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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.spe2 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000800006 

ARTIGO ORIGINAL

 

A saúde no cotidiano de jovens residentes em um bairro popular de Belo Horizonte, MG, Brasil*,**

 

La salud en el cotidiano de jóvenes residentes en un barrio popular de Belo Horizonte, MG, Brasil

 

 

Natália de Cássia HortaI; Roseni Rosângela de SenaII

IEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta III do Curso de Enfermagem da Pontifícia Universidade Católica de Minas. Belo Horizonte, MG, Brasil. anahorta@yahoo.com.br
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Emérita da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil. rosenisena@uol.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Este estudo teve como objeto a saúde no cotidiano dos jovens considerando que esses não têm suas vivências cotidianas contempladas nas ações de saúde. O objetivo é analisar os modos de vida juvenis apreendendo os significados e sentidos da saúde em seu cotidiano. Trata-se de uma investigação qualitativa, fundamentada na dialética, com base na sociologia da vida cotidiana. Desenvolvida num bairro popular do município de Belo Horizonte, foi estruturada em fase exploratória e interpretativa, tendo como sujeitos dezenove jovens. Por meio da análise hermenêutica e dialética, a tese foi confirmada. As ações de cuidado presentes no cotidiano dos jovens levam em conta os recursos e os aspectos constitutivos da condição juvenil, ainda pouco contemplada nas proposições da área da saúde. No cotidiano dos jovens, tem-se a expressividade dos modos de vida e da condição juvenil na qual a saúde se revela pelo bem-estar e pelas condições básicas para o trilhar da vida. A concepção de saúde prevalente centra-se nos comportamentos e na corporeidade. Para a promoção da saúde juvenil é necessário partir dos modos de vida juvenis e interagir com eles no cotidiano. As ações de cuidado com a saúde têm um espaço de (in)visibilidade na vida dos jovens e interagem com suas prioridades na vivência da condição juvenil. Revelou-se a importância da proposição de ações cuidadoras nos microespaços e no território em que se expressa essa condição.

Descritores: Adolescente; Promoção da saúde; Educação em saúde; Enfermagem em saúde pública


RESUMEN

Se objetivó evaluar la salud como objeto en el cotidiano de jóvenes no contemplados en acciones sanitarias, para analizar su modo de vida entendiendo significados y sentidos de la salud en su rutina. Investigación cualitativa, fundamentada en la dialéctica, con aporte sociológico; desarrollada en barrio popular de Belo Horizonte, estructurada en fase exploratoria e interpretativa, sobre diecinueve jóvenes. Tesis confirmada mediante hermenéutica y dialéctica. Las acciones de cuidado presentes y cotidianas de los jóvenes orbitan en derredor a su condición juvenil, poco contemplada en las propuestas del área sanitaria. La salud se expresa a través del bienestar y las condiciones básicas para el camino de la vida. La concepción prevalente de salud se centra en comportamientos y corporeidad. Para promoción sanitaria entre jóvenes debe observarse su modo de vida e interactuar en su cotidianeidad. Resulta importante proponer acciones de cuidado en espacios y territorios propios de la condición juvenil.

Descriptores: Adolescente; Salud del adolescente; Promoción de la salud; Educación en salud; Enfermería en salud pública


 

 

INTRODUÇÃO

Tradicionalmente, no Brasil, a atenção à saúde do jovem tem sido focada em aspectos de não-saúde e sustentada no referencial de adolescência considerada como sinônimo de juventude. Essa centralidade faz com que o jovem seja visto pela ótica da puberdade, das mudanças físicas, psicológicas e do risco, aliada ainda ao discurso formativo e curativo do setor saúde(1-2). Como produto, têm-se as práticas cuidadoras focadas nos aspectos de caráter biológico, como a gravidez, as infecções sexualmente transmissíveis, o uso de drogas, a prevenção de agravos específicos que marcam a juventude pela fase de transição. Destaca-se que são poucas as considerações sobre o contexto e a amplitude das vivências cotidianas, sobre os diferentes agrupamentos constituídos nesse momento da vida e os diversos modos de ser jovem, relacionados com o cuidado da saúde. Comumente, o foco está nas ações relacionadas à puberdade, como transformações físicas e psicológicas que marcam o início da adolescência, sendo esses os referenciais que têm sustentado as ações de saúde para a juventude(3-5).

