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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.44 no.3 São Paulo Sept. 2010

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342010000300019 

ARTIGO ORIGINAL

 

O ensino do cuidar na Graduação em Enfermagem sob a perspectiva da complexidade*

 

La enseñanza del cuidar en la graduación en enfermería bajo la perspectiva de la integralidad

 

 

Ana Lúcia da SilvaI; Marlene Gomes de FreitasII

IEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Pesquisadora Científica Nível-III do Instituto de Saúde da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. anaa8h@yahoo.com.br
IIEnfermeira. Mestre em Ciências. Docente do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Bandeirante de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. gomes.freitas@uol.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Trata-se de estudo que destaca o ensino do cuidar na Graduação em Enfermagem sob a perspectiva da Complexidade, defendida e pesquisada por Edgar Morin. Optou-se pela pesquisa qualitativa, utilizando a Análise de Conteúdo Temática. Realizaram-se doze entrevistas individuais semiestruturadas, tendo como cenário uma universidade particular da cidade de São Paulo, Brasil. Os dados foram coletados entre 2004 e 2005, a partir da questão norteadora. A análise dos dados conduziu para as seguintes categorias, aqui denominadas de Sinalizadores Pedagógicos Complexos, que deram sentido ao significado de cuidar complexo. Os resultados evidenciaram que os entrevistados perceberam e expressaram o cuidar sensível em enfermagem, relacionando e inter-relacionando as partes ao todo e o todo às partes, aproximando-se de um cuidar complexo.

Descritores: Filosofia em enfermagem. Cuidados de enfermagem. Conhecimento. Educação em enfermagem.


RESUMEN

Se trata de un estudio que destaca la enseñanza del cuidar en la Graduación en Enfermería bajo la perspectiva de la Integralidad, defendida e investigada por Edgar Morin. Se optó por la investigación cualitativa, utilizándose el Análisis de Contenido, modalidad Temática. Se realizaron doce entrevistas individuales semiestructuradas, con escenario en una Universidad privada de la ciudad de San Pablo, Brasil. Los datos fueron recolectados entre 2004 y 2005, a partir de una pregunta orientadora. El análisis de los datos derivó en las siguientes categorías, aquí denominadas como Señalizadores Pedagógicos, que dieron sentido al significado del cuidar integral. Los resultados evidenciaron que los entrevistados percibían o expresaban el cuidar sensible en enfermería, relacionando e interrelacionando las partes al todo y el todo a las partes, aproximándose de tal modo al cuidar integralizado.

Descriptores: Filosofía en enfermería. Atención de enfermería. Conocimiento. Educación en enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A era moderna é reconhecida como marco no avanço da ciência. Todavia, apesar dos conhecimentos científicos terem propiciado condições para o desenvolvimento de tecnologia material e esta ter ampla aceitação nas instituições de saúde, nas áreas de diagnóstico, tratamento, cura e recuperação, ainda existe uma distância entre o ter equipamentos sofisticados para o cuidado em enfermagem e o reconhecer, saber e praticar cuidado sensível na enfermagem, utilizando esta tecnologia.

Assim, ao ingressarmos no século XXI, torna-se necessário repensar a formação do enfermeiro. É mister propiciar, além do ensino do cuidado técnico-material, uma ambiência de reflexão para aprimorar o ensino do cuidar pautado na atenção diferenciada a cada ao ser humano, visando sua autonomia e seu bem estar. É necessário ensinar como estar presente nas ações de saúde às pessoas.

Entendemos que praticar Enfermagem não é só ministrar medicamentos e/ou aliviar o sofrimento. Da mesma forma, que exercer enfermagem não é uma idéia ou algo apenas imaginado, em que o outro não é sentido, sua natureza não é percebida e suas vivências não são consideradas; é cuidar do outro, cuidar do eu, é perceber, se preocupar, estar com o outro, estar para ouvir, ver, experimentar e conhecer, é postura ética e estética em relação ao mundo(1). Cuidar é refletir, alimentar, tocar, aliviar a dor, ouvir, hidratar, medicar, preparar para curativos, cirurgias, exames, preparar para a vida e para a morte. De modo similar, ensinar o cuidado na Graduação em Enfermagem envolve demandas relacionadas a um processo ensino-aprendizagem que priorize a relação professor-aluno. É preciso reflexão educacional pautada na realidade da vida, ou seja, é fundamental que o professor compreenda a teia de relações existentes no mundo da saúde, para que possa pensar ensinar e praticar baseado na ciência una e múltipla que permite ligar e contextualizar os saberes.

