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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.6 São Paulo Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342012000600006 

ARTIGO ORIGINAL

 

Sexualidade e amamentação: concepções e abordagens de profissionais de enfermagem da atenção primária em saúde*

 

Sexualidad y amamantamiento: concepciones y abordajes de profesionales de enfermería de atención primaria de salud

 

 

Alessandra FlorencioI; Isabel Cristina Pacheco Van der SandII; Fernanda Beheregaray CabralIII; Isabel Cristina dos Santos ColoméIV; Nara Marilene Oliveira Girardon-PerliniV

IEnfermeira pela Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil, alessandra_florencio@yahoo.com.br 
II
Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Professora Assistente do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil, isabelvan@gmail.com
IIIMestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Assistente do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil, fb.cabral@terra.com.br
IVMestre em Enfermagem pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Assistente do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil, enfbel@yahoo.com.br
V
Doutora em Enfermagem pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. Professora Adjunta do Curso de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil, nara.girardon@gmail.com

 

 


RESUMO

Este estudo objetiva conhecer as concepções sobre a sexualidade de profissionais de enfermagem que atuam na atenção primária em saúde e identificar como essa temática integra as práticas assistenciais desses profissionais a mulheres nutrizes. Trata-se de pesquisa qualitativa, exploratória e descritiva, cujos sujeitos foram oito profissionais de enfermagem atuantes em três unidades de atenção primária em saúde de município do Norte do Rio Grande do Sul. A coleta dos dados realizou-se via entrevistas semiestruturadas. Para seu tratamento foi utilizada a análise de conteúdo temática, da qual emergiram três temas: concepção sobre sexualidade; a sexualidade e a amamentação; sexualidade e práticas de enfermagem voltadas à mulher nutriz. O estudo permitiu constatar que os profissionais de enfermagem entendem o sentido amplo que a sexualidade representa e a relação que tem com a amamentação, porém não a abordam ao assistirem a mulher em processo de amamentação, sendo suas práticas sustentadas em abordagem biomédica.

Descritores: Aleitamento materno. Sexualidade. Enfermagem de Atenção Primária.


RESUMEN

Se objetiva conocer las concepciones sobre sexualidad de profesionales de enfermería actuantes en atención primaria de salud e identificar el modo en que la temática integra las prácticas asistenciales de tales profesionales a mujeres que amamantan. Investigación cualitativa, exploratoria, descriptiva, cuyos sujetos fueron ocho profesionales de enfermería actuantes en tres unidades de atención primaria de salud de municipio norteño de Rio Grande do Sul. Datos fueran recolectados mediante entrevistas semiestructuradas. Para su tratamiento se utilizó análisis de contenido temático. Emergieron tres temas: concepción sobre sexualidad; sexualidad y lactancia; sexualidad y prácticas de enfermería orientadas a la mujer que amamanta. Se constató que los profesionales de enfermería entienden el sentido amplio que la sexualidad representa y la relación que tiene con el amamantamiento, no obstante lo cual no la aborda al atender a mujeres en proceso de amamantamiento, sustentándose sus prácticas en abordaje biomédico.

Descriptores: Lactancia materna. Sexualidad. Enfermería Atención Primaria.


 

 

INTRODUÇÃO

De acordo com a perspectiva da abordagem cultural, a sexualidade pode ser entendida como expressão de vida que diz respeito a todas as pessoas(1). É, por consequência, individualidade e singularidade, que resulta de uma construção histórico-social-cultural progressiva, particular, dinâmica, flexível e contextualizada. Nessa lógica, diz respeito à elaboração de cada indivíduo, a partir dos referenciais de seu grupo sociocultural. Apesar de ser um comportamento corporal, não se restringe a isso, constituindo-se também na maneira como cada pessoa tem de pensar, agir, se mostrar, vestir, enfeitar, falar, andar, expressar, olhar, sentir. É, também, sensualidade, carinho, afeto, toque, comunicação, proximidade, prazer, ato sexual, genitalidade e coito(1).

