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Revista da Escola de Enfermagem da USP

versão impressa ISSN 0080-6234versão On-line ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.51  São Paulo  2017  Epub 22-Jan-2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1980-220x2017018803261 

Artigo Original

Ensinar e aprender administração em enfermagem no contexto hospitalar: um enfoque à luz de Pichon-Rivière*

Dagmar Elaine Kaiser1 

Clarice Maria Dall'Agnol1 

2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Escola de Enfermagem, Porto Alegre, RS, Brasil.


Resumo

OBJETIVO

Analisar como se articulam alunos, professores e profissionais de enfermagem no ensinar e aprender administração em enfermagem na graduação, em um hospital universitário público.

MÉTODO

A pesquisa insere-se na abordagem qualitativa, ancorada no referencial de Pichon-Rivière sobre grupo operativo. A coleta das informações deu-se entre outubro de 2013 e setembro de 2014 e consistiu em Questionário Autoadministrado, Observação Participante e Grupo Focal. As informações foram submetidas à análise temática.

RESULTADOS

Do corpus da análise resultaram quatro categorias temáticas: o desconhecido e o inevitável; no ir e vir, atitudes, valores e novos vínculos; o diálogo e modos de agir no ensinar/aprender; a emergência da práxis.

CONCLUSÃO

A articulação entre alunos, professores e profissionais de enfermagem dá-se em um ir e vir de atitudes, valores e novos vínculos em que o diálogo viabiliza os modos de agir no ensinar/aprender administração em enfermagem na graduação, possibilitando a emergência da práxis.

DESCRITORES: Pesquisa em Administração de Enfermagem; Educação em Enfermagem; Estudantes de Enfermagem; Grupos Focais

Abstract

OBJECTIVE

Analyze the articulation of students, professors (supervisors of the undergraduate practicum) and nursing professionals in teaching and learning nursing management at graduation in a public university hospital.

METHOD

This is a study of qualitative approach, anchored in the operative group reference of Pichon-Rivière. Data collection was held between October 2013 and September 2014 and consisted of a self-administered questionnaire, participant observation and focus group. The information was submitted to thematic analysis.

RESULTS

The thematic analysis of the corpus resulted in four themes: the unknown and the inevitable; in coming and going, attitudes, values and new bonding; the dialogue and ways of acting in the teaching/learning; the emergence of praxis.

CONCLUSION

The articulation among students, supervisors and nursing professionals occurring in a coming and going of attitudes, values and new bonding, in which the dialogue enables ways of acting in the teaching/learning of nursing management in graduation, allowing the emergence of praxis.

DESCRIPTORS Nursing Administration Research; Education; Students; Nursing; Focus Groups

Resumen

OBJETIVO

Analizar cómo se articulan los alumnos, profesores y profesionales de enfermería en la enseñanza y aprendizaje de la administración de enfermería en el pregrado, en un hospital universitario público.

MÉTODO

La investigación se inserta en el abordaje cualitativo, anclado en el marco de referencia de Pichon-Rivière acerca del grupo operativo. La recolección de las informaciones ocurrió entre octubre de 2013 y septiembre de 2014, se constituyó en un Cuestionario Autoadministrado, Observación Participativa y Grupo Focal. Las informaciones fueron sometidas al análisis temático.

RESULTADOS

Del corpus del análisis resultaron cuatro categorías temáticas: lo desconocido y lo inevitable; el ir y venir, actitudes, valores y nuevos vínculos; el diálogo y los modos de actuar en la enseñanza/aprendizaje; la urgencia de la praxis.

CONCLUSIÓN

La articulación entre alumnos, profesores y profesionales de enfermería se da en un ir y venir de actitudes, valores y nuevos vínculos en que el diálogo hace viable los modos de actuar en la enseñanza/aprendizaje de la administración de enfermería en el pregrado, posibilitando la urgencia de la praxis.

DESCRIPTORES Investigación en Administración de Enfermería; Educación en Enfermería; Estudiantes de Enfermería; Grupos Focales

Introdução

O presente artigo situa o ensinar e aprender administração em enfermagem na graduação como uma contínua e dialética experiência de aprendizagem, na qual alunos, professores e profissionais de enfermagem interatuam no cenário da prática, articulando-se com um tempo próprio, em um processo criador e de descobertas1. Desta maneira, há que se considerar que o estudo corrobora com a epistemologia convergente2 ao remeter para uma visão integradora de homem em situação.

A razão de realizar o estudo tem origem na vivência docente na área de Administração em Enfermagem impulsionada em direção ao entendimento do aqui e agora com a história pessoal dos envolvidos com o ensino em um hospital universitário público. Nesta caminhada docente, por meio da observação empírica, constatou-se que alunos, professores e profissionais de enfermagem vivenciam inúmeras situações nas quais se relacionam expressando desejos e emoções próprias ao mundo acadêmico e hospitalar, experimentando sentimentos por vezes ambivalentes. O aluno, ao encontrar-se investido academicamente na função gerencial do enfermeiro, depara-se com enfrentamentos capazes de desencadear impressões muitas vezes conflitivas e antagônicas na unidade de internação onde se dá o estágio e que repercutem no seu aprendizado3, no atendimento ao paciente e na cultura organizacional como um todo4.