Sustentar as ações de saúde em aspectos biológicos, com toda sua legitimidade, é insuficiente para a construção de uma prática que aborde a compreensão da totalidade da vivência humana na juventude e a influência na saúde, de forma integral. Tem-se, com isso, a necessidade de compreender a saúde como uma construção que se dá no cotidiano dos jovens, em que se materializam as possibilidades e as limitações do viver, marcada também pela (in)expressividade das políticas públicas. E é nessa relação entre a concepção de saúde e de juventude que se têm as diferentes perspectivas dessa expressão política, indo desde o foco de estilos de vida saudáveis e de ciclo de vida até aquela da juventude como sujeito social e das políticas públicas como expressão desses direitos(6-7).

Considerando que o jovem está mergulhado em uma pluralidade de mundos sociais, deve ser compreendido como um ator plural, sujeito a princípios de socialização heterogêneos e às vezes contraditórios, tendo em vista que vive, simultânea e sucessivamente, em contextos sociais diferenciados, que trazem diferentes repercussões em seus modos de ser e de viver sua juventude, como sujeito social(8-9). A partir dessa reflexão, definiu-se como problema de pesquisa o fato de que os jovens, mesmo sendo considerados como uma população prioritária por suas vulnerabilidades, não têm suas vivências cotidianas, suas potencialidades e a própria diversidade juvenil contempladas nas ações de saúde. Isso faz com que essas ações tenham baixa efetividade por serem resultantes de uma representação genérica sobre a juventude que repercute no distanciamento entre as práticas de saúde centradas numa abordagem biológica, com um sentido cronológico que recorta a juventude pelo fenômeno da puberdade e o cotidiano dos jovens. Assim, o estudo teve como objetivo analisar os modos de vida juvenis, apreendendo os significados e sentidos que os jovens dão à saúde em seu cotidiano.

 

MÉTODO

Para a realização deste estudo, optou-se pela abordagem qualitativa, fundamentada na dialética. Utilizou-se, como aporte teórico e metodológico, a Sociologia da vida cotidiana, que considera a relação entre a micro e a macroestrutura na sociedade(10-11).

O cenário da pesquisa foi o Jardim Felicidade, um bairro popular da Regional Norte do município de Belo Horizonte, Minas Gerais. Esse bairro foi formado na década de 1980, por meio de movimento da Associação dos Moradores de Aluguel de Belo Horizonte. Como frequente em bairros populares, agrega nele grande população jovem e poucos espaços públicos de convivência juvenil, além da precariedade dos pontos comerciais, como casas lotéricas, agências bancárias, praças, clubes e parques. A pesquisa de campo foi realizada de março de 2008 a junho de 2010, contemplando fase exploratória de aproximação e imersão no cotidiano dos jovens e momento interpretativo em que foram realizadas entrevistas com 19 jovens, selecionados a partir de alguns espaços sociais da cotidianidade desses jovens, como a escola, a igreja, as oficinas educativas e o campo de futebol. Todas as etapas deste projeto estiveram em concordância com a Resolução 196/96, o que exigiu a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (Parecer nº ETIC 608/07). Para a compreensão e a análise da relação entre os modos de vida juvenis, o cotidiano e a repercussão na saúde dos jovens, foi estabelecida a interdependência entre as dimensões singular (práxis da saúde de cada jovem), particular (vivências cotidianas da juventude) e estrutural (a forma de organização das ações macrossociais direcionadas aos jovens), a partir da análise da realidade. Foi a partir da sociologia da vida cotidiana, elegendo como categoria de análise a relação entre os modos de vida juvenis, o cotidiano e as repercussões na saúde dos jovens, que se procedeu à análise do material empírico de modo a favorecer a exposição das categorias empíricas. Buscou-se conjugar, na interpretação dos dados, a compreensão proposta pela hermenêutica com análise crítica das relações históricas e antagônicas da prática social empírica em seu movimento contraditório, proposto na dialética, de modo a construir uma reflexão fundada na práxis, em um processo compreensivo e crítico(12-13).

