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Revista da Escola de Enfermagem da USP

Print version ISSN 0080-6234On-line version ISSN 1980-220X

Rev. esc. enferm. USP vol.52  São Paulo  2018  Epub Nov 23, 2018

http://dx.doi.org/10.1590/s1980-220x2017006703381 

ARTIGO ORIGINAL

Diagnósticos de enfermagem no setor de hemodinâmica: uma perspectiva adaptativa

Angela Antonia Sartori1 

Mari Ângela Gaedke1  2 

André Carlos Moreira3 

Murilo dos Santos Graeff4 

1Hospital de Santa Cruz, Programa de Residência Multiprofissional em Saúde, Santa Cruz do Sul, RS, Brazil.

2Universidade de Santa Cruz do Sul, Departamento de Enfermagem e Odontologia, Santa Cruz do Sul, RS, Brazil.

3Hospital Santa Cruz, Centro de Terapia Endovascular - Hemodinâmica, Santa Cruz do Sul, RS, Brazil.

4Rede de Saúde Divina Providência, Porto Alegre, RS, Brazil.

RESUMO

Objetivo:

Identificar os diagnósticos de enfermagem da Taxonomia II da NANDA-I em pacientes atendidos no Setor de Hemodinâmica.

Método:

Estudo descritivo, transversal, com abordagem quantitativa, realizado em um Hospital de Ensino do interior do Rio Grande do Sul. Os dados foram coletados por intermédio de um instrumento de caracterização sociodemográfica e informações referentes aos problemas de adaptação do modo físico-fisiológico.

Resultados:

Participaram do estudo 100 pacientes. Foram identificados as características definidoras, os fatores de risco e os fatores relacionados por meio dos problemas de adaptação. No total, identificaram-se 28 diagnósticos de enfermagem, e para a discussão foram considerados 13, os quais apresentaram frequência acima de 50% e representaram os principais problemas adaptativos. Os componentes proteção, neurológico e atividade e repouso foram os mais frequentes.

Conclusão:

O reconhecimento dos diagnósticos de enfermagem facilita a ligação entre os principais problemas de adaptação e as intervenções de enfermagem.

DESCRITORES: Diagnóstico de Enfermagem; Cardiologia; Cuidados de Enfermagem; Enfermagem Cardiovascular

INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares são mundialmente reconhecidas como a principal causa de mortalidade, representando anualmente mais de 17 milhões de mortes (30% de todas as mortes), 80% das quais ocorrem em países de baixa e média renda. A cardiopatia isquêmica, que consiste principalmente em uma doença arterial coronariana, causa 46% das mortes cardiovasculares em homens e 38% em mulheres1. A aterosclerose, processo subjacente que resulta em doença coronariana, normalmente tem evolução silenciosa ao longo dos anos, por isso é importante o diagnóstico precoce e uma procura ativa por meio de métodos diagnósticos. O diagnóstico precoce depende muito do modo de vida da população e do acesso a que esta possui aos serviços de saúde. Porém, observa-se que em nossa realidade muitos indivíduos apresentarão quadro agudo, com alto risco de morte2.

Nesse contexto, a assistência de enfermagem torna-se fundamental para a recuperação do indivíduo com doença cardiovascular ou quando ele é submetido a procedimentos invasivos3. Para tanto, a enfermagem tem buscado aperfeiçoamento do seu campo de atuação, embasada em metodologia científica, como a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE), que é um método de organização do trabalho de enfermagem3)-(4.

Sistematizar a assistência de enfermagem envolve implementar o Processo de Enfermagem. Esse processo consiste na definição do problema do paciente pelo enfermeiro, o qual estabelecerá um plano detalhado de cuidados que deve ser devidamente implementado e documentado. O processo de enfermagem é um método de trabalho que procura ser um instrumento assistencial da prática profissional e que poderia ser aplicado em toda atividade profissional do enfermeiro5.

Os diagnósticos de enfermagem (DE), segunda fase do processo de enfermagem, são avaliações clínicas sobre as repostas dos indivíduos a problemas de saúde, o que pode nortear as intervenções de enfermagem, direcionar o cuidado e estimular o paciente a participar do seu tratamento, contribuindo para o alcance dos resultados, pelo qual respondem os enfermeiros4)-(6. Então, as linguagens especiais de enfermagem, como a taxonomia de diagnósticos de enfermagem desenvolvida pela NANDA International (NANDA-I), embasam a padronização da prática da profissão, apontando as áreas que contribuem para a enfermagem nesse cenário de cuidados7.

O Modelo de Adaptação de Roy8, referencial adotado como subsídio teórico desta pesquisa, é subdividido em quatro modos adaptativos, e neste estudo foi utilizado o modo físico-fisiológico. Este modo corresponde à resposta do indivíduo como ser físico aos estímulos ambientais a partir das cinco necessidades básicas (oxigenação, nutrição, eliminação, atividade e repouso, e proteção) e dos quatro processos complexos (sentidos, fluidos e eletrólitos, função neurológica e função endócrina)8.

Pondera-se que a identificação dos diagnósticos de enfermagem de pacientes assistidos no setor de hemodinâmica poderá qualificar a assistência, pois, além de auxiliar na elaboração de um plano de cuidados, por intermédio da aplicação do Processo de Enfermagem, proporcionará segurança ao paciente e autonomia à equipe. E, apesar da proposta deste estudo já ter sido desenvolvida de forma semelhante anteriormente9, o levantamento de novas informações a respeito da mesma população em outro cenário permite o aperfeiçoamento da assistência de enfermagem e a revisão dos DE conforme as atualizações da NANDA-I.

A partir desse cenário, este estudo teve como objetivo identificar os diagnósticos de enfermagem da Taxonomia II da NANDA-I em pacientes assistidos em setor de hemodinâmica.

MÉTODO

TIPO DE ESTUDO

Realizou-se uma pesquisa de delineamento transversal, descritiva e com abordagem quantitativa.

CENÁRIO

A pesquisa foi desenvolvida no setor de hemodinâmica de um hospital de ensino do interior do Rio Grande do Sul, referência em alta complexidade cardiovascular na região dos Vales.

A amostragem foi delimitada por conveniência consecutiva, e foi constituída por 100 pacientes admitidos no setor de hemodinâmica e submetidos a procedimentos diagnósticos ou terapêuticos. Os critérios de inclusão foram: pacientes de ambos os sexos, com idade igual ou superior a 18 anos, conscientes, em condições de responderem à entrevista, terem sido admitidos no setor de hemodinâmica de segunda-feira a sexta-feira, no horário das 07 às 19 horas, para realização de procedimento diagnóstico ou terapêutico. Critérios semelhantes foram usados em estudo anterior a este9.

COLETA DE DADOS

A coleta de dados foi realizada por pesquisadores enfermeiros durante os meses de julho e agosto de 2016, por meio de um instrumento específico de anamnese e exame físico, dividido em dados de caracterização sociodemográfica, clínica e alterações do modo físico-fisiológico do Modelo de Adaptação de Roy8. Este foi subdividido nas cinco necessidades básicas (oxigenação, nutrição, eliminação, atividade e repouso, proteção) e nos processos complexos (sentidos, fluidos e eletrólitos e função neurológica). O momento escolhido para abordar os pacientes do estudo foi antes ou depois da realização dos procedimentos.

Para a caracterização da amostra, foram utilizadas as seguintes variáveis sociodemográficas/clínicas: sexo, idade (categorizada de 20 em 20 anos), estado civil (indivíduos que viviam com ou sem companheiro), cor da pele (branca, parda ou negra), escolaridade (ensino fundamental incompleto, ensino fundamental, ensino médio ou ensino superior), ocupação (trabalhador ativo, aposentado ou desempregado), procedência (Santa Cruz do Sul ou outras cidades), comorbidades (hipertensão arterial, diabetes, insuficiência cardíaca congestiva, insuficiência renal crônica, dislipidemia), classificação do índice de massa corporal (IMC) (obesidade, sobrepeso ou peso normal) e procedimentos realizados (cateterismo cardíaco, angioplastia coronariana, estudo eletrofisiológico, angioplastia periférica, implante de marca-passo).

ANÁLISE E TRATAMENTO DOS DADOS

As informações coletadas foram compiladas em banco de dados, e foram utilizados o software Statistical Package for the Social Science (SPSS), versão 23.0 (IBM, Armonk, NY, EUA), e o programa de planilhas Excel da Microsoft Office. Foi realizada análise descritiva das variáveis coletadas, todas categóricas, as quais foram expressas em frequência absoluta e relativa. Depois da identificação das características definidoras, fatores relacionados e de risco mais prevalentes nesta população pela Taxonomia II da NANDA-I, da caracterização sociodemográfica/clínica e dos dados levantados em relação aos problemas de adaptação do modo físico-fisiológico, a seleção dos DE foi realizada em três etapas. Num primeiro momento, a partir da busca das características definidoras e fatores de risco nessa taxonomia, identificou-se uma lista de 28 possíveis DE, e foi estabelecido como ponto de corte para análise aqueles com frequência superior a 50%. Na segunda etapa, pelo raciocínio clínico e pensamento crítico, validaram-se os DE mais frequentes para a população do estudo, conforme a metodologia assistencial de enfermagem preconiza, a partir da análise do modo adaptativo fisiológico. Essa etapa foi realizada de forma independente por dois enfermeiros com expertise na temática, assim, as validações divergentes foram decididas por consenso entre eles. A terceira etapa consistiu em calcular a prevalência de cada DE validado a partir da frequência das características definidoras e fatores de risco encontrados em cada DE. Foi realizada a classificação dos diagnósticos de enfermagem conforme os domínios e classes da Taxonomia II da NANDA-I.

ASPECTOS ÉTICOS

O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul, Parecer Consubstanciado n.º 1.625.420. Os preceitos éticos da Resolução 466/2012, do Conselho Nacional de Saúde foram respeitados, e todos os participantes da pesquisa assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

RESULTADOS

Participaram do estudo 100 pacientes. Em relação à caracterização da amostra observou-se que 55% dos entrevistados eram do sexo masculino, na faixa etária de 30 a 90 anos, com predominância da faixa etária de 50 a 69 (60%), o que corresponde a uma média de idade de 64,56 anos. Houve predominância de pessoas brancas (86%) e que viviam com companheiro (78%). Verificou-se também baixa escolaridade da amostra, 47% estudaram até o ensino fundamental, e a maioria eram aposentados (57%). Constatou-se que em torno da metade dos pacientes era procedente de municípios da região, o que se justifica pelo fato de a instituição, cenário do estudo, ser o centro de referência da localidade.

Identificou-se que a maioria dos sujeitos tinha mais de uma comorbidade associada, destacando-se a hipertensão arterial sistêmica (85%), as dislipidemias (49%) e a diabetes mellitus (30%). Em relação ao índice de massa corporal, 53% dos participantes apresentavam sobrepeso, de acordo com os limites descritos pela Organização Mundial da Saúde10. Quanto ao tipo de procedimento realizado, 64% submeteram-se a cateterismo cardíaco e 21% à angioplastia coronária transluminal percutânea.

Conforme o instrumento de coleta de dados utilizado para investigar os principais problemas de adaptação do modo fisiológico8, foi possível identificar as principais características definidoras, os fatores de risco e os fatores relacionados que resultaram na identificação dos diagnósticos de enfermagem por meio de raciocínio clínico e julgamento diagnóstico. Ainda, foram descritos os diagnósticos de enfermagem mais prevalentes, associando-os com os componentes (necessidades básicas) e os processos complexos do modo fisiológico do Modelo de Adaptação de Roy.

Identificaram-se, então, 28 diagnósticos de enfermagem (Tabela 1), com uma frequência relativa entre 15% e 100%, os quais foram divididos em dois grupos. O primeiro foi representado pelos DE com frequência abaixo de 50%, e o segundo, pelos 13 DE com frequência acima de 50%. Destes, cinco diagnósticos foram de risco: Risco de infecção, Risco de função cardiovascular prejudicada, Risco de sangramento, Risco de resposta adversa a meio de contraste com iodo, Risco de perfusão tissular cardíaca diminuída; e oito diagnósticos foram com foco no problema: Sobrepeso, Débito cardíaco diminuído, Perfusão tissular periférica ineficaz, Intolerância à atividade, Comunicação verbal prejudicada, Deambulação prejudicada, Dor aguda e Mobilidade física prejudicada. Para representar a amostra estudada, escolheu-se o segundo grupo, cujo ponto de corte atingiu 50%, e todos os 13 diagnósticos foram validados por consenso entre especialistas, de forma que representam os principais problemas adaptativos encontrados nos pacientes com doenças cardiovasculares atendidos no setor de hemodinâmica.

Tabela 1 Diagnósticos de Enfermagem identificados em pacientes submetidos a procedimento diagnóstico ou terapêutico no Setor de Hemodinâmica - Santa Cruz do Sul, RS, Brasil, 2016. 

Diagnósticos de enfermagem por componentes e processos complexos N %
Oxigenação
Débito cardíaco diminuído (00029) 70 70
Padrão respiratório ineficaz (00032) 33 33
Troca de gases prejudicada (00030) 25 25
Proteção
Risco de infecção (00004) 100 100
Risco de resposta adversa a meio de contraste com iodo (00218) 90 90
Integridade da pele prejudicada (00046) 46 46
Conforto prejudicado (00214) 45 45
Proteção ineficaz (00043) 41 41
Risco de úlcera por pressão (00249) 38 38
Dentição prejudicada (00048) 32 32
Risco de resposta alérