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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.spe São Paulo dez. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000700011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Utilização de ferramentas computacionais por idosos de um Centro de Referência e Cidadania do Idoso

 

Utilización de herramientas informáticas por ancianos en centro de referencia y ciudadanía de la tercera edad

 

 

Marcos Antonio da Eira FriasI; Heloisa Helena Ciqueto PeresII; Wana Yeda ParanhosIII; Maria Madalena Januário LeiteIV; Cláudia PradoV; Paulina KurcgantVI; Daisy Maria Rizatto TronchinVII; Marta Maria MelleiroVIII

IEnfermeiro. Mestre em Enfermagem. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Professor da Universidade Cidade de São Paulo - UNICID. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas de Tecnologia da Informação nos Processos de Trabalho em Enfermagem - GEPETE/EEUSP. São Paulo, SP, Brasil. mfrias@edu.unicid.br
IIEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Líder Grupo de Estudos e Pesquisas de Tecnologia da Informação nos Processos de Trabalho em Enfermagem - GEPETE/EEUSP. São Paulo, SP, Brasil. hhcperes@usp.br
IIIEnfermeira. Mestre em Enfermagem. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em Enfermagem. Diretora do Curso de Enfermagem da Universidade Cidade de São Paulo - UNICID. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas de Tecnologia da Informação nos Processos de Trabalho em Enfermagem - GEPETE/EEUSP. São Paulo, SP, Brasil. wparanhos@cidadesp.edu.br
IVEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas de Tecnologia da Informação nos Processos de Trabalho em Enfermagem - GEPETE/EEUSP. São Paulo, SP, Brasil. marimada@usp.br
VEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Líder Grupo de Estudos e Pesquisas de Tecnologia da Informação nos Processos de Trabalho em Enfermagem - GEPETE/EEUSP. São Paulo, SP, Brasil. claupra@usp.br
VIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Orientação Profissional e do Programa de Pós-Graduação em Gerenciamento em Enfermagem da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. pkurcg@usp.br
VIIEnfermeira. Professora Doutora do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. daisyrt@usp.br
VIIIEnfermeira. Professora Associada do Departamento de Orientação Profissional da Escola de Enfermagem Universidade São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. melleiro@usp.br

Endereço para correspondência:

 

 


RESUMO

Este estudo exploratório descritivo teve como objetivo identificar o uso de ferramentas computacionais por um grupo de idosos de um Centro de Referência e Cidadania do Idoso do município de São Paulo. Entre as 55 pessoas pesquisadas, foi evidenciado que 33 (60,0%) possuem computador em casa, 42 (76,4%) idosos afirmaram ter realizado curso para utilizar o computador, 22 (58,2%) usam o computador há menos de dois anos e 40 (85,5%) idosos usam a ferramenta por até 2 horas por dia. As ferramentas de comunicação mais usadas foram 41 (75,0%) correios eletrônicos, 25 (45,0%) comunicadores instantâneos e 17 (31,0%) sites de relacionamento. As finalidades de uso das tecnologias foram atualização e informação, pesquisas, diversão e comunicação com parentes e amigos. Conclui-se que o enfermeiro deve estar atento a este perfil tecnológico que se desenha junto à população idosa e buscar formas de inserir as ferramentas computacionais para auxiliar na assistência a este grupo.

Descritores: Tecnologia da informação; Idoso; Informática em enfermagem


RESUMEN

Estudio exploratorio, descriptivo, que objetivó identificar el uso de herramientas informáticas por grupo de ancianos de un Centro de Referencia y Ciudadanía de la Tercera Edad del municipio de São Paulo. Entre los 55 investigados, se determinó que 33 (60%) poseen computador en casa; 42 (76,4%) ancianos refirieron haber realizado cursos de computación; 22 (58,2%) usan computadoras desde hace menos de dos años y 40 (85,5%) ancianos usan la herramienta por hasta dos horas diarias. Las herramientas de comunicación más utilizadas fueron: correo electrónico (41 sujetos, 75,0%), comunicadores instantáneos (25 sujetos, 45,0%), redes sociales (17 sujetos, 31%). Las finalidades del uso de tecnologías fueron actualización e información, investigaciones, recreación y comunicación con parientes y amigos. Se concluye en que el enfermero debe estar atento a este perfil tecnológico que atrae a la población mayor y buscar formas de insertar las herramientas informáticas para ayudar en la atención de este segmento.

