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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.3 São Paulo June 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342012000300011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Análise de atividades não realizadas pela equipe de enfermagem para o diagnóstico padrão respiratório ineficaz em idosos*

 

Análisis de actividades no realizadas por el equipo de enfermería para el diagnóstico patrón respiratorio ineficaz en ancianos

 

 

Agueda Maria Ruiz Zimmer CavalcanteI; Adélia Yaeko Kyosen NakataniII; Maria Márcia BachionIII; Telma Ribeiro GarciaIV; Daniella Pires NunesV; Patrícia Silva NunesVI

IMestre em Enfermagem pela Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Escola Paulista de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo. Enfermeira do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO, Brasil. enf_agueda@yahoo.com.br
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Associada da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO, Brasil. adeliafen@gmail.com
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Titular da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO, Brasil. mbachion@fen.ufg.br
IVEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Adjunta IV do Departamento de Enfermagem de Saúde Pública e Psiquiatria e do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal da Paraíba. João Pessoa, PB, Brasil. telmagarciapb@gmail.com
VEnfermeira. Doutoranda em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. dpiresnunes@yahoo.com.br
VIGraduanda de Enfermagem da Universidade Federal de Goiás. Goiânia, GO, Brasil. patriciasn_gyn@hotmail.com

Correspondência

 

 


RESUMO

Estudo transversal, descritivo, que objetivou identificar as atividades da Classificação de Intervenções de Enfermagem consideradas prioritárias para Padrão Respiratório Ineficaz e não realizadas para pacientes idosos, internados em um hospital escola do estado de Goiás. Participaram do estudo 43 profissionais de enfermagem e a coleta de dados foi realizada no período de outubro a dezembro de 2008, após aprovação pelo Comitê de Ética. Observou-se que, dentre as 67 atividades consideradas prioritárias para o referido diagnóstico, sete eram realizadas por todos os participantes; as demais, com frequência percentual variada, não eram realizadas, sendo o motivo principal para isto sua execução por profissional de outra área. Entende-se que a não realização destas atividades pela enfermagem pode resultar em alterações no campo de abrangência da assistência de enfermagem; que há necessidade de aparato legal na descrição das atividades que compõem a prática profissional exclusiva da enfermagem e a de natureza interdisciplinar.

Descritores: Idoso; Sistema respiratório; Diagnóstico de enfermagem; Cuidados de enfermagem; Classificação


RESUMEN

Estudio transversal, descriptivo, que objetivó identificar las actividades de Clasificación de Intervenciones de Enfermería consideradas prioritarias para Patrón Respiratorio Ineficaz no realizadas para pacientes ancianos internados en hospital escuela de Goiás. Participaron 43 profesionales de enfermería, recolección de datos realizada entre octubre y diciembre de 2008, previa aprobación por Comité de Ética. Se observó que de las 67 actividades consideradas prioritarias para el referido diagnóstico, siete eran efectuadas por todos los participantes; las demás, con frecuencia porcentual variada, no eren ejecutadas, siendo que el motivo principal para ello era la ejecución por parte de profesionales de otras áreas. Se entiende que la no realización de tales actividades por la enfermería puede resultar en una alteración del campo abarcado por la atención de enfermería; que existe necesidad de aparato legal en la descripción de las actividades que componen la práctica profesional exclusiva de la enfermería y la de naturaleza interdisciplinaria.

Descriptores: Anciano; Sistema respiratório; Diagnóstico de enfermeira; Atención de enfermeira; Clasificación


 

 

INTRODUÇÃO

Nos últimos anos, estudos têm sido desenvolvidos utilizando os sistemas de classificação para as práticas de Enfermagem, observando-se uma tendência para a utilização daqueles que refletem os diagnósticos, as intervenções e os resultados da prática(1-4).

Nesse cenário, destaca-se a Classificação de Intervenções de Enfermagem (Nursing Intervention Classification - NIC), por apresentar intervenções abrangentes da prática da enfermagem, pela possibilidade de associação com a taxonomia da NANDA-I, e por incluir diferentes aspectos da prática, com aplicabilidade na prática hospitalar, ambulatorial, domiciliar, em unidades básicas de saúde, no contexto individual, familiar e coletivo, possibilitando seu uso durante toda a assistência de enfermagem(5).

Essas intervenções podem ser iniciadas pelo enfermeiro em resposta a um diagnóstico de enfermagem, ou podem ser iniciadas por outro profissional e executadas pelo enfermeiro e/ou pela equipe de enfermagem, sendo, portanto definidas como intervenções independentes, interdependentes e dependentes de outros profissionais(6).

No processo de trabalho em saúde, é recomendável que os profissionais realizem suas atividades com interdependência e complementaridade, possibilitando o ajuste de atividades que melhorarão o estado clínico do cliente sob seus cuidados. Assim, as atividades prescritas pelo enfermeiro devem ser significativas à terapêutica instituída e beneficiar quem a recebe(7).

É importante que o enfermeiro identifique previamente, de forma acurada, os sinais clínicos que guiarão a escolha de intervenções da NIC, as quais podem ser selecionadas utilizando-se o nível de especificidade como critério(3). Isto é, frente a um diagnóstico de enfermagem, há possibilidade de selecionar três grupos de intervenções diferentes: as essenciais, ou prioritárias para a modificação e/ou minimização da resposta humana (aquelas que vão ao encontro das características definidoras e dos fatores relacionados); as intervenções sugeridas (necessárias, porém menos relevantes ao diagnóstico identificado); e as adicionais, ou optativas (aplicadas apenas em pacientes específicos)(5).

Em estudo que identificou as intervenções realizadas por enfermeiros de um Centro de Terapia Intensiva Pediátrica (CTIP) para o diagnóstico de enfermagem Desobstrução ineficaz das vias aéreas relacionado à presença de via aérea artificial, considerou-se que as atividades realizadas para as intervenções propostas pela NIC possuem aplicabilidade, e retratam o que tem sido feito pela equipe de enfermagem(1).

Contudo, nota-se, na prática, que muitas dessas atividades não são realizadas pela equipe de enfermagem. Estudo desenvolvido em uma unidade de internação, objetivando identificar as intervenções realizadas por enfermeiros, revelou que os cuidados diretos são esporadicamente executados e caracterizam procedimentos mais complexos, visto que a maioria das ações desenvolvidas por estes profissionais se relaciona a atividades burocráticas, ou necessárias ao desempenho de outros profissionais(2). Em outro estudo, as mesmas autoras observaram que os enfermeiros ainda não conseguem priorizar as atividades essenciais de enfermagem, executando ações que poderiam e deveriam ser delegadas a outros(8). Esse fato é preocupante, uma vez que, quando as pessoas apresentam condições que requerem intervenções de enfermagem, a ausência de sua realização coloca a saúde dos usuários em risco.

Dentre os grupos populacionais assistidos pela enfermagem, está o de idosos. A literatura chama a atenção para a necessidade dos profissionais de saúde se prepararem para atender às necessidades de saúde desse segmento(4,9-11).

Estudos indicam que Padrão Respiratório Ineficaz é um dos mais prevalentes diagnósticos de enfermagem em idosos no contexto hospitalar(10,12).

Entre as principais atividades realizadas pela enfermagem diante de pacientes idosos com problemas respiratórios destacam-se: a avaliação da profundidade, do padrão e sons respiratórios, da coloração da pele, do reflexo da tosse e da secreção pulmonar; monitoramento e mensuração do fluxo pulmonar, avaliando a quantidade de ar inspirada e expirada, e a efetividade de broncodilatadores e nebulizadores utilizados. Ressalta-se que a educação e orientação ao paciente constituem em importante cuidado de enfermagem(13).

Um estudo(14) observou que pacientes com alterações respiratórias sempre apresentam Padrão Respiratório Ineficaz e considerou que tal diagnóstico precede o desenvolvimento de diagnósticos que se sobrepõem pela piora clínica. Em pacientes idosos a presença deste diagnóstico torna-se mais preocupante, uma vez que esta população apresenta diminuição da capacidade total do funcionamento orgânico. As intervenções de enfermagem a idosos portadores de Padrão Respiratório Ineficaz mostram-se relevantes para uma atuação de enfermagem resolutiva, a fim de evitar o surgimento de outros diagnósticos, minimizar o número de internações, frequentemente observada nesta faixa etária. Acredita-se que a identificação deste diagnóstico nesta população bem como a implementação de intervenções que modifiquem tal resposta poderá evitar a necessidade da utilização de serviços de saúde que compreendam maiores níveis de complexidade, podendo ser resolutivo ainda na assistência básica.

