SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.45 issue4Family Health Nurse in the Amazon: concepts and management of themes regarding alcohol useDevelopment of educational hypermedia to teach an arterial blood pressure measurement procedure author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Services on Demand

Article

Indicators

Related links

  • Have no similar articlesSimilars in SciELO

Share


Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.4 São Paulo Aug. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000400020 

ARTIGO ORIGINAL

 

Perfil de estudantes ingressantes em licenciatura: Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo

 

Perfil de estudiantes ingresantes en licenciatura: Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto, de la Universidad de São Paulo

 

 

Adriana Katia CorrêaI; Maria Conceição Bernardo de Mello e SouzaII; Ronildo Alves dos SantosIII; Maria José ClapisIV; Nilton César GranvileV

IProfessor Doutor do Departamento de Enfermagem Geral e Especializada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. adricor@eerp.usp.br
IIProfessor Doutor do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. consouza@eerp.usp.br
IIIProfessor Doutor do Departamento de Enfermagem Psiquiátrica e Ciências Humanas da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. ronildo@eerp.usp.br
IVProfessor Associado do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. maclapis@eerp.usp.br
VGraduando do Curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Bolsista do Projeto Ensinar com Pesquisa da Pró-Reitoria de Graduação da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil.

Correspondência:

 

 


RESUMO

Este artigo tem como objetivo descrever o perfil dos ingressantes da primeira turma do Curso de Licenciatura em Enfermagem da EERP/USP, no ano de 2006, quanto a sexo, idade, estado civil, identidade escolar (ensino fundamental e médio) e vínculo empregatício, destacando suas implicações para o processo ensino-aprendizagem. Estudo de natureza descritivo-exploratória que utiliza questionário como técnica de coleta de dados. Os resultados serão apresentados de modo descritivo, com freqüência absoluta e percentual. A faixa etária dos estudantes é diversa, variando de 19 a 46 anos. A maioria (67,5%) é proveniente de escola pública (ensino médio), havendo 42% de trabalhadores, sendo que 67% desses já atuam na área da saúde. Esses dados podem trazer implicações para a prática pedagógica do professor.

Descritores: Bacharelato em enfermagem; Estudantes de enfermagem; Educação em enfermagem


RESUMEN

Se objetiva describir el perfil de ingresantes en cuanto a sexo, edad, estado civil, identidad escolar (enseñanza primaria y secundaria) y vínculo laboral del primer grupo del Curso de Licenciatura en Enfermería de la EERP/USP, en 2006, destacando sus implicaciones para el proceso de enseñanza-aprendizaje. Estudio de naturaleza descriptiva-exploratoria, que utiliza cuestionario como técnica de recolección de datos. Los resultados serán presentados de modo descriptivo, con frecuencia absoluta y porcentual. La faja etaria de estudiantes es diversa, variando entre 19 y 46 años, la mayoría (46%) proviene de escuela pública (enseñanza secundaria), existiendo 42 personas con vínculo laboral, actuando el 67% de ellos en el área de la salud. Estos datos podrían traer implicancias para la práctica pedagógica del profesor.

Descriptores: Bachillerato en enfermería; Estudiantes de enfermería; Educación en enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

Envolvidos com o Curso de Licenciatura em Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto ' Universidade de São Paulo (EERP-USP) ' deparamo-nos com os desafios de sermos professores e aluno de um novo curso de graduação que apresenta algumas características peculiares: a) formar enfermeiros licenciados que atuem nos cenários dos serviços de saúde, nos distintos níveis de atenção, bem como na educação básica e na docência em educação profissional, ou seja, articulando a formação generalista em enfermagem e o campo de saber da educação; b) ser ministrado em período vespertino/noturno; c) ter projeto pedagógico fundamentado na pedagogia crítica; d) valorizar a formação específica para a docência em um contexto universitário predominantemente dirigido à realização de pesquisa, sendo um desafio articular a prática de investigação com a qualificação do ensino de graduação.

Um ponto essencial que pode auxiliar na organização e acompanhamento da implementação do curso de Licenciatura em Enfermagem da EERP/USP refere-se ao conhecimento sobre os estudantes como um dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendizagem: Quem é o aluno que ingressa neste curso? Qual é seu contexto de vida socioeconômico, educacional e profissional?

