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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.5 São Paulo Oct. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000500019 

ARTIGO ORIGINAL

 

Caracterização de pacientes de unidade de internação psiquiátrica, segundo grau de dependência do cuidado de enfermagem

 

Caracterización de pacientes de unidad de internación psiquiátrica, según grade de dependencia de cuidados de enfermería

 

 

Roselena Pechoto de OliveiraI; Ana Maria LausII

IBacharel em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Bolsista de Iniciação Científica (PIBIC/USP - CNPq). Enfermeira da Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Municipal do Dr. Mário Gatti. Campinas, SP, Brasil. rosepechoto@gmail.com
IIEnfermeira. Professora Doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. analaus@eerp.usp.br

Correspondência:

 

 


RESUMO

Este estudo teve por objetivo caracterizar o grau de dependência em relação ao cuidado de enfermagem dos pacientes internados na unidade de psiquiatria de um hospital de ensino, utilizando um instrumento para classificação do nível de dependência em enfermagem psiquiátrica. Foram classificados 11,07 pacientes/dia na enfermaria de psiquiatria (EPQU) e 7,76 pacientes/dia na enfermaria de psiquiatria de internação breve (EPIB), sendo a taxa média de ocupação dos leitos nestas unidades de 79,1% e 86,3%, respectivamente. Houve predominância de pacientes do sexo feminino (55,8%) e da faixa etária entre 20 a 30 anos (34,8%). O grau discreto de cuidado de enfermagem prevaleceu tanto na EPQU (62,7%) como na EPIB (61,8%). A investigação possibilitou conhecer as demandas de cuidados de enfermagem dessa clientela e forneceu elementos que apontaram para a necessidade de novos estudos referentes à composição do quadro de pessoal de enfermagem para esta unidade.

DESCRITORES: Transtornos mentais; Saúde mental; Cuidados de enfermagem; Enfermagem psiquiátrica; Recursos humanos de enfermagem.


RESUMEN

Estudio que objetivó caracterizar el grado de dependencia en relación al cuidado de enfermería de pacientes internados en Unidad Psiquiátrica de Hospital de Enseñanza, utilizando Instrumento para Clasificación de Nivel de Dependencia en Enfermería Psiquiátrica. Fueron clasificados 11,07 pacientes/día en Enfermería Psiquiátrica (EPQU) y 7,76 pacientes/día en Enfermería Psiquiátrica de Internación Breve (EPIB). La media de ocupación de camas en las unidades fue de 79,1% y 86,3% respectivamente. Hubo predominio de pacientes de sexo femenino (55,8%) y de faja etaria entre 20 y 30 años (34,8%). Prevaleció el grado discreto de cuidados de enfermería tanto en EPQU (62,7%) como en EPIB (61,8%). La investigación posibilitó conocer demandas de cuidados de enfermería de estos pacientes y proveyó elementos que determinaron la necesidad de nuevos estudios referentes a la composición del cuadro de personal de enfermería para esta unidad.

DESCRIPTORES: Trastornos mentales; Salud mental; Atención de enfermería; Enfermería psiquiátrica; Personal de enfermería.


 

 

INTRODUÇÃO

A previsão do quantitativo e do qualitativo de pessoal de enfermagem é um processo que depende do conhecimento da carga de trabalho existente nas unidades de assistência de enfermagem das diferentes instituições de saúde. Esta é definida como o produto da quantidade média diária de pacientes assistidos, segundo o grau de dependência da equipe ou do tipo de atendimento, pelo tempo médio de assistência de enfermagem utilizada, por cliente, de acordo com o grau de dependência e atendimento realizado(1).

Pacientes com exigências assistenciais diversas consomem quantidades diferenciadas de assistência, implicando, seguramente, em diferentes níveis de absorção de recursos (tempo, trabalho, material etc)(2).

