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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.5 São Paulo out. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000500004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Vivências de amamentação da criança portuguesa em idade escolar

 

Experiencias de amamantamiento de niños portugueses en edad escolar

 

 

Dulce Maria Pereira Garcia GalvãoI; Isília Aparecida SilvaII

IDoutora em Ciências de Enfermagem. Professora Coordenadora da Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. Coimbra, Portugal. dgalvao@esenfc.pt
IIDoutora em Enfermagem Obstétrica. Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. isasilva@usp.br

Correspondência:

 

 


RESUMO

Estudo descritivo e transversal, utilizando um questionário, com 1.078 crianças entre 7 e 12 anos de idade, dos terceiros e quartos anos do primeiro ciclo do ensino básico, de escolas públicas, para estudar as vivências de amamentação. A maioria delas, 918 (85,2%), sabia que tinha sido amamentada e 895 (83,0%) usaram chupeta. Um pequeno número viu a mãe amamentar e presenciou o pai junto da mãe quando amamentava ou respondeu que na escola os enfermeiros passaram algum conteúdo sobre amamentação. Além disso, a maioria das meninas não brincava de amamentar suas bonecas e 771 (71,5%) crianças disseram que esses brinquedos tinham mamadeira, e outras, chupetas, sendo que nas brincadeiras fingiam alimentar as bonecas com a mamadeira. Elas dizem que gostariam de amamentar, mas que teriam vergonha de fazê-lo em público. Os livros e desenhos animados com que estas crianças têm contato não apresentam figuras de mulheres amamentando. Grande número das crianças considera o leite materno como o melhor alimento para o bebê, mas verificou-se a presença de falsos conceitos e que nem todos sabiam o que era amamentar.

DESCRITORES: Aleitamento materno; Criança; Conhecimento; Atitude; Promoção da Saúde.


RESUMEN

Estudio descriptivo transversal, utilizando cuestionario, con 1.078 niños de 7 a 12 años, de 3º y 4º grado de Enseñanza Primaria de escuelas públicas, estudiándose experiencias de amamantamiento. La mayoría, 918 (85,2%) recordaba su amamantamiento; 895 (83%) utilizaron chupete. Unos pocos vieron a su madre amamantar, percibiendo la presencia paterna; o refirió que los enfermeros en la escuela exhibieron contenidos acerca del amamantamiento. Asimismo, la mayoría de las niñas no jugaba a amamantar a sus muñecas, 771 niños (71,5%) refirieron que tales juguetes poseían mamaderas o chupetes, siendo que los juegos consistían en fingir alimentar muñecas con dichas mamaderas. Relatan que les gustaría amamantar, pero no en público, por vergüenza. Los libros y dibujos animados seguidos por estos niños no muestran figuras de mujeres amamantando. Muchos niños consideran a la leche materna como el mejor alimento para el bebé. Se verifican falsos conceptos, varios ni sabían qué es amamantar.

DESCRIPTORES: Lactancia materna; Niño; Conocimiento; Actitud; Promoción de la Salud.


 

 

INTRODUÇÃO

A tomada de decisão de amamentar e a sua manutenção é um complexo processo dependente de muitos aspetos que variam de país para país e, no mesmo país, de grupo para grupo e de pessoa para pessoa. Esta decisão, relacionada com a história de vida da mulher e com o significado que lhe atribui, associa-se às suas experiências e à educação que recebe, desde a mais tenra idade. Nesse sentido, tem sido reforçada a tendência de que é desde a infância e durante a adolescência que a mensagem de promoção da amamentação deve ser veiculada tanto pela educação formal como pela educação familiar.

Pretendendo-se contribuir de forma sustentada na evidência científica, para um regresso à cultura do aleitamento materno, despertar para a necessidade de implementação de medidas promotoras da amamentação, desde a infância, e contribuir para a proteção, promoção e suporte da amamentação, considerando-a uma prioridade de saúde pública, e pela inexistência de estudos que se tenham centrado sobre a criança portuguesa e o que ela sabe, pensa, conhece, aprende e tem vivenciado sobre amamentação, desenvolveu-se um estudo de caráter descritivo, transversal, que seguiu a abordagem quantitativa, junto de crianças do primeiro ciclo do Ensino Básico, que frequentavam o terceiro e quarto anos do ensino público, em estabelecimento que permitiu estudar e analisar as vivências que essas crianças tinham sobre amamentação.

