenção do cateterismo umbilical; o uso do Cateter Central de Inserção Periférica; investigar a relação entre o cuidado de enfermagem na aspiração orotraqueal, a coleta de sangue e as respostas comportamentais, fisiológicas do RN de risco; atuação das enfermeiras, diante da dor provocada no bebê, durante a punção venosa; prevenção de lesões na pele de neonatos e; as técnicas de alimentação prescritas para prematuros.

O conhecimento científico e a habilidade técnica são imprescindíveis para o controle rigoroso das funções vitais na tentativa de garantir a sobrevivência dos RNs de risco(9). Assim, as autoras destes trabalhos acadêmicos destacam a importância do acompanhamento e da atualização dos avanços terapêuticos e tecnológicos nesta área. De igual modo, apontam contribuições ao desenvolvimento dos parâmetros fisiológicos dos RNs nas UTINs, assim como ajudam na disseminação e avaliação de procedimentos e técnicas executadas na prática cotidiana dos profissionais. Contudo, não encontramos estudos estatísticos sobre dados epidemiológicos, perfil sócio-demográfico e morbi-mortalidade neonatal. Por outro lado, precisamos evoluir na construção de metodologias assistenciais, uma vez que tais estratégias são sustentadas por ações, reações e contínuas construções que envolvem o profissional enfermeiro e seus clientes; envolve ainda a tomada de decisão promovendo uma assistência organizada, a individualização do cuidado, o planejamento das ações e a geração do conhecimento a partir da prática(10).

A família que acompanha os cuidados ao RN em UTIN – elencamos nesta categoria o maior número de estudos (35,6%). Os trabalhos tratam principalmente sobre a formação do vínculo mãe-bebê e a análise dos aspectos promotores e complicadores da formação do apego entre pais/ RNs.

É importante que os profissionais desenvolvam uma interação efetiva, compreendendo a vivência desses pais, nessa fase de sua vida, oferecendo-lhe um espaço legítimo para que eles expressem seus sentimentos e ainda esses mesmos profissionais possam oferecer elementos concretos e facilitadores para que ocorram as transformações que vão possibilitar a esses pais superarem barreiras e se movimentarem em direção à aproximação e interação com seu filho(11-12).

Com grande expressão nesta categoria destacamos os estudos que abordam os significados e as representações sociais das mães acerca da internação do filho; pesquisas sobre experiências, sentimentos e expectativas de mães de RNs internados; estudos sobre a percepção das mães acerca da sua participação no cuidado ao filho e sobre à comunicação entre mães e equipe de saúde.

Durante a internação o foco do atendimento é o bebê prematuro. Porém, na medida em que se introduzem ações que dependem da mãe para promover o bem-estar e a saúde do bebê, tais como a amamentação, as visitas, o Método Canguru, o conhecimento acerca das crenças e sentimentos maternos ajudam a orientar as intervenções facilitadoras do cuidado individualizado do RN(13).

Em menor número, encontramos estudos que buscam compreender o funcionamento da dinâmica familiar decorrente da permanência da mãe e do filho na unidade de cuidados intensivos e as repercussões familiares da hospitalização do RN na UTIN. É igualmente relevante destacar que encontramos apenas um estudo que aborda a questão da paternidade, procurando conhecer o significado, para os pais, de ter um filho internado na unidade. Este trabalho ressalta aspectos relativos à figura masculina e o impacto desta abordagem de gênero nos cuidados ao neonato. Estudos com esta temática, embora sendo desenvolvidos em ínfima quantidade, são impactantes diante do cenário atual que ainda ressalta o modelo tradicional de assistência, predominantemente centrado no exercício social da maternagem. Nesta perspectiva, reforçamos que esta posição hegemônica deve ser repensada, incorporando a presença do pai nas unidades neonatais, para que possa aprender a trabalhar com essa realidade e programar medidas para definir e garantir seu real papel no cuidado do filho.

O que se percebe nestes estudos é que existe um campo vasto a ser explorado com relação à vivência das famílias em UTIN. É necessário ampliar os sujeitos das pesquisas, envolvendo a figura paterna e as demais pessoas significativas no cuidado ao RN. Em se tratando de assistência neonatal é preciso ter em mente que o nosso cliente não é apenas o RN, mas também a família nuclear e ampliada. Ao olhar para a família, na UTIN, amplia-se a abordagem do cuidado para além do bebê prematuro, pois o que se considera são os seres que, ligados a ele, interagem e se movem, a fim de estarem próximos e serem úteis no cenário muitas vezes desafiador do ambiente hospitalar(12,14).

A equipe de saúde que atua no cuidado ao RN em UTIN – a enfermagem brasileira produziu muitos estudos acadêmicos sobre esta temática (34,5%), principalmente com relação ao significado que a experiência de "cuidar" tem para os profissionais da equipe de uma UTIN, sobre a vivência cotidiana da equipe de enfermagem de uma unidade neonatal e acerca dos sentimentos e emoções da enfermeira nos cuidados ao RN enfermo. Encontramos, ainda, trabalhos que identificam o motivo da escolha dos profissionais pela UTIN e que buscam compreender o mundo imaginal da equipe de enfermagem frente às reações do RN submetido a um procedimento doloroso.

Com relação ao processo de trabalho percebemos que as pesquisas trazem à discussão questões da prática diária das trabalhadoras e sobre organização do trabalho na assistência. Também identificam abordagens sobre satisfação no trabalho e o clima organizacional, além de identificarem e analisarem aspectos do sistema de relações profissionais que permeiam o cotidiano do cuidado.

