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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.47 no.1 São Paulo Feb. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342013000100025 

ARTIGO ORIGINAL

 

Atendimento e seguimento clínico especializado de profissionais de enfermagem acidentados com material biológico*

 

Atención y seguimiento clínico especializado de profesionales de enfermería accidentados con material biológico

 

 

Flaviana Regina PimentaI; Milene Dias FerreiraII; Elucir GirIII; Miyeko HayashidaIV; Silvia Rita Marin da Silva CaniniV

IEducadora Física. Doutoranda do Programa Interunidades de Doutorado em Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. prof.flaviana@ibramrp.com.br
IIEnfermeira. Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. milenediasferreira@yahoo.com.br
IIIEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora Titular da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. egir@eerp.usp.br
IVEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Especialista em Laboratório da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. miyeko@eerp.usp.br
VEnfermeira. Doutora em Enfermagem. Professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil. canini@eerp.usp.br

Correspondência

 

 


RESUMO

O presente trabalho trata-se de estudo de corte transversal, com objetivo de avaliar a conduta dos profissionais de enfermagem vítimas de acidentes com material biológico, do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, no estado de São Paulo, referente ao atendimento e ao seguimento clínico especializado. A população foi composta por 1.215 profissionais de enfermagem, entrevistados entre os anos de 2010 e 2011, dos quais 636 (52,3%) sofreram acidentes com material biológico e 182 (28,6%) não procuraram atendimento no serviço especializado. O motivo mais frequentemente relatado foi atribuir pouco risco ao acidente. Assim, acredita-se que os motivos alegados pelos profissionais para não procurarem o atendimento, para não completarem a terapêutica e nem o seguimento clínico podem contribuir para a proposição de estratégias capazes de aumentar a adesão às medidas profiláticas após exposição ocupacional a material biológico.

Descritores: Exposição a agentes biológicos. Acidentes de trabalho. Equipe de enfermagem. Saúde do trabalhador.


RESUMEN

Estudio de corte transversal, apuntando a evaluar la conducta de profesionales de enfermería víctimas de accidentes con material biológico, del Hospital de Clínicas de la Facultad de Medicina de Ribeirão Preto, Universidad de São Paulo, en el estado de São Paulo; referente a la atención y seguimiento clínico especializado. La población estuvo integrada por 1215 profesionales de enfermería, entrevistados entre 2010 y 2011, de los cuales 636 (52,3%) sufrieron accidentes con material biológico y 182 (28,6%) no solicitaron atención en el servicio especializado. El motivo relatado con mayor frecuencia fue atribuir escaso riesgo al accidente. De tal modo, se cree que los motivos alegados por los profesionales para no solicitar atención, para no completar la terapéutica ni el seguimiento clínico pueden ser facilitar la propuesta de estrategias capaces de aumentar su adhesión a las medidas profilácticas luego de exposición laboral a materiales biológicos.

Descriptores: Exposición a agentes biológicos. Accidentes de trabajo. Equipo de enfermería. Salud laboral.


 

 

INTRODUÇÃO

O risco de exposição aos patógenos veiculados pelo sangue, sobretudo aos vírus de imunodeficiência humana (HIV), hepatite B (HBV) e hepatite C (HCV), é proporcional ao manuseio de materiais perfurocortantes e de fluidos orgânicos. Os profissionais de enfermagem formam o maior contingente de trabalhadores na área da saúde e, por prestarem assistência direta e ininterrupta aos pacientes, diariamente estão expostos a materiais biológicos e pérfurocortantes, o que contribui para as maiores taxas de soroconversão ao HIV(1).

Apesar de existirem medidas pré-exposição embasadas em evidências científicas e preconizadas por órgãos nacionais e internacionais, muitas vezes a adesão às medidas preventivas não é incorporada à prática clínica, uma vez que os profissionais não reconhecem sua vulnerabilidade à infecção e aos riscos ocupacionais(2).

O risco estimado de transmissão do HIV após acidentes percutâneos e pacientes fonte sabidamente positivos para o HIV é de 0,3 a 0,5%, e, após exposição de membrana mucosa, é de 0,09%. Em relação ao HBV, após exposição percutânea, o risco pode atingir até 62,0% em situações nas quais o paciente-fonte apresentar sorologia HBeAg reagente e nenhuma medida profilática for adotada(3). A estimativa do risco de infecção pelo HCV após acidente ocupacional é de 1,8%, podendo variar de 01 a 10,0%(4).

