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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.4 São Paulo Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000400001 

EDITORIAL

 

O tsunami, a solidariedade e a construção social do conhecimento em enfermagem

 

 

Emiko Yoshikawa EgryI

IProfessora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Diretora do Centro de Pesquisa em Enfermagem da Associação Brasileira de Enfermagem - CEPEN/ABEn, Gestão 2010-2013. Editora Científica da REEUSP. São Paulo, SP, Brasil. emiyegry@usp.br

 

 

No dia onze de março deste ano, o mundo assistiu, atônito, a eventos naturais dos mais devastadores de que se tem notícia: o terremoto em escala altíssima, seguido por um tsunami devastador, que arrasou cidades inteiras do noroeste do Japão. O que se seguiu foi motivo de muita apreensão, pois as usinas atômicas da região haviam sido danificadas também, trazendo mais sofrimento ao povo que havia perdido muitos dos seus entes e quase todos os seus pertences.

O que mais chamou atenção da comunidade internacional, além da imensidão da catástrofe e da pequenez do ser humano diante da força da natureza, foi a solidariedade que os sobreviventes demonstraram em relação aos outros.

Monja Coen, que foi educada no ofício no Japão, escreveu acerca disto com propriedade, e a mensagem foi lida num dos eventos promovidos em São Paulo, Capital, pelos nikeis brasileiros, com a finalidade de apoiar as vitimas. Nessa mensagem ela dizia, entre outras coisas, que Quando temos humildade e respeito, pensamos nos outros, nos seus sentimentos e necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas. O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

A solidariedade, o respeito, a socialidade, a fraternidade, a compaixão e a paciência que sobrepujaram o sofrimento, a tristeza, a incerteza e a privação, me tocaram profundamente, e me fizeram pensar como estes atributos propriamente humanos poderiam também ser valorizados e mantidos em outras situações da vida, por exemplo, ao enfrentarmos, nós os pesquisadores da Enfermagem as vicissitudes de um mundo altamente competitivo e desigual que é o da produção científica. Hoje, com o ranqueamento dos periódicos, os resultados são muito exigidos, não importando os processos; vale mais a quantidade do que a densidade e a profundidade que fazem a qualidade das publicações; valorizam mais a liderança que desponta aos surtos do que os que trabalham contínua e incessantemente com seus pares. O que tem menor valor é seguir caminhos nem sempre fáceis e rápidos, mas que buscam de verdade compreender a natureza e a razão de se fazer a produção do conhecimento em Enfermagem, erroneamente restrito à pesquisa em enfermagem.

Não tenho dúvida alguma sobre estes dois aspectos: a natureza e a razão. A primeira, é a busca incessante para compreender, e ao mesmo tempo possibilitar aprimorar o recorte do objeto à luz de teorias, desenvolver nossos instrumentos dos processos de trabalho, quer assistencial, gerencial ou educacional, e sua finalidade precípua de buscar respostas aos problemas que são reais, que podem melhorar a qualidade de vida e saúde da população dos territórios, tão desigualmente distribuídos em termos de condições objetivas de reprodução e produção social. Podemos (e devemos), também, olhar de perto e equacionar as profundas desigualdades entre os trabalhadores de enfermagem e entre as categorias profissionais. A segunda - a razão - tem a ver com as necessidades intrínsecas de aperfeiçoamento e aprofundamento teórico, que nas ciências da enfermagem - sim, no plural, pois há várias maneiras de se fazer ciência, com diferenças epistemológicas e paradigmáticas importantes e não miscíveis - a par de outras maneiras de se buscar o conhecimento e, nesse caso, talvez na Enfermagem, as ciências operem em consonâncias com a arte, matéria pouco aproximada pelos pesquisadores e pelos filósofos da enfermagem brasileira.

No Brasil, como em muitas partes do mundo, a enfermagem é feminina e, por conta disto, carrega uma episteme singular, além de ter práticas singulares nos processos de trabalho e nas dimensões ético-políticas, que fazem com que o ser humano mobilize as demais dimensões das competências profissionais: o saber-saber e o saber-fazer.

Produzir o conhecimento, portanto, é um ato político, tanto quanto foi o dos sobreviventes do tsunami: enseja a explicitação dos desejos e das vontades, canalizados para a construção da cidadania solidária e digna. Não há cidadania e dignidade na produção de conhecimento, diria em qualquer área, mas me fixo na Enfermagem, sem o correspondente valor de solidariedade, autonomia, emancipação e liberdade: não do ser individual, mas do ser que coletiva e socialmente produz a vida, o trabalho, a saúde e a pesquisa, dentre tantas que vive a humanidade.