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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.50 no.3 São Paulo May/June 2016

http://dx.doi.org/10.1590/S0080-623420160000400006 

ARTIGO ORIGINAL

Qualidade de vida em receptores de transplante de fígado e a influência dos fatores sociodemográficos

Maria Isis Freire de Aguiar1 

Violante Augusta Batista Braga1 

José Huygens Parente Garcia2 

Clébia Azevedo de Lima3 

Paulo César de Almeida4 

Angela Maria Alves e Souza1 

Isaura Letícia Tavares Palmeira Rolim5 

1Universidade Federal do Ceará, Departamento de Enfermagem, Fortaleza, CE, Brasil.

2Universidade Federal do Ceará, Departamento de Cirurgia, Fortaleza, CE, Brasil.

3Universidade Federal do Ceará, Hospital Universitário Walter Cantídio, Fortaleza, CE, Brasil.

4Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, CE, Brasil.

5Universidade Federal do Maranhão, Departamento de Enfermagem, São Luís, MA, Brasil.

Resumo

OBJETIVO

Verificar a influência dos fatores sociodemográficos na qualidade de vida dos pacientes depois do transplante de fígado.

MÉTODO

Estudo transversal, com 150 pacientes submetidos ao transplante de fígado em um centro de referência. Aplicou-se um instrumento sociodemográfico e o questionário Liver Disease Quality of Life. Foi realizada Análise de Variância (ANOVA) e comparações múltiplas pelo teste de Tukey e Games-Howell, quando p<0,05.

RESULTADOS

A idade avançada apresentou influência nos domínios: sintomas da doença hepática (p=0,049), sono (p=0,023) e função sexual (p =0,03). Os homens apresentaram melhores médias significativas do que as mulheres na dimensão isolamento (p=0,037). Pacientes com nível de instrução mais alto apresentaram maiores valores no domínio estigma da doença hepática (p=0,014). Houve interferência da renda nos domínios qualidade da interação social (p=0,033) e estigma da doença (p=0,046).

CONCLUSÃO

Em metade dos domínios de qualidade de vida, houve influência de alguma variável sociodemográfica.

Descritores: Transplante de Fígado; Qualidade de Vida; Avaliação em Saúde; Perfil de Saúde

Introdução

As doenças hepáticas crônicas trazem alterações em diversos sistemas orgânicos, acarretando complicações que afetam o funcionamento físico e desempenho dos pacientes, incluindo cãibras musculares, perda de massa, encefalopatia hepática e ascite, além de influenciar na sensação de bem-estar e satisfação com a vida do paciente, interferindo negativamente na qualidade de vida (QV)1. Diante de doenças degenerativas e progressivas, o transplante de fígado é recomendado como alternativa terapêutica, possibilitando a reversão do quadro terminal e melhoria na qualidade de vida desses pacientes2.

Nos últimos 10 anos, o Brasil apresentou muitos avanços no setor, com criação de novos centros de transplantes e aumento do número de doadores de órgãos e de transplantes. Em 2014, existiam 64 equipes transplantadoras de fígado ativas, cadastradas no Sistema Nacional de Transplantes, que realizaram 1.775 transplantes de fígado, ocupando o segundo lugar em número de transplantes de órgãos sólidos3.

Diante dessa realidade, estudos sobre qualidade de vida desses pacientes tornam-se necessários, pois permitem conhecimento do impacto das doenças sobre as atividades diárias e obtenção de informações que permitam a comparação entre diferentes tipos de tratamentos e análise de custos.

O aumento da preocupação com a qualidade de vida dos indivíduos tem levado ao desenvolvimento e à aplicação de diversos instrumentos genéricos e específicos. No entanto, os instrumentos genéricos apresentam algumas limitações, no que se refere à identificação de domínios específicos relacionados às doenças em determinados estados de saúde. Por sua vez, os questionários voltados para avaliação em doenças específicas proporcionam maior especificidade e sensibilidade nesses pacientes do que na população em geral4.

Atualmente, foram criados questionários específicos de avaliação da qualidade de vida, aplicáveis em populações específicas, portadoras de determinadas condições patológicas, oferecendo como vantagem proporcionar uma análise mais detalhada do impacto e das limitações condicionadas pela doença na vida do indivíduo, identificando particularidades da situação. Dentre os instrumentos específicos para pacientes com doenças hepáticas, destacam-se o Chronic Liver Disease Questionnaire (CLDQ), o Liver Disease Symptom Index (LDSI) e o Liver Disease Quality of Life (LDQOL)5.

Durante levantamento bibliográfico sobre pesquisas que avaliam a qualidade de vida entre pacientes submetidos ao transplante hepático, percebeu-se a escassez de pesquisas com utilização de instrumentos específicos. No Brasil, foi identificado somente um estudo com aplicação do Liver Disease Quality of Life (LDQOL)6, que foi utilizado nesta pesquisa.

Após o transplante, os pacientes enfrentam uma difícil rotina que envolve acompanhamento médico frequente, realização de exames, riscos de complicações como rejeição e infecções, além da necessidade de terapia imunossupressora contínua e a mudança de hábitos. Apesar disso, estudos que avaliaram a qualidade de vida em receptores demonstraram impacto positivo do transplante de fígado na qualidade de vida6-7.

Contudo, aponta-se para a necessidade de realização de mais estudos para aprofundamento de outros determinantes de saúde que possam interferir na qualidade de vida dessas pessoas, incluindo os fatores demográficos e sociais, no intuito de oferecer subsídios para o planejamento do cuidado individualizado e integrado aos pacientes transplantados hepáticos, além de contribuir para a produção do conhecimento na área.

A identificação de pacientes com características de maior risco para apresentar decréscimo nos níveis de qualidade de vida e menor satisfação com os resultados do transplante pode contribuir com as equipes que atuam no transplante (assistentes sociais, enfermeiros e médicos) no desenvolvimento de intervenções precoces e abordagens multidisciplinares que potencialmente possam melhorar os resultados de qualidade de vida desses pacientes.

O objetivo deste estudo foi verificar a influência dos fatores sociodemográficos na qualidade de vida dos pacientes depois do transplante de fígado.

Método

Estudo transversal, quantitativo, realizado em um Centro de Referência nacional em transplantes de fígado, na cidade de Fortaleza, Ceará.

A população do estudo foi composta por 425 pacientes submetidos ao transplante hepático no período de 10 anos de funcionamento da unidade, na faixa etária acima de 18 anos. Foi realizado o cálculo para a amostra finita, considerando o coeficiente de confiança de 95% e erro amostral de 4%.

Para determinação da amostra, foram utilizados os critérios de inclusão: receptores de transplante hepático há no mínimo seis meses, com idade a partir de 18 anos, procedentes de qualquer estado do país, em acompanhamento regular no serviço de transplante. O total da amostra foi de 150 pacientes.

Foram excluídos receptores transferidos para outros estados, pacientes submetidos aos transplantes de fígado por hepatite fulminante ou duplo fígado-rim, além de pacientes com deficiência auditiva que pudesse impedir a realização de entrevista.

A coleta de dados foi realizada de julho/2012 a janeiro/2013, quando foi aplicado um instrumento sociodemográfico e o questionário Liver Disease Quality of Life (LDQOL) para avaliação da qualidade de vida, traduzido e validado para a população brasileira. Esse abrange 17 questões direcionadas aos sinais e sintomas da doença, além do efeito do tratamento na vida cotidiana, distribuídas em 12 domínios: sintomas relacionados à doença hepática (17 itens), efeito da doença hepática nas atividades diárias (10 itens), concentração (7 itens), memória (6 itens), sono (5 itens), isolamento (5 itens), esperança (4 itens), qualidade da interação social (5 itens), preocupações com a doença (4 itens), estigma da doença hepática (6 itens), função sexual (3 itens) e problemas sexuais (3 itens)8.

Cada questão possui um sistema de resposta apropriada que avalia a frequência, intensidade ou concordância de afirmações em uma escala tipo Likert, com escores de respostas que variam de zero a seis pontos. A pontuação de cada item é convertida em valores de zero a 100, com posterior cálculo das médias das pontuações para cada domínio, no qual escores mais elevados representam maior qualidade de vida.