Embora possa ser entendida numa visão bastante ampla, em pesquisa com mulheres que participavam de atividade de grupo acerca da sexualidade, emergiu o entendimento de que o tema diz respeito a demonstrações de afeto expressas por meio de gestos como carinho, beijo, abraço e ações que envolvem ser tocada e sentir o companheiro. Essas mulheres reconhecem a importância, no campo das relações, da compreensão, do entendimento e do diálogo(2).

Os estudos que abordam a visão dos profissionais de enfermagem frente à sexualidade ainda são poucos, sendo que alguns exploram o tema a partir da concepção de acadêmicos de enfermagem. Neste contexto, estudo descritivo com abordagem quanti-qualitativa, com o objetivo de verificar como o estudante de Enfermagem conceitua termos básicos para o entendimento do tema sexualidade, constatou que 100% dos sujeitos da pesquisa escolheram a alternativa de que essa diz respeito ao conjunto de caracteres especiais, fisiológicos ou morfológicos internos, determinados a partir de uma integração de fatores biológicos, psicológicos, socioeconômicos, culturais, étnicos, espirituais e religiosos(3).

A abordagem da sexualidade durante o processo de amamentação é mais rara ainda, parecendo ser um aspecto silencioso e, muitas vezes, invisível no campo da atenção à saúde da mulher nesse período. No âmbito da pesquisa, são poucas as publicações que abordam especificamente as interfaces dessas duas temáticas, destacando-se alguns estudos recentes desenvolvidos em âmbito internacional e nacional(4-8).

No entanto, apesar dessa escassez de investigações, compreende-se que, além de nutriz — ser que alimenta e auxilia no desenvolvimento de outro ser —, a mulher também necessita ser considerada em sua totalidade, inclusive de gênero, o que significa levar em consideração todos os papéis sociais atribuídos a ela — de mulher, mãe, esposa, cuidadora, educadora, trabalhadora, cidadã com direitos sexuais e reprodutivos. Nesta perspectiva, ao se considerar as questões de gênero, está se propondo a adoção de uma compreensão que supera o caráter eminentemente biológico, que naturaliza aspectos da vida humana, como é o caso da sexualidade e da amamentação, ou seja, propõe-se uma noção que os entende como práticas sociais, mediadas pela cultura em um determinado contexto(9). Em decorrência dessas concepções teóricas, que buscam não separar mulher e nutriz, neste estudo, quando há referência à mulher que está amamentando, usa-se a expressão mulher-nutriz.

Percebe-se, também, que, apesar das discussões teóricas e dos movimentos sociais, em especial de mulheres, em busca do reconhecimento dos direitos femininos de cidadania, dentre os quais o exercício da sexualidade, os profissionais de saúde, incluída a enfermagem, ainda se deparam com dificuldades em tratar as mulheres como seres integrais. Ou seja, como um sujeito com capacidade de, ao mesmo tempo, ser mulher, trabalhadora e mãe, mas que, em decorrência das mudanças associadas ao puerpério e à parentalidade, em si, necessita de certo tempo para se adaptar aos ajustes relativos à sexualidade(10). Essa dificuldade, possivelmente, se dê em vista de que os profissionais fazem parte dessa mesma cultura em que as interfaces entre amamentação e sexualidade são quase sempre ocultadas, quando não negadas, amarrando-se a uma teia de significados que eles, como parte desse cenário, também contribuem para a sua tessitura(11).

No reforço da pertinência da abordagem da sexualidade e da amamentação como fenômenos que têm seu encontro, cabe lembrar que o ato de amamentar envolve, no mínimo, uma díade — mãe e filho. Ele supre, desde o início, além dos aspectos nutricionais, as necessidades emocionais de mãe e filho, estabelecendo o contato pele a pele, os olhos nos olhos entre dois seres, contribuindo para a constituição dos aspectos relativos à sexualidade da criança(12), entendida como possibilidade de relacionamentos e não reduzida apenas à satisfação sexual.

As considerações até aqui tecidas permitem vislumbrar a importância de dar-se visibilidade, no processo de cuidar/cuidado da mulher-nutriz, a questões relacionadas à sexualidade, o que poderá contribuir no processo de adaptação ativa da mulher aos novos papéis sociais oriundos do tornar-se uma mulher-mãe.