 

REVISÃO DA LITERATURA

A história da amamentação mostra-nos que não é apenas determinada por aspetos naturais e biológicos, mas construída pelo quotidiano das famílias, nos seus ambientes sociais e culturais(1). Amamentar sofre influências do ambiente doméstico, dos familiares, dos profissionais e da comunidade. Assim, pode-se dizer que o leite materno é biologicamente formado e o ato de amamentar é socialmente construído(2).

É hoje difundida, cientificamente, a vantagem de que as meninas vejam amamentar os seus irmãos, bem como se realça a importância do ensino da amamentação desde o jardim de infância, contribuindo para que a mulher chegue à sua gravidez com um hábito já adquirido no seu meio familiar e social. A amamentação é um ato natural que requer uma aprendizagem o mais precoce possível(3).

Desde a infância e durante a adolescência, as meninas e os meninos, dado que tanto as atitudes masculinas como femininas afetam as normas sociais, deveriam ser orientados positivamente em relação ao aleitamento, tanto por suas vivências quanto pela educação formal, e as vantagens do aleitamento enfatizadas dentro da educação familiar. O meio em que a criança vive é de reconhecida importância para o seu processo educativo.

Consequentemente, insistir para que a menina veja os seus irmãos serem amamentados e difundir conteúdos sobre a amamentação, desde o jardim de infância, poderá fazer com que a mulher chegue à sua gravidez com um hábito já adquirido no seu meio familiar e social e não veja o aleitamento como uma obrigação que deve aceitar. Isso deve constituir-se em uma preocupação de todos os profissionais que apostam na promoção do aleitamento natural. Nesse sentido,

se desde a escola as crianças recebessem informações adequadas sobre o aleitamento, quando chegassem a ser mães, as meninas possivelmente estariam mais motivadas a amamentar e, no caso dos meninos, mais aptos a apoiar a decisão materna(4).

No entanto, em alguns lugares, é bem verdade, parece que ainda a informação não chega como gostaríamos...(5).

A importância de difundir informações sobre amamentação para escolares de ambos os sexos baseia-se na ideia de que a escola representa o espaço de aquisição de conhecimentos que tendem a perpetuar-se e a influenciar as atitudes na vida adulta, uma vez que as crianças são excelentes veículos de transmissão de informações para suas famílias, podendo estimular suas mães a amamentar e, no futuro, elas mesmas virem a promover a amamentação de seus próprios filhos.

A introdução da temática do aleitamento na escola tem como principal consequência a familiarização das crianças e dos adolescentes com esta prática, dado que, por vezes, existe distanciamento das suas famílias com o processo de amamentação(6-7).

As crianças devem receber informações corretas sobre amamentação, direito da mulher e da criança e vê-la também como um fator de economia não só para a família, mas também para toda a sociedade e Nação. É nesse sentido que

a escola, ao constituir-se como um espaço seguro e saudável, facilita a adoção de comportamentos favoráveis à saúde, encontrando-se, por isso, numa posição ideal para promover e manter a saúde na comunidade educativa, assim como na comunidade envolvente(8).

Portanto, a escola poderá oferecer à criança os aspetos formais, conscientes da aprendizagem do aleitamento materno e da amamentação, enquanto que os contextos familiares e sociais da comunidade lhe proporcionarão as oportunidades inconscientes de educação em saúde sobre esta temática, pois o aleitamento materno é uma prática que deve constituir uma estratégia de promoção para a saúde e requer compreensão dos determinantes associados à sua interrupção. As evidências científicas demonstram que a amamentação exclusiva é a melhor forma de alimentar as crianças, constituindo uma base para o seu desenvolvimento biológico e emocional. Sabe-se ainda que o leite materno é uma proteção contra infeções no primeiro ano de vida, diminuindo, assim, doenças crônicas na idade adulta(9).

 

OBJETIVOS

Estudar e analisar as vivências de amamentação de crianças que frequentam o terceiro e quarto anos da escola pública do primeiro Ciclo do Ensino Básico.

