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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234

Rev. esc. enferm. USP vol.48 no.1 São Paulo Feb. 2014

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420140000100003 

Artigo Original

Tradução e adaptação transcultural do Perceived Stigmatization Questionnaire para vítimas de queimaduras no Brasil*

Noélle de Oliveira Freitas1 

Marina Paes Caltran2 

Rosana Aparecida Spadoti Dantas3 

Lidia Aparecida Rossi4 


RESUMO

Este estudo metodológico teve como objetivos descrever o processo de tradução e adaptação cultural do instrumento Perceived Stigmatization Questionnaire (PSQ) e analisar a consistência interna dos itens na etapa do pré-teste. O PSQ foi desenvolvido para avaliação da percepção de comportamentos estigmatizantes de vítimas de queimaduras. O processo de adaptação foi realizado de agosto de 2012 a fevereiro de 2013, compreendendo as etapas preconizadas na literatura. Como parte desse processo, foi realizado o pré-teste com 30 adultos vítimas de queimaduras. Todos os participantes dessa etapa reportaram compreender os itens do instrumento e a escala de respostas. Não houve sugestões ou alterações na versão testada. O valor do alfa de Cronbach no pré-teste foi de 0,87. A contribuição do estudo reside em descrever a operacionalização de cada uma das etapas desse processo metodológico e mostrar a consistência interna dos itens no pré-teste.

Palavras-Chave: Queimaduras; Estereotipagem; Estudos de validação; Comparação transcultural; Tradução

ABSTRACT

This methodological study aimed to describe the process of translation and cultural adaptation of the Perceived stigmatization Questionnaire (PSQ) and analyze the internal consistency of the items in the step of pre-testing. The PSQ was developed to evaluate the perception of stigmatizing behaviors of burn victims. The adaptation process was carried out from August 2012 to February 2013, comprising the steps outlined in the literature. As part of this process, the pre-test with 30 adult burn victims was held. All participants at this step reported to understand the instrument items and the scale of responses. There were no suggestions or changes in the tested version. The value of Cronbach’s alpha at pre-test was 0.87. The contribution of this study is to describe the operation of each of the steps of this methodological process and show the internal consistency of the items in the pre-test.

Key words: Burns; Stereotyping; Validation studies; Cross-cultural comparison; Translating

RESUMEN

Este estudio tuvo como objetivos describir el proceso de traducción y adaptación cultural del instrumento Perceived Stigmatization Questionnaire (PSQ) y analizar la consistencia interna de los ítems en la etapa del pre-test. El PSQ fue desarrollado para la evaluación de la percepción de los comportamientos estigmatizantes de víctimas de quemaduras. El proceso de adaptación fue realizado de agosto del 2012 a febrero del 2013, incluyendo las etapas preconizadas en la literatura. Como parte de ese proceso, fue realizado el pre-test con 30 adultos víctimas de quemaduras. Todos los participantes de esa etapa informaron comprender los ítems del instrumento y la escala de respuesta. No hubo sugerencias o cambios en la versión probada. El valor del alfa de Cronbach en el pre-test fue de 0,87. La contribución del estudio está en la descripción de la operacionalización de cada una de las etapas de ese proceso metodológico y demuestra la consistencia interna de los ítems en el pre-test.

Palabras-clave: Quemaduras; Estereotipo; Estudios de validación; Comparación transcultural; Traducción

Introdução

A queimadura é um trauma que afeta a vida das pessoas e acarreta alterações na imagem corporal que podem causar danos psicológicos no indivíduo(1). O desfiguramento é um dos efeitos da mudança na aparência pelo trauma da queimadura, que pode ser considerada fora dos padrões sociais esperados e levar a rejeição e isolamento social, diminuição da autoestima, estigmatização, ansiedade e depressão(2-3).

A estigmatização é o processo ou a situação do indivíduo que impede sua aceitação social plena. Ao ser reconhecido pela sociedade como alguém que foge do padrão esperado, apresenta algum problema de saúde ou outra situação estigmatizante, muitas vezes o indivíduo é rotulado, evitado, ridicularizado e degradado pelas pessoas(4).