Descriptores: Tecnología de la información; Anciano; Informática aplicada a la enfermería


 

 

INTRODUÇÃO

Os computadores evoluíram de máquinas de calcular a máquinas de transmissão de informações interligadas em rede. Atualmente, a capacidade de processar e de armazenar dados está se deslocando dos computadores para o ciberespaço, onde a conexão total de vários tipos de aparelhos e tecnologias se dá por meio da convergência digital e, assim, transmitem informações em tempo real.

No contexto atual, o computador está presente direta e indiretamente no cotidiano das pessoas, seja como instrumento de trabalho, de lazer ou de armazenamento e fornecimento de dados por meio da internet, contribuindo para o surgimento de uma nova maneira de processar e comunicar a informação.

A implantação da internet deixou mais evidente os indivíduos que não fazem uso frequente do computador, conhecidos como excluídos digitais. A exclusão está relacionada, na maioria das vezes, ao baixo poder aquisitivo e à idade. No entanto, alguns estudos identificam que os idosos vêm buscando a inclusão digital(1).

Hoje em dia, vivencia-se a cultura da informática, a civilização da informação com o surgimento de uma nova temporalidade, a acumulação e o processamento das informações, a reformulação dos saberes, bem como a mudança dos hábitos, da sensibilidade e da inteligência(2).

A informação é um patrimônio, é algo de valor, é um instrumento essencial para o desenvolvimento social, econômico e profissional, seja ela transmitida verbalmente, pela escrita ou por meio da expressão corporal. Não se trata de um monte de bytes aglomerados, mas sim de um conjunto de dados classificados e organizados de forma que uma pessoa ou uma empresa possam tirar proveito(3).

Pode-se considerar que a essência da internet se resume na transmissão de dados e de informações na forma eletrônica com velocidade e alto nível de conectividade, apresentando oportunidade incomparável para o acesso e o compartilhamento da informação, gerando conhecimento(4).

Frente à evolução tecnológica de maneira vertiginosa, na atualidade, os idosos devem se apoderar dos meios tecnológicos para usá-los de modo consciente em prol da construção de uma nova imagem da velhice, tornando-se cidadãos participantes e ativos da sociedade do conhecimento e não somente um espectador passivo que utiliza os recursos gerados por outrem.

Para tanto, é necessário identificar o perfil da população idosa que faz uso do computador e das ferramentas computacionais, conhecer a realidade dessa parcela crescente da população em termos de acesso ao computador e à rede de informações e com quais finalidades usam o computador e a internet. Esse conhecimento permitirá que se desenvolvam políticas públicas voltadas para o desenvolvimento e aquisição de habilidades técnicas que permitam não só momentos de lazer, mas também de vivência da cidadania, prevenção de doenças, manutenção e cuidado da saúde.

Acredita-se que o enfermeiro tem um papel importante no atendimento ao idoso, não só em questões geriátricas, mas principalmente nas questões gerontológicas, visto que esse campo se abre cada vez mais como espaço de trabalho do enfermeiro. Sendo assim, o uso do computador e das ferramentas computacionais por enfermeiros e idosos pode contribuir para a efetivação da assistência, acompanhamento e orientação de idosos de maneira remota.

 

OBJETIVO

Identificar o uso de ferramentas computacionais por um grupo de idosos no Telecentro do Centro de Referência e Cidadania do Idoso - CRECI.

 

MÉTODO

O método adotado para o desenvolvimento deste estudo foi exploratório descritivo, na vertente quantitativa.

A pesquisa exploratória visa proporcionar maior familiaridade com o problema com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses. Assim sendo, pode envolver levantamento bibliográfico, entrevistas com pessoas que têm experiências práticas com o problema pesquisado, pesquisa bibliográfica ou estudo de caso. A pesquisa descritiva visa descrever as características de determinada população ou fenômeno ou o estabelecimento de relações entre variáveis. Esse tipo de pesquisa envolve o uso de técnicas padronizadas de coleta de dados que pode ser questionário e observação sistemática(5).

Este estudo é um desmembramento do projeto principal intitulado Tecnologia e qualidade de vida do idoso, que foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID), seguindo, assim, as recomendações da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, quando de pesquisa envolvendo seres humanos.

O local de estudo foi o Centro de Referência e Cidadania do Idoso (CRECI), situado na cidade de São Paulo, onde foi criado um Telecentro.

