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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.46 no.6 São Paulo Dec. 2012

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342012000600028 

ARTIGO DE REVISÃO

 

Revisão sistemática sobre antissepsia cirúrgica das mãos com preparação alcoólica em comparação aos produtos tradicionais*

 

Revisión sistemática sobre antisepsia quirúrgica de manos con preparación alcohólica comparada a productos tradicionales

 

 

Karen de Jesus GonçalvesI; Kazuko Uchikawa GrazianoII; Julia Yaeko KawagoeIII

IEnfermeira pela Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. karen.jg@usp.br
IIEnfermeira. Professora Titular do Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo. São Paulo, SP, Brasil. kugrazia@usp.br
IIIEnfermeira Epidemiologista do Serviço de Controle de Infecção do Hospital Israelita Albert Einstein. São Paulo, SP, Brasil. julia@einstein.br

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A antissepsia cirúrgica das mãos visa à prevenção de infecções do sítio cirúrgico, importante causa de morbimortalidade pós-operatória e aumento dos custos hospitalares. Este estudo teve como objetivo comparar a eficácia de preparações alcoólicas com os produtos tradicionais na antissepsia cirúrgica das mãos por meio de uma revisão sistemática da literatura. Foram considerados estudos primários ou secundários, tendo como desfecho a contagem microbiana das mãos ou taxas de infecções do sítio cirúrgico. A busca foi realizada no Portal BVS, PubMed, Ask e MEDLINE. Foram selecionados 25 estudos (2 revisões sistemáticas, 19 experimentais e 4 de coorte). As preparações alcoólicas tiveram uma redução microbiana igual e/ou maior aos produtos tradicionais em 17 estudos e inferior em 4; as taxas de infecções do sítio cirúrgico foram similares. Portanto, existem evidências científicas que suportam a segurança das preparações alcoólicas para antissepsia cirúrgica das mãos.

Descritores: Antissepsia. Cirurgia geral. Lavagem de mãos. Controle de infecções. Enfermagem de Centro Cirúrgico.


RESUMEN

La antisepsia quirúrgica de manos apunta a prevenir infecciones en el sitio quirúrgico, causa importante de morbi-mortalidad postoperatoria y aumento de costos hospitalarios. El estudio objetivó comparar la eficacia de preparaciones alcohólicas con los productos tradicionales de la antisepsia quirúrgica de manos, mediante revisión sistemática de la literatura. Fueron considerados estudios primarios o secundarios, teniendo como objetivo el recuento microbiano en manos o tasas de infecciones del sitio quirúrgico. La búsqueda fue realizada en las bases BVS, PubMed, Ask y MEDLINE. Fueron seleccionados 25 estudios (2 revisiones sistemáticas, 19 experimentales y 4 de cohorte). Las preparaciones alcohólicas consiguieron una reducción microbiana igual y/o mayor que los productos tradicionales en 17 estudios, e inferior en 4; las tasas de infección del sitio quirúrgico fueron equivalentes. Por lo tanto, existen evidencias científicas que dan soporte a la seguridad de las preparaciones alcohólicas para la antisepsia quirúrgica de las manos.

Descriptores: Antisepsia. Cirugía general. Lavado de manos. Control de infecciones. Enfermería de quirófano.


 

 

INTRODUÇÃO

As infecções do sítio cirúrgico (ISC) são a maior causa de morbi-mortalidade pós-operatória e representam grandes gastos para os hospitais(1). Apesar da causa multifatorial, estudos têm correlacionado as ISC, por meio de biologia molecular, às falhas na antissepsia cirúrgica das mãos da equipe cirúrgica, causando inclusive surtos(2-4).    

 A paramentação cirúrgica, medida bem estabelecida para prevenção das infecções do sítio cirúrgico, consiste em antissepsia cirúrgica das mãos, utilização de aventais e luvas esterilizadas, além de gorro e máscara(5). Apesar do uso de luvas cirúrgicas, a transmissão de micro-organismos das mãos da equipe cirúrgica para o paciente pode ocorrer, considerando que ao final da cirurgia cerca de 18% (5 a 82%) das luvas cirúrgicas apresentam micro-perfurações, sendo que em mais de 80% dos casos essas perfurações não são percebidas pelos cirurgiões(6), e podem dobrar o risco de infecções do sítio cirúrgico(7), tornando esse preparo prévio das mãos essencial.

