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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versión impresa ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.4 São Paulo agosto 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342012000400004 

ARTIGO ORIGINAL

 

Aleitamento materno: conhecimento e prática*

 

Amamantamiento materno: conocimiento y práctica

 

 

Mariana de Oliveira Fonseca-MachadoI; Vanderlei José HaasII; Juliana StefanelloIII; Ana Márcia Spanó NakanoV; Flávia Gomes-SponholzIV

IEnfermeira. Mestre em Ciências. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação Enfermagem em Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. marianaoliveirafonseca@hotmail.com
IIFísico. Doutor em Física Aplicada à Medicina e Biologia. Professor Visitante da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Uberaba, MG, Brasil. haas@vjhaa.com
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem em Saúde Pública. Professora Doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. julianas@eerp.usp.br
IVEnfermeira. Doutora em Enfermagem em Saúde Pública. Professora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. nakano@eerp.usp.br
VEnfermeira. Doutora em Enfermagem em Saúde Pública. Professora Doutora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. flagomes@eerp.usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Objetivou-se caracterizar as práticas de promoção ao aleitamento materno desenvolvidas pelos profissionais de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família e analisar a correlação entre seu conhecimento sobre aleitamento materno e a frequência com que realizavam orientações sobre o tema nesses momentos. Trata-se de estudo observacional, transversal, descritivo e exploratório desenvolvido nas unidades de saúde da família do município de Uberaba-MG, com 85 profissionais de enfermagem, por meio de dois questionários. Na análise, utilizaram-se distribuição de frequências e análise de correlação de Spearman. A maioria dos profissionais afirmou que, frequentemente, abordava o aleitamento materno nas atividades práticas investigadas. Entretanto, houve uma fraca correlação entre a frequência dessa abordagem e a média de acertos no teste de conhecimento. As declarações dos profissionais de enfermagem indicam que as orientações sobre aleitamento materno eram feitas independentemente do conhecimento que possuíam sobre o tema.

Descritores: Aleitamento materno; Promoção da Saúde; Conhecimentos, atitudes e práticas em saúde; Enfermagem em saúde pública


RESUMEN

Se objetivó caracterizar las prácticas de promoción del amamantamiento materno desarrolladas por profesionales de enfermería de la Estrategia de Salud de la Familia y analizar la correlación entre sus conocimientos sobre amamantamiento materno y la frecuencia con que se realizaban orientaciones sobre el tema en la actualidad. Estudio observacional, transversal, descriptivo y exploratorio, desarrollado en unidades de salud de la familia del municipio de Uberaba-SP, con 85 profesionales de enfermería, mediante dos cuestionarios. En el análisis, se utilizaron distribución de frecuencias y análisis de correlación de Spearman. La mayoría de los profesionales afirmó que, frecuentemente, abordaba el amamantamiento en las actividades prácticas investigadas. Entretanto, existió una débil correlación entre las frecuencias de tal abordaje y la media de aciertos del test de conocimiento. Las declaraciones de los profesionales de enfermería indican que las orientaciones sobre amamantamiento materno se hacían independientemente del conocimiento que poseían sobre el tema.

Descriptores: Lactancia materna; Promoción de la Salud; Conocimientos, actitudes y práctica en salud; Enfermería en salud pública


 

 

INTRODUÇÃO

O aleitamento materno, enquanto uma prática social tem passado por transformações através dos tempos. Devido à sua complexidade e importância para a saúde materno-infantil, torna-se relevante a constante abordagem e estudo do tema(1).

Apesar das inúmeras vantagens da prática da amamentação, evidenciadas na literatura científica, e da melhora da situação do aleitamento materno no Brasil, seus indicadores têm revelado uma tendência à estabilização e, ainda, estão aquém do recomendado pela Organização Mundial da Saúde e Ministério da Saúde, de aleitamento materno exclusivo até seis meses de vida e complementado por dois anos ou mais(2). Esta realidade evidencia o desmame precoce e eleva os níveis de desnutrição e morbimortalidade infantis no país(3).

