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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.47 no.1 São Paulo Feb. 2013

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-62342013000100028 

ARTIGO ORIGINAL

 

Projeções e expectativas de ingressantes no curso de formação docente em educação profissional técnica na saúde

 

Proyecciones y expectativas de ingresantes al curso de formación docente en educación profesional técnica de salud

 

 

Maria José Sanches MarinI; Silvia Franco da Rocha TonhomII; Adriana Paula Congro MicheloneIII; Elza de Fátima Ribeiro HigaIV; Mário do Carmo Martini BernardoV; Cláudia Mara de Melo TavaresVI

IEnfermeira. Pós-Doutora em Ciências da Saúde pela Universidade Estadual Paulista. Docente da Disciplina de Saúde Coletiva do Curso de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Marília. Marília, SP, Brasil. marnadia@terra.com.br
IIEnfermeira. Doutora Doutora em Educação pla Universidade Estadual de Campinas. Docente da Disciplina de Enfermagem em Saúde Coletiva da Faculdade de Medicina de Marília.Tutora do CFDEPTAS/EAD-FIOCRUZ. Marília, SP, Brasil. siltonhom@gmail.com
IIIEnfermeira. Mestre em Enfermagem pela Universidade de São Paulo. Docente da Disciplina de Enfermagem Clínica do Curso de Enfermagem da Faculdade de Medicina de Marília. Coordenadora do Núcleo de Apoio Docente do CFDEPTAS/EAD-FIOCRUZ. Maríli, SP, Brasil. adrianap@famema.br
IVEnfermeira. Doutora em Enfermagem Fundamental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto Docente da Disciplina de Educação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina de Marília – Famema. Doutora em Enfermagem Fundamental pela Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto. Tutora do CFDEPTAS/EAD-FIOCRUZ. Marília, SP, Brasil. ribhg@hotmail.com
VMédico. Mestre em Pediatria pela Universidade Estadual Paulista. Docente da Disciplina de Pediatria da Faculdade de Medina de Marília. Marília, SP, Brasil. mariocmb@famema.br
VI
Doutora em Enfermagem. Professora Titular da Escola de Enfermagem da Universidade Federal Fluminense. Orientadora de Aprendizagem do CFDEPTAS/EAD-FIOCRUZ. Niterói, RJ, Brasil. claudiamara@ead.fiocruz.br

Correspondência

 

 


RESUMO

O presente estudo propõe analisar as projeções e expectativas dos ingressantes em um curso de formação docente, que visa superar a fragmentação disciplinar e criar maior aproximação com o mundo do trabalho. Trata-se de estudo qualitativo realizado a partir de entrevistas com 33 ingressantes do curso. Para a análise dos dados, pautou-se na técnica de análise de conteúdo, modalidade temática. Os resultados do estudo permitiram elencar as seguintes categorias temáticas: possibilidade de ensinar-aprender; necessidade de capacitação pedagógica e de constante busca de aprendizagem; possibilidade de mudança da realidade. Conclui-se que os ingressantes vislumbram a transformação da realidade social na qual estão inseridos, considerando a necessidade de aquisição de novas habilidades e competências profissionais, com intuito de exercer eficazmente o trabalho e ocupar um espaço competitivo no mercado.

Descritores: Educação em enfermagem. Capacitação profissional. Formação de recursos humanos.


RESUMEN

El estudio propone analizar las proyecciones y expectativas de los ingresantes a un curso de formación docente que apunta a superar la fragmentación disciplinaria y a conseguir una aproximación mayor con el mundo laboral. Estudio cualitativo realizado mediante entrevistas con 33 ingresantes al curso. Datos analizados según técnica de análisis de contenido, modalidad temática. Los resultados del estudio permitieron enumerar las siguientes categorías temáticas: posibilidad de enseñar-aprender; necesidad de capacitación pedagógica y de constante búsqueda de aprendizaje, y la posibilidad de cambiar la realidad. Se concluye en que los ingresantes vislumbran la transformación de la realidad social en la cual están insertos, considerando la necesidad de adquisición de nuevas habilidades y competencias profesionales, con vistas a ejercer eficazmente su trabajo y ocupar un espacio competitivo en el ámbito laboral.