O antisséptico cirúrgico deve ser capaz de eliminar totalmente a microbiota transitória das mãos e reduzir significativamente a residente no começo do procedimento, e inibir o seu crescimento em mãos enluvadas até o final da cirurgia(8-13). Os antissépticos mais utilizados atualmente são a clorexidina (CHG) e o polivinilpirrolidona iodo (PVPI) aplicados com esponja e/ou escova, apesar da Organização Mundial da Saúde (OMS) não recomendar o uso de escovas para essa finalidade pelo seu efeito abrasivo(14).

As preparações alcoólicas (PA) têm sido recomendadas pela OMS(14), nas concentrações entre 60 e 80%, e pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos(13), nas concentrações entre 60 e 95%, como produto de escolha na higienização das mãos e como alternativa aos produtos tradicionais (PT) para antissepsia cirúrgica das mãos, justificada pela eficácia antimicrobiana, facilidade de aplicação, menor dano à pele e economia de tempo(13-14). O diferencial do álcool em relação aos outros antissépticos é sua rápida velocidade de ação, além de excelente atividade antimicrobiana contra bactérias Gram-positivas, Gram-negativas, fungos, micobactérias e vírus(8,13).

Há cerca de 30 anos as preparações alcoólicas (PA) são usadas na Europa para antissepsia cirúrgica das mãos(15). Nos países deste continente, vigora a EN 12791 da Comité Européen de Normalisation (CEN)(16) como método de avaliação da eficácia de antissépticos destinados à antissepsia cirúrgica das mãos. Nele, a eficácia antimicrobiana dos produtos é testada em 20 voluntários sadios e adota-se como produto referência (PR) o n-propanol 60% v/v, aplicado por 3 minutos. As amostras microbianas são colhidas após lavagem das mãos com sabonete sem atividade antimicrobiana (valor basal), imediatamente após a antissepsia (efeito imediato) e após 3hs com mãos enluvadas (efeito residual). As amostras são colhidas por fricção das pontas dos dedos em placas com meio de cultura e neutralizantes, uma para cada mão. Os valores são expressos em unidades formadoras de colônias (UFC)/mL e transformados em logaritmos decimais e não podem ser significativamente inferiores aos obtidos com o produto referência (PR). Para o produto ser classificado com efeito residual, os resultados obtidos após 3 horas devem ser significativamente maiores que os obtidos pelo produto referência. Também existem, na Europa, outras normas para determinação do espectro antimicrobiano dos antissépticos em testes in-vitro, que precedem os in-vivo.

Nos Estados Unidos, vigora o método da American Society for Testing and Methods (ASTM E1115)(17), com testes in-vitro que medem o espectro antimicrobiano contra uma quantidade específica de diferentes micro-organismos e testes in-vivo. Nos testes in-vivo os produtos são utilizados por 5 dias consecutivos, sendo aplicados uma vez nos dias 1º e 5º, e 3 vezes nos dias 2º, 3º e 4º. O número de participantes é definido a partir de uma fórmula, e antes do início do estudo são colhidas amostras dos valores basais. As amostras microbianas são colhidas imediatamente após a antissepsia (efeito imediato) e após 3 e 6 horas com mãos enluvadas (efeito residual), nos dias 1º, 2º e 5º (efeito cumulativo). Utiliza-se o método glove juice para coleta das amostras onde as mãos são aleatoriamente divididas nos tempos 1 minuto, 3 horas e 6 horas após a aplicação. Os valores obtidos expressos em UFC/mão são transformados em log10. O produto testado deve atingir os seguintes resultados: no dia 1º deve haver uma redução bacteriana de 1 log após 1 minuto de aplicação, e após 6 horas não deve exceder o valor basal; ao final do dia 2º deve haver uma redução de 2 log após 1 minuto de aplicação; e ao final do dia 5º uma redução de 3 log após 1 minuto de aplicação.