As pessoas queimadas relatam que há dois momentos críticos associados à percepção de alterações em seus corpos: quando observam a própria imagem no espelho e quando notam o olhar das pessoas. Após a alta hospitalar, indivíduos queimados com alterações na aparência e na função de partes do corpo passam a sofrer o choque decorrente do contato com as pessoas no convívio social(5). Assim, ressalta-se a importância de avaliar o indivíduo quando entra contato com o olhar da sociedade, fora do contexto de uma Unidade de Queimados.

Nos últimos anos, instrumentos de medidas têm sido desenvolvidos para avaliação de fatores psicossociais para vários tipos de condições clínicas e de reabilitação, inclusive para vítimas de queimaduras. Porém, a maioria desses instrumentos foi originalmente desenvolvida no idioma inglês e, portanto, necessita ser traduzida e adaptada culturamente para a utilização em outros países(6-7).

A adaptação transcultural compreende o processo de tradução e adaptação cultural do instrumento para a população na qual será aplicado e tem a finalidade de manter a equivalência semântica do original para a versão adaptada. Dessa forma, tenta-se garantir as propriedades psicométricas dos itens como a validade e a confiabilidade(7). A validade evidencia se o que está sendo medido é o que o pesquisador está pretendendo medir e a confiabilidade do instrumento avalia o grau de consistência com a qual o instrumento mede o atributo proposto(8-9). Porém, se algum item não for compreendido pela nova população, ele deve ser cuidadosamente modificado. Com isso, o instrumento poderá sofrer alterações e novos testes estatísticos deverão ser realizados após a última tradução(7).

A utilização de instrumentos vem favorecendo a comunicação entre os profissionais de saúde e os usuários do serviço, contribuindo para a rápida identificação de problemas e necessidades prioritárias, assim como para a tomada de decisões na procura da melhoria dos cuidados(10).

Na literatura nacional não foi identificado qualquer instrumento específico para avaliação da estigmatização em pacientes que sofreram queimaduras que tenha sido adaptado para o uso no Brasil. Na literatura internacional, foi identificado o Perceived Stigmatization Questionnaire (PSQ), desenvolvido no idioma inglês, para avaliar os comportamentos estigmatizantes comumente relatados por crianças, adolescentes e adultos que sofreram queimaduras nos Estados Unidos(11-12), e adaptado para o uso com crianças na Alemanha(13).

Caso seja válido para a população brasileira, poderá permitir a comparação de resultados de pesquisas entre diferentes países e de efeitos de intervenções em pacientes brasileiros vítimas de queimaduras com os de outros países. Poderá ser utilizado para avaliar os efeitos de sistemas de apoio e outras intervenções que visam minimizar o impacto com procedimentos estéticos como, por exemplo, a maquiagem cosmética. Assim, torna-se necessário realizar o processo de adaptação cultural do instrumento para o Brasil.

Os objetivos do estudo foram traduzir e adaptar culturalmente o Perceived Stigmatization Questionnaire (PSQ) para o português do Brasil para ser utilizado em vítimas de queimaduras e analisar a consistência interna dos itens na etapa de pré-teste.

Método

Estudo metodológico realizado na Unidade de Queimados de um hospital universitário localizado no interior de São Paulo.

Critérios de inclusão

Foram selecionados para a etapa do pré-teste os sujeitos que atendiam aos seguintes critérios de inclusão: idade superior a 18 anos, brasileiros, independente do sexo, da raça e etnia, que receberam alta hospitalar entre dois a 12 meses, tiveram agendamento ambulatorial na Unidade de Queimados e aguardavam cirurgias reparadoras após a alta hospitalar.

Foram excluídos os indivíduos com diagnósticos psiquiátricos prévios (registrados nos prontuários) ou dificuldades cognitivas que os impediam de responder as perguntas dos instrumentos (avaliadas pela capacidade de informar o endereço onde viviam, o dia da semana e do mês e a idade ou a data de nascimento), que estavam cumprindo pena em regime prisional fechado ou que se queimaram em tentativa de suicídio.