Estudos que ensejam esta ótica revelam que é necessário que os profissionais estejam instrumentalizados para lidar com as situações do cotidiano, recebendo auxílio psicológico e aprendendo a administrar sentimentos vivenciados na prática assistencial(15). Estas autoras referem que é fundamental o incentivo à equipe, valorizando os profissionais, pois, quando se sentem mais respeitados, valorizados e motivados como pessoas e profissionais, podem estabelecer relações interpessoais mais saudáveis com os pacientes, familiares e equipe multiprofissional.

Outras Teses e Dissertações, em menor número, apresentam ainda dados sobre o planejamento e avaliação de programas de assistência ao RN. Destacamos os estudos que abordam a implantação e avaliação da proposta governamental brasileira de cuidado humanizado ao RN pré-termo – Método Canguru. A identificação do processo de trabalho da equipe de enfermagem na UTIN permite compreender a percepção da equipe de enfermagem e apreender, na assistência de enfermagem prestada aos neonatos, as medidas de humanização adotadas e se as mesmas propiciam efeitos na qualidade da assistência de enfermagem(15).

Enumeramos também estudos com relação à formação/ensino da enfermagem neonatal. Encontramos dois trabalhos: um que avalia o conhecimento, a prática e a percepção dos estudantes de graduação em enfermagem relacionados à enfermagem neonatal, com a finalidade de contribuir para a reformulação de programas de enfermagem na área, e o outro, que aborda o ensino da enfermagem em neonatologia, relacionando-o com a atual prática de enfermagem desenvolvida na assistência ao RN nas instituições de saúde. Os estudos desta categoria valorizam os sentimentos e a vivência dos profissionais de enfermagem que cuidam do RN, porém, mostram que muito ainda temos que avançar nas questões relativas ao processo de trabalho e à formação destes profissionais.

Os estudos mostram que é necessário investir na formação dos profissionais das UTINs, promovendo não somente a capacitação técnica, mas também, sensibilizando-os para que planejem a assistência pautada nos fundamentos da humanização e da integralidade do cuidado(9,14).

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

No decorrer desta pesquisa, que analisou a produção de conhecimentos acerca do cuidado ao RN em UTIN, divulgada em Teses e Dissertações brasileiras de enfermagem, constatou-se, como principais resultados, que a maior parte dos trabalhos concentra-se entre 1999 e 2006 (67 estudos). Quanto à temporalidade dos trabalhos, observa-se também a precocidade da primeira publicação na enfermagem. A região que mais apresenta estudos abordando a temática é a Sudeste, com destaque para o estado de São Paulo. As temáticas que se sobressaem retratam acentuada força na produção de trabalhos acadêmicos em nível de Pós-graduação sobre a predominância da dimensão fisiológica do cuidado ao neonato, provavelmente decorrente da natureza de risco e vulnerabilidade que envolve a atenção em saúde a bebês enfermos e em diferentes estágios de prematuridade. Há, contudo, que se aprofundar os estudos feitos com relação ao desenvolvimento psicológico do RN.

Outra temática em relevo abrange a família que acompanha os cuidados ao neonato hospitalizado focalizando, particularmente, processos de apego mãe-bebê, em detrimento de exercícios e vivências diante da paternagem e da incorporação de cuidados centrados na família do bebê internado em UTIN. Estes resultados mostram a premente necessidade de avançar em pesquisas que envolvam a família e as redes sociais de apoio.

Finalmente, tais estudos também concentram-se em torno da equipe neonatal, produzindo conhecimentos sobre significações e vivências cotidianas dos profissionais de enfermagem, ao cuidar de RNs graves e/ou pré-termos, bem como sobre aspectos relacionados à organização do trabalho em neonatologia. Os estudos que abordam esta temática são unânimes, entretanto, em apontar que ainda há muitas lacunas de conhecimento, no que diz respeito a questões ligadas ao processo de trabalho e ao processo de formação profissional para atuar em área de grande especificidade e demandas pluridimensionais, em face desta mesma especificidade.

Em nossa apreciação é relevante destacar a ausência de pesquisas brasileiras que abordem a história da implantação das UTINs no Brasil, assim como estudos que descrevam as experiências de organização e funcionamento destas unidades. É importante enfatizar que a pesquisa em enfermagem legaliza o fazer, busca novas formas de cuidar e ao mesmo tempo proporciona uma aproximação entre a teoria e a prática, garantindo sua sustentação enquanto profissão e contribuindo efetivamente na produção de conhecimento.

Como limitação deste estudo, gostaríamos de salientar que esta revisão abrange apenas a produção da pós-graduação do Brasil, outros estudos sobre a produção da pós-graduação internacional ainda devem ser explorados. Outra questão que também merece ser analisada é a produção de conhecimento fora da pós-graduação.

Neste sentido, acreditamos que os resultados deste estudo podem contribuir para o entendimento do caminho percorrido pela enfermagem brasileira na construção do conhecimento acerca do cuidado ao RN em UTIN, proporcionando pistas mais seguras para a vizualização do estado da arte referente à temática.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Roberta Costa
Rua 23 de março, 405, Itaguaçu
CEP 88085-440 - Florianópolis, SC, Brasil

Recebido: 25/07/2008
Aprovado: 11/03/2009

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