Descriptores: Educación en enfermería. Capacitación profesional. Formación de recursos humanos.


 

 

INTRODUÇÃO

Desde a década de 80, a Constituição brasileira propõe o Sistema Único de Saúde (SUS) e, com ele, a organização do modelo de atenção que implica profundas mudanças. O SUS busca implementar um modelo da vigilância à saúde, que admite diferentes espaços sociais de estruturação e incorpora o conceito de promoção da saúde e a noção de integralidade, buscando a superação das práticas sanitárias fragmentadas(1). Salienta-se, nesta proposta, a necessidade de transformação das relações de trabalho da equipe e de incorporação da comunidade ao conjunto de profissionais da saúde, entendendo que a população organizada amplia a visão sobre as determinações sociais do processo saúde/doença(2).

Nesse contexto, tem-se apontado para a necessidade de instrumentalizar os profissionais da saúde nos aspectos técnicos, éticos e políticos para a transformação de processos de trabalho arraigados em princípios fragmentados do cuidado, o que representa um grande desafio para as políticas públicas direcionadas ao SUS.

Assim, novas formas de ensino/aprendizagem são propostas, buscando alcançar, acima de tudo, a formação de um profissional crítico, cidadão, preparado para aprender, criar, propor e construir um novo modelo de atenção à saúde(3).

As proposições de mudanças na formação e qualificação dos profissionais de saúde encontram dificuldades para se desenvolverem como modelos inovadores, uma vez que, no atual contexto, o processo de formação sofre fortemente a influência da tendência tradicional de ensino, a qual está centrada no professor, como detentor do conhecimento, e nos conteúdos, sem considerar a realidade social e a formação de sujeitos críticos.

A este problema acrescenta-se, ainda, que na área da saúde o pensamento tecnicista é hegemônico. Concepção em que se valoriza a tecnologia, as atividades são mecânicas e totalmente programadas e o professor é um mero especialista na aplicação de manuais. Tal vertente vem ao encontro do modelo de cuidado fragmentado, biologicista e superespecializado, tornando a formação profissional ainda mais desarticulada do contexto social e político das pessoas(4).

A dicotomia entre educação e trabalho encontra reforço no processo de industrialização, que pôs em questão a separação entre instrução e trabalho produtivo, dando origem à

divisão dos homens em dois grandes campos: aqueles das profissões manuais, para as quais se requeria uma formação prática limitada à execução de tarefas; e aquele das profissões intelectuais, para as quais se requeria domínio teórico amplo a fim de preparar as elites...(5).

O que se pretende, no entanto, é que os trabalhadores disponham de organizações culturais por meio das quais possam participar, em igualdade de condições, das discussões dos problemas que afetam a sociedade. Trata-se, portanto, de evitar que a classe trabalhadora caia na passividade intelectual e, ao mesmo tempo, que os universitários caiam no academicismo(5).

No contexto da crítica à escola tradicional, formularam-se as idéias da Escola Nova, a qual tem, como princípio norteador, a valorização do indivíduo como ser livre, ativo e social. O centro da atividade escolar não deve ser o professor, nem os conteúdos disciplinares, mas sim o aluno, como ser ativo e curioso. Tal vertente, devido a suas idéias avançadas e consistentes, continua hoje, orientando as reformas no sistema escolar(6).

Nas décadas de 70 e 80 com a proposta da atividade escolar pautada na realidade social imediata, na qual se analisam os problemas e seus fatores determinantes e estrutura-se uma atuação com intenção de transformar a realidade social e política. Essa corrente pedagógica tem com referencial teórico-metodológico o Materialismo Histórico Dialético, formulado por Karl Marx e Friedrich Engel(7).

A teoria crítica defende as idéias de que a escola é o local de lidar com as contradições sociais e problematizar a realidade; de que a decisão do que saber e do que fazer está na dependência das necessidades sociais vividas; além de superar a dicotomia trabalho intelectual e trabalho manual com a proposta de formar o homem pelo e para o trabalho(8).