A partir da constatação de que o desmame precoce insere-se num contexto social, educacional e de responsabilidade dos serviços de saúde, enfatiza-se a necessidade de desenvolvimento de ações pró-amamentação, com vistas a sustentar a prática do aleitamento materno por seis meses(4). Os profissionais que atuam na atenção básica são responsáveis pelo acompanhamento contínuo do processo de amamentação, desde o pré-natal até a puericultura(3,5). A Saúde da Família é uma estratégia prioritária para a organização da atenção básica e a análise da prática profissional da enfermagem nas equipes de saúde da família justifica-se pelo fato de que esta compõe o maior contingente de profissionais nos serviços de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS)(6).

Os profissionais de enfermagem precisam estar devidamente qualificados e sensibilizados para oferecer às gestantes e nutrizes orientações adequadas e acessíveis. Este cuidado promove e apoia o aleitamento materno, e contribui para o estabelecimento e manutenção desta prática.

Identificar o conhecimento e as práticas de promoção ao aleitamento materno desenvolvidas por enfermeiros e técnicos de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família em seu locus de atuação é uma estratégia que visa a reconhecer o cenário de apoio à prática da amamentação, julgar os efeitos de um programa e, consequentemente, refletir sobre a atuação dos mesmos frente aos princípios da atenção básica. Esta análise permite o planejamento, elaboração, implementação e avaliação de políticas públicas municipais de promoção ao aleitamento materno. Mudar o paradigma do atendimento é um desafio que deve ser enfrentado e vencido(7).

Assim, os objetivos deste estudo foram caracterizar as práticas de promoção ao aleitamento materno desenvolvidas pelos profissionais de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família do município de Uberaba, Minas Gerais, e analisar a correlação entre seu conhecimento sobre aleitamento materno e a frequência com que realizavam orientações sobre o tema nestes momentos.

 

MÉTODO

Estudo observacional, transversal, descritivo e exploratório, desenvolvido nas equipes urbanas da Estratégia de Saúde da Família da Secretaria Municipal de Saúde do município de Uberaba, Minas Gerais.

Participaram do estudo todos os enfermeiros e técnicos de enfermagem inseridos nas equipes de saúde da família no período de coleta dos dados, entre março e julho de 2010. Configurou-se, assim, uma população de estudo de 85 participantes, sendo 45 enfermeiros e 40 técnicos de enfermagem.

Os instrumentos de coleta dos dados utilizados constituíram-se em dois questionários autoaplicáveis e semiestruturados, sendo um específico para enfermeiros e outro para técnicos de enfermagem. Ambos os questionários foram previamente testados e validados(8).

Para a identificação do conhecimento dos profissionais sobre aleitamento materno, foram utilizadas dez questões do tipo verdadeiro ou falso. As atividades de promoção ao aleitamento materno, desenvolvidas pelos profissionais de enfermagem, investigadas foram: os momentos de orientação sobre aleitamento materno às gestantes no terceiro trimestre de gestação, os grupos educativos para gestantes e nutrizes, as visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto e as atividades de educação continuada direcionadas aos profissionais das unidades de saúde.

Os dados foram coletados em dois momentos: o primeiro se deu por meio da aplicação dos questionários e o segundo por meio das observações das atividades direcionadas à assistência à gestante e ao binômio mãe-filho.

Para o primeiro momento os enfermeiros foram previamente contatados, esclarecidos sobre a pesquisa, convidados a participar e agendados as datas e horários para aplicação dos questionários, de acordo com suas disponibilidades. O tempo médio de preenchimento dos questionários foi de 35 minutos.

Previamente à realização da segunda etapa da coleta dos dados foi feita uma análise breve dos questionários para identificar as Unidades de Saúde da Família (USF) onde aconteciam as atividades a serem observadas, quais sejam: os momentos de orientação sobre aleitamento materno às gestantes no terceiro trimestre de gestação, os grupos educativos para gestantes e nutrizes, as visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto e as atividades de educação continuada direcionadas aos profissionais das unidades de saúde.

As observações foram realizadas nas USF com o objetivo de acompanhar o enfermeiro e o técnico de enfermagem nos atendimentos às usuárias gestantes ou nutrizes que comparecessem à unidade.