Na vigência de um acidente com material biológico, o trabalhador deve procurar atendimento clínico especializado imediatamente (até as duas primeiras horas), para que seja avaliado o risco de soroconversão por HIV, HBV e HCV e adotadas as condutas de orientação, coleta de sangue para sorologias, indicação de quimioprofilaxia e seguimento dos acidentados. Posteriormente, o trabalhador deve procurar o órgão responsável pela notificação do acidente conforme as normas estabelecidas pela legislação trabalhista(3).

Apesar do profissional da área da saúde poder se beneficiar do acompanhamento clínico e do uso de anti rretrovirais, pesquisas têm evidenciado altos índices de abandono da terapêutica e interrupção do seguimento clínico(5-6).

Dada a escassez de estudos sobre a adesão ao seguimento clínico após a exposição a material biológico, a realização do presente estudo foi julgada oportuna.

 

OBJETIVOS

Identificar os profissionais de enfermagem vítimas de acidentes com material biológico de um hospital de ensino do interior do estado de São Paulo que procuraram atendimento no serviço médico especializado.

Verificar o tempo decorrido entre o acidente e a procura por atendimento no serviço especializado.

Verificar a indicação e o motivo do esquema anti rretroviral empregado em profissionais de saúde vítimas de acidentes com material biológico.

Identificar os profissionais de enfermagem que relataram ter abandonado a terapêutica e/ou o seguimento clínico especializado e descrever o motivo do abandono.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo de corte transversal, realizado por meio de busca ativa de casos, desenvolvido no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (HCFMRP-USP), na cidade de Ribeirão Preto, estado de São Paulo, cujas atividades são voltadas ao ensino, à assistência e à pesquisa.

Foram elegíveis 1.355 profissionais de enfermagem, todos aqueles que prestavam serviços assistenciais diretos aos pacientes ou que manuseavam objetos utilizados por eles em todos os setores do HCFMRP-USP. Uma vez que 140 (10,3%) não participaram (92 por se recusarem e 48 por estarem de licença saúde), a população do estudo foi constituída por 1.215 sujeitos que concordaram em participar da pesquisa, de modo livre, mediante a assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Os dados foram coletados no período compreendido entre junho de 2010 e maio de 2011, por meio de um roteiro de entrevista, validado quanto à forma e ao conteúdo por três especialistas na temática, e

que continha questões sobre dados sociodemográficos, aspectos relacionados ao trabalho, caracterização do(s) acidente(s) e dados relacionados à ausência ou não de atendimento no Ambulatório de Acidente Ocupacional ao Profissional de Saúde (AOPS) localizado no hospital do estudo. Os profissionais de enfermagem foram entrevistados individualmente, no próprio local de trabalho, em uma sala privativa, por dois pesquisadores e cinco auxiliares de pesquisa, devidamente treinados pelas pesquisadoras do estudo.

Após a coleta de dados procedeu-se à dupla digitação, para análise de consistência interna, em planilha do Excel para Windows 2003. Após as correções devidas, a planilha foi transportada para o programa Statistical Package Social Science (SPSS) versão 17.0 para Windows e formatou-se o banco definitivo a partir do qual foram realizadas as operações de gerenciamento definitivo, como criação de variáveis novas, categorização definitiva das variáveis em intervalos, agrupamento de variáveis e demais operações incluídas no estudo.

O projeto de pesquisa foi aprovado pelos Comitês de Ética em Pesquisa do HCFMRP-USP, ofício 2379/2010, e da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, ofício 254/2011, e seguiu as normas de pesquisas com seres humanos.

 

RESULTADOS

Dos 1.215 profissionais entrevistados, 579 (47,7%) afirmaram não ter sofrido exposição ocupacional a material biológico no decorrer de seu trabalho na instituição, enquanto 636 (52,3%) disseram que sim. Essas exposições ocorreram com os profissionais de enfermagem em contato com pacientes nos locais de internação, exames diagnósticos, centro cirúrgico, ambulatório e com fluidos corpóreos na central de materiais.

As variáveis constantes na Tabela 1 têm base nos dados sociodemográficos e profissionais e os resultados caracterizam os participantes do estudo, vítimas de acidentes com material biológico, que procuraram ou não pelo atendimento especializado no AOPS. Dos 636 profissionais que informaram terem sido expostos, 454 (71,4%) procuraram o atendimento especializado, com predominância de: sexo feminino (403, 88,8%); faixas etárias de 30 a 39 anos de idade (156, 34,4%) e de 40 a 49 anos (149, 32,8%); auxiliares de enfermagem (320, 70,5%); ensino médio completo (258, 56,8%); trabalho em um único emprego (377, 83,0%); turno de trabalho em rodízio (206, 45,4%); jornada de trabalho de <36 horas por semana (227, 50,0%) e tempo de experiência na enfermagem entre 11 e 20 anos (181, 39,9%), assim como entre 11 e 20 anos na instituição (168, 37,0%). Grande parte dos profissionais acidentados que procuraram pelo atendimento especializado (382, 84,1%) relataram ter recebido treinamento específico sobre prevenção de acidentes com material biológico e utilização de precauções-padrão.