Referindo-se à educação para o trabalho, identifica-se dois aprendizados que se devem esperar dos educandos: saber lutar e saber construir, pautando-se nas relações da escola com a realidade atual e na auto-organização dos estudantes. Os educandos precisam de firmeza ideológica e política, com muita autonomia e criatividade para ajudar a recriar as práticas e as organizações sociais(9).

Neste contexto, a relação trabalho e ciência é intrínseca, não se separa, ou seja, a prática deve se basear em leis teóricas. Portanto, é práxis, é ação-reflexão-ação, a partir dos conhecimentos científicos e com o fim de transformar a realidade(8). Compreende-se, assim, que a base da Pedagogia social da Escola do trabalho é a realidade atual, num plano social, que determina a seleção dos temas, tendo como referência o método dialético, na qual interdisciplinaridade, transversalidade e transdisciplinaridade se integram para dar sentido e significado social e histórico aos conhecimentos e à realidade(10-11).

Verifica-se, então, que os princípios da educação crítica e da educação para o trabalho, os quais se pautam no materialismo histórico dialético, constituem uma importante referência do projeto pedagógico do Curso de Formação Docente em Educação Profissional Técnica na Área da Saúde, desenvolvido sob a coordenação nacional da Fundação Osvaldo Cruz (FIOCRUZ), influenciam diretamente a construção dos ideais educacionais.

É importante considerar que a formação do técnico de enfermagem vem sofrendo transformações impulsionadas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para a educação profissional, por meio da concepção orientada por competência que busca o desenvolvimento de habilidades inerentes ao mundo do trabalho(12).

A exigência de buscar estratégias que possibilitem a formação de um profissional congruente com as propostas do SUS, de forma rápida e com possibilidade de abarcar um grande número de pessoas, valoriza a modalidade de educação a distância (EAD) como uma potência e, cada vez mais, ela tem ganhado espaço na sociedade brasileira. Propõe-se, portanto, a seguir um percurso inovador e desafiador, na medida em que busca articular o mundo do trabalho com a educação, sabendo que a maioria dos profissionais apresenta formação técnica na área de atuação, sem fundamentação dos princípios pedagógicos e, muitas vezes, sem a consciência crítica do seu potencial enquanto sujeito inserido no mundo do trabalho.

O Curso de Formação Docente em Educação Profissional Técnica na Área da Saúde é desenvolvido no Estado de São Paulo, por meio do estabelecimento de parcerias com cinco Instituições de Ensino Superior (IES) públicas, as quais disponibilizam espaço físico para as atividades presenciais, bem como os recursos de informática e de biblioteca, constituindo nos Núcleos de Apoio ao Docente (NIAD). Destes núcleos, um encontra-se sediado na Faculdade de Medicina de Marília (Famema), o qual atende à macro região da Diretoria Regional de Saúde (DRS) IX e XI. Os trabalhos tiveram início com a seleção e capacitação dos tutores, tanto no que refere-se ao conteúdo proposto como às ferramentas de EAD.

Durante o processo de capacitação tutorial muito se discutiu e se questionou sobre quem seriam os especializandos ingressantes do curso? Quais as suas experiências prévias? Que idéias de processo pedagógico eles teriam? Qual o significado do trabalho docente na vida deles? Quais suas expectativas? Quais suas projeções para atuar na formação profissional em nível médio? Frente a isso, os tutores, como mediadores do processo de ensino, também questionavam se teriam condições de manter a motivação e interesse dos especializandos pelo curso.

Embora existissem muitas dúvidas, a certeza era de que todos estariam inseridos no processo de formação de profissionais para a área da saúde e a crença de que, ao resgatar as suas vivências e problematizar a realidade, fundamentados por um referencial que analisa criticamente a historicidade da organização do processo de trabalho, do processo educacional e do sistema de saúde, seria possível o enfrentamento das adversidades.

