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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.1 São Paulo mar. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000100034 

ARTIGO ORIGINAL

 

Percepção de estudantes de enfermagem sobre o Laboratório de Enfermagem como estratégia de ensino

 

Percepción de estudiantes de enfermería sobre el Laboratorio de Enfermería como estrategia de enseñanza

 

 

Carla Cristiane Paz FelixI; Ana Cristina Mancussi e FaroII; Cristiane da Rocha Ferreira DiasIII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem na Saúde do Adulto e do Idoso. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. carlapaz@usp.br
IIEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Enfermagem Médico Cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. rafacris@usp.br
IIIEnfermeira. Graduada pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. cris_rfd@yahoo.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo tem por objetivo conhecer a percepção de estudantes de enfermagem quanto aos aspectos físicos, pedagógicos e humanos referentes ao laboratório de enfermagem no processo ensino-aprendizagem. Trata-se de um estudo quantitativo, transversal, não experimental. A pesquisa foi realizada com 85 alunos. Um total de 58,8% dos alunos avaliou a estrutura física como ruim ou regular; já a acomodação foi avaliada por 50,6% dos alunos como ruim e péssima. Quanto ao horário de funcionamento, 63,5% dos alunos avaliaram como bom ou ótimo. Os alunos avaliaram positivamente as enfermeiras especialistas em laboratório e as monitoras com 87,0% e 84,9% de bom ou ótimo, respectivamente. A maioria dos aspectos obteve conceito bom, exceto a infra-estrutura física. O aspecto melhor avaliado foi o recurso humano.

Descritores: Educação em enfermagem. Estudantes de enfermagem. Laboratórios. Aprendizagem.


RESUMEN

Conocer la percepción de estudiantes de enfermería en cuanto a los aspectos físicos, pedagógicos y humanos referentes al laboratorio de enfermería en el proceso enseñanza-aprendizaje. Se trata de un estudio cuantitativo, transversal, no experimental. La pesquisa fue realizada con 85 alumnos. En cuanto a la estructura física, el 58,8% de los alumnos la evaluó como mala o regular, las comodidades fueron malas o pésimas para 50,6% de los alumnos. Respecto al horario de funcionamiento, 63,5% de los alumnos lo evaluó como bueno u óptimo. Los alumnos evaluaron positivamente a las enfermeras especialistas en laboratorio y a las monitoras, con 87,0% y 84,9% para bueno y óptimo, respectivamente. La mayoría de los aspectos obtuvo buenos conceptos, excepto los relacionados con la infraestructura física. El aspecto mejor evaluado fue el recurso humano.

Descriptores: Educación en enfermería. Estudiantes de enfermería. Laboratorios. Aprendizaje.


 

 

INTRODUÇÃO

A enfermagem está e sempre estará intimamente ligada ao componente técnico-manual, enquanto responsável pelo cuidado com a saúde e com a manutenção da qualidade de vida do indivíduo, por esta razão a aquisição de habilidades psicomotoras é componente integrante da educação dos alunos de enfermagem(1). Essas habilidades compreendem desde as mais simples atividades até as mais complexas, as quais envolvem grande quantidade de movimentos coordenados e de alta precisão(2).

O ensino e a aprendizagem de habilidades psicomotoras pelos estudantes de graduação em enfermagem são realizados em sala de aula, campo clínico e no laboratório de procedimentos, onde os treinamentos prévios ao estágio no campo clínico e situações simuladas contribuem significativamente para a satisfação e segurança do estudante durante a sua formação profissiona(3).

O laboratório de enfermagem (LE) é uma sala ou um conjunto de salas que contém manequins, modelos anatômicos e equipamentos semelhantes aos das unidades hospitalares, porém sem ser uma cópia dessas unidades(3-5). Vários autores defendem seu uso como um importante recurso no processo de ensino e aprendizagem das habilidades psicomotoras, onde a situação simulada permite ao estudante errar e corrigir livre da responsabilidade e ansiedade trazidas pela presença do paciente(3-6).

Na Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (EEUSP) o ensino de conceitos e princípios científicos relacionados aos procedimentos básicos em enfermagem tinha início no segundo semestre do antigo currículo por meio de aulas expositivas e práticas realizadas no LE.