 

RESULTADOS

Neste artigo, apresentam-se os resultados do momento interpretativo, a partir das duas categorias empíricas estruturadas. Na primeira categoria empírica, apresenta-se a discussão sobre os modos de vida juvenis, de modo a propiciar um mergulho no cotidiano dos jovens participantes da pesquisa, em seus repertórios de vida, por meio das ações que realizam no dia a dia. Pelo cotidiano, revelaram-se, ainda, as ações de saúde por meio da reflexão vinda da observação, das entrevistas e dos diários dos participantes e da pesquisadora. A narrativa sobre a saúde no cotidiano dos jovens foi organizada de modo a discutir a concepção de saúde para os jovens participantes da pesquisa. Os discursos dos jovens revelaram que a concepção de saúde prevalente é aquela centrada nos comportamentos. Os achados do estudo explicitaram a percepção dos jovens sobre o significado e o sentido da saúde focados no consumo de bens e serviços, como consultas médicas, exames, medicamentos e ida aos serviços de saúde:

Saúde é você não precisar de medicamento nenhum pra andar (JA); Porque eu tenho uma saúde boa. Nunca me adoeci assim, de ficar de cama, essas coisas assim. Nunca precisei ir no hospital. Mas eu vejo assim, por dentro, né? Aqui por dentro deve tá feio (JAD).

Para os jovens, o corpo é foco das práticas de cuidado em saúde. O corpo e o cuidado do corpo são o eixo central para se analisar como a saúde é percebida no cotidiano da vida pelos jovens. Seja por meio da maquiagem, dos estilos diferenciados de se vestir e se pentear, seja por meio dos adereços no corpo, operam-se, em seu imaginário, e nele se imprimem de forma simbólica, as imagens desejantes de sua relação com o mundo:

quando eu não tô de maquiagem, todo mundo já sabe que hoje não é um dia bom pra mim. Agora, quando me veem maquiada dizem que o meu dia foi bom. Até a minha mãe fala (JL).

Os resultados do estudo apontam também para uma perspectiva de saúde como potencial para viver a vida contemplando a subjetividade, o simbólico, a singularidade e a multidimensionalidade do viver:

Saúde pra mim é a pessoa sem preocupação... Ah, procurar, sei lá, viver a vida... Procurar ter as coisas, né, alimentação boa. Ah, não ligar pra nada, fazer, se der errado deu, se não deu, não deu... Preocupar com nada; encarar. Encarar tudo (JS).

Viver a vida, encarar tudo e não preocupar com nada explicita outro paradigma da saúde, o vitalista, em que, para além da alimentação e da atividade física, o bem-viver é destacado, trazendo à tona os sentimentos positivos que remetem à saúde, bem como aqueles negativos, que precisam ser eliminados. Faz-se a narrativa dos dados relacionando o cotidiano dos jovens e os espaços sociais, sendo discutidas as ações de saúde perpassando esses espaços juvenis e onde se revelou o cuidado com a saúde. Segundo os jovens, essas ações são construídas nos espaços sociais que fazem parte do cotidiano deles, sendo transversais em suas vidas. Os resultados evidenciaram as fragilidades e potencialidades das ações realizadas no território para o cuidado à saúde. Os jovens apontaram as possibilidades de superação dos desafios por meio da participação, da identidade e do pertencimento ao bairro com o desenvolvimento local e a interação com a condição juvenil em sua heterogeneidade.

 

DISCUSSÃO

O cotidiano dos jovens e a expressividade dos modos de vida

Nessa categoria, articulam-se a singularidade e a particularidade de cada jovem em seu cotidiano, que retrata os modos de vida juvenis no bairro, com as diferentes práticas que compõem seu dia a dia, as redes construídas, os desafios e os dilemas de suas vidas. A densidade das vivências, a heterogeneidade de experiências e as estratégias para se lidar com as práticas que compõem o cotidiano dos jovens explicitam a necessidade de se partir da cotidianidade e da análise dos modos de vida, como estruturadores da saúde. A análise dos modos de vida juvenis deu-se numa perspectiva de que a condição de classe é determinante nas vivências, mas sem ignorar a preocupação com as relações sociais e a dimensão do simbólico. A vida cotidiana foi tomada em sua expressividade das formas de viver a vida e revelou as condições concretas oriundas da estrutura econômica e social, num mecanismo que explicita os microprocessos sociais(11). No cotidiano dos jovens, percebe-se a valorização de elementos que favorecem a formação do ser, como a família, as amizades, a escola, os projetos da comunidade e a igreja. E também daqueles que possibilitam o ter, compreendido como condições de acesso a bens de consumo, ao lazer e à adoção de estilos de vida diferenciados, possíveis pela via do trabalho e em suas diferentes modalidades, da escola e dos projetos sociais locais. Esse cotidiano é, então, composto por diferentes experiências socializadoras que se dão em espaços sociais diversos e que expressam o modo de ser jovem em um bairro popular, considerando que as experiências de socialização adquirem significações diferentes para os jovens em um contexto de vulnerabilidade. Assim, a relação entre a cotidianidade do jovem e sua experiência de socialização foi revelada de forma estreita já que é por meio dessa relação que o indivíduo adquire as habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana.