Durante as observações considerou-se: a dinâmica do serviço; o fluxo da usuária na unidade de saúde; o acolhimento; a estrutura física da unidade; a ambiência; a privacidade; e a atuação dos profissionais durante as atividades. No que se refere às visitas domiciliares, consideraram-se as condições do domicílio e, prioritariamente, a abordagem do binômio mãe-filho pelos profissionais.

Para a análise estatística utilizou-se o programa Statistical Package for Social Sciences (SPSS), versão 16.0. Empregou-se a análise bivariada para identificar a correlação entre as variáveis-resposta e a variável-explanatória, sendo utilizada a análise de Correlação de Spearman. Para os testes realizados adotou-se o p-valor (estatística do teste) com nível de significância de α menor ou igual à 0,05. As variáveis-resposta foram a frequência de orientações sobre aleitamento materno às gestantes no terceiro trimestre de gestação: em quase todos os encontros, em alguns encontros, raramente; a frequência de orientações sobre aleitamento materno durante as atividades educativas em grupo: em quase todos os encontros, em alguns encontros, raramente; a frequência de orientações sobre aleitamento materno durante as visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto: em quase todos os encontros, em alguns encontros, raramente; e a frequência de orientações sobre aleitamento materno nas atividades de educação continuada: em quase todos os encontros, em alguns encontros, raramente. A variável-explanatória foi a média de acertos no teste de conhecimento, tipo verdadeiro ou falso.

O projeto desta pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (Processo nº 1035/2009), atendendo a determinação da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde. A pesquisa foi desenvolvida dentro dos padrões éticos, respeitando-se a dignidade humana e recorrendo-se ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

 

RESULTADOS

Fizeram parte do estudo 85 profissionais de enfermagem, com idade entre 22 e 55 anos, e média de 34,2 (± 8,7) anos. A maioria dos profissionais de enfermagem era do sexo feminino (82 - 96,5%) e não tinha filhos (43 - 50,6%). Os 42 profissionais que eram pais pertenciam ao sexo feminino, e destas, 38 (90,5%) amamentaram seus filhos.

Verificou-se que 75 (88,2%) profissionais de enfermagem participaram pelo menos uma vez de cursos sobre aleitamento materno. No que se refere à sua percepção quanto à própria competência para observar uma mamada e orientar a nutriz quanto à técnica correta da amamentação, 76 (89,4%) participantes se consideravam preparados para desempenhar tal função.

A caracterização das práticas de promoção ao aleitamento materno desenvolvidas pelos profissionais de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família do município de Uberaba, Minas Gerais, pode ser visualizada na Tabela 1.

 

 

A orientação sobre aleitamento materno às gestantes no terceiro trimestre de gestação era feita por 82 (96,5%) profissionais de enfermagem. Os outros três (3,5%) profissionais, todos enfermeiros, não revelaram a frequência com que faziam esta orientação.

No que se refere às atividades grupais de educação em saúde para gestantes e mulheres no período pós-parto, conduzidas pelos profissionais de enfermagem nas unidades de saúde, verificou-se que 49 (57,6%) profissionais utilizavam esta estratégia e orientavam sobre aleitamento materno nestes momentos. Os outros 36 (42,4%) profissionais não participavam de grupos educativos.

Dos 45 enfermeiros participantes do estudo, 40 (88,9%) faziam visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto e orientavam sobre aleitamento materno nestes encontros. Os outros cinco (11,1%) não participavam deste tipo de atividade.

Especificamente em relação à primeira visita domiciliar após o parto, a qual era feita por técnicos de enfermagem, destaca-se, que dentre os 40 técnicos participantes do estudo, 37 (92,5%) faziam visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto e, destes, três (8,1%) não informaram a frequência com que faziam orientações sobre aleitamento materno nestes momentos.

Considerando as atividades de educação continuada realizadas pelos enfermeiros e direcionadas aos profissionais das USF, um (2,2%) enfermeiro informou que não participava deste tipo de atividade. No total, 44 (97,8%) enfermeiros participavam das atividades de educação continuada em suas unidades e orientavam sobre aleitamento materno nestes momentos.