Apesar desses movimentos na Europa e nos Estados Unidos e das recomendações da OMS e do CDC, o uso do álcool para antissepsia cirúrgica das mãos no Brasil, até hoje não é uma prática difundida. Muitos acreditam que a escovação vigorosa das mãos e antebraços é essencial para o preparo da pele(15), além do método tradicional ser considerado um ritual preparatório para a cirurgia(18) e um momento de concentração da equipe cirúrgica. A prática baseada em evidências (PBE) pode ser um dos passos para vencer essa resistência ao uso do álcool, desde que se prove a eficácia desses produtos.

Esse estudo teve como questão norteadora: É segura a substituição da técnica tradicional de antissepsia cirúrgica das mãos e antebraços da equipe cirúrgica por aplicação de preparações à base de álcool? e tem como relevância subsidiar mudanças dessa prática no cenário nacional.

 

OBJETIVO

Comparar a eficácia antimicrobiana de preparações alcoólicas com os produtos tradicionais na antissepsia cirúrgica das mãos, evidenciada pela literatura científica por meio de uma revisão sistemática.

 

MÉTODO

A PBE, definida pelo Evidence Based Medicine Work Group (Canadá) como o processo de sistematicamente descobrir, avaliar e usar achados de investigações como base para decisões clínicas(19), tem a revisão sistemática como um recurso importante, na qual as informações relacionadas a um determinado problema são coletadas, categorizadas, avaliadas e sintetizadas(20).

O presente estudo trata-se de uma revisão sistemática da literatura tendo como base as pesquisas básicas e revisões sistemáticas, de modo a responder à pergunta da pesquisa.

A busca dos dados ocorreu entre os meses de junho e setembro de 2010. Os estudos foram obtidos a partir de acessos de domínio público: Portal BVS (Centro Latino-Americano e do Caribe de Informação em Ciências da Saúde, também conhecido pelo seu nome original Biblioteca Regional de Medicina), que inclui busca nas bases e portais LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), IBECS (Índice Bibliográfico Español en Ciencias de la Salud), MEDLINE (National Library of Medicine/NLM), The Cochrane Library e SciELO (Scientific Eletronic Library Online); PubMed (National Library of Medicine/NLM); e Ask MEDLINE. Também foi realizada busca de referências cruzadas das publicações obtidas a partir das bases de dados com o objetivo de encontrar outros estudos não localizados com a busca eletrônica.

Os descritores da saúde utilizados na busca, com auxílio de conectores booleanos, foram: antissepsia or lavagem de mãos and salas cirúrgicas or centros de cirurgia or cirurgia and etanol or 1-propanol or 2-propanol or feniletil álcool and povidona-iodo or clorexidina. A busca em bases de língua inglesa foi realizada com os seguintes Medical Subject Heading (MeSH) termos: surgical hand disinfection OR surgical hand antisepsis OR surgical hand rub OR surgical hand rubbing OR surgical hand scrub OR surgical hand scrubbing AND alcohol hand rubs OR alcohol-based hand rub OR alcohol OR n-propanol OR 1-propanol OR 2-propanol OR isopropanol OR ethanol AND chlorhexidine OR povidone iodine. No Ask Medline foi formulada a seguinte questão: Could alcohol replace traditional surgical hand antisepsis?

Os critérios de inclusão dos estudos foram: estudos primários ou secundários, que abordaram a eficácia da antissepsia cirúrgica das mãos com preparações alcoólicas em comparação aos produtos e técnicas tradicionais com CHG ou PVPI; em campo ou em laboratório; com voluntários ou profissionais da saúde; apresentando como desfecho a redução da contagem microbiana das mãos ou taxas de infecções do sítio cirúrgico; nos idiomas inglês, português ou espanhol; sem restrição à data de publicação.