Dimensionar a quantidade de trabalhadores de enfermagem necessários à assistência nos serviços de saúde implica em identificar e caracterizar a clientela no que se refere à demanda de cuidados. Uma das ferramentas de natureza administrativa utilizada para atender a essa finalidade é o Sistema de Classificação de Pacientes (SCP), considerado a primeira etapa do processo de dimensionamento de pessoal de enfermagem, mas também recurso pelo qual é possível monitorar a produtividade e custos dos serviços de enfermagem(3).

O SCP surgiu da exigência das organizações de saúde de racionalizar o trabalho e, consequentemente, os recursos humanos e materiais, e procura classificar os pacientes a partir da complexidade do atendimento diário que requerem da equipe de enfermagem, resultando em uma atenção integral às suas necessidades. Da aplicação deste sistema, obtém-se a quantidade de horas que o paciente de um determinado grupo necessita do trabalho de enfermagem.

Um Sistema de Classificação de Pacientes (SCP) determina a demanda ou exigências do paciente em termos de cuidados de enfermagem, com base nas suas necessidades, nas intervenções apropriadas da enfermagem e nas prioridades do cuidado. Seu resultado permite reconhecer a variabilidade do nível de cuidado entre diferentes pacientes ou de um único paciente em diferentes dias de hospitalização(4).

Entre as principais vantagens de um Sistema de Classificação de Pacientes aplicado à Enfermagem, tem-se a de fornecer informações detalhadas e confiáveis sobre as exigências de assistência de enfermagem sob a forma de horas, e os parâmetros adotados para classificar os pacientes podem ser aplicados em realidades e contextos diversos, geralmente, incluindo o grau de dependência/independência do cliente. Tais parâmetros buscam caracterizar os aspectos críticos relativos a determinadas (in)capacidades do paciente como de alimentar-se, movimentar-se, de cuidar de si e a necessidade de cuidados de enfermagem. Alguns sistemas contemplam não apenas os procedimentos diagnóstico-terapêuticos (intervenções de enfermagem), mas também as atividades de observação e aquelas de natureza relacional(2).

É possível evidenciar o desenvolvimento, ao longo dos anos, das investigações sobre sistemas de classificação de pacientes no Brasil e no mundo, como subsídios para os enfermeiros responsáveis pela gerência de recursos humanos de enfermagem nas instituições de saúde, o que pode ser compreendido como uma preocupação constante da Enfermagem em razão do comprometimento com a qualidade do cuidado, bem como das questões legais e de saúde do trabalhador(5).

Neste cenário, estudo realizado no Brasil evidenciou o predomínio de instrumentos de classificação que contemplam pacientes de unidades médicas e cirúrgicas e restringem-se a identificar as exigências de cuidado nas necessidades humanas básicas, na avaliação clínica, avaliação médica e/ou com iminência de risco de vida. Ressalta ainda o estudo que os aspectos psíquicos não são abordados, o que torna difícil a aplicação em pacientes psiquiátricos, visto que estes instrumentos não atendem às suas particularidades(6). A autora do estudo baseou-se em sua vivência quando necessitou estruturar um serviço de internação de pacientes com transtornos psiquiátricos, deparando-se com a escassez de bibliografia a respeito do dimensionamento da equipe de enfermagem nesta especialidade e identificando a necessidade de realização de estudos no âmbito gerencial sobre o cálculo de profissionais necessários para assistir com qualidade um paciente psiquiátrico ou mesmo identificar quantos pacientes psiquiátricos um profissional da equipe de enfermagem conseguiria atender terapeuticamente.

O número de profissionais de Enfermagem envolvidos nas atividades de cuidar ou assistir o doente mental, bem como suas qualificações, encontra-se diretamente relacionado ao melhor desempenho da equipe e à melhora do quadro psiquiátrico do paciente internado. Entretanto, para se determinar a quantidade de horas de prestação de cuidados em enfermagem psiquiátrica, faz-se necessário um dimensionamento peculiar face às múltiplas e variadas demandas de cuidados dos pacientes psiquiátricos.