Frente a uma proposta que vislumbra mudanças na forma de ensinar e na sua estrutura conceitual, uma vez que se propõe uma formação mais crítica e menos técnica, este estudo tem como objetivo analisar as expectativas dos estudantes/docentes ingressantes no Curso de Formação Docente em Educação Profissional Técnica na Área da Saúde e suas projeções para o desenvolvimento do trabalho docente.

 

MÉTODO

Trata-se de um estudo qualitativo que visa analisar as projeções e expectativas dos ingressantes do Curso de Formação Docente em Educação Profissional Técnica na Àrea da Saúde, em nível de especialização, na modalidade a distância com momentos presenciais, promovido pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/ FIOCRUZ) em articulação com Instituições de Ensino Superior (IES) do Estado de São Paulo, com a finalidade de qualificar trabalhadores para o SUS(13).

A ENSP/FIOCRUZ, por meio da Escola de Governo em Saúde, vem configurando, nos últimos anos, um modelo de formação de profissionais para o SUS em conformidade com as demandas imprescindíveis para tal construção. Nessa perspectiva, o Curso propõe-se complementar o itinerário educativo dos profissionais graduados nas diversas subáreas da saúde, situando-se no conjunto de iniciativas que materializam a relação intersetorial e interdisciplinar entre saúde e educação, indispensável tanto à promoção da qualidade de vida quanto ao cuidado prestado pelo Sistema Único de Saúde(14).

As IES selecionadas constituem pólos que abrigam os Núcleos Interdisciplinares de Apoio Docente – NIAD, os quais configuram uma instância de realização do Curso no interior do Estado, com coordenação local e base de apoio docente, acadêmico e administrativo.

A Famema sedia um NIAD que atende à região das DRS IX e XI e conta atualmente com sete escolas credenciadas de formação de técnicos de enfermagem, com um total de 40 profissionais ingressantes para a primeira turma do curso.

Assim, os sujeitos da pesquisa são os alunos-docentes, que fizeram parte da primeira turma do Curso de Formação Docente em Educação Profissional Técnica na Área da Saúde, em nível de especialização, do NIAD locado na Famema. Dos 40 alunos do curso obteve-se a devolutiva de 33 deles. Para garantir o sigilo, as entrevistas receberam código alfa numéricos, sendo a letra F para feminino e M para masculino, seguido pelo número referente à idade dos participantes.

Para a coleta de dados foi elaborado um questionário semi-estruturado com dados de identificação como sexo, idade e renda familiar; informações sobre a formação profissional e as condições de trabalho. As questões abertas referenciam-se aos motivos que levaram o especializando a atuar na área do ensino, os aspectos positivos, e as dificuldades na atividade docente e as expectativas frente ao curso que seria desenvolvido.

Após efetivadas as inscrições dos especializandos no Curso e disponibilizados os dados da ficha cadastral dos ingressantes ao NIAD de Marília, foi enviado, via email, o instrumento de coleta de dados, juntamente com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido e solicitado a colaboração deles para participar do estudo. Este envio ocorreu na semana que antecedeu o primeiro contato dos especializandos com a proposta do curso. Foi solicitada a devolução dos instrumentos devidamente preenchidos ao coordenador da pesquisa, na data do primeiro encontro presencial.

A análise dos dados foi realizada pela técnica de análise de conteúdo, modalidade temática(15). Inicialmente realizamos a leitura compreensiva do material transcrito de forma exaustiva, buscando ter uma visão do conjunto, apreender os núcleos ou eixos que estruturassem os depoimentos nos quais se agruparam características comuns. Após essa etapa, identificamos as temáticas em torno das quais os dados foram discutidos.

Ressalte-se que, em cumprimento da Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde, a pesquisa foi desenvolvida após a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Marília, que recebeu o nº394/10. Com base nessa resolução, todos os sujeitos da pesquisa só seriam envolvidos caso concordassem com o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que deveria ser lido pelo (a) pesquisador (a) e compreendido, aceito e assinado, garantindo aos informantes o sigilo e anonimato das respostas.