O CRECI é vinculado à Secretaria de Assistência Social do Município de São Paulo e nesse local são oferecidas, por meio de oficinas, atividades de cunho social, educativo e assistencial para, aproximadamente, 2.700 pessoas idosas(6).

O Telecentro oferece cursos para o idoso na área de tecnologia. É um local público destinado ao acesso e uso de informações disponíveis na rede, para desenvolver competências necessárias para o uso das tecnologias de comunicação e informação, diminuir disparidades socioeconômicas e desenvolver a cidadania(7).

A população alvo do estudo constituiu-se de 55 idosos que frequentavam ou desenvolviam atividades no Telecentro do CRECI nos meses de maio e julho de 2010 e que concordaram em participar do estudo, assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Para a coleta de dados, foi elaborado um questionário com questões relacionadas ao perfil dos idosos contendo variáveis relacionadas à idade, gênero, estado civil, grau de instrução, profissão, atividade laboral atual, bem como 16 questões relacionadas ao uso do computador, sendo duas abertas e 14 fechadas.

A análise dos dados foi apresentada pela frequência das respostas e percentagem.

 

RESULTADOS

Caracterização da população

Dos 55 idosos que participaram do estudo, identificamos que, quanto ao gênero, 32 (58,2%) são do sexo masculino e 23 (41,8%) do sexo feminino.

A distribuição dos idosos por faixa etária está apresentada na Figura 1.

 

 

A idade dos sujeitos da pesquisa variou de 52 a 87 anos, com a média de 66,8 anos, sendo que a maioria está na faixa etária entre 60 e 65 anos 15 (27,0%) e é casado - 25 (45,5%) -; seguido por 25,5% (14) de solteiros; 20,0% (11) de separados/divorciados e de 9,0% (5) viúvos.

Na Figura 2 está disposta a distribuição dos idosos em relação ao grau de instrução.

 

 

A Figura 2 mostra que a maioria, 27 (49,0%), tem ensino médio completo seguido por 10 (18%) que apresentam ensino superior completo.

Para a identificação do perfil profissional, utilizou-se a Classificação Brasileira de Ocupações (CBO)(9), sendo que, do total dos entrevistados, 10 (18,2%) são profissionais das ciências e das artes (engenheiro, advogado, contador, professor, enfermeiro); oito (14,5%) trabalhadores da produção de bens e serviços (pedreiro; tecelão; motoristas); oito (14,5%) outros (do lar); seis (10,9%) trabalhadores de serviços administrativos (auxiliar de escritório; técnico administrativo; bancário; funcionário público); 5 (9,1%) técnico de nível médio (auxiliar de enfermagem; técnico de enfermagem; massoterapeuta) e 11 (20,0%) não responderam.

Dentre os sujeitos, 44 (80,0%) são aposentados, 10 (18,2%) não são aposentados e um (1,8%) não informou se é ou não aposentado.

Dos idosos entrevistados, 31 (56,4%) não mantêm atividade laboral remunerada, 18 (32,7%) referem manter atividade laboral remunerada e seis (10,9%) não responderam.

A respeito da situação de moradia, 33 (60,0%) referem morar em casa própria, 15 (27,3%) casa alugada, quatro (7,3%) com parentes, um (1,8%) na casa de filho, um (1,8%) em Instituição de Longa Permanência de Idosos (ILPI) e um (1,8%) não respondeu.

Caracterização da utilização de ferramentas computacionais por um grupo de idosos

Em relação ao fato de ter computador na casa onde habita, 33 (60,0%) têm computador em casa e 22 (40,0%) não têm.

Dos 33 que referem ter computador em casa, 21 (63,7%) afirmam que o computador é próprio; sete (21,3%) que o computador é do filho; três (9,0%) não responderam de quem é o computador; um (3,0%) o computador é da ILPI e um (3,0%) refere que o computador é de outro parente.

Ainda da totalidade que refere ter computador na residência, 24 (73,0%) usam o computador de casa; três (9,0%) afirmam usar em casa e no trabalho; dois (6,0%) usam o computador somente no trabalho; um (3,0%) usa o computador no trabalho e na lan house e três (9,0%) afirmam não usar o computador em casa. A amostra que refere usar o computador somente no trabalho e na lan house e os que afirmam não usar o computador em casa, quando comparado com a pergunta de quem é o computador, observa-se que o computador é do filho ou de outros parentes.