A análise da correlação entre as variáveis-resposta "frequências da abordagem do aleitamento materno pelos profissionais de enfermagem em suas atividades nas USF" e a variável-explanatória "média de acertos no teste de conhecimento tipo verdadeiro ou falso", por meio do Coeficiente de Correlação de Spearman (r), revelou uma fraca correlação (0 < r < 0,3), a qual não demonstrou significância estatística, entre a frequência com que os profissionais de enfermagem realizavam orientações sobre aleitamento materno nas atividades direcionadas à assistência materno-infantil e sua média de acertos no teste de conhecimento. Uma exceção foi observada na frequência de orientações sobre aleitamento materno durante a primeira visita domiciliar ao binômio mãe-filho após o parto, realizada pelos técnicos de enfermagem, onde a correlação com a média de acertos foi moderada, apesar do valor do coeficiente de correlação (r=0,31) estar próximo do limite que o separa da classificação como correlação fraca.

 

DISCUSSÃO

No que tange às orientações sobre aleitamento materno feitas às gestantes no terceiro trimestre de gestação, 75 (91,5%) profissionais de enfermagem referiram fazê-las em quase todos os encontros com estas mulheres. Estudo desenvolvido no município de Montes Claros (MG)(9) encontrou que 87,6% dos profissionais da Estratégia de Saúde da Família realizavam orientação sobre aleitamento materno às gestantes no final do pré-natal. Um dos motivos alegados pelas mulheres para não amamentar ou interromper precocemente a amamentação é a falta de orientação por parte dos profissionais de saúde durante o pré-natal(10). Destaca-se que dentre os dez passos para o sucesso da amamentação da Iniciativa Unidade Básica Amiga da Amamentação, seis envolvem a orientação e apoio às gestantes.

A análise bivariada mostrou a existência de uma fraca correlação entre a frequência de realização de orientações sobre aleitamento materno às gestantes no terceiro trimestre de gestação e a média de acertos no teste de conhecimento. Isto significa que independente de seu nível de conhecimento sobre aleitamento materno, os profissionais do estudo frequentemente orientavam as gestantes sobre esta prática social. Tal situação pode repercutir de forma negativa na prática do aleitamento materno, pois parte do conhecimento das nutrizes sobre aleitamento materno é obtido por meio das orientações dos profissionais de saúde. Informações incorretas, incompletas ou sem embasamento científico podem contribuir para o desmame precoce.

Nesse sentido, são necessárias estratégias que facilitem a difusão de informações sobre os fundamentos anatômicos, fisiológicos, imunológicos do aleitamento materno, o manejo clínico da amamentação e das intercorrências mamárias. Com esse conhecimento, o profissional da equipe de enfermagem é capaz de repassar informações e atuar criativamente a respeito das vantagens e importância do aleitamento materno e de maneiras de conciliar esta prática com outros papéis exercidos pela mulher na sociedade(11-12). Esta é uma tarefa de todos os profissionais de saúde, com destaque para a equipe de enfermagem, visto que ela atua como agente da promoção da saúde, influenciando positivamente a prática do aleitamento materno. Assim, a enfermagem deve valorizar a força do processo educativo, pois este contribui para a aproximação entre as pessoas e para o fortalecimento das potencialidades individuais e coletivas no que se refere à valorização da saúde, à utilização de recursos disponíveis e ao exercício da cidadania(11,13).

O sucesso do aleitamento materno associa-se a programas educativos de diversas naturezas e à valorização da cultura estritamente relacionada a esta prática social. Ademais, sua promoção e incentivo devem ocorrer em todas as circunstâncias, para que as mães ampliem seu conhecimento sobre o assunto e, consequentemente, elevem sua prevalência e duração(11,14). Neste contexto, inserem-se as atividades grupais de educação em saúde para gestantes e mulheres no período pós-parto, realizadas nas USF.