Compreendemos que as respostas a esses questionamentos poderão ser valiosas, considerando que a proposta pedagógica do curso de Licenciatura em Enfermagem reconhece o importante papel do estudante como sujeito ativo do processo ensino-aprendizagem, cujas experiências e saberes prévios precisam ser considerados e ressignificados, na construção de saberes teórico-práticos dos campos da saúde e educação que ao conformar-se permitem a leitura crítica e a ação efetiva na realidade. A construção desses saberes está alicerçada em abordagem pedagógica crítica que dá ênfase à dimensão política da prática educativa.

A perspectiva pedagógica crítica precisa ser concretizada em modos de operar o processo ensino-aprendizagem, envolvendo a seleção dos conteúdos de ensino, a relação professor-estudante, os métodos de ensino, distintos da abordagem tradicional. Assim, a prática como ponto de partida para a aprendizagem, as relações democráticas entre educador-educando e métodos de ensino ativos, nos quais o papel do estudante é de co-participante do processo de construir conhecimentos, são considerados aspectos essenciais. Nesse sentido, são valorizadas as vivências como base da ação educativa e a idéia autogestão pedagógica, com ênfase no processo de aprendizagem grupal(1).

 

O CURSO DE LICENCIATURA EM ENFERMAGEM DA EERP/USP

A EERP-USP ofereceu, de 1994 a 2002, um curso de licenciatura concebido como processo de formação optativo e extensivo ao bacharelado em enfermagem que, após avaliação interna feita pelos docentes e considerando as mudanças na legislação nacional de educação, foi substituído pelo curso Licenciatura em Enfermagem, iniciado em 2006, no período vespertino/noturno, com 50 vagas. Tal substituição, como ressaltamos, veio também atender às novas diretrizes para a formação de professores apontadas a partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional(2).

A EERP-USP voltou-se, em 2002, para a construção de um novo projeto para a licenciatura em enfermagem, o que veio também ao encontro do momento político da Universidade voltado à discussão acerca da ampliação de vagas, principalmente para cursos noturnos, no sentido de atender a uma demanda, envolvendo o compromisso social da universidade pública. Nesse contexto, entendemos que a Licenciatura em Enfermagem não deve ser considerada uma modalidade extensiva ao bacharelado, mas curso de graduação com entrada, gestão e projeto político- pedagógico específicos, integrando a formação do enfermeiro generalista com a formação em educação - Licenciatura Plena. Ressaltamos que enquanto o projeto político pedagógico para a licenciatura era construído pela EERP/USP, aconteciam mudanças curriculares no curso de bacharelado em enfermagem, fundamentadas no ensino por competência, na perspectiva dialógica, no currículo integrado e na pedagogia crítico-reflexiva. Tais mudanças propostas nesse momento influenciaram significativamente o projeto da licenciatura(3).

O referencial da competência, na perspectiva dialógica, supõe a articulação do ensino em enfermagem ao mundo do trabalho (saúde e educação), cenário cotidiano no qual o estudante constrói a sua prática profissional, desenvolvendo atributos (conhecimentos, habilidades e atitudes) enquanto ele se depara com situações reais complexas e diversas. O desenvolvimento desses atributos supõe permanente processo reflexivo sobre a prática profissional, vista como realidade social construída que pode ser transformada pelos sujeitos nela inseridos. A construção desse processo exige a adoção de um referencial metodológico na abordagem crítica que valorize a problematização da realidade, a autonomia do estudante e o professor como facilitador no processo de aprendizagem significativa.

Há três abordagens conceituais acerca da competência: uma delas enfoca a competência como atributo pessoal, outra a relaciona aos resultados obtidos (tarefas realizadas) e, ainda, outra abordagem, a dialógica, combina atributos pessoais para a realização das ações, em contextos específicos, na busca de atingir determinados resultados(4). Nesta última abordagem, na qual se fundamenta o projeto pedagógico do curso de licenciatura da EERP/USP, os atributos pessoais são colocados em relação com distintas construções sociais que os legitimam de acordo com a história da sociedade em épocas distintas. Essa autora ainda refere que a competência não é observada diretamente, mas pode ser inferida pelo desempenho. Agrupamentos de desempenho configuram áreas de competência que se complementam. Assim, ao longo do curso de licenciatura, o estudante desenvolverá competência em relação às seguintes áreas: cuidado individual, cuidado coletivo, gestão e educação.