 

 

Dos 454 profissionais que mais procuraram pelo atendimento clínico especializado: 07 (100,0%) trabalhavam no momento da exposição na unidade de neurocirurgia e 25 (92,6%) na Unidade Especial de Tratamento de Doenças Infecciosas (UETDI). A menor frequência de procura foi dos profissionais do serviço de hemodiálise (09, 47,4%) e da central de material (22, 47,8%).

Ressalta-se que a procura pelo atendimento especializado do AOPS foi maior por profissionais que referiram ter recebido mais de 10 treinamentos (02, 100,0%), seguido pelos que receberam de 06 a 10 (20, 90,9%).

O número de exposições a material biológico dos profissionais pesquisados variou de zero a 10, o que totalizou 1.036 acidentes sofridos no decorrer da sua experiência na instituição. A maioria (579, 47,7%) referiu não ter sofrido nenhum acidente; e 350 (28,8%), apenas um. A maior quantidade de acidentes (10) foi relatada por 16 (1,3%) profissionais (Tabela 2). Observou-se que a procura pelo atendimento clínico especializado diminuiu à medida que o número de exposições aumentou.

 

 

A procura pelo atendimento clínico especializado foi maior pelos profissionais que sofreram exposições percutâneas (372, 81,9%) e fluido corporal com sangue (391, 73,5%) (Tabela 3).

 

 

Dos 454 profissionais que procuraram atendimento clínico especializado no AOPS, a maioria (421, 92,7%) o fez em menos de uma hora após a exposição; 168 (37,0%) tiveram indicação de antirretrovirais (ARV), 99 (58,9%) para profilaxia e 69 (41,1%) em decorrência da ausência de teste rápido; 52 (31,0%) interromperam o tratamento com medicamentos antes de 28 dias; 26 (5,7%) abandonaram o seguimento clínico especializado que consistia em consultas médicas e de enfermagem, coleta de sangue e controle dos resultados de exames, e 109 (64,9%) apresentaram efeitos adversos (Tabelas 4 e 5).

 

 

 

 

Dentre os 109 (64,9%) profissionais de enfermagem que apresentaram efeitos adversos à terapia com ARV, os mais comuns foram: náusea (23, 21,1%); náusea e vômito (12, 11,0%); náusea, vômito, mialgia e dor epigástrica (10, 9,2%); epigastralgia (10, 9,2%); só vômito (08, 7,3%) e náuseas e mal-estar (08, 7,3%).

Dos 52 (31,0%) que abandonaram a terapêutica, 49 (94,3%) apontaram como principal motivo o efeito adverso decorrente do uso de ARV. Quanto ao abandono do seguimento clínico especializado, os principais motivos relatados pelos profissionais da equipe de enfermagem foram: atendimento demorado (26,9%), sorologia negativa do paciente-fonte (23,1%), esquecimento (15,4%), achou desnecessário (7,8%) e não tinha tempo (7,8%).

Diversos foram os motivos relatados pelas 182 vítimas de acidentes que não procuraram atendimento especializado no AOPS. A maioria (115, 63,2%) mencionou o baixo risco da exposição e 21 (11,5%), o fato da sorologia do paciente-fonte ser negativa.

 

DISCUSSÃO

No presente estudo, mais da metade dos profissionais de enfermagem referiu ter sofrido pelo menos um acidente ocupacional com material biológico ao longo de sua experiência profissional no hospital (as exposições que aconteceram em outro local de trabalho não foram consideradas). Houve predominância de acidentes ocorridos com mulheres, dados também apontados tanto na literatura nacional quanto internacional(7-10), reflexo de uma característica própria da equipe de enfermagem que historicamente vem sendo exercida por mulheres.

Com respeito aos profissionais de enfermagem que relataram ter sofrido acidente com material biológico, verificou-se que a maioria concentrava-se na faixa etária entre 30 e 49 anos, dados corroborados pela literatura(9).

Os auxiliares de enfermagem foram os que mais sofreram acidentes com material biológico. Ressalta-se que, no Brasil, esses profissionais somam o maior contingente da equipe de enfermagem e consequentemente são os mais acometidos por esse tipo de acidente(8,10).