Desta forma, cientes de que estamos, historicamente, num processo de transição paradigmática, e que é apropriado realizar estudos relacionados à formação de enfermeiros, buscamos, na Filosofia da Ciência, por um marco teórico relacionado ao Ensino Superior em Enfermagem que, é a Complexidade e o Pensamento Complexo.

 

MARCO TEÓRICO

Para este estudo, buscamos na Complexidade e no Pensamento Complexo defendido e estudado por Edgar Morin, sustentação epistemológica que permita elaborar análise, discussão e interpretação de dados com propriedade e coerência científica. Se por um lado, o conhecimento científico se constrói sobre múltiplas certezas, por outro deixou de ser o domínio da certeza absoluta. É preciso contextualizar cada acontecimento, pois as coisas não acontecem separadamente. A complexidade parte da noção de totalidade, incorpora solidariedade e favorece a reflexão do cotidiano.

O pensamento complexo tem três princípios epistemológicos que são também fundamentos éticos de nova conduta de vida: o princípio dialógico, o princípio da recursividade organizacional e, o princípio hologramático(2). Assim, temos:

1. Princípio dialógico: une dois princípios ou noções que deviam excluir-se reciprocamente, mas são indissociáveis em uma mesma realidade. A dialógica não opõe ordem e desordem, natureza e cultura, mas entende tais fenômenos como simultaneamente concorrentes, antagônicos e complementares. Viver de morte e morrer de vida(3) do filósofo grego Heráclito, é um clássico exemplo dialógico e que tem importante expressão na Enfermagem enquanto profissão do cuidado, na vida e no processo de morrer humano.

2. Princípio do circuito recursivo: A recursividade organizacional postula a não-linearidade da relação causa e efeito que se alternam como origens e conseqüências dos fenômenos, gerando uma complexa sinergia. Envolve a autoprodução e auto-organização. Trata-se, por assim dizer, de um anel gerador no qual os produtos e os efeitos são, eles mesmos, criadores daquilo que os produz.

3. Princípio hologramático: Diz respeito à imbricada relação entre a parte e o todo, onde o todo é maior ou menor que a soma das partes, sendo que o todo contém a parte e nela está contido. Portanto, a própria idéia hologramática está associada à idéia recursiva que, em parte, está ligada à idéia dialógica. Este princípio, normalmente, pode ser representado pelo holograma. O holograma é a imagem física cujas qualidades de relevo, de cor e de presença são devidas ao fato de cada um dos seus pontos incluírem quase toda a informação do conjunto que representa(3). Em um holograma, a parte está no todo, mas o todo está na parte. Esse processo ocorre nos mundos físico, biológico, sociológico e cultural. Da mesma maneira, o indivíduo é parte da sociedade, mas a sociedade está presente em cada indivíduo por meio da linguagem, da cultura e de suas normas.

A idéia do holograma vai além do reducionismo que só vê as partes e do holismo que só vê o todo. É necessário perceber que a capacidade de auto-organização dos sistemas educacionais faz com que determinada totalidade surja com propriedades e qualidades diferentes, nem sempre semelhantes ao sistema educacional original, razão pela qual podemos dizer que o todo não pode ser reduzido à soma de suas partes ou de seus componentes iniciais.

O pensamento complexo compreende que o conhecimento das partes depende do conhecimento do todo e que o todo depende, simultaneamente, do conhecimento das partes. Ele enfrenta a incerteza, agrega à causalidade linear e unidirecional, uma causalidade em círculo; corrige a rigidez da lógica pelo dialógico, que é capaz de conceber noções ao mesmo tempo complementares e antagônicas, liga a explicação à compreensão em todos os fenômenos humanos, portanto, um sistema aberto, abrangente e flexível que não reduz a multidimensionalidade a explicações simplistas ou a esquemas fechados de idéias. Defende, ainda, que o ser humano seja a um só tempo físico, biológico, psíquico, cultural, social e histórico(2).