Com a nova proposta curricular, a partir de 2010, o eixo central do currículo passa a ser o cuidado de enfermagem em seus diferentes sentidos, significados e dimensões. Isso porque sabemos que, mesmo entre nós, nesta escola, não há um sentido unívoco para o que compreendemos como cuidado. A tentativa não é homogeneizar essas compreensões e concepções, mas as revelar, acreditando que é justamente na diversidade que reside a riqueza de possibilidades de construção do cuidado de enfermagem(7). Neste espaço de transição entre uma proposta e outra de currículo, ocorre concomitantemente uma reforma física e pedagógica do LE nesta mesma instituição. Assim, compreendemos que se faz necessária a avaliação relacionada ao ensino-aprendizagem que era desenvolvido no LE para ser coerente, impulsionar e congregar com o novo projeto político e pedagógico da instituição. Neste sentido nos questionamos sobre o que precisamos modificar no LE, como um espaço de ensino clínico, de simulação de procedimentos e de cuidados em enfermagem. Qual a percepção dos estudantes sobre o processo de ensino-aprendizagem no LE? Como os recursos humanos, físicos e pedagógicos estão possibilitando o desenvolvimento desse aprendizado?

O processo ensino-aprendizagem no LE tem por objetivo fazer com que o estudante aplique o conhecimento obtido e assimile outras habilidades necessárias para realizar as técnicas corretamente. De maneira geral, é realizada uma demonstração do procedimento com o objetivo de mostrar o material específico e a seqüência dos passos a serem executados. Logo após, no laboratório, o estudante executa a técnica, em caráter de simulação, com a finalidade de manusear o material e familiarizar-se com os passos. A seguir, nos campos de estágio, ele atua na assistência direta ao paciente, ou seja, em condições reais(6-8).

A enfermagem enquanto ciência, em seu aspecto teórico-prático, utiliza-se de mecanismos facilitadores para o exercício de suas atividades profissionais, as quais envolvem um grande número de movimentos precisos e que exigem prontidão, denominadas habilidades psicomotoras. A utilização das mãos com habilidade pelo enfermeiro representa uma das características mais valorizadas e requer competência na realização das tarefas(8).

A habilidade motora requer a aprendizagem e a coordenação voluntária do movimento do corpo e/ou dos membros para atingir as metas da tarefa. A capacidade motora constitui-se como o traço de qualidade de um indivíduo, relacionado com o desempenho de uma variedade de habilidades motoras. A autora ainda considera algumas variáveis no desempenho motor, as quais incluem a prontidão da pessoa, a ansiedade criada pela situação, as peculiaridades do ambiente e a fadiga(9).

Respostas emocionais como medo, insegurança, ansiedade, angústia, são constatadas mesmo em situações simuladas no laboratório de enfermagem, quando o aluno realiza repetições de procedimentos, principalmente invasivo, como administração de medicamentos por via parenteral(10).

Além do aspecto educacional, o treinamento prévio dos estudantes em laboratório é também eficaz sob o ponto de vista ético-legal, pois diminui o número de erros e, portanto, o risco do paciente, diante da inexperiência do estudante(11).

Diante do exposto, esse estudo tem como finalidades oferecer subsídios para a continuidade de investigações sobre o processo ensino-aprendizagem no LE e comparar o uso do LE no novo projeto político e pedagógico iniciado em 2010, bem como contribuir com tal processo na ampliação da interface relacional professor-estudante e na atualização do ensino-aprendizagem no que se refere à apreensão de habilidades psicomotoras por meio da simulação de procedimentos e de cuidados.

 

OBJETIVO

Conhecer a percepção de estudantes de enfermagem quanto aos aspectos físicos, pedagógicos e humanos referentes ao laboratório de enfermagem no processo ensino-aprendizagem.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo exploratório, descritivo, transversal, não experimental e quantitativo.