 

RESULTADOS

Na Tabela 1 encontram-se dispostos os dados sócio-demográficos, de formação profissional e condições de trabalho dos ingressantes do Curso de Especialização em Formação Docente em Educação Profissional Técnica na Área da Saúde. Quanto ao sexo, observa-se que 30 (90%) são do sexo feminino. A faixa etária variou de 24 a 60 anos e a renda familiar da maioria deles era de até cinco salários mínimos. Quanto aos dados de formação profissional disposto na Tabela 1, constata-se que no grupo de ingressantes quase a totalidade é de enfermeiros, contando apenas com um dentista. Identifica-se que 27,3% dos entrevistados não têm curso de especialização, com um percentual de 30,9 % com menos de um ano desenvolvendo atividades na área de ensino. Em relação ao tempo destinado ao ensino tem-se 33,3% com uma carga horária que varia de 11 a 20h semanais, com a maioria (75,8%) desenvolvendo atividades além de ensino e, ainda, 45,5% deles com contrato de trabalho temporário.

 

 

Na abordagem dos ingressantes sobre as expectativas e projeções frente à realização do curso, identificam-se três categorias temáticas: a possibilidade de ensinar e aprender; a necessidade de capacitação pedagógica e de constante busca de aprendizagem e a possibilidade de mudanças na realidade.

A possibilidade de ensinar e aprender

Frente à possibilidade de ensinar e aprender encontra-se, descrita na fala dos ingressantes, a ideia de troca e compartilhamento entre os sujeitos do processo de ensino e aprendizagem.

O poder de trocas entre o grupo, as experiências. O educador não é apenas um disseminador da informação, do conhecimento, mas também um receptor de informações (F, 27 anos).

Considero extremamente positiva a relação educador/ educando, com trocas de vivências, culturas, possibilidades de ampliar os conhecimentos e ação de uma forma extremamente sinérgica (F, 54 anos).

Destaca-se, assim, que, ao ingressarem no curso, já descartam em algum sentido, o papel tradicional do professor a quem caberia a transmissão do conhecimento, uma vez que a complexidade e o crescente conhecimento colocam o professor em uma postura mais flexível e num movimento dialógico.

A necessidade de capacitação pedagógica e de constante busca de aprendizagem

Os participantes do estudo reconhecem as suas fragilidades no campo da docência e projetam as contribuições do curso para sua formação.

A exigência do Conselho associada à necessidade sentida de formação específica para a função docente também foi o que levou os ingressantes a se interessarem pelo curso, conforme se observa nas falas abaixo.

Me preparar pedagogicamente para a educação profissional (F, 39 anos).

...o curso irá me proporcionar (...) possibilidades de revisão de conceitos e teorias, posturas e estratégias, na construção/descontrução na sala de aula (F, 54 anos).

...exigência do Conselho Regional de Enfermagem e da demanda de escolas de cursos técnicos que está crescendo na área da enfermagem e a oportunidade de dar aula... (M, 24 anos).

Aumentar as habilidades nas relações interpessoais e intergrupais, aprimorar o planejamento... (M, 25 anos).

Na descrição dos especializandos encontra-se também a preocupação com a aprendizagem constante e aperfeiçoamento profissional, o que para eles representa motivo de superação de barreiras na área docente e atualização profissional. Tal preocupação tanto evidencia o compromisso deles com a profissão, como uma forma de manter a inserção na atividade docente e, assim, poder lidar com a má remuneração imposta aos profissionais da saúde.

...para me aperfeiçoar, me qualificar, porque sempre devemos estar em busca de novos conhecimentos, principalmente porque na nossa área sempre tem descobertas (F, 26 anos).

admiração pelo ensino, aprimoramento e superação das minhas barreiras, pois tenho muita vontade de saber como ensinar (F, 25 anos).

Me interessei primeiramente em aumentar a renda... (F, 31 anos).

Iniciou a cobrança obrigatória do curso para lecionar e acabei perdendo aulas. Sem as aulas não pude pagar já que minha renda diminuiu. Assim que surgiu esta oportunidade, decidi fazer o curso e retornar às aulas (F, 31 anos).