A literatura apresenta poucos sistemas de classificação de pacientes psiquiátricos, porém, desde 1982, pesquisadores desenvolvem trabalhos procurando testar, validar e reavaliar SCP psiquiátricos por intermédio de aferição do tempo investido por atividades(6).

No que se refere à estruturação do atendimento a pacientes portadores de transtornos mentais, verificou-se um incremento na criação de unidades psiquiátricas em hospitais gerais como uma contribuição ao estabelecimento de uma relação de inserção do doente mental num espaço de tratamento preferencialmente ocupado pelos demais pacientes acometidos por patologias clínicas. Tal iniciativa decorreu das diretrizes emanadas pelo Sistema Único de Saúde referente às condições institucionais para a implantação de novas políticas de saúde no Brasil, entre as quais, a de Saúde Mental(7-8).

Neste contexto, torna-se necessário instrumentalizar o gerenciamento de enfermagem com elementos que venham subsidiar o planejamento de recursos humanos para o atendimento desta clientela face à inexistência de uma legislação específica que contemple unidades desta natureza em um contexto de hospital geral. Nesta perspectiva, foi desenvolvido e validado o Instrumento para Classificação do Nível de Dependência em Enfermagem Psiquiátrica(9), pioneiro no Brasil, que se constitui em uma ferramenta de apoio aos enfermeiros psiquiátricos de modo a permitir que o paciente atendido recupere e/ou mantenha o máximo de sua autonomia e cuidado de si mesmo, porém ainda sujeito à observação da equipe de enfermagem responsável por seu bem-estar dentro da instituição.

Diante do exposto, em decorrência da atuação profissional em um hospital de ensino, em atividades de ensino, pesquisa e extensão e da relevância de questões relatadas pelos enfermeiros responsáveis pelo gerenciamento da unidade de internação de psiquiatria desta instituição, referentes ao quadro de pessoal e face às características dos pacientes internados que apresentam demandas assistenciais específicas e complexas em relação à enfermagem, foi realizada esta investigação.

O principal objetivo foi caracterizar os pacientes internados na Unidade de Psiquiatria de um hospital de ensino, segundo as variáveis sexo e idade, e classificá-los segundo o grau de dependência em relação ao cuidado de enfermagem.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo descritivo com abordagem quantitativa. O campo de estudo foi o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP - USP), localizado no município de Ribeirão Preto. A investigação foi realizada na Unidade de Internação de Psiquiatria, composta por 23 leitos distribuídos em 14 leitos na Enfermaria de Psiquiatria (EPQU), que atende uma clientela constituída por pacientes maiores de 13 anos, psicóticos em crise aguda e/ou com sintomas psicóticos associados a doenças orgânicas; e nove leitos na Enfermaria de Psiquiatria de Internação Breve (EPIB), destinada a pacientes em crise aguda, com idade superior a 12 anos e que necessitam de internação de curta duração em hospital geral, até seu encaminhamento para outros serviços da rede pública de saúde mental ou alta hospitalar. Além da assistência médica e de enfermagem, nesta unidade são desenvolvidas atividades de terapia ocupacional e de psicologia.

A coleta de dados foi realizada após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP (Protocolo HCRP nº 3557/2007).

Para caracterização dos pacientes internados, segundo o grau de dependência quanto à assistência de enfermagem, foi utilizado como instrumento de coleta de dados o Sistema para Classificação do Nível de Dependência em Enfermagem Psiquiátrica(9), que possui estruturação nos aspectos psíquicos e nas necessidades do paciente com transtornos mentais. É composto por 11 indicadores críticos do cuidado, a saber: cuidados com a aparência e higiene, expressão e pensamento, humor, atividades, interação social, alimentação e hidratação, sono, medicação, eliminações, sinais vitais e outros controles, queixas e problemas somáticos. Cada um dos indicadores possui gradação de 1 a 3 pontos, objetivando identificar o nível de dependência dos pacientes atendidos quanto à intensidade crescente da complexidade da assistência necessária, sendo o nível 3 indicativo de maior grau de dependência.

Os pacientes foram classificados diariamente em todos os indicadores, em um dos três níveis, na opção que melhor descrevia sua situação em relação à assistência de enfermagem. A somatória dos pontos correspondentes a cada um dos 11 indicadores classificou os pacientes em uma determinada categoria de cuidado, a qual corresponde um escore de pontos, quais sejam: grau de dependência discreta (11 a 18), grau de dependência intermediária (19 a 26) e grau de dependência plena (27 a 33).

A avaliação e classificação ocorreram diariamente, sempre no período da tarde, entre 16h e 19h, durante o mês de outubro de 2007, totalizando 30 dias consecutivos conforme recomendado na literatura(5).

Os dados foram coletados pelas pesquisadoras que, além da análise exaustiva sobre a estrutura do instrumento, realizaram um treinamento específico junto aos enfermeiros da unidade, com ampla experiência clínica no atendimento desta clientela. Tal exercício proporcionou segurança quanto à avaliação dos pacientes e à respectiva classificação nas categorias de cuidado, garantindo uma padronização da coleta. Sempre que necessário, recorria-se à consulta aos prontuários dos pacientes, principalmente nas anotações de enfermagem. A partir da classificação diária dos pacientes internados nesta unidade, foi determinado o quantitativo médio de pacientes, por categoria de cuidado.

 

RESULTADOS

Foram classificados, durante o período de estudo (outubro de 2007), 43 pacientes internados na unidade selecionada. Quanto à caracterização desta população, os resultados segundo as variáveis sexo e idade estão apresentados nas Tabelas 1 e 2.

 

 

 

 

Nesta unidade, houve predominância do sexo feminino com 55,8%. A idade dos pacientes variou entre 12 a 69 anos, com maior percentual registrado entre 20 a 30 anos (34,8%). Neste grupo, a idade média foi de 37,4 anos e o desvio padrão de 15,7 anos.

Ao considerarmos a faixa etária entre 12 a 30 anos, esta representou 46,4% do total das internações, ou seja, quase a metade dos pacientes internados nesta unidade no período do estudo. Já o grupo de pacientes entre 30 a 50 anos compreendeu 25,6% da população investigada.

Frente a estes dados, procedeu-se à classificação dos pacientes segundo dependência do cuidado de enfermagem. Foram realizadas 565 classificações dos pacientes internados, distribuídas em 332 na EPQU e 233 na EPIB. A Tabela 3 apresenta os dados referentes ao período estudado.

Os resultados demonstram que mais de 60% dos pacientes internados foram classificados no grau de dependência discreta em relação ao cuidado de enfermagem, tanto na EPQU como na EPIB.

Pacientes com exigências de cuidado pleno, quase na totalidade, encontravam-se internados na Enfermaria de Psiquiatria de Internação Breve, podendo ser considerado um resultado esperado, uma vez que somente nesta unidade são realizados os atendimentos dos pacientes em crise aguda.

A média de pacientes/dia, que serviu de base de cálculo para a taxa média de ocupação, foi de 11,07 e 7,76, na EPQU e EPIB, respectivamente. A taxa média de ocupação foi superior a 79%, tanto na EPQU (79,1%) quanto na EPIB (86,2%).

 

DISCUSSÃO

Nesta unidade, estudos anteriores(10-11) já relataram a predominância do sexo feminino nas internações com percentuais que variavam de 51% a 56%. Investigação realizada também em uma unidade de internação psiquiátrica de um hospital geral caracterizou a população internada num período de 10 anos e esta se constituiu de 47,1% de mulheres(12). Dentre uma diversidade de estudos que procuram identificar relação entre sexo e presença de transtornos mentais, alguns apontam a existência de fatores que, quando associados, podem intervir negativamente no bem-estar psicológico feminino, porém não há evidências claras sobre aqueles que estariam envolvidos no desencadeamento dos transtornos psiquiátricos em mulheres(13).

Quanto à idade, 11,6% dos pacientes possuíam entre 12 e 20 anos. Neste período, que corresponde à adolescência, os indivíduos encontram-se numa fase de transição, requerendo maior atenção por parte dos pais e profissionais que lidam com essas pessoas, podendo estar associado a uma maior necessidade de horas de cuidado de enfermagem diferenciadas.

Na faixa etária dos 30 aos 50 anos, na qual os resultados deste estudo encontraram 25,6% dos pacientes internados, considera-se um período no qual o individuo está em plena maturidade, definido profissionalmente e apto a associar-se a outras pessoas em condições de igualdade, numa fase em que é considerado bastante produtivo. O quadro de adoecimento mental nos indivíduos nesta faixa etária deve ser analisado como um quadro preocupante, face a seus desdobramentos(10).

Ao descrever o perfil da clientela feminina admitida em um serviço de internação de um hospital psiquiátrico, estudo realizado por meio de revisão de prontuários, de um período de 10 anos, evidenciou o predomínio de pacientes internadas em idade produtiva (26-35 anos) e indicou a existência de forte associação entre os fatores biológicos predisponentes e os fatores psicológicos relacionados à sobrecarga de trabalho, problemas de ordem profissional, familiar e socioeconômica que incidem preferencialmente nessa faixa etária(13).

Os resultados quanto às características etárias encontradas possibilitam dizer que, à semelhança de outras investigações, neste estudo houve predominância dos pacientes na mesma faixa de idade. No estudo conduzido em 2005 nesta mesma instituição, a distribuição dos pacientes internados se constituiu de 34,6% entre 20 e 34 anos, 31,8% entre 35 a 59 anos e 14,9 % apresentavam idade superior a 60 anos(10). Em outra investigação realizada em um hospital geral, os pacientes da unidade de psiquiatria possuíam idade média de 35,9 anos(12), corroborando os achados desta investigação.

Com base na distribuição dos pacientes nos leitos da unidade de psiquiatria, foi calculada a taxa média de ocupação dos leitos que expressa a razão entre a média do número de leitos ocupados por clientes e o número de leitos disponíveis em um determinado período(14). Observou-se uma taxa média de ocupação da Unidade de Psiquiatria próxima a 82%.

Foi considerada a ocupação do leito no momento em que se procedia à classificação dos pacientes, não havendo correspondência com o censo hospitalar nesta data, pois se, durante a coleta de dados, o paciente não se encontrava na unidade, o leito era considerado vago.

Esses valores conflitantes, entretanto, podem estar sendo influenciados pelo fato que nos feriados e finais de semana (a partir de sexta-feira até segunda-feira pela manhã) os pacientes recebem alta licença. Tal medida compõe uma das estratégias de tratamento dos pacientes desta especialidade, considerando que esta unidade se articula com o movimento da reforma psiquiátrica, que procura evitar as internações prolongadas, a institucionalização, a perda de identidade, de vínculos sociais e da cidadania. Busca-se desenvolver nos pacientes que já possuem uma boa relação com a família e o meio social e que também apresentam melhor controle dos sintomas das doenças, maior aproximação e interação com o ambiente. Assim, a equipe de enfermagem, além da necessidade de construir um bom vínculo com o paciente para que a assistência seja garantida, precisa formar laços sólidos com a família para que exista a continuidade da assistência extra-hospitalar.

Ao se verificar o desempenho da instituição quanto à ocupação dos leitos de internação, identificou-se que as taxas na unidade de psiquiatria se aproximaram dos valores encontrados nas unidades médicas (variação entre 54,3 a 93,1%) e estiveram acima dos percentuais verificados nas unidades cirúrgicas (variação entre 43,4 a 60,2%), dados estes extraídos de um estudo(15) realizado neste mesmo hospital. Isto pode ser analisado como uma demanda expressiva pelos leitos de internação nesta especialidade desta instituição frente ao interesse crescente pela internação de psiquiatria em hospitais gerais no Brasil. A reestruturação da assistência psiquiátrica implica em atender às demandas da população de forma integrada aos diferentes níveis, garantindo ao hospital geral um papel estratégico, pois representam uma proposta assistencial que se articula ao movimento mais amplo da reforma psiquiátrica(10).