Os critérios de exclusão foram: artigos de reflexão, revisões de literatura narrativa; higienização simples das mãos com álcool; artigos que não compararam a eficácia das preparações alcoólicas com produtos tradicionais; artigos que utilizaram produtos tradicionais anteriormente à aplicação da preparação à base de álcool; artigos em que o álcool não era o principal ingrediente ativo da preparação alcoólica.

Os estudos foram analisados por três pesquisadores, sendo dois deles especialistas no assunto e nos métodos de investigação. A análise e seleção dos estudos foram realizadas em três fases. Na primeira, realizada por um único investigador, os estudos foram analisados e pré-selecionados segundo os critérios de inclusão e exclusão por meio de seus resumos, e quando estes não estavam disponíveis, através do artigo completo. Após essa pré-seleção, os estudos foram analisados com instrumento de coleta de dados baseado no modelo de Mendonça(21), incluindo: tipo de investigação, objetivos, amostra, método, desfechos, resultados e conclusão. A terceira fase incluiu a avaliação dos estudos pelos três investigadores de forma independente, com ampliação da coleta de dados, com maior especificação em relação aos objetivos dessa revisão sistemática, chegando aos estudos selecionados para a pesquisa. Foram realizadas reuniões para discussão e consenso entre os pesquisadores acerca dos estudos, e sua inclusão ou exclusão.

Os estudos foram classificados quanto sua validade interna e nível de evidência seguindo o modelo proposto pela U.S. Preventive Services Task Force (USPSTF/Task Force)(22), em cinco níveis de evidência: I - pelo menos um estudo clínico controlado randomizado bem conduzido; II-1 - estudos clínicos controlados sem randomização bem conduzidos; II-2 - estudos de coorte ou caso-controle bem conduzidos; II-3 - múltiplos estudos longitudinais com ou sem intervenção; e III - opiniões de autoridades respeitadas, baseadas na experiência clínica, estudos descritivos e relatos de caso, ou relatos de comitês de especialistas. Cada nível é subdividido em três categorias, bom, moderado e ruim, de acordo com critérios de validade interna definidos para cada tipo de estudo, incluindo revisões sistemáticas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Por meio da busca eletrônica realizada foram localizados 132 artigos e com a análise de suas referências obteve-se mais 25, totalizando 157 artigos. Desse total, 26 estudos foram excluídos por repetição e 79 por não atenderem aos critérios de inclusão dessa pesquisa, sendo pré-selecionados 52 artigos. Não entraram na pesquisa 17 artigos que não foram obtidos textos completos. Após análise dos textos na íntegra e reuniões de consenso, 10 artigos foram excluídos por não atenderem aos critérios da pesquisa. Com isso, 25 estudos foram selecionados, identificados por ordem cronológica como E1 a E23, R1 e R2, estes últimos referentes a duas revisões sistemáticas.

O Quadro 1 apresenta os estudos selecionados com seus respectivos autores, país de origem, ano de publicação, título e fonte de publicação. No Quadro 2 há um resumo dos artigos em relação ao tipo de investigação, nível de evidência, método utilizado, técnica de obtenção da amostra microbiana, tempo de obtenção da amostra, preparações alcoólicas e produtos tradicionais utilizados e os principais resultados.

No Brasil, não há até o momento estudos publicados sobre esse tema nas fontes investigadas. A própria utilização do álcool para higienização simples das mãos, medida eficaz e conhecida, tem sofrido resistência por parte dos profissionais no país.

O emprego de metodologias oficiais, publicadas por organizações reconhecidas, para avaliar a eficácia de antissépticos para o preparo cirúrgico das mãos foi fundamental na realização da presente revisão sistemática. Testes padronizados e oficiais além de permitirem comparação entre resultados proporcionam maior confiabilidade aos mesmos. Dos 25 trabalhos analisados, seis (24%) utilizaram metodologias oficiais, sendo quatro da ASTM (E6, E8, E11, E18) e dois da prEN 12791 ou EN 12791 (E13, E15, respectivamente).