A saúde no cotidiano dos jovens

A saúde revelou-se como a garantia das condições vitais, fundamentais para os jovens alcançarem seus projetos e desejos. Eles articulam diferentes práticas que impactam na saúde no dia a dia, como aquelas provedoras da vitalidade necessária à manutenção de seus modos de vida, bem como as condições mínimas para a realização das atividades da vida diária, permitindo-lhes experenciar a condição juvenil. São práticas advindas da historicidade e da vida cotidiana de cada um, trazendo marcas do âmbito familiar, das relações sociais, da escola, dos grupos e dos diversos contextos em que estão inseridos. Percebe-se, além disso, a vivência do afeto, das redes das quais participam e dos laços construídos nesses espaços, capazes de influenciar e de ser referência no cuidado com eles mesmos.

Apreender a concepção dos jovens sobre a saúde, as formas de cuidado e o que é ser saudável permitiu trazer à tona as necessidades de interação e de diálogo entre seu cotidiano e os saberes de diferentes campos ali presentes. Relacionar as condições sociais, a estética do bairro, a situação de saúde, bem como os espaços e interstícios com os diferentes saberes advindos das experiências de vida dos jovens, permitiu adentrar no lugar ocupado pelas ações cuidadoras da saúde na vida de cada um dos participantes da pesquisa. Os resultados do estudo indicaram que os jovens atribuem à saúde diferentes significados e sentidos, transitando dos mais tradicionais, como a ausência de doença, aos de saúde, como qualidade de vida, determinados pelos modos de viver e pelas escolhas feitas. Apreender os significados e a polissemia que os jovens dão à saúde em seu cotidiano perpassou por uma perspectiva positiva e social, traduzida como qualidade de vida, e por concepções que remetem à medicalização social, ao paradigma biomédico e ao discurso normalizador da saúde.

A maioria dos jovens conceitua a saúde reforçando o paradigma biomédico, com discursos normativos sobre como promovê-la, explicitando regras e comportamentos que contribuem para a manutenção da medicalização social do corpo e da vida. Nesse sentido, reforçam, em seus discursos, a submissão do viver aos saberes da ciência da saúde, em um processo que medicaliza desde as situações corriqueiras da vida até as mazelas sociais, como um paradigma universal e com efeito normalizador: o da utopia da saúde, centrado no campo biomédico(14). Percebe-se que, para alguns jovens, o medicamento é capaz de permitir andar a vida de maneira saudável. Utilizando argumentos do paradigma curativista, atribuem status de saúde à não-utilização de medicamentos e à não-necessidade de ir a hospitais. O medicamento para andar a vida, bem como não ir ao hospital como certeza de saúde reforça a ideia de que é por meio desse consumo que são estabelecidos os parâmetros do ser saudável. O sentido da medicalização expresso pelos jovens pode ser remetido a uma teoria social na qual se consolida a imposição de uma racionalidade biomédica e que revela uma concepção de homem e do mundo(15).

Nesse enfoque comportamental, o significado da saúde apresenta-se como centrado no corpo e em sua expressividade, visto que as ações de saúde que os jovens consideram realizar no cotidiano estão, em grande parte, vinculadas ao cuidado com o corpo em suas diferentes conotações: simbólica, biológica, cultural e relacional. Cuidar do corpo é, portanto, sinônimo de saúde. Assim é que a prática de atividade física, a alimentação e a ausência de doença são estruturantes de sua dimensão biológica. Já a dimensão simbólica, a imagem que constroem do corpo saudável é materializada pelo uso de diferentes adereços e recursos para embelezamento que, na perspectiva estética, possibilita aos jovens construir determinados círculos de amizade e de convívio, a dimensão relacional. Essas características ou modos de ser jovem conformam e expressam uma certa cultura desse tempo da vida.