Aspectos éticos

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo sob o processo nº 243/2012. Todos os participantes das etapas do estudo, os sujeitos e os especialistas, receberam informações verbais e escritas sobre o estudo e concordaram em participar assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O anonimato dos sujeitos foi preservado por meio da identificação do questionário com número e do ambiente privativo para a entrevista.

Instrumentos

O PSQ foi desenvolvido nos Estados Unidos com o objetivo de avaliar comportamentos estigmatizantes de pessoas queimadas. O questionário foi fundamentado em comportamentos reportados por pessoas com alterações na aparência, considerando-se que determinados tipos de emoções suscitam comportamentos específicos que podem ser ofensivos ou não, ou seja, a manifestação comportamental de estigma pode diferir em função do tipo de emoção provocada(14). Os comportamentos estigmatizantes que fundamentaram a construção do questionário foram identificados pelos autores em revisão de literatura e organizados em seis categorias: atenção indevida e olhar fixo, comportamento de esquiva, comportamento confuso, comportamento rude e provocante, bullying e pressão externa para mudar a aparência(12).

O PSQ é composto por 21 itens divididos em três domínios: Ausência de comportamento amigável (itens 1, 5, 7, 9, 12, 15, 17 e 20), Comportamento confuso/olhar fixo (itens 3, 4, 6, 10, 13, 14, 19 e 21) e Comportamento hostil (itens 2, 8, 11, 16 e 18). O sujeito deve assinalar com qual frequência vivencia tal comportamento em uma escala com alternativas de resposta de 1 a 5 (nunca, quase nunca, às vezes, muitas vezes, sempre). Os escores dos itens do domínio Ausência de comportamento amigável devem ser invertidos previamente às análises estatísticas(12).

O escore total do PSQ deve ser calculado somando-se os itens e dividindo-se pelo número de itens do instrumento. O mesmo procedimento deve ser realizado para o cálculo do escore de cada domínio, dividindo-se pelo número de itens do respectivo domínio. Os resultados do PSQ são expressos pelas médias dos escores, na mesma métrica da escala de frequência de resposta (1 a 5 pontos) para que as pontuações da escala sejam comparáveis e facilmente interpretadas. Pontuações mais altas indicam maior percepção de comportamentos estigmatizantes. A consistência interna do instrumento original foi avaliada pelo alfa de Cronbach, tendo sido obtido o valor de 0,93(12).

Em conjunto com o PSQ foi utilizado um questionário para coleta dos dados sociodemográficos dos sujeitos do pré-teste, tais como, sexo, estado civil, anos de estudo e idade.

Procedimentos para adaptação transcultural

A autorização para adaptação transcultural do PSQ no Brasil foi concedida pelo autor principal via correio eletrônico. O processo de adaptação foi conduzido segundo as etapas preconizadas na literatura descritas a seguir(6-7,15-16):

• Tradução do instrumento: realizada por dois tradutores independentes, brasileiros, com domínio do idioma e cultura inglesa e conhecimento dos objetivos do estudo; entretanto, não conheciam a versão original do instrumento em inglês, resultando na versão em português de cada tradutor (VP1 e VP2).

• Obtenção do primeiro consenso das versões em português: para a síntese das traduções e obtenção do primeiro consenso da versão traduzida foi realizada uma reunião entre os pesquisadores e tradutores. As duas versões em português, juntamente com as versões originais em inglês, foram avaliadas com o objetivo de compará-las e elencar os itens que mantiveram a equivalência semântica com os do instrumento original. Essa etapa resultou na versão consensual em português 1 (VCP1) do PSQ.

• Avaliação pelo Comitê de especialistas: a versão consensual em português foi submetida à avaliação por um Comitê formado por cinco especialistas. Os especialistas que foram selecionados para participar do Comitê atendiam a, pelo menos, dois dos seguintes critérios: ter conhecimento sobre o tema das queimaduras, dos idiomas português e inglês e da metodologia da pesquisa. Após a seleção, foi realizada uma reunião com objetivo de avaliar as equivalências semântica, idiomática, cultural e conceitual dos itens da versão consensual do instrumento em português e comparar com a versão original em inglês. Quando algum dos membros do Comitê discordava de qualquer termo da versão traduzida, as sugestões eram propostas, analisadas e justificadas com o objetivo de alcançar a melhor compreensibilidade dos instrumentos e equivalência com a cultura brasileira. A aprovação das mudanças ocorreu quando 80% dos membros do Comitê concordaram com a proposta(16). Nessa etapa, foram avaliadas a validade de face e de conteúdo do instrumento pelos membros do Comitê e, ao seu término, obteve-se a versão consensual em português 2 (VCP2).

• Retrotradução (back-translation): fase caracterizada por traduzir novamente para o idioma original do instrumento, o inglês. Foi realizada por dois tradutores independentes, estrangeiros, com fluência na língua inglesa, portuguesa e conhecimento da cultura brasileira. Os tradutores não conheciam os objetivos da pesquisa e o instrumento original. O objetivo da etapa foi verificar se a versão em português refletiria o conteúdo da original. Essa etapa resultou na versão em inglês de cada tradutor (VI1 e VI2)

• Obtenção do consenso das versões em inglês e comparação com a versão original em inglês: finalizada a retrotradução, realizou-se uma reunião entre os tradutores e pesquisadores com a finalidade de comparar a versão traduzida, retrotraduzida e original em inglês para verificar as possíveis diferenças semânticas, a fim de chegar a um consenso sobre os termos equivalentes à versão original. Assim, foi definida a versão consensual do instrumento em português 3 (VCP3) e a versão consensual em inglês (VCI).

• Avaliação do instrumento pelo autor da versão original: realizada com o objetivo de assegurar as equivalências semânticas, idiomática, conceitual e cultural dos instrumentos entre as versões original e adaptada. Nessa etapa, a versão consensual em inglês (VCI) foi enviada para a avaliação do autor principal, resultando na versão em inglês corrigida pelo autor principal (PSQ – VCAP).

• Análise semântica dos itens: a versão consensual do instrumento em português 3 foi submetida à avaliação semântica por quatro pacientes, selecionados por conveniência, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão do estudo, durante o atendimento no ambulatório da Unidade de Queimados, entre os dias 17 a 23 de janeiro de 2013. A avaliação semântica tem como objetivo avaliar se todos os termos de cada item do instrumento são compreensíveis para a população a qual se destina(16). O autor sugere que essa etapa seja realizada com quatro sujeitos(16). A etapa foi realizada com a aplicação de um questionário para análise semântica(17), adaptado para uso com brasileiros(18) e para esse estudo. O questionário é dividido em duas partes, parte A, com questões relacionadas à impressão geral da versão adaptada do PSQ e, parte B, com questões específicas sobre a importância e dificuldade para compreensão de cada item do PSQ. Foi realizada a entrevista com cada sujeito por meio da leitura do instrumento e, posteriormente, do formulário para análise semântica.

• Pré-teste: foi selecionada uma amostra consecutiva e por conveniência de 30 pacientes atendidos no ambulatório da Unidade de Queimados, entre os dias 24 de janeiro a 26 de fevereiro de 2013. Os pacientes eram convidados para participar da etapa do estudo após a avaliação de um dos pesquisadores acerca dos critérios de inclusão e exclusão. A versão adaptada do PSQ foi aplicada por meio de entrevista pelo pesquisador, o qual realizou a leitura conjunta de cada item. A leitura de cada item poderia ser realizada até três vezes e, após essas tentativas, se o paciente não o compreendesse, o item seria deixado sem preencher. O sujeito era questionado sobre as dificuldades e a compreensibilidade da versão adaptada do PSQ. O número de participantes na etapa do pré-teste foi definido de acordo com sugerido na literatura para essa etapa (30 a 40 indivíduos). Nesta etapa, o instrumento é aplicado para que se possa verificar sua aceitação e compreensão como um todo, de cada item e da escala de resposta. Não são recomendadas análises psicométricas, tais como validade de constructo e confiabilidade, na etapa de pré-teste(7).