Os resultados da presente pesquisa referendam as considerações apresentadas em investigação semelhante, que considera a internação psiquiátrica, a despeito das múltiplas controvérsias que a cerca, um recurso terapêutico indispensável para muitos pacientes, sobretudo os mais graves(12). Corrobora tal afirmativa o estudo que identificou na cidade de Ribeirão Preto aproximadamente 8,5% das autorizações de internações hospitalares (AIH) pagas pelo Sistema Único de Saúde, no ano de 2002, e alocadas no Capítulo V da CID-10, que se refere aos transtornos mentais e comportamentais, representando o quarto lugar entre as causas que determinaram pagamento de internação hospitalar pelo SUS(16).

Quanto à distribuição dos leitos segundo categoria de cuidado, os dados apresentados na Tabela 3 disponibilizam as informações relativas à Unidade de Psiquiatria. Depreende-se que a maioria dos pacientes que ocupavam os leitos classificados nesta unidade, no período investigado, exigiu o nível de cuidado discreto (62,3%). Tal percentual de pacientes classificados reflete as características da unidade pesquisada e baseia-se num instrumento de classificação que foi construído com indicadores críticos essenciais à classificação de pacientes com transtornos psiquiátricos, baseado nas necessidades individualizadas de cuidado de enfermagem, ou seja, aquelas consideradas de assistência direta ao paciente. Embora para pacientes de outras especialidades já se tenha uma discussão mais avançada, há pouco conhecimento sobre quantos pacientes psiquiátricos um trabalhador de enfermagem consegue assistir terapeuticamente.

Outra questão identificada refere-se à presença constante dos familiares na unidade, por se tratar de uma diretriz auxiliar do tratamento dos pacientes adotada pelo Serviço de Psiquiatria desta instituição. Para os pacientes com idade entre 12 a 16 anos, o acompanhamento durante o período de internação tem sido obrigatório; para aqueles com idades entre 16 e 18 anos e maiores de 60 anos de idade, a presença é facultativa e, em casos especiais, a própria equipe de saúde solicita a permanência do familiar, como instrumento terapêutico coadjuvante. Porém, nem sempre estes familiares dispõem de preparo suficiente e adequado e/ou disposição para colaborar no cuidado, demandando um trabalho adicional particularmente para a enfermagem da unidade, tendo em vista o tempo de permanência prolongado junto aos pacientes.

Torna-se importante destacar que foi observado no período de coleta de dados, dentre outros aspectos referentes à organização desta unidade, que os enfermeiros dispõem de autonomia para alocar os pacientes considerados mais graves e complexos nas enfermarias próximas ao posto de enfermagem. Tal decisão tem facilitado o trabalho de vigilância por parte da equipe, principalmente nos plantões em que o contingente de profissionais é menor para atender toda a unidade de internação. Percebe-se a importância da planta física para uma unidade psiquiátrica, pois o espaço reproduz a necessidade de vigilância e controle do paciente psiquiátrico exercida por tanto tempo pela enfermagem.

Há de se considerar também que outras atividades compõem o trabalho da equipe de enfermagem nas 24 horas, pois esta unidade tem características bastante peculiares, como grupos terapêuticos, atendimentos com terapeuta ocupacional, passeios internos (no jardim do hospital) e externos (parque ecológico da cidade), para os quais a presença dos profissionais de enfermagem é fundamental e, consequentemente, demandariam um contingente de profissionais compatível com estas necessidades.