Em função desse entendimento, considera-se a importância de se buscar respostas para a seguinte pergunta de pesquisa: Qual o entendimento de profissionais de enfermagem da Atenção Primária em Saúde de um município do Norte do Rio Grande do Sul, acerca da sexualidade no atendimento a mulheres em processo de amamentação? Frente a isso, este estudo tem como objetivos: conhecer as concepções sobre a sexualidade de profissionais de enfermagem que atuam na atenção primária em saúde e identificar como essa temática integra as práticas assistenciais desses profissionais a mulheres nutrizes.

 

MÉTODO

Em virtude de seu objeto, este estudo tem abordagem qualitativa com um design exploratório e descritivo(13-14). O campo de estudo foram três unidades de atenção primária em saúde de um município do norte do Rio Grande do Sul. Uma delas trata-se de unidade tradicional de atenção primária, que é referência para a atenção à saúde da mulher, especialmente no período gravídico-puerperal. As demais são unidades da Estratégia de Saúde da Família (ESF I e ESF II).

Como critério de inclusão dos sujeitos no estudo, definiu-se que esses deveriam desenvolver práticas assistenciais relacionadas à mulher no ciclo gravídico-puerperal e pertencer à categoria profissional da enfermagem. Assim, participaram oito sujeitos, sendo que três eram profissionais da ESF I, dois da ESF II e três da unidade de referência à saúde da mulher. A definição do número de sujeitos levou em conta a ideia de que a amostra ideal é aquela que reflete a totalidade em suas múltiplas dimensões, sendo suficiente o número que permita certa reincidência de informações(13).

Quanto à caracterização dos sujeitos, três são enfermeiros e cinco são técnicos ou auxiliares de enfermagem. Desses, sete são do sexo feminino e um do sexo masculino. Em relação à faixa etária, contou-se com a participação de um sujeito na faixa de 20 a 30 anos, dois entre 30 a 40 anos e cinco sujeitos de 50 a 60 anos. O tempo de trabalho na área de enfermagem variou de sete meses a vinte e dois anos.

As questões éticas da pesquisa atenderam a Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, sendo disponibilizado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para cada participante proceder à assinatura. Durante o mês de agosto de 2010, após aprovação do projeto de pesquisa pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Maria, sob o protocolo 23081009907/2010-56, os dados foram coletados, por meio de entrevistas semiestruturadas, que foram gravadas em audiotape, textualizadas e, após, transcriadas para fins de análise e interpretação. Ou seja, primeiro o discurso verbal gravado foi transformado em escrito, de forma fiel e sem qualquer modificação; num segundo momento, as perguntas, as repetições e outros elementos da narrativa foram suprimidos, de forma que a edição não comprometesse a análise; e, por último, na transcrição, a narrativa foi recriada(15). Para garantir o anonimato dos profissionais, os seus depoimentos foram identificados por nomes de flores (Orquídea, Rosa e Violeta são enfermeiras; as outras são auxiliares ou técnicas de enfermagem).

As questões que compuseram a entrevista semiestruturada, além dos dados de identificação dos sujeitos, foram: 1) O que você entende por sexualidade? 2) Conte-me sobre sua prática em relação à mulher que amamenta. Fale livremente sobre isso. No caso em que os sujeitos não fizessem menção sobre a sexualidade, estava prevista a inclusão de mais duas questões (o que ocorreu com todos os sujeitos): 3) Para você, há relação entre sexualidade e amamentação?  Fale sobre isso. 4) Você aborda aspectos da sexualidade ao assistir a mulher no processo de amamentação? Se sim, de que forma e por quê? Se não, por quê?

Os dados foram analisados através da análise de conteúdo temática, cuja operacionalidade sintetiza-se em três etapas: pré-análise, exploração do material e interpretação dos resultados.  Na primeira etapa, tomou-se contato com o material produzido na fase de transcrição e recriação da narrativa descrita anteriormente, por meio de leitura exaustiva, com vistas a uma impregnação das informações nele contidas; na exploração, realizou-se a categorização dos dados, quando o texto sofreu recortes e as unidades de registro foram agrupadas a partir de suas afinidades temáticas; por fim, na fase de interpretação, buscou-se a compreensão e interpretação dos dados, integrando-os ao referencial teórico acerca do tema.