O resultado final do processo metodológico da adaptação cultural do instrumento é apresentado na Figura 1. Os dados foram analisados no programa Statistical Package for Social Science (SPSS) versão 20.0. As análises descritivas foram realizadas em todas as variáveis. Para as variáveis contínuas foram calculadas as medidas de dispersão (desvio-padrão, mínimo e máximo) e de tendência central (média e mediana) e de frequência simples para as variáveis categóricas. Para análise da consistência interna dos itens foi calculado o alfa de Cronbach, considerando-se que valores acima de 0,70 refletem alto grau de consistência interna(8). Para análise dos valores dos coeficientes de correlação foi utilizada a classificação proposta na literatura, em que correlações com valores abaixo de 0,30 são consideradas fracas, entre 0,30 e 0,50 são consideradas moderadas e acima de 0,50 são consideradas fortes(19).

Figura 1 

Resultados

Após a tradução, foi obtida a VCP1, posteriormente avaliada pelos membros do Comitê de especialistas os quais propuseram modificações em relação à semântica dos itens e à apresentação da escala, inserindo as opções de resposta em tabela. Essas modificações sugeridas pelos especialistas são apresentadas no Quadro 1.

Quadro 1 

Na reunião entre os pesquisadores e tradutores que realizaram a retrotradução foi obtido consenso entre as versões em inglês ao comparar com a original, sendo realizadas alterações na VCP2 que estão reunidas no Quadro 2.

Quadro 2 

Os tradutores sugeriram a inclusão da palavra bulling no item 16 para que a população compreendesse melhor a questão, justificando que a maioria dos brasileiros conhece o termo devido à abordagem da mídia sobre essa questão.

Após a avaliação da versão final da retrotradução e comparação com a original, os tradutores e pesquisadores tiveram a necessidade de avaliar e alterar alguns termos da versão em português, embora esse procedimento não estivesse descrito no método.

Na escala de resposta, a opção em inglês Often foi traduzida e sofreu alterações na etapa do comitê de especialistas e, posteriormente, na retrotradução, tendo como versão final a tradução para opção Muitas vezes.

A versão em inglês do PSQ foi enviada ao autor original, que sempre demonstrou disponibilidade e respondeu rapidamente aos correios eletrônicos, sugerindo alteração em quatro itens. Foi novamente convocado o Comitê de especialistas para analisar as sugestões do autor. Essa etapa não estava prevista inicialmente na metodologia. Os membros do Comitê concordaram com as sugestões do autor principal, sendo realizadas as correções na versão em inglês e em português, resultando na versão consensual em português 4 (VCP4). As alterações estão apresentadas no Quadro 3.

Quadro 3 

A etapa da análise semântica foi realizada com quatro pacientes. A idade média dos participantes da etapa foi de 37,8 anos, distribuídos igualmente entre os sexos. A escolaridade dos quatro pacientes avaliada em anos de estudo teve média de 7,3 anos (intervalo: 3 – 11; DP= 3,5 anos).

No questionário de impressão geral sobre o instrumento, os quatro participantes classificaram o instrumento como bom e com questões fáceis de serem compreendidas. No questionário da análise específica do PSQ, nenhum participante deixou de responder qualquer questão. A maioria dos itens foi compreendida com exceção do item 1 As pessoas são amigáveis comigo e do item 2 As pessoas me xingam os quais não foram compreendidos por 25% dos sujeitos. Entretanto não foram realizadas sugestões para alteração dos itens. Os itens 2 As pessoas me xingam e 8 As pessoas riem de mim não se mostraram relevantes para 50% dos sujeitos. Em relação à apresentação da escala, dois sujeitos sugeriram a distribuição dos itens e das respostas em colunas diferentes e cada item em uma linha devido à dificuldade para visualizar e responder o instrumento.

Tabela 1 - Análise descritiva das respostas aos itens, escore total e domínios do PSQ na etapa do pré-teste - Ribeirão Preto, SP, 2013  

Itens / Escore total / Domínios Mediana (Intervalo) Média(DP)
1. As pessoas são amigáveis comigo 1.0 (1 - 4) 1.7 (0.9)
2. As pessoas me xingam 1.0 (1 - 5) 1.6 (1.1)
3. As pessoas evitam olhar para mim 2.5 (1 - 5) 2.2 (1.3)
4. Pessoas que não conheço ficam surpresas ou assustadas quando me veem 3.5 (1 - 5) 3.3 (1.4)
5. As pessoas são gentis comigo 2.0 (1 - 5) 1.9 (1.1)
6. As pessoas não sabem o que me dizer 3.0 (1 - 5) 3.0 (1.3)
7. Pessoas que não conheço dizem "Oi" para mim 2.0 (1 - 5) 2.2 (1.4)
8. As pessoas riem de mim 1.0 (1 - 5) 1.9 (1.5)
9. As pessoas ficam à vontade na minha presença 1.0 (1 - 5) 1.8 (1.2)
10. As pessoas têm pena de mim 3.0 (1 - 5) 2.9 (1.6)
11. As pessoas implicam comigo (pegam no meu pé) 1.0 (1 - 5) 2.2 (1.5)
12. Pessoas que não conheço sorriem para mim de maneira amigável 2.0 (1 - 5) 2.2 (1.3)
13. As pessoas não sabem como agir na minha presença 2.0 (1 - 5) 2.3 (1.3)
14. As pessoas me olham e se viram para me olhar 4.0 (1 - 5) 3.8 (1.4)
15. As pessoas são simpáticas comigo 2.0 (1 - 4) 2.0 (1.0)
16. As pessoas me fazem ameaças (bulling) 1.0 (1 - 5) 1.5 (1.3)
17. Estranhos são educados comigo 2.0 (1 - 5) 2.1 (1.3)
18. As pessoas debocham de mim 1.0 (1 - 5) 1.9 (1.3)
19. Pessoas que não conheço me encaram 3.0 (1 - 5) 2.9 (1.7)
20. As pessoas me tratam com respeito 1.0 (1 - 4) 1.7 (0.9)
21. As pessoas parecem desconfortáveis com minha aparência 2.0 (1 - 5) 2.5 (1.5)
Escore total - PSQ - VCP4 2.2 (1.1 - 3.9) 2.3 (0.7)
Domínio - Ausência de comportamento amigável 1.9 (1 - 3.6) 1.9 (0.7)
Domínio - Comportamento confuso/olhar fixo 2.9 (1 - 5) 2.9 (0.9)
Domínio - Comportamento hostil 1.5 (1 - 5) 1.8 (1.0)

Nota: (n=30)

As alterações sugeridas foram discutidas entre os pesquisadores e um membro do Comitê de Especialistas, os quais concordaram com as sugestões dos participantes, resultando na versão consensual final (PSQ – VCF).

A etapa final da adaptação cultural consistiu no pré-teste da versão consensual final do PSQ com 30 sujeitos por meio de entrevista. O tempo médio para responder o instrumento foi de três minutos.

Em relação às características dos participantes do pré-teste, 53,3% era do sexo feminino e 50%, solteiro. A média de idade foi de 36,2 anos (DP = 10,9; variação de 18,9 – 58,1) e a média de anos de estudo foi 8,6 (DP = 4,2; variação de 1-22).

Para o escore total do instrumento, o alfa de Cronbach obtido para os 30 participantes do pré-teste foi de 0,87. O alfa de Cronbach dos domínios foi de 0,80 para o domínio Ausência de comportamento amigável, 0,79 para o domínio Comportamento confuso/olhar fixo e 0,84 para Comportamento hostil. Na Tabela 2 são apresentados os resultados dos valores do coeficiente de correlação item-total e do alfa de Cronbach caso o item fosse excluído.

