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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.45 no.spe2 São Paulo Dec. 2011

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342011000800014 

ARTIGO ORIGINAL

 

Adolescentes em cena: uma proposta educativa no campo da saúde sexual e reprodutiva*

 

Adolescentes en escena: una propuesta educativa en el campo de la salud sexual y reproductiva

 

 

Vânia de Souza

Enfermeira. Doutora em Ciências da Saúde pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz. Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Materno Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. Belo Horizonte, MG, Brasil. vaniaxsouza@yahoo.com.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Objetivou-se descrever a experiência sobre a elaboração de material educativo, no formato de performance teatral criada e encenada por adolescentes, como estratégia para a obtenção de uma atitude reflexiva e autônoma desses sujeitos, no campo afetivo-sexual e reprodutivo. Processo de intervenção e de investigação desenvolvido em uma escola pública de Belo Horizonte - Minas Gerais, Brasil - com 12 estudantes de 14 a 18 anos. A análise baseou-se no método de educação pela experiência, de John Dewey. Foram realizadas 23 oficinas até a produção do espetáculo e do vídeo Sexo sim, Doença Não, exibido para alunos do ensino médio. A produção de tecnologias educativas, construída pelos próprios adolescentes, possibilitou a ampliação de suas vivências e a re-significação de conhecimentos. Também auxiliou a compreensão da realidade cotidiana desses sujeitos, permitindo a ligação entre o interno (o pensamento do adolescente) e o externo (que concretiza os fenômenos sociais) no campo afetivo-sexual e reprodutivo.

Descritores: Adolescente; Educação sexual; Saúde sexual e reprodutiva; Identidade de gênero; Arte


RESUMEN

Se objetivó describir la experiencia sobre elaboración de material educativo, en formato de performance teatral creada y escenificada por adolescentes, como estrategia para obtención de una actitud reflexiva y autónoma de tales sujetos en el campo afectivo-sexual y reproductivo. Proceso de intervención e investigación desarrollado en escuela pública de Belo Horizonte-MG-Brasil, con 12 estudiantes de 14 a 18 años. El análisis se basó en el método de educación por la experiencia, de John Dewey. Se realizaron 23 talleres, hasta la producción del espectáculo y del video Sexo Sí, Enfermedad No, exhibido para alumnos de enseñanza media. La producción de tecnologías educativas construidas por los adolescentes posibilitó ampliar sus vivencias y la re-significación de conocimientos. Ayudó también a comprender la realidad cotidiana de los sujetos, permitiendo vincular lo interno (el pensamiento adolescente) y lo externo (la concreción de fenómenos sociales) en el campo afectivo-sexual y reproductivo.

Descriptores: Adolescente; Educación sexual; Salud sexual y reproductiva; Identidad de gênero; Arte


 

 

INTRODUÇÃO

O protagonismo juvenil e as questões da sexualidade, incluindo os direitos sexuais e reprodutivos de adolescentes e jovens, têm sido foco de inúmeras pesquisas e de reformulação de políticas públicas mediante os crescentes índices de Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), de gravidez na adolescência, de aborto e de outros desdobramentos(1-2) que perpassam essa temática.

No Brasil, a urgência de enfrentamento dessas situações levou à implantação de políticas públicas, como o Projeto de Saúde e Prevenção nas Escolas, tendo como um de seus objetivos a redução dos agravos à saúde juvenil no campo sexual e reprodutivo(3). Apesar desta e de outras iniciativas, estudos revelam limitações importantes para se alcançarem resultados promissores nessa área, dada a complexidade dos fatores que a permeiam(4-5).

No que se refere à Educação Sexual na Escola, defendida e orientada pelo Ministério da Educação (MEC) nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) como eixo transversal ao currículo(6), a literatura aponta a dificuldade que educadores e familiares apresentam para abordar o tema sexualidade(4).

Nesse sentido, percebe-se uma dissociação dos conteúdos ao contexto de vida dos adolescentes, principalmente quando se trata de temas que visam auxiliar o jovem no conhecimento do próprio corpo, na iniciação e orientação sexual, nas relações amorosas, bem como no desenvolvimento da responsabilização pela sua saúde(5-7).