 

MÉTODO

O estudo foi realizado com crianças do terceiro e quarto anos de escolas públicas do primeiro ciclo do Ensino Básico da área educativa de Coimbra, Portugal.

Foi estabelecido contato telefônico com a Direção Regional de Educação do Centro, em junho de 2008, no sentido de se marcar uma reunião com a Diretora Geral para apresentação do estudo e pedido formal da sua realização. Obteve-se informação que todos os procedimentos formais deveriam ser dirigidos aos Agrupamentos de Escolas. Em Portugal, nem todas as instituições de Saúde e de Ensino e Pesquisa possuem Comitês de Ética em Pesquisa. Desta forma, as pesquisas podem ser autorizadas pelo responsável da instituição na qual o estudo se realiza e pelos próprios sujeitos, considerando a aceitação de participação desses, mediante documento apresentado pelo pesquisador que oriente e esclareça os objetivos e finalidade da pesquisa.

Assim, procedeu-se ao contato pessoal com os Presidentes dos Conselhos Executivos dos oito Agrupamentos de Escolas de três Concelhos do Distrito de Coimbra, mediante pedido formal feito por uma solicitação escrita para realização do estudo, com as explicações do que se pretendia desenvolver, seus objetivos, pedido de colaboração para ser distribuído aos pais e às crianças e, também, a colaboração dos professores para aplicação dos questionários nas salas de aula. Após o consentimento dos pais, foram recolhidos os termos de aceitação de colaboração com suas devidas assinaturas. Houve consentimento escrito ou verbal para realizar o estudo de seis Agrupamentos, com um total de 73 escolas e de 1.339 crianças matriculadas no terceiro e quarto anos do Ensino Básico.

No questionamento às crianças, utilizou-se um questionário constituído na maioria por perguntas fechadas, outras abertas e algumas mistas. Isso permitiu colher dados sociodemográficos da criança e obter respostas das questões que orientaram esta pesquisa: Será que os meninos/meninas sabem se foram amamentados? É habitual as crianças verem as mães amamentando? As mensagens que transmitimos às crianças são favorecedoras da amamentação? Os meios de comunicação social e os seus livros de estudo e de histórias transmitem-lhes uma cultura da amamentação? O que aprendem as crianças nas escolas sobre amamentação? Os brinquedos que são dados às crianças são favorecedores desta prática? Qual a atitude da criança em face da amamentação?

De modo a verificar se todas as questões foram de fácil entendimento pelas crianças e dirimir possíveis dúvidas relativas à formulação e sequência das questões, bem como se nas perguntas fechadas o leque de opções era completo, cobrindo todas as possibilidades de resposta, foi realizado o pré-teste deste instrumento de coleta de dados, em novembro de 2008, em uma escola do primeiro ciclo do Ensino Básico deste Agrupamento, com 18 crianças do terceiro ano e 17 do quarto ano. Como resultado, foram necessários apenas alguns ajustes na estruturação do questionário. Após tais modificações foi realizado um novo ensaio piloto, em outra escola do primeiro ciclo do Ensino Básico deste mesmo Agrupamento, agora junto de 18 crianças do terceiro ano e 15 do quarto ano. Neste momento não se verificou, por parte das crianças, qualquer dúvida na interpretação das perguntas quanto à estrutura do questionário e também não houve qualquer problema para que as crianças dessem as suas respostas, sendo esta versão do instrumento considerada definitiva. Foi ainda possível observar que as crianças despenderam cerca de 20 minutos para responder à totalidade das questões.

A aplicação do questionário, feita pelos professores de cada turma, decorreu entre os meses de dezembro de 2008 a abril de 2009 e aconteceu na própria sala de aula, durante o horário escolar em dia e horário favoráveis, tendo em conta a melhor disponibilidade dos alunos e professores.

Os dados foram analisados utilizando-se o programa estatístico SPSS versão 15.0, recorrendo-se ao cálculo de frequências absolutas e percentuais e medidas estatísticas descritivas, tendo em conta a natureza das variáveis em estudo.

Reitera-se que foram cumpridos os procedimentos éticos - consentimento informado dos pais, assentimento informado das crianças -, tendo participado da pesquisa apenas as crianças que os pais autorizaram e que elas mesmas se mostraram disponíveis em colaborar.

 

RESULTADOS

Os dados foram colhidos junto de uma amostra constituída por 1.078 crianças, com idades compreendidas entre os sete e os 12 anos, com ligeiro predomínio do sexo masculino, 579 (53,7%), e em maior percentagem residentes em aldeias, 788 (73,1%).

Embora 918 (85,2%) crianças soubessem que foram amamentadas, apenas a metade, 467 (50,9%), soube referir o tempo de amamentação, que foi nos três primeiros meses de idade.

Também, a maioria das crianças tinha irmãos, sendo 784 (72,7%). Destas, 644 (82,1%) sabiam que os irmãos, mesmo os mais velhos, tinham sido amamentados, mas foi pequeno o número de crianças com irmãos mais novos, 372 (47,4%), 271 (34,6%) referiram ter presenciado a mãe amamentado e 249 (31,8%) ficavam junto da mãe quando amamentava os irmãos. Foi igualmente pequeno o número de crianças, 312 (39,8%), que referiu que o pai por vezes também permanecia junto à mulher quando ela amamentava os irmãos.

Um total de 895 (83,0%) crianças usaram chupeta e 532 (67,9%) referiram que os irmãos também fizeram uso deste artefato.

Grande número de crianças, 658 (61,0%), refere ver familiares e amigas da família amamentarem seus bebês e quando vão aos serviços de saúde é frequente verem imagens alusivas à amamentação, o que foi referido por 719 (66,7%). No entanto, 666 (61,8%) responderam que não é comum verem mulheres da comunidade onde vivem amamentando na rua ou nos jardins por onde passam.

Quanto ao modo mais frequente que eles veem as mães alimentando os filhos é pela mama e pela mamadeira, com 403 (37,4%) respostas.

Sensivelmente, quase a totalidade das crianças, 1.017 (94,3%), respondeu que na escola não existe qualquer imagem alusiva à amamentação.

Apenas 522 (48,4%) e 586 (54,4%) crianças mencionaram, respectivamente, que na escola e em casa lhes falaram sobre as mães amamentarem os filhos. Para 459 (87,9%) crianças foram os professores e para as demais, 358 (61,1%), foram as mães que representaram o maior número de agentes deste processo educativo/formativo. O nome da enfermeira foi apenas mencionado 30 vezes como elemento educativo desta área de educação para a saúde da criança.

Um total de 626 (58,1%) crianças afirmaram já ter visto um programa na televisão em que se falava sobre mães que amamentavam os filhos e 186 (17,3%) referiram já ter ouvido no rádio um programa que falava de amamentação.

Um número elevado de crianças, 771 (71,5%), respondeu que as bonecas das meninas ou das irmãs, ou de amigas dos meninos, têm mamadeira, e ainda 760 (70,5%) delas disseram que os brinquedos têm chupetas e 776 (72,0%) crianças referiram que suas bonecas ou de amigas são feitas de forma a amamentar. Foi também grande o número de crianças, 638 (59,2%), que indicou não falar com os colegas ou amigos sobre as mães amamentarem os bebês e menos da metade, 511 (47,4%), referiu que quando brinca com as bonecas ou quando vê as irmãs ou amigas brincarem com as bonecas finge dar de mamar, mas, destas, a maioria, 302 (59,1%), respondeu que o faz usando a mamadeira.

Informaram ainda que os seus livros não tinham figuras de mulheres amamentando e que também não possuíam mamadeiras, o que foi referido, respectivamente, por 639 (59,3%) e 609 (56,5%) crianças.

Número elevado de crianças, 674 (62,5%), assiste a desenhos animados que não têm personagens amamentando.

Embora a maioria das crianças, 851 (78,9%), tivesse referido que mais tarde gostaria de amamentar seus filhos ou gostaria que a mulher amamentasse, apenas 601 (55,8%) menciononaram que não teriam vergonha de amamentar ou que a mulher amamentasse na frente de outras pessoas e, ainda, 590 (54,7%) informaram que gostariam de passar na rua e ver uma mãe amamentando o filho.