Tabela 2 - Análise descritiva das respostas aos itens, escore total e domínios do PSQ na etapa do pré-teste - Ribeirão Preto, SP, 2013  

PSQ (α total=0,87) Coeficiente de correlação item-total α de Cronbach se o item for excluído
Itens
1. As pessoas são amigáveis comigo 0.423 0.866
2. As pessoas me xingam 0.531 0.863
3. As pessoas evitam olhar para mim 0.347 0.869
4. Pessoas que não conheço ficam surpresas ou assustadas quando me veem 0.35 0.869
5. As pessoas são gentis comigo 0.604 0.861
6. As pessoas não sabem o que me dizer 0.471 0.865
7. Pessoas que não conheço dizem "Oi" para mim 0.201 0.874
8. As pessoas riem de mim 0.673 0.857
9. As pessoas ficam à vontade na minha presença 0.593 0.861
10. As pessoas têm pena de mim 0.365 0.869
11. As pessoas implicam comigo (pegam no meu pé) 0.413 0.867
12. Pessoas que não conheço sorriem para mim de maneira amigável 0.343 0.869
13. As pessoas não sabem como agir na minha presença 0.466 0.865
14. As pessoas me olham e se viram para me olhar 0.414 0.867
15. As pessoas são simpáticas comigo 0.606 0.862
16. As pessoas me fazem ameaças (bulling) 0.593 0.86
17. Estranhos são educados comigo -0.05 0.881
18. As pessoas debocham de mim 0.764 0.854
19. Pessoas que não conheço me encaram 0.424 0.867
20. As pessoas me tratam com respeito 0.57 0.863
21. As pessoas parecem desconfortáveis com minha aparência 0.751 0.853

Nota: (n=30)

Como os sujeitos que participaram do pré-teste demostraram compreensão e aceitação da Escala, não foram realizadas alterações na VCP4 do instrumento, o que resultou no PSQ – versão final em Português.

Discussão

Este estudo teve a finalidade de descrever o processo de tradução, adaptação cultural e o pré-teste de um instrumento que avalia a percepção de comportamentos estigmatizantes para uso no Brasil com indivíduos que sofreram queimaduras. As fases de adaptação cultural foram realizadas de acordo com a metodologia sugerida na literatura(6-7,15-16). Essas etapas foram adotadas em estudo de validação de instrumento para pacientes queimados no Brasil(20).

A avaliação pelo Comitê de Especialistas caracterizou-se como uma etapa importante para identificar termos que poderiam não ser compreendidos pela população-alvo, possibilitando que fossem alterados antes de serem retrotraduzidos, conforme sugestão dos autores(15).

Considera-se importante a experiência dos membros do Comitê de Especialistas na temática do instrumento(6), no caso as queimaduras, como também o conhecimento de aspectos socioeconômicos que mostram o perfil geral de pacientes queimados brasileiros. Esse é um ponto importante, pois pode influenciar na compreensão pela população brasileira dos instrumentos adaptados de outra cultura. Estudo realizado em uma unidade de queimados identificou que a maioria dos indivíduos refere um baixo nível de escolaridade, o que tem se mostrado como uma característica comum dos pacientes internados em unidade de queimados no Brasil(21).

A revisão feita pelos tradutores e pesquisadores da versão em português do PSQ, após a obtenção do consenso da versão retrotraduzida, considerando-se as expressões em inglês que poderiam não ter uma correspondência precisa com o português, contribuiu para a manutenção da equivalência semântica das versões. As dificuldades na tradução das expressões da língua inglesa e a manutenção da semântica de acordo com o contexto cultural foram observadas em todas as etapas de tradução e na avaliação do Comitê.

Um dos pontos fortes do processo de tradução foi o envio do instrumento após a retrotradução para o idioma inglês para a avaliação do autor. Essa etapa foi viável devido à disponibilidade do autor que constantemente respondeu os correios eletrônicos com prontidão. Assim, foi possível realizá-la tal como proposta pelos autores(7).