Para se construir de maneira articulada conhecimentos, habilidades e atitudes, em uma perspectiva teórico-prática, e para desenvolver ações que considerem a complexidade do processo saúde-doença-cuidado e da educação, faz-se necessária à articulação de saberes das áreas biológica e humana, o que se torna possível em um currículo integrado considerado fundamental para a formação generalista, pois, permite ampliar a possibilidade de compreensão do estudante sobre o cotidiano, em saúde e educação, em suas múltiplas facetas: biológica, psicológica, social, política e ética, construindo um aprendizado de leitura e ação críticas e compromissadas com a realidade social. Isso supõe o reconhecimento da complexidade dessa realidade.

Acrescentamos, ainda, que o currículo disciplinar não contempla essa perspectiva de formação integrada, todavia é ainda hegemônico na formação em saúde, organizando-se em disciplinas isoladas que se justapõem, sendo classificadas em disciplinas científicas, contidas no ciclo básico, e disciplinas aplicadas, pertencentes ao ciclo profissional. Além disso, inicialmente, os cursos enfocam as teorias gerais das ciências para, posteriormente, serem enfocadas as situações práticas, sendo esperado que os estudantes, nessas situações, apliquem os conhecimentos adquiridos(5).

A partir do exposto, adotar os referenciais teóricos do curso de licenciatura implica em ultrapassar o modelo funcionalista de compreender competência, a organização disciplinar do conhecimento e o enfoque tradicional do processo ensino-aprendizagem centrado na transmissão de conhecimentos previamente definidos, sem articulação teórico-prática efetiva. A busca de novos referenciais e modos de operar o processo ensino-aprendizagem é significativa, considerando a intenção de formar docentes enfermeiros que atuem na educação básica e educação profissional.

 

OBJETIVO

O objetivo é descrever o perfil dos ingressantes quanto a sexo, idade, estado civil, identidade escolar (ensino fundamental e médio) e vínculo empregatício da primeira turma do Curso de Licenciatura em Enfermagem da EERP/USP, no ano de 2006, destacando suas implicações para o processo ensino-aprendizagem.

 

MÉTODO

Estudo de natureza exploratória descritiva que utiliza o questionário como técnica de coleta de dados, composto por perguntas fechadas e abertas, contendo dados de identificação pessoal, profissional, escolar e cultural. A construção deste questionário fundamentou-se nos instrumentos utilizados para traçar o perfil de calouros da USP-RP, em 2006, e nos questionários de pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística(6). Este questionário foi aplicado a todos os ingressantes do curso de Licenciatura em Enfermagem, em 2006.

A liberdade de participação foi preservada, evitando possível constrangimento, garantindo, assim, a participação voluntária e sigilosa dos estudantes. No momento da coleta de dados, foram apresentados, inicialmente, o objetivo e as contribuições deste estudo, bem como o termo de consentimento livre e esclarecido, que foi assinado por cada sujeito. Cabe ressaltar que o instrumento de coleta de dados foi previamente testado com estudantes do Curso de Bacharelado em Enfermagem da EERP-USP, bem como a coleta somente foi iniciada após aprovação deste projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da EERP-USP (Protocolo nº0730/2006). Os dados obtidos a partir das questões fechadas serão apresentados de modo descritivo, em freqüências absoluta e percentual.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Do total de 50 ingressantes no curso de licenciatura em enfermagem, 43 responderam o questionário. Em relação ao sexo, a maioria, 30 estudantes (70%) é do sexo feminino e 13 (30%) é do sexo masculino, com idade entre 18 e 46 anos. Ainda em relação à idade, a maioria, 29 estudantes (67,4%) encontra-se na faixa etária de 19 a 25 anos, 12 (27,9%) entre 26 e 46 anos, um (2,3%) informou ter 18 anos e um estudante não respondeu sobre sua idade. A grande maioria, 35 alunos, é solteira (81,5%), sete são casados (16%) e um (2,5%) é desquitado.