Ainda que a maioria de meninos(as), 952 (88,3%), considerasse que o leite materno é o melhor alimento para o bebê, verificou-se a presença de falsos conceitos e desconhecimento sobre outras vantagens da amamentação, nomeadamente sobre as vantagens para a mãe, para o ambiente e para a sociedade.

Somente 759 (70,4%) crianças mencionaram que consideravam saber o que era amamentar e muitos meninos(as) não identificaram o leite materno como sendo o melhor leite para se alimentar os bebês.

 

DISCUSSÃO

Constituindo a dúvida, se as crianças do estudo sabiam como foram alimentadas nos primeiros meses de vida e, em caso afirmativo, até que idade, foram questionadas acerca destes aspetos e à semelhança dos estudos desenvolvidos por autores brasileiros(4,10). Também se observou que a maioria soube referir ter sido amamentada. Tendo presente a própria experiência de ter sido uma filha amamentada, poderá ser uma influência positiva que as crianças do estudo terão na sua futura decisão de amamentar. No entanto, apenas cerca da metade soube mencionar o tempo de amamentação, tendo-se apurado que isso ocorreu nos três meses de idade. Os resultados do estudo, que explora os dados sobre aleitamento materno, obtidos nos inquéritos nacionais de saúde de 95/96 e 98/99, referentes às crianças com idade inferior ou igual aos cinco anos, revelam que no continente tiveram aleitamento materno durante, pelo menos, sete dias, 81,4% e 84,9%, registando um número médio de semanas de aleitamento materno situado nas 20,3 e 20,6 semanas(11), o resultado a que se chegou mostra que as crianças do estudo tiveram um tempo de amamentação inferior ao que deve ocorrer. Todavia, tal fato não surpreende, pois é frequente, em Portugal, as mulheres amamentarem na maioria apenas até esta idade, o que poderá estar relacionado com o fato de as mães interromperem a amamentação, frequentemente, um mês antes de terminar o tempo de licença de maternidade.

Mesmo que exista a perceção de que cada vez mais há crianças que são filhas únicas, esse fato não é confirmado nesta pesquisa. Todavia, no que tange às experiências que essas crianças tiveram quanto à amamentação, relacionadas com o fato de ter irmãos, apurou-se que os mais velhos puderam ver e assistir à mamada dos irmãos mais novos, embora tenha sido pequeno o número de crianças que viu a mãe amamentar ou que estava junto dela quando amamentava. No entanto, um aspeto a ser considerado é que também essas crianças, em sua maioria, sabiam que seus irmãos, mais velhos, haviam sido amamentados. Tais resultados poderão indicar que, embora se saiba que amamentar um bebê na presença de crianças mais velhas é a forma mais fácil e mais natural dos jovens aprenderem o que é a amamentação e tomarem essa ação como uma prática habitual, nem sempre nas famílias portuguesas são aproveitados todos os momentos para mostrar a amamentação às crianças menores, mesmo que o tema amamentação seja falado no seio familiar. Os resultados deste estudo são contrários ao do estudo desenvolvido no Brasil(12), o qual mostrou que a maioria das crianças estudadas tinham sido expostas à amamentação nos seus próprios domicílios.

Considerando o pai um elemento importante no processo da amamentação, procurou-se saber junto das crianças se desde cedo este modelo de participação paterna na amamentação dos filhos lhes era transmitido. Observou-se que foi pequeno o número de crianças que referiu ter presenciado o pai, por vezes, junto à mãe quando ela amamentava seus irmãos. Seria de todo pertinente que desde sempre as crianças integrassem, em sua perceção do processo da amamentação, o pai como elemento importante e participante ativo. Este dado foi observado no estudo desenvolvido pelos autores brasileiros(10) que verificaram que as crianças estudadas foram de opinião que a participação do pai é muito importante neste processo. Atualmente há o conhecimento que o apoio e incentivo do parceiro e a tomada conjunta do casal da decisão em amamentar fazem habitualmente a diferença entre o sucesso da amamentação e o seu fracasso.