A maioria dos sujeitos que relatou ter sofrido acidente referiu ter apenas um emprego e carga horária semanal de até 36 horas. Porém, um estudo realizado na mesma instituição revelou que, para cada hora acrescida na jornada de trabalho, a chance de sofrer acidente percutâneo aumenta 1,03 vezes (OR=1,03, IC=95%=1,01-1,05)(11).

Quanto ao tempo de experiência profissional na enfermagem, a maioria dos acidentados referiu trabalhar há mais de 10 anos na instituição. Não há um consenso na literatura em relação ao papel da experiência profissional na ocorrência de acidentes com material biológico. Além disso, profissionais mais experientes podem ser mais resistentes a mudanças em seu comportamento(12). Investigação conduzida em um hospital do interior pau-lista identificou que, para cada ano trabalhado, a chance de se acidentar aumentou quatro vezes(13). Outro estudo(8) evidenciou dados divergentes, em que a maioria dos acidentes ocorreu com profissionais de enfermagem que tinham experiência profissional menor ou igual a cinco anos.

Neste estudo, a maioria dos profissionais acidentados referiu ter recebido treinamento sobre prevenção de acidentes com material biológico, utilização das precauções-padrão e condutas após acidente. Foi constatado que, quanto maior o número de treinamentos recebidos pelo profissional de enfermagem, menor foi o número de exposições. Um estudo realizado na Tailândia evidenciou que o treinamento aumentou a taxa de adesão às precauções-padrão durante o período da intervenção, porém os níveis de adesão declinaram no período pós-intervenção, assim, seu efeito foi considerado temporário(14). Na instituição onde o presente estudo foi realizado tem havido um investimento maciço em prevenção desse tipo de acidente com a realização de treinamentos contínuos.

No HCFMRP-USP, os profissionais que sofrerem acidente com material biológico devem adotar as condutas pós-exposição ocupacionais estabelecidas pelo Ministério da Saúde e pela instituição, que consistem em procurar imediatamente pelo atendimento clínico, no ambulatório especializado para atendê-los, assim como notificar o Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho (SESMT) do hospital, para emissão da Comunicação de Acidente de Trabalho (CAT).

Observou-se que cerca de 30% dos sujeitos vítimas de acidente com material biológico não procuraram o ambulatório especializado e a taxa de procura por atendimento variou segundo os diferentes setores do hospital, sendo que os profissionais que atuavam na unidade de neurocicurgia e na Unidade Especial de Tratamento de Doenças Infecciosas (UETDI) foram os que mais procuraram. Já os que atuavam no serviço de hemodiálise e na central de material foram os que menos procuraram o ambulatório especializado. Esse fato é preocupante, uma vez que ainda não existem medidas eficazes para prevenir a soroconversão ao HCV e os estudos apontam para a prevalência de anti-HCV em 20% dos pacientes que fazem hemodiálise(15-16).

Exposições percutâneas e que envolvem sangue foram as mais frequentemente relatadas pelos profissionais de enfermagem. Dados semelhantes foram apontados por outros estudos(10,17-18). No presente estudo, 18,1% profissionais que sofreram exposição percutânea e 26,5% que sofreram exposição ao sangue não procuraram pelo atendimento clínico especializado. Essas são as exposições consideradas de maior gravidade e que oferecem maior risco de soroconversão aos patógenos veiculados pelo sangue. Assim, os profissionais que não procuraram pelo atendimento clínico deixaram de receber medidas para minimizar o risco de soroconversão ao HIV e ao HBV.

Verificou-se que, quanto maior o número de exposições a material biológico, menor foi a procura pelo serviço especializado. Estudo realizado num hospital universitário da Alemanha identificou que a subnotificação foi menor no primeiro acidente (35,3%), aumentou para 59,3% no segundo e 66,7% no terceiro(19).

Com o intuito de analisar a adesão dos profissionais de enfermagem ao seguimento clínico após a exposição ocupacional a material biológico, duas unidades hospitalares foram investigadas e foi encontrado que a maioria dos acidentados procurou atendimento em serviço especializado até duas horas após a exposição, 30,4% dos casos receberam indicação do uso de ARV, dos quais 31,3% apresentaram efeitos adversos. O abandono do seguimento clínico aconteceu em 14 (25,0%) dos acidentados(8).

Evidencia-se que o estudo citado anteriormente foi realizado em duas unidades hospitalares, sendo uma delas a mesma instituição do presente estudo e, segundo os dados encontrados, houve redução da taxa de abandono do seguimento clínico de 25,0% para 5,7%. Pode-se inferir que o investimento da instituição na divulgação de informações sobre acidentes com material biológico pode estar contribuindo para essa redução.