É nesse contexto que surgiu o interesse em estudar as atividades prioritárias da NIC para este diagnóstico de enfermagem. Em uma pesquisa foram identificadas as atividades referidas pelos profissionais de enfermagem como prioritárias da NIC para este diagnóstico no cenário hospitalar, o que permitiu o conhecimento da amplitude e abrangência das ações e responsabilidades desenvolvidas pela Enfermagem nesse contexto. Percebeu-se naquela pesquisa que a enfermagem refere atividades que julga importante, mas que não são executadas(15).

Assim, julgamos oportuno desenvolver este estudo, que focaliza as atividades não realizadas pela equipe de enfermagem para o diagnóstico de enfermagem Padrão Respiratório Ineficaz no cuidado de idosos. Conhecer as ações ausentes da prática de enfermagem no atendimento à esse diagnóstico em idosos poderá contribuir para reflexão da prática clínica de enfermagem no atendimento à idosos, e sobre a qualidade e resolubilidade do atendimento prestado.

 

OBJETIVO

Identificar as atividades prioritárias da NIC para o diagnóstico de enfermagem Padrão Respiratório Ineficaz que não são realizadas pela equipe de enfermagem no cuidado à pacientes idosos e analisar os motivos para a não realização.

 

MÉTODO

Trata-se de estudo descritivo, realizado na Clínica Médica de um hospital de ensino de grande porte, no Estado de Goiás. A amostra foi constituída por profissionais da equipe de enfermagem que trabalhavam no setor, tendo como critério de inclusão estar lotado na Clínica Médica há mais de seis meses. Esse período foi determinado por ser considerado o mínimo necessário para os profissionais terem vivenciado o cuidado junto a idosos no setor, que tenham apresentado o diagnóstico de interesse para o estudo. Após serem esclarecidos sobre a pesquisa, os profissionais foram convidados a participar mediante a assinatura do termo de consentimento livre e esclarecido. O estudo (Protocolo nº 007/09) foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa Médica, Humana e Animal, do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás.

A coleta de dados foi realizada no período de outubro a dezembro de 2008, por meio da aplicação de um questionário em formato check list. Todas as atividades correspondentes às intervenções prioritárias para o Padrão Respiratório Ineficaz - Controle da Asma, Monitoração Respiratória e Controle de Vias Aéreas - foram listadas. O participante respondia se realizava ou não a atividade no cuidado a pacientes idosos, que apresentassem o diagnóstico em estudo e, quando oportuno, justificava o motivo da não realização, marcando uma das alternativas: atividade realizada por outro profissional, o serviço não dispõe de meios para realização e não sei do que se trata.

À época, havia 55 profissionais de enfermagem lotados na equipe da Clínica Médica do hospital em que o estudo foi desenvolvido. Desse total, um profissional trabalhava no setor há menos de seis meses, e dez não foram encontrados em três visitas consecutivas, porque estavam de férias, de licença, ou haviam trocado de plantão repetidamente. Assim, dos 44 profssionais convidados, 43 aceitaram (78,18% da população), sendo sete enfermeiros e 36 técnicos de enfermagem.

Os dados coletados foram inseridos no software Statistical Package of Social Sciences for Windows®, versão 16.0; analisados segundo a frequência simples e percentual.

 

RESULTADOS

Predominou o sexo feminino, sendo a faixa etária mais frequente aquela entre 31 a 40 anos, e a escolaridade para a maioria foi o segundo grau completo, o que é exigência mínima para a profissão de técnico de enfermagem. Contudo, destaca-se que uma parcela destes estava em processo de formação em curso superior ou já haviam obtido a conclusão de sua graduação, cursando inclusive especialização. Todos os participantes relataram experiência no cuidado a adultos e idosos, inclusive com problemas respiratórios. A maioria (58,2%) deste profissionais atuavam no setor há mais de um ano e 25,6% há mais de 10.