O corpo, para os jovens, apresenta-se como uma instância desconectada da vida coletiva, um objeto imperfeito, individualizado, um rascunho a ser corrigido(16). Se não é possível mudar a condição de vida, é possível ao jovem mudar e manipular o corpo de múltiplas maneiras, sem o que o corpo se torna decepcionante e não apresentável no meio social. E, ao mudar o corpo, pretende mudar sua identidade de tal modo a criar uma visibilidade social mais favorável, mesmo que provisória. A autonomia no modo de cuidar e trilhar a vida, bem como no cuidado com a saúde é regulada, já que é determinada pelos padrões de estética e beleza da sociedade pós-moderna que fazem com que os jovens busquem se enquadrar nos padrões de corpo saudável e de alimentação balanceada, difundidos pela mídia. Atrelada a isso, tem-se a lógica sustentadora da indústria alimentícia e da estética, que trazem a preocupação com a imagem corporal, o consumo de alimentos light e diet como alternativa, reforçando a perspectiva de valorização exagerada do corpo pela mídia(17-18). Essa lógica é responsável pela construção de uma representação de como é possível obter saúde por meio do consumo, bem como pela criação e veiculação de uma cultura de consenso do que seja ser jovem saudável. Destaca-se que a mídia, pela veiculação de imagens que reforçam o lugar central, na sociedade pós-moderna, da beleza e da magreza como sinônimos de mais saúde, leva os jovens a uma busca permanente do corpo ideal como critério de ascensão a melhores relações sociais e afetivas e de credibilidade entre os pares. Assim, o consumo desse corpo pelo imaginário e pelo desejo também irá povoar os jovens de camadas mais populares. Nos depoimentos dos jovens participantes da pesquisa, foi possível perceber a ideia de patologização do comer e do corpo, num movimento de causa e efeito, em que o excesso de comida gera os excessos no corpo, fim esse completamente negado pelos jovens.

Os achados do estudo explicitam que, mais que conhecer o significado de saúde para os jovens, que em grande parte está focado na dimensão singular da realidade objetiva, há necessidade de reconhecer como se revelam, nas ações cotidianas, as práticas cuidadoras da saúde, estabelecendo os vínculos forjados entre as práticas e a expressão dos modos de vida juvenis. Mais do que conceituar a saúde e o ser saudável na perspectiva dos jovens, busca-se, neste estudo, apreender onde as ações da própria saúde ganham materialidade e sentido no cotidiano dos jovens, de modo a captar o que realizavam em seu dia a dia e o que consideravam práticas cuidadoras a partir dos diferentes espaços e interações na vivência da condição juvenil. Além disso, busca-se elucidar, ainda mais, a assertiva de que os jovens constroem ações promotoras da saúde em seu cotidiano, de modo a desvendar os passos e descompassos entre as demandas, as necessidades e a oferta de ações de saúde para esse grupamento, considerando os aspectos manifestados pelos participantes da pesquisa sobre o cuidado à saúde em seu cotidiano.

Como expresso por um dos jovens participantes em seu diário, o comparecimento da saúde no dia a dia explicita a forma com que as diferentes conotações atribuídas ao ter saúde e ao ser saudável se materializam em seu cotidiano. Como uma estratégia de encaixá-la na vida e perceber ações cuidadoras da saúde em suas práticas cotidianas, alguns jovens apontaram, nas entrevistas e nos diários, essa interface.

Não é no espaço dos serviços de saúde que a maior parte dos jovens visualiza alternativas de cuidado com a saúde. Muito menos neles, uma vez que o confronto de sua percepção sobre o serviço de saúde e os resultados da pesquisa em que a ênfase foi a percepção dos profissionais de saúde sobre a relação com os adolescentes trouxe à tona os paradoxos e contradições desse encontro, pelos diferentes focos(1-2). Sair da centralidade do serviço de saúde na doença, na normalização do corpo, para os modos de vida juvenis em seu cotidiano numa análise dos jovens como sujeitos de suas vidas revelou quanto é preciso avançar para a interação com os jovens numa perspectiva que considere a experiência juvenil(19).