O professor, preocupado em melhorar as abordagens pedagógicas e a inserção dos alunos na equipe de enfermagem e em conjeturar um processo grupal que valorize não apenas o aluno, mas também o próprio professor e os profissionais de enfermagem na relação com o outro, depara-se com a complexa realidade que envolve o aprendizado do aluno e a qualificação das equipes para a mudança e a transformação.

Já os profissionais de enfermagem, ao experimentarem a dimensão interativa nos processos grupais que integram o ensinar e aprender na produção de cuidados, questionam-se quanto ao seu preparo para uma ação orientada para a aprendizagem. Estas dimensões conformam depósito de motivos, necessidades e aspirações que subjazem em torno da tarefa2,5) e reportam à interação no processo de aprendizagem.

Para compreender as interações desta inserção grupal busca-se apoio nas teorizações do psiquiatra e psicanalista argentino Enrique Pichon-Rivière2, de origem suíça, que faz apontamentos acerca das relações de um grupo para chegar à sustentação e compreensão das pautas sociais internalizadas e que organizam as formas concretas de interação, ou seja, das relações sociais e dos sujeitos inseridos nessas relações6, em uma proposta dialética. A tarefa5, conceito estruturante do processo grupal, se dá em conjunto e vai além da ideia de um trabalho ou de uma atividade a ser desempenhada, como as representações do senso comum poderiam levar a entender5, pois significa algo dinâmico, em movimento, quando a qualidade do ensinar e aprender administração em enfermagem pode ter repercussões no cuidado em saúde e no desenvolvimento profissional. Nessa perspectiva, a atuação grupal instrumentaliza seus integrantes, ou seja, a tarefa mobiliza o grupo e à dinâmica que permeia e articula sua trajetória nas dimensões explícitas e implícitas. Isto implica em um fazer e um refletir criticamente acerca do processo educativo7) e das relações que vão se estabelecendo em prol da aprendizagem8, pois o que é veiculado e exposto é, primeiramente, aquilo que está formalmente colocado no ensino da administração em enfermagem, como por exemplo, os objetivos das atividades de ensino programadas. O que vem depois e precisa ser conjeturado é o implícito, que dá pistas na forma de resistências e dificuldades, ou seja, as pré-tarefas vão se revelando com o movimento grupal e fornecem subsídios para intervenções e reorientações do ensino e da aprendizagem da administração em enfermagem, demandando um pouco mais de atenção e capacidade em realizar analogias e ilações.

Nessa perspectiva, o referencial pichoniano fornece um importante arcabouço teórico que subsidia a compreensão e análise para a inserção progressiva dos alunos no campo de estágio hospitalar, além de permitir identificar as preocupações presentes para o desenvolvimento das atividades de estágio, bem como explorar ideias e vivências relacionadas à interação grupal para o gerenciamento na produção de cuidados de enfermagem em convergência às estratégias adotadas pelos envolvidos quanto aos avanços e limitações do aprendizado1. E, a partir daí, vislumbram-se caminhos para promover condições adequadas ao ensinar e aprender administração em enfermagem no cuidado dos pacientes9-10 e que qualifiquem a performance da equipe de enfermagem neste ínterim.

Considerando a contextualização apresentada, estabeleceu-se como objetivo deste estudo1 analisar como se articulam alunos, professores e profissionais de enfermagem no ensinar e aprender administração em enfermagem na graduação, em um hospital universitário público, ampliando o olhar de forma que, nesse contexto formativo, científico, histórico e social, os atores envolvidos possam desenvolver, em grupo, alternativas de superação das contradições diante dos obstáculos presentes no espaço assistencial.

Método

O estudo realizado se insere na vertente qualitativa11, apoiado no referencial pichoniano2 de grupo operativo, exercitando uma articulação dialética entre o mundo real e o sujeito. O campo de estudo deu-se em um hospital universitário, público, quaternário e geral. Desse modo, além de focalizar relações interpessoais entre alunos e professores em atividades teórico-práticas da administração em enfermagem e profissionais de enfermagem alocados em unidades clínicas e cirúrgicas que sediam estágio no contexto hospitalar, problematizaram-se, também, situações de ensino e de aprendizagem da administração em enfermagem produzidos e assumidos a partir do conhecimento explícito que norteia tais atuações.

O quadro 1 apresenta um panorama da composição dos participantes do estudo, levando em conta os três procedimentos de coleta de informações.

Quadro 1 Procedimentos de coleta de informações e participantes do estudo - Porto Alegre, RS, Brasil, 2015. 

A Observação Participante11 foi realizada pela pesquisadora acompanhando o estágio de dois grupos de alunos, de segunda a quinta feira, das 7 horas às 13 horas e quinze minutos, totalizando 125 horas, distribuídas equitativamente nas duas unidades. Os registros foram feitos em um diário de campo e em muitos momentos esclareceram situações, além de proporcionarem uma visibilidade sobre a movimentação grupal, o que implicou em ouvir, escutar, ver e fazer uso de todos os sentidos para perpetrar no novo.