Universo de estudo

O estudo foi realizado com estudantes do Curso de Graduação em Enfermagem e que freqüentaram as aulas práticas das disciplinas abaixo citadas, no LE-EEUSP durante o ano de 2008. Na proposta curricular anterior à atual iniciada em 2010, os estudantes de graduação da EEUSP tinham aulas práticas em laboratório conforme o seguinte plano de disciplinas:

• 1º ano (2º semestre) - Fundamentação do Processo de Cuidar; Administração de Medicamentos;

• 2º e 3º anos (3º ao 6º semestres) - Enfermagem na Saúde do Adulto e do Idoso I, Enfermagem na Saúde do Adulto e do Idoso em Centro Cirúrgico, Enfermagem na Saúde da Mulher e Enfermagem na Saúde da Criança e do Adolescente.

• 4º ano - Enfermagem na Saúde do Adulto e do Idoso em Unidade de Terapia Intensiva.

Além das aulas incluídas nos cronogramas das disciplinas citadas, os estudantes podem procurar espontaneamente o laboratório para a prática dos procedimentos de quaisquer outras disciplinas, segundo seu interesse.

Caracterização da amostra

A amostra foi composta por alunos regularmente matriculados do 3º ao 7º semestres do Curso de Graduação em Enfermagem, num total de 227 estudantes. Os estudantes do 1º semestre foram excluídos porque não utilizaram o LE nesse período.

Procedimentos para a coleta de dados

A coleta de dados ocorreu no período de março a maio de 2008, pois os alunos estavam cursando disciplinas que utilizavam o LE como estratégia de ensino. As pesquisadoras informaram aos coordenadores das disciplinas sobre o estudo e fizeram apresentação sobre os objetivos da pesquisa para os estudantes de graduação, em sala de aula. Após explicação, foram entregues questionários a todos os alunos presentes.

Foram distribuídos 196 questionários aos alunos, sendo que 85 foram respondidos e devolvidos às pesquisadoras, representando 37,45% do total de alunos regularmente matriculados, 31 alunos não receberam o questionário porque não estavam presentes no momento da orientação e distribuição do questionário.

Os estudantes foram orientados a preencher o questionário fora do período de aulas. Uma das pesquisadoras retornou à sala de aula na semana seguinte ao da distribuição e recolheu os questionários dos participantes.

Para os interessados em participar do estudo e que não conseguiram fazê-lo na primeira data agendada, foi fornecida mais uma data para devolução do questionário.

Para a realização da coleta de dados foi utilizado um questionário composto por três partes, sendo:

Parte 1 - Caracterização dos estudantes, incluindo as variáveis: idade, sexo, semestre de graduação, profissional da área da saúde, outra graduação, disciplinas em que participou de aulas práticas no LE, pois algumas disciplinas tinham como obrigatório o uso do LE;

Parte 2 - Percepção dos estudantes quanto ao uso do LE no que se refere aos recursos humanos (especialistas em laboratório, docentes e monitores da graduação), recursos didáticos (textos de apoio, Col, multimedia, check-list), estrutura física, materiais e equipamentos, acomodação e distribuição dos estudantes, disponibilidade para reforços, horário de funcionamento, duração e organização das aulas;

Parte 3 - Críticas e sugestões relacionadas às estratégias de ensino desenvolvidas no LE.

Procedimentos éticos para a realização da pesquisa

O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo (CEP-EEUSP nº 683/2007) e em sala de aula foi distribuído o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) para todos os estudantes, esclarecendo dúvidas sobre o mesmo sempre que necessário.

Tratamento e análise dos dados

Os dados coletados foram inseridos em um banco de dados construído no Statistical Package for Social Sciences (SPSS)® versão 10,0 para Windows®, para análise de um profissional de estatística.

As respostas dos estudantes foram agrupadas em categorias, tratadas estatisticamente, e apresentadas em gráficos e tabelas, ou descritivamente, segundo os níveis de mensuração das variáveis. Os resultados foram avaliados em comparação com estudos similares descritos na literatura.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Participaram do estudo 85 estudantes matriculados no Curso de Graduação em Enfermagem, sendo 28 (32,94%) pertencentes ao 2º ano, 16 (20,01) ao 3º ano e 40 (47,05%) alunos do 4º ano, de um total de 75, 82 e 70 alunos regularmente matriculados no ano de 2008, respectivamente. Os dados serão apresentados a seguir em forma descritiva, tabelas ou gráficos.

Os dados referentes à caracterização dos estudantes com relação ao gênero revelam que a maioria dos alunos avaliados era do sexo feminino (89,4%). Este foi um dado relatado em várias pesquisas, envolvendo o processo de ensino-aprendizagem com alunos de graduação em enfermagem. O gênero feminino foi predominante na composição desses estudos, representando mais de 85,0% da amostra(5-6,12-13).

Com relação à idade dos estudantes, variou entre 19 e 30 anos com predominância de estudantes com idade entre 19 e 24 anos (84,7%). Os dados revelam o esperado aumento progressivo de idade com o avanço nos anos do curso. Outros autores que realizaram estudos sobre ensino-aprendizagem na área de enfermagem, também, verificaram predomínio da faixa etária entre 19 e 22 anos (6,14-16). Estes autores estudaram diferentes habilidades psicomotoras desenvolvidas por estudantes de cursos de graduação em enfermagem e constataram que os alunos haviam atingido padrão considerado bom para o desenvolvimento de suas capacidades motoras(17).

Para um estudo(19); nesta faixa etária, os adultos jovens são considerados pessoas maduras, pois por meio de uma prática intensiva eles poderão garantir uma eficiente e duradoura aprendizagem.

Podemos verificar na Tabela 1 que com relação à estrutura física, a maioria dos alunos avaliou como ruim ou regular (58,8%). Acreditamos que isto se deve ao fato do espaço físico do LE ter uma estrutura física reduzida, com apenas dois leitos, o que impossibilita que vários alunos o utilizem ao mesmo tempo. Do ponto de vista pedagógico, seriam viáveis grupos com no máximo 15 alunos por leito. No entanto, neste espaço atual há somente dois leitos de adultos e as turmas de estudantes neste currículo são compostas por 40 ou 80 alunos a serem distribuídos para as práticas no LE.

 

 

Com relação à acomodação (50,6%) dos alunos disseram que eram ruim ou péssimo e 36,5% avaliaram como regular. Este dado foi também relatado em estudo anterior realizado no mesmo laboratório, na década de 90, onde (48,0%) dos alunos declararam que as condições do laboratório com relação às suas acomodações, tais como, espaço físico reduzido e insuficiência de recursos materiais, desestimulavam a sua freqüência espontânea no referido local(16). Ressaltamos que o espaço físico destinado ao laboratório era o mesmo entre a década de 90 e a atual, apenas com a modernização de mobiliários e outros recursos mais específicos.

Os alunos avaliaram como bom ou ótimo o horário de funcionamento (63,5%), e a disponibilidade para reforços ou repetições de procedimentos (61,2%). Em estudo realizado em laboratório de enfermagem relacionado à disciplina Enfermagem em centro cirúrgico, os estudantes relataram que (35,7%) não retornaram espontaneamente ao laboratório pela indisponibilidade do mesmo(13).

Sobre os recursos humanos do LE os alunos avaliaram este item de forma positiva, pois as enfermeiras especialistas em laboratório receberam de 87,0% dos estudantes o conceito bom ou ótimo e as monitoras também foram avaliadas com os mesmos conceitos por 84,9% dos estudantes.

A enfermeira, Especialista em Laboratório, é um recurso humano relativamente recente na universidade, cuja função principal é o apoio ao desenvolvimento do ensino de graduação. Nestas disciplinas, auxilia o docente no acompanhamento do estudante em aulas práticas, no Laboratório de Enfermagem, antes de ir ao campo de estágio e na coordenação das disciplinas, executando atividades como a elaboração de modelos auto-instrucionais, uso de ferramentas como CoL e Moodle para o processo ensino-aprendizagem, dentre outros. As enfermeiras estão distribuídas nos quatro Departamentos da EEUSP e desenvolvem atividades específicas do Departamento ao qual estão lotadas. São ainda responsáveis por toda a parte administrativa do LE como previsão e provisão de materiais e equipamentos necessários ao desenvolvimento do ensino, além da logística do laboratório, pelas estratégias de ensino realizadas neste local. Esta é uma função relativamente nova na EEUSP, pois a primeira das especialistas fora contratada há cerca de oito anos.

De acordo com os resultados obtidos, a avaliação deste profissional foi satisfatória pelo empenho voltado ao desenvolvimento de novas estratégias de ensino, com melhor aproveitamento dos estudantes, bem como pela disponibilidade para atendimento aos estudantes em períodos organizados e prolongados durante não somente o desenrolar das disciplinas, mas do curso de graduação. São profissionais continuamente atualizadas nas melhores práticas executadas nos campos de estágio freqüentados pelos alunos.

