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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.48 no.1 São Paulo Feb. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420140000100001 

Editorial

Para não perder o trem da história!

Joaquim Molina1 


É com bastante satisfação que escrevo este Editorial da Revista da Escola de Enfermagem da USP, notadamente uma importante e estratégica via de comunicação da área da saúde. Inserido em uma perspectiva de disseminação e compartilhamento de conhecimentos, experiências e informações, este veículo é favorecedor de uma cultura de integração, participação e de inter-relação entre profissionais e saberes cognitivos, técnicos, éticos e sociais da área da saúde. Sem dúvida, esta inter-relação, além de aumentar o fluxo e a troca de conhecimentos e informações, promove valor agregado para a qualificação dos profissionais da área.

É nessa perspectiva que escrevo, uma vez que a temática que me foi solicitada é exatamente a gestão do conhecimento, tema atual e indissociável da gestão democrática nas sociedades modernas, considerando que a comunicação e a informação, intrínsecas à gestão do conhecimento, atualmente são consideradas como força produtiva direta(1).

Gestão do conhecimento – breve conceituação

A gestão do conhecimento é um método integrado de criar, compartilhar e aplicar conhecimentos para aumentar a eficiência, melhorar a qualidade e a efetividade social e contribuir para o alcance dos objetivos de uma instituição ou organização(2). Engloba a gestão de informações, documentos e dados, bem como a tecnologia da informação. Compreende também a articulação dinâmica entre pessoas, conteúdos e comunicação, por meio de decisões, funções, fluxos, regras, normas e procedimentos, manuais e informatizados, a fim de organizar a expertise da instituição. Busca a realização de um ciclo de produção de bens e serviços, de forma desconcentrada e compartilhada, com distribuição de responsabilidades entre os sujeitos nele envolvidos.

É fundamental salientar que a gestão do conhecimento está diretamente vinculada aos objetivos estratégicos de uma organização, sendo muito mais abrangente que a gestão de informações. Por isso, é importante compreender que um projeto de gestão do conhecimento não equivale a um projeto de informática, não é passível de terceirização e deve estar situado transversalmente em todos os setores das organizações.

Assim, a gestão do conhecimento é necessariamente um processo dinâmico, requer a adoção de uma metodologia interdisciplinar, que vincule uma série de atividades, que seja capaz de provocar convergência entre os setores de uma organização e que considere as interfaces nos campo de tecnologia, comunicação, educação e difusão cultural(3).

Neste sentido, é um importante recurso estratégico para a vida das pessoas e das instituições e um dos grandes desafios contemporâneos!

Contextualização do tema

O surgimento da sociedade da informação, do conhecimento e da economia da informação fez emergir uma nova sociedade, onde a inter-relação entre conhecimento e tecnologias da informação possibilitou o aumento do fluxo e da troca de informação, agregando valor às relações interpessoais e à qualificação dos trabalhadores(4). Merecem destaque os efeitos advindos da transição de uma sociedade industrial para uma sociedade do conhecimento: o aumento da velocidade e do volume da informação oportunizado pelo desenvolvimento tecnológico transforma o cotidiano da vida, trazendo novos códigos e comportamentos que, por sua vez, induzem nas pessoas e nas organizações, mudanças de valores, hábitos e costumes em relação, por exemplo, a padrões de consumo, relacionamentos, interações, cooperação e competição(4).

É igualmente importante destacar a interdependência entre conhecimento, informação e comunicação. Há estudos que apontam a comunicação como um elemento-chave da gestão do conhecimento: uma comunicação efetiva é essencial para qualquer programa de gestão do conhecimento, uma vez que é responsável pelas interações, trocas e compartilhamentos(4).

A informação pode ser veiculada por diversas mídias, incluindo a linguagem falada e o audiovisual, e é uma ferramenta bastante utilizada como instrumento de gestão. Dessa forma, cada vez mais os setores governamentais e não governamentais estão assumindo as tecnologias da informação e comunicação para cumprir os preceitos da responsabilidade e da transparência organizacional.

Na administração pública brasileira, documentos do Ministério da Saúde (MS)(5) apontam que a gestão do conhecimento está sendo implementada com vistas à maximização da cidadania, do bem-estar social, da transparência, do cumprimento dos compromissos políticos, da democracia, da qualidade de vida das populações, bem como da eficácia na aplicação de recursos públicos.

Nesta perspectiva, a gestão do conhecimento, por ser transversal, está em consonância com as diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) porque favorece a visibilidade das informações, incrementando a participação e o controle social(5).