A possibilidade de mudança da realidade

Na perspectiva dos especializandos, também foi apontado que, ao realizar o curso, teriam a possibilidade de mudanças da realidade do cuidado em saúde de forma integral, com vistas a serem atingidos os princípios e diretrizes do SUS.

Acredito que o curso irá me proporcionar inúmeras possibilidades de reflexões filosóficas, pedagógicas, lúdicas, com possibilidades infinitas de revisão de conceitos e teorias, posturas e estratégias na construção e reconstrução do saber (F, 54 anos).

... sempre quis ensinar além da matéria que a escola oferecia para eles, queria que eles percebessem o quanto tudo aquilo (com uma visão mais ampla) seria importante na vida deles, uma vida de valores e ética dentro de uma sociedade (F, 45 anos).

...o conhecimento na área do SUS vai nos pôr à frente para capacitar os trabalhadores do SUS (F, 35 anos).

O posicionamento dos ingressantes aproxima-se do sentido da educação para o trabalho quando considera que os conhecimentos científicos têm como fim único transformar a realidade. As falas relacionadas, ao salientarem o trabalho docente frente ao trabalhador do SUS, revelam a compreensão da necessidade de aquisição de habilidades distintas das bases tradicionais que direcionaram o modelo de ensino em que a maioria dos profissionais foi formada.

 

DISCUSSÃO

O predomínio feminino encontrado no presente estudo, reflete uma condição sócio-histórica persistente na enfermagem, que relaciona a profissão à sua origem pautada na ordem sacra, na influência européia do século XIX e na figura da mulher ligada ao cuidado doméstico às crianças e aos idosos(16).

A maioria dos entrevistados tem alguma pós-graduação em nível lato senso, no entanto, destaca-se o investimento na formação técnica e acúmulo de experiências na atuação como enfermeira (o), em detrimento da formação docente para atuar junto aos alunos trabalhadores.

O tempo de experiência acadêmica dos respondentes também variou de 10 anos a menos de um, sendo que aproximadamente um terço deles tem menos de um ano de atuação na área. Este dado, quando associado à idade dos respondentes, leva a depreender que estão inseridos no processo pedagógico profissionais com pouco tempo de formado e, consequentemente, com pouca experiência, tanto no aspecto técnico da profissão como na área acadêmica.

Chama a atenção, ainda, o grande número de respondentes que, além da atividade acadêmica, exercem outras atividades, seja na atenção básica ou na área hospitalar. Em consequência disso, dedicam ao ensino um pequeno período e seu contrato de trabalho nas instituições de ensino é temporário. Sobre este aspecto pode se considerar que, embora o contato com diferentes contextos da prática profissional possibilite maior legitimidade com o fazer da profissão, é possível que o tempo limitado dedicado ao ensino impeça um maior envolvimento com o projeto pedagógico do curso, tornando a sua construção fragmentada e deslocada do seu contexto geral.

Esse dado assemelha-se ao que foi encontrado no estudo que analisou as condições de trabalho do professor de enfermagem em fase iniciante, uma vez que mais da metade dos participantes ministravam até 10 aulas semanais, o que se constituía em uma forma de complementação salarial e o exercício da atividade era realizado nos períodos vagos, implicando professores cansados e sem tempo para preparar suas atividades docentes. Além disso, salienta-se que eles não tenham tido na sua formação o preparo adequado para o desenvolvimento satisfatório da docência(17).

Destaca-se, assim, que, ao ingressarem no curso, já vislumbram que cabe ao professor uma postura mais flexível e um movimento de ensino e aprendizagem dialógico. Depreendem-se, desta forma, avanços na compreensão de que na atualidade é preciso ultrapassar a concepção de ensino tradicional, na qual cabe ao professor e transmissão de conhecimentos, muitas vezes descontextualizados.