O Questionário Autoadministrado11 foi construído com base na vivência prévia da pesquisadora e o referencial pichoniano, sendo composto de cinco questões abertas: quais são suas preocupações com relação ao início e desenvolvimento do estágio de administração em enfermagem; quando/em que momento estas preocupações são superadas; descreva algumas situações que (des)motivam a interação grupal, na unidade de internação campo de estágio; você considera que existe (ou não) oportunidade de diálogo construtivo na equipe que envolve professor, aluno, enfermeiro e técnico/auxiliar de enfermagem? Comente sobre isso; você gostaria de se manifestar acerca de aspectos que não foram mencionados e que interferem no andamento do estágio? Explique. O questionário foi submetido à validação por dois enfermeiros doutorandos que já haviam assumido estágio de docência nas atividades de ensino da Administração em Enfermagem hospitalar. Os instrumentos ficaram disponíveis para preenchimento nas unidades de estágio, sendo que os participantes do estudo dispuseram de 10 dias para o seu preenchimento e devolução em caixas coletoras dispostas nas unidades.

O Grupo Focal11-12 ocorreu com a realização de dois encontros, de 2 horas cada, gravados e transcritos integralmente. No primeiro encontro, foram abordados dois temas geradores: primeiramente discutiu-se acerca dos medos e ansiedades de alunos, professores e profissionais de enfermagem na inserção em campo de estágio; e, em um segundo momento, como vinha sendo percebida a interação entre todos na busca da organização do grupo para o desenvolvimento do gerenciamento do cuidado. No segundo encontro, debateu-se sobre até que ponto alunos, professores e profissionais de enfermagem, copartícipes no processo formativo para o gerenciamento na produção de cuidados, vinham aproveitando as oportunidades em meio às atividades acadêmicas para a troca de experiências e saberes gerenciais, no sentido de fortalecer o compromisso com o aprendizado e com o grupo. Em cada encontro houve um período de aquecimento do grupo, algo essencial para a troca de ideias e dinâmica grupal. Contemplou-se, também, nos encontros, um período de síntese e fechamento das discussões. Com a intenção de viabilizar a participação no estudo, os encontros foram realizados em uma sala previamente agendada, visando proporcionar conforto e privacidade do grupo na realização dos encontros, de maneira a permitir que todos os participantes se encontrassem no campo de visão entre si e com a pesquisadora e a observadora não participante, fomentando, assim, a participação e interação grupal. A pesquisadora conduziu as discussões e contou com o auxílio da observadora não participante em aspectos logísticos como monitoramento dos equipamentos de gravação, preparo do ambiente físico, controle de tempo, além de registrar as formas não verbais de comunicação dos participantes e o código do participante no início de sua fala, com vistas a facilitar a compreensão dos diálogos.

Quanto aos aspectos éticos envolvidos no estudo, seguiram-se recomendações contidas na Resolução 466/1213, que apresenta as diretrizes e normas regulamentares de pesquisas envolvendo seres humanos. A pesquisa foi aprovada em Comitê de Ética em Pesquisa institucional e está cadastrada como Projeto nº 13.0399, CAAE 20568813.7.0000.5327.

As informações coletadas foram submetidas à análise de conteúdo temática11) em um processo analítico crítico que considerou os conteúdos conflitivos e antagônicos da realidade estudada na procura de conexões que a empiria mantém com o plano das relações grupais. O método analítico desdobrou-se em três etapas. Inicialmente, realizou-se uma pré-análise ordenando as informações, o que consistiu na transcrição de áudio e na (re)leitura do material proveniente dos questionários, dos registros da Observação Participante e dos encontros do Grupo Focal. Em seguida, classificaram-se as informações, em um processo que teve presente o embasamento teórico dos pressupostos pichonianos a partir das informações obtidas. Esse momento classificatório compôs dois momentos distintos: a leitura exaustiva e repetida dos textos, contemporizando uma relação interrogativa com eles e a constituição de um corpus. Dessa forma, foi possível compor e refinar o movimento classificatório, conformando subcategorias e categorias temáticas. Por fim, a etapa de análise final compreendeu a inflexão entre o material empírico e o teórico em um verdadeiro movimento dialético, momento em que o olhar e a sensibilidade, ancorados no referencial teórico pichoniano, compôs um movimento de cotejo teoria-empiria.

Resultados

Na apresentação dos resultados adotaram-se codificações próprias que remetem aos diferentes procedimentos da coleta das informações. Assim, no que tange a:

a) Questionários Autoadministrados: a codificação Q-A1, Q-A2 [...] corresponde aos alunos; Q-P1, Q-P2 [...] aos professores; Q-E1, Q-E2 [...] aos enfermeiros; e Q-T/AE1, Q-T/AE2 [...] aos técnicos e auxiliares de enfermagem.

b) Grupo Focal: a codificação GF-M corresponde ao moderador, GF-A1, GF-A2 [...] ao aluno, GF-P1, GF-P2 [...] aos professores; GF-E1, GF-E2 [...] aos enfermeiros; GF-T/AE1, GF-T/AE2 [...] aos técnicos ou auxiliares de enfermagem.

c) Observação Participante: adotou-se OP para registro dos apontamentos, havendo menções genéricas aos grupos de alunos, professores e profissionais de enfermagem.

O Quadro 2 sintetiza a organização dos resultados sinalizados pelos participantes da pesquisa.

Quadro 2 Categorias e Subcategorias Temáticas - Porto Alegre, RS, Brasil, 2015. 

A seguir detalham-se os resultados apresentados no Quadro 2.

O desconhecido e o inevitável - Nas atividades de ensino e aprendizagem da administração em enfermagem no hospital, alunos, professores e profissionais de enfermagem deparam-se com novas experiências e novas impressões ao verem e serem vistos, ao ouvirem e serem ouvidos no grupo, interpolando-os quanto à novidade e ao ineditismo que trazem consigo. Sendo assim, o enfrentamento do desconhecido e inevitável, que no início dessas atividades nada mais é do que a explosão de um sentimento adormecido, tende a permitir que todos se apresentem e revelem quem são. Decorre que essa interação imprime uma teia de relações formada por atos e comunicação, iniciando um processo em que impressões e identidades reveladas dão-se na presença do outro e, por vezes, confrontam-se com impressões e identidades tanto daqueles que lhe são contemporâneos, quanto àquelas advindas de experiências anteriores.

Na (in)segurança perante o novo, são intensas as ansiedades no início do estágio de administração em enfermagem. A Figura 1 sintetiza essas ansiedades.

Figura 1 Ansiedades básicas que mobilizam alunos, professores e profissionais de enfermagem no início das atividades de ensino de administração em enfermagem no contexto hospitalar - Porto Alegre, RS, 2015. 

Alunos, professores e profissionais de enfermagem reportam-se ao gerenciamento na produção de cuidados de enfermagem como um processo participativo tendo no outro o aporte às suas necessidades para que juntos possam experimentar o desenvolvimento, tanto profissional quanto acadêmico:

Durante o desenvolvimento do estágio me preocupo em oportunizar experiências distintas aos alunos, mostrar o 'fazer' do enfermeiro. Eles chegam com dificuldades e me preocupo em traçar essa ponte. (Q-E6).

Por outro lado, as motivações que impulsionam ou paralisam o ensinar/aprender foram lembradas a partir de vivências:

(...) o estágio de administração tem uma característica peculiar em nosso currículo, pois o mesmo representa a oportunidade do aluno inserir-se e trabalhar com a equipe de enfermagem, assumindo as funções gerenciais do enfermeiro, além das funções assistenciais até então enfatizadas. A interação entre alunos e profissionais, enfermagem e outros, é uma condição para o desenvolvimento do estágio. Por parte da equipe, é muito importante perceber e criar um clima de confiança, parceria e cooperação, valorizando o papel que desenvolvem na formação do enfermeiro (Q-P5).

Nós, técnicos, consideramos este estágio como uma troca de experiências muito intensa com os alunos. Durante a convivência os laços estreitam-se, conquistando respeito, confiança e troca de saberes (Q-T/AE13).

Os compromissos assumidos pelos alunos, professores, enfermeiros e técnicos/auxiliares de enfermagem na (re)leitura crítica da realidade, muitas vezes são apontados como entraves à interação pelo não estabelecimento de uma relação de civilidade no convívio. Dessa forma, no que se refere ao setting grupal, os acordos e as combinações foram tidos como necessários ao trabalho em equipe, uma vez que esses aspectos formam as regras do estágio, mas nem sempre o movimento do grupo:

(...) a cada novo grupo de estágio, o contrato inicial e os compromissos assumidos, bilateralmente, são cruciais para a integração dos estagiários na equipe (Q-P6).

No ir e vir de atitudes, valores e novos vínculos - Alguns fenômenos da interação humana apresentaram-se com certa regularidade no movimento grupal com base no caráter dual de como forças opostas influenciam o ensinar/aprender. Processos vinculares do grupo na afiliação e pertença foram identificados nas práticas clínicas, no campo acadêmico/profissional:

Ser aceito é uma necessidade em todos os grupos novos que me insiro, mas nesse eu acho que tem um pouquinho mais de necessidade em provar que se pode. Não é só integrar a equipe, mas fazer e conseguir ajudar a equipe a trabalhar. E dar conta disso tudo (GF-A1).

De modo genérico, gestos, falas e o próprio compromisso assumido pelos envolvidos com o estágio permitiram identificar ideologias de pertinência relacionadas com os conteúdos de administração em enfermagem e os resultados de aprendizagem do aluno:

Os profissionais de enfermagem chegam cedo à unidade, antes das 7h, e se organizam para o cuidado dos pacientes elaborando consensos quanto às metas a atingir no turno de trabalho considerando competências técnicas, fazendo-o conjuntamente com alunos e professor (OP).

Por outro lado, não se pode deixar de enfatizar, também, algumas limitações vivenciadas no percurso do estágio de administração em enfermagem que demandou investimentos mais consistentes em modificar tais condições. Uma enfermeira reportou para conteúdos latentes da máxima relevância e de implicação direta no trabalho gerencial no que diz respeito à cooperação versus sabotagem:

(...) eu, quando oriento o aluno, estou investindo para que dali em diante ele consiga fazer sozinho. Talvez eu perca tempo hoje, mas eu vou ganhar amanhã, até porque esse aluno já vai caminhar com as próprias pernas (GF-E1).

Localiza-se, nessa demanda, que facilidades de comunicação, os ruídos e os mal-entendidos são relacionadas à insegurança pessoal ou de ser mal interpretado ou, ainda, ao medo de sofrer com reações negativas ou de descrédito na equipe. Essas situações foram tipificadas:

É importante o aluno conhecer o processo de trabalho do técnico de enfermagem para que ele se dê conta que há momentos que este não poderá atendê-lo e isso pode ser justificado pela demanda de trabalho e não porque, simplesmente, não deseja atender a solicitação do aluno (Q-P2).

Assim, perdem-se de vista dimensões da aprendizagem e dos obstáculos que figuram para que alunos possam compreender o universo em que estão inseridos e qualificar esse espaço:

As várias atividades que aconteceram no estágio fizeram de mim o aluno que sou hoje. E a equipe tem grande participação nisso, por ter confiado em mim e permitido que eu assumisse, com eles, situações que requeriam a presença do enfermeiro (Q-A12).

Perde-se de vista, também, que a capacidade ou disposição positiva ou negativa das pessoas para se articularem no estágio, ou seja, o telê positivo e negativo, adjudica subjetividades impregnadas de conteúdos coletivos que precisam se tornar cada vez mais conscientes e criticados para que as pessoas não se alienem nem convirjam para alienação de terceiros:

O estágio nos dá a oportunidade de trabalhar com bons alunos, engajados e comprometidos do início ao fim do estágio. Esses são os profissionais que gostaríamos de ter ao nosso lado nas unidades (Q-E2).

O diálogo e modos de agir no ensinar/aprender - Dos resultados obtidos emergiram sinalizações e assinalamentos dotadas de envolvimento do grupo de alunos, professor e profissionais de enfermagem quanto à peculiaridade do trabalho grupal, incluindo conflitos, ansiedades, não ditos, dentre outras expressões e indicativos que ocultam desejos, jogos de poder; especificidades da prática gerencial, dificuldades, tensões, entendimentos e desafios das pessoas, inclusive, com possibilidades resistenciais e espaços de transformação. Alunos revelaram por meio de sinalizações e assinalamentos como constroem e exercem seus papéis a partir do trabalho da equipe, onde contribuem com impressões, sentimentos e possibilidades de melhoria:

Estava previsto, na escala dos enfermeiros, a distribuição dos pacientes da unidade por enfermeiro. Havia também a escala dos técnicos de enfermagem. Assim, logo fizemos uma escala nossa, dos alunos, para deixar claro quais seriam as atividades que iríamos fazer (Q-A6).

Além disso, suas referências à busca de soluções quanto à insatisfação na qual transitam as relações interpessoais e a liberdade e confiança de enfrentar o estágio sem medo, ainda que existam obstáculos são necessárias ao grupo no alcance da aprendizagem, mesmo carregadas de contradições e conflitos no enfrentamento de obstáculos:

A interação do aluno com a equipe muitas vezes aparece como obstáculo ao aprendizado. Muitas vezes referem sentir-se pouco acolhidos pela equipe em meio às suas dúvidas perante as atividades do campo de estágio (Q-P5).

A emergência da práxis - Conteúdos explícitos e implícitos expandem possibilidades do ensinar/aprender administração em enfermagem no contexto hospitalar, quando a trajetória da tarefa grupal frente às ações conjuntas mostra que dimensões individuais, sociais, culturais e políticas reiteram uma práxis em que a parceria entre alunos, professor e profissionais de enfermagem revela-se imprescindível para uma articulação particularmente favorável ao ensino e aprendizado gerencial (Figura 2).

Por outro lado, a riqueza do trabalho da enfermagem hospitalar e a importância de suas contribuições na identificação das necessidades para a formação e o desenvolvimento de capacidades gerenciais pelo aluno foram tidos como "ingredientes essenciais à aprendizagem e para a transformação da realidade" (Q-E1).

Figura 2 Momentos situacionais que mobilizam a articulação grupal no ensino e na aprendizagem da administração em enfermagem no contexto hospitalar - Porto Alegre, RS, Brasil, 2015. 

Discussão

No início do estágio é intensa a mobilização de ansiedades básicas. Localiza-se nessa demanda a pluralidade e a conflitualidade do processo educativo e a prática gerencial do enfermeiro em coerência com a profissão, com seus princípios éticos, em espaços coletivos, com valorização das subjetividades e na perspectiva de articulação entre as esferas gerencial e do cuidado de forma ativa, crítica e propositiva. A revelação dessas ansiedades não acontece repentinamente, mas sob a forma de resgate de memórias que, aos poucos, descortinam comportamentos nos envolvidos ao se depararem com a realidade, assumindo posição defensiva em um espaço pedagógico de manifestação coletiva e não apenas de sua alteridade, podendo dificultar, ou mesmo paralisar, demandas do estágio. Nesse contexto, aluno, professor e profissionais de enfermagem relacionam-se por meio de ações voluntárias ou inconscientemente exercidas e/ou consentidas por cada um ou pelo grupo ao se depararem com o desconhecido e o inevitável. A tarefa explícita, então, corresponde ao objetivo comum pelo qual o grupo se organiza e a implícita envolve a elaboração das ansiedades básicas para suplantar os obstáculos da tarefa em si5,14 na (in)segurança perante o novo. Há, então, uma importante preocupação de ensino, aprendizagem e serviço com os aspectos inconscientes do acontecer grupal.

Quando um conjunto de pessoas, motivadas por necessidades semelhantes, se une em torno de uma atividade específica, relações interpessoais conquistam espaço na busca de informações e novos conhecimentos2. Os envolvidos, tendo como foco o upgrade do aluno, no sentido de avançar na aprendizagem, promovem por meio de atitudes colaborativas novas teias de conexões quanto à problemática identitária tão buscada pelo aluno no estágio de administração em enfermagem, evocando capacidades a serem apreendidas em grupo. No entanto, o alcance remete ao interjogo em meio a pares contraditórios: necessidade e satisfação2. A inserção acadêmica na equipe de enfermagem nada mais é do que a vivência da dimensão do trabalho desses profissionais que necessitam, do mesmo modo, buscar conhecimentos e habilidades necessárias ao profissional competente, compromissado e responsável1,15 para que as necessidades de aprendizagem do aluno e as do campo de prática estejam contempladas7,16. Necessidades e motivações que impulsionam ou paralisam e conjeturam que o grupo se movimenta a partir de componentes que não estão explícitos, sendo muito importante romper essas estruturas estereotipadas que dificultam a interação para promover transformações que tornam o ensinar/aprender manifesto.

No setting grupal, os acordos e as combinações são assumidos no grupo como orientações, regras e normas. Importa, então, como alunos, professores e profissionais de enfermagem propõem, sancionam e ratificam o setting grupal ou o negam, rejeitam e opõem-se a possibilidade desse entendimento comum quanto ao estágio. É ponto chave que o setting grupal seja dado, não para a eliminação de conflitos, mas pela possibilidade de externá-los, para que os envolvidos possam então, compreendê-los, explicá-los, lidar com eles e resolvê-los no grupo17. Nessas relações compartilhadas, a alteridade se revela no aspecto da reciprocidade que une as necessidades e suscita as condições para constituir um grupo.

Deve-se pontuar que os envolvidos buscam e estabelecem entre si um conjunto de trocas significativas de ideias, sentimentos, expectativas e ações que são enunciadas18 no ir e vir de atitudes, valores e novos vínculos, recebidas e respondidas em um decurso que vai ganhando história, com transformação do sentimento de afiliação para pertença.

É mister para que a articulação interpessoal no ensinar/aprender administração em enfermagem, se torne uma rede de apoio para cada um lidar com suas limitações e saber lidar com as diferenças individuais que porventura assolem o grupo17, no sentido de superar conflitos que decorrem dos processos vinculares do grupo na afiliação e pertença presentes no grupo e campo de prática. Enquanto a pertença desenvolve-se a partir da adesão individual e consciente de cada um com a tarefa, a afiliação trata da anuência em pertencer ao grupo2. Essa nuance acumulada em cada um quanto assumir responsabilidades em grupo ou sozinho é repleta da herança coletiva da qual a pessoa faz parte, sendo peculiar e única19.

Saber o que fazer em cada situação pressupõe um juízo sobre todo caso que se apresenta2, com mobilização de saberes que favoreçam o contato com a prática em sua previsibilidade e imprevisibilidade, em razão de ideologias de pertinência.

No processo educativo, para que sujeito e grupo desestruturem-se frente a um novo conhecimento e voltem a estruturar-se com base em desafios que os transformam, um movimento entre os mundos interno e externo ratificam e retificam o Esquema Conceitual Referencial Operativo - ECRO2,17, continuadamente. ECRO é um modelo conceitual conformado por esquemas internalizados pelo sujeito ao longo da vida, estando em permanente movimento a partir da interação e confrontação com o contexto, ou seja, presente na apreensão da realidade. O sujeito, ao aquiescer àqueles conceitos provenientes do cotidiano e que resultam do interjogo de papéis, amplia e modifica seus esquemas prévios e confronta seus modelos internos, configurando um novo ECRO. Os conceitos produzidos serão ponto de partida para a compreensão da realidade e o sujeito recorrerá a eles para agir cada vez que for interpelado por um novo objeto de conhecimento que tenta conhecer, cuja operatividade enseja produzir uma ação que modifique determinado aspecto da realidade. Sendo assim, o ECRO é produto tanto da história social como da individual de alunos, professores, enfermeiros e técnicos/auxiliares de enfermagem, que se relacionam cada um com seu ECRO individual e vão confrontando seus modelos e esquemas prévios formados ao longo da vida, e a partir da relação com o meio, tentam entender o que lhes acontece, modificando-se na medida em que se transformam, conformando o ECRO grupal.

Alunos, professores e profissionais de enfermagem, ao se relacionarem cada um com seu ECRO individual, tentam entender o que lhes acontece, conformando o ECRO grupal2. Essa mobilização que impulsiona o grupo para que todos possam fazer o seu melhor converge para assegurar uma disponibilidade copartícipe14, pertinente, em um terreno movediço de cooperação versus sabotagem. E, ao conhecerem quem está consigo e como internalizaram o outro, articulam-se. Deste ponto de vista, cada grupo é único, peculiar e irrepetível.

Quando as pessoas não souberem lidar com determinada situação da prática ou quando determinadas inquietudes não encontrarem ressonância e cooperação no grupo, relações interpessoais estarão dificultadas. Nesse sentido, facilidades de comunicação, os ruídos e os mal-entendidos podem impedir a ação do outro e levarem a uma posição de resistência, de sabotagem ao ensinar/aprender e à produção de cuidados de enfermagem. Ser cooperativo pressupõe ajuda mútua e significa compartilhar ideias e ações entre pares, aceitar seus diferentes pontos de vista, o que implica na aceitação da diversidade20. A cooperação revela-se fundamental para o desenvolvimento de ações integradas e repercute na produtividade, na inovação e na qualidade do ensinar/aprender e do serviço21, fortalecendo inter-relações, ajuda mútua e trabalho em equipe.

No campo profissional, empatia com os alunos em razão de suas limitações ou falhas cometidas demanda cautela, pois o grupo está às voltas com muitas expectativas e fantasias colocadas em ação em um clima de incerteza e muita ansiedade. Os sentidos produzidos na inter-relação de uns e outros delineiam um movimento de particularização a partir da entonação da voz, sua fluidez, interrupções na fala ou mesmo silêncio, sobretudo, em que se delimitam previsões nem sempre verdadeiras um do outro. Os ruídos presentes no processo comunicativo correspondem às cenas internalizadas no mundo interno de cada sujeito e que são projetadas nas relações atuais2. Se alguém se sente excluído de algum processo, as ansiedades básicas se acentuam em decorrência da contradição não resolvida22. A comunicação apresenta-se como uma necessidade no contexto da administração de enfermagem, podendo ser considerada fundamental para intermediar relações interpessoais23, até porque a comunicação começa em si, mas é elaborada na mente de outra pessoa. Nessa articulação que se estabelece no campo profissional, se a comunicação entre alunos, professor e profissionais de enfermagem confundir, as pessoas podem chegar a situações de isolamento progressivo e de desintegração2, constituindo um grupo cindido.

A partir das dimensões da aprendizagem e dos obstáculos, realizar uma leitura da realidade coerente e não acrítica poderia pressupor o desenvolvimento de capacidades de criar alternativas, contemplando, de maneira dialética, o sentir, o pensar e o fazer articulado e operativo2. A bagagem pessoal que permite a propriedade técnica e os saberes vividos, quando aliada a estudo e busca por novos conhecimentos, contribui para amenizar as inseguranças presentes no cotidiano, configurando vínculo e interpretação do real. Da mesma forma, a equipe de enfermagem, ao acolher o aluno, mostra a importância do trabalho integrado, sobretudo, para que ele possa compreender o universo em que está inserido e possa fazer sugestões para qualificar esse espaço. Precisar-se-ia tratar com prudência as aprendizagens que se estabelecem tanto no aluno como na equipe e que caracterizam marcas fortes, construídas por eles.

Essa afirmação permite delinear o paradoxo tele positiva e negativa de alunos, professores e profissionais de enfermagem que, ao articularem-se no contexto do estágio, possam quebrar alguns estereótipos que estão relacionados aos medos desencadeados frente a qualidades acadêmicas e a lógica transformadora do ensinar e aprender, como aproximação, reconhecimento e superação das barreiras e nós críticos com que se deparam e dos quais se defendem. Poder dizer: desejo trabalhar com o fulano e não posso; não quero trabalhar com outrem; significa que alguém dificulta a tarefa por um processo de reconhecimento, de reencontro, um mascaramento da realidade com personagens internos, constituído em aceitação ou rejeição2.

A fluidez do ensino na prática coloca as pessoas envolvidas em uma relação dotada de reciprocidade5,16,24, requerendo um diálogo constante e compatível com as necessidades e possibilidades5 do aluno, professor e profissionais de enfermagem considerando seus papéis na construção do conhecimento. Não obstante, é preciso considerar, ainda, que estão em ação, aqui, situações complexas como a composição e dinâmica da força de trabalho em enfermagem, a qualidade e pertinência dos cuidados e o desenvolvimento da capacidade hospitalar9 que se expressam na realidade dos serviços com todas suas tensões, contradições e imprevisibilidades decorrentes da interação entre os envolvidos com o ensino25. Dessa forma, para que o aprendizado seja potencializador do desenvolvimento gerencial do aluno é necessário assegurar-lhe apoio docente e profissional, qualificando desse modo a interatividade e o trabalho da equipe.

Algo consensual é que o aluno, ao sentir-se acolhido diante da adversidade, mesmo vulnerável, consegue dar conta das demandas emergentes e, nesse momento, contradições e conflitos no enfrentamento de obstáculos ganham sentido e o aprendizado acontece, constituindo-se em uma relação dialética com seu mundo interno e com o mundo externo, assentado sobre suas relações de necessidade e realidade. Por outro lado, para que alunos figurem na produção de cuidados de enfermagem e se destaquem por sua ingerência na equipe, um olhar conjeturado nos princípios dialéticos que regem as relações interpessoais poderá organizar condições reais e enfrentamento das contradições presentes no campo de prática. Diferente das estratégias de enfrentamento conscientes, os mecanismos de defesa operam em um nível inconsciente, podendo-se citar que notadamente as pessoas fazem ou dizem coisas sem saber por que o fizeram ou disseram, repercutindo em comportamentos distintos26, tornando explícito o que não toleram no grupo. Ou seja, o devido comprometimento e busca por soluções quanto à insatisfação na qual transitam as relações interpessoais e a liberdade e confiança de enfrentar o estágio sem medo paralisante, ainda que existam obstáculos, poderá gerar a motivação necessária para superar um problema e para que, em grupo, alcancem insights2, saltos qualitativos de aprendizagem que modificam o processo de pensar, sentir e agir.

Se considerarmos, ainda, que a emergência da práxis deve ser observada pela noção de pessoa em vínculo com outra2, tal reflexão leva a argumentar que é necessário preparar alunos, professores e profissionais de enfermagem no sentido de entrelaçarem ações de cuidado e comprometimento com o outro para um ensino e aprendizagem efetivos1, quando singularidades de cada um, de sua bagagem cultural e histórica armazenadas e experiências estabelecem possibilidades para novas aprendizagens da administração em enfermagem hospitalar a cada dia.

Conclusão

Alunos, professores, enfermeiros e técnicos/auxiliares de enfermagem não são tão somente pessoas relacionadas, são pessoas produzidas em uma práxis, ou seja, em meio ao compasso do trabalho que impulsiona a tomada de decisões, com perspectivas do ensinar e aprender administração em enfermagem no contexto hospitalar repletas de conteúdos explícitos e implícitos, e em cujas teias apropriam-se de seu ECRO para agir crítica e propositivamente em nome do ECRO grupal.

Ao incorporar o conceito de práxis ao ensinar e aprender encontra-se eco em um dos entendimentos estabelecidos ao longo deste estudo que é justamente a noção de que a aprendizagem gerencial deve dar-se conjuntamente à ação dos profissionais no contexto da prática, porém não em qualquer ação, e sim àquela visando à tarefa, no sentido pichoniano do termo.

A imersão do aluno no cotidiano profissional é salutar ao aprendizado e traz sentidos à maneira como o gerenciamento na produção de cuidados de enfermagem se organiza e desenvolve naquele espaço de interseção com o ensino. Para tanto, espaços de interlocução são necessários para que enfermeiros e técnicos/auxiliares de enfermagem sintam-se corresponsáveis pela formação do aluno, assim como se espera do professor que se sinta integrante da equipe onde acompanha acadêmicos. Dessa maneira, ambos vão estabelecendo seus papéis sociais na confluência de seus saberes, dos modos de agir e de acolher o outro, haja vista a nuance atrelada à fluidez no ensinar e aprender administração em enfermagem, demandando uma relação dotada de reciprocidade e de diálogo constante, bem como compatível com as necessidades do aluno e do contexto em uma analogia de descoberta não só do conhecimento, mas também do existir.

A partir do estudo, visualiza-se ampliação do conhecimento com repercussões para o ensino e aprendizagem da administração em enfermagem na produção do cuidado, além de suscitar possibilidades de novas investigações nesse âmbito.

Quanto ao espectro das limitações, uma diz respeito ao campo da pesquisa que, sendo um hospital universitário público, caracteriza-se por um aporte logístico e organizacional peculiar e por contingentes de profissionais da saúde e da enfermagem que favorecem a inserção e o percurso do aluno em estágio. Provavelmente, em outros cenários da atenção hospitalar se encontrassem diferentes dinâmicas e resultados em razão do seu aporte e aparelhamento. Ainda, cogita-se que outros locais que igualmente sediam o estágio da administração em enfermagem, como é o caso de serviços de saúde na atenção básica, mereceriam uma análise específica, também em razão de suas peculiaridades. Com esta sinalização reporta-se principalmente ao trabalho em equipe, que nesses locais é planejado para que ocorra majoritariamente mediante ações conjuntas e integradas da equipe multiprofissional

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* Extraído da tese "Do implícito ao explícito: o ensinar/aprender administração em enfermagem no contexto hospitalar", Programa de Pós-Gradução em Enfermagem, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2015

Recebido: 11 de Abril de 2017; Aceito: 19 de Junho de 2017

Autor correspondente: Dagmar Elaine Kaiser. Rua São Manoel, 963. CEP 90620-110 - Porto Alegre, RS, Brasil. dagmar.kaiser@ufrgs.br

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