No monitoramento de acidentes realizado em um Hospital Universitário de Treichville, na Costa do Marfim, houve prescrição da profilaxia com ARV para 151 profissionais com exposição ao sangue, dos quais apenas 60 (39,7%) concluíram o esquema terapêutico proposto(20). Diante do exposto, percebe-se que a taxa de abandono tanto da terapia com ARV quanto do seguimento clínico ainda é relativamente alta, considerando-se que podem beneficiar a saúde dos trabalhadores envolvidos em acidentes ocupacionais com material biológico.

Na presente investigação, o motivo mais frequentemente relatado pelos profissionais para interrupção da terapêutica foi a presença de efeitos adversos do ARV. Para o abandono do seguimento clínico, os motivos foram: atendimento demorado, sorologia negativa do paciente-fonte e esquecimento do retorno. Por meio de revisão de literatura, identificou-se que os motivos mais relatados para o não seguimento completo do esquema profilático pós-exposição foram os efeitos adversos da droga, a falta de conscientização e o desconhecimento sobre a conduta recomendada(21).

No presente estudo os efeitos adversos mais frequentemente relatados foram os gastrointestinais como náusea, vômito, diarreia e epigastralgia, os quais têm sido apontados por outros autores(8).

Mesmo diante da possibilidade de infecção pelo HIV, HCV e HBV, cerca de 30,0% dos profissionais acidentados não procuraram atendimento no ambulatório especializado com a alegação de baixo risco do acidente e sorologia do paciente-fonte negativa.

É muito comum o próprio profissional avaliar que o acidente oferece baixo risco e assim justificar a falta de procura por atendimento especializado e também não fazer a notificação. Pesquisas têm mostrado que a autoavaliação de baixo risco é frequente e tem sido usada como justificativa para não notificar os acidentes(22).

 

CONCLUSÃO

Dos 1.215 profissionais de enfermagem do HCFMRP-USP entrevistados, 52,3% relataram ter sofrido ao menos um acidente com material biológico ao longo de sua experiência na instituição e destes, 28,6% não buscaram atendimento clínico especializado, porém a maioria dos profissionais que procurou atendimento o fez em menos de uma hora após o acidente.

O motivo mais frequentemente relatado para o abandono da profilaxia com antirretrovirais foi a presença de efeitos adversos, o que torna necessário acentuar as orientações para os possíveis efeitos adversos e para o retorno ao ambulatório, uma vez que muitos dos sintomas podem ser tratados com a terapêutica continuada.

Apenas 5,7% profissionais interromperam o seguimento clínico especializado em decorrência de consulta aos resultados da sorologia do paciente-fonte, esquecimento e tempo despendido para comparecer aos retornos.

Dos profissionais que não procuraram pelo atendimento clínico especializado, a maioria relatou não tê-lo feito por considerar o acidente de baixo risco. Apesar de subjetiva, a avaliação da presença de riscos no ambiente de trabalho por parte dos trabalhadores pode ser uma premissa útil na tomada de decisão para adoção de práticas seguras. Acredita-se que uma das estratégias a ser implementada nas instituições de saúde deva estar relacionada a aumentar a percepção dos trabalhadores sobre sua vulnerabilidade.

Ressalta-se que o estudo foi realizado em um hospital-escola de grande porte, que tem investido maciçamente em treinamentos tanto para a prevenção de acidentes com material biológico, quanto para as condutas a serem adotadas após acidentes, o que pode ter resultado na baixa taxa de abandono do seguimento.

Apesar disso, acredita-se que identificar os motivos que levam os profissionais a não buscar atendimento clínico especializado, bem como os motivos que os levam a interromper a terapêutica e o seguimento clínico, pode contribuir para a adoção de medidas que possam influenciar o profissional a procurar pelo atendimento e apresentar maior adesão ao seguimento clínico e terapêutico.

 

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Correspondência:
Flaviana Regina Pimenta
Rua Florêncio de Abreu, 1546 - Apto. 11 - Vila Seixas
CEP 14015-060 - Ribeirão Preto, SP, Brasil

Recebido: 23/05/2012
Aprovado: 25/07/2012

 

 

* Extraído da tese "Profissionais de enfermagem vítimas de acidentes com material biológico de um hospital de ensino do interior paulista: atendimento e seguimento clínico especializado", Programa Interunidades de Doutorado em Enfermagem da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, 2011.

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