As necessidades imediatas dos jovens e as condições estruturadoras da condição juvenil não incluem a saúde como prioridade, estando relacionada aos demais eixos estruturantes do cotidiano dos jovens. Os dados permitem inferir que promover a saúde dos jovens implica em desenvolver estratégias para sua autonomização, numa perspectiva dialógica que considere seu contexto de vida, as possibilidades e limites existentes e o desejo dos jovens, sem o que é impossível interagir. Contudo, pode-se afirmar que, se partíssemos dessa perspectiva como prioridade na vida dos jovens, estaríamos articulando outra condição juvenil, diferente daquela experienciada pelos jovens, em especial aqueles de classes populares. Desse modo, a incorporação dos referenciais de juventude na análise das ações de saúde, proposta neste estudo, foi capaz de promover uma ampliação para o âmbito social e cultural, também determinante do processo saúde-doença. A falta dessa compreensão apresenta-se hoje como uma lacuna na produção do conhecimento na área da saúde (20-21).

 

CONCLUSÃO

O estudo cumpriu o objetivo proposto. Permitiu identificar que na dimensão local, em que a vida do jovem se manifesta, é que se estrutura o pertencimento, que guarda relação com as condições e com a qualidade de vida, consequentemente, com a saúde. Assim, os resultados da pesquisa confirmaram a tese inicial referente às ações de cuidado de saúde presentes no cotidiano dos jovens que levam em conta os recursos presentes no dia a dia e na vivência da condição juvenil. As ações cuidadoras de saúde, nesse sentido, revelaram-se centradas no cuidado ao corpo: biológico, simbólico e cultural, numa perspectiva de que, pela via da estética, da alimentação e da atividade física, é que se tem saúde. O corpo juvenil, a corporeidade e a saúde guardaram estreita relação nos achados desta pesquisa. Desse modo, os resultados da pesquisa apontaram que os jovens constroem ações cuidadoras da saúde em seu cotidiano, mas que são resultados das outras práticas que ocupam o núcleo central de seu dia a dia. Essas ações foram consideradas como resultado indireto diante das opções de viver a vida, de sociabilidade e de relações que expressam a condição juvenil, sendo a saúde a provedora dessa vitalidade. Os espaços sociais nos quais os jovens transitam no cotidiano foram considerados importantes por eles para essas práticas, sendo as que impactam em sua saúde. Eles realizam ações de promoção da saúde sem compreender que afetam sua saúde. Buscam o bem-estar nos projetos, nas atividades de lazer, na igreja, nas relações com os colegas, no trabalho; porém, não identificam tais situações como marcadores diretos em sua condição de saúde.

Conclui-se que, para a promoção da saúde juvenil, é necessário partir dos modos de vida dos jovens, interagir com eles em seu cotidiano e desconstruir a perspectiva tradicional de que as ações de cuidado à saúde se materializam em espaços específicos. Faz-se necessário construir estratégias de imersão no cotidiano dos jovens se se quer com eles potencializar as ações cuidadoras por meio do aporte de informações seguras que demandam em seus discursos. Os resultados da pesquisa permitiram ainda constatar que as ações de cuidado com a saúde têm, na vida dos jovens, um espaço de (in)visibilidade que interage com suas prioridades, com as ações centrais e marcadoras da condição juvenil. A pesquisa poderá contribuir para as práticas cotidianas de cuidado com a saúde e como subsídio para formulação de políticas de saúde voltadas para os jovens.

Esse achado é fundamental para o campo político e para a proposição assistencial na saúde dos jovens. É para além das vulnerabilidades negativas que as políticas de saúde podem ser formuladas, levando em conta as especificidades locais e as vivências juvenis em uma estratégia intersetorial, capaz de assim relacionar-se com os jovens. Para essa transformação, é imperativo desconstruir a perspectiva da saúde como guarda-chuva quando remetida à condição juvenil, na tentativa de normatizar a vida dos jovens e construir uma perspectiva da saúde como transversal, não minimizando seu significado e seus sentidos na vida dos jovens.

 

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Correspondência:
Natália de Cássia Horta
Rua Epaminondas de Moura e Silva, 481 – Planalto
CEP 31720-580 – Belo Horizonte, MG, Brasil

Recebido: 30/10/2011
Aprovado: 29/11/2011

 

 

* Trabalho Premiado em Sessão Poster, 2º Simpósio Internacional de Políticas e Práticas em Saúde Coletiva na Perspectiva da Enfermagem – SINPESC, Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo, 9-11 out. 2011.
** Extraído de tese "Modos de vida juvenis: cotidiano, espaços sociais e saúde", Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais, 2011.

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