O preceito dialógico encontra-se implícito na pedagogia histórico-crítica, na qual a educação é entendida como o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Compreende-se, portanto, que a prática social é posta como ponto de partida e ponto de chegada, enquanto a educação é a forma de mediação. O professor e aluno, cada qual com seu papel, encontram-se comprometidos com o encaminhamento da solução dos problemas encontrados na prática social(5).

Embora essa perspectiva já perpasse pelo desejo dos ingressantes do curso, para que seja possível uma atuação coerente, acredita-se na necessidade da compreensão dos fundamentos teóricos que permeiam o papel do professor nas diferentes correntes pedagógicas de forma a instrumentalizá-lo para a qualificação desejada e necessária frente às atuais demandas sociais.

Imbuídos do desejo de fazer diferença nas ações docente, por meio de intervenções que consideram os saberes dos sujeitos integrantes do processo, tendo no diálogo a possibilidade de confronto com realidades distintas, vislumbram-se mudanças nos processos de ensino e sua articulação com a transformação da realidade do cuidado em saúde.

Reforça-se, no entanto, a partir da fala dos sujeitos, que para a concretização do desejo é preciso percorrer uma trajetória que contemple intenso processo reflexivo sobre as práticas de ensino e de saúde que temos e aquela que queremos respaldados por princípios e diretrizes que direcionam para o atendimento das necessidades da sociedade.

A falta de capacitação para o exercício da atividade docente no campo da formação profissional em saúde constitui significativo entrave no avanço das necessárias mudanças no processo de ensino e aprendizagem. Pela falta de formação, os docentes acabam repetindo velhos modelos, o que não condiz com a atual necessidade social, a qual se encontra em franco processo de globalização e de consolidação da democracia(18).

Visando à formação pedagógica dos docentes que atuam no ensino, o Conselho Regional de Enfermagem do Estado de São Paulo, por meio da portaria COREN-SP/ DIR/26/2007, deixa explícita a obrigatoriedade de a enfermagem comprovar capacitação pedagógica para atuar na formação profissional(19).

Salienta-se, assim, que eles vislumbram um processo de formação que supere a visão tradicional, pois apontam para a necessidade de novos conceitos, posturas e estratégias que os auxiliem na construção/desconstrução da prática pedagógica. Pontuam também a necessidade de habilidades interpessoais e intergrupais, dando a idéia de uma construção participativa e coletiva do conhecimento.

Ao constatar nas falas a valorização das relações, depreende-se mais uma vez o desejo de avanços no desenvolvimento profissional, pois a crescente produção de conhecimento e o processo de globalização têm ocasionado transformações na dinâmica das relações humanas, exigindo maior proximidade, troca e articulação das informações. Para contemplar todas essas condições, há necessidade de transformação no modo de agir, de interagir e de ver o outro sujeito, numa verdadeira ação de reviravolta nas relações profissionais da equipe de saúde.

O enfrentamento dessa nova forma de agir e interagir na equipe de saúde deve ser iniciado por mudanças no processo de formação dos profissionais, a qual deve se organizar de forma a instrumentalizá-los nos aspectos técnicos, éticos e políticos por meio de caminhos inovadores, pressupondo que na atualidade não basta a transmissão do conhecimento. Reforça-se, em vista disso, a necessidade da formação de um profissional crítico, cidadão, preparado para aprender, criar, propor e construir um novo modelo de intervenção sobre a realidade(3).

Compreende-se, assim, que a necessidade de constante busca de conhecimento e aprimoramento profissional está relacionada com a necessidade de preparo para a competitividade existente no mercado de trabalho, uma vez que desenvolver habilidades e competências profissionais aumenta a empregabilidade diante de um mercado cada vez mais competitivo e exigente de capacidades complexas(20).

Uma das falas também indica a necessidade de conhecimento na área do SUS, relatando, desta forma, que o entendimento dos princípios e diretrizes propostos para o enfrentamento das demandas do atual modelo de atenção são importantes nessa construção.

