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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.spe2 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000800001 

EDITORIAL

 

A Enfermagem no SUS: paixão e fé

 

 

Rosa Maria Godoy Serpa da FonsecaI; Maria Amélia de Campos OliveiraII

IEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Pesquisadora do CNPq 1D. São Paulo, SP, Brasil. rmgsfon@usp.br
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. macampos@usp.br

 

 

Este número especial da REEUSP é dedicado às reflexões e aos conhecimentos veiculados durante o segundo Simpósio Internacional de Políticas e Práticas em Saúde Coletiva na Perspectiva da Enfermagem, o 2o SINPESC, realizado de 09 a 11 de outubro de 2011, sob o tema A Enfermagem em Saúde Coletiva e a consolidação do Sistema Único de Saúde.

Promovido pelo Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da EEUSP, o evento propiciou um espaço fértil de intercâmbio interinstitucional e de socialização do conhecimento produzido por representantes de instituições de ensino, pesquisa e assistência de saúde. Possibilitou ainda a reflexão sobre os limites e as possibilidades do conhecimento dessa área da Enfermagem e sua contribuição para a construção das práticas de cuidar e educar, assim como a discussão de suas implicações na formulação de políticas públicas, sociais e de saúde, e de cuidado em Saúde e Enfermagem, de formação de pesquisadores e de redes de pesquisa, no espaço de consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS).

A inspiração para a proposição do tema e subtemas surgiu da necessidade que sentimos de avaliar amplamente, na perspectiva da Enfermagem, o sistema que se pretende um dos mais avançados do mundo em termos de política pública de saúde, questionando: de todas as transformações propostas e vivenciadas ao longo de mais de duas décadas de existência do SUS, o que se refere a nós, da Enfermagem, que constituímos cerca de 60% dos profissionais e ocupacionais do setor? Qual tem sido a prática da Enfermagem presente na consolidação do SUS? De que Enfermagem estamos falando, quando falamos em SUS? Essas, dentre outras questões, motivaram o diálogo que não se encerrou no evento, mas que continua agora, na forma de artigos científicos.

É importante destacar que não nos referimos apenas à dimensão assistencial, mas a todo o sistema de ensino, investigação e gestão inspirado no e para o Sistema Único de Saúde. Porém, em tempos de interdisciplinaridade, não poderíamos limitar a discussão às nossas conquistas e limites, sem ampliá-la de modo a considerar a relação da Enfermagem com as demais práticas e saberes que se conformam e materializam quando se encontram na ponta da linha, no ponto de convergência, na finalidade que guia as nossas práticas, que é a qualidade de vida da população e o seu processo saúde-doença, social e historicamente determinado.

Contamos com a presença de especialistas dos mais variados campos do conhecimento da Saúde Coletiva e da Enfermagem que nos instigaram a refletir sobre o conteúdo proposto. Os artigos aqui contidos o comprovam. Nesta publicação, acrescentamos às falas e aos trabalhos apresentados no SINPESC, as produções dos grupos de pesquisa do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva, elaboradas sob a égide dos mesmos pressupostos e princípios. Fazê-lo, teve a finalidade de demonstrar mais uma vez como nos posicionamos em relação ao nosso campo de ação.

Até aqui, mencionamos o conteúdo da produção e da reflexão do Departamento de Enfermagem em Saúde Coletiva da EEUSP. Permitam-nos falar um pouco sobre a forma. Não se pode aspirar conhecer a realidade se a crítica não visar a reafirmação, a desconstrução ou a reconstrução da realidade, temperadas com um ingrediente essencial da vida, o biblicamente chamado sal da vida, que é a paixão. Assim, além de nos apaixonamos pelo fazer em Enfermagem, na nossa prática cotidiana, tal paixão nos motivou a compartilhar saberes e fazeres com nossos pares nos dois dias do encontro.

Longe de insanidade, como querem justificar os lunáticos, entenda-se por paixão uma dada responsabilidade em relação ao outro, que, no entanto, não é incompatível com a liberdade ou a autonomia dos sujeitos e dos próprios entes envolvidos [o SUS, a Enfermagem]. A paixão funda, sobretudo, a liberdade situada, dependente, determinada, vinculada, obrigada, inclusa, que se justifica não nela mesma, mas na aceitação primeira de alguma coisa que está fora de nós, mas com a qual nos comprometemos e queremos alcançar. E, justamente por isso, é capaz de nos fazer apaixonar, ou pela qual somos capazes de nos apaixonar(1).

Apaixonar-se é morrer e viver um pouco a cada dia pela causa, é indignar-se e resignar-se frente às adversidades, é chorar de rir, chorar de dor ou chorar diante da dor. Apaixonar-se é viver todas as incertezas do desconhecido com a certeza de que tudo é incerto. É duvidar e acreditar, é tomar e doar, é desconstruir, construir e reconstruir-se. Por isso, como diz Vinícius de Morais, Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter(ser) nada não(2).

Se estivemos no SINPESC, de corpo e alma, foi porque, de alguma forma, em algum momento, nos apaixonamos pela causa da Saúde Coletiva e, nela, da Enfermagem, e a tornamos mote para nossa ação, quiçá para a vida − de trabalho, de estudo, de aspiração. Sim, porque o sujeito passional é um sujeito de ação, (des)conformado, (in)conformado e sempre em busca do fortalecimento da relação entre ele e a causa, tensão essa que só se resolve por meio da ação. E a ação a que nos referimos não é a aquela da mesmice cotidiana, reiteradora e inconseqüente. É a ação consciente, política, compromissada, de transformação.

O termo transformação é originário do latim transformatio+ónis na conjunção de trans (movimento para além de, através de; posição para além de; posição ou movimento de través) + formatio + ónis (ato, efeito ou modo de formar). Do ponto de vista sociológico, a transformação é o cerne da ação política do ser humano. É concebê-la no horizonte que nos dá a certeza de que jamais seremos iguais ao sair de uma experiência, assim como nossa ação jamais será a mesma.

Foi esse o desafio enfrentado: ver e rever a nossa prática social na qualidade de integrantes ativos do Sistema Único de Saúde, como seres apaixonados, portanto, responsáveis, compromissados e comprometidos, para guiá-la em direção à transformação pretendida.

Porém, ainda há duas questões intimamente articuladas sobre as quais nos resta refletir. A primeira é que colocar em prática tudo o que foi discutido buscando resultados transformadores da vida e saúde da população brasileira somente será possível se nos iluminarmos pela ética universal, que Paulo Freire definiu filosófica e poeticamente na sua obra Pedagogia da Autonomia com as seguintes palavras:

Estar no mundo necessariamente significa estar com o mundo e com os outros. Estar no mundo sem fazer história, sem por ela ser feito, sem fazer cultura, sem tratar sua própria presença no mundo, sem sonhar, sem cantar, sem musicar, sem pintar, sem cuidar da terra, das águas, sem usar as mãos, sem esculpir, sem filosofar, sem pontos de vista sobre o mundo, sem fazer ciência, ou teologia, sem assombro em face do mistério, sem aprender, sem ensinar, sem ideias de formação, sem politizar... não é possível (3).

Não menos importante é a seguinte questão: na Enfermagem, viver eticamente só é possível aliando a Enfermagem-ciência à Enfermagem-arte que, não podendo da primeira dissociar-se, empresta-lhe o conteúdo humano de nossa prática social. Fazer Enfermagem-arte supera o dever de ofício para, parafraseando Vilma de Carvalho, transformar-se em fé de ofício. E a fé move montanhas...

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