O pensamento complexo não é uma nova lógica, sempre existiu. É importante que se diga que é um pensamento de aproximação à realidade. É aquele capaz de considerar todas as influências recebidas internas e externamente. Pensar na epistemologia da complexidade tornou-se importante quando nos deparamos com a necessidade de articular, relacionar e contextualizar(3).

Desse modo, precisamos aprimorar o conhecimento e graduar enfermeiros para a criatividade, para a flexibilidade, com habilidades reflexivas e interativas para cuidar cientificamente de pessoas de forma contextualizada e que valorizem dimensões objetivas, mas também dimensões subjetivas.

Em relação ao conceito de natureza humana questionamos: quem somos nós? Da Terra, efetivamente originou-se a vida e na evolução multiforme da vida multicelular, nasceu a animalidade. Depois, o mais recente desenvolvimento de um ramo do mundo animal tornou-se humano. Pensamos ser os donos da Terra, mas dependemos de modo vital da biosfera terrestre. Ainda, não devemos esquecer que o homem é um ser complexo, com dimensões biológicas, psicológicas, sociais e culturais interligadas, e que os fenômenos na área de saúde-doença recebem, ao mesmo tempo, influências econômicas e históricas(2). É preciso compreender a condição humana no mundo como a condição do mundo humano(4). A compreensão humana chega quando sentimos e concebemos os humanos como sujeitos. O sujeito humano é complexo por natureza e por definição. Constitui o cosmo em si, pois contém a multiplicidade interior, embora, o sujeito individual seja singular. É um ponto do holograma contendo toda a trindade, ele não está sozinho porque o Outro e o Nós moram nele(5). Trata-se de compreender que a unidade é múltipla e que o múltiplo é uno. Dessa forma, é preciso conhecer o complexo do humano para refinar o ensino do cuidar humano em enfermagem, o cuidar complexo, que também pode ser denominado de cuidado sensível.

 

OBJETIVOS

Reconhecer e descrever como graduandos e recém-graduados de enfermagem compreendem o ensino do cuidar e; analisar como graduandos e recém-graduados de enfermagem identificam o aprendizado teórico-prático para o cuidar sob a perspectiva da Complexidade.

 

MÉTODO

O objeto de estudo foi o ensino do cuidar em enfermagem e para que se possa reconhecer a realidade deste ensino para o cuidar, foi importante compreendermos como graduandos e recém-graduados em enfermagem percebem e realizam o cuidar de pessoas. Assim, o método de investigação e de análise dos dados desenhou-se a partir do referencial teórico, pois a teoria não é nada sem o método(3); a teoria quase se confunde com o método, ou seja, teoria e método são dois componentes indispensáveis do conhecimento complexo. Entendendo o método como um caminho de investigação, adotamos a referência de que o pesquisador precisa desenvolver e construir caminhos de aproximação da realidade, sem ignorar os princípios da lógica e objetividade da ciência, mas não perdendo de vista a busca da articulação da teoria com a realidade.

Esta pesquisa foi realizada em uma instituição particular de ensino da cidade de São Paulo, Brasil.

O projeto foi avaliado e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Instituto de Saúde (Protocolo 017/2004) de acordo com a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, que regulamenta as normas para pesquisa envolvendo seres humanos. Todos os participantes tomaram conhecimento e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Entrevistaram-se oito alunos do oitavo semestre do Curso de Graduação em Enfermagem e quatro recém-graduados em Enfermagem que ainda não exerciam a função de enfermeiros. Os dados foram coletados entre 2004 e 2005. O número de entrevistados não foi estabelecido previamente. Optou-se pelo critério de amostragem intencional, que consiste na contínua coleta e pré-análise de dados, que leva o pesquisador à construção de categorias preliminares. O critério para finalizar a coleta de dados foi o momento em que ocorreu a repetição das categorias preliminares, sendo obtida a saturação.