Outros estudos sobre perfil de alunos de enfermagem também mostram que a maioria é mulher. Em pesquisa, realizada em 1987, em duas escolas, uma pública e outra privada, da cidade de São Paulo, 98,04% dos estudantes participantes eram mulheres(7). Em outra pesquisa cujo objetivo foi descrever o perfil de alunos de enfermagem de escolas pública e privada de Minas Gerais, em 1995, 88% dos participantes eram mulheres(8). Em uma escola particular da cidade de São Paulo, em 2004, 92% dos alunos que responderam à coleta de dados também eram mulheres(9).

Em trabalho realizado em 2005, para comparar perfil sócio-econômico e fatores que interferem na opção pela enfermagem, em duas instituições de ensino do município do Rio de Janeiro (uma pública e outra privada), em ambas as instituições, respectivamente 85,5% e 89,1% dos alunos participantes foram mulheres(10).

Assim, esses estudos, realizados em locais diferentes, anos diversos e em escolas públicas e privadas, mostram um dado já bastante conhecido que é a predominância de mulheres na graduação em enfermagem, tendo em vista a constituição histórico-social da profissão. Apesar da maioria dos estudantes deste estudo ser mulher, se compararmos os dados nele obtidos (70% de mulheres e 30% de homens) com os dados desses outros estudos, constatamos um número maior de ingressantes do sexo masculino no curso de licenciatura da EERP/USP, no ano de 2006.

No Campus USP Ribeirão Preto onde se insere a EERP, no ano de 2006, os cursos nos quais houve maior ingresso de mulheres foram fonoaudiologia (100%), nutrição e metabolismo (100%), terapia ocupacional (93%), bacharelado em enfermagem (91%), pedagogia (81%), licenciatura em enfermagem (76%) e psicologia (72%)(11). Esses dados indicam que há muitos outros cursos com predomínio significativo de mulheres e que o número de mulheres que ingressaram neste ano no bacharelado e licenciatura em enfermagem é bem distinto.

Quanto à idade de ingresso, a faixa de idade na qual freqüentemente os indivíduos se inserem na universidade é considerada entre 18 e 24 anos(12). Outro estudo na área da enfermagem indica que a idade predominante dos estudantes é de 20-22 anos(7). Outros trabalhos mostram mudanças no perfil do estudante de uma escola pública da cidade de São Paulo, sendo percebido um decréscimo na idade dos alunos, ao serem comparados dados coletados de 1973 a 1982 com dados de 1988, prevalecendo à faixa etária de 20-21(13).

Trabalhos mais recentes mostram que o perfil de alunos tem se modificado quanto à idade, que a maioria dos alunos de estudo, realizado em instituição particular em 2006, tem entre 21 e 30 anos (64%)(9); 48% dos jovens participantes do estudo realizado em 2008 têm idade entre 17-19 anos, seguidos de 36% na faixa de 20-22 anos na escola pública, enquanto que na escola privada 40% têm 25 anos ou mais(10). Nessa mesma direção, a pesquisa realizada em 1997, indicam que 80% dos alunos participantes, das escolas públicas, estão na faixa de idade mais jovem entre 20-23 anos e 70,3% dos alunos das escolas privadas têm faixa etária mais alta(8). Outros trabalhos indicam que 57% dos alunos ingressantes no bacharelado em enfermagem da EERP/USP, no período 1999-2003, têm idade entre 18-19 anos, 1,1% têm idade entre 24-25anos e 1,3% têm idade superior a 26 anos(14). Os dados deste trabalho, relativo ao curso de licenciatura em enfermagem, mostram, ao mesmo tempo, que há entrada predominante de jovens como apontam alguns desses estudos, mas há também o ingresso de pessoas em faixa etária maior (27,9% entre 26 e 46 anos) como acontece em escolas privadas conforme mencionado nos estudos aqui comentados.

Dados de 2006 referentes aos ingressantes de todos os cursos do campus USP-RP indicam que o curso de licenciatura em enfermagem é o segundo que tem o maior número de ingressantes com idade superior a 24 anos (34%), sendo o primeiro o curso de música, cabendo considerar que o número total de cursos deste campus é de 25(11). Consideramos que, no caso da licenciatura em enfermagem, o número significativo de ingressantes, em faixa etária maior do que a habitual de entrada na universidade se relacione ao fato de tratar-se de curso novo, menos concorrido no vestibular, o que possibilitou o ingresso de trabalhadores já atuantes na área técnica em saúde e pessoas que finalizaram o ensino médio há muitos anos, como descrito a seguir.

Quanto à formação no ensino fundamental, cabe considerar que 38 alunos (88%) são procedentes de escola pública, três (7%) são da escola privada, um (2,5%) da escola pública e privada e um (2,5%) não respondeu a pergunta. Em relação ao ensino médio, 29 (67,5%) são procedentes da escola pública, sete (16%) da escola privada, cinco (12%) são procedentes da escola pública e privada e dois (4,5%) não responderam. Assim, a maioria dos ingressantes é proveniente do ensino público, sendo que há um aumento de 7% dos alunos que cursaram o ensino fundamental na escola privada para 16% de alunos que fizeram o ensino médio no setor privado. Isso pode se relacionar à busca de preparo para os exames vestibulares que comumente vem se dando mais efetivamente nas escolas privadas.

Destacamos que o número de alunos procedentes da escola pública, no ensino médio, é grande - 67,5%. Outro estudo desenvolvido em 2006, também aponta nessa direção, todavia, trata- se de curso de graduação em enfermagem desenvolvido no contexto de instituição particular: 56% dos alunos são provenientes de escolas públicas, enquanto 8% de escolas privadas(9). Assim, podemos perceber que o perfil do aluno ingressante quanto à procedência do ensino médio, neste ano, no curso de licenciatura em enfermagem, na EERP/USP, se aproxima do perfil do ingressante em enfermagem de uma universidade particular da cidade de São Paulo.

Se compararmos o número de alunos procedentes da escola pública ingressante no curso de licenciatura na EERP/USP (67%) com o número de alunos procedentes da escola privada ingressante no curso de bacharelado, na mesma escola, no ano de 2006 (75%), podemos inferir que, em se tratando de um curso novo que se inicia exatamente neste ano, ainda há menos concorrência no vestibular.

Cabe destacar que em estudo desenvolvido em 2007, é apontado aumento na porcentagem de ingressantes no curso de bacharelado em enfermagem da EERP/USP que concluíram o ensino médio em escolas particulares, de 1999 a 2003, a saber: 28,07% em 1999, 37,34% em 2000, 36,36% em 2001, 40,25% em 2002 e 33,73 % em 2003. Comparando este dado de 2003 (33,73%) com o dado anterior que evidencia a entrada de 75% de alunos do ensino médio privado no bacharelado em enfermagem, em 2006(14), constatamos um grande aumento. Esses dados apontam uma diferença significativa entre os perfis de ingressantes dos dois cursos da EERP/USP ' bacharelado e licenciatura, neste ano específico.

Do total de alunos deste estudo que responderam o questionário, 23 (53,4%) terminaram o ensino médio de um a cinco anos, nove (20,9%) de sete a dez anos, quatro (9,3%) de 11 a 18 anos e sete (16,2%) não responderam a esta pergunta. Esses dados se diferenciam de outros: 62,8% dos alunos participantes da pesquisa desenvolvida em 1996, no curso de enfermagem da Universidade Estadual do Ceará, ingressaram na faculdade logo após o término do então segundo grau, 26% ingressaram após um ano de conclusão do segundo grau(15). Em estudo de 2006, desenvolvido em uma universidade particular da cidade de São Paulo, 32% dos alunos ingressaram imediatamente após conclusão do ensino médio, 16% após dois semestres e 4% após um semestre(9). No período de 1999 a 2003, no curso de bacharelado da EERP/USP, conforme estudo de 2007, 24,93% dos alunos ingressaram na universidade logo após o término do ensino médio, 38,46% ingressaram após um ano, 22,28% após dois anos, 6,89 % após três anos e 5,57% em um período de quatro a 26 anos após a conclusão do ensino médio(14). Considerando os dados do curso de licenciatura em estudo, podemos mais uma vez questionar se a entrada de alunos com intervalo de tempo extenso entre o término do ensino médio e o ingresso na universidade se relaciona com a peculiaridade da licenciatura como curso novo e em período vespertino/noturno.

Dos alunos ingressantes, 18 (42%) trabalham e 25 (58%) não trabalham. Dos alunos que trabalham, 12 (67%) atuam na área da saúde. Em outros estudos é também relevante o número de alunos que trabalham: 62,5% dos alunos ingressantes na escola privada realizam atividade remunerada, tendo em vista que o horário do curso de enfermagem é parcial, enquanto 92% dos ingressantes na instituição pública não trabalham, sendo o curso em período integral(10). Dados de outra pesquisa, realizada em instituição pública, evidenciam que apenas 12 (3,2%) dos alunos participantes trabalham, sendo o curso de enfermagem oferecido em período integral(15). Ainda outro trabalho, desenvolvido em escola particular, aponta que 56% dos alunos são trabalhadores(9).

Na EERP/USP, no curso de bacharelado, considerando o período de 1999 a 2003, somente 4,5% dos ingressantes exerciam atividades remuneradas, sendo que desses, 41,17% trabalhavam como técnico ou auxiliar de enfermagem(14). Em 2006, o percentual de estudantes ingressantes no curso de bacharelado na EERP/USP que trabalha é de apenas 1%. Desse modo, apesar da maioria dos alunos do curso de licenciatura, ingressantes em 2006, não trabalhar (58%), a porcentagem de pessoas que trabalham é significativa (42%), considerando principalmente o contexto da escola pública, inclusive se compararmos os dois cursos ' bacharelado e licenciatura em enfermagem - da EERP/USP. Cabe ainda ressaltar que já no bacharelado, em anos anteriores, havia entrada de auxiliares e técnicos de enfermagem, o que aumentou com o curso de licenciatura.

 

CONCLUSÃO

O perfil dos alunos ingressantes no curso de licenciatura em enfermagem, na EERP/USP, em 2006, traz demandas para a prática pedagógica do professor, tendo em vista alguns aspectos a seguir indicados.

Apesar da maioria dos alunos ingressantes ser jovem: 29 estudantes (67,4%) encontram-se na faixa etária de 19 a 25 anos, 12 (27,9%) encontram-se entre 26 e 46 anos, o que mostra que o professor precisa lidar com uma diversidade de pessoas, em idades variadas. Outro dado significativo para o contexto de um curso inserido em instituição pública é que a maioria dos estudantes (67%) é proveniente de escola pública (ensino médio), o que se diferencia substancialmente do curso de bacharelado da mesma escola, no qual, no ano de 2006, o número de alunos oriundos da escola privada era de 75%. Essa situação leva-nos a refletir sobre a necessidade de acompanhar o desempenho acadêmico dos estudantes, percebendo se a sua procedência influencia em seu processo ensino-aprendizagem e, por conseguinte, na prática pedagógica do professor. Além disso, os estudantes terminaram o ensino médio há vários anos: 23 (53,4%) terminaram o ensino médio de um a cinco anos, nove (20,9%) de sete a dez anos, quatro (9,3%) de 11 a 18 anos. Isso acrescido à procedência do aluno anteriormente comentada traz a necessidade desse acompanhamento pedagógico. Ou seja, ser aluno de escola pública e concluinte do ensino médio há vários anos é fator que diferencia o processo ensino-aprendizagem? Há defasagens de conhecimentos que precisam ser supridas? Qual o preparo do professor e qual o suporte institucional para construção de situações de apoio pedagógico, se for necessário? Isto se torna relevante considerando também a proposta do curso em desenvolver metodologia problematizadora que demanda também inserção na realidade dos cenários de saúde e educação, desenvolvimento do pensamento crítico-reflexivo e da autonomia do estudante, diferindo-se das habituais práticas de ensino tradicional as quais provavelmente a maioria dos alunos vivenciou até então. Essa diversidade de faixa etária, procedência e anos de término do ensino médio pode ser trabalhada em prol da aprendizagem à medida em que valores, experiências e percepções dos alunos puderem ser expressas, conhecidas e, principalmente, respeitadas entre eles.

Embora a maioria dos alunos do curso de licenciatura, ingressantes em 2006, não trabalhar (58%), a porcentagem de pessoas que trabalham é significativa (42%), considerando principalmente o contexto da escola pública. Cabe considerar que, em 2006, o percentual de estudantes ingressantes no curso de bacharelado na EERP/USP que trabalha é de apenas 1%. O aluno trabalhador, ao mesmo tempo, traz para o contexto da aula, muitas vezes, experiências interessantes, até porque muitos já são trabalhadores da área da saúde, todavia, conciliar a vida profissional e acadêmica é um desafio que se impõe aos alunos e ao professor. Além disso, em muitas situações, em nossas vivências, podemos perceber que é bastante desafiante ao aluno que já é trabalhador da área de saúde compreender que a proposta da graduação vai muito além do que apenas aprofundar conhecimentos de ordem técnica. Os dados aqui apresentados mostram o quanto é importante conhecer o perfil dos ingressantes, na busca de construir estratégias potencializadoras da aprendizagem.

 

REFERÊNCIAS

1. Libâneo JC. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola; 1984.         [ Links ]

2. Brasil. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases de Educação Nacional. Diário Oficial da União, Brasília, 23 dez 1996. Seção 1, p.1-27.         [ Links ]

3. Universidade de São Paulo. Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Projeto Político Pedagógico do Curso de Licenciatura [Internet]. Ribeirão Preto; 2002 [citado 2009 ago. 27]. Disponível em: http://www.eerp.usp.br        [ Links ]

4. Lima VV. Competência: distintas abordagens e implicações na formação de profissionais de saúde. Interface Comun Saúde Educ. 2005;9(17):369-79.         [ Links ]

5. Romano RAT. Da reforma curricular à construção de uma nova práxis pedagógica: a experiência da construção coletiva de um currículo integrado [dissertação]. Rio de Janeiro: Centro de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Rio de Janeiro; 1999.         [ Links ]

6. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Censo Demográfico 2000 [Internet]. Brasília; 2000 [citado 2009 ago. 27]. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/censo/        [ Links ]

7. Horta ALM, Bonilha ALL, Ribeiro MO. Características e aspirações do atual graduando de enfermagem: comparação entre duas instituições de ensino. Rev Esc Enferm USP. 1988;22(3):323-37.         [ Links ]

8. Nakamae DD, Araújo MRN, Carneiro MLM, Vieira LJ, Coelho S. Caracterização socioeconômica e educacional do estudante de enfermagem nas escolas de Minas Gerais. Rev Esc Enferm USP. 1997;31(1):109-18.         [ Links ]

9. Santos CD, Leite MMJ. O perfil do aluno ingressante em uma universidade particular da cidade de São Paulo. Rev Bras Enferm. 2006;52(2):154-57.         [ Links ]

10. Spíndola T, Martins ERC, Francisco MTR. Enfermagem como opção: perfil de graduandos de duas instituições de ensino. Rev Bras Enferm. 2008;61(2):164-9.         [ Links ]

11. Talamone RS. Perfil do calouro USP Ribeirão em 2006. Jornal USP (Ribeirão Preto). 2006 mar. 6:6-9.         [ Links ]

12. Pereira EMA. A percepção dos universitários sobre seus problemas. In: Mercuri E, Polydoro AS, organizadores. Estudante universitário: características e experiências de formação. Taubaté: Cabral; 2003. p. 63-78.         [ Links ]

13. Nakamae DD. Mudanças no perfil do estudante da EEUSP em quinze anos: 1973 a 1988. Rev Esc Enferm USP. 1992;26(1): 9-16.         [ Links ]

14. Wettrich NC, Melo MRAC. Perfil sociodemográfico do aluno do curso de graduação em enfermagem. Rev Latino Am Enferm. 2007;15(3):404-10.         [ Links ]

15. Jorge MSB, Holanda MLT. Perfil demográfico e sócio-econômico do estudante de enfermagem na UECE. Rev Bras Enferm. 1996;49(1):105-20.         [ Links ]

 

 

Correspondência:
Adriana Katia Corrêa
Av. Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre
CEP 14040-902 - Ribeirão Preto, SP, Brasil

Recebido: 10/09/2009
Aprovado: 06/10/2010