Frente a tais falas, pode-se compreender que as projeções dos ingressantes condizem com a proposta do curso, já que no seu desenvolvimento foram propostos três eixos considerados relevantes num processo de aprendizagem com vistas à transformação da prática profissional em saúde. A organização de tais eixos compreende trabalho, saúde e educação; o SUS e os processos de trabalho em saúde e a organização pedagógica do trabalho docente em saúde e visa superar, acima de tudo, o distanciamento teoria/prática e ensino/serviço comum no cotidiano das escolas.

No entanto, para caminhar nessa direcionalidade, é importante atentar para os apontamentos que, ao analisar a educação pelo trabalho, antecipa duas formas possíveis de distorções nessa articulação, conforme destaca:

Na primeira, o trabalho é transformado em objeto de ensino, uma vez que o objetivo da escola é preparar os alunos para um determinado tipo de trabalho e, por isso, não atende às necessidades da sociedade moderna. Na segunda, o trabalho é um método ou meio de ensino para ensejar aos alunos o estudo de outras disciplinas visto que ele não se constitui como objeto de ensino(21).

Como se percebe, essas abordagens da educação pelo trabalho servem apenas como meio de repetir e copiar lições já sabidas(21), revelando-se como alienantes e incapazes de promover a necessária transformação exigida no mundo atual. Nesse contexto, o trabalho deve constituir a matéria prima, ou seja, o ponto de partida e, a partir de uma reflexão crítica sobre a realidade, chega-se novamente ao ponto de partida com novas formulações e propostas inovadoras e transformadoras.

Concebe-se, assim, uma proposta pedagógica que se distingue da prática tradicional de ensino, a qual centra sua ação na formação intelectual e na transmissão do conhecimento, com consequente assimilação de conteúdos pelo aluno(5).

A necessidade e novos perfis de formação e qualificação profissional decorrentes das transformações no mundo produtivo, ou seja, no mundo do trabalho, exigem capacidade de solucionar problemas, liderar, tomar decisões e adaptar-se a novas situações. Revela-se que a educação se propõe a preparar para o exercício da cidadania social e para a competitividade(18).

 

CONCLUSÃO

Ao analisar as projeções e expectativas dos ingressantes do Curso de Formação Docente foram explicitados valores, projetos e significados que revelam o verdadeiro sentido dos investimentos nessa formação: a de preparar os profissionais para atuar em conformidade com os princípios e diretrizes do SUS, com vista a se implementar um novo modelo de atenção à saúde.

No entanto, é preciso atentar para as condições de trabalho dessas pessoas e principalmente para as condições em que irão realizar o curso, uma vez que, embora estejam desejosos e conscientes da sua importância para a realização profissional e manutenção no mercado de trabalho, realizar o curso será mais uma tarefa a ser assumida por eles, no complexo contexto de múltiplas jornadas de trabalho.

Os dados sócio-demográficos e as condições de trabalho dos ingressantes evidenciam a dupla jornada de trabalho e os baixos salários, além da própria condição de docente que exige, acima de tudo, um preparo cotidiano que extrapola a carga horária contratada.

As falas dos sujeitos revelam que eles percorrem caminhos e vislumbram a transformação do processo de trabalho, considerando a necessidade de novas habilidades e competências para exercer eficazmente o seu trabalho e ocupar um espaço no competitivo mundo do trabalho.

Ao projetar a formação de profissionais em consonância com os preceitos da atualidade, pode-se depreender que os respondentes assentam-se no desenvolvimento da cidadania, de princípios éticos e humanísticos, além dos meios para uma aprendizagem permanente.

Num momento em que se faz urgente a discussão política que vislumbre a formação técnica na área da saúde, acredita-se que as expectativas e projeções dos especializandos entrevistados possam constituir pistas para a adequação de propostas que venham ao encontro de suas necessidades. No entanto, pressupõe-se a necessidade de novos estudos, especialmente com os egressos do Curso de Formação Docente, com a finalidade de se compreenderem os seus resultados.

 

REFERÊNCIAS

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Correspondência:
Maria José Sanches Marin
Av. Brigadeiro Eduardo Gomes, 1886
CEP 17514-000 – Marília, SP, Brasil

Recebido: 04/07/2012
Aprovado: 05/09/2012

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