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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.49 no.spe São Paulo Dec. 2015

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420150000700015 

Artigo Original

Hipertensos com e sem doença renal: avaliação de fatores de risco*

Hipertensivos con y sin enfermedad renal: evaluación de factores de riesgo

Natália Alencar de Pinho1 

Rita de Cássia Burgos de Oliveira2 

Angela Maria Geraldo Pierin2 

1Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto, São Paulo, SP, Brasil.

2Universidade de São Paulo, Escola de Enfermagem, Departamento de Enfermagem Médico-Cirúrgica, São Paulo, SP, Brasil.

RESUMO

Objetivo

Comparar pacientes hipertensos com e sem doença renal e identificar fatores associados à condição clínica e tratamento anti-hipertensivo.

Método

Estudo transversal realizado com pacientes admitidos em clínica médica de um hospital universitário da cidade de São Paulo. Os dados foram coletados por meio de análise do prontuário. Valores de p<0,05 foram considerados significantes.

Resultados

Dos 386 pacientes avaliados, 59,3% eram hipertensos e destes 37,5% tinham doença renal crônica. Houve associação independente da presença de doença renal crônica para antecedentes de diabetes (OR 1,86; IC 1,02-3,41) e de insuficiência cardíaca congestiva (OR 3,42; IC 1,36-9,03); além do fato de viver com companheiro (OR 1,99; IC 1,09-3,69). Quanto ao tratamento anti-hipertensivo, houve diferença (p<0,05) entre os hipertensos com e sem doença renal em relação a fazer acompanhamento de saúde (93,2%vs 77,7%); uso contínuo de medicamentos anti-hipertensivos, (79,1% vs 66,4%); maior número de medicamentos anti-hipertensivos; uso de bloqueadores beta-adrenérgicos (34,9% vs 19,6%), bloqueadores dos canais de cálcio (29,1%vs 11,2%), diuréticos de alça (30,2%vs 10,5%) e vasodilatadores (9,3% vs2,1%).

Conclusão

Os hipertensos com doença renal crônica apresentaram perfil clínico mais comprometido, porém em relação ao tratamento anti-hipertensivo as atitudes foram mais positivas do que os sem doença renal.

Palavras-Chave: Hipertensão; Insuficiência Renal Crônica; Fatores de Risco; Adesão à Medicação

RESUMEN

Objetivo

Comparar pacientes hipertensivos con y sin enfermedad renal e identificar factores asociados relacionados a la condición clínica y tratamiento anti-hipertensivo.

Método

Estudio trasversal con pacientes en clínica médica de un hospital universitario de São Paulo. Los datos fueron recolectados mediante análisis de archivo. Valores de p<0,05 fueron considerados significantes.

Resultados

De los 386 pacientes evaluados, 59,3% era hipertensivo y, entre estos, 37,5% sufría de enfermedad renal crónica. Fue encontrada asociación independiente de la presencia de enfermedad renal crónica para antecedentes de diabetes (OR 1,86; IC 1,02-3,41) y de insuficiencia cardíaca congestiva (OR 3,42; IC 1,36-9,03); además del hecho de vivir con pareja (OR 1,99; IC 1,09-3,69). Respecto al tratamiento anti-hipertensivo, fue encontrada diferencia (p<0,05) entre los hipertensivos con y sin enfermedad renal respecto a hacer monitoreo de salud (93,2% vs 77,7%); uso continuo de medicamentos anti-hipertensivos, (79,1% vs 66,4%); mayor número de medicamentos anti-hipertensivos; uso de bloqueadores beta-adrenérgicos (34,9% vs 19,6%), bloqueadores de los canales de calcio (29,1% vs 11,2%), diuréticos de asa (30,2% vs 10,5%) y vasodilatadores (9,3%vs 2,1%).

Conclusión

Los hipertensivos con enfermedad renal crónica mostraron perfil clínico más comprometido pero, respecto al tratamiento anti-hipertensivo, las actitudes fueron más positivas que entre aquellos sin enfermedad renal.