Está cientificamente reconhecido que o uso de chupetas e de bicos artificiais constituem fatores de influência negativa na manutenção e sucesso da amamentação, uma vez que não dar bicos artificiais ou chupetas a crianças amamentadas ao seio é uma das recomendações da OMS(13). Isso faz parte dos dez passos para o sucesso da amamentação; no entanto, o uso de chupeta foi recorrente neste estudo, tanto por parte dos irmãos como pela própria criança. Este resultado poderá representar uma influência negativa para a cultura da amamentação, visto que crianças habituadas a verem os seus irmãos usando chupeta, também o farão, repetindo, assim, este modelo.

Ver regularmente outras mulheres amamentando, especialmente na mesma família ou grupo social, constitui um modo privilegiado para meninas, adolescentes e mulheres jovens desenvolverem atitudes positivas em relação à amamentação. Afigura-se que as famílias, conviventes significativos e serviços de saúde das crianças portuguesas têm sido elementos favorecedores da amamentação. O mesmo não é extensivo aos elementos da comunidade. Este fato, futuramente, poder-se-á traduzir em dificuldades posteriores para a criança, referente ao processo de amamentar seus filhos, tais como sentimentos de vergonha e ter dificuldade em vir a amamentar na presença de outras pessoas.

A escola, a par da família e da comunidade, tem forte responsabilidade na promoção da saúde e bem-estar da criança que a frequenta e assume um papel importante no processo de aquisição de estilos de vida saudáveis. Neste contexto, embora se tivesse apurado que a totalidade das crianças tenha referido que na escola que frequentam não existe qualquer desenho, fotografia ou cartaz que tenha uma mulher amamentando seu bebê, o(a) professor(a) revelou ser um elemento importante, ao falar às crianças sobre amamentação. Estes resultados, contrariamente aos referidos pelas crianças do estudo desenvolvido no Brasil(12), parecem mostrar que os professores das crianças do estudo se interessaram em informá-las sobre o aleitamento, de forma que quando chegarem a ser mães, as meninas poderão estar motivadas a amamentar e os meninos aptos a apoiar a decisão materna. No entanto, [...] muitas oportunidades são perdidas na escola [...](2). Um aspeto importante a salientar consiste no fato que a enfermeira foi citada apenas 30 vezes. Tendo presente que em Portugal a promoção da educação para a saúde em meio escolar é um processo para o qual concorrem os setores da Educação e da Saúde, formalizou-se uma parceria visando à colaboração ativa entre as escolas e centros de saúde. Daí resultou a Rede Nacional de Escolas Promotoras da Saúde, mas ainda se afigura insuficiente a participação de tais profissionais de saúde nesta área.

É cada vez mais evidente que as crianças são espetadoras assíduas de programas dos meios de comunicação social, em particular da televisão, os quais desempenham um papel importante no seu processo de entretenimento que vai influenciar a formação do indivíduo. Se utilizados adequadamente, permitem-lhes que não fiquem apenas circunscritas ao seu espaço físico e da sua família. Dependendo dos programas que a criança vê e ouve, o que carece de uma supervisão atenta dos seus pais, podem ter uma contribuição significativa para a sua educação. Embora algumas crianças tivessem mencionado já ter visto um programa na televisão em que se falava sobre mães amamentando os bebês, foi pequeno o número de crianças que deu a mesma resposta para os programas de rádio. Perante tais resultados, afigura-se que estes meios de comunicação social não têm, até o momento, sido grandes veículos de promoção da amamentação para as crianças. Por outro lado, a diferença observada nas respostas poderá estar relacionada com o fato de as crianças verem com mais frequência televisão do que ouvirem rádio.

Em relação à atividade importante do desenvolvimento da criança, que é o brincar; conclui-se pelos resultados deste estudo que as crianças estão expostas a brinquedos que não promovem a amamentação, pelo contrário, têm incorporado utensílios que estimulam uma cultura da alimentação artificial e que também nas suas brincadeiras não falam com os colegas ou amigos sobre as mães amamentarem os bebês. Apurou-se ainda, à semelhança de outros autores(4,10), que haviam verificado, respectivamente, que só uma pequena percentagem das entrevistadas ofereciam exclusivamente o seio ou o seio e mamadeira em suas brincadeiras com bonecas e que nas brincadeiras de infância menos da metade dos escolares do sexo feminino e poucos do sexo masculino relataram que as bonecas eram amamentadas. Tendo presente os resultados relativos aos brinquedos, pode-se naturalmente afirmar que não causaram surpresa porque atendem ao modelo que incutem na criança. Estes dados são preocupantes, pois o modo como a criança brinca poderá influenciar a sua decisão futura em termos de amamentação.

