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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.5 São Paulo Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000500005 

ARTIGO ORIGINAL

 

Atitudes e comportamentos de adolescentes em relação à ingestão de bebidas alcoólicas*

 

Actitudes y comportamiento de adolescentes en relación a la ingestión de bebidas alcohólicas

 

 

Sílvio Éder Dias da SilvaI; Maria Itayra PadilhaII

IMestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Doutorando do DINTER/Universidade Federal do Pará/Universidade Federal de Santa Catarina/CAPES. Professor Assistente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal do Pará. Membro do Grupo de Estudos de História do Conhecimento de Enfermagem e Saúde e do Grupo de Pesquisa Educação, Políticas e Tecnologia em Enfermagem da Amazônia. Belém, PA, Brasil. silvioeder@ufpa.br
IIDoutora em Enfermagem. Professora Associada do Departamento de Enfermagem e da Pós- Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina. Pesquisadora do CNPq. Florianópolis, SC, Brasil. padilha@ccs.ufsc.br

Correspondência:

 

 


RESUMO

Pesquisa descritiva qualitativa que teve como objetivo analisar as atitudes dos adolescentes diante da ingestão de bebidas alcoólicas. Foram realizadas entrevistas com 40 adolescentes vinculados a uma instituição de apoio no Pará. A análise de conteúdo temático levou à seguinte categoria: atitudes e comportamentos em relação à ingestão de bebidas alcoólicas. O consumo da bebida alcoólica está associado a diversão, mas também significa um modo de não pensar nos problemas. Os adolescentes utilizaram outros tipos de drogas em alguns momentos, porém o uso do álcool é unanimidade. Concluiu-se que, para o adolescente, o álcool favorece a socialização e o prazer e que isso pode levar ao uso abusivo e contato com drogas ilícitas, como a maconha, a cocaína e o tíner.

DESCRITORES: Adolescente; Alcoolismo; Enfermagem em saúde pública; Enfermagem psiquiátrica.


RESUMEN

Investigación descriptiva cualitativa que tuvo como objetivo analizar las actitudes de los adolescentes ante la ingesta de bebidas alcohólicas. Se realizaron entrevistas con 40 adolescentes vinculados con una institución de apoyo en Pará. El análisis de contenido temático determinó la siguiente categoría: Actitudes y comportamientos en relación a la ingestión de bebidas alcohólicas. El consumo de bebidas alcohólicas está asociado con la diversión, pero también expresa un modo de no pensar en los problemas. Los adolescentes utilizaron otros tipos de drogas en algún momento, sin embargo, el abuso de alcohol es unánime. Se concluyó en que para el adolescente, el alcohol favorece su socialización y placer, y que eso puede llevar a su abuso y al contacto con drogas ilegales, como marihuana, cocaína y solventes aspirables.

DESCRIPTORES: Adolescente; Alcoholismo; Enfermería em salud publica; Enfermería psiquiátrica.


 

 

INTRODUÇÃO

O ato de consumir drogas é uma prática cultural do ser humano no transcorrer da história da humanidade, sendo que a maioria dos grupos sociais tem convivido com as drogas ao longo do tempo. A partir da década de 1960, o consumo abusivo de substâncias psicoativas tornou-se um problema de saúde pública devido ao aumento do consumo entre os adolescentes e os riscos danosos à saúde do usuário, além dos problemas sociais a elas associados. As primeiras experiências com drogas ocorrem geralmente na adolescência, visto que, nesta fase, o indivíduo é vulnerável do ponto de vista psicológico e social(1).

Os sentidos conferidos ao uso e abuso de drogas não se devem tanto às suas características químicas, mas sim aos seus atributos simbólicos, ao imaginário social e ao seu aspecto cultural. As drogas permitem que se demarquem domínios sociais e que se constituam distintas realidades em torno de certas normas(2).

Os números demonstrados pelo último Relatório Mundial sobre Drogas (2005) da Organização das Nações Unidas (ONU) assinalam, aproximadamente, 200 milhões de dependentes de drogas legais no mundo, com o predomínio de adolescentes. Esta disposição de aumento do consumo de álcool e de outras drogas já surgia nos resultados de um estudo exposto no livro Drogas nas Escolas, difundido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, ao término de 2002(3).

O uso de álcool no Brasil varia também de região para região. No Norte do país, o uso frequente de bebidas alcoólicas atinge 8,4% da população estudantil. Já na região Sul, a população que faz uso frequente é de 12,9%. Com relação ao que a população em geral afirma sobre o uso de álcool, as respostas também divergem ao longo do território nacional. Na região Norte, a população revela mais medo e insegurança do que no Sul do país. A região Sul considera, em linhas gerais, menos ofensivo à saúde o uso de bebidas alcoólicas. É interessante notar que há, no Sul, uma cultura de consumo do vinho, com a presença das culturas alemã e italiana modelando o saber beber e a maneira de se cultuar o vinho(4).

A prevalência da dependência de álcool no Brasil foi de 11,2%, sendo de 17,1% para o sexo masculino e 5,7% para o feminino. A prevalência de dependentes foi mais alta nas regiões Norte e Nordeste, com porcentagens acima dos 16%. Fato mais inquietante é a comprovação de que, no Brasil, 5,2% dos adolescentes (12 a 17 anos de idade) eram usuários e dependentes do álcool. No Norte e Nordeste, essa porcentagem ficou próxima dos 9%. Outro elemento advindo desse levantamento domiciliar foi o uso de uma ou duas doses de bebidas alcoólicas por semana, considerado um risco grave para a saúde por 26,7% dos respondentes(4).

O uso de bebidas alcoólicas pelos adolescentes pode ser percebido como um grave problema de saúde pública no Brasil. É necessário estudar essa parcela da população para desvelar suas representações sociais sobre o consumo de bebidas alcoólicas. Dessa forma, se poderá entender suas atitudes e comportamentos pertinentes ao uso de álcool.

A representação social pode ser entendida como uma forma de conhecimento, elaborada no meio social e compartilhada nele, tendo como objetivo contribuir para a construção da realidade comum a um determinado grupo social. Ela é denominada como saber do senso comum ou saber ingênuo, natural, diferenciando-se do conhecimento reificado ou erudito, mas é tida como um objeto de estudo igualmente legítimo devido à sua importância na vida social e à elucidação que possibilita dos processos cognitivos e das interações sociais(5).

A compreensão das representações sociais dos adolescentes sobre a questão das bebidas alcoólicas e, mais precisamente, sobre o alcoolismo favorece conhecer o entendimento que eles têm sobre esse objeto psicossocial no seu cotidiano, e, por sua vez, como elas influenciam suas práticas. Estas podem ser identificadas como uma atitude e um comportamento que o adolescente adotará quando estiver frente ao objeto aqui mencionado. A partir desta contextualização, destaca-se a necessidade de se desvelar o universo do alcoolismo centrando-se na história de vida dos adolescentes, para poder compreender suas atitudes e comportamentos adotados frente à droga.

 

OBJETIVO

Analisar as atitudes de um grupo de adolescentes que participam de uma instituição de apoio no Pará frente à ingestão de bebidas alcoólicas.

 

MÉTODO

Este estudo é descritivo-exploratório, com abordagem qualitativa, e utiliza o método de história de vida para captar as representações sociais dos sujeitos do estudo acerca do tema. Este método configura-se como uma vertente da história oral, sendo um autêntico e eficiente instrumento de investigação quando o pesquisador atribui um aspecto científico a seu estudo(6).

A história de vida consiste na narrativa contada pelo sujeito, servindo como ponte de interação entre o indivíduo e o meio social, tendo como sua principal característica a preocupação com o vínculo entre pesquisador e sujeito. Assim, ocorre uma produção de sentido tanto para o pesquisador quanto para o pesquisado. A abordagem qualitativa foi selecionada porque permite investigar o objeto de estudo por meio da apreensão do universo subjetivo de um determinado grupo de indivíduos. Esta modalidade de estudo tem como fundamento uma relação dinâmica, uma interdependência viva entre o indivíduo e o objeto, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade do sujeito(7). Sendo assim, por meio da captação dos relatos da população estudada, sabe-se a realidade objetiva que a circunda. O método histórico possibilita a compreensão do universo do adolescente a partir de seu passado, com a construção de suas representações sociais sobre o alcoolismo, que serão primordiais para sua tomada de atitude frente à prática social de consumo de bebidas alcoólicas.

O campo de pesquisa foi o Projeto Tribos Urbanas, um programa da Prefeitura Municipal de Belém, criado há dois anos, com o objetivo de atender jovens e adolescentes que se envolvem com gangues. A iniciativa visa retirá-los das ruas e inseri-los em atividades socioeducativas(8). Os sujeitos do estudo foram 40 adolescentes de ambos os sexos, sendo 30 do sexo masculino e 10 do sexo feminino. Os critérios de inclusão foram: estar na faixa etária entre 12 e 20 anos; fazer parte do programa e ter a permissão dos adolescentes e de seus responsáveis legais para a participação no estudo. O período da coleta de dados foi de março a julho de 2009.

A técnica de coleta das narrativas para produção de fontes orais foi a entrevista semiestruturada, técnica fundamental para captação de dados, pois a fala que emerge, a partir de sua realização, é reveladora de categorias estruturais, de princípios, valores, normas e símbolos e ao mesmo tempo tem a magia de transmitir, por meio de um porta-voz, as representações de grupos determinados, em condições históricas, socioeconômicas e culturais específicas(9). Nos trabalhos de representações sociais, é necessário trabalhar com um grupo social, pois somente nele é elaborado o conhecimento consensual. Por esse motivo, o quantitativo de sujeitos da pesquisa precisa ser representativo de um grupo.

Utilizou-se a técnica de saturação de dados, que diz respeito à repetição dos discursos como forma de delimitar a amostragem deste estudo(10). A pesquisa obedeceu aos preceitos éticos da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, sendo aprovada pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Pará, recebendo o protocolo 004/08 CEP-ICS/UFPA. Ao término das entrevistas, foi realizada a transcrição. Para trabalhar as informações, optou-se pela análise temática, que consiste na significação que se desprende do texto, permitindo sua interpretação sob o enfoque da teoria que guia o estudo. Essa técnica de análise propicia conhecer uma realidade por meio das comunicações de indivíduos que sejam vinculados a ela(11).

Buscou-se desdobrar a análise temática em três etapas: a 1ª é a pré-análise, que consistiu na seleção e organização do material, quando realizamos a leitura flutuante e a constituição do corpus; a 2ª é a exploração do material e a 3ª, o tratamento dos dados(11). Ao final da análise, chegou-se à seguinte categoria temática: Atitudes e comportamentos em relação à ingestão de bebidas alcoólicas, que se desdobrou em duas subcategorias: O consumo do álcool em suas diversas formas e situações e Álcool: um caminho para outras drogas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Atitudes e comportamentos em relação à ingestão de bebidas alcoólicas

A atitude é um mecanismo psicológico estudado, principalmente em seu desenrolar, em relação ao mundo social e em conjunção de valores sociais, ou seja, trata-se de uma posição específica que o indivíduo ocupa em uma ou várias dimensões pertinentes para avaliação de uma entidade social determinada. Um tipo de medida de atitude refere-se à avaliação do comportamento. Este tipo de indicador possibilita superar a falta de sinceridade nas medidas de autodescrição, produzindo observações em meio natural, impossível por meio de medidas corporais. Desse modo, as técnicas comportamentais mais importantes neste domínio referem-se à observação de comportamentos reveladores de atitudes que passam despercebidas pelos sujeitos(12). Em outras palavras, a atitude é o pensar e o comportamento, sua concretização.

Esta categoria evidencia as atitudes e os comportamentos dos adolescentes frente ao uso do álcool e se desdobra em duas subcategorias: o consumo nas suas diversas formas e situações, na qual se observa que entre as bebidas alcoólicas mais consumidas pelos adolescentes está a cerveja, empregada em situações de lazer e diversão; e álcool: um caminho para outras drogas, em que foi possível notar que os efeitos de prazer produzidos pela alta ingestão etílica propiciaram o acesso dos jovens ao uso de outras drogas psicoativas ilícitas, tais como: maconha, cocaína e tíner.

O consumo do álcool em suas diversas formas e situações

O álcool presente em bebidas alcoólicas é o etanol, proveniente da fermentação de vegetais, frutas e grãos. No Brasil há uma diversidade de bebidas alcoólicas, entre elas a cerveja, esta, talvez, a mais utilizada nacionalmente. É também a de menor teor alcoólico, porém seu consumo está associado a grandes quantidades. Parte dos entrevistados relatou ingerir somente cerveja, quanto ao tipo de bebidas alcoólicas utilizadas, como observado nos relatos a seguir.

Eu tomo somente cerveja, eu tomo sempre quando eu saio para ir para festa todo final de semana. Eu bebo para não ficar de porre, um dia desse eu fui para uma festa e tinha um menino que pediu que secasse um copo, eu disse que não era tão alcoólatra assim para secar um copo. Na festa eu só bebo para brincar e me divertir, se divertir mesmo! Até porque tem gente que bebe para fazer confusão, pois sou eu não, eu fico quieta e não mexo com ninguém. E entro na festa meia-noite e saio por volta das três horas da madrugada, eu só tomo duas latinhas, assim eu não fico de porre. Depois que eu bebo a festa melhora (E1).

A bebida alcoólica que eu consumo é somente cerveja quando estou nas festas com meus amigos, mas bebo só para curtir a festa e nos finais de semana (E4).

Eu consumo cerveja. Nas festas eu costumo beber pouco, mas quando brigo com meu namorado ou com minha mãe bebo muito, bebo porque fico magoada e para esquecer os problemas (E6).

Cerveja, eu bebo em festa, eu vou de vez em quando, umas duas ou três vezes no mês. Bebo até acabar o dinheiro. Na escola eu não bebo, em casa minha mãe não bebe, só meu padrasto bebe, mas nem todo o final de semana. Eu não me dou muito com ele, porque ele mesmo de porre ou bom me trata mal, eu sou mais a minha mãe mesmo (E11).

O consumo de bebida alcoólica entre os adolescentes entrevistados está associado, em sua maioria, à diversão, à alegria, mas também, para alguns, significa um modo de não pensar nos problemas. Identificou-se também que o fato da ingestão somente de cerveja, em relação às demais, infere no indivíduo não ser alcoolista, uma vez que na concepção dos entrevistados o indivíduo, para ser considerado alcoólatra, não consome somente uma singularidade de bebidas e, sim, um conjunto diversificado delas.

Cabe ressaltar que qualquer bebida alcoólica consumida inadequadamente pode acarretar dependência química e, consequentemente, sua toxicidade pode provocar sérios danos à saúde, com o surgimento e/ou agravamento de doenças e maior incidência de traumatismos e/ou ferimentos; problemas psicológicos e psiquiátricos, que incluem agressividade, depressão, doenças de ansiedade e crises psicóticas relacionadas ao álcool; problemas sociais e interpessoais, conflitos familiares relacionados à violência doméstica, resultados de uma variedade de efeitos físicos e/ou psicológicos traumáticos, tanto a curto quanto a longo prazo, entre os membros da família do consumidor irresponsável(13).

Outro ponto a se destacar diz respeito ao consumo de bebida alcoólica estar intimamente ligado a interações sociais. Em muitos momentos, o uso indiscriminado cresce devido à grande facilidade de acesso, em outros, este processo ocorre devido ao ambiente favorecer maiores condições de consumo, como é o caso das festas de aparelhagens, muito comuns no estado do Pará, onde o adolescente depara-se facilmente com a bebida. Esta possui importante significado na inserção dos grupos ali presentes. As ideias expostas a seguir afirmam tais colocações.

Eu bebo cerveja e vinho, e eu só bebo em festa, mas bebo pouco, com dois copos eu já paro. Eu vou para festa todo final de semana, as festas que eu gosto são aquelas de aparelhagem (E3).

Bebo cerveja e vinho, vou pra festa de aparelhagem, mas eu parei, de vez em quando dá vontade, mas eu num vou. Parei mais um pouco quando eu entrei no projeto, me afastei um pouco mais dos meus amigos (E10).

Eu bebo álcool, cerveja, vinho, às vezes cachaça, mas é mais vinho mesmo. Bebo mais em festa, eu vou uma ou duas vezes no mês, não direto, vou na festa de aparelhagem, a melhor é do Superpop. Já bebi em casa, na escola, já fiquei foi é muito porre na escola. Era aniversário de um colega meu, aí a gente comprou um vinho e uma cachaça e ficou bebendo lá, aí quando chegou ao final da festa tava todo mundo porre e todo mundo foi pra diretoria. A gente tava bebendo atrás do colégio, ele era muito grande e tinha uma mata lá e a gente foi beber lá (E12).

Eu tomo latinha, assim, normal nas festas, e também tomo uísque. Eu só bebi uma vez na escola, eu emprestei o meu cartão para um menino, ele não queria me dar, aí, eu o esfaqueei. Eu só consumo bebida alcoólica quando vou para as festas de aparelhagem nos finais de semana (E16).

Percebe-se que o repertório de bebidas alcoólicas consumidas pelos adolescentes está centrado na ingesta de cerveja, porém existe o uso de bebidas destiladas, como o uísque e a cachaça, que são ingeridas posteriormente ao uso da cerveja, devido ao seu teor alcoólico mais acentuado. É possível notar que os adolescentes ingerem álcool mais nos finais de semana, durante a realização de festas chamadas de aparelhagens, que consistem em caixas enormes de alto-falantes, distribuídas em um local fechado onde ocorrem festas regidas por sons regionais, entre eles, o tecnobrega(a).

Tomando como aporte os relatos, pode-se inferir que a interação social para os adolescentes implica no consumo de bebidas alcoólicas, visto que para a inserção do adolescente em um determinado grupo social é necessário, em dados momentos, a experimentação de novas sensações e, entre elas, a ingestão da bebida alcoólica. O simples participar de uma festa implicou no consumo de álcool por parte dos adolescentes, fato este identificado na maioria das ideias.

O adolescente, com seus modos específicos de se comportar, agir e sentir, só pode ser entendido a partir da relação que se estabelece entre ele e os adultos. Essa interação se institui de acordo com as condições objetivas da cultura na qual se insere. Condições históricas, políticas e culturais diferentes produzem transformações não só na representação social do adolescente mas também na sua interioridade.

O adolescente deve ser compreendido no contexto da sociedade na qual está inserido, pois indivíduo e sociedade são entrelaçados. Em muitos momentos, a relação indivíduo e sociedade aparece como interação entre elementos separados. Às vezes, o indivíduo é caracterizado como mera reprodução da sociedade e, em outras, independente dela, como se existisse um paralelismo entre eles. A subjetividade, porém, é construída na organização social e cultural na qual os indivíduos estão inseridos. Entretanto, nem sempre foi entendido dessa forma, pois o privado era percebido como subjetivo, no sentido de independente da sociedade. Os elementos básicos que constituem o psiquismo - os afetos, os desejos, as emoções e a vontade - eram vistos como independentes da sociedade e como inerentes ao eu(14).

A capacidade de interagir com as pessoas se relaciona com as habilidades sociais do indivíduo, que, por sua vez, facilitam o estabelecimento de relações mais próximas com as pessoas. Assim, a falta de habilidade social pode prejudicar a adaptação do indivíduo ao meio, trazendo consequências que transitam desde dificuldades em fazer amigos até o desenvolvimento de condutas antissociais e de risco. Os adolescentes que são socialmente aceitos por seus pares recebem reforço, melhorando, assim, sua adaptação, não apenas na área social, mas também na área pessoal e escolar. Percebe-se que a conduta sociável entre os adolescentes muitas vezes está centrada no consumo de bebidas alcoólicas com seus pares.

Nesta subcategoria, destacam-se o consumo de bebidas alcoólicas com predomínio da cerveja e como o adolescente não condiciona esse tipo de bebida como uma forma de ingesta diária. Observa-se, também, que o adolescente acredita que este tipo de bebida não propicia a dependência química, porém, como contém álcool, o consumo de cerveja pode ocasionar problemas quando feito de forma abusiva, inclusive a dependência química.

1.2 Álcool: um caminho para outras drogas

Mesmo não sendo considerado pela maioria da sociedade, o álcool é uma droga, apesar de seu consumo ser considerado legal em determinadas situações e proibido ou não-recomendado quando representa perigo para o consumidor e à ordem pública. Neste contexto, nota-se ainda que o álcool é a primeira droga com a qual crianças e adolescentes entram em contato e, dependendo das formas de consumo, pode abrir portas para as demais drogas. Isso pode ser confirmado pelos relatos a seguir.

Agora eu tomo somente vinho, mas, tipo assim, eu tomo dois copos e paro, até porque a namorada não deixa. Eu só tomo quando a gente vai pra praça andar de skate, às vezes aniversário que é no final de semana. Na escola eu nunca tomei, mas tenho muitos amigos que levam álcool para o colégio dentro da mochila e quando a gente ia para quadra jogar bola eles ficavam tomando lá. Quando eu ia para as festas, também rolava muita droga: maconha, pasta de cocaína. Eu comecei a ir para festa aos 17, nos meus 18 anos eu consumia muita bebida alcoólica nas festas, cansei de chegar de porre em casa, até caindo já cheguei em casa. Eu já caí de moto por causa do porre, mas hoje eu só consumo no final de semana, só quando eu tô com vontade, mas não bebo todo dia como antigamente, além de fumar maconha e pasta (E2).

Em casa não bebo porque a vovó não deixa, e na escola também eu bebia com os amigos. Eu tenho muitos amigos que consomem álcool no colégio. Às vezes a gente fumava uma maconha ou cocaína em pasta. Há pouco tempo que eu criei um pouco de vergonha na cara e já fiquei um pouco mais sem ir pra festas. Antigamente eu ia muito e era muita droga que rolava por lá, tipo pasta, pó (E7).

Eu bebia muito álcool com os meus amigos, a gente também consumia maconha e tíner, para nos deixar mais loucos (E22).

De acordo com os depoimentos acima, constatou-se algo já esperado, pois esta é a realidade de muitos países subdesenvolvidos. O fato é de que muitos jovens iniciaram o consumo de álcool, entre eles os mais citados, cerveja e vinho, e, após o contato com o etanol, utilizaram as drogas ilícitas, geralmente a cocaína nas apresentações em pasta e em pó. Além dos tipos de drogas citados, em muitos relatos os adolescentes mencionaram, também, a inalação do tíner, substância utilizada como solvente de tinta e vernizes, geralmente encontrado em oficinas de automóveis, que, quando inalado, possui efeitos similares à cola de sapateiro, como letargia e alucinações.

Fato importante a ser ressaltado nas falas dos entrevistados foi que muitos mencionaram a utilização de outros tipos de drogas, porém referem ter parado com as drogas ilícitas, mas permaneceram com as bebidas alcoólicas, sendo a cerveja e o vinho mais frequentes. Esta concepção reforça que no imaginário popular a bebida alcoólica não representa um tipo de droga, seja pelo seu caráter lícito ou por seu consumo histórico.

A adolescência é a faixa etária de maior vulnerabilidade para experimentação e uso abusivo de substâncias psicoativas (SPA), tanto as lícitas - bebidas alcoólicas e cigarros - como a associação com outras SPAs, consideradas ilícitas(15). A vulnerabilidade dos adolescentes (experimentação e uso precoces), em geral, está relacionada a diversos fatores, inerentes à juventude - onipotência, busca de novas experiências, ser aceito pelo grupo, independência, desafio da estrutura familiar e social, conflitos psicossociais e existenciais -, assim como aspectos relacionados à família - estrutura, apoio, presença de drogadição(16).

O uso das drogas é fonte de socialização e uma linguagem do adolescer, mas, quando acontece de forma abusiva, constitui-se num problema que pode repercutir em todo o processo posterior de vida do jovem. Embora a atenção do adolescente esteja voltada para fora do lar e centrada nos grupos de colegas e amigos, para compreendê-lo, torna-se necessário inseri-lo no contexto sociocultural integrado à cultura que fornece as bases para o seu desenvolvimento(17).

Foi uma vez que um moleque me deu maconha uma vez pra eu provar, eu tinha 13 anos, fui convidar ele pra dar uma volta e ele falou que não queria, pois já estava ligado. Ele falou: ei tenho uma coisa aqui pra ti, e me deu e eu não sabia o que era, quando senti o cheiro tava só maconha, eu disse que não queria, mas ele haja querer colocar na minha mão e eu não tive como tirar, aí, dei uns pega (E23).

As influências ruins eu tive mais na rua, fora do colégio. Sabe, os colegas me chamavam para jogar bola e eu ia, lá eles já estavam fumando maconha, bebendo e eu costumava ficar somente olhando isso. Mas com a morte da minha mãe, eu me revoltei e comecei a usar também (E2).

Quando eu tinha 14 anos, uns amigos me ofereceram maconha, eu não queria, mas eles insistiram até eu fumar, que foi o que aconteceu. Depois da maconha, eu consumi com os colegas a cocaína em pó e em pasta (E34).

Os fatores de risco e proteção dos adolescentes, em relação a álcool e drogas, podem ser identificados em todos os campos da vida: nos indivíduos em si, nas suas famílias, em seu grupo de amigos, na sua instituição escolar e nas comunidades. Tais fatores não se apresentam de forma isolada, havendo entre eles considerável valor de influência social. Por esse motivo, afirma-se que o risco é maior em indivíduos que estão insatisfeitos com a qualidade de vida, apresentam saúde deficiente, não detêm informações minimamente adequadas sobre a questão de drogas, têm fácil acesso às substâncias e integração comunitária deficiente(18).

Nesta subcategoria, foi possível compreender como as bebidas alcoólicas são consumidas pelos adolescentes e como estas favorecem que o adolescente comece a consumir outros tipos de drogas, como a maconha, a cocaína e o tíner. É preciso elaborar diversas estratégias para prevenção do uso de álcool e outras drogas ilícitas.

 

CONCLUSÃO

O emprego do método de história de vida centrada na Teoria das Representações Sociais mostrou-se relevante para compreender o universo do consumo de bebidas alcoólicas por parte dos adolescentes, assim como a relação com estas no seu cotidiano.

Este estudo possibilitou compreender as atitudes e os comportamentos dos adolescentes frente às bebidas alcoólicas, como elas são responsáveis pela socialização e como propiciam, no imaginário social, um prazer. Contudo, evidencia-se que o consumo de bebidas alcoólicas pode se tornar abusivo ou mesmo acarretar a dependência química.

Percebe-se que as bebidas alcoólicas são usadas pelos adolescentes de forma abusiva e que este uso ocasiona um prazer que o jovem busca intensificar com o uso de drogas mais pesadas, sendo que as que foram consumidas pelos depoentes do estudo foram a maconha, a cocaína e o tíner. Por isso, evidencia-se que as bebidas alcoólicas serviram como droga de acesso às drogas ilícitas.

O uso de álcool entre adolescentes é, naturalmente, um tema controverso na sociedade e no meio acadêmico brasileiro. Ao mesmo tempo em que a legislação define como proibida a venda de bebidas alcoólicas para menores de 18 anos, a ingestão é uma prática comum entre os jovens, seja no ambiente domiciliar, em festividades ou mesmo em ambientes públicos. A sociedade como um todo adota atitudes paradoxais frente ao tema: por um lado condena o abuso de álcool pelos jovens, mas é tipicamente permissiva ao estímulo do consumo por meio da propaganda.

 

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Correspondência:
Sílvio Éder Dias da Silva
Trav. 25 de Setembro, 1965 - Apto. 901 - Marco
CEP 66093-005 - Belém, PA, Brasil

Recebido: 05/01/2010
Aprovado: 31/01/2011

 

 

* Extraído da tese "História de vida e alcoolismo: representações sociais sobre o alcoolismo", Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina, 2010.

(a) Modalidade de música típica do Pará.