 

RESULTADOS

Como resultados da análise dos dados, emergiram três temas. O primeiro, traz a concepção dos sujeitos acerca da sexualidade; o segundo, diz respeito à associação entre a amamentação e a sexualidade; e o terceiro, trata da sexualidade e as práticas de enfermagem voltadas à mulher que amamenta.

Tema I: Concepções de sexualidade para além do ato sexual: conjunto de valores e relacionamentos vivenciados pelo indivíduo

Ao serem questionados sobre o entendimento acerca de sexualidade, os sujeitos do estudo revelam que essa é constituída por um conjunto de valores e relacionamentos vivenciados pelo indivíduo.

Bem... eu entendo por sexualidade não só uma relação sexual, mas eu acho que sexualidade é a mulher se gostar, é a mulher buscar prazer tanto na relação quanto na vida dela. Eu acho que sexualidade é um conjunto, todo um conjunto, não é só a relação sexual em si (Violeta).

Por meio de concepções como essa, percebe-se que os sujeitos têm um entendimento de que a sexualidade não se resume ao ato sexual em si, sendo um elemento complexo, relacionado, entre outros componentes, com um conhecimento mais profundo do ser humano sobre si mesmo.  Esse conhecimento passa pela valorização daquilo que mulher e homem são, ou pensam que são, ou pensam que os outros pensam sobre eles.  Desta forma, a sexualidade está relacionada à autovalorização e, em consequência, à manutenção da autoestima, a algo associado a gostar de si mesmo.

Sexualidade é um termo muito complexo (...). No meu ponto de vista, sexualidade é a mulher ou o homem se conhecer por inteiro (Orquídea).

A mulher, dentro da sexualidade, ela tem que se gostar, se conhecer, se valorizar e saber seus limites. A sexualidade para mim não é apenas o ato sexual e a relação entre homem e mulher (Rosa).

Os sujeitos compreendem, também, que a sexualidade diz respeito à forma como as pessoas se comportam, estando estreitamente relacionada com as características de cada indivíduo e, ainda, que está presente em todas as fases da vida, iniciando na infância.

Está (a sexualidade) na maneira de se vestir, na maneira de se posicionar, na maneira até dos gestos e do modo como fala (Tulipa).

A menina cresce, vai ficando mocinha, como eu tenho a minha lá em casa que é um amor, cada dia descobrindo mais coisas da vida, sabe? Descobrindo o corpo de uma mulher, é maravilhoso! (Margarida).

Tema II: Amamentação e sexualidade na voz de profissionais de enfermagem: um seio amoroso para o filho

Há o entendimento de que a amamentação está intimamente associada à sexualidade. Entendimento, esse, proveniente da concepção de que o processo de aleitamento materno pode representar forte ligação entre mãe e filho, expressando-se como carinho, conhecimento, toque e vários outros aspectos que simbolizam a sexualidade.

Acho que toda mulher que amamenta é uma troca de carinho, é uma troca de amor e a gente vê assim que elas têm bastante carinho (...) Bem, como eu disse antes, eu acho que a sexualidade tá em tudo! Eu acho que você dá, você estar dando mamá, tu tá ativando a tua sexualidade, né? (Violeta).

Para alguns profissionais, o processo de amamentação pode ser compreendido como possibilidade de expressão e de manifestação da sexualidade, visto que diz respeito ao relacionamento entre dois seres. No entanto, cabe destacar que esse entendimento associa-se à sexualidade que se estabelece na relação entre mãe e filho e a desvincula de manifestações de erotismo entre a mulher e seu companheiro/companheira, ou seja, de manifestações relativas ao interesse sexual.