A versão original do instrumento LDQOL foi validada com adultos com doença hepática crônica avançada, candidatos ao transplante de fígado. Dessa forma, os autores destacaram que o instrumento seria útil em estudos que buscassem avaliar os resultados qualidade de vida de pacientes submetidos a transplante hepático ou a outras intervenções médicas e cirúrgicas para o tratamento da doença9.

Os pacientes foram convidados a participar da pesquisa nos dias de retorno para consultas de acompanhamento pós-operatório no serviço de transplante. A coleta de dados foi realizada na sala de espera do ambulatório de transplante hepático, antes e/ou após as consultas de seguimento pós-transplante, tendo o devido cuidado de proporcionar a privacidade necessária. O LDQOL foi administrado pelo pesquisador aos pacientes, após o sexto mês de transplante, em forma de entrevista, por preferência dos participantes da pesquisa, embora pudesse ser autoaplicável.

A análise dos dados foi realizada com suporte do programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 18.0. Na análise estatística descritiva, as variáveis categóricas foram representadas por meio de frequência absoluta (n) e relativa (%) e os resultados de escores dos domínios do instrumento LDQOL expressos por média e desvio-padrão (DP).

A Análise de Variância (ANOVA) foi utilizada para verificar a existência de diferenças significativas das médias entre os grupos, de acordo com as variáveis sociodemográficas, e quando encontrado p<0,05, foram aplicadas comparações múltiplas pelo teste de Tukey e Games-Howell. Foi adotado o nível de significância de 0,05.

O estudo atendeu às normas nacionais e internacionais da ética em pesquisa com seres humanos. O projeto recebeu parecer favorável do Comitê de Ética em Pesquisa do Hospital Universitário Walter Cantídio, sob o protocolo nº 041.06.12. Os pacientes autorizaram sua participação mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

Resultados

O perfil sociodemográfico dos pacientes submetidos ao transplante de fígado está exposto na Tabela 1.

Tabela 1 Distribuição dos receptores de transplante de fígado segundo o perfil sociodemográfico - Fortaleza, CE, Brasil, 2013.  

Características N %
Sexo
Masculino 120 80,0
Feminino 30 20,0
Idade (anos) Média ± DP*
18-39 28 18,8 52,4 ± 12,9
40-59 70 47,0
60-76 51 34,2
Raça
Branca 45 30,0
Parda 90 60,0
Negra 14 9,3
Indígena 1 0,7
Situação conjugal
Com companheiro 102 68,0
Sem companheiro 48 32,0
Anos de estudo Média ± DP*
Nenhum 12 8,0 9,8 ± 4,3
1-9 48 32,0
10-12 56 37,3
13-18 34 22,7
Ocupação
Ativos 58 38,7
Aposentados 53 35,3
Pensionistas, licença médica 24 16,0
Nenhum 15 10,0
Renda (Salário mínimo)
Nenhuma 15 10,0
Até 2 65 43,3
3 a 4 38 25,3
5 a 10 20 13,3
11 ou mais 12 8,0

*DP:- desvio-padrão.

R$ 678,00 reais, 2013, Brasil.

Nota(n = 150)

Segundo perfil dos participantes houve predomínio do sexo masculino (80%); a faixa etária prevalente foi de 40 a 59 anos (47%), com média de 52,4 anos; a raça com maior proporção foi a de cor parda (60%) e a maioria vivia com companheiro (68%).

O grau educacional dos participantes revelou que a maioria (37,3%) completou entre 10 e 12 anos de estudo, seguida de 1 a 9 (32%), com média de 9,8 anos. Quanto à ocupação, 38,7% encontravam-se ativos profissionalmente e, dentre os inativos, 35,3% eram aposentados. A maioria dos participantes informou renda de até dois salários mínimos (43,3%).

Os resultados das médias obtidas nos domínios do LDQOL e suas relações com os aspectos sociodemográficos estão apresentados na Tabela 2.

Tabela 2 Análise da influência das características sociodemográficas sobre os domínios de qualidade de vida da escala LDQOL depois do transplante de fígado - Fortaleza, CE, Brasil, 2013.  

Domínios
Variáveis Sintoma Efeito Concentração Memória Interação Preocupação
Média ± DP
Idade (ano) p =0,049 p =0,422 p =0,336 p =0,595 p=0,221 p=0,823
18-39 95,2±6,4‡ 90,4±11,4 95,1±12,2 82,4±22,3 83,8±9,1 87,5±15,5
40-59 94,8±7,1§ 92,5±10,1 92,7±15,4 83,8±21,2 85,2±11,3 88,8±15,4
60-76 91,3±10,8 89,9±12,9 89,9±16,4 79,6±24,0 81,6±11,4 87,1±15,7
Média ± DP
Sexo p=0,535 p=0,316 p=0,446 p=0,964 p=0,538 p=0,121
Masculino 93,7±9,1 91,7±10,7 91,7±15,9 82,2±23,2 84,1±10,8 86,9±16,4
Feminino 92,5±8,1 89,4±13,4 94,0±12,2 82,4±18,8 82,7±12,2 91,8±10,2
Média ± DP
Estudo (ano) p=0,281 p=0,536 p=0,115 p=0,710 p=0,951 p=0,741
Até 8 95,0±6,1 90,8±10,7 94,0±13,2 84,1±19,8 83,6±10,0 88,9±13,4
9-12 92,6±10,4 90,5±12,5 89,1±17,3 80,7±23,0 84,1±11,6 86,7±16,4
13-18 92,6±9,6 93,1±10,0 94,7±13,3 81,9±25,1 83,5±11,8 88,2±16,9
Média ± DP
Ocupação p=0,176 p=0,300 p=0,153 p=0,177 p=0,187 p=0,208
Inativo 92,7±9,7 90,5±11,2 90,7±16,4 80,2±23,5 82,9±11,2 86,6±16,8
Ativo 94,7±7,4 92,4±11,5 94,4±12,9 85,3±20,1 85,3±10,6 89,9±13,0
Média ± DP
Renda(SM) p=0,570 p=0,218 p=0,255 p=0,620 p=0,033 p=0,279
< 2 94,2±6,7 89,6±11,5 93,9±13,5 82,7±22,1 81,7±11,0‡ 87,6±14,3
2-3 92,5±10,8 91,8±11,8 89,6±16,9 80,3±22,2 84,2±11,7 86,2±17,3
4-7 93,8±9,1 93,9±9,6 93,4±14,8 85,2±23,4 88,2±8,2 92,0±13,7
Domínios
Sono Isolamento Esperança Estigma Função sexual* Problemas sexuais
Média ± DP
Idade (ano) p = 0,023 p = 0,521 p = 0,203 p = 0,937 p = 0,03 p = 0,173
18-39 82,2±16,0 94,8±13,0 93,4±10,0 94,4±7,7 91,3±8,6 88,8±19,2
40-59 79,7±16,6§ 97,2±10,0 92,8±13,8 93,4±12,7 91,4±14,7§ 94,1±22,9
60-76 72,6±17,3 94,8±15,3 88,1±20,0 93,7±11,5 81,0±23,4 81,9±29,7
Média ± DP
Sexo p = 0,366 p = 0,037 p = 0,792 p = 0,934 p = 0,941 p = 0,661
Masculino 78,3±17,0 97,0±11,4 91,4±15,7 93,7±10,9 88,1±18,6 89,5±25,1
Feminino 75,2±16,9 91,7±16,0 90,5±16,0 93,5±13,4 88,5±10,2 83,3±27,8
Média ± DP
Estudo (ano) p = 0,315 p = 0,148 p = 0,772 p = 0,014 p = 0,526 p = 0,734
Até 8 79,4±15,0 93,4±17,2 91,9±13,6 94,1±9,9 86,2±21,7 87,8±30,8
9-12 78,3±15,7 98,0±7,2 90,1±15,3 90,9±14,4§ 87,7±17,9 89,4±26,8
13-18 73,9±21,6 96,2±11,0 92,2±19,6 98,0±4,5 91,6±7,5 87,9±18,6
Média ± DP
Ocupação p = 0,400 p = 0,800 p = 0,374 p = 0,515 p = 0,168 p = 0,554
Inativo 76,8±18,1 95,7±13,8 90,3±17,0 93,2±10,2 86,0±21,6 84,5±31,7
Ativo 79,2±15,0 96,3±10,4 92,7±13,5 94,4±13,3 91,0±9,5 93,5±13,5
Média ± DP
Renda(SM) p = 0,069 p = 0,257 p = 0,950 p = 0,046 p = 0,677 p = 0,017
< 2 78,8±16,4 94,0±16,0 91,6±13,8 93,6±11,8‡ 88,6±16,5 98,1±7,8
2-3 74,1±17,1 97,6±8,8 90,7±15,4 91,6±12,7§ 89,4±16,9 87,5±26,3
4-7 82,9±17,4 97,1±9,4 91,2±20,6 98,2±5,0 85,0±21,0 66,6±39,0

*O domínio Função sexual teve n = 94.

O domínio Problemas sexuais teve n = 42.

O primeiro e o terceiro grupos diferiram entre si.

§O segundo e terceiro grupos diferiram entre si.

Nota(n = 150)

Com relação à faixa etária, no pós-transplante, os pacientes com idade igual ou maior de 60 anos apresentaram menores valores médios em 10 dos 12 domínios do LDQOL, em comparação com os demais grupos. A idade interferiu sobre os resultados nos domínios sintomas da doença hepática (p = 0,049), sono (p = 0,023) e função sexual (p = 0,03). Encontrou-se diferença significativa entre a faixa etária de 18 a 39 anos e 60 a 76 para o domínio sono (82,2 vs. 72,6; p=0,042) e entre a faixa de 40 a 59 anos e 60 a 76 para função sexual (91,4 vs. 81,0; p=0,033), com diferença mais fraca (p=0,060) entre as duas últimas nos domínios sintomas (94,8 vs. 91,3) e sono (79,7 vs. 72,6).

Quanto ao sexo dos participantes da pesquisa, foi observado equilíbrio entre os escores de qualidade vida na maioria das dimensões no período pós-transplante. Os homens apresentaram melhores valores significativos de QV do que as mulheres somente na dimensão isolamento (97,0 vs. 91,7; p = 0,037).

Na análise da escolaridade, na maioria dos domínios não foi encontrada correlação entre anos de estudo e qualidade de vida dos participantes, havendo tendência para homogeneidade das respostas. Foi identificada diferença entre as médias apenas no domínio estigma da doença (p = 0,014), no qual os pacientes com 13 anos ou mais de estudo apresentaram maiores valores, em comparação com os grupos de menor nível de instrução. Diferenças significativas foram obtidas na comparação entre pacientes com até oito anos de estudo e de 13 a 18 anos (94,1 vs. 98,0; p=0,037) e entre os grupos com 9 a 13 anos e 13 a 18 anos (90,9 vs. 98,0 p= 0,002). Não foram observadas correlações entre ocupação e qualidade de vida entre os domínios do LDQOL.

Com relação ao nível socioeconômico verificou-se associação entre renda e a qualidade de vida dos pacientes (r = -0,129; p = 0,001). A renda interferiu nos resultados somente dos domínios qualidade da interação social (p = 0,033) e estigma da doença (p = 0,046). Na análise de comparações múltiplas, os pacientes com renda inferior a dois salários mínimos (SM) apresentaram diferenças significativas quando comparados aos que recebiam entre quatro a sete SM nos domínios qualidade da interação social (81,7 vs. 88,2; p = 0,008) e estigma (93,6 vs. 98,2; p = 0,027), enquanto o grupo com renda de dois a três SM diferiu daquele com renda de superior a quatro SM no domínio estigma (91,6 vs. 98,2; p = 0,003).

Discussão

Os resultados referentes ao perfil demográfico indicaram que a maioria dos participantes do estudo era do sexo masculino (80%), estava na faixa etária entre 40 e 59 anos (47%) e igual ou acima de 60 anos (34,2%), cor parda (60%) e vivia com companheiro (68%). A porcentagem de homens nesta pesquisa foi superior à encontrada em estudo brasileiro semelhante (67,3%)8 e mais próxima a outro estudo com candidatos ao transplante hepático (75,3%)10.

A análise da qualidade de vida após o transplante de acordo com o sexo demonstrou homogeneidade na maioria dos escores dos domínios do LDQOL. Esse resultado pode ser justificado pela diferença no número da amostra.

A faixa etária predominante foi reiterada por estudo nacional que analisou os resultados dos transplantes de órgãos e tecidos por um período de 10 anos, no qual foi observado que 49% dos receptores estavam na faixa etária entre 41 a 60 anos11. Todavia, estudo internacional sobre diferenças sociodemográficas em serviços de transplante de fígado obteve percentual superior (79,3%), considerando o intervalo de idade de 40 a 65 anos12.

Neste estudo, houve associação entre idade mais avançada e declínio de escores de QV (p<0,05), nos domínios sintomas da doença hepática, sono e função sexual.

Os dados sobre raça divergiram de estudos internacionais, onde houve predomínio da raça branca entre receptores de transplante de fígado na Pensilvânia, com 75,8%13 e 95,6% em Centro Médico da Universidade de Pittsburgh14. Essas diferenças estão relacionadas às variações regionais no estado brasileiro, considerando que os dados foram proporcionais aos da população geral do Nordeste e Norte do país, correspondendo a 62,7% e 71,2% de cor parda, respectivamente, e esses foram os locais de maior procedência dos pacientes atendidos no centro de transplante pesquisado15.

Estudos que avaliam a interferência dos fatores demográficos na qualidade de vida de pacientes indicados ou submetidos ao transplante são escassos. Em pesquisa na Itália que comparou a qualidade de vida, antes e depois do transplante, as características demográficas não evidenciaram diferenças significativas entre os grupos16. Outro estudo, realizado em Cambridge, Inglaterra, incluindo pacientes com seguimento de 30 anos pós-transplante, demonstrou que receptores do sexo feminino e com idade maior que 60 anos foram importantes fatores associados com a redução no funcionamento físico da escala SF-3617.

O estado civil dos participantes esteve de acordo ao encontrado em pesquisa conduzida na Bélgica, na qual os pacientes transplantados de fígado eram majoritariamente casados, representando 69,8% da amostra18.

O nível de instrução dos pacientes foi considerado intermediário, pois 37,3% relataram escolaridade entre 10 e 12 anos e 40% tinham menos do que 10 anos de estudo, condizente ao encontrado em estudo brasileiro realizado com pacientes no pré e pós-transplante19, no qual a maioria tinha somente o ensino fundamental, e diferiu do encontrado em dois estudos internacionais em que 56,4% e 67,6% dos receptores de transplante de fígado tinham nível superior20-21.

Nesta variável, identificou-se associação positiva entre anos de estudo e o nível de QV no domínio estigma da doença (p = 0,014), sem diferenças significativas para as demais dimensões avaliadas.

Diversos estudos têm abordado a influência dos aspectos socioeconômicos na saúde e qualidade de vida dos indivíduos. Assim, o grau de escolaridade é considerado um elemento importante na análise dos determinantes da saúde de uma população. Estudos têm demonstrado a relação entre as condições sociais e situação de saúde. Dentre essas, o nível educacional tem influência direta na atenção à saúde das pessoas, podendo afetar a formulação de conceitos de autocuidado em saúde, o controle do ambiente, comportamentos de risco, prevenção e estilos de vida22.

Em estudo que examinou a influência dos fatores socioeconômicos e demográficos na qualidade de vida de receptores de transplante de fígado, os pacientes com maior nível de educação tiveram escores significativos no SF-36 no domínio Funcionamento Físico20.

Quanto à ocupação, a maioria (38,7%) dos pacientes encontrava-se profissionalmente ativa, seguida por aposentado (35,3%), corroborando com estudo no qual empregados e donas de casa somaram 37,3%23.

Com o avanço da doença hepática crônica e suas manifestações clínicas, muitos pacientes ficam impossibilitados de trabalhar e precisam abandonar seus empregos, seja por motivos clínicos ou para realização do tratamento da doença em um centro de transplante fora da sua cidade. O retorno ao trabalho e participação social são parâmetros importantes na avaliação do sucesso do transplante de fígado, considerando todos os encargos físicos e sociais acarretados pela doença e necessidade de tratamento.

