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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.5 São Paulo Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000500018 

ARTIGO ORIGINAL

 

O Centro de Atenção Psicossocial no cotidiano dos seus usuários*

 

El Centro de Atención Psicosocial en el cotidiano de sus pacientes

 

 

Cíntia NasiI; Jacó Fernando SchneiderII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil. cintianasi@yahoo.com.br
IIEnfermeiro. Doutor em Enfermagem. Professor do Departamento de Assistência e Orientação Profissional e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, RS, Brasil. jaco_schneider@uol.com.br

Correspondência:

 

 


RESUMO

O estudo teve por objetivo compreender o cotidiano de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Trata-se de um estudo qualitativo, tendo como referencial teórico-metodológico a sociologia fenomenológica de Alfred Schutz. O campo do estudo foi um CAPS localizado em Porto Alegre e os sujeitos entrevistados constituíram-se em 13 usuários. A coleta de dados ocorreu entre abril e junho de 2008, por meio de entrevista com uma questão norteadora. Na análise compreensiva dos depoimentos, emergiram cinco categorias concretas e este artigo relata sobre a categoria denominada: Os usuários consideram o CAPS como uma dimensão do seu cotidiano. Com essa pesquisa pôde-se compreender as concepções que os usuários têm acerca do seu cotidiano, demonstrando que estão (re)adquirindo o convívio social em diversos espaços da sociedade. Considera-se que os CAPS estão promovendo, além do atendimento, a reabilitação psicossocial dos seus usuários.

DESCRITORES: Saúde mental; Reabilitação; Serviços de Saúde Mental; Enfermagem psiquiátrica; Desinstitucionalização.


RESUMEN

El estudio objetivó comprender el cotidiano de pacientes de un Centro de Atención Psicosocial (CAPS). Estudio cualitativo que utilizó como referencial teórico-metodológico la sociología fenomenológica de Alfred Schutz. El campo de estudio fue un CAPS en Porto Alegre, y los sujetos entrevistados consistieron en 13 usuarios. La recolección de datos se realizó entre abril y junio de 2008, mediante entrevista con pregunta orientadora. En el análisis comprensivo de los testimonios, emergieron cinco categorías concretas. Este artículo se explaya en la categoría denominada: Los usuarios consideran al CAPS como una dimensión de su cotidiano. Con esta investigación pueden comprenderse las concepciones que los pacientes tienen acerca de su cotidianeidad, demostrando que están (re)adquiriendo la convivencia social en diversos espacios de la sociedad. Se considera que los CAPS están promoviendo, además de atención, la rehabilitación psicosocial de sus pacientes.

DESCRIPTORES: Salud mental; Rehabilitación; Servicios de Salud Mental; Enfermería psiquiátrica; Desinstitucionalización.


 

 

INTRODUÇÃO

O presente estudo está inserido na temática do cotidiano de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Esta modalidade de serviço representa a reorientação do modelo de atenção em saúde mental de um modo asilar, com o foco na doença mental e com o hospital psiquiátrico como principal meio de tratamento, para o modo psicossocial, com o olhar para o sujeito em sofrimento, considerando-o inserido em determinado grupo social, com o atendimento pautado por serviços substitutivos, organizados em uma rede de atenção em saúde mental.

Essa mudança do modelo de atenção passa a ocorrer com o movimento da reforma psiquiátrica brasileira, iniciada no final da década de 1970 e que se caracteriza por ser um processo que faz questionamentos quanto ao modelo psiquiátrico tradicional, centrado no manicômio e marcado quase que exclusivamente pelo papel de um profissional da saúde, o psiquiatra. Tal movimento busca reorientar esse modelo de atenção para que se faça a desinstitucionalização do cuidado em saúde mental, o que implica não somente na criação de serviços que substituam o manicômio, mas também em novas maneiras de enxergar e de lidar com a loucura.

Com a reforma psiquiátrica, busca-se adotar a noção de atenção psicossocial, que compreende uma abordagem mais ampla de cuidado em saúde mental, com a inserção de diferentes disciplinas do conhecimento e a inserção do usuário como fundamental ator social(1). Nesse sentido, a atenção psicossocial inclui um conjunto de ações teórico-práticas, político-ideológicas e éticas, norteadas pela pretensão de substituírem o modo asilar e o próprio paradigma da psiquiatria, e propõe-se à abertura para a inclusão de inovações nesse campo(2).

Uma dessas inovações, que busca substituir o modo asilar e operar com outra conotação teórica e técnica que não a da psiquiatria tradicional, é o CAPS. Seus pressupostos destacam o atendimento aos sujeitos em sofrimento psíquico, assim como a reabilitação psicossocial, visando promover o exercício da cidadania, maior grau de autonomia possível e interação social.

A reabilitação psicossocial é uma estratégia que implica numa mudança de toda política dos serviços de saúde mental e envolve os profissionais, os usuários, os familiares dos usuários e a comunidade em geral. A reabilitação é um processo de reconstrução, um exercício pleno de cidadania e de plena contratualidade em três cenários: habitat, rede social e trabalho como valor social(3).

Essa restituição do exercício da cidadania é um desafio amplo no país para a conquista e garantia de manutenção de direitos das pessoas e especialmente na saúde mental. Ela se torna central quando se defende a mudança de paradigma, quando se tira o foco da doença e se amplia o campo de intervenções para a existência-sofrimento dos sujeitos(4).

Consideramos importante, especialmente para as pessoas que ingressaram recentemente no serviço ou mesmo para aquelas que possuem distúrbios mentais crônicos, que o CAPS ofereça meios para os sujeitos interagirem socialmente, mas também possibilite ao próprio usuário (re)construir/fortalecer suas relações e vínculos em seu meio social, para que ele não se torne dependente deste único tipo de serviço, mas sim que ele dependa - ou acesse - variados espaços na sociedade. Dependentes todos nós somos, entretanto, alguns usuários dependem excessivamente de poucas relações, o que acaba por diminuir sua autonomia. Assim, os usuários serão mais autônomos quanto mais dependentes forem de tantas mais coisas puderem ser, ampliando as suas possibilidades de estabelecer novas normas, novos ordenamentos para a vida(5).

Com as vivências acadêmicas e profissionais que temos tido com pessoas em sofrimento psíquico e pela importância que atribuímos à estruturação de serviços substitutivos ao modo asilar, em particular aos CAPS, despertaram-nos inquietações acerca de que elementos constituem o cotidiano de usuários dessa modalidade de serviço.

Essa investigação no âmbito da cotidianidade dos usuários de um CAPS se faz pertinente, já que no trabalho com a saúde mental a equipe de profissionais deve possibilitar aos usuários o reinventar da vida em seus aspectos mais cotidianos, uma vez que é principalmente do cotidiano que se encontram privados os sujeitos em sofrimento psíquico(6).

Assim, enquanto enfermeiros que atuam no cenário do campo psicossocial, o que nos motivou a realizar esse estudo foi a necessidade de compreender o que os usuários fazem quando estão fora do espaço do CAPS, em que espaços sociais eles circulam, compreender em que o serviço vem colaborando para que os seus usuários se relacionem fora do seu espaço, se eles vêm interagindo na sociedade ou se permanecem em certo isolamento social no CAPS.

As proposições que tivemos para a pesquisa foram: ocorreram mudanças no cotidiano dos usuários após o ingresso no CAPS? Será que com o ingresso no CAPS os usuários passaram a realizar novas atividades na comunidade e a frequentar novos lugares? Será que o CAPS está favorecendo a reabilitação psicossocial dos usuários?

Este estudo torna-se relevante já que poderá auxiliar as equipes de saúde mental a conhecerem a compreensão que os usuários têm do seu cotidiano após terem ingressado em um CAPS, além de proporcionar que equipes reflitam sobre a maneira como vêm trabalhando, subsidiando possíveis reestruturações em seu trabalho que se façam necessárias para a assistência em saúde mental.

O estudo teve como objetivo compreender o cotidiano de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial na perspectiva da sociologia fenomenológica de Alfred Schutz.

 

REFERENCIAL TEÓRICO-FILOSÓFICO

Optamos por utilizar a sociologia fenomenológica de Alfred Schutz para compreender o cotidiano de usuários de um CAPS. A sociologia fenomenológica procura ouvir os sujeitos, considerando suas subjetividades, na tentativa de revelar a essência do fenômeno.

Nas pesquisas em saúde mental, especialmente nas que vão em direção ao fortalecimento do movimento da reforma psiquiátrica, se faz pertinente a utilização do referencial teórico-metodológico da sociologia fenomenológica de Schutz, já que tanto na saúde mental quanto na sociologia fenomenológica se quer dar voz aos sujeitos, considerando as suas singularidades, desejos e subjetividades. É necessário voltar-se para os sujeitos com a finalidade de apreender as suas vivências no mundo da vida cotidiana, que é um mundo intersubjetivo, compartilhado entre os semelhantes.

Nesse estudo utilizamos o referencial proposto por Schutz de mundo da vida cotidiana, considerando-se que é nesse que se dão as vivências dos sujeitos, no qual ocorrem os seus relacionamentos. O mundo da vida cotidiana é entendido como um mundo natural e social e é o cenário que põe limites às ações humanas. O ser humano não só atua dentro do mundo, mas também sobre ele. O mundo da vida cotidiana é a região da realidade em que o ser humano pode intervir e modificá-lo enquanto age nele mediante seu corpo. Somente neste âmbito, o ser humano pode ser compreendido por seus semelhantes e interagir juntamente a eles(7).

 

MÉTODO

Trata-se de um recorte de dissertação de mestrado, de caráter qualitativo, de abordagem fenomenológica, com a utilização do referencial teórico-filosófico da sociologia fenomenológica de Alfred Schutz, em que tivemos a intenção de ouvir as vivências dos sujeitos acerca de determinado fenômeno. A trajetória fenomenológica procura estabelecer um contato direto com o fenômeno que está sendo vivido, sendo que para compreender esse fenômeno é preciso buscar a descrição da experiência pelos sujeitos que o vivenciam(8).

Este estudo foi realizado em um CAPS localizado no município de Porto Alegre, estado do Rio Grande do Sul. A escolha do campo foi intencional, em função deste local ser campo de estágio de docência e de extensão universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Foram entrevistados 13 usuários do CAPS, escolhidos de forma aleatória, e os 13 constituíram-se nos atores do estudo. Todas as entrevistas foram realizadas no CAPS. Dos 13 usuários entrevistados, nove são mulheres e quatro homens, as idades variam de 25 a 56 anos, oito são solteiros, cinco são separados e um é casado. Quanto ao regime de tratamento no CAPS, dez usuários são do regime semi-intensivo e três do regime não-intensivo.

A coleta dos dados ocorreu por meio de entrevista fenomenológica, com uma questão orientadora: Fale para mim o que o(a) senhor(a) faz nos seus dias. As entrevistas foram gravadas em fita cassete e posteriormente transcritas na íntegra. As entrevistas foram realizadas no período de abril a junho de 2008. Tivemos o cuidado em conduzir a entrevista na instância fenomenológica, ouvindo os sujeitos sem senso crítico de julgamento, buscando interagir numa abordagem compreensiva. Cabe destacar que já mantínhamos uma relação de proximidade e vínculo com os usuários entrevistados, devido às atividades profissionais e acadêmicas desenvolvidas junto a esses, o que favoreceu o relacionamento entre pesquisador e pesquisado no momento das entrevistas.

A coleta de dados foi encerrada mediante a repetição acentuada das informações coletadas nas entrevistas com os sujeitos do estudo. Com a finalidade de manter o sigilo, os entrevistados foram identificados na redação pela sigla E acompanhada do número correspondente à ordem das entrevistas (de E1 a E13). O nome dos profissionais do serviço que foram citados pelos sujeitos foram substituídos por Terapeuta.

Para desvelar as vivências expressas nos discursos dos usuários do CAPS acerca do seu cotidiano, realizamos a análise fenomenológica das informações que emergiram das entrevistas, seguindo os seguintes passos(9): a)leitura dos discursos; b)identificação da questão orientadora no discurso e a busca por afirmações que apresentem significados; c)postura reflexiva frente às afirmações significativas para realizar a descrição do que está expresso; d)busca de convergências das unidades de significado, por meio da análise fenomenológica, reunindo afirmações significativas para construir as unidades temáticas; e)compreensão vaga e mediana dos discursos a partir das unidades temáticas e f) a interpretação compreensiva a fim de revelar a compreensão do modo que os usuários vivenciam o seu cotidiano.

Com o agrupamento de convergências que emergiram das entrevistas, construímos cinco categorias concretas que expressam que o usuário vivencia o seu cotidiano da seguinte maneira: experienciando o sofrimento psíquico; desempenhando diversas atividades; considerando o CAPS como uma dimensão do seu cotidiano; destacando o trabalho como relevância intrínseca e estabelecendo relações sociais. A discussão destas informações que emergiram nas falas dos usuários foi realizada tendo por base o referencial de Alfred Schutz, além de utilizarmos a literatura da área da saúde mental para enriquecer as discussões. Neste artigo, nos propusemos a trabalhar com a categoria concreta em o usuário considera o CAPS como uma dimensão do seu cotidiano.

Nesta pesquisa foram observados os aspectos éticos sobre a pesquisa envolvendo seres humanos. Foi garantido o sigilo e anonimato dos sujeitos participantes da pesquisa por meio da assinatura do consentimento livre e esclarecido. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Secretaria Municipal de Saúde do Município de Porto Alegre, sob o parecer nº 001.006314.08.2.

 

RESULTADOS

Com a compreensão de que os usuários consideram o CAPS como uma dimensão do seu cotidiano, esse cotidiano é visto como o mundo da vida cotidiana que, de acordo com Alfred Schutz, é a região da realidade em que o ser humano pode intervir e modificá-lo enquanto age nele, mediante seu corpo. Somente neste âmbito o ser humano pode ser compreendido por seus semelhantes e interagir juntamente com eles. O mundo da vida cotidiana é a realidade fundamental e eminente do sujeito(7) .

O mundo social, no qual está inserido o cotidiano dos sujeitos, é permeado por relacionamentos sociais e por dimensões da organização social. Ao falarem sobre o seu cotidiano, os usuários apontam o CAPS como uma dimensão significativa, relatando que o serviço é muito bom, e apontam o CAPS como uma local em que obtêm ajuda e em que se sentem seguros com relação ao tratamento, como evidencia-se nas seguintes falas:

[...] então eu me sinto bem quando venho para cá (E3).

[...] estou me sentindo muito bem aqui [...] eu sou muito feliz aqui dentro (E12).

Além de os usuários relatarem que se sentem bem no CAPS, eles reconhecem que o atendimento nesta modalidade de serviço contribui para que não precisem de hospitalizações, como identifica-se na fala de E1:

E se não fosse aqui não sei o que seria de mim, que aqui para mim é muito bom [...] Aqui no CAIS eu acho bom para mim, que aí não precisa ir ao hospital, então aqui foi uma coisa boa para mim [...] (E1).

O atendimento em serviços no modo psicossocial, como o CAPS, favorece para que os usuários não necessitem de hospitalização, já que nesse modo a hospitalização deve aparecer como o último recurso terapêutico no atendimento, privilegiando-se a atenção em serviços ambulatoriais, inseridos na comunidade dos usuários. Os usuários também falam da importância dos profissionais do serviço, considerando-os como pessoas fundamentais para o seu tratamento e demonstrando relacionamentos de confiança e o estabelecimento de vínculo com esses.

[...] aqui o pessoal é muito legal [...] eu não sei o que seria da minha vida se não fosse a minha terapeuta [...] (E2).

[...] para mim é muito importante o sentido que faz a psiquiatria para mim, as pessoas da enfermagem [...] a assistente social, a psicóloga, psiquiatra, [...] quando eu preciso que não estou bem de saúde eles me ajudam bastante [...] (E12).

Além dessas demonstrações da importância que a equipe de profissionais do CAPS representa para o atendimento aos sujeitos em sofrimento psíquico no CAPS, os entrevistados apontam também para a necessidade de o próprio usuário ter força de vontade e se ajudar no tratamento.

[...] tem que ter bastante força de vontade para se tratar, que não adianta tu vir para cá fazer tudo e tu mesmo não querer [...] (E3).

[...] é importante a ajuda do médico, mas é importante que eu me ajude também (E12).

Os entrevistados relatam que participam de diversas oficinas terapêuticas no CAPS e demonstram que gostam da participação dessas, considerando-as importantes, como podemos identificar na fala que segue:

[...] venho para as oficinas, cada dia tem uma oficina, [...] a de segunda é que eu mais gosto é de culinária, a gente faz, a gente traz as receitas [...] e a gente desenvolve, tem dias que tem pizza, tem dias que tem coisas bem gostosas e eu gosto muito dessa oficina [...] tem a oficina de beleza que ajuda a gente a valorizar nosso ser e é uma oficina que dá uma autoestima, pintura de mãos, lava os cabelos [...] as oficinas são bem legais, eu gosto (E2).

Os usuários apontam uma diversidade de atividades nas oficinas terapêuticas, que podem contribuir para a reorganização das suas vidas.

Alguns usuários do CAPS relatam em seus discursos sobre o cotidiano a ligação intersetorial que o serviço mantém com outros órgãos governamentais, como é o caso da articulação com abrigos do município. Essa articulação aparece na seguinte fala:

Eu estou no abrigo, agora no momento estou no abrigo [...] mas tem ligação aqui com o CAIS, que faço meu tratamento (E11).

Assim, o CAPS aparece enquanto uma das dimensões do cotidiano dos usuários desse serviço de saúde mental. O serviço é referido como um local que proporciona um bom atendimento, facilitando para que os usuários não necessitem de hospitalização, gerando segurança quanto ao tratamento disponibilizado. Os usuários referem satisfação com a equipe de profissionais que integra o CAPS com relatos que demonstram confiança e relações de vínculo com esses. Além disso, surgem nos discursos elementos importantes do CAPS como a realização de oficinas terapêuticas e a existência de articulações do serviço com abrigos.

 

DISCUSSÃO

O CAPS representa a reorientação do modelo de atenção em saúde mental de um modo asilar, com o foco na doença mental e com o hospital psiquiátrico como principal meio de tratamento, para o modo psicossocial, com o olhar para o sujeito em sofrimento, considerando-o inserido em determinado grupo social, com o atendimento pautado por serviços substitutivos, organizados em uma rede de atenção em saúde mental. O tratamento no CAPS vem contribuindo para amenizar o sofrimento psíquico de seus usuários, gerando mudanças no dia-a-dia e possibilitando uma retomada de suas vidas

Os usuários do estudo consideram o CAPS como um local que disponibiliza um atendimento ambulatorial, na comunidade, não estando a base do tratamento centrada nas hospitalizações. Desse modo, identifica-se o papel que o CAPS possui na vida dos sujeitos, configurando-se enquanto um serviço que possibilita que o usuário seja cuidado em seu domicílio, em contato com a sua família e a sua comunidade, não necessitando de segregação em instituições hospitalares.

A criação de serviços substitutivos ao manicômio, como o CAPS, iniciou-se com o processo de desinstitucionalização, que é um trabalho prático de transformação, que desmonta a solução institucional existente, o manicômio, para desmontar e remontar o problema. Transformam-se então os modos como as pessoas são tratadas, para transformar o sofrimento, já que o tratamento passa a ser entendido como um conjunto complexo e cotidiano de estratégias para enfrentar o problema em questão, considerando-se a existência-sofrimento dos sujeitos(10).

A desinstitucionalização é uma das metas preconizadas pelos CAPS, a qual é amparada por um processo de desconstrução do modo asilar, propondo vários dispositivos que possibilitam a construção e a invenção de novas perspectivas de vida e subjetividade. O CAPS tem demonstrado efetividade na substituição da internação de longos períodos, por um atendimento que não isola os usuários, mas que busca reinserir os sujeitos em sofrimento psíquico na família, na comunidade, na vida produtiva, por meio do resgate da autoestima e reestruturação de vínculos(11).

Os usuários remetem-se à importância dos profissionais do serviço, considerando-os como pessoas fundamentais para o seu tratamento e demonstrando relacionamentos de confiança e o estabelecimento de vínculo com esses. Criar vínculos significa nos sensibilizarmos com o sofrimento do outro, daquela população. É permitir o estabelecimento de um processo de transferência entre o usuário e o trabalhador que possa servir à construção da autonomia do próprio usuário. É sentir-se responsável pelo usuário, integrando-se com a comunidade em seu território, no serviço e se tornar referência para ele(12).

Alguns usuários do CAPS percebem na atuação dos profissionais que esses propiciam espaços de acolhimento, de escuta, de atenção e de apoio(13). Consideramos que na saúde mental o uso do eu do terapeuta é fundamental na relação com o sujeito em sofrimento psíquico, na qual a escuta serve enquanto um dos elementos dessa relação. A escuta é estabelecida no encontro face a face entre o terapeuta e o usuário, ou seja, quando ambos se comunicam compartilhando o mesmo tempo e o mesmo espaço(14).

Os usuários do CAPS demonstram a necessidade de estarem implicados com seu tratamento, possuírem força de vontade e sentirem-se corresponsabilizados pela sua melhora. É fundamental essa tomada de consciência dos usuários sobre a importância de estarem motivados, engajados em seu tratamento e não apenas ficarem passivos à espera de intervenção da equipe do CAPS. Isso se faz fundamental, sobretudo no tratamento no modo psicossocial em que é necessário que os usuários participem ativamente do seu tratamento, que tenham autonomia e responsabilização.

Outro aspecto presente no atendimento dos usuários no CAPS é a participação em oficinas terapêuticas no serviço, as quais podem se configurar em uma ferramenta para auxiliar na reorganização da vida dos usuários. As oficinas, assim como o trabalho e a arte, podem funcionar como catalisadores da construção de territórios existenciais, nos quais os usuários possam reconquistar o seu cotidiano(6).

Além disso, a valorização das atividades em grupo, que propõem e facilitam a interação social, é fundamental para atender os propósitos da atenção psicossocial, devendo-se atentar para que essas sejam espaço tanto de construção material, como a realização de alguns produtos; quanto subjetiva, propiciando o diálogo e o convívio social(15).

Destaca-se também a ligação que o CAPS possui com outros setores da comunidade, como por exemplo a relação que estabelecem com abrigos do município. Essa relação do CAPS com outros serviços é fundamental no atendimento aos sujeitos em sofrimento psíquico, fazendo-se necessária uma ampliação dessas trocas aos diversos serviços da comunidade, para assim constituir uma troca intersetorial.

O cuidado aos sujeitos em sofrimento psíquico necessita ser visto por visões que vão além do modelo asilar, com a expansão para o campo residencial, esportivo, de trabalho, recreacional e cultural. Isto indica a necessidade de mudanças no conceito de saúde, indicando a necessidade de um atendimento ampliado e, possivelmente, baseado na intersetorialidade(16).

A articulação dos serviços da rede de saúde mental com serviços de outras áreas se faz pertinente e necessária, já que neste campo não basta o oferecimento de dispositivos ligados à saúde, mas sim de setores de cultura, lazer, moradia, justiça, serviço social, que possibilitem maior circulação dos sujeitos em sofrimento psíquico no espaço da cidade, promovendo a reinserção social e o resgate da autonomia.

 

CONCLUSÃO

Com essa pesquisa, tivemos o objetivo de compreender o cotidiano de usuários de um CAPS. Assim, voltamos o nosso olhar aos sujeitos, usuários do CAPS, com a finalidade de apreender as suas vivências no mundo da vida cotidiana. No estudo, buscamos agir em uma abordagem compreensiva, não fazendo pré-julgamentos ou tendo preconceitos com os sujeitos, de acordo com a perspectiva da redução fenomenológica, ou epoché.

O CAPS é um importante dispositivo de atenção em saúde mental que está se configurando como uma das dimensões do cotidiano dos usuários; porém, não a única dimensão, como era o caso de longas institucionalizações em hospitais psiquiátricos, no modo asilar. Por ser um serviço de atenção diária, possibilita aos usuários que permaneçam em suas casas, em contato com a família, participando do convívio social. Essa modalidade de serviço está se pautando pelo estabelecimento de vínculo entre usuários, profissionais e familiares, fundamental na construção de um cuidado singularizado e integral.

A existência de estratégias no CAPS - como oficinas terapêuticas - torna o atendimento prazeroso para os usuários, promovendo, além do tratamento, a socialização entre os participantes e o desenvolvimento de atividades, como na oficina de beleza e na de culinária. Oficinas como essas, além de um cunho terapêutico, também incentivam os usuários ao desenvolvimento dessas ações não somente no CAPS mas também em suas casas, contribuindo para o exercício da autonomia no seu cotidiano.

Outra estratégia importante utilizada no CAPS é o estabelecimento de parcerias intersetoriais com diversos órgãos da sociedade, as quais devem ser cada vez mais consolidadas, como forma de oferecer um atendimento integral aos sujeitos em sofrimento psíquico.

Com essa pesquisa, pudemos constatar que o atendimento no modo psicossocial, em especial nos CAPS, vem propiciando que os usuários se (re)insiram na sociedade, participem de diversas ações sociais que não eram permitidas com o atendimento marcado pela institucionalização em hospitais psiquiátricos.

Esperamos que com essa pesquisa as equipes de saúde e, dentre essas, as equipes de enfermagem, possam refletir sobre a necessidade de se voltarem para os usuários dos serviços para apreender as suas vivências, ampliando o olhar para a realidade social que esses sujeitos estão inseridos.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Cíntia Nasi
Rua Duque de Caxias, 1350/107 - Centro
CEP 90010-281 - Porto Alegre, RS, Brasil

Recebido: 26/03/2009
Aprovado: 14/01/2011

 

 

* Extraído da dissertação "O cotidiano de usuários de um Centro de Atenção Psicossocial na perspectiva da sociologia fenomenológica", Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009.