Quanto às 67 atividades presentes nas intervenções prioritárias da NIC para o Padrão Respiratório Ineficaz e analisadas pelos participantes, sete foram referidas por todos os como atividades realizadas. Estas correspondem a atividades comumente presentes em prescrições médicas como administração de medicamentos broncodilatadores, tratamentos de aerossol, oxigenoterapia e posicionamento, ou seja, são atividades dependentes ou básicas, ralizadas tanto pelos técnicos como pelos enfermeiros.

Dez atividades apresentaram concordância nas respostas dos participantes como atividades não realizadas, pela totalidade dos participantes, conforme apresentado na Tabela 1.

Observa-se que consideraram como motivo principal para a ausência de implementação dessas atividades o fato de que realização destas atividades era feita por outro profissional, exceto a atividade 40 Administrar tratamentos com nebulizador ultra-sônico, que teve como justificativa a indisponibilidade de material para sua realização no setor (39,5%) ou não saberem do que tratava tal atividade (39,5%).

As outras cinquenta atividades analisadas apresentaram frequência percentual variada de não realização pelos participantes. Em razão da grande quantidade de atividades, optou-se por apresentar apenas aquelas com percentual > 60%.

As atividades foram divididas pela categoria profissional, a fim de identificar a atuação de cada profissional e os motivos que os levam a não realização.

O motivo predominante para a não realização destas atividades pelos técnicos de enfermagem referiu-se à sua prática por outro profissional.

Entre as atividades não realizadas pelos enfermeiros, seis apresentaram frequência de não realização > 60%.

Nota-se que os motivos predominantes foram a realização por outros profissionais e a indisponibilidade de recursos no serviço/instituição.

 

DISCUSSÃO

Acredita-se que as intervenções de enfermagem devem ser amplamente estudadas e aprimoradas pelos profissionais a fim de buscar, não somente o empoderamento, mas sobretudo, a melhora da saúde do indivíduo.

No caso da população idosa, a situação é premente, haja vista as altas taxas de reinternações, num perídodo de até um ano, que podem estar relacionadas com a fragilidade do estado de saúde, e com a resolubilidade do atendimento anteriormente recebido(9).

As atividades analisadas são consideradas pela NIC como prioritárias, revelando-se necessárias e imprescindíveis para atender as pessoas que apresentam o diagnóstico em foco. Assim das 67 atividades prioritárias da NIC para o Padrão Respiratório Ineficaz, 16 foram referidas, pelos técnicos de enfermagem, como não realizadas apresentando frequência > 60%, 06 foram referidas como não realizadas pelos enfermeiros, apresentando frequência > 60%, 10 atividades apresentaram frequência igual a 100% para a não realização, nas respostas de ambas categorias profissionais.

A maioria destas atividades não realizadas pela enfermagem foram indicadas como ações cuja realização ocorre por parte de outra categoria profissional. Nota-se que algumas atividades da NIC descrevem ações incomuns a prática da enfermagem, no cenário estudado, evidenciado pelo relato de participantes que desconhecem atividades relacionadas ao uso do espirômetro e outros equipamentos (atividades 4,5,6,35, 40, 42 e 54).

Algumas destas atividades referem-se a realização de exame de medida da função respiratória. Esta atividade é importante pois em indivíduos idosos os valores que expressam a capacidade funcional pulmonar revelam-se, em sua maioria, diminuídos. Este fato pode ser observado também em indivíduos que fumaram ou ainda mantém o hábito. Assim, obseva-se que os volumes pulmonares variam conforme o gênero, a idade, a realização ou não de atividades físicas, a postura e o peso. Portanto o conhecimento e a identificação precoce dos volumes e capacidades pulmonares pode prevenir, diagnósticar e/ou quantificar agravos e distúrbios pulmonares/ventilatórios, contribuindo na modificação de hábitos e seleção de intervenções que sejam benéficas à esses indivíduos(16).

As atividades 30 e 67 referem-se a intubação orotraqueal e a prescrição ou renovação da medicação para asma respectivamente. No contexto de atuação da enfermagem brasileira, configuram-se legalmente em atividades exclusivas da categoria médica, exceto nos casos estabelecidos em lei, como em alguns programas de saúde pública ou protocolos de instituições. Tais atividades são realizadas apenas pela equipe médica, no cenário estudado, como era de se esperar. Por outro lado, a intubação orotraqueal não é comum nos idosos com o diagnóstico estudado, no setor pesquisado.