Neste estudo, não foi identificada correlação entre ocupação e qualidade de vida, entre os domínios do instrumento utilizado. A influência positiva da atividade laboral na vida desses indivíduos foi destacada em estudo, o qual revelou que os receptores empregados obtiveram maior média de pontuações quando comparados aos desempregados/aposentados dentro dos seguintes domínios do SF-36: funcionamento físico (p<0,001), papel físico (p=0,0012), vitalidade (p=0,01), funcionamento social (p=0,037), dor corporal (p=0,14) e saúde geral (p=0,0972)20.

Corroborando com esses dados, em outro estudo com 353 receptores de fígado na Finlândia, utilizando o instrumento 15D questionnaire e avaliação da capacidade de trabalho, os autores identificaram que, entre os 347 respondentes, um terço de todos os pacientes estava empregado no momento do estudo, não havendo diferenças de acordo com a etiologia de indicação. Entre os entrevistados em idade ativa (20-65 anos de idade), com n=268, 44% estavam ativos e os pacientes tiveram melhor QV do que os entrevistados em idade produtiva que não eram empregados, com diferença clinicamente importante e estatisticamente significativa (p<0,0001)24.

A renda predominante dos participantes do estudo foi considerada baixa, pois a maioria recebia até dois salários mínimos (43,3%) e de três a quatro (25,3%), totalizando 68,5% da amostra. Esses dados foram similares aos encontrados em um estudo retrospectivo realizado na Itália, com 221 receptores de transplante hepático, que teve 80% dos receptores com status socioeconômico baixo25.

Diversos autores têm destacado a influência da renda sobre a saúde dos indivíduos, considerando que pessoas com maior nível de renda podem usufruir de melhor status de saúde, por permitir uso da renda na aquisição de bens e serviços de saúde (consultas médicas, medicamentos, planos de saúde, exames, tratamentos), além de melhores condições de moradia, educação e cuidados preventivos26.

Estudo de caso-controle na Hungria, conduzido com 287 casos de doença hepática crônica e 892 controles, identificou que pessoas com situação financeira percebida como ruim ou muito ruim tiveram um risco 80% maior de desenvolvimento da doença, em comparação com pessoas com situação financeira boa ou muito boa27.

Da mesma forma, estudo com pacientes submetidos ao transplante de fígado identificou que os resultados relativos à falência do enxerto, morte e ocorrência de complicações apresentaram melhores respostas naqueles com maior status socioeconômico. As taxas de mortalidade triplicaram em receptores com nível mais baixo (18,6%), quando comparados aos de alto nível (4,5%). As análises de regressão uni e multivariada de Cox revelaram que quanto mais elevado o grau de educação e status socioeconômico menor o risco de morte do paciente (p=0,05, p=0,03, respectivamente), sendo o status socioeconômico um preditor independente significativo de sobrevida global desses pacientes25.

Salienta-se que, por se tratar de um estudo transversal, não foi possível verificar as informações sociodemográficas antes do transplante para efeito de comparação com o período pós-transplante. Assim, os resultados apontam para a importância de futuras pesquisas de caráter longitudinal para aprofundar o conhecimento das características estudadas e o impacto na qualidade de vida desses indivíduos.

Ademais, a generalização dos resultados é limitada aos contextos similares ao da realidade brasileira, considerando a variação das condições demográficas e sociais em diferentes países.

Conclusão

A análise dos aspectos sociodemográficos depois do transplante revelou que houve influência negativa do avanço da idade sobre os escores dos domínios sintomas da doença hepática, sono e função sexual; homogeneidade dos resultados das médias por sexo, com valor superior significativo para o sexo masculino no domínio isolamento; e que receptores com maior nível de instrução obtiveram melhores escores no domínio estigma da doença. Os pacientes com maior renda obtiveram melhores valores nos domínios qualidade da interação social e estigma da doença.

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Recebido: 29 de Outubro de 2015; Aceito: 20 de Abril de 2016

Autor correspondente: Maria Isis Freire de Aguiar. Rua Alexandre Baraúna, 1115 - Bairro Rodolfo Teófilo. CEP 60430-160 - Fortaleza, CE, Brasil. isis_aguiar@yahoo.com.br

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