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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.5 São Paulo Oct. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342012000500011 

ARTIGO ORIGINAL

 

Construindo sentidos e possibilidades: a experiência da equipe de incubação de um empreendimento solidário*

 

Construyendo sentidos y posibilidades: la experiencia del equipo de incubación de un emprendimiento solidário

 

 

Priscila Tagliaferro RojoI; Carmen Lúcia Alves FilizolaII

IEnfermeira. Mestre em Enfermagem pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, SP, Brasil, pri_taglia@yahoo.com.br
IIEnfermeira. Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Professora Associada do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Carlos. São Carlos, SP, Brasil, filizola@ufscar.br

Correspondência

 

 


RESUMO

Esta pesquisa qualitativa teve por objetivo analisar a experiência da equipe de incubação de um empreendimento solidário de usuários de saúde mental. As entrevistas ocorreram com sete membros da equipe, sendo os dados analisados segundo análise de conteúdo. Da análise emergiram quatro categorias: Considerando a incubação como um processo – aprendendo e encontrando os significados de ser apoio; Apontando facilidades e dificuldades no processo de construção do empreendimento; Visualizando resultados da inclusão pelo trabalho – percebendo a melhora dos usuários; Apontando necessidades de mudanças no processo, esperando uma maior autonomia dos usuários e a formalização do empreendimento. A experiência revelou ser um trabalho novo e gratificante para a equipe, possibilitando aprendizado, troca de saberes e vínculo. Identificamos o papel do técnico como educador/facilitador do processo. Além das facilidades e do reconhecimento da relevância do trabalho para a vida dos usuários, a equipe enfrenta desafios para gerar renda satisfatória.

Descritores: Transtornos mentais. Desinstitucionalização. Reabilitação. Trabalho.


RESUMEN

Investigación cualitativa que objetivó analizar la experiencia del equipo de incubación de un emprendimiento solidario de pacientes de salud mental. Fueron entrevistados siete miembros del equipo, analizándose los datos según análisis de contenido. Surgieron cuatro categorías: Considerando la incubación como un proceso – aprendiendo y encontrando el significado de ser apoyo; Identificando facilidades y dificultades en el proceso de construcción del emprendimiento; Visualizando resultados de la inclusión laboral – percibiendo la mejoría de los pacientes; Identificando necesidades de cambios en el proceso, esperando una mayor autonomía de los pacientes y la formalización del emprendimiento. La experiencia reveló ser un trabajo nuevo y gratificante para el equipo, posibilitando aprendizaje, intercambio de conocimientos ay vínculo. Identificamos el papel del técnico como educador/facilitador del proceso. Más allá de las facilidades y del reconocimiento de la relevancia del trabajo para la vida de los pacientes, el equipo enfrenta desafíos tales como generar una renta satisfactoria.

Descriptores: Trastornos mentales. Desinstitucionalización. Rehabilitación. Trabajo.


 

 

INTRODUÇÃO

O movimento de Reforma Psiquiátrica no Brasil vem ao longo dos anos possibilitando uma série de transformações dos saberes e práticas neste campo, na luta pela conquista de um novo estatuto para as pessoas com transtorno mental, o de cidadão, trazendo à tona a questão da inclusão social pelo trabalho.

A relação entre trabalho e psiquiatria não é recente. O trabalho no manicômio é antigo como o manicômio(1). Foi com Philippe Pinel, que surgiu dentro do manicômio a ergoterapia, como forma de ocupar o tempo ocioso, controlar devaneios e ainda explorar os pacientes(2).

Neste complexo processo de desinstitucionalização que tem como um de seus eixos fundamentais a transformação da relação de tutela, presente nas instituições delegadas da assistência às pessoas com desabilidade e/ou em desvantagem social, a concepção de tutela sofre mudanças. Ela passa a ser considerada como direito à saúde em que se objetiva reduzir a desigualdade sendo entendida ainda como momento de emancipação e não mais de repressão(3). Emancipação no sentido de que a pessoa quanto mais necessitada de proteção, tanto mais deve ser colocada em condição de viver positivamente a própria minoridade, para conquistar ou recuperar autonomia e responsabilidade(4).