Optamos pela análise de conteúdo temática que é um conjunto de técnicas de análise do processo de comunicação que permite o estudo das motivações, atitudes, valores, crenças e tendências. A finalidade é efetuar inferências com base numa lógica explicitada de acordo com o objeto a ser analisado, no nosso caso, o ensino para um cuidar complexo(6-8). Passos seguidos para a análise:

1º - Realizou-se leitura dos textos transcritos, a partir de uma atenção flutuante, sem pré-julgamentos. Posteriormente, procedeu-se a releituras, intercalando a escuta do material gravado com a leitura do material transcrito. Essa postura atenta possibilita acompanhar o encadeamento de associações em cada entrevista e entre as entrevistas. É um passo que demanda tempo importante e concentração muito bem focada no material sob análise.

2º - Realizou-se nova releitura. Palavras e frases foram grifadas nos textos originais. Foram identificados temas relacionados ao objeto da pesquisa e ao referencial teórico. Procedimentos realizados em cada entrevista;

3º - Realizou-se o primeiro recorte das palavras e frases grifadas em cada entrevista;

4º - Fez-se nova releitura destes recortes e novamente, realizou-se um segundo recorte das frases e palavras em cada entrevista para que tivéssemos de maneira apurada, seus significados e sentidos;

5º - Buscou-se identificar as semelhanças temáticas em cada entrevista e entre as entrevistas para a construção das categorias;

6º - Procedeu-se a interpretação e a discussão com a literatura.

Os conteúdos das entrevistas foram analisados e interpretados buscando-se temas que fossem pontos de encontro entre as falas dos entrevistados e os princípios da complexidade em função do ensino em curso de graduação em enfermagem para um cuidar complexo. Assim, em função do marco teórico escolhido e em função de uma pertinência para esta pesquisa incorporamos a terminologia Sinalizador Pedagógico Complexo(9). Trata-se de uma construção lingüística criada a partir dos discursos que convergem para os princípios da complexidade e, para esta pesquisa destacando trechos das falas sobre o ensino do cuidar em enfermagem.

Por questões éticas, optamos por colocar letras maiúsculas ao final dos segmentos aqui transcritos.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A partir da questão norteadora: Como você percebe o ensino do cuidar no curso de graduação em enfermagem, foram identificados três Sinalizadores Pedagógicos Complexos (SPC) que proporcionaram sentido ao significado de cuidar complexo: SPC1 - Ensino-aprendizagem para o cuidar complexo; SPC2 - Reconhecimento da complexidade do ser humano e, SPC3 - Conceito de cuidar complexo. Não houve diferença dos dados coletados entre o grupo de alunos e o grupo de recém-graduados. Neste sentido, optou-se por apresentar e discutir os resultados de forma conjunta.

No SPC1 - Ensino-aprendizagem para o cuidar complexo, os trechos selecionados representam a preocupação dos entrevistados em associarem e ligarem os saberes para o ensino do cuidar de forma predominantemente recursiva.

[...] o supervisor de estágio fala da importância de olhar, conversar com o paciente, pois podemos perceber o não verbal. Além dos cuidados de higiene, medicação, ele (paciente) precisa de carinho, atenção uma palavra ou simples segurar na mão (A).

[...] a visão do cuidar do primeiro ano até o quarto ano mudou completamente. Hoje converso com os pacientes e os deixo falar (B).

[...] uma queixa quanto ao ensino da parte teórica... deveria combinar a parte prática. A universidade deveria associar o teórico com o prático (C).

[...] em algumas matérias na graduação..., o cuidar foi abordado de maneira diferenciada, deixando de ser mecânico, sendo mais humanizado (D).

Diante do exposto, acreditamos que vivemos um momento oportuno para repensar a formação do enfermeiro. A ênfase no processo ensino-aprendizagem exige a execução das técnicas específicas, mas também o incentivo à participação dos alunos, a interação entre eles, o debate e o diálogo. Entendemos que a busca pela qualidade de vida passa pelo assistir-cuidar em saúde, pelo ensinar-aprender em educação; pelo assistir-aprender em saúde-educação, e pelo pesquisar nessas áreas do conhecimento(10).