Dentre os profissionais de enfermagem do estudo, 49 (57,6%) participavam das atividades educativas em grupo realizadas em suas unidades. Destes, 43 (87,8%) faziam orientações sobre aleitamento materno em quase todos os encontros. Os resultados de estudo desenvolvido em Montes Claros (MG) revelaram que a maioria dos profissionais da Estratégia de Saúde da Família participava de grupos educativos para gestantes e nutrizes e fazia orientações sobre aleitamento materno nestes momentos(9).

Os grupos constituem-se em estratégias para a prática da promoção da saúde e caracterizam-se por um conjunto de pessoas que se interagem com o objetivo de ampliar suas capacidades, o que propicia o desenvolvimento de autonomia e enfrentamento de novas situações, permitindo maior controle dos usuários sobre seu contexto social e ambiental. Neste sentido, é essencial a superação das formas tradicionais de abordagem do processo saúde-doença e da redução simplista dos grupos enquanto promotores de mudanças das condutas individuais(15).

As atividades educativas em grupo para gestantes e nutrizes partem da ideia de que o compartilhamento das expectativas, experiências e vivências destas mulheres em relação ao aleitamento materno, aliado à orientação dos profissionais de saúde, podem prevenir dificuldades e ensiná-las a lidar com a ansiedade, inseguranças e possíveis problemas relacionados à prática da amamentação. Neste sentido, seriam neutralizados alguns dos empecilhos e obstáculos ao aleitamento materno exclusivo(3). Entretanto, esta talvez não seja uma realidade vigente nas USF do estudo, pois independente de possuir ou não bons níveis de conhecimento sobre aleitamento materno, os profissionais de enfermagem frequentemente orientavam gestantes e nutrizes em relação a esta prática social durante as atividades grupais de educação em saúde, o que foi demonstrado pela existência de uma fraca correlação entre a frequência da realização de orientações sobre aleitamento materno pelos profissionais de enfermagem nestas atividades e sua média de acertos no teste de conhecimento.

O acompanhamento do binômio mãe-filho no pós-parto é reconhecido como momento propício para a verificação e correção de atitudes prejudiciais ao aleitamento materno(6). Esta estratégia pode ser efetivada por meio de visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto, as quais eram feitas por 40 enfermeiros no presente estudo, dos quais 38 (95%) faziam orientações sobre aleitamento materno em quase todos os encontros. Estes dados corroboram os encontrados em um estudo(8) em que 92,6% dos profissionais de nível superior realizavam visitas domiciliares às mulheres no período pós-parto. Contudo, acrescenta-se o fato de que as orientações eram realizadas pelos enfermeiros durante as visitas independentemente de seu nível de conhecimento sobre aleitamento materno, pois foi demonstrada, pelo Coeficiente de Correlação de Spearman, a existência de uma fraca correlação entre a frequência da abordagem do tema nestas atividades e a média de acertos no teste de conhecimento. Esta situação pode ser determinante para o desmame precoce e para o abandono da amamentação pela mãe, pois orientações incorretas e a não verificação de um simples erro na técnica da amamentação, por falta de conhecimento dos profissionais, podem desencadear um processo de sofrimento para a mulher, que acaba introduzindo precocemente outros alimentos na dieta da criança.

Estudo feito com mães cadastradas na Estratégia de Saúde da Família encontrou na visita domiciliar um fator decisivo para que a mãe se sentisse apoiada no ato de amamentar(8). A ampliação e o fortalecimento da assistência domiciliária valorizam o processo saúde-doença e a influência do contexto de vida e da dinâmica familiar sobre a saúde materno-infantil, além de viabilizar a entrada dos profissionais de saúde dentro dos lares. O objetivo dessa inserção é observar e trabalhar o desenvolvimento do binômio mãe-filho dentro do seu contexto ambiental, cultural e familiar(16).

Portanto, a assistência de enfermagem à mulher no período pós-parto promove o aleitamento materno como uma experiência positiva e satisfatória para o binômio mãe-filho, pois são nestes profissionais da atenção básica que a nutriz se apoiará(17).

Considerando as atividades de educação continuada direcionadas aos profissionais nas USF, destaca-se que 44 (97,8%) enfermeiros participavam destes encontros.