Sabendo que o meio onde a criança vive é de reconhecida importância para o seu processo educativo e que os pais têm influência determinante nos caminhos e escolhas futuras de seus filhos, incluindo as expetativas e experiências dentro da família e da comunidade e que tudo isso tem poder para influenciar as decisões das meninas, seria adequado que mais crianças nas suas próprias casas tivessem momentos em que se falasse  sobre amamentação. Isso porque se apurou que somente metade das crianças do estudo afirmaram que em casa lhes falaram de amamentação e que em sua maioria foi a mãe que o fez. Contudo, atendendo ao número de crianças que afirmaram saber que foram amamentadas e que sabiam que os seus irmãos tinham sido amamentados, pode-se pensar que este valor talvez seja mais elevado.

Conhecer como as crianças definiam amamentar e que consideravam o leite materno ser o melhor para os bebês foi preocupação deste estudo. Somente 759 (70,4%) crianças mencionaram que sabiam que era amamentar. Destas, pouco mais da metade, 409 (53,9%), referiu que amamentar é dar mama ao bebê. Esse dado poderá revelar que estas crianças poderão não relacionar a amamentação apenas com o seu aspeto nutricional, mas também com a parte relacional e vinculativa, uma vez que 180 (23,7%) responderam que para elas amamentar era dar leite da mama da mãe ao bebê. Um total de 144 (19,0%) crianças responderam que amamentar era dar leite ao bebê, sendo esta afirmação distinta das outras, pois a criança não especifica que leite é dado, nem a via utilizada. Embora seja pequeno o número de crianças a referir sobre isso, há meninos(as) que tocam aspetos importantes da amamentação, nomeadamente o fato de a considerarem natural, fornecer alimento saudável e o melhor, dar carinho e satisfazer as necessidades.

Quanto à opinião da criança sobre qual o melhor leite, embora se tenha verificado que é elevado o número de respostas favoráveis ao leite da mãe, verifica-se que existem ainda muitos meninos(as) que não têm este conhecimento presente. Atendendo a este resultado, é importante que se veicule a informação junto às crianças, que durante os primeiros seis meses de vida o leite materno administrado de forma exclusiva é o alimento ideal para a maioria dos latentes, e que após esta idade deve continuar a ser administrado com alimentos complementares, pelo menos até os dois anos de idade e até quando a mãe e a criança queiram continuar com a amamentação, pois o leite materno é um alimento de alta qualidade, continua a ser uma fonte importante de energia, proteínas, vitaminas, minerais, aminoácidos essenciais e fatores de proteção. Com o leite materno os bebês não terão fome; quando doentes recuperam sua saúde rapidamente e a amamentação permite a continuação da relação especial mãe/bebê.

A atitude e os valores sobre amamentação formam-se desde cedo e parecem influenciar os comportamentos futuros. Constatou-se que, embora a maioria das crianças tivesse referido que mais tarde gostaria de amamentar ou que a mulher amamentasse os seus filhos, apenas cerca da metade mencionou que não teria vergonha de amamentar ou que a mulher amamentasse na presença de outras pessoas e, ainda, de gostar de ver uma mulher amamentando seu bebê em público. Anteriormente, constatuou-se que em sua maioria as crianças portuguesas não veem as mães amamentar fora do seu ambiente familiar, ou seja, em público, e tal vivência pode traduzir uma visão da criança sobre a amamentação com algumas reservas e tabus. Estes resultados foram também encontrados em estudo de outros autores(4,10,12), afirmando que, embora as crianças referissem que gostariam mais tarde de amamentar, teriam vergonha de amamentar em público.

A totalidade das crianças opinou que amamentar é bom e foi também elevado o número que considerou que amamentar é melhor para o bebê. No entanto, vale referir que as noções de que amamentar aleija a mãe e que a mãe fica com as mamas caídas também fazem parte do imaginário das crianças do estudo.