Alinhada aos princípios do SUS e aos objetivos estratégicos do Ministério da Saúde, a gestão do conhecimento é uma metodologia interdisciplinar que objetiva o atendimento dos interesses da população e do Ministério(5). Sua implantação exige reflexão e produção de metodologias próprias, voltadas para as especificidades do setor saúde. Deve ser encarada como política pública estratégica e de longo prazo, assumindo o cidadão como foco, colaborador e partícipe dessa ação, na direção da democracia participativa(6).

A gestão do conhecimento na perspectiva da OPAS/OMS

A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) é um organismo internacional de saúde pública com um século de experiência, dedicado a melhorar as condições de saúde dos países das Américas(7). Atua na perspectiva da melhoria de políticas e serviços públicos de saúde, mediante a transferência de tecnologia e a difusão do conhecimento e experiências produzidas nos países-membro, por meio de um trabalho de cooperação internacional. Esse esforço é direcionado a alcançar metas comuns, como iniciativas sanitárias multilaterais, traçadas pelos governos que fazem parte da OPAS/OMS(7).

Assim, sua missão é orientar esforços estratégicos de colaboração entre os Estados-membro e outros parceiros para promover a equidade na saúde, combater doenças, melhorar a qualidade e elevar a expectativa de vida dos povos das Américas.

A OPAS assumiu um modelo de gestão do conhecimento fundamentado no princípio de que a informação em saúde pública deve ser clara e acessível para a sociedade como um todo, incorporar vários processos, estratégias e ferramentas, organizar e difundir conhecimentos e informações sanitárias, apoiando os países da Região na superação de barreiras de espaço e de tempo e criando uma malha de suporte e inclusão que possibilite o fluxo do conhecimento e da informação e o intercâmbio de experiências e de cooperação técnica para o desenvolvimento humano sustentável(8).

Com essa intenção, nosso modelo sustenta-se em três pilares articulados com o princípio da saúde para todos: atenção primária, promoção da saúde e proteção social. A Diretora da OPAS, Dra. Carissa Etienne, pronunciando-se acerca das ferramentas e metodologias voltadas para melhorar a saúde pública na região das Américas, sintetizou: "exploremos juntos novas alianças que nos permitam utilizar estas tecnologias em evolução, como as redes sociais e a e-Saúde, para envolver a todos os nossos parceiros diretos e a própria Organização".

A gestão do conhecimento no contexto da cooperação técnica com o Ministério da Saúde, no Brasil – o exemplo do Programa Mais Médicos

O Programa Mais Médicos, anunciado pelos Ministros da Educação e da Saúde em julho de 2013, objetiva suprir a carência desses profissionais no SUS(9). Integra um amplo pacto de melhoria do atendimento aos usuários do Sistema e prevê investimentos na infraestrutura dos hospitais e das unidades de saúde, além de levar mais médicos para regiões onde há escassez e ausência desses profissionais.

Como parte das estratégias para sua implementação, foi firmado entre o Governo Brasileiro, por meio do Ministério da Saúde, e a Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde, um Termo de Cooperação Técnica para o desenvolvimento de ações vinculadas ao Programa de Cooperação Técnica da OPAS para a participação de médicos cubanos no Projeto Mais Médicos para o Brasil. No marco desta Cooperação (especificamente no âmbito do Terceiro Termo de Ajuste) há a proposição de uma atividade relacionada à implementação de estratégias e ferramentas de gestão do conhecimento, cuja operacionalização requer uma estruturação articulada, que favoreça o desenvolvimento de diferentes processos aplicados à gestão do conhecimento.

O Plano de Trabalho desse Projeto está sendo elaborado conjuntamente pela OPAS/OMS, OPAS/BRA e Ministério da Saúde, com vistas contribuir para o desenvolvimento do Programa, com foco na gestão e no intercâmbio de conhecimentos, informações e experiências, apoiando a operacionalização de infraestruturas e capacidades de acesso e disponibilização da informação. Como perspectivas em curto prazo, delineiam-se: mapear o fluxo e as características das informações que estão sendo disponibilizadas aos profissionais contratados pelo Programa; referenciar e integrar processos de gestão do conhecimento que já estão sendo desenvolvidas pela OPAS/OMS e pelo MS; desenvolver ferramentas de gestão do conhecimento integradas e complementares ao que já está pautado pelo Programa; promover capacitações voltadas para o acesso e o uso dos recursos de informação na ABS; fortalecer as redes de informação e conhecimento existentes; apoiar a cooperação técnica internacional com vistas ao intercâmbio de experiências em gestão do conhecimento e da informação; fomentar o relato e o registro das experiências relacionadas ao desenvolvimento do Programa.

Finalizando...