A atividade Realizar fisioterapia de tórax, conforme adequado na NIC não se refere à atividades específicas do fisioterapeuta, uma vez que várias atividades que promovem a ventilação adequada, por meio de técnicas especiais, podem ser consideradas como fisioterapia respiratória, como por exemplo: mudanças de decúbito para mobilização de secreção, limpeza de vias aéreas, aspiração, e, nebulização.

A NIC traz uma intervenção específica nomeada Fisioterapia respiratória e definida como: auxílio ao paciente para movimentar secreções, desde as vias áereas periféricas até as vias aéreas mais centrais, para expectoração e/ou aspiração(5). Entende-se que esta intervenção denota atividades mais amplas que, quando descritas, são reconhecidas na prática da enfermagem. Esse fato pode ser melhor percebido ao analisar a atividade 55 das Figuras 1 e 2 iniciar tratamentos de fisioterapia respiratória (p. ex. nebulização, se necessário). Surge portanto, a necessidade de adequar a nomenclatura de algumas atividades desta classificação para melhor utilização e compreensão da enfermagem brasileira.

Durante a rotina de trabalho, a equipe de enfermagem realiza algumas destas atividades, por serem reconhecidas como parte do fazer da enfermagem e serem realizadas ao longo da história da profissão, como é o caso da tapotagem. Estudo enfatiza a necessidade de atuação direta do enfermeiro no cuidado a portadores de problemas respiratórios e que necessitam de fisioterapia, espirometria, entre outros cuidados(1). Em idosos esta necessidade é maximizada uma vez que, durante os processos patológicos os indivíduos apresentam fatores relacionados e características definidoras típicas e que comprometem mais a saúde, decorrentes da associação do organismo em resposta à senescência e à senilidade(13). Portanto os exercícios respiratórios, descritos pela NIC como fisioterapia respiratória devem ser prescritos e realizados pela enfermagem ao paciente idoso, avaliando constantemente a melhora produzida.

É importante considerar a integralidade da assistência, observando o indivíduo como um ser holístico e de necessidades múltiplas. Contudo, mostra-se fundamental à prática assistencial da enfermagem a articulação com a singularidade. Ações diretas voltadas as necessidades observadas no indivíduo e que atuam como modificadoras das respostas humanas, precisam ser cada vez mais implementadas e diversificadas pelo enfermeiro(3,17).

Na Figura 1, nota-se que as atividades 18, 19, 21, 49, 50, 51, 53 e 62, inserem-se no contexto do exame físico. Cada uma dessas atividades é útil para a identificação de complicações e/ou novos problemas, possibilitando a implementação de novas atividades ou intervenções de enfermagem. Estas atividades exigem do profissional, conhecimento abrangente sobre as técnicas de inspeção, palpação, percussão e ausculta, as quais, quando executadas corretamente e associadas ao conhecimento clínico, possibilitam a tomada de decisão(18).

De posse das habilidades necessárias estas atividades contribuirão, não só para a identificação de informações clínicas relevantes, mas para a implementação das interveções de enfermagem, a identificação das causas prováveis, além de possibilitar o fortalecimento de vínculos entre o profissional e o paciente, aumentando a credibilidade e confiança entre enfermeiro e paciente e permitindo também a comparação das repercussões clíncias do indivíduo frente à patologia(18). Nesse sentido, não há expectativa em relação a realização destas atividades pelos técnicos de enfermagem, uma vez que a atividade necessita de conhecimento téoricos e práticos, pautados em fundamentos científicos, com fim específico de levar a uma atuação mais segura para a elaboração do plano de cuidados.

A maioria dos técnicos de enfermagem responderam que tal atividade é realizada por outra categoria profissional. O percentual de não realização destes procedimentos está dentro do esperado, uma vez que estes procedimentos não fazem parte das competências e atribuições destes profissionais.