Comumente, as abordagens educativas sobre saúde sexual e reprodutiva ficam restritas à informação, ancoradas em métodos preventivos tradicionais. Estes se mantêm dentro dos parâmetros de normalidade e anormalidade(4), desconsiderando o conjunto de códigos e sistemas de significação por parte dos sujeitos da aprendizagem.

A saúde sexual e a reprodutiva decorre de uma conquista pela cidadania, direitos humanos e ambientais, iniciada com as Conferências Internacionais de População e Desenvolvimento, organizadas pela Organização das Nações Unidas (ONU). A saúde reprodutiva é um estado de completo bem-estar físico, mental e social, implica nos processos e funções do sistema reprodutivo em todas as fases da vida. Como parte da saúde reprodutiva, a saúde sexual visa à melhoria da qualidade de vida e das relações pessoais, ao desenvolvimento sexual saudável, seguro e satisfatório, além da assistência às IST, deficiências e outras práticas de risco relacionadas à sexualidade(8).

Tomando por base a educação como processo de reconstrução de experiências(9), acredita-se que proporcionar um espaço no qual os adolescentes vivam realidades próximas das suas pode-lhes favorecer a significação, a ressignificação e a ampliação das vivências anteriores, com o consequente crescimento pessoal.

Assim, neste estudo, buscou-se descrever a experiência sobre a elaboração de um material educativo, no formato de performance teatral criada e encenada por adolescentes, como estratégia para a obtenção de uma atitude reflexiva e autônoma desses sujeitos, no campo afetivo-sexual e reprodutivo.

A escolha da arte justifica-se pelo seu potencial na formação de novos tipos de subjetividade. O teatro, especificamente, aponta para experiências de formação nas quais os adolescentes estruturam sua subjetividade de forma autônoma e distante das definições pré-concebidas.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo de intervenção e de investigação concernente ao Projeto Adolescentes em Cena, iniciado em 2008 e concebido em várias etapas. Este artigo apresenta e discute os resultados relativos à produção da peça teatral, à ampliação e à ressignificação de significados no campo afetivo-sexual e reprodutivo.

O cenário foi a Escola Estadual Milton Campos, de Belo Horizonte, Minas Gerais – Brasil, na qual os estudantes apresentam um perfil socioeconômico intermediário, com renda familiar média de 3,6 salários mínimos, segundo o critério de classificação econômica Brasil(10). A seleção da escola foi por conveniência, devido à disponibilidade de espaço físico e de infraestrutura, ao número elevado de turmas de 1º e 2º anos do ensino médio e à facilidade de acesso.

Participaram 12 estudantes do 1º e 2º anos do ensino médio do turno vespertino, de 14 a 18 anos, de ambos os sexos e de diferentes turmas, que responderam previamente a um questionário estruturado para a caracterização do grupo. A seleção foi pelo interesse, disponibilidade de horário e ordem de entrega do termo de consentimento livre e esclarecido assinado pelo pai ou responsável.

Foram realizadas 23 oficinas, na própria escola, duas vezes por semana, iniciadas ao término do horário de aula, das 17 às 19 horas. Primeiramente, foram cinco oficinas de sensibilização que, com o uso de jogos e outras atividades lúdicas, possibilitaram a abordagem de temas previamente concebidos: conhecimento do corpo; tabus e mitos quanto ao sexo e à sexualidade; iniciação sexual; sexo seguro; e relações de gênero. Essa etapa foi conduzida pela pesquisadora/coordenadora. Das demais oficinas, oito foram direcionadas para a concepção da dramaturgia e dez para ensaio. Sob a condução de um dramaturgo e posteriormente de um produtor de vídeo, os participantes tiveram a liberdade de expressão e de criação.

A escolha da modalidade oficina se deve ao fato de permitir a realização de um espaço lúdico que predispõe à criatividade, às interações e à negociação, bem como ao enfrentamento de conflitos – fundamentais para encorajar a consciência crítica e o protagonismo dos sujeitos(11).

No processo de análise empregaram-se como referencial teórico os princípios do pensamento de Dewey(12), utilizando-se o conceito de educação pela experiência – quando se buscam os meios e o ambiente adequados para colocar a mente em ação, capaz de operar diversos caminhos pelos quais é possível elaborar o conhecimento(9). Os encontros foram gravados, fotografados e registrados por observadores.

Os depoimentos dos sujeitos foram apresentados com o uso de codinomes, acrescidos da idade e do sexo. Por meio do consentimento livre e esclarecido, os pais e participantes autorizaram a divulgação das falas e das imagens. O projeto foi aprovado pelo Comitê de Pesquisa com Seres Humanos e conduzido segundo os padrões éticos exigidos – protocolo 0576.0.203.000-07.

 

RESULTADO E DISCUSSÃO

O grupo de participantes foi composto por nove meninas e três meninos, com o predomínio da faixa etária de 16 anos. Por meio da aplicação do questionário, identificou-se que três garotos e duas garotas já haviam tido relação sexual e que em três casos a primeira relação foi sem o uso do preservativo. A masturbação foi revelada pelos três meninos e negada pelas meninas. Dois usavam bebidas alcoólicas e um deles drogas ilícitas.

Observou-se, ainda, um conhecimento limitado dos adolescentes sobre a anatomia e a fisiologia dos órgãos sexuais externos, em especial do feminino. O domínio de conteúdo quanto às formas de transmissão e de sinais e sintomas relacionados às infecções sexualmente transmissíveis foi também reduzido. Esses resultados foram semelhantes aos encontrados em outros estudos(13-14).

Durante as oficinas de sensibilização, os adolescentes se conheceram e interagiram, facilitando o estabelecimento de vínculos. O compartilhar de experiências estimulou a busca de respostas a determinados temas e situações. As falas desses sujeitos, principalmente as que envolviam gênero, sexualidade e a prática de sexo seguro, foram marcadas por valores tradicionais, regulatórios, morais e éticos, como observado a seguir:

O homem tem mais desejo sexual que a mulher. Você não vê uma mulher agarrar um homem (Gica – 16a - ♀).

Uma das desvantagens de ser mulher é ela sentir dor na primeira vez (Conde – 17a – ♂).

O sexo feito com amor é uma forma de evitar doença sexualmente transmitida (Caca – 16a – ♀).

A reflexão sobre essa realidade, também identificada em outras pesquisas(5,12), reforça a importância de se incentivar os alunos para buscarem explicações, minimamente aceitáveis às suas proposições. Significa criar condições para analisarem o processo pelo qual se formam as disposições morais(12), sociais e culturais.

Neste caso, as oficinas de sensibilização possibilitaram aos participantes o estabelecimento de novos sentidos ou significações aos temas suscitados. Um exemplo refere-se à declaração de uma das adolescentes, em que retrata a construção hegemônica de gênero, com papéis construídos de forma binária, para homens e mulheres.

A mulher se apaixona mais muito fácil e sofre mais na relação (Nunu – 16a - ♀).

Posteriormente a essa fala, a partir da flexibilização desses lugares de gênero, houve a ressignificação desse modelo binário como uma verdade inquestionável e pré-concebida:

Hoje eu vejo mais homem sofrer pela mulher do que a mulher sofrer pelo homem. O problema é que todo mundo vê a mulher demonstrando sofrimento e o homem esconde, por isso é que na imagem do povo a gente sofre mais (Kuka – 16a - ♀).

É, a sociedade cria que o cara não pode chorar por uma mulher e aí né? (Liu – 17a - ♂).

Esse processo de reflexão e de reconstrução do conhecimento esteve mais fortalecido nas oficinas de criação. Na primeira delas foi realizada a leitura de um texto dramatúrgico, apresentado pelo professor de teatro, com o intuito de auxiliar os participantes na elaboração do enredo da peça teatral. Em seguida, os alunos foram subdivididos em pequenos grupos para discutirem e trabalharem na produção dramatúrgica. A cada novo encontro, as oficinas eram sistematicamente iniciadas com a apresentação das produções de cada grupo, possibilitando uma construção conjunta, implicada num dinamismo entre realidade e imaginação.

Essa etapa levou à criação do espetáculo Sexo Sim, Doença Não, exibido para alunos do ensino médio de escolas públicas e privadas de Belo Horizonte, de diferentes perfis socioeconômicos. A peça foi posteriormente readaptada para o formato de vídeo, visando ampliar sua divulgação para outras escolas de Belo Horizonte e cidades vizinhas.

A interação das condições objetivas (realidade) e subjetivas (do sujeito) foi responsável pela produção de um saber, resultante da combinação entre o elemento ativo (fazer a experiência), o elemento passivo (sofrer a experiência) e a reflexão, característicos de uma experiência educativa(12).

Nesse contexto, a produção dramatúrgica – de criação e de encenação da performance teatral – estimulada pelo profissional de artes cênicas incitava a avaliações contínuas de fatos e ideias, de formação de juízos, de investigações e de deliberações dos adolescentes(9-10). Orientações desse profissional, para que os participantes tentassem compreender o sentimento verdadeiro dos personagens, que buscassem detalhes sobre seus contextos de vida e que trabalhassem com a emoção e não com clichês, funcionaram como um estímulo ao pensamento reflexivo, aos princípios de continuidade e interação que caracterizam a experiência(12).

A continuidade refere-se à permeabilidade na medida em que uma experiência se apoia no passado, pelas atitudes que condiciona e ao mesmo tempo condiciona o futuro pelo impacto sobre as condições objetivas das experiências posteriores. Ela se traduz em uma dimensão longitudinal, naquilo que possibilita a prossecução da construção do conhecimento(15). A interação, por sua vez, refere-se à dimensão lateral ou espacial, decorrente das trocas entre o indivíduo e seu ambiente. Ela se traduz na multiplicação dos canais de comunicação e na diversificação dos âmbitos de relação que enriquecem a ação.

Esses princípios foram fundamentais para que os adolescentes estabelecessem detalhes do personagem, como idade, sexo, situação conjugal e familiar, ainda que esses pormenores não fizessem parte da cena em si. Para isso os participantes tiveram que se envolver com as experiências passadas, que, associadas às interações com o meio, foram reforçadas ou ressignificadas na situação atual. Parte da performance apresentada a seguir exemplifica o processo de criação do grupo.

Filho: Pai, acordado uma hora dessas?

[18 anos. Solteiro. Chega tarde da balada]

Pai: Estava esperando você chegar. Você fez a pior coisa que eu podia esperar de um filho.

[Sentado na poltrona. Simula o uso do controle remoto com a troca contínua de canais da televisão]

Filho: De que você está falando, pai? O que foi que eu fiz?

Pai: Não adianta esconder mais nada, eu já sei de tudo. Eu tenho vergonha de você. Todos já comentam. Eu sou motivo de chacota. Eu te criei como um homem, e não como um maricas.

[Em pé, empurra o filho.]

Filho: Mas...

Pai: Mas nada. Não quero mais você dentro da minha casa.

Empurra o filho com mais força].

Filho: Para, pai. Cadê mamãe?

[Tenta forçar a passagem e olha pelo corredor à procura da mãe].

Essa produção, na qual o menino é expulso de casa em função de suas primeiras demonstrações de homossexualidade, reforçou um discurso heteronormativo, ainda pouco aprofundado nas práticas educativas sobre sexualidade(4,16). Esse discurso, situado na base da construção hegemônica dos sexos, faz com que qualquer alteração dessa ordem preestabelecida ainda seja tratada como anormal, vergonhosa e inaceitável.

Isso significa que os processos educativos no campo da sexualidade ainda necessitam explorar os meandros que envolvem esse tema(5,17), fazendo conexão entre os fatores internos (o pensamento do adolescente) e o externo (que concretiza os fenômenos sociais) de uma experiência. Nesse sentido, a ênfase colocada no processo de aprendizagem é encorajar hábitos reflexivos, encontrar ligações nas experiências passadas, que favoreçam a sua aplicação em situações posteriores e formular propósitos que levem os estudantes a considerar novas questões e novas perspectivas(15).

Dewey(9,12) dá o nome de investigação a esse ato reflexivo de pensar, desencadeado por um espírito em perplexidade e que, sob o desafio da incerteza, busca respostas para situações ambíguas e desconcertantes. A situação inicial que coloca a mente em ação significa uma circunstância que envolve o indivíduo que investiga, bem como os elementos do ambiente natural e social do qual está inserido. É por meio desse processo contínuo de reconstrução e reorganização da experiência que os sujeitos aprendem a fazer, fazendo-se como seres humanos(12).