A mulher ela fica mais com o nenê, ela participa assim... o marido fica um pouquinho de lado nesse processo de amamentação. Eu acho que ela não tá muito pensando na sexualidade dela (...), a gente vê assim que ela fica mais voltada, nessa época, pro nenê (Violeta).

Eu acho que pra eles, pro casal, talvez tenha um pouquinho... que seja um pouco complicado e, assim, a questão marido... queira ou não (...); depois que uma mãe tem um filho, ela sempre vai ficar mais no lado do filho (Orquídea).

Alguns sujeitos referem, também, que os seios femininos, nessa fase da vida, são percebidos pelas mulheres nutrizes como exclusividade do bebê e que, tanto o homem quanto a mulher, atribuem a esse órgão somente a função da amamentação.

Mas muitas mulheres, a partir do momento que estão amamentando, pelo menos é o que eu acho, elas pensam que os seios são do bebê e que o homem não pode tocá-los. O homem também — nesse caso ele acha que olhar para o seio dela e sentir prazer não deve acontecer isso, pois também acha que é do bebê, né? (Bromélia).

TEMA III: As práticas de enfermagem voltadas à mulher que amamenta e a invisibilidade da sexualidade

No tocante às práticas assistenciais dos sujeitos da pesquisa, relativas à amamentação, observa-se que essas tendem a se limitar aos cuidados com o corpo, mais especificamente, às mamas, em que parece estar centrado o processo de amamentação.  Grande parte da assistência de enfermagem se dá por meio de orientações que visam que visam o êxito do aleitamento materno.

A gente orienta pra se cuidar. Do seio tem que cuidar, tem que ter a higiene muito bem, tem que fazer higiene (...), a gente vê como que tá o mamilo, se não tá machucado, se não tá sangrando, essas coisas tudo a gente vê, a gente analisa (Jasmim).

Nesse contexto, pode-se afirmar que as práticas de enfermagem voltadas à nutriz, na maioria das vezes, são, em geral, voltadas às mamas dessa mulher e com a finalidade precípua de garantir sua integridade e as benesses do aleitamento ao lactente.

Constata-se também que, apesar de os sujeitos da pesquisa entenderem que a sexualidade diz respeito a um conjunto de valores e sentimentos contemplados em todas as fases da vida e que está inclusa no processo de amamentação, boa parte deles não a arrolam na agenda das práticas relativas à nutriz e, quando o fazem, é de forma tímida e prescritiva.

Não! Dificilmente a gente fala (de sexualidade), a gente só pergunta se ela tá se cuidando (usando um método contraceptivo) (Jasmim).

Não se percebe, por boa parte dos sujeitos do estudo, preocupação no sentido de possibilitar à mulher (e seu companheiro) um espaço de escuta em que possam manifestar seus desejos para esse momento da vida. Há uma tendência de normalização dessa etapa da vida a partir de critérios, muitas vezes produzidos no meio acadêmico, ou seja, em lugar e tempo distantes daquele em que está inserido o casal[1]. A exemplo disso, houve menção à orientação sobre a necessidade de o casal manter abstinência sexual pelo tempo de puerpério.

Explicamos, para a puérpera, que depois de quarenta dias ela pode voltar a sua vida sexual ativa e que é normal ela sentir um pouquinho de dor nas relações no início, que aos poucos ela vai voltar à ativa (Violeta).

Os profissionais de enfermagem explicitam que, se não forem questionados ou solicitados a abordar a temática da sexualidade, não tomam iniciativa nesse sentido, remetendo ao outro — o ser cuidado — os motivos pelos quais não o fazem. 

O problema é que elas não perguntam pra gente, elas não comentam, elas não falam (...); não toco no assunto, não toco no assunto porque é uma cultura (Begônia).

Não muito, não se conversa sobre isso com as mulheres, eu, pelo menos, não! Agora que tu tá me falando isso... Nunca pensei em abordar essa questão e, também, porque nunca ninguém questionou. De repente é uma coisa que falta, porque realmente ninguém nunca questionou sobre isso, e não é muito comentado não (Orquídea).