Os dois estudos de revisão sistemática (8,0% - R1 e R2) localizados, apesar de não serem exclusivos para antissepsia cirúrgica das mãos com preparações alcoólicas em comparação com produtos tradicionais, avaliaram estudos randomizados controlados realizados em campo com a mesma finalidade desta pesquisa.

A contagem microbiana ou sua redução foram os desfechos analisados pela maioria dos estudos selecionados (78,3%). Doze estudos (60,0%) analisaram o efeito imediato e residual dos produtos (E3B, E4, E5, E6, E7, E8, E10, E11, E13, E18, E19, E22), cinco (25,0%) apenas o efeito imediato (E2, E3A, E9, E15, E20), três estudos (15,0%) somente o efeito residual (E1, E3C, E16), oito (40,0%) o efeito cumulativo (E3A, E4, E5, E6, E8, E9, E11, E18) e quatro (20,0%) não colheram amostras antes da antissepsia para fins comparativos (E1, E3C, E16, E20). Cinco estudos (21,7% - E12, E14, E17, E21, E23) utilizaram como desfecho a taxa de infecções do sítio cirúrgico.

Os métodos de coleta das amostras microbianas variaram, sendo os principais o "glove juice" e a impressão/contato das pontas dos dedos em meio de cultura. Os estudos mais antigos utilizaram a lavagem das mãos com solução Ringer e a cultura de alíquotas dessa solução.

Ainda sobre a técnica utilizada, 14 estudos relataram algum preparo das mãos antes da utilização do produto (60,9%), sendo que em oito estudos (34,8% - E5, E6, E8, E10, E11, E14, E18, E19) os espaços subungueais foram limpos antes do procedimento de antissepsia cirúrgica, com escovação ou uso de palito de unha. A necessidade ou não de escovação ou uso de palito no espaço subungueal para sua limpeza antes da utilização da preparação alcoólica, no parecer das autoras, ainda é uma lacuna existente sobre o tema pelo seu caráter abrasivo à pele. Nos estudos selecionados não fica claro qual o impacto desse procedimento sobre a redução da microbiota da pele após a antissepsia química. Sabe-se que esta é uma região que acumula sujidade e consequentemente micro-organismos(13), contudo um estudo realizado com uma modificação da metodologia oficial européia, a EN 1500, mostra que o álcool nas formulações gel e líquida tem ação microbicida na pele mesmo na presença de matéria orgânica (no caso foram utilizados sangue de carneiro e contaminação artificial das mãos com S. macescens ATCC 14756)(23). A OMS recomenda o uso de palito de unha, mas não recomenda o uso de escova para as unhas, devido seu caráter abrasivo(14).

O tempo de aplicação/contato dos produtos tradicionais foi entre 2 a 10 minutos. Já para as preparações alcoólicas, o tempo variou de 1,5 a 5 minutos e na descrição da aplicação do produto, muitos deram ênfase ao tempo de aplicação/contato em detrimento da quantidade, que pode variar com o tamanho da superfície de aplicação. Em apenas um estudo (E2) houve testes com tempos menores, como 30 segundos.

As preparações alcoólicas apresentam menor tempo de aplicação/contato em relação aos produtos tradicionais, devido seu rápido efeito antimicrobiano o que otimiza o tempo dos profissionais e os recursos hospitalares (E1)(15), aspecto que pode ser muito útil entre cirurgias rápidas (oftalmológicas, por exemplo) que são realizadas subsequentemente pela equipe cirúrgica. Em alguns países - onde a prática da utilização de preparação alcoólica na antissepsia cirúrgica das mãos já é aceita -, existem estudos que têm avaliado a redução do tempo de contato com esses produtos, porém não foram incluídos por não atenderem aos critérios de inclusão dessa pesquisa.  

Apesar da aceitação europeia de preparação alcoólica na antissepsia cirúrgica das mãos, pesquisa realizada no Reino Unido (2007) mostrou que o método tradicional ainda é o mais utilizado (representando 90% na primeira antissepsia do dia) e a preparação alcoólica é utilizada repetidamente em apenas 20% dos casos(24).