A fala extraída da entrevista realizada com os participantes após a conclusão da produção da peça é um exemplo de reformulação de significado sobre o uso da camisinha feminina, com o intuito de resolver uma ineficiência de um conhecimento passado, vivenciado no presente ou a ser projetado para o futuro:

Ah, eu fiquei curioso e abri. A camisinha feminina eu nunca tinha visto. ...Abri, dei uma olhada e li um pouquinho no livrinho sobre doenças sexualmente transmissíveis. Aí tinha coisas que a gente não sabia e que ajudou a abrir nossa mente, sabe? (Leco, 18a, ♂).

O fato de esse adolescente ter ressignificado seu saber sobre o uso do preservativo feminino foi reforçado na produção da peça teatral, ao participar de uma cena em que um casal se conhece na balada e a menina informa que já está usando uma camisinha feminina, que pode ser colocada horas antes da relação sexual.

Essa ampliação ou aprofundamento do saber foi também evidenciada na produção de outras cenas, nas quais os adolescentes abordavam, com desenvoltura, conteúdos anteriormente identificados como limitados, a exemplo de sinais e sintomas e formas de transmissão das IST. Os adolescentes também revelaram uma melhora da auto-estima, a ampliação do diálogo com os pais e familiares, além de uma mudança de atitude em relação ao seu modo de vida e à forma de lidar com seu próprio corpo:

O preconceito caiu demais. Na minha casa ninguém conversava sobre isso, mas depois do projeto eu conversei com meu pai (Liu – 14a - ♂).

Eu cresci muito como pessoa. Eu sou virgem e, antes de entrar na peça, a menina que não era virgem eu olhava com outros olhos (Fani – 16a -♀).

Aproveitei bastante o kit. A ginecologista disse: que bacana essa ideia do espelhinho. Dar uma olhada no que a gente tem. Realmente eu vi que era tudo aquilo... (Lia – 16 - ♀).

Garantir espaço para o debate e a expressão da criatividade aos participantes permitiu a aquisição de novos conhecimentos e reflexões sobre os transtornos provenientes de uma prática sexual vulnerável, evidenciada nas falas dos participantes pela abordagem dos seguintes temas: violência sexual e doméstica; preconceito; homofobia; desinformação; sexo descompromissado, compulsivo e desprotegido; infidelidade; confiança no(a) parceiro(a); conflito entre pais e filhos; doença; morte; e as questões de gênero que perpassaram todas as abordagens.

 

CONCLUSÃO

A produção de tecnologias educativas, pelos próprios adolescentes, possibilitou a ampliação de suas vivências e a ressignificação de conhecimentos. Também auxiliou a compreensão da realidade cotidiana desses sujeitos, permitindo a ligação entre o interno e o externo no campo afetivo-sexual e reprodutivo.

O método de educação pela experiência de John Dewey reafirmou-se como uma possibilidade para as abordagens pautadas no diálogo e em ações reflexivas nas questões da sexualidade. Seu resultado permitiu a elaboração de novas estratégias educativas, visando à promoção da saúde dos adolescentes por meio de metodologias participativas.

A necessidade de uma análise investigativa mais aprofundada e significativa quanto à eficácia da metodologia para a formação crítica e maior autonomia desses sujeitos, no campo da saúde sexual e reprodutiva, foi, no entanto, detectada.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Vânia de Souza
Av. Alfredo Balena, 190, sala 414 – Santa Efigênia
CEP 30280-370 – Belo Horizonte, MG, Brasil

Recebido: 06/11/2011
Aprovado: 30/11/2011

Agradecimento
À Maria Flávia Gazzinelli, pela contribuição teórica e revisão crítica do texto. À Cláudia Natividade pelo auxílio nas discussões de gênero. À Pró Reitoria de Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (PRPq/UFMG) e à Fundação de Amparo à Pesquisa de Minas Gerais (FAPEMIG) pelo financiamento do projeto em 2008 e no biênio 2009-2011, respectivamente.

 

 

* Trabalho Premiado em 3º lugar na Sessão Coordenada do 2º Simpósio Internacional de Políticas e Práticas em Saúde Coletiva na Perspectiva da Enfermagem – SINPESC, Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, São Paulo, 9-11 out. 2011

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