 

 

Em relação à finalidade de uso do computador, foi possível obter mais de uma resposta por sujeito, totalizando 169 respostas. A atualização e informação foram as finalidades apontadas pela maioria dos idosos - 29 (17,0%) -, seguidas por pesquisa, citada por 26 (15,0%) e diversão e comunicação com parentes e amigos, citada por 23 (14,0%) idosos. Usar o computador para estudar foi referido por 20 (12,0%) idosos; fazer compras e pagar contas foi relatado por seis (3,0%) idosos em cada modalidade e sete (4,0%) não informaram o uso.

Quanto ao tempo diário que o idoso dedica ao uso do computador, identificou-se que 40 (85,5%) idosos usam até duas horas por dia; seis (10,9%) usam até quatro horas por dia; dois (3,6%) usam até dez horas por dia e sete (12,7%) não informaram o tempo de seu dia que despende para o uso do computador.

Em relação ao período do dia que o idoso usa o computador, 20 (36,4%) usam o computador no período da manhã; 10 (18,2%) usam no período da tarde; 10 (18,2%) usam no período noturno; oito (14,6%) usam em mais de um período e sete (12,7%) não responderam.

Quando questionados sobre há quantos anos usam o computador, 22 (58,2%) usam há até dois anos; sete (12,8%) até quatro anos; sete (12,8%) até seis anos; três (5,5%) até oito anos; três (5,5%) até dez anos e três (5,5%) mais de dez anos.

Em relação ao manuseio do computador, 42 (76,4%) referem ter feito curso; três (5,5%) aprenderam com o filho; três (5,5 %) aprenderam no trabalho; dois (3,6%) aprenderam sozinho e cinco (9,1%) não informaram.

A ferramenta de comunicação mais utilizada pelos idosos - 41 (75,0%) - foi o correio eletrônico (e-mail), seguido pelos comunicadores instantâneos onde a somatória corresponde a 25 (45,0%), distribuídos entre MSN®Messenger - 14 (24%), Yahoo!®Messenger - oito (15,0%), entre outras três (6,0). O uso da ferramenta salas de comunicação totaliza sete (13,0%) distribuídos entre salas de bate-papo - seis (11,0%) - e salas de bate-papo e chat - um (2,0%).

A telefonia virtual é a ferramenta menos utilizada e está distribuída entre SkypeTM - 2 (4,0%) e Yahoo® - 1 (2,0%) e não informado - 1 (2,0%) -, sendo que a somatória dessas ferramentas corresponde a 4 (8,0%). Com relação às redes sociais de relacionamento pessoal e profissional, os sites de relacionamento pessoal são os mais utilizados, totalizando 17 (31,0%), sendo que 15 (27,0%) usam o Orkut e 1 (2,0%) outras redes; a somatória do uso de Blogs, Flogs e Moblogs corresponde a 4 (8,0%) usuários.

No que se refere aos buscadores, a somatória de uso é muito expressiva e corresponde a 48 (87,0%) da população respondente, este percentual está distribuído entre GoogleTM - 33 (60,0%), Yahoo!® - 5 (9,0%), GoogleTM e Yahoo!® - 3 (5,0%) GoogleTM e MSN®Search - 2 (4,0%), GoogleTM, Yahoo!® e MSN®Search - 3 (5,0%) e outros - 2 (4,0%).

Os idosos também foram questionados quanto ao uso de Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA), sendo que 13% (7) referem usar ou ter usado esta ferramenta.

 

DISCUSSÃO

É dispensável e pouco usual reapresentar os números dos Resultados em Discussão; deve-se resgatar o dado sem mencionar numericamente.

A caracterização da população em relação à faixa etária apresenta semelhança com outro estudo(8) que também identificou como perfil de idosos que utilizam a internet a média de idade de 66,5 anos, variando entre 60 a 77 anos.

O fato de ter sido identificado 14% (8) de adultos maduros, na faixa de 52 a 59 anos, que realizam atividades no CRECI, faz emergir a reflexão sobre a preocupação da população que se aproxima da senescência em relação à manutenção da qualidade de vida focada em atividades que estimulem a cognição, e não somente a habilidade motora. Detectar a partir dessas informações a presença de adultos que se preparam para o envelhecimento e de idosos que trocaram o baralho, o bingo e as agulhas de tricô pelo computador faz reafirmar a mudança de paradigmas rumo à construção da nova imagem da velhice.