Desde sua criação, em 1902, a OPAS desenvolve ações coerentes com os princípios e os valores da gestão do conhecimento, acumulando informações e conhecimentos, fomentando o compartilhamento de experiências entre os países, desenvolvendo e disseminado pesquisas e implementando a utilização de tecnologias de ponta para compartilhar informações e gerar conhecimento coletivo nas Américas.

Busca favorecer a criação de uma cultura de intercâmbio de informação e conhecimento, mediante a troca de experiências, a divulgação de práticas exitosas, a captura, o processamento e a entrega de informação qualificada aos vários atores da saúde: gestores, grupos profissionais, comunidades de prática, usuários.

No entanto, gerir conhecimento e informação é tarefa de todos. Afinal,

É de todos o desafio de não perder o trem da história!

REFERÊNCIAS

1.Castells M. A Era da informação: economia, sociedade e cultura. São Paulo: Paz e Terra; 1999. v. 3 [ Links ]

2.Batista FF. Modelo de gestão do conhecimento para a administração pública brasileira: como implementar a gestão do conhecimento para produzir resultados em benefício do cidadão [Internet]. Brasília: IPEA; 2012 [citado 2013 out. 19]. Disponível em: http://repositorio.ipea.gov.br/bitstream/11058/754/1/Modelo%20de%20Gest%C3%A3o%20do%20Conhecimento%20para%20a%20Administra%C3%A7%C3%A3o%20P%C3%BAblica%20Brasileira.%20Livro.pdf [ Links ]

3.Rollemberg MHG. Marcos institucional de gestão da informação e conhecimento no Ministério da Saúde. In: Moya J, Santos EP, Mendonça AVM,organizadores. Gestão do Conhecimento em Saúde no Brasil: avanços e perspectivas. Brasília: OPAS/OMS; 2009. p. 39-43 [ Links ]

4.Gonçalves CO, Ramos DSF, Santos MS. Gestão do conhecimento e comunicação organizacional: estudo da aplicação de um modelo de comunicação organizacional para disseminação do conhecimento [dissertação]. Rio de Janeiro: Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, Universidade Federal do Rio de Janeiro; 2009 [ Links ]

5.Brasil. Ministério da Saúde; Secretaria Executiva, Coordenação Geral de Documentação e Informação. Plano de Gestão do Conhecimento do Ministério da Saúde (versão preliminar). Brasília: MS; 2012 [ Links ]

6.Mendes TA. Gestão do conhecimento e da informação [Internet]. São Paulo: Assembleia Legislativa, Departamento de Comissões; 2009 [citado out. 19]. Disponível em: http://www.al.sp.gov.br/StaticFile/ilp/texto_aula_gestao_do_conhecimento.pdf [ Links ]

7.D’Agostino M. A informação e gestão do conhecimento na OPAS/OMS: avanços e propostas. In: Moya J, Santos EP, Mendonça AVM, organizadores. Gestão do conhecimento em Saúde no Brasil: avanços e perspectivas. Brasília: OPAS/OMS; 2009. p. 35-38 [ Links ]

8.Moya J. Avanços e desafios na informação e gestão do conhecimento na OPAS/OMS no Brasil. In: Moya J, Santos EP, Mendonça AVM, organizadores. Gestão do conhecimento em Saúde no Brasil: avanços e perspectivas. Brasília: OPAS/OMS; 2009. p. 46-9 [ Links ]

9.Brasil. Ministério da Saúde. Portal da Saúde. Programa Mais Médicos [Internet]. Brasília; 2013 [citado out. 19]. Disponível em: http://portalsaude.saude.gov.br/index.php/cidadao/acoes-e-programas/mais-medicos [ Links ]

Informações sobre o autor:

Dr. Joaquim Molina é cubano, graduou-se em Odontologia pelo Instituto Superior de Ciências Médicas de Havana, Cuba. Em 1988 recebeu o grau de Mestre como Especialista em Teoria e Administração em Saúde Pública pela Escola de Saúde Pública da mesma instituição. É especialista em Epidemiologia pela Universidade Semmelweis em Budapeste, Hungria. De 1989 a 1990 participou do Programa de Treinamento em Saúde Internacional da Organização Pan-Americana da Saúde. Atuou no Ministério da Saúde Pública de Cuba como oficial da Estomatologia Nacional. Posteriormente, atuou como Coordenador de Cooperação Técnica Internacional. Na Organização Pan-Americana da Saúde/Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) foi consultor do Programa de Serviços de Saúde em Washington e consultor da área de Desenvolvimento de Sistemas e Serviços de Saúde nas Representações da OPAS/OMS na Nicarágua e no México. Também atuou como Representante em exercício no México e como Representante na Guatemala no Panamá. Em março de 2012 foi nomeado Representante no Brasil.

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