A educação continuada nas unidades de saúde da família no município de Uberaba geralmente acontece uma vez por semana. Neste momento os profissionais da equipe se reúnem e um deles, geralmente com nível superior, discorre sobre determinado tema, em forma de palestra ou aula expositiva.

A nomeação dessas atividades retrata fielmente o modo como acontecem: ações pontuais, representadas por capacitações sobre temática específica e escolhida aleatoriamente pelo responsável. Seu caráter comunicativo é, portanto, pautado pela verticalização na tomada de decisão sobre o processo educativo, cuja finalidade está na transmissão de conhecimentos. Estas atividades restringem-se à atualização dos conhecimentos dos trabalhadores, os quais não serão necessariamente aplicados no cotidiano da prática profissional, pois podem diferir da realidade vivenciada nas unidades(18). Apesar disso, as iniciativas de educação continuada podem promover uma reflexão sobre o modo de agir individual de cada profissional, apesar de não terem o objetivo final de problematizar e discutir a realidade do serviço e propor soluções para os problemas encontrados, embora os temas possam advir de uma situação encontrada no cotidiano das ações de saúde.

Assim, há a necessidade de constante atualização e aquisição de conhecimento por parte da equipe de enfermagem no que se refere ao aleitamento materno, e isto pode ser adquirido por meio da educação continuada, onde o espaço permite a solução de dúvidas, a aquisição de novos conhecimentos e a troca de experiências entre os participantes. Entretanto, no presente estudo, houve uma fraca correlação entre a frequência de realização de orientações sobre aleitamento materno pelos enfermeiros, durante as atividades de educação continuada, e seu nível de conhecimento no teste. Isso indica que as orientações eram feitas independentemente do conhecimento que possuíam sobre a temática, o que denota uma certa gravidade e até irresponsabilidade por parte destes profissionais, pois, ao repassarem informações incorretas a respeito do assunto para o restante da equipe, contribuem para o insucesso da amamentação. Ainda neste contexto, as orientações podem refletir o conhecimento dos profissionais adquirido em sua experiência pessoal com o aleitamento materno, o que contribui para a perpetuação de crenças, mitos e falsas verdades na comunidade por eles assistida.

Nesse sentido, destaca-se que o sucesso da amamentação depende da participação e da parceria de todos os profissionais envolvidos no atendimento ao binômio mãe-filho, os quais devem prestar orientação adequada e correta durante o pré-natal e puerpério(6).

Verificou-se que a maioria das práticas de promoção citadas anteriormente teve uma fraca correlação com a média de acertos dos profissionais no teste de conhecimento, com exceção de uma delas, a orientação sobre as vantagens e importância do aleitamento materno durante a primeira visita domiciliar após o parto, realizadas pelos técnicos de enfermagem, onde houve uma moderada correlação. Isto demonstra que os profissionais de nível técnico tinham um maior cuidado nas orientações repassadas às mulheres no ciclo grávido-puerperal no que se refere ao aleitamento materno, pois de certa forma as orientações durante as visitas domiciliares eram feitas com mais frequência à medida que seu nível de conhecimento aumentava. Destaca-se que, esses momentos em que se acredita que as orientações eram pautadas em conhecimento mais profundo eram propícios para a abordagem precoce do aleitamento materno, o que contribui para os menores índices de desmame e morbimortalidade infantil, já que os problemas na amamentação são mais frequentes nas primeiras semanas após o parto, momento em que as mulheres encontram-se em suas casas(19).

A atuação dos profissionais de saúde pode influenciar negativamente o estabelecimento e manutenção do aleitamento materno, caso estes não tenham uma visão ampliada que vá além do manejo clínico e ofereça suporte às mães(19). As equipes de saúde da família têm como local de intervenção o ambiente familiar e, portanto, têm a oportunidade de identificar o significado do aleitamento materno para a nutriz e seus entornos, além de transmitir conhecimentos teóricos e práticos visando a orientar e a capacitar esta mulher em seu processo de amamentação(20). Portanto, autores sugerem o investimento em educação profissional para os trabalhadores da atenção básica, já que é neste nível de atenção que a maior parte das mulheres faz o pré-natal e o acompanhamento puerperal, momentos em que necessitam de apoio e orientações sobre aleitamento materno(21).