Precisamos avançar na reforma do pensamento e; simultaneamente, a um ensino para o cuidar complexo oferecido na Graduação em Enfermagem. É necessário reduzir a influência do cartesianismo e dos pensamentos simplistas, para podermos privilegiar o conhecimento das partes e entre as partes no seu contexto. É pelo conhecimento da integração das partes ao todo, completado pelo reconhecimento do todo no interior das partes que chegaremos ao conhecimento do todo, o pensamento complexo(11). Historicamente, a Enfermagem sempre buscou este todo no processo de cuidar enquanto ensino e prática profissional: o cuidar biopsicossociocultural. A questão que se coloca é que o ensino também precisa focar, por exemplo, como disse a entrevistada:

[...] o supervisor de estágio fala da importância de olhar, conversar com o paciente, pois podemos perceber o não verbal. Além dos cuidados de higiene, medicação, ele (paciente) precisa de carinho, atenção uma palavra ou simples segurar na mão (A).

Este é um recorte que traduz um ensino caminhando para a complexidade, que reflete o pensamento complexo. Quantas vezes nos expressamos assim sem perceber, e isto é muito bom. O que se quer dizer também é que o aluno percebe que atua em consonância com uma realidade contextualizada e não exclusivamente linear.

O pensar complexo não afirma que tudo é complexo, sinônimo de não se pode compreender. Não é um pensamento da imprecisão, da incerteza - apesar de incluir a imprecisão e a incerteza. A sua finalidade é servir de base para construir conceitos e metodologias - utensílios de pensamento, reflexão e ação no mundo - para articular saberes especializados. Ele não forma uma teoria acabada, mas sim um equipamento conceitual em curso de elaboração(12).

Como o ser humano um ser complexo, é importante que a educação para o cuidar em enfermagem também caminhe nesta direção. Importante dizer que isto não significa, por si só, um raciocínio linear. O que deve ficar claro é que precisamos conhecer a humanidade, o mais próximo possível da realidade, para educar e educar-nos(11). A educação deve preparar cada indivíduo para compreender a si mesmo e ao outro, mediante um melhor conhecimento do mundo(13). A necessidade de que a educação deve resgatar a integralidade da condição humana fragmentada pela razão econômica e científica criada na modernidade é valorizada na literatura(11-13). Neste sentido, o papel da universidade, na qualidade de centro de pesquisa e criação do saber, pode ajudar a resolver os problemas da sociedade, principalmente porque as instituições de ensino estão bem colocadas para enriquecer o diálogo entre as pessoas, entre os povos e entre as culturas. A responsabilidade do professor não consiste, simplesmente, em transmitir informações, mas participar da construção do conhecimento contextualizado, sintonizado com a realidade da vida das pessoas e com o ambiente onde vivem(13).

Desta forma, compartilhamos com a necessidade de um ensino-aprendizagem para a prática e para a pesquisa científica sobre o cuidar complexo. Devemos buscar a construção pautada no contexto, no global e no complexo centrado na condição humana, conhecer e reconhecer-se em sua humanidade comum e na diversidade cultural inerente a tudo o que é humano(4).

No SPC2 - Reconhecimento da complexidade do ser humano, os entrevistados destacam a importância de conhecerem-se a si mesmos para o cuidar do outro. Resgatando a literatura encontramos que a complexidade do humano é reconhecer que ele é um fenômeno biológico, social, cultural, psíquico e mais que isso, é um conhecido-desconhecido que traz em si um conjunto de características antagônicas e bipolares(3). Ao mesmo tempo em que é sábio é louco; é prosaico e é poético; é trabalhador e lúdico. É simultaneamente empírico e imaginário e assim por diante. Vive de muitos jeitos e se apresenta de várias perspectivas. É unidade e dualidade; é multiplicidade, pluralidade, antagonismo, complementaridade e indissociabilidade; é corpo, mente, idéias, espírito, magia, afetividade. É um homo complexus(4).

Ainda, é importante compreender que o ser humano é um ser genérico, ou seja, uma pessoa que se define por pertencer a uma espécie humana, pelas características do pensamento, linguagem, personalidade(5). Na seqüência, os trechos transcritos refletem o reconhecimento do sentir, do pensar, do falar e do agir. Todos estão entrelaçados simultaneamente, dinamicamente. Eis segmentos de frases que demonstram este arranjo:

[...] a pessoa tem seu lado humano (E).

[...] a amplitude da pessoa como ser humano, as necessidades que ela tem como ser humano (C).

Os entrevistados percebem que tudo que buscam compreender faz parte de uma rede complexa de interações e reconhecem a importância de conhecerem-se a si mesmos para cuidar do outro, pois são ao mesmo tempo pessoas com características biológicas, psíquicas, sociais, espirituais, ou seja, seres complexos. O ser humano não é um ser só biológico, não é somente um corpo físico. É um todo complexo que interage consigo mesmo, com sua família e com a sociedade(5). Em novos trechos, temos:

[... ] ser humano é colocar-se no lugar do outro (G).

[...] cuidar é auto-avaliar. Quando você se olha para dentro de você mesma, entender o porquê estou aqui, né... cuidar de pessoas é uma grandeza... (H).

Dessa forma, destacamos que o cuidar sensível envolve múltiplas dimensões com o outro e consigo mesmo. A complexidade humana não deve ser compreendida dissociada dos elementos que a constituem.

Todo desenvolvimento verdadeiramente humano significa o desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana(4).

Compreender a complexidade hologramática do ser humano é vislumbrar que a parte está no todo e que o todo está na parte. Os entrevistados relatam este cuidar, à medida que reconhecem e refletem sobre a existência de um eu interior em si e nos clientes, verbalizando a complexidade hologramática do ser humano.

No SPC3 - Conceito de cuidar complexo é importante considerar que a história da civilização evidencia o cuidar sempre presente no processo de nascer, de viver, de adoecer e de morrer, mesmo antes do surgimento das profissões(1). O cuidado requer conhecimento de si e do outro ser e caracteriza-se pelo relacionamento em que ambos reagem e se relacionam como pessoas, de forma recursiva.

O cuidar, independentemente do pouco ou nenhum valor a ele atribuído, continuará sendo essencial para a sobrevivência das espécies, promoção da vida e preservação do planeta. O cuidar envolve verdadeiramente uma ação interativa, recursiva ligada ao comportamento e está calcado em valores e no conhecimento do ser que cuida para com o que é cuidado(1-2). Aplica-se aqui, também, o princípio hologramático, onde o cuidar significa compreender o humano. Envolve a ação de pensar e repensar o outro, respeitar suas crenças seus valores, seus direitos. É colocar-se no lugar do outro.

Vejamos agora os trechos que nos remetem ao conceito de cuidar complexo.

[...] cuidar é tudo. É a essência da enfermagem. É uma troca. Cuidar é uma coisa... [...] ...cuidar é essência. É um processo onde você vai receber e vai doar (G).

[...] cuidar é abrangente. É ver o ser humano em toda sua essência... (B).

[...] cuidar é assistir, olhando todos os ângulos e respeitando suas crenças, suas limitações, seus direitos, informando do que está acontecendo... (I).

O cuidar sempre esteve presente na história humana e com o advento da ciência, seu estudo e prática foram sendo incorporados no ensino superior de enfermagem. O cuidar é uma forma de viver e de se relacionar. Assim, o indivíduo vive para si e para o outro dialogicamente, hologramicamente, recursivamente. O outro significa, ao mesmo tempo, o semelhante e o dessemelhante; semelhante pelos traços humanos ou culturais comuns; dessemelhante pela singularidade individual(5); numa convivência compreensiva.

A compreensão do outro incorpora a compreensão objetiva, mas comporta, simultaneamente, elementos subjetivos. A compreensão complexa engloba explicação, é multidimensional e tende a expandir às diversas dimensões ou aspectos de cada pessoa(14). Isto é complexidade. Complexidade esta que deve fazer parte do universo acadêmico da Graduação em Enfermagem.

Assim, agregamos a Figura do Anel Tetralógico(15); colocando de uma forma gráfica o que já foi escrito, com a finalidade de proporcionar ao leitor uma visão espacial relacionada à importância da interação dos três SPCs para o cuidar complexo.