O uso de computador pelos idosos também foi pesquisado em um estudo que comparou a posse de computador com as diversas classes socioeconômicas, constatando que, entre as classes AB, 83% dos idosos têm computador em casa. Desses, 21% referem que o computador é próprio e entre os indivíduos das classes CD somente 12% têm computador em casa e 7% informam que o computador é próprio(10). Esses dados corroboram os evidenciados no presente estudo e fazem surgir a questão do abismo digital entre as classes sociais.

A redução do abismo digital é uma preocupação mundial e os obstáculos a serem vencidos para que as pessoas possam mudar seu meio social e econômico para terem acesso à informática e às tecnologias da informação e comunicação não se limitam apenas à facilidade de acesso e a preços plausíveis, mas devem também superar a falta de capacitação tecnológica.

Em relação ao manuseio do computador, o fato de ter sido identificado, neste estudo, que a maioria dos idosos realizou cursos de informática, usa o computador há menos de dois anos, bem como utiliza correio eletrônico, comunicadores instantâneos, sites de relacionamento e buscadores da internet, aponta a importância de políticas públicas de institucionalização de Telecentros nos Centros de Referência da Cidadania do Idoso como elemento preponderante para a inclusão digital na velhice.

Autores afirmam que saber usar o computador e as ferramentas virtuais de comunicação pode facilitar a proximidade física e social do idoso com os familiares, bem como que a comunicação é o pilar de sustentação para aumentar e manter a existência de um grupo social e melhorar a autoestima. Sendo assim, é importante que o idoso seja inserido no mundo digital e que saiba usar o computador e as ferramentas virtuais de comunicação(8,12).

O impacto psicológico de aprender a usar computadores e internet na velhice foi identificado em um estudo quase-experimental, com grupo de idosos que residiam em casas de repouso, que mostrou melhora significativa em aspectos como depressão e solidão, contribuindo para o bem-estar e sensação de empoderamento, afetando as interações interpessoais, promovendo o funcionamento cognitivo e contribuindo para o autocontrole e independência(13).

A ferramenta mais usada pelos idosos foi o e-mail, o que pode presumir que seja a ferramenta mais simples de ser usada e que corresponda às finalidades apontadas de comunicação e transmissão de mensagens para amigos e familiares.

Destaca-se que os idosos usam sites de relacionamento e buscadores como Google® e Yahoo® para a busca de informações na internet, confirmando as finalidades do uso dos computadores de atualização e comunicação. O uso do computador conectado a web e das ferramentas virtuais de comunicação possibilita ao idoso encontrar amizades antigas e fazer novas, resgatar suas memórias, ampliar seu vocabulário, viajar e conhecer o mundo, pois cumpre o seu papel de aproximar as pessoas por meio de comunidades virtuais, mesmo que a milhares de quilômetros de distância.

Os sites de relacionamento propiciam a criação de comunidades virtuais que são caracterizadas por um aglomerado de indivíduos que se reúnem virtualmente por meio do computador interligado à web e com o auxílio de ferramentas virtuais de comunicação, mantendo contato social ou profissional para discutir assuntos de interesse mútuo, socializar informações ou simplesmente estabelecer um período de convivência descompromissada.

As comunidades podem ter um tempo definido ou não para a sua existência, podem estar ligadas a algum ramo específico de atividade ou ser uma comunidade aberta onde são criados chats e salas de bate-papo para o convívio virtual(14).

O uso das novas tecnologias pode auxiliar a reinserção dos idosos nas relações sociais contemporâneas, combatendo a exclusão social, transformando-se em um espaço de comunicação, de troca com as pessoas e de aprendizagem constante.

Ressalta-se ainda que, apesar de um número tecnicamente pouco expressivo de idosos que utilizam ambientes virtuais de aprendizagem no ensino à distância e que usam blogs, flogs e moblogs, em se tratando de uma população idosa, esses dados são relevantes por expressarem um embrião de inclusão no vasto mundo digital que se modifica e se transforma constantemente.

Esses novos ambientes de comunicação surgiram com o advento da web 2.0 e possibilitam criar e divulgar blogs, páginas de internet, de redes sociais e wikis. O blog é o precursor de diversos ambientes que, dependendo do teor do material publicado na postagem, pode ser denominados de: videolog, onde o conteúdo predominante são vídeos, os fotologs, em que prevalecem figuras e fotos, os audioblogs, destinados à postagem de áudio, e os moblogs, que são os blogs que podem ser atualizados a partir do seu celular ou outras conexões móveis(15).