Houve ainda crianças que tiveram opinião sobre o aleitamento para além dos aspetos apresentados, verificando-se que se centraram sobretudo na característica protetora que a amamentação tem sobre as doenças. Esta noção é apenas para a criança e não está tão veiculada para a saúde das mães. Também aqui os resultados encontrados são semelhantes ao do estudo desenvolvido pelos autores com as crianças brasileiras(12).

Ainda que se tenha tido oportunidade de observar que grande número de meninos(as) considera que o leite materno é o melhor alimento para o bebê, existem já presentes nessa faixa etária alguns conceitos equivocados e desconhecimento sobre outras vantagens da amamentação. Veja-se que nenhuma criança foca vantagens da amamentação para o ambiente ou para a sociedade e são poucas as que referem as vantagens da amamentação para a mãe.

 

CONCLUSÃO

Este estudo mostrou que, embora grande número de crianças soubessem que foram amamentadas, são muitas as oportunidades que se perdem no domicílio de difundir e promover o aleitamento materno, pois poucas são as crianças que veem as mães amamentarem os seus irmãos. Também, não percebem a participação ativa do pai no processo de amamentação e outras fazem uso de chupeta e, em sua maioria, fala-se pouco sobre a amamentação. Também nas escolas estas oportunidades se perdem, pois são apenas algumas crianças que referem que são os(as) professores(as) que lhes falam de amamentação, tendo os profissionais de saúde um papel pouco ativo, e grande número mencionou não haver qualquer imagem alusiva à amamentação nos ambientes escolares. Ainda na comunidade em que residem, também se verifica esta perda de oportunidade, pois não é habitual ver mães amamentando quando se passa pelos jardins ou ambientes públicos. Os meios de comunicação social e os livros que as crianças habitualmente utilizam também não lhes transmitem uma cultura de amamentação e, sobretudo, os seus brinquedos potencializam brincadeiras que favorecem o uso de mamadeira e consequentemente a alimentação artificial.

Apurou-se ainda que nem todas as crianças sabiam o que era amamentar e que o leite materno é o melhor alimento para os bebês nos primeiros meses de vida. Desconheciam algumas vantagens da amamentação e já tinham presente falsos conceitos.

Mesmo as crianças afirmando que mais tarde gostariam de amamentar ou que as mulheres amamentassem os seus filhos, teriam vergonha de o fazer ou que o fizessem em público.

Perante tais resultados, afigura-se necessário desenvolver estratégias de intervenção com as famílias, escolas e profissionais de saúde que visem a sensibilizar para a importância de incutirem, desde cedo, nas crianças, valores e práticas de aleitamento materno de forma que elas vejam a amamentação como algo natural, que faça parte da sua cultura, da sua educação, do seu meio familiar e de seu cotidiano. Urge implementar medidas educativas e promotoras da amamentação pelos profissionais de saúde, junto das crianças, como estratégia de intervenção em saúde escolar. Estas atividades desenvolvidas pelos profissionais de Enfermagem, que fazem parte das equipes de saúde escolar, e também pelos professores, devem ter presente o empowerment, princípio básico da promoção da saúde.

Este estudo traz elementos importantes para o desenvolvimento de futuras pesquisas, utilizando outras metodologias que possam explorar e construir construtos acerca do que as crianças sabem e aprendem sobre amamentação e os aspetos subjetivos implicados nesse processo, seja no cenário escolar ou em outro. Sendo este um tema e objeto ainda pouco explorados, houve dificuldade e limitação para a pesquisa do estudo, uma vez que não se encontrou pesquisas realizadas com crianças portuguesas ou de outros países da Europa sobre esta temática. Esta pesquisa confrontou-se apenas com os resultados de três estudos realizados com crianças brasileiras confirmando que, em particular na sociedade portuguesa, este tema importante pouco tem sido estudado junto à criança, denotando sua notória relevância.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Dulce Maria Pereira Garcia Galvão
Rua Nossa Sra. do Pranto, 51
3140-304 - Pereira MMV - Portugal

Recebido: 30/04/2010
Aprovado: 21/12/2010