Evidencia-se que o instrumento utilizado para classificação dos pacientes psiquiátricos desta unidade possibilitou a identificação das características peculiares desta clientela. Porém, é necessário considerar que, para seu uso, os serviços devem concentrar a atenção no desenvolvimento da habilidade de observação dos enfermeiros e adotar critérios de acompanhamento deste processo, considerando o fato de que os indicadores de avaliação apresentam certo grau de subjetividade, pois alguns se relacionam ao comportamento do paciente e podem sofrer a interferência do ambiente, das relações enfermeiro-paciente, entre outras possibilidades(9).

Este estudo possibilitou a identificação do grau de dependência em relação aos cuidados de enfermagem exigidos pelos pacientes, mas também permitiu a identificação da existência de outras patologias associadas ao transtorno mental nestes pacientes internados, que demandam assistência diferenciada frente à instabilidade do ponto de vista físico-fisiológico. Considerando que o instrumento de classificação adotado apresentava uma constituição na qual predominam as peculiaridades da assistência de enfermagem psiquiátrica, evidencia-se a necessidade de ampliar as condições de avaliação clínica, pois estas sem dúvida têm demandado cuidados específicos e o desenvolvimento de habilidades clínicas por parte da equipe de enfermagem, somadas àquelas já requeridas na atenção ao paciente portador de transtorno mental.

A classificação do nível de dependência de pacientes psiquiátricos deve ser entendida como o primeiro passo para a realização do dimensionamento de pessoal de enfermagem para esta especialidade em unidades de internação. Isto porque falta à gerência de enfermagem elementos que auxiliem na determinação do quantitativo de profissionais de enfermagem face a inexistência no Brasil de uma legislação específica para subsidiar a estruturação de serviços de internação psiquiátricas. Neste aspecto, como forma de nortear o provisionamento de profissionais para esta especialidade, a Resolução 293/2004 do Conselho Federal de Enfermagem recomenda que

para efeito de cálculo, por leito, nas 24 horas, a classificação do paciente da área psiquiátrica deve tomar por base as características assistenciais específicas e deve iniciar um nível acima no SCP, ou seja, em cuidados intermediários(14).

Tal recomendação pode se constituir num direcionador para as instituições de saúde, porém a literatura tem mostrado a importância das instituições desenvolverem estudos específicos que atendam à sua realidade no que se refere ao conhecimento das variáveis que compõem o dimensionamento de pessoal de enfermagem.

 

CONCLUSÃO

A internação hospitalar é uma ação que requer tratamento especializado e intenso e, consequentemente, uma proporcionalidade de profissionais responsáveis pelos pacientes que possibilite uma assistência de enfermagem com qualidade.

Este estudo possibilitou o conhecimento sobre a clientela atendida na Unidade de Psiquiatria do HCFMRP - USP por meio da aplicação de um instrumento de classificação de pacientes que caracterizou o grau de dependência em relação ao cuidado de enfermagem. Embora tenha predominado pacientes que requereram cuidados discretos, foram encontrados pacientes em cuidados intermediários e plenos, demandando horas de cuidado diferenciadas na mesma unidade.

Apesar do trabalho árduo, somente através de observação sistematizada da realidade é possível se chegar ao conhecimento real das demandas de cuidado requeridas pelos pacientes e tempo despendido na assistência de enfermagem. A metodologia utilizada para a classificação dos pacientes mostrou-se adequada e passível de ser reproduzida em outras instituições, porém requer, para sua utilização, habilidades específicas, conhecimentos e experiência clínica sobre esta clientela.

Este estudo inicial permitiu a caracterização da clientela a partir desta perspectiva e sua relevância está no levantamento de características que possibilitarão a adequação da equipe de enfermagem às necessidades encontradas. Dessa forma, o estudo fornece subsídios para o planejamento e gerenciamento dos recursos humanos de enfermagem desta unidade, além de posteriores estudos a respeito da clientela e dos profissionais de enfermagem.

 

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Correspondência:
Ana Maria Laus
Av. dos Bandeirantes, 3900 - Campos Universitário da USP
CEP 14040-902 - Ribeirão Preto, SP, Brasil

Recebido: 08/06/2010
Aprovado: 14/01/2011