As principais alterações da função pulmonar fisiológica acarretadas pelo envelhecimento são: o comprometimento da eficiência das trocas gasosas, a redução da complacência pulmonar e a diminuição da força dos musculos respiratórios, a diminuição do transporte de oxigênio para os tecidos com consequente diminuição do débito cárdiaco, da massa muscular corpórea, do volume alveolar e da relação ventilação/perfusão(19). Portanto, cabe aos enfermeiros reconhecer tais alterações durante a realização do exame físico e selecionar intervenções que melhorem o estado respiratório dentro dos limites esperados para esta idade.

Na Figura 2, observa-se que as atividades 50 e 62 também apresentaram frequência >60%. Este dado apresentou como motivo predominante, para os enfermeiros, a indisponibilidade de recursos necessários para a realização. Para os participantes que relataram a não implementação, a justificativa foi a falta de tempo, a grande demanda de pacientes na instituição em relação ao pequeno número de funcionários disponíveis, fazendo com que os mesmos se limitem apenas à realização de atividades indispensáveis para o andamento do serviço.

Estudo desenvolvido em um hospital escola com objetivo de identificar os diagnósticos de enfermagem prevalentes em idosos comparando-os com o tempo de internação, evidenciou a presença do Padrão Respiratório Ineficaz como o quarto diagnóstico mais citado, entre os sessenta e dois identificados. Para este diagnóstico a prescrição predominante foi vigiar o padrão respiratório(20).

A ação de vigiar consiste em monitoração e observação constante do estado de saúde do paciente, a qual, pode ser desenvolvida no ato do exame físico. Atividades semelhantes são priorizadas pela NIC para este diagnóstico. Nota-se que as atividades de número 63 (Monitorar laudos de RX de tórax) e 58 (Observar mudanças em SaO2 e SvO2, no CO2 expirado e nos valores da gasometria arterial conforme apropriado)(5) foram associadas à realização por outra categoria profissional quando respondidos pelos técnicos de enfermagem. A primeira atividade foi relatada por ambas categorias enquanto a segunda apenas pelos técnicos de enfermagem.

A observação das mudanças nos gases arteriais pode vir acompanhada de alterações clínicas, tanto do padrão respiratório, quando alterações sistêmicas, por exemplo o rebaixamento do nível de consciência causado pelo excesso de CO2, frequentemente observado neste grupo etário(10,13,21).

Estas atividades geralmente são realizadas pelos enfermeiros, sendo incomuns na formação dos técnicos de enfermagem. Neste estudo, notou-se que os enfermeiros acompanham os resultados dos exames laboratoriais dos pacientes, observando melhora e piora durante o processo de internação.

Autoras enfatizam a importância do reconhecimento de intervenções que revelam melhores resultados frente à um determinado problema bem como, o reconhecimento de interveções executadas usualmente em áreas ou especialidades de atuação deste profissional. Considera-se que a possibilidade da identificação dessas interveções de enfermagem, modifiquem a resposta humana, quando implementadas(22).

Nesse sentido, considera-se a atividade 22, observada nas Figuras 1 e 2, necessária aos pacientes idosos com problemas respiratórios. O envelhecimento reduz a eficácia na remoção de resíduos e umidificação das vias aéreas contribuindo assim, para o acúmulo de secreção e diminuição da capacidade ventilatória eficiente. A hidratação favorece a fluidificação da secreção contribuindo na mobilização e expectoração(21).

Esta atividade apresentou motivos diferentes para a não realização pelas categorias profissionais. Para alguns profissionais, tal atividade deve ser realizada por uma categoria que atue diretamente na área da nutrição. No setor estudado, não é comum a presença de profissionais habilitados para avaliação e prescrição nutricional adequada aos pacientes hospitalizados.

Em relação a atividade de número 15, a maioria dos participantes relataram que esta era, frequentemente, executada pelo médico ou por acadêmicos de cursos de Medicina, Enfermagem, Nutrição e Psicologia, sob a supervisão do professor. Tal fato deve despertar preocupação por parte dos enfermeiros, por ser esta uma atividade importante à concretização do cuidado na execução das fases de coleta de dados, diagnósticos de enfermagem, planejamento e implementação da assistência. Isto pode refletir a ausência de uma organização de assistência de enfermagem mais voltada para as singularidades de cada paciente, com base no processo de Enfermagem e em conformidade com a lei do exercício profissional. A não realização destas atividades leva-nos a inferir que outras ações, também importantes para a modificação do estado de saúde do indivíduo, deixam de ser realizadas.