A segunda avaliação realizada pelo Comitê de Especialistas, para a análise da sugestão do autor do instrumento original, não prevista inicialmente, possibilitou a avaliação e a alteração dos termos sugeridos pelo autor da versão original. Essa etapa seguiu o mesmo processo da síntese das traduções e foi realizada para obtenção do consenso entre as versões traduzidas e, posteriormente, retrotraduzidas(7). Nessa etapa, não houve participação dos tradutores, o que seria recomendável para a avaliação das sugestões do autor e traduzi-las.

Quanto à análise do coeficiente de correlação item-total, a maioria dos itens apresentou valores de correlação de moderados a fortes; porém no item 17 (Estranhos são educados comigo) foi identificado um valor de correlação fraco e negativo. A avaliação foi realizada com uma amostra pequena e, considerando ser esse um item que avalia a percepção de comportamentos estigmatizantes pelo paciente queimado quando se encontra diante de pessoas estranhas, pretende-se avaliar no futuro as propriedades psicométricas do instrumento em uma amostra maior.

Pelas análises descritivas, os valores obtidos, para o escore total e para os domínios do PSQ, neste estudo com 30 sujeitos foram próximos ao do estudo original(12). Da mesma forma, os valores obtidos na avaliação da consistência interna do instrumento total e dos domínios foi satisfatória, mesmo com uma amostra reduzida na etapa do pré-teste. Na validação da versão original do PSQ, o autor do instrumento obteve alfa de Cronbach de 0,93 para o instrumento total, 0,91 para o domínio Ausência de comportamento amigável, 0,92 para o domínio Comportamento confuso/olhar fixo e 0,88 para Comportamento hostil(8,12), dados semelhantes aos obtidos na presente investigação.

Outros testes são necessários para confirmar a confiabilidade e a validade desse instrumento para uso com brasileiros que sofreram queimaduras. Contudo, considerando que a precisão dos valores do alfa de Cronbach é dependente do número de sujeitos da amostra, os valores obtidos no pré-teste podem estar subestimados, visto que há um número muito reduzido de sujeitos nesse estudo em relação ao recomendado para análise da confiabilidade(22).

Portanto, a versão adaptada do PSQ será submetida à análise da validadade constructo e confiabilidade em amostra representativa de vítimas de queimaduras no Brasil que poderá confirmar ou não se as propriedades psicométricas da versão original mantiveram-se na versão adaptada.

Conclusão

Estudos metodológicos com objetivo de adaptar instrumentos devem ser delineados buscando manter as equivalências idiomática, conceitual e semântica da versão adaptada em relação à original. Este estudo mostrou a importância da inclusão de uma nova etapa de avaliação do Comitê de especialistas com a presença de dois tradutores para realizarem a revisão das sugestões do autor do instrumento original.

A etapa de adaptação cultural e de pré-teste é importante para que as equivalências sejam analisadas e a aceitação dos itens possa ser inicialmente observada na população alvo. Considerando que os valores do alfa de Cronbach dependem do número de itens do instrumento e do número de sujeitos, os valores obtidos no pré-teste podem estar subestimados.

Ressalta-se que o processo de validação do PSQ para as vítimas de queimaduras no Brasil está em andamento. No futuro, após a validação do PSQ, será possível obter dados para avaliar a percepção da estigmatização do paciente queimado no que se refere ao impacto das cicatrizes no convívio social e à comparação com os resultados de outros estudos.

Este estudo metodológico contribui para o ensino e a pesquisa, pois descreve detalhadamente cada etapa e suas implicações no processo de adaptação transcultural de instrumentos que avaliam construtos subjetivos.

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*Projeto do Grupo de Investigação em Reabilitação e Qualidade de Vida, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil

Agradecimentos:

Agradecemos a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP, Processo 2010 – 10006-8) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo auxílio à pesquisa concedidos e pela bolsa de doutorado, respectivamente

Correspondência: Lidia Aparecida Rossi, Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Av. dos Bandeirantes, 3900 – Bairro Monte Alegre, CEP - 14040-902 - Ribeirão Preto, SP, Brasil

Recebido: 12 de Agosto de 2013; Aceito: 31 de Outubro de 2013

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