As preparações alcoólicas apresentam como vantagem a economia de água e custos. Devido seu método de aplicação — apenas fricção sobre a pele, não necessita de enxágue, consequentemente dispensa o controle rigoroso da qualidade da água, como utilização de filtros, não usa toalha/compressa esterilizada. Estudos como o (E9), mostram que as preparações alcoólicas promovem uma redução dos custos por procedimento em até 67% em relação aos produtos tradicionais(25). Sob o ponto de vista ecológico, há economia considerável de água, além de dispensar a estrutura de lavabo na unidade de centro cirúrgico. Estudo realizado no Reino Unido, contabilizou a quantidade de água utilizada para a antissepsia cirúrgica das mãos com CHG ou PVPI, chegando a 18,5 L por procedimento e 931,938 L de água gastos por ano(26).

A principal desvantagem do álcool é seu efeito ressecante sobre a pele, que pode ser contornado com a adição de emolientes, umectantes ou outros condicionantes à formulação(8,15). Estudos que avaliaram o efeito da preparação alcoólica e dos produtos tradicionais sobre a pele mostraram que as preparações alcoólicas, com a adição de emolientes, ou não em alguns estudos (E8), apresentam de maneira geral, um efeito melhor ou similar à pele em comparação aos produtos tradicionais (E7, E8, E9, E10, E12, E18, E19). Por esse motivo e devido ao método de aplicação, houve uma melhor aceitação pelos profissionais (E9, E12, E18, E19). Ainda sobre as características negativas do álcool, alguns estudos reportaram o cheiro forte e, em alguns casos, sensação de queimação/ardência nas mãos (E18), que pode ocorrer se aplicado em soluções de continuidade da pele(8). Já os produtos tradicionais, na maioria dos casos, pioraram os aspectos da pele e em alguns casos houve efeitos adversos (E7, E8, E9, E12, E18, E19). Outras desvantagens das preparações alcoólicas são sua natureza volátil, precisando de atenção especial para o recipiente e local de armazenamento; necessidade de secar completamente após aplicação; e por não ter ação surfactante, há a necessidade de lavar as mãos com água e sabonete quando estas estiverem visivelmente sujas (E18).

Finalmente, com relação à eficácia antimicrobiana, 90,5% dos estudos relataram que as preparações alcoólicas tiveram redução microbiana maior (17 estudos — E1, E2A, E3A, E3B, E3C, E4, E5, E6, E7, E8, E9, E10 para cirurgias maiores de 3hs, E11, E13, E15, E18, E22) ou igual (seis estudos — E2B, E3A, E10 para cirurgias menores de 2hs, E13, E19, E20) aos produtos tradicionais, sendo que em quatro destes, o resultado variou entre maior ou igual dependendo do produto tradicional e/ou da preparação alcoólica (E2A, E2B, E3A, E13). Quatro estudos 19,0% — (E1, E3B, E8, E16) mostraram a ineficácia do álcool quando comparado ao produto tradicional, porém no (E1) o produto tradicional, é o hexaclorofeno, atualmente proibido no Brasil devido seu efeito tóxico; o (E3B) não apresenta análise estatística (somente valores absolutos); no (E8) o álcool etílico 61% como único princípio ativo foi inferior ao CHG 4%, já o álcool etílico 61% com CHG 1% foi melhor; e o (E16) não utilizou neutralizante no meio de cultura, caracterizando um importante viés do estudo.

O álcool isoladamente não apresenta efeito residual, apesar disso, a recuperação da microbiota da pele ocorre lentamente, pela contínua morte dos microorganismos e provavelmente devido ao efeito sub-letal em algumas bactérias da pele(8,14-15). Contudo, a adição de outros antissépticos de ação sinérgica em pequenas concentrações — como compostos de quaternário de amônio, hexaclorofeno ou clorexidina — às preparações alcoólicas confere ao álcool efeito residual, e foram utilizados na maioria dos estudos analisados.