Neste estudo 64,7% dos alunos declararam que usam o Laboratório de Enfermagem para reforço de aprendizagem sobre procedimentos de enfermagem e 32,9% não utilizam esta estratégia, sendo a maioria, 30,6% por demanda espontânea. Ainda 22,4% fazem reforço por indicação do professor ou pelo especialista em laboratório. Em pesquisa realizada durante as aulas em laboratório da disciplina Enfermagem em centro cirúrgico, as autoras relataram que 76,5% dos alunos retornaram ao laboratório para realizar reforço das técnicas demonstradas(9). Em outro estudo 85,7% retornaram ao LE durante o período de aprendizagem prática(12).

A percepção dos estudantes sobre os aspectos físicos, pedagógicos e humanos reitera resultados verificados na literatura no sentido do descompasso da formação universitária no Brasil. Na Educação se faz cada vez mais necessário enfrentar os desafios impostos pelas transformações de saberes, em conjunturas cada vez mais complexas(20).

Segundo estas mesmas autoras a atual arquitetura curricular da educação superior no Brasil configura-se em uma concepção fragmentada do conhecimento, alienada da complexidade dos problemas da natureza, da sociedade. Mais especificamente, o ensino de graduação na área da saúde, tal como exercido na grande maioria das instituições, tem apresentado poucos indicativos de uma orientação integradora entre ensino, trabalho e cidadania. Na formação de profissionais de saúde/enfermagem destacam-se alguns princípios e dentre eles a valorização da teoria e a prática e o desenvolvimento de habilidades para a produção de conhecimento próprio, inovador, assegurando uma assistência de qualidade(20).

A prática docente humanizada é profundamente formadora e ética(21). A nossa ação pedagógica, como prática social, visa compreender que o educando tem características próprias, tanto psicobiológicas, como intelectuais e emocionais e que devemos favorecer o seu crescimento e afirmação em sua plenitude, passo fundamental para uma ação humanizada em sua prática profissional(10-22). Um gesto do professor pode levar à autoconfiança ou insegurança do estudante, e na formação docente não devemos nos preocupar apenas com a repetição mecânica do gesto, mas também compreender o valor dos sentimentos, quando substituímos a insegurança e o medo pela segurança e a coragem(21).

Na universidade houve empenho para a contratação de Especialistas em laboratório para o estabelecimento de parceria docente-especialista no desenvolver do ensino prático, bem como para a alocação, em alguns casos, destas profissionais nos campos de ensino teórico-prático, favorecendo e preparando o campo para o ensino e integração da academia aos cenários de prática.

O processo de formação profissional em saúde, mais especificamente em enfermagem, requer o desenvolvimento de ações acadêmicas, multi e interdisciplinares, com base humanista, ética e com capacidade crítica na perspectiva da integralidade do cuidado, o que pressupõe a formação de profissionais capazes de enfrentar os problemas complexos que se apresentam na sociedade contemporânea, mais especificamente na área de saúde(20).

O processo ensino-aprendizagem universitário envolve o professor, que é simultaneamente um pesquisador, que se caracteriza pela alta produção de pesquisa, e também alguém que está envolvido nas atividades de extensão. Na Universidade, ensino, pesquisa e extensão constituem o tripé do trabalho docente. Do outro lado, temos o estudante(7).

Atualmente, é na relação entre professor, estudante e especialista em laboratório que se desenvolve o ensino-aprendizagem, sendo por meio de objetivos, métodos e novos instrumentos e formatos de avaliação, coerentes com a formação inicial do enfermeiro, ou seja, aos quatro primeiros anos de graduação e daí para a consolidação da vida profissional ao longo de pelo menos trinta anos de trabalho(7,9,10,20).

A proposta atual de currículo está constituída em três ciclos, ou seja, o ciclo inicial voltado para a identificação das necessidades de saúde da população, o ciclo intermediário, para a implementação das respostas às necessidades de cuidado e para o gerenciamento do cuidado. No ciclo complementar há um aprofundamento do cuidado e do gerenciamento. Em ambos os ciclos a idéia é intensificar as atividades práticas de modo a manter o contato com o mundo do trabalho(7).