Os dados revelam que os sujeitos do estudo têm uma concepção ampliada sobre sexualidade e entendem que faz parte do contexto de vida da mulher, porém, no que se refere ao período de amamentação, a prática assistencial parece dissociada desse entendimento, em especial no que alude ao interesse sexual entre o casal. Cabe lembrar que a enfermagem pauta suas ações em concepções, crenças e aprendizagens sobre o seu papel na atenção à saúde dos indivíduos e coletividades, sendo esses os "guias" do fazer profissional. Nesse sentido, o profissional pode acreditar que, se a mulher considerar importante a temática da sexualidade, ela irá manifestar esse interesse em suas interações com ele. Então, se a mulher não toma a iniciativa, o profissional também não o faz, partindo do pressuposto de que isso não é do interesse dela. Dessa perspectiva, considerando essa forma de produzir o fazer profissional, esse aspecto — amamentação e sexualidade — será inexistente no trabalho da enfermagem.

 

DISCUSSÃO

As concepções dos sujeitos deste estudo, acerca do que seja sexualidade, vão ao encontro dos resultados de outras investigações, em que a sexualidade é entendida como algo que envolve, além do ato sexual, amor, demonstrações de carinho, sensualidade, modo de pensar, agir, vestir, enfim, expressões que fazem parte da vida de todas as pessoas(1-2). Tal entendimento é sustentado por reflexões que indicam que a sexualidade alude a uma série de aspectos complexos, que não se limitam a aspectos biológicos, mas envolvem inúmeras expressões emocionais e influências historicamente vivenciadas(16).

A sexualidade é entendida, também, como um aspecto que faz parte da vida de todas as pessoas, que compreende a singularidade de cada indivíduo, que envolve atitudes e simbolizações e que se produz ao longo da socialização, dizendo respeito à intra e à intersubjetividade, dinâmica, flexível e contextualizada e, por isso, elaborada por todos os sujeitos sociais(1,9). É, portanto, um híbrido entre natureza e cultura, na medida em que se reconhece que nada é absolutamente natureza e que nesta sempre há cultura.

Os resultados, em especial os que indicam que a mama, no período de amamentação, é considerada exclusividade do bebê e que os cuidados à mulher-nutriz se centram nos seios com vistas, em especial, a proporcionar condições para que a amamentação possa ocorrer e, assim, garantir os benefícios à criança, talvez possam ser explicados como resultado de uma herança cultural de um tempo em que a mama não era erotizada, em que prevalecia "uma percepção funcional e alimentar dos seios"(6). A existência de uma tendência cultural de práticas de cuidado voltadas para o âmbito biologicista e patologicista(1) talvez explique, pelo menos em parte, as práticas  mencionadas pelos sujeitos, que se voltam, com mais força, à prevenção e cura de agravos específicos da mama. Ademais, o enfoque dado às práticas assistenciais da enfermagem pode ser reflexo, também, da ênfase das políticas de saúde à importância da amamentação e ao papel do ser-mãe nesse sentido e do conteúdo veiculado na mídia.

Além disso, imperativos sociais relativos ao exercício dos papéis maternos podem contribuir na formação de parte do ideário que sustenta essas concepções e práticas dos profissionais, sujeitos deste estudo. Essa compreensão poder ser remetida à investigação, cujo referencial teórico é o modelo assumir risco ou garantir benefícios(7). A autora considera que a sexualidade da mulher em processo de amamentação, vê-se modificada em virtude de questões que dizem respeito à maternidade. Essas modificações têm associação com alguns fatores, de acordo com o modelo adotado. Desses fatores, ressalta-se aquele que diz respeito à assunção de novos papéis em virtude do nascimento de um filho, dentre os quais tem destaque o de mãe-nutriz e que, em consequência, determina a priorização do filho e de sua saúde. 