Os profissionais de enfermagem das equipes de saúde da família do município em estudo possuem uma formação em aleitamento materno pautada na pedagogia tradicional e na educação continuada, sendo centrada em ações intencionais, planejadas, de enfoque cognitivo e distantes dos problemas contextuais, o que resulta em uma prática fragmentada, descontextualizada e arraigada no olhar biologicista e verticalizado da amamentação(22).

Nesse contexto, ganha relevância a educação permanente em saúde, cuja proposta é estruturar a capacitação dos profissionais de saúde a partir da problematização do processo de trabalho. Ela parte do pressuposto da aprendizagem significativa, a qual acontece quando o material de aprendizagem relaciona-se com o conhecimento prévio dos profissionais. Assim, propõe a transformação das práticas profissionais, a partir da reflexão crítica da realidade, e a reorganização do trabalho, baseando-se nas necessidades de saúde dos usuários, na gestão setorial e no controle social em saúde(22).

Atualmente, na atenção básica, existe uma estratégia de educação permanente em aleitamento materno para os profissionais de saúde, a Rede Amamenta Brasil, que parte do aprendizado significativo e da problematização da realidade, possibilitando um novo olhar e um novo fazer diante da rede sociobiológica da amamentação. Entretanto, o município de Uberaba não conta com tutores da rede e com UBS certificadas, não havendo, portanto, um estímulo à educação permanente em saúde direcionada ao aleitamento materno.

Os cursos sobre aleitamento materno, realizados pelos participantes do estudo, não são inválidos, pois a educação permanente pode abranger em seu processo diversas ações específicas de capacitação, desde que estejam articuladas à estratégia geral de mudança institucional. Desse modo, para se conseguir transformar a realidade de um serviço e propor soluções para os problemas encontrados, é necessário ter o mínimo de conhecimento e habilidades teóricas e práticas a respeito daquilo que se pretende mudar, e isto pode ser conseguido por meio de estratégias de capacitação.

 

CONCLUSÃO

As declarações dos profissionais de enfermagem são unânimes no que se refere à abordagem do aleitamento materno nas atividades direcionadas à assistência materno-infantil investigadas no estudo. Entretanto, a correlação entre o nível de conhecimento e a frequência da abordagem do aleitamento materno nestas práticas indicou que os profissionais de enfermagem realizavam orientações independentemente do conhecimento que possuíam sobre o tema.

Esta situação pode ser justificada pelo fato de que desde sua formação profissional inicial, enfermeiros e técnicos de enfermagem são orientados quanto à necessidade da abordagem do aleitamento materno nestas atividades. Ademais, é esperado pelas mulheres que, em seus contatos com profissionais de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família, durante o ciclo grávido-puerperal, estas orientações estejam presentes.

Assim, os resultados do presente estudo permitem a sensibilização dos profissionais de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família e dos gestores quanto à necessidade de um programa de educação permanente em aleitamento materno, o que permitirá a efetivação das atividades de promoção a esta prática social e consequentemente o aumento de sua prevalência e duração.

Devido à escassez de estudos cujo enfoque seja o conhecimento e as práticas de promoção ao aleitamento materno de profissionais de enfermagem da Estratégia de Saúde da Família, os achados do presente estudo propõem novas pesquisas para se investigar esta correlação.

 

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Correspondência:
Mariana de Oliveira Fonseca
Avenida dos Bandeirantes, 3900 - Monte Alegre
CEP 14040-902 - Ribeirão Preto, SP, Brasil

Recebido: 26/05/2011
Aprovado: 01/12/2011

 

 

* Extraído da dissertação "Conhecimento e práticas de profissionais de enfermagem das equipes de saúde da família, de um município do interior de Minas Gerais, sobre promoção ao aleitamento materno", Programa de Pós-Graduação Enfermagem em Saúde Pública da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2010.
Trabalho subvencionado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).