Palabras-clave: Hipertensión; Insuficiencia Renal Crónica; Factores de Riesgo; Cumplimiento de la Medicación

INTRODUÇÃO

O conceito de segurança se estabelece na prática clínica, como um princípio essencial na prevenção de incidentes relacionados aos pacientes. Para a Organização Mundial de Saúde(1) segurança do paciente é “a redução do risco de danos desnecessários associados à assistência em saúde até o mínimo aceitável”. Nesse sentido, o controle de riscos associados a uma doença, terá uma influência direta no resultado do tratamento preconizado ao paciente. No presente estudo, tomou-se como base a hipertensão arterial, como importante fator de risco, e sua associação com a doença renal crônica, pois a hipertensão arterial está entre os principais fatores de risco relacionados a essa doença.

A doença renal crônica têm se destacado como problema de saúde pública mundial. Sua prevalência é estimada entre 1,5% a 43,3%(2-3) e sua presença tem sido associada à maior morbidade e mortalidade cardiovasculares(4-5). Os principais fatores de risco aos quais se tem atribuído a crescente prevalência da doença renal crônica no mundo são: aumento da expectativa de vida, diabetes melito e hipertensão arterial(6). Estes fatores estão intimamente associados ao desenvolvimento socioeconômico de uma determinada população: por um lado há diminuição das causas de morte infecciosas e externas pela melhora da condição de vida e do acesso aos serviços de saúde; por outro, vê-se a adoção de estilos de vida inadequados, como sedentarismo e a piora dos hábitos nutricionais.

A associação entre hipertensão e doença renal crônica é bem conhecida, considerando que a doença renal é a maior causa de hipertensão arterial secundária. A hipertensão arterial também pode determinar o surgimento da doença renal crônica e representar um catalisador para sua progressão até o estágio terminal. A correlação dos níveis de pressão arterial com a deterioração da função renal tem sido evidenciada em várias investigações(7-8).

Enquanto o diabetes melito corresponde à principal causa isolada para doença renal crônica terminal em diversos países, a hipertensão arterial é a etiologia mais frequente no Brasil, tendo sido identificada em 34% dos pacientes em diálise(8). Considerando que a grande relevância do diabetes melito em países desenvolvidos tem sido atribuída à diminuição da mortalidade pela hipertensão arterial e outras causas cardiovasculares, pode-se considerar que a assistência aos hipertensos na população brasileira necessita de maior atenção, visando minimizar riscos e o perfil de morbimortalidade dessas pessoas.

Diante do exposto, a hipótese aventada para o presente estudo foi que a doença renal crônica na população de hipertensos estaria associada a outros fatores de risco, como os cardiovasculares e renais. Dessa forma, os objetivos do estudo foram: comparar pacientes hipertensos com e sem doença renal e identificar fatores associados à condição clínica e tratamento anti-hipertensivo em pacientes admitidos em uma clínica médica geral de um hospital universitário da cidade de São Paulo, Brasil.

MÉTODO

Tratou-se de um estudo exploratório, transversal e de abordagem quantitativa, conduzido entre dezembro de 2010 e junho de 2013. O projeto foi aprovado por Comitê de Ética em pesquisa (no. 1103/11).

A amostra foi calculada considerando-se a estimativa da prevalência de doença renal de 13%, variação de 5%, 5% de erro tipo I e 80% de poder do teste. Sob estes parâmetros, o tamanho estimado foi de 386 indivíduos. Os critérios de inclusão foram idade ≥18 anos, ter sido admitido na enfermaria de clínica médica geral de um hospital universitário na cidade de São Paulo durante o ano de 2009. Foram excluídos gestantes, pacientes com tempo de internação na enfermaria de clínica médica inferior a 24 horas, ausência de dosagem da creatinina sérica em pelo menos duas ocasiões durante o período de internação e pacientes que evoluíram durante a internação hospitalar com lesão renal aguda segundo os critérios do Acute Kidney Injury Network AKIN(9) (elevação da creatinina sérica igual ou superior a 0,3 mg/dL em pacientes sem o diagnóstico médico de doença renal crônica) ou diagnóstico médico de insuficiência renal aguda.

A coleta de dados foi realizada retrospectivamente a partir do prontuário de cada paciente e mediante instrumento elaborado para este fim. Foram coletadas informações sociodemográficas (idade, sexo, estado civil, ocupação, peso, altura); antecedentes de saúde, incluindo as comorbidades; hábitos de vida como o tabagismo; acompanhamento de saúde anterior à internação; e medicamentos de uso contínuo. Para a presente análise, foram selecionados os pacientes que apresentavam antecedente pessoal ou diagnóstico médico de hipertensão arterial (n=229). A doença renal crônica foi definida como a presença de diagnóstico médico relatado em pelo menos uma ocasião, no prontuário médico. Para avaliação dos níveis pressóricos foi considerado o primeiro registro em prontuário, do período da manhã, de cada dia de internação. O controle da hipertensão arterial foi avaliado mediante critérios das VI Diretrizes Brasileiras de Hipertensão(10), valores menores que 140 mmHg para a pressão sistólica e 90 mmHg para a diastólica.

ANÁLISE ESTATÍSTICA

A associação entre as variáveis classificatórias e os grupos com e sem doença renal crônica foi avaliada com os testes Qui-quadrado, teste da razão de verossimilhança ou teste exato de Fisher. Para as variáveis quantitativas, foram utilizados o teste t-Student para comparação das médias de variáveis de distribuição normal. As variáveis biossociais e de comorbidade que apresentaram nível de significância estatística inferior a 0,2 na análise univariada foram utilizadas no ajuste do modelo de regressão logística múltipla, assim como a idade em anos (forma contínua) e o antecedente de diabetes. Os valores de p<0,05 (bilateral) foram considerados estatisticamente significantes.

RESULTADOS

Dos 386 pacientes avaliados, mais da metade (59,3%) apresentou hipertensão arterial. Os dados da Tabela 1 mostram que os hipertensos com e sem doença renal crônica foram semelhantes em relação a: discreto predomínio do sexo feminino (51,5%); maioria de etnia branca (65,1%); e ocupação como trabalhadores ativos (40,9%). O índice de massa corporal foi compatível com sobrepeso [26,8 (23,9–29,9) kg/m2]; e a faixa etária correspondeu à sexta década de vida [65,1 (14,4 anos)] para ambos os grupos. Os hipertensos com doença renal crônica se distinguiram, em relação aos sem doença renal crônica, por viverem mais com companheiro (64,3% vs 50,7%, p=0,047).

Tabela 1 Características biossociais dos hipertensos internados em uma clínica médica, com e sem doença renal crônica - São Paulo, SP, Brasil, 2014. 

Variáveis Com doença renal crônica (N=86) Sem doença renal crônica (N=143) Total (N=229) Valor p

N % N % N %
Sexo 0,365
Masculino 45 52,3 66 46,2 111 48,5
Feminino 41 47,7 77 53,8 118 51,5
Etnia 0,397
Branco 53 61,6 96 67,1 149 65,1
Não branco 33 38,4 47 32,9 80 34,9
Estado civil (N=226) 0,047
Sem companheiro 30 35,7 70 49,3 100 44,2
Com companheiro 54 64,3 72 50,7 126 55,8
Ocupação (N=220) 0,862
Trabalhador ativo 31 38,3 59 42,4 90 40,9
Aposentado 26 32,1 39 28,1 65 29,5
Do lar 21 25,9 34 24,5 55 25,0
Outros* 3 3,7 7 5,0 10 4,5
Idade (anos, média±dp) 65,6±14,3 64,8±14,5 65,1±14,4 0,678
Índice de massa corporal (kg/m2)(N=79) 0,876
Mediana (1°.-3°. quartis) 27,4 (23,3-30,9) 26,4 (24,0-29,8) 26,8 (23,9-29,9)

* Desempregado (6); estudante (4).

Quase a totalidade dos hipertensos com e sem doença renal crônica (95,3% e 92,3%, respectivamente) apresentava pelo menos uma comorbidade referida no momento de sua admissão hospitalar. Os dados apresentados na Figura 1 mostram diferença significativa (p<0,05) entre os grupos com e sem doença renal crônica, quanto a ter antecedentes pessoais para diabetes (53,5%vs 36,4%) e insuficiência cardíaca congestiva (19,8%vs 7,0%). O antecedente de tabagismo não diferiu entre os grupos, porém, quando considerado o status atual dos hipertensos (sim, parou, nunca fumou), houve diferença significativa no sentido de uma menor proporção de fumantes no grupo com doença renal crônica (9,9% vs 25,0%, p=0,022).

Figura 1 Comorbidades e tabagismo dos hipertensos internados em uma clínica médica, com e sem doença renal crônica - São Paulo, SP, Brasil, 2014. 

A análise pela regressão logística múltipla (Tabela 2) mostrou associação independente dos antecedentes de diabetes e de insuficiência cardíaca congestiva com a doença renal crônica. O aumento do risco na vigência destas comorbidades foi de cerca de duas e três vezes, respectivamente. O fato de viver com companheiro também se manteve associado à presença de doença renal crônica mesmo após ajustamento para outras variáveis, refletindo um dobramento de risco. O tabagismo atual ou anterior esteve no limite de significação (OR 0,54, IC 95% 0,29-1,00).

Tabela 2 Preditores de doença renal crônica em hipertensos internados em uma clínica médica segundo análise multivariada - São Paulo, SP, Brasil, 2014. 

Variáveis Odds ratio Intervalo de confiança 95% Valor p
Idade (por ano adicional) 0,99 0,97 1,02 0,579
Estado civil (com companheiro) 1,99 1,09 3,69 0,026
Tabagismo 0,54 0,29 1,00 0,050
Diabetes melito 1,86 1,02 3,41 0,042
Insuficiência cardíaca congestiva 3,42 1,36 9,03 0,010
Infarto agudo do miocárdio 1,66 0,66 3,97 0,281

No que concerne ao tratamento da hipertensão arterial anterior à hospitalização (Tabela 3), a maioria dos hipertensos efetuava acompanhamento de saúde, com destaque para o grupo com doença renal crônica (93,2% vs 77,7%, p=0,005). Observa-se que quase um terço dos hipertensos (28,8%) não fazia uso contínuo de medicamentos anti-hipertensivos, porém, dentre os que faziam uso, a frequência foi superior nos hipertensos com doença renal crônica comparados aos sem doença renal crônica (79,1%vs 66,4%, p=0,041). Os hipertensos com doença renal crônica também faziam uso contínuo de maior número de medicamentos anti-hipertensivos (p=0,001) do que os hipertensos sem doença renal crônica.

Tabela 3 Acompanhamento em serviço de saúde e uso contínuo de anti-hipertensivos dos hipertensos internados em uma clínica médica, com e sem doença renal crônica - São Paulo, SP, Brasil, 2014. 

Variáveis Com doença renal crônica (N=86) Sem doença renal crônica (N=143) Total (N=229) Valor p

N % N % N %
Acompanhamento em serviço de saúde(N=194) 0,005
Sim 68 93,2 94 77,7 162 83,5
Não 5 6,8 27 22,3 32 16,5
Número de anti-hipertensivos 0,001
Nenhum 18 20,9 48 33,6 66 28,8
Um 13 15,1 40 28,0 53 23,1
Dois a três 40 46,5 45 31,5 85 37,1
Mais de três 15 17,4 10 7,0 25 10,9
Inibidores da enzima conversora de angiotensina 0,849
Sim 39 45,3 63 44,1 102 44,5
Não 47 54,7 80 55,9 127 55,5
Bloqueadores beta-adrenérgicos 0,010
Sim 30 34,9 28 19,6 58 25,3
Não 56 65,1 115 80,4 171 74,7
Diuréticos tiazídicos 0,328
Sim 13 15,1 29 20,3 42 18,3
Não 73 84,9 114 79,7 187 81,7
Bloqueadores dos canais de cálcio 0,001
Sim 25 29,1 16 11,2 41 17,9
Não 61 70,9 127 88,8 188 82,1
Diuréticos de alça <0,001
Sim 26 30,2 15 10,5 41 17,9
Não 60 69,8 128 89,5 188 82,1
Diuréticos poupadores de potássio 0,134
Sim 7 8,1 5 3,5 12 5,2
Não 79 91,9 138 96,5 217 94,8
Antagonistas do receptor de angiotensina II 0,764
Sim 5 5,8 7 4,9 12 5,2
Não 81 94,2 136 95,1 217 94,8
Vasodilatadores diretos 0,015
Sim 8 9,3 3 2,1 11 4,8
Não 78 90,7 140 97,9 218 95,9
Inibidores alfa-adrenérgicos 0,530
Sim 3 3,5 3 2,1 6 2,6
Não 83 96,5 140 97,9 223 97,4

DRC= Doença Renal Crônica

As classes de anti-hipertensivos mais utilizadas foram os inibidores da enzima conversora de angiotensina (44,5%) e os bloqueadores beta-adrenérgicos (25,3%). Houve diferença significativa (p<0,05) entre os hipertensos com e sem doença renal crônica no consumo de bloqueadores beta-adrenérgicos (34,9%vs 19,6%), bloqueadores dos canais de cálcio (29,1%vs 11,2%), diuréticos de alça (30,2% vs 10,5%) e vasodilatadores diretos (9,3% vs 2,1%).

A pressão arterial no primeiro dia de internação foi registrada para 191 hipertensos da amostra (52,8%). A média de pressão arterial sistólica desta população foi de 135,6 mmHg, sem diferenças entre os grupos com e sem doença renal crônica. A pressão arterial diastólica foi, por sua vez, inferior entre os hipertensos com doença renal crônica (75,6 vs 80,6 mmHg, p=0,030). Não houve diferença significativa entre os grupos em relação à frequência de controle, quaisquer sejam os critérios (Figura 2).

Figura 2 Pressão arterial no primeiro dia de internação e controle dos hipertensos internados em uma clínica médica, com e sem doença renal crônica - São Paulo, SP, Brasil, 2014. 

DISCUSSÃO

Neste estudo, os hipertensos com doença renal crônica se distinguiram dos sem a doença por apresentarem mais diabetes melito e insuficiência cardíaca congestiva. De fato, ambas comorbidades têm demonstrado contribuir para a gênese de doença renal crônica.

O estresse oxidativo produzido pela hiperglicemia, assim como a proteinúria, a hiperperfusão e a hiperfiltração renal, participam da patogênese da doença renal crônica. Fatores comumente associados ao diabetes, como a obesidade e as doenças cardiovasculares, contribuem igualmente para o desenvolvimento de lesões renais(11). A doença renal crônica terminal em pacientes com diabetes melito tipo 2, presumidamente associada à glomeruloesclerose diabética, assumiu nas últimas décadas grande importância em países de estilo de vida ocidental. Sua incidência aumentou dramaticamente entre as décadas de 1980 e 1990, passando de 23,4 pmp (em 1984) para 66 pmp (em 1994), no Japão, e de 29,2 pmp para 107 pmp, nos Estados Unidos, neste mesmo período(12). Embora dados dos Estados Unidos tenham mostrado redução de 3,9% por ano na incidência de doença renal crônica terminal ajustada à idade, de 1996 a 2006, o diabetes figura como primeira causa de falência renal neste país (44% dos novos casos tratados)(13), a exemplo de México, Malásia, Taiwan, Nova Zelândia, Japão, Israel, e outros países(14). O diabetes melito figura como o segundo diagnóstico de base para pacientes em terapia renal substitutiva dialítica no Brasil, com frequência de 29% em 2012(15).

Estudos têm sugerido que a insuficiência cardíaca congestiva pode ser uma importante causa de lesão renal progressiva, isto porque cerca de 50% dos indivíduos com esta afecção têm doença renal crônica(16). Em contrapartida, estudo em amostra proveniente do NHANES III identificou prevalências de insuficiência cardíaca congestiva de 39,9 e 54,1% para doentes renais crônicos com e sem diabetes, respectivamente, as quais foram significativamente (p<0,05) inferiores a de pacientes sem estas doenças(17). Ainda que a diminuição do débito cardíaco motivado pela cardiopatia em si ou seu tratamento possa colaborar na gênese de lesões renais progressivas, cabe destacar que as principais etiologias da insuficiência cardíaca congestiva são a hipertensiva e a isquêmica, ambas estritamente ligadas à hipertensão arterial(6).

Ressalta-se que a coexistência da hipertensão arterial com outros fatores de lesão renal pode ser muito deletéria para o prognóstico destes pacientes, sobretudo quando sem controle. Estudo com hipertensos com nefropatia diabética, cujo tempo de seguimento médio foi de 3,4 anos, identificou um hazard ratio para progressão da doença renal crônica, falência renal ou óbito 66% maior (p<0,001) para indivíduos com pressão arterial igual ou superior a 140 mmHg, comparados aos indivíduos com valores de pressão arterial sistólica inferiores a este(18).

Quanto aos hábitos de vida, se destacou a maior frequência de tabagistas no grupo sem doença renal crônica, que foi significativa (p<0,05) para os fumantes ativos e próxima à significação quando considerado o histórico. Este achado é contrário aos dos diversos estudos que mostraram associação do tabagismo com desenvolvimento e progressão da doença renal crônica(19-21). Entretanto, o caráter retrospectivo do presente estudo e a coleta de dados em prontuário não permitiu a avaliação de dados relevantes deste hábito como, por exemplo, o tempo de abstinência de fumo para aqueles que referiram parar de fumar. Muitos tabagistas costumam parar de fumar em estágios mais severos da doença, o que contribui para a identificação de menores frequências de fumantes em estudos transversais com doentes renais crônicos. Além disso, esta observação poderia ser produto de um viés de seleção inerente aos estudos transversais: os doentes renais crônicos e fumantes estariam subrepresentados na amostra por terem uma maior mortalidade.

Foi também significante (p<0,05) a associação de doença renal crônica com estado civil, com predominância de indivíduos com companheiro neste grupo. A convivência em casal tem sido utilizada como indicativo de apoio familiar, o qual estaria relacionado a melhor adesão ao tratamento de doenças crônicas e a melhores resultados em saúde(22-23). Tal efeito positivo do estado civil com companheiro não foi observado no presente estudo. É possível que fatores como tempo e qualidade da relação em casal, assim como outras redes de suporte social, possam estar envolvidos na melhor gestão do tratamento de doenças crônicas e prevenção de complicações renais.

Observou-se ainda, no presente estudo, que a frequência de controle da hipertensão arterial de pacientes com e sem doença renal crônica no primeiro dia de internação foi de cerca de 40%, valor compreendido na faixa de controle descrito no Brasil. Estudos de base populacional publicados nos últimos anos apontaram frequências de controle da pressão arterial que oscilam entre 30 e 50%(24). Porém, o controle dos níveis tensionais pode ser mais comprometido na vigência de comorbidades e lesão de órgãos alvo. Dessa forma, investigação com hipertensos com lesões de órgãos-alvo em acompanhamento ambulatorial mostrou que menos de um terço dos indivíduos estava controlado(22). Em outro estudo, o controle da hipertensão arterial foi avaliado segundo metas específicas pela estratificação de risco cardiovascular, e somente 32,4% dos hipertensos com nefropatias e proteinúria maior que 1 g/L estavam controlados, comparados a 61,7% dos hipertensos em estágio I e II com baixo ou médio risco cardiovascular(25).

Apesar da existência de medidas comprovadamente eficazes na redução da morbimortalidade cardiovascular devido à elevação dos níveis pressóricos na hipertensão arterial, o controle da doença ainda é baixo. Tal fato tem sido atribuído à baixa adesão ao tratamento anti-hipertensivo. A adesão ao tratamento da hipertensão arterial constitui um verdadeiro desafio na atenção a estes pacientes, uma vez que é resultado da interação de diversas características individuais, estruturais e ligadas à doença e tratamento. A adesão se refere ao comportamento dos indivíduos e sua congruência com o tratamento de saúde. O comparecimento às consultas e a interrupção do tratamento medicamentoso têm sido aspectos desses comportamentos frequentemente utilizados na avaliação da adesão ao tratamento de hipertensos(26-27).

Uma parcela expressiva dos hipertensos estudados apresentou comportamento que pode refletir falta de adesão ao tratamento anti-hipertensivo, como a não utilização contínua dos medicamentos, embora tivesse diagnóstico prévio de hipertensão arterial ou de comorbidades compatíveis com lesão de órgãos-alvo. A frequência de não adesão ao tratamento medicamentoso identificada (28,8%) foi superior àquela observada em amostra representativa da população brasileira em 2008 (17%)(28). A não adesão ao tratamento anti-hipertensivo pode ter contribuído para a hospitalização dos hipertensos estudados, haja vista que a morbidade cardiovascular foi expressiva tanto nos hipertensos com doença renal crônica quanto naqueles sem. Excluindo-se a hipertensão arterial e a doença renal crônica, a maioria (67,2%) dos hipertensos apresentou alguma comorbidade registrada em prontuário.

CONCLUSÃO

A hipertensão arterial na doença renal crônica esteve associada a outros fatores de risco para o desenvolvimento e progressão de lesão renal em hipertensos admitidos na clínica médica geral de um hospital universitário em São Paulo, Brasil. Mais da metade dos hipertensos não estava controlada e quase um terço apresentava características compatíveis com não adesão. Evidencia-se, desta forma, a necessidade de ações mais abrangentes no cuidado ao hipertenso em nosso meio. Medidas de segurança, que avaliam as características do paciente e os desfechos do mesmo, assim como o controle dos riscos associados, por meio de ações de educação em saúde, o incentivo à tomada de decisões e ao autocuidado são essenciais na adesão ao tratamento e na prevenção de complicações e da morbidade hospitalar.

Frente ao crescente impacto das doenças crônicas não transmissíveis no Brasil, políticas de saúde pública têm sido adotadas para a prevenção e o controle destas condições. Tais políticas incluem desde a regulamentação do uso de tabaco em ambientes públicos, até o oferecimento gratuito de medicamentos para prevenção de eventos cardiovasculares em pacientes de alto risco. Apesar de a mortalidade cardiovascular padronizada para a idade ter diminuído nas últimas décadas, ela é ainda, muito superior àquela observada em diversos países. As causas cardiovasculares representam a principal causa de morte para brasileiros e a elevada morbimortalidade cardiovascular no Brasil tem sido atribuída principalmente à hipertensão arterial. Além disso, a hipertensão arterial constitui a principal causa de falência renal tratada por diálise no Brasil. Por esse motivo, a atenção às pessoas com hipertensão arterial deve ser considerada uma prioridade pelos profissionais da área da saúde, em destaque o enfermeiro, por meio de ações de vigilância da hipertensão, a integralidade do cuidado e a promoção da saúde. Quanto à doença renal crônica acredita-se que o tratamento da hipertensão arterial e do diabetes melito, também podem ser efetivos no seu enfrentamento.

No contexto da assistência aos hipertensos, manter o controle da doença é a meta do tratamento. A ausência ou controle inadequado contribuem para complicações com lesão em órgãos alvo, como a doença renal, podendo inclusive levar essas pessoas à necessidade de internação hospitalar. Portanto, a assistência integral unindo a atenção primária, onde a maior parte dos hipertensos é atendida, aliada à retaguarda de instituições especializadas, formam uma estrutura de compromisso e disposição para garantir uma assistência segura e eficaz. A fragmentação da saúde não é segura para o paciente. O enfermeiro visando atender o indivíduo na sua integralidade e individualidade deve promover ações que atendam as reais necessidades dos hipertensos.

REFERÊNCIAS

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Recebido: 15 de Abril de 2015; Aceito: 20 de Agosto de 2015

Autor Correspondente: Angela Maria Geraldo Pierin Av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 419 - Cerqueira César CEP 05403-000 - São Paulo, SP, Brasilpierin@usp.br

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Extraído da dissertação “Fatores associados à doença renal crônica em pacientes internados em um hospital universitário na cidade de São Paulo, Programa de Pós-Graduação em Enfermagem na Saúde do Adulto, Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, 2013.

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