Também a questão da inserção no trabalho, vem sendo ressignificada, sendo compreendida como exercício de cidadania, portanto, de direitos, devendo constituir uma das estratégias fundamentais nos projetos e processos de produção de autonomia e de fortalecimento da contratualidade na perspectiva de inclusão social (5).

Assim, o trabalho deixa de ser visto como atividade terapêutica (prescrita, protegida, orientada) como forma simples de ocupação do tempo ocioso ou como forma de submissão e controle institucional para se tornar uma estratégia de cidadania, de autonomia e de emancipação(6).

São muitas as experiências de trabalho no espaço extra-hospitalar no mundo e no Brasil. A partir de 2004, a política nacional de saúde mental aponta como diretriz para inclusão social pelo trabalho, a estratégia de articulação entre os campos da saúde mental e da economia solidária. Tal articulação foi possível, uma vez que ambos possuem o objetivo de lutar pelos direitos de pessoas que se encontram em desvantagem, buscando a inclusão de todos e a construção de uma sociedade mais solidária.

A economia solidária apresenta valores que se diferem do capitalismo no que se refere ao modo de produção e organização como adesão voluntária e esclarecida, participação democrática coletiva, solidariedade, autogestão, cooperação, promoção do desenvolvimento humano, atenção à natureza, entre outros(7).

Os empreendimentos solidários contam com entidades de apoio e assessoria, como as universidades, por meio das Incubadoras Tecnológicas de Cooperativas Populares (ITCPs), as quais surgiram em meados da década de 90 para organizar e qualificar os desempregados históricos a fim de possibilitar a entrada desses excluídos no mercado formal de trabalho por meio da construção de cooperativas ou de empresas autogeridas(8).

Diante dessa diretriz foi criado em agosto de 2006 um empreendimento solidário, o Recriart, em processo de incubação a partir da parceria construída entre o Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) de um município no interior paulista e a Incubadora Regional de Cooperativas Populares (INCOOP) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

A incubação do grupo vem sendo efetivada por uma equipe formada por trabalhadores do CAPS (técnicos de nível superior e auxiliares de enfermagem) e da universidade (uma docente de enfermagem, uma técnica de nível superior da Incubadora Regional de Cooperativas Populares, alunos de graduação de vários cursos e da pós-graduação em enfermagem). Todas as atividades de produção e comercialização do grupo são realizadas com o apoio e acompanhamento dessa equipe. Embora possamos constatar vários avanços nesse tempo de assessoria ao grupo, muitos são os questionamentos/conflitos e reflexões da equipe.

Reconhecendo a importância, complexidade e desafio da equipe de incubação e, diante de sua vivência nesses anos, consideramos relevante analisar como tem sido essa experiência de incubação desse empreendimento solidário, tendo como pano de fundo os referenciais da reforma psiquiátrica e da economia solidária. Esperamos que este estudo contribua para o conhecimento ainda incipiente de processo de incubação em saúde mental, portanto, para o trabalho de profissionais envolvidos na construção de empreendimentos solidários.

 

MÉTODO

Esta pesquisa qualitativa foi realizada no grupo solidário Recriart, um grupo informal de produção e comercialização de papel reciclado e produtos derivados formado por usuários do CAPS de São Carlos. O projeto foi encaminhado ao Cômite de Ética da Universidade Federal de São Carlos sendo aprovado com o Parecer nº. 165/2009 e, somente após sua aprovação, foi iniciada a coleta de dados.

O convite aos membros da equipe de incubação foi feito em uma de suas reuniões que ocorrem semanalmente. Tendo em vista o objetivo da pesquisa, foram realizadas entrevistas seguindo um roteiro semiestruturado. Foram entrevistados sete dos doze integrantes da equipe que desenvolviam atividades junto ao grupo no período que compreendeu de março a dezembro de 2009, uma vez que três não aceitaram participar e as outras duas pessoas são responsáveis por esta pesquisa.