Todos os estudos que tiveram como medida de desfecho as taxas de ISC (E12, E14, E17,E21,E23) apresentaram resultados que comprovam que não há diferença estatisticamente significante entre as preparações alcoólicas e os produtos tradicionais utilizados.

A eficácia antimicrobiana de preparação alcoólica na antissepsia cirúrgica das mãos depende do tipo de álcool utilizado, da concentração e do tempo de contato. Nesse sentido, para utilização em território nacional, é importante a elaboração de normas e teste de validação da eficácia antimicrobiana desses produtos e que estes sejam registrados pela ANVISA, já que atualmente não existe uma regulamentação nacional para preparação alcoólica com essa finalidade. Devemos ampliar as atuais discussões sobre higienização das mãos com preparação alcoólica (como a obrigatoriedade da disposição de preparação alcoólica para fricção antisséptica das mãos nos serviços de Saúde do Brasil(27)) na antissepsia cirúrgica das mãos.

Em alguns estudos (E6, E11, E18) que adotaram a metodologia ASTM, as preparações tradicionais não atingiram todos os critérios (níveis de redução microbiana) exigidos pelo método, o que gera um questionamento sobre a eficácia desses produtos já amplamente utilizados e aceitos ou sobre os padrões de redução microbiana exigidos por essa metodologia.

Em relação à qualidade dos estudos, das revisões sistemáticas (6,9%), a R1 foi classificada como moderado devido ao pequeno número de estudos e por não apresentar as formulações alcoólicas utilizadas nos estudos, e a R2 como bom. Doze estudos foram classificados como Nível I (41,4%), variando quanto à validade interna, onde um estudo foi classificado como categoria bom (E12); 10 como categoria moderado (E2A, E5, E7, E8, E9, E11, E13, E15, E18, E20); e um como categoria ruim (E16) por não utilizar neutralizante na amostra. Onze estudos foram classificados como Nível II-1 (37,9%), sendo seis da categoria moderado (E1A, E3A, E6, E10, E19, E22) e cinco ruins (E1B, E2B, E3B, E3C, E4) por não apresentarem análise estatística. Nesse tipo de experimento, para testar produtos com naturezas de aplicação diferentes (somente fricção para o álcool ou técnica tradicional com produto que contém detergente para os PT) é muito difícil conduzir investigações duplo-cegas, justificando poucos estudos na categoria bom nos Níveis I e II-1, além de somente um estudo (E12) ter realizado análise intent-to-treat. Os demais estudos (quatro - 13,8%) foram classificados como Nível II-2, sendo um da categoria moderado (E21) e três categorias ruins (E14, E17, E23) por não considerarem as variáveis envolvidas na ISC.

 

CONCLUSÃO

Esta revisão sistemática permitiu concluir que há evidências científicas sobre a segurança do uso de preparação alcoólica (PA) para a antissepsia cirúrgica das mãos, podendo, portanto, substituir a técnica tradicional com CHG ou PVPI contendo detergente, ressaltando que a eficácia do álcool depende de seu tipo, concentração e tempo de contato. Os resultados obtidos vão ao encontro das atuais recomendações da OMS e do CDC, além de obter os mesmos resultados de outros estudos já realizados, como as duas revisões sistemáticas incluídas nessa pesquisa.

Para que uma mudança ocorra na prática, é necessária a divulgação de novas pesquisas, oferecendo informações sobre os benefícios com base em evidências científicas. No caso da antissepsia com PA, a conscientização dos profissionais deve abranger além da efetividade desse produto para essa finalidade, seus benefícios em relação à redução de custos, economia de água, menor tempo de aplicação, menor efeito lesivo à pele e ganhos ecológicos.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Kazuko Uchikawa Graziano
Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César
CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasil

Recebido: 09/05/2011
Aprovado: 09/12/2011

 

 

* Extraído do Trabalho de Conclusão de Curso "Revisão sistemática sobre antissepsia cirúrgica das mãos com preparação alcoólica em comparação aos produtos tradicionais", Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, 2010. 

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