O fato do uso da telefonia virtual ter sido referendada por um número pouco expressivo de idosos pode sugerir que essa ferramenta requer um conhecimento maior do uso do computador, visto que, em termos de custo, estas ferramentas têm custo mais reduzido quando comparado com a telefonia convencional.

Em relação ao tempo de acesso diário à internet, foi identificado, em estudo anterior, o tempo médio de 3,4 horas de uso por dia(10), dados que se assemelham com os identificados neste estudo. Esses resultados sugerem que o perfil dos idosos mudou nos últimos tempos e que os mesmos estão tentando acompanhar os avanços tecnológicos, acessando a internet para manterem-se atualizados e plugados.

No que diz respeito à finalidade do uso dos computadores por idosos, estudos demonstram resultados semelhantes identificados nesta pesquisa, tendo como finalidades mais citadas: a necessidade premente de se manter atualizado, usando o computador para fazer pesquisa e obter notícias disponibilizadas na rede; a comunicação com amigos e familiares; a diversão e o lazer; a realização de compras e atividades bancárias; a cotação de preços e a participação em atividades educacionais(8,11).

Os idosos que são usuários da internet relataram, em um estudo, que utilizam a internet com a finalidade de buscar novos conhecimentos, sendo uma forma de se ligar ao mundo, contribuindo para mudanças significativas como valorização pessoal, comunicação, informação e lazer, bem como favorecendo o desenvolvimento psicossocial e permitindo melhorar a qualidade de vida(11).

Nesse contexto, a importância do apoio das instituições políticas e sociais da família, da rede de amigos e dos grupos de interesse comuns é fundamental para o envelhecimento ativo que corresponde ao equilíbrio biopsicossocial e à integralidade de um ser humano que está inserido em um contexto social e é capaz de desenvolver as suas potencialidades(16).

Diante dessa realidade, o enfermeiro precisa se apropriar das tecnologias de modo a oferecer múltiplas perspectivas de utilização e de ampliação da informação para essa população, propiciando e facilitando a interação, a assimilação e a construção coletiva do conhecimento, bem como a aplicação para o desenvolvimento psicossocial e a melhoria da qualidade de vida.

 

CONCLUSÃO

A caracterização da população de 55 idosos foi marcada por 58,2% de idosos do sexo masculino, com média de idade de 66,83 anos, 45,5% casados, 49,0% com ensino médio completo, 18,2% profissionais das ciências e das artes (engenheiro, advogado, contador, professor, enfermeiro), 80,0% aposentados, 56,4% não mantém atividade laboral remunerada e 60,0% moraram em casa própria.

O uso de ferramentas computacionais foi identificado por 33 (60,0%) idosos com computador em casa e, desse total, 21 (63,7%) possuem computador próprio e 24 (73,0%) utilizam somente em casa.

Em relação aos 55 idosos pesquisados, 76,4% referem ter realizado curso para utilizar o computador; 58,2% usam o computador há menos de dois anos; 85,5% idosos usam a ferramenta por até 2 horas por dia e 36,4% utilizam no período da manhã.

As finalidades de atualização e de informação foram relatadas pela maioria dos idosos com 17,0% citações cada, 15,0% para realizarem pesquisas e 14,0% para diversão e comunicação com parentes e amigos. O correio eletrônico foi a ferramenta mais utilizada por 75,0% idosos. Em relação às redes sociais de relacionamento, 31,0% idosos participam de comunidades virtuais; 87,0 % idosos utilizam buscadores como o Google® e o Yahoo® para realizarem buscas na internet e 13,0% utilizam ambiente virtual de aprendizagem para cursos à distância.

Com estes dados, pode-se reafirmar que o enfermeiro deve se preocupar, na assistência ao idoso, não somente com as questões geriátricas mas também com as questões gerontológicas. Para tanto, é necessário que voltem a atenção ao perfil que se desenha junto a este grupo populacional, chamado de terceira idade, para buscar formas de inserir as ferramentas computacionais como um auxiliares na assistência.

O computador contribui para uma nova maneira de processar e comunicar a informação. Frente a essa realidade, acredita-se que os idosos estão se apoderando das ferramentas computacionais para construir uma nova imagem da velhice. Para tanto, percebe-se a importância de formulação de políticas públicas como elemento essencial para a capacitação e a inclusão digital na velhice.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Heloisa Helena Ciqueto Peres
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 28/10/2011
Aprovado: 15/11/2011