Todas as entrevistadas são do sexo feminino, na faixa etária entre 20 a 55 anos, sendo quatro trabalhadoras (três do CAPS e uma da universidade/INCOOP) e três alunas (duas de graduação/bolsistas de extensão e uma de pós-graduação em enfermagem).

As entrevistas foram transcritas na íntegra, numeradas de 1 a 7, e analisadas posteriormente através da análise de conteúdo, categoria temática(9). Para garantir o sigilo, os nomes dos sujeitos foram substituídos pela letra E e numerados de 1 a 7 de forma aleatória.

 

RESULTADOS

A análise minuciosa dos dados possibilitou a obtenção de quatro categorias temáticas que expressam a experiência da equipe no processo de apoio ao grupo.

Considerando a incubação como um processo - aprendendo e encontrando os significados de ser apoio

As entrevistadas consideram a incubação como um processo que há momentos de dificuldades, dúvida e conflitos na equipe, mas referem que é gratificante e que estão aprendendo e compreendendo na prática os significados de ser apoio. Reconhecem também que tem sido uma experiência nova, que favorece o aprendizado, a troca de saberes entre os integrantes da equipe e o vínculo com os usuários.

Ah, uma experiência...que vem amadurecendo assim aos poucos né. No começo teve estas dificuldades, tivemos processos complicados dentro da equipe, de conflito, e eu acho que ao mesmo tempo é gratificante, porque eu percebo que hoje eu tenho um vínculo muito bom com eles (E2).

Olha, pra mim tem sido uma experiência nova. É uma experiência que eu tenho aprendido muito e eu acredito que os outros aprendam um pouco comigo né, porque é uma equipe e cada um traz uma contribuição (E5).

Em relação à dúvida uma entrevistada aponta o não saber corretamente em que medida os trabalhadores deveriam estar presentes, fazendo junto com os usuários uma vez que este processo/trabalho era novo para todos.

Eu tinha algumas dúvidas nesse processo de construção (...) nós enquanto apoio temos que também ajudar, não podemos deixar de dar totalmente o apoio, né! A gente vê relatos de experiências. Teve grupos que o apoio saiu totalmente e o grupo acabou, entendeu?! Então acho que a gente tem que ter essa medida! O duro é saber que medida que é essa! (E4).

Nesta categoria os técnicos também identificam o papel do apoio como sendo o de incentivar e estimular, para que os usuários façam, pensem e planejem de forma a não direcionar a execução das atividades, não fazendo por eles mas com eles.

Eu acho que eu devo sempre estimular e incentivar e não direcionar o grupo, acaba que às vezes a gente acaba direcionando e...eu tento não fazer por eles e deixar com que eles façam (...) Eu acho que o papel do apoio é fundamental nisso, não fazer por eles, mas incentivar que eles façam, que eles pensem, que eles planejem (E2).

Uma entrevistada aponta ainda como papéis dos técnicos a desmistificação da loucura e a necessidade de emprestar poder de contratualidade aos usuários.

Então a gente tá nesse momento, que pessoas que trabalham com a gente, que são os nossos parceiros, que também estão um pouco assustados que 'Olha, deixa eles sozinhos? 'Olha você vai junto na feira? Não vai junto na feira?!' Eu acho que é natural né, por causa da história em torno da saúde mental, de pouco esclarecimento, as pessoas ficam um pouco assustadas. Então eu acho que a gente tá dismistificando isso...né (E4).

Eu tinha algumas dúvidas: até quando a gente pode tá emprestando a contratualidade.? Até que ponto você não deve emprestar?(...) o dia que tiver encomenda o grupo deslancha, eu acho que um pouco é isso né, e aí entra o nosso papel de apoio, porque aí quem vai poder fazer estas 'contractuações' de pegar encomenda é a gente. Antes eu tinha dúvida, antes eu ficava meio receosa. 'Oh nós que vamos fazer? Nós que vamos conversar?'. Não, eu acho que nesse momento sim, a gente vai emprestar isso pra eles, nós vamos emprestar esse poder de 'contractuar' (E4).

Observamos também que a construção da autonomia tem sido uma busca constante da equipe e há dificuldade em sua conceituação que, por vezes, aparece como sinônimo de independência.

É, a gente tem que ver até que ponto vai e até que ponto não vai, mas eu acho que nós estamos num momento de construção assim de independência, de autonomia?! (E4).

(...) eu tenho tentado promover a autonomia deles né...a autonomia mesmo, começar, ensinar, conseguir fazer sozinho, eu já vou tentando me retirar devargazinho, fazer supervisão...e acho que essa é minha meta né, de tentar, realmente fortalecer o grupo para que eles possam continuar sozinhos (E3).

Apontando facilidades e dificuldades no processo de construção do empreendimento

Muito embora a equipe aponte algumas facilidades, há o enfrentamento de diversas dificuldades ao longo do processo de construção do empreendimento. Dentre as facilidades encontramos o trabalho em equipe, a satisfação no trabalho com os usuários, as parcerias com a universidade, o apoio do município e a presença de encomendas.

É uma experiência que eu tenho aprendido muito e eu acredito que os outros aprendam um pouco comigo né, porque é uma equipe e cada um traz uma contribuição (E5).

Em relação as parcerias, há a universidade que proporciona novas relações e possibilita aos usuários saírem do serviço de saúde mental e também o apoio do município.

É muito importante para os usuários né, porque você sai daquela realidade de tratamento, da realidade de serviço de saúde mental para vivenciar outros espaços né, a universidade, alunos, professores da universidade, população, comunidade (...) (E5).

O município que nos apoia em todas as nossas iniciativas, entendeu?! Ele é a favor da questão da reforma, então assim, se é importante para consolidar esse empreendimento, apoia totalmente (E4).

Para além das facilidades, o grupo encontra dificuldades relativas ao processo de produção e comercialização. Dentre elas, ressaltamos primeiramente o desafio de concretizar uma renda satisfatória frente a qual a equipe questiona se o Recriart se constitui em um local de trabalho ou em um espaço para ocupar o tempo.

Porque a renda deles é muito baixa. Foi uma das coisas que chamou muita atenção no início, que eu falei: ' é muito baixa, o quê que eles estão fazendo aqui, né?! (E2).

Dificuldade para que concretize a questão de geração de renda né, porque às vezes aquilo acaba sendo mais um passatempo do que uma própria geração de renda?! (E5).

A divulgação e comercialização também foram apontadas como dificuldades afetando diretamente a renda.

A gente está com dificuldade nos pontos de venda e no público alvo também, porque é um produto um pouco mais caro, é artesanal, mas ele tem esse valor agregado, mas nem todo mundo dá esse valor aos produtos né (...) Então a comercialização é uma dificuldade nossa (...) (E3).

Há também a relevante questão dos limites para se concretizar a autogestão, uma vez que os técnicos reconhecem que a decisão ainda se concentra, por vezes, na equipe.

(...) eu acho que...a maioria das coisas eles acabam decidindo né, mas nem sempre, porque tem coisas que tem que ser decidido rápido ou às vezes a gente prefere decidir porque é mais fácil pra a gente, porque a gente tem mais acesso, se tem que ligar pra não sei quem já é mais fácil pegar o telefone e já ligar, porque já conhece tal pessoa (E5).

Em relação aos usuários, a dificuldade se refere a como construir a autonomia, pois há muitas coisas a serem feitas e o não saber dos usuários leva a equipe, por vezes, a fazer, pela demora/dificuldades deles, em vez de ensiná-los.

(...) esse negócio de a gente construir a autonomia dos usuários é uma dificuldade muito grande, porque eles têm dificuldades com muitas coisas e a gente teve este papel de ajudar eles com as dificuldades, porque têm muitas coisas para serem feitas e você não sabe nem por onde começar, e às vezes a gente acaba fazendo coisas que eles deveriam fazer né...acaba fazendo alguma coisa ali pra não deixar eles fazerem, porque vai demorar mais né (E5).

Visualizando resultados da inclusão pelo trabalho – percebendo a melhora dos usuários

Muito embora existam os desafios apresentados, a equipe aponta a melhora e evolução dos usuários no que se refere tanto às habilidades para o trabalho quanto para a produção de vida. Este reconhecimento é assinalado, principalmente, pelos técnicos que acompanham o grupo desde o início.

Os depoimentos salientam o reconhecimento de ganho/avanço na autonomia e apontam que os usuários estão apresentando mais iniciativa e habilidades técnicas para o desenvolvimento das atividades no Recriart, o que resultou na melhora considerável da qualidade dos produtos.

(...) eu percebo melhora no grupo como um grupo de produção. Desde quando eu entrei até hoje eu percebi uma melhora muito grande de fabricação de produtos, de habilidades para a produção (E5).

Eu acho que ele estão conseguindo fazer sozinhos (...). A autonomia deles melhorou bastante, antes tinha pouquíssimos produtos, a qualidade melhorou muito e eu acho que isso tem a ver com a melhora da autonomia deles (E3).

Os técnicos relatam que o grupo conta com pessoas com grande envolvimento que reconhecem o empreendimento como trabalho/profissão.

Dentro do grupo existem pessoas que têm um grande envolvimento (E4).

Eles falam 'eu vô porque senão eu perco minha profissão [...] É...eles vêm pro Recriart como uma profissão na vida deles entendeu?! (E6).

A equipe percebeu mudanças de comportamento dos usuários que vêm, ao longo do processo, assumindo mais responsabilidades, participando mais ativamente nas assembleias.

O fato deles tomarem conta do dinheiro, decidirem se vão ou não vão em tal feira, vai funcionar de tal dia a tal dia, já se colocam, pessoas que antes não falavam em assembleia começaram a falar (E2).

A inclusão tem sido marcante dentro do próprio convívio familiar, pois assumem responsabilidades por determinadas atividades das quais eram excluídos anteriormente.

Ele (usuário) está exercendo outros papéis na família que ele não exercia antes. Então ele já vai indo na padaria sozinho, já indo fazer compra (...) ele já está tendo um ganho de papel, não é mais o doente que não pode fazer nada (...) então essa mudança do papel social dele dentro da família é significativo (E4).

Apontando necessidades de mudanças no processo, esperando uma maior autonomia dos usuários e a formalização do empreendimento

A equipe refere que incubar este empreendimento vem possibilitando visualizar e identificar necessidades de mudanças. Dentre elas há o reconhecimento da importância do respeito ao tempo/momento e ritmo dos usuários.

O objetivo é você respeitar o tempo deles (...) esse é o nosso grande desafio, procurar respeitar o momento do grupo que é diferente do nosso. (E4).

A equipe sente que há a necessidade de desenvolver as metas do grupo e não a da equipe e que o grupo pode atingir a autogestão, de forma que os usuários passem a tomar as decisões.

Eu acredito muito que com o tempo eles vão conseguir chegar na autogestão sem o auxílio da equipe. Eu acho que o que falta melhorar é com o tempo mesmo (...) que as decisões sejam por parte deles (E1.)

Há a reflexão/dúvida da necessidade ou não de melhorar a renda tendo em vista que alguns possuem alguma renda, mas a conclusão para uma entrevistada é clara: se é trabalho tem que gerar renda.

O importante não era a renda, muitos dali nem precisam, têm aposentadoria, têm benefício, a família ajuda, mas alguns precisam. Então eu acho que tem que melhorar, trabalho tem que gerar renda mesmo né, algo concreto (E2).

Há ainda a expectativa de que o grupo necessite cada vez menos de apoio. Neste sentido a equipe almeja uma maior autonomia dos usuários, embora uma entrevistada questiona se a autonomia plena e total não é uma utopia. Também esperam a formalização do Recriart enquanto uma cooperativa ou associação.

Ah, eu espero que avance, que eles se apropriem cada vez mais do que é deles...eu acho que é meio irreal, meio utópico, mas eu espero que um dia eles não dependam tanto do apoio assim (...) (E2).

(...) queria ver eles funcionando mais como uma cooperativa que necessitasse menos de apoio sabe, que o apoio fosse uma coisa só de apoio mesmo. Eu queria ver eles assim como cooperativa formada (E3).

 

DISCUSSÃO

Na primeira categoria as entrevistadas trazem que a incubação é um processo novo, gratificante e afirmam estarem aprendendo na prática o papel de ser apoio. Mesmo frente a dúvida e conflitos  referem que o trabalho em equipe tem possibilitado a troca de saberes entre seus integrantes. Profissionais de uma incubadora do Rio Grande do Sul apontam que a construção de um empreendimento na economia solidária possibilita crescimento mútuo devido às constantes trocas de saberes com respeito às práticas, visões ou concepções dos componentes do grupo de organização e condução das ações(10).

Em relação à dúvida em não saber em que medida as técnicas deveriam ou não estar presentes fazendo junto com os usuários, enfatizamos a necessidade e importância da presença dos técnicos neste processo entendendo que este apoio/proteção representa tutela no sentido de direito à saúde, ou seja, na busca pela emancipação do usuário para que este conquiste ou recupere sua autonomia e responsabilidade(4).

As técnicas também identificam o papel do apoio como sendo o de incentivar e estimular os usuários não fazendo por eles, mas com eles. Desta forma compreende-se que as as ações destes devem ser feitas com os cooperados e não para eles, para que haja valorização dos saberes e ocorra a efetiva participação de todos os cooperados na tomada de decisão. Assim o técnico de incubação tem o papel de facilitador, de mediador do processo, facilitando junto com os cooperados(11).

Em relação a desmistificar a loucura, constatamos que o preconceito não está presente apenas no contexto onde se insere o Recriart, mas é uma realidade existente em torno da saúde mental como apontado em outro estudo(12).

Além do preconceito constata-se ao longo da história da loucura que o doente mental tem seu poder contratual reduzido pelas próprias dificuldades que a doença e o tratamento impõem(13). O poder contratual é uma pré-condição para qualquer processo de trocas que abragem três dimensões fundamentais: troca de bens, de mensagens e afetos(14).

A construção da autonomia tem sido uma busca constante da equipe e há dificuldade em sua conceituação que, por vezes, aparece como sinônimo de independência. O conceito de autonomia deve ser elaborado pelo próprio profissional envolvido na assistência, pois pode representar significados como independência e auto-organização(15). A autonomia representa uma condição mais ampla, que significa a pessoa gerar normas, ordens para a própria vida, de acordo com as situações a serem enfrentadas, sem entendê-la como auto-suficiência e independência(14). Assim autonomia não deve ser entendida como o oposto de dependência, mas como a capacidade do sujeito em manter sua rede de dependências, os sujeitos compreenderem a si mesmos e o mundo e estabelecer compromissos e contratos com outras pessoas(16).

Verificamos também que, neste contexto, as técnicas consideram autonomia como a possibilidade dos usuários executarem todas as atividades de produção e comercialização, participando e sendo responsáveis por todas as etapas do processo. Neste sentido sugerimos que haja uma definição precisa destes conceitos na experiência estudada.

Na segunda categoria as entrevistadas apontam as facilidades e dificuldades enfrentadas no processo de incubação. Dentre as facilidades encontramos o trabalho em equipe considerado, frente à nova organização do trabalho em saúde mental, como uma experiência nova e muito boa, que proporciona aprendizado devido à troca de experiência e conhecimento que cada profissional traz para compartilhar(17).

A parceria com a universidade, apoio do município e presença de encomendas também são apontados como facilidades.

No que se refere a parceria com a universidade, esta é uma grande parceira, uma vez que pode aliar pesquisa e educação de forma a possibilitar apoio e contribuição para o crescimento dos empreendimentos solidários(18).

Dentre as dificuldades/desafios ressaltamos a renda insatisfatória frente a qual a equipe questiona se o Recriart se constitui em um local de trabalho ou em um espaço para ocupar o tempo. Entretanto esta questão também está presente em outros empreendimentos solidários que, nascidos da crise e desenvolvendo-se, em sua maioria, de forma periférica ao capitalismo, em geral, possuem ainda bastantes dificuldades para sobreviver economicamente(19).

A divulgação e comercialização foram apontadas como dificuldades afetando diretamente a renda. Os empreendimentos solidários apresentam uma pequena produção e ainda não conseguem superar os custos nem manter a regularidade da oferta no mercado capitalista(20). Como estratégia de superação aponta-se a necessidade de constituir redes de proteção sociais voltadas às iniciativas do cooperativismo social por meio da articulação intersetorial(21).

Há também o desafio em concretizar a autogestão que, no entanto, encontra-se presente em outros empreendimentos da economia solidária, não sendo um problema específico da saúde mental. A falta efetiva de envolvimento nas decisões, a não participação e não exercício de poder e responsabilidade de todos os sócios nos empreendimentos causam prejuízos à organização, assim como interferem nos aspectos organizativos vinculados à solidariedade e à participação democrática(20). Entretanto, para que a autogestão seja efetiva, se faz necessária a busca permanente de capacitação e de assessoria para assim constituir e desenvolver a gestão solidária(22).

Em relação aos usuários, há dificuldade na construção da autonomia, pois há muitas coisas a serem feitas e o não saber dos usuários leva a equipe, por vezes, a fazer em vez de ensiná-los. A dependência dos usuários é antes de mais nada quantitativa, pois há dependência excessiva de poucas relações/coisas, sendo esta situação de dependência restrita/restritiva a responsável pela diminuiçao da autonomia(14).

Na terceira categoria a equipe aponta a melhora e evolução dos usuários, reconhecidos principalmente pelas técnicas que acompanham o grupo desde o início. Desta forma apostar nas pessoas, portanto inserí-las no trabalho, remete a acreditar na potencialidade dessas para a mudança de padrões e comportamentos e na aquisição de habilidades que lhes permitem viver em sociedade(12).

Em relação ao avanço na autonomia, há a presença de mais iniciativa e habilidades técnicas para as atividades no Recriart, resultando na melhora da qualidade dos produtos. Ao alcançar a qualidade do produto, a autoestima do produtor se qualifica, resultando em mudanças positivas na vida e no trabalho dos usuários(1).

A inclusão tem sido marcante dentro da própria dinâmica familiar, pois assumem responsabilidades por determinadas atividades das quais eram excluídos anteriormente. A inserção em empreendimentos solidários possibilita produzir novos sentidos aos processos de trabalho e também aos sujeitos neles inseridos. Desta forma os movimentos de mudanças podem indicar reais possibilidades de transformações e superações a serem conquistadas pelas pessoas em sofrimento psíquico(1).

Na quarta categoria temática a equipe aponta mudanças necessárias, a expectativa para que os usuários conquistem maior autonomia e o grupo se formalize enquanto cooperativa ou associação. Há ainda a necessidade de respeitar o tempo/momento e ritmo dos usuários. Cada empreendimento apresenta uma dinâmica, velocidade e ritmo específicos, e assim, o técnico de incubação deve respeitar e reconhecer as diferenças existentes em cada grupo, de forma a respeitar sua autonomia(11).

A questão da formalização do empreendimento é um ponto crítico, uma vez que a atual legislação (Lei no. 9.867 de 10 de novembro de 1999) sobre cooperativismo social não dá respaldo para os empreendimentos nesta área. Desta forma se faz necessário, primeiramente, alterar a legislação, questão esta que vem sendo amplamente debatida em diferentes espaços(21).

 

CONCLUSÃO

Ao analisarmos a experiência da equipe envolvida no processo de incubação desse grupo solidário, evidenciamos o quão importante e gratificante é, para seus integrantes, participar dessa construção que possibilita a conquista de novos sentidos para a vida dos usuários, portanto, do seu poder de emancipação. Há ainda muita satisfação/prazer neste trabalho gerado pela troca de saberes entre a equipe, pela possibilidade da criação de vínculo com os usuários e por visualizarem resultados positivos apontados como facilidades neste processo.

Todas as entrevistadas reconhecem a relevância dessa diretriz para a efetivação da reabilitação psicossocial e dos avanços conquistados pelos usuários ao longo do processo. Tais avanços se relacionam à autonomia, às habilidades para o trabalho, à ocupação de um novo lugar na família e à ampliação/criação de novas relações e novos espaços.

Ao analisarmos o significado de ser apoio encontramos que o papel do técnico é o de educador/facilitador do processo quando participa de todas as atividades de produção e comercialização fazendo junto com os usuários e não por eles. Porém há a referência do não saber determinar, com clareza, a medida certa dessa presença em razão da qual reafirmamos a importância do apoio dos técnicos entendendo-o como tutela no sentido de direito à saúde.

As entrevistadas também referem que é no processo de apoio que buscam desmistificar a loucura, emprestar o poder de contratualidade e construir autonomia entendida, neste contexto, como a expectativa de que os usuários realizem todas as etapas do processo de produção e comercialização sozinhos, portanto, sem o apoio da equipe. Entretanto reconhecem que este é um processo difícil e se questionam se a autonomia plena e total não é uma utopia. Também constatamos por meio dos relatos que há a necessidade de uma definição clara deste conceito no contexto estudado uma vez que, por vezes, autonomia aparece como sinônimo de independência.

Entretanto, para além do reconhecimento da importância deste trabalho e da visualização de resultados positivos, as técnicas de incubação apontam muitas dificuldades, limites e desafios. Dentre eles ressaltamos a baixa renda gerada pelo empreendimento, o que leva algumas entrevistadas a se perguntarem, por vezes, se o Recriart é mais uma ocupação do tempo ocioso do que um trabalho de fato. Ressaltamos que a renda insatisfatória se relaciona a vários outros desafios desse processo, além do que esta questão não se constitui em uma dificuldade inerente deste grupo solidário ou de empreendimentos de usuários de saúde mental, mas se faz presente nos empreendimentos da economia solidária. Desta forma, reforçamos as várias estratégias que os atores destes campos têm apontado para o seu enfrentamento, dentre elas, a diretriz da construção de redes de comercialização de economia solidária.

Outra dificuldade encontrada, também inerente a empreendimentos de economia solidária, relaciona-se à relevante questão e desafio de se concretizar a autogestão. Enfatizamos que a construção da gestão solidária se constitui em um processo lento, difícil e que requer paciência, uma vez que para sua garantia é preciso criar condições para sua efetivação.

As técnicas de incubação ainda apontam a expectativa de formalização do grupo enquanto uma cooperativa ou associação questão esta que vem sendo amplamente discutida entre os atores da saúde mental e da economia solidária, pois a legislação atual não dá respaldo para empreendimentos nesta área, dificultando sua formalização e desenvolvimento.

Enfatizamos ainda que o desenvolvimento e sustentação, não somente do grupo solidário estudado, mas de todas as experiências que, atualmente, se multiplicam pelo país está diretamente relacionado ao avanço/concretização da lei do cooperativismo social e da implantação e fortalecimento de políticas públicas intersetoriais que fomentem e incentivem iniciativas desta natureza.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Priscila Tagliaferro
Rodovia Washington Luis, Km 235 - Caixa Postal 676
CEP 135650-905 – São Carlos, SP, Brasil

Recebido: 28/02/2011
Aprovado: 12/02/2012

 

 

* Extraído da dissertação "Enfrentando desafios e construindo possibilidades: a experiência da equipe no processo de incubação de um empreendimento solidário formado por usuários de um CAPS", Universidade Federal de São Carlos, 2011. 

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