Estudo relizado com objetivo de identificar as atividades desenvolvidas por enfermeiros em uma institutição hospitalar considerou que muitos profissionais têm executado ações baseadas apenas na rotina implantada no setor, evidenciando pouco empenho na inovação e/ou melhoria do trabalho(8).

As ações de saúde implementadas durante a hospitalização devem ter em vista a integralidade do cuidado ao idoso, com ações curativas e de promoção a saúde. Além disso, devem considerar a realidade em que o indivíduo vive, e assim, providenciar o planejamento de cuidados que vão ao encontro das suas necessidades, para que após a alta, os idosos adotem medidas saudáveis, aprendidas durante o processo de internação e que evite reinternações(11).

Entende-se que entre as atividades importantes exercidas pelo enfermeiro, está a avaliação da saúde do indivíduo e a implementação de intervenções necessárias a modificação do quadro clínico. Muitas atividades são em geral, desenvolvidas em parcerias com outras categorias profissionais e refletem a complementaridade e interdependência de diferentes agentes que atuam na assistência ao indivíduo(7).

A ausência na realização de certas atividades afastam a equipe de enfermagem, inclusive o enfermeiro, de informações relevantes e úteis para o acompanhamento e mudança do planejamento da assistência de enfermagem, que visam o alcance de resultados(8).

Outro aspecto negativo observado refere-se ao afastamento deste profissional de discussões e tomadas de decisões clínicas junto a outros profissionais o que contribuiria para a visibilidade e o estabelecimento da notariedade diante da equipe multiprofissional.

 

CONCLUSÃO

Como parte das atividades prioritárias da NIC para o diagnóstico Padrão Respiratório Ineficaz em idosos, entende-se que a não realização de algumas atividades pelos enfermeiros pode resultar em lacunas importantes na resolutividade da assistência de enfermagem, bem como a não realização pelos demais membros da equipe de enfermagem, uma vez que o enfermeiro prescreve os cuidados necessários ao indivíduo.

Em todos os grupos de atividades não realizadas, predominou como motivo de não realização, a execução destas ações por parte de outro profissional. Contudo, percebe-se no contexto, imprecisões entre os participantes sobre as atividades que, legalmente, podem e devem ser realizadas por outros profissionais. Assim, salienta-se a necessidade de aparato legal na descrição de atividades que compõem a prática da enfermagem considerando-se relevante a necessidade de descrevê-las definindo melhor a atuação dos compenentes da equipe de enfermagem e delimitando assim, as ações por eles desenvolvidas. Surge também a necessidade de avaliar entre as intervenções de enfermagem prioritárias para o Padrão Respiratório Ineficaz aquelas que realmente são indispensáveis para o cuidado de pacientes idosos com este diagnóstico.

Há necessidade de considerar a interdisciplinaridade, bem como a criação de vínculos com outros profissionais, o que poderá contribuir no tratamento destinado ao indivíduo e aumentar a credibilidade do enfermeiro frente aos profissionais e pacientes, para a prescrição de cuidados.

As atividades não realizadas pela enfermagem a idosos portadores de Padrão Respiratório Ineficaz possibilitam o surgimento de outros diagnósticos que agravam a condição clínica do paciente, aumentam o tempo de internação, minimizando a saúde do indivíduo.

Em outra perspectiva, a não utilização de algumas ações possibilitam o fortalecimento de atuação clínica de outros profissionais em áreas que, historicamente, têm sido ocupadas pela Enfermagem, podendo resultar em alteração no campo de abrangência da assistência de enfermagem, levando no futuro, modificações no escopo do domínio da profissão.

 

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Correspondência:
Agueda Maria Ruiz Zimmer Cavalcante
Rua Voluntários da Pátria, 4687 - Santana
CEP 02401-400 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 26/11/2010
Aprovado: 06/11/2011

 

 

* Extraído da dissertação "Intervenções de enfermagem para "padrão-respiratório ineficaz" em idosos", Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Goiás; 2009.