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Partimos do pressuposto que graduandos e recém-graduados realizam, de alguma forma, o cuidar complexo sem a clareza para tal, ou seja, sem a plena consciência de estarem praticando a complexidade no cuidar em enfermagem. Assim, buscamos na Complexidade e no Pensamento Complexo, suporte para refletir sobre o ensino do cuidar em enfermagem em um curso de graduação em enfermagem, considerando a essência da profissão e a época em que vivemos.

Analisamos as entrevistas a partir dos princípios do pensamento complexo. Compreendemos que o cuidar em enfermagem é uma atividade essencial na prática dos entrevistados, e que para cuidar é importante ver o todo; que no aprendizado teórico-prático há demanda para o cuidar complexo que se preocupa com outro, que busca compreender o outro. Consideram fundamental a prática do relacionamento interpessoal no ensino de graduação em enfermagem como essencial para alcançar o cuidar do todo e não somente das partes desse todo. Desse modo, defendemos que ao incorporarmos ao pensamento linear o pensamento complexo para o ensino do cuidar na graduação em enfermagem, exerceremos uma atividade mental que procura: interligar e compreender a rigidez do pensamento lógico pela flexibilidade do pensamento dialógico, capaz ao mesmo tempo de conceber noções complementares e antagônicas; completar o conhecimento da integração das partes em um todo, pelo reconhecimento da integração do todo no interior das partes.

É importante refletirmos que a Complexidade é um desafio que nos incita a pensar de uma forma não habitual, incluindo nesse pensar a ambigüidade, o antagonismo, a concorrência entre opostos que se completam, e ainda mais, de forma desafiadora. E isto não é, às vezes, nada confortável.

Devemos direcionar nosso olhar e nosso agir também para além do aparente, refletir sobre todo o exposto e que o ensino-educação na graduação em enfermagem propicie a qualificação de enfermeiros flexíveis e tolerantes, que promova seres humanos e cidadãos com mais saúde, com mais consciência de si e dos outros, com mais capacidade para compreender e amar, com mais potencialidades para o cuidar complexo em enfermagem.

Assim, pensar o ensino universitário na perspectiva da complexidade é construir um projeto pedagógico que crie condições para o diálogo. Ao se pensar o processo de ensino-aprendizagem a partir da complexidade, deve-se partir do pressuposto que nenhuma forma de se debruçar sobre um objeto de conhecimento - no nosso caso, Ensino Superior em Enfermagem e Cuidar - possui garantia de conhecimento pleno e definitivo sobre o mesmo. Por exemplo, um enfermeiro para compreender a realidade de uma pessoa doente, não basta apenas que domine os conhecimentos científicos e técnicos em Enfermagem. O humano está tecido junto com a sociedade, a doença tem uma causa imersa em um contexto complexo. Parte deste tecido é o portador da doença que já é um ser simbólico, poético, prosaico, lúdico, afetivo... Toda esta complexidade interage com a complexidade do meio, da cultura, das instituições sociais, da moral, da economia, da religião... Daí que, atualmente, o futuro enfermeiro necessita de interfaces com áreas do conhecimento, como política, meio ambiente, economia, química, física... Neste sentido, o Anel Tetralógico agrega os dados encontrados nesta pesquisa, ou seja, os três sinalizadores pedagógicos complexos, favorecendo uma dinamicidade do processo pedagógico. Enfim, é importante que projetos educativos devam ser pensados de forma coletiva e integrados. Os círculos fechados devem passar a ser círculos pontilhados, as idéias tidas como verdadeiras devem deixar de ser certezas para transformarem-se em convicções temporárias e passíveis de diálogo(16).

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Ana Lúcia da Silva
Rua Dr. Martins de Oliveira, 529 - Edifício Flamboyant - A 142 - Jd. Londrina
CEP 05638-030 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 25/11/2008
Aprovado: 28/09/2009

 

 

* Extraído da dissertação "O cuidar na Graduação em Enfermagem sob a perspectiva da Complexidade", Programa de Pós-Graduação em Ciências, Área de Concentração em Saúde Coletiva, Coordenadoria de Controle de Doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, 2005.

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