Assim, a necessidade de ensino teórico e prático em laboratório de enfermagem se faz necessária e pressupõe atualização e adequação deste espaço de ensino inserido na nova proposta curricular na EEUSP.

A aprendizagem se efetiva pela memorização visual e mecânica associada à construção de conhecimento de forma individualizada numa atitude de criação e recriação, numa autoformatação para a transformação da realidade(10).

O laboratório de enfermagem se configura como um espaço essencial para o aprendizado do estudante sobre os procedimentos de enfermagem e cuidados, que, certamente refletirá no desempenho de outras disciplinas e na vida profissional.

Diante dos resultados obtidos, expressamos a importância da utilização do laboratório de enfermagem nas demonstrações de procedimentos em situações simuladas, contribuindo para o desenvolvimento de habilidades psicomotoras antes do contato inicial com o cliente em situação real.

 

CONCLUSÃO

Conforme os dados obtidos neste estudo e também pelo contexto onde se desenvolveu o presente estudo, podemos afirmar que a percepção dos estudantes do Curso de Graduação em Enfermagem sobre o processo ensino-aprendizagem e o uso do LE apontou para uma estrutura física ruim ou regular, de acordo com 58,8% das respostas obtidas. Uma mudança na estrutura física, inclusive de prédio, está, neste momento, em andamento, o que reflete o compromisso do ensino e da pesquisa nesta instituição.

Quanto ao horário de funcionamento do LE, normalmente, entre 7 e 18 horas, a maioria dos estudantes (63,5%) considerou bom ou ótimo. O horário de funcionamento varia conforme a época do ano e disciplinas que estão sendo ministradas, ou seja, o período da manhã é comumente utilizado para as aulas regulares e o período da tarde para algumas aulas e principalmente para os reforços, ou procura espontânea.

As enfermeiras especialistas em laboratório, que no ano da pesquisa eram cinco, lotadas em um dos quatro departamentos da unidade e atuantes nas disciplinas anteriormente citadas neste trabalho, desenvolviam atividades de apoio e relacionadas ao ensino de graduação. Na avaliação dos estudantes (87,0%) o conceito foi entre bom e muito bom. O mesmo resultado foi obtido na avaliação pelos estudantes (84,9%) dos monitores de graduação, em número de dois e supervisionados pelas especialistas.

Ainda, 67,4% dos estudantes declararam ter retornado ao LE para realizar reforços, sendo que 30,6% destes o fizeram espontaneamente, havendo para tanto um agendamento onde se registra o nome do estudante, a disciplina em curso, o procedimento a ser estudado e praticado e o docente responsável pela mesma.

Recursos pedagógicos como Col, Moodle foram avaliados satisfatoriamente, por 40% das respostas dos alunos, como bom. Outros recursos como slides, textos básicos e complementares às aulas, chek-list dos procedimentos obtiveram bom no conceito dos estudantes que participaram desta avaliação.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Aprender e ensinar no laboratório de Enfermagem envolve o dinamismo entre os recursos humano, material e físico. A disponibilidade e motivação do recurso humano envolvido neste processo, segundo a percepção dos estudantes é positiva, porém limitada pelo recurso físico e material.

É da interação entre o humano, físico e material com o estudante, que se dá o processo ensino-aprendizagem.

O laboratório de Enfermagem tem em seu locus a possibilidade de sucessivas aproximações com o cuidado de enfermagem e por isto precisa ser pensado e planejado para atender às demandas relacionadas à atualização contínua sobre cuidados em Enfermagem.

Esse estudo nos levou a refletir sobre o papel do professor, bem como da especialista em laboratório para o desenvolvimento de um ensino de qualidade nessa etapa inicial da formação do enfermeiro.

Acreditamos que o laboratório de enfermagem seja um recurso indispensável no processo ensino-aprendizagem. Isto requer avaliação contínua desse recurso, para fortalecê-lo com um espaço visível e bem estruturado na formação inicial do estudante.

 

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Correspondência:
Ana Cristina Mancussi e Faro
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido:17/09/2009
Aprovado: 25/07/2010