A troca de carinho e de conhecimentos entre mãe e filho foi enfatizada, pelos sujeitos da pesquisa, como um dos fatores da amamentação que pode dizer respeito à sexualidade. A partir dessa noção, infere-se que os sujeitos entendem a prática da amamentação como demarcadora dos aspectos da sexualidade entre mãe e filho. Nesta perspectiva, a amamentação é percebida como facilitador do vínculo entre mãe e filho, pois, junto aos benefícios nutricionais, possibilita proximidade e interação entre esse binômio. Estudo, nesse sentido, que objetiva identificar os sentimentos maternos expressos pela mulher durante o contato íntimo com os filhos, logo após o parto, evidencia que as mães, ao sentirem o contato do rosto de seus filhos com as suas mamas, consideram a amamentação uma maneira de reencontro, algo que vai além do ato de amamentar, um ato capaz de ligar o corpo do filho novamente ao da mãe(17).

Por meio do tema dois, constata-se que a relação entre amamentação e sexualidade, para os sujeitos do estudo, diz respeito à expressão de amor da mãe para o filho, o que contribui para que as práticas de cuidados centrem-se nesta esfera - do binômio mãe/filho. Por conta disso, o lactente está no centro dos cuidados relativos à mulher que amamenta, o que pode ser justificado, entre outros motivos, pelo valor sociocultural da criança na sociedade ocidental, o qual teve sua origem em meados do século XVII(18). Ao lado dessa valorização da criança e da noção de que amamentação é interação entre mãe e filho, as práticas de cuidado parecem se alicerçar, em especial, no paradigma biomédico, invenção social que data mais ou menos da mesma época em que a infância foi forjada e que, ainda, influencia fortemente as condutas no campo da saúde(19).

Embora a gestação e a amamentação tragam inúmeras modificações para o corpo da mulher, em atitude de superação ao modelo biomédico é importante considerar que essas transformações são bem mais amplas e complexas, dizendo respeito, também, à transformação de papéis sociais colados à maternidade, o que representa demandas que estão para além de um corpo que amamenta. Assim, exercer o papel da maternidade, dentro do qual está a amamentação, sem que deixe de se re-conhecer também como mulher, exige a aquisição de conhecimentos e entendimentos sobre si mesma, o que pode ser resultado, pelo menos em parte, de ações de educação em saúde promovidas pelo enfermeiro, e reforçadas pelos demais profissionais de enfermagem, na medida em que cria um espaço discursivo sobre os aspectos relevantes da sexualidade(20).

Ressalta-se que todas as práticas de cuidados relativas ao processo de amamentação mencionadas pelos sujeitos deste estudo são importantes e necessitam ser consideradas no trabalho com mulheres-nutrizes, mas não são os únicos aspectos a serem contemplados. Para o rompimento com saberes formatados e descontextualizados, considera-se de importância o desenvolvimento de práticas assistenciais que privilegiem a mulher-nutriz em sua integralidade e ajudem no reconhecimento de sua complexidade, suas especificidades e suas necessidades, que compreendem aspectos de caráter biológico, psicológico, cultural e social, incluindo-se aí a sexualidade(20-21).

Os resultados permitem perceber que, no cenário das práticas assistenciais deste estudo, a maternidade dá lugar a uma sexualidade em que o erotismo entre a mulher e seu companheiro/a não é considerada, visto que o seio é considerado exclusividade do filho, e tem força (sociocultural) para, inclusive, submeter desejos da mulher que absolutamente não digam respeito à criança. Em vista disso, nas práticas assistenciais tecidas no interior da cultura do grupo estudado, a amamentação e a sexualidade, em seus aspectos eróticos, não têm interface.

O fato de a sexualidade não ser vista, nem tocada, sendo totalmente subjetiva e abstrata, pode contribuir para que os profissionais de saúde, em suas práticas assistenciais, a desconheçam ou a valorizem pouco(20), o que parece ser o caso dos sujeitos deste estudo. Ao articular os achados do estudo com o aporte teórico, percebe-se que, ao assistir-se a mulher que se torna mãe, em sua integralidade, é necessário considerar que "ser nutriz" é apenas mais um dos papéis que ela desempenha nesse momento existencial, cabendo lembrar que as questões da sexualidade, em suas diferentes expressões, se constituem em eixos fundamentais a serem abordados pelos profissionais de enfermagem, em especial o enfermeiro(21)

 

CONCLUSÃO

Em resposta ao objetivo deste estudo, no que tange às concepções sobre sexualidade, os achados permitem constatar que os profissionais de enfermagem entendem-na como conjunto de fatores que integram o ser humano nas suas interações com o outro e consigo mesmo e que têm estreita associação com o processo de amamentação, já que ambos se constituem de elementos que permitem a inter-relação entre dois seres, fundando-se em afeto, toque e vários outros aspectos. Há o entendimento de que, ao assumir as novas condições impostas pela maternidade e, se for de seu desejo e possibilidades, assumir também o processo de amamentação, a mulher está exercitando e estimulando a sua sexualidade, por meio de inúmeras interações aí envolvidas e que se manifestam por meio de toque, afetividade, sentimentos e relacionamentos com o bebê.

Partindo desse entendimento, o qual está alicerçado nas teias culturais em que os profissionais de enfermagem e as mulheres, a quem cuidam, tecem e se entrelaçam, os resultados deste estudo permitem perceber que o seio, símbolo da maternidade, é exclusividade do filho, o que atrela a mulher, no período puerperal, ao exercício prioritário de algumas funções maternas, nesse caso a amamentação, e exclui, neste cenário, a sexualidade, especialmente, em seu componente erótico.

Também em resposta ao objetivo do estudo, no que se refere às práticas de cuidado à mulher que amamenta, os sujeitos revelam que estas visam, principalmente, garantir o sucesso do aleitamento materno, centrando-se em saberes biomédicos que consideram aspectos biológicos e fisiológicos da amamentação, direcionados ao corpo, mais especificamente às mamas dessa mulher, visando prevenir agravos mamilo-areolares e, em consequência, almejando o bem-estar da criança. Em meio a essa cultura, a sexualidade, em especial vinculada às questões eróticas, parece inexistir na assistência de enfermagem.

Destaca-se, ainda, a importância de que os profissionais de enfermagem considerem a mulher em suas diferentes funções sociais - de mãe, nutriz, esposa, trabalhadora, ou seja, uma mulher que tem uma vida para além do filho. Nesses termos, esforços no sentido de incluir companheiro/a da mulher que amamenta na assistência de enfermagem parecem necessários. Para isso, sugere-se a criação de espaços de educação em saúde - a exemplo de atividades de natureza grupal que envolvem o casal e cujo referencial privilegie espaços de escuta, diálogo e troca de saberes, buscando abordar os significados e sentidos da maternidade e da sexualidade.

Para tanto, a temática sexualidade e amamentação em suas diferentes interfaces precisa integrar a agenda de formação de enfermeiros, desde a graduação, sendo ampliada para a prática profissional por meio da educação permanente. A partir de iniciativas desse tipo, os enfermeiros, ao assumirem suas atribuições em serviços de saúde, possivelmente terão uma compreensão mais integralizada de seus usuários e poderão contribuir na organização de tais serviços de modo que estes sejam espaços potenciais de escuta e de atenção às demandas de mulheres, de homens e das crianças - seres de relação.

Como uma das fragilidades deste estudo aponta-se a análise conjunta das informações emitidas por enfermeiros, técnicos e auxiliares de enfermagem, visto que os mesmos têm formação e atribuições diferenciadas, o que, em tese, pode suscitar concepções e práticas também diferenciadas e sinaliza para o desenvolvimento de outros estudos.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Alessandra Florencio
Rua Angelo Strapazon, 310
CEP 98700-000 - Ijuí, RS, Brasil

Recebido: 14/02/2012
Aprovado: 31/03/2012

 

 

* Extraído do trabalho de conclusão de curso "A sexualidade na concepção e abordagem de profissionais de enfermagem da atenção básica que assistem mulheres em processo de amamentação: ocultamento e invisibilidade", Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Maria. Santa Maria, RS, Brasil.
[1] Em um trabalho dessa natureza, que trata das interfaces entre amamentação e sexualidade, não há como se furtar de mencionar que nos dias atuais os profissionais de enfermagem devem incluir, em sua agenda de trabalho, as novas conformações de família, que diz respeito ao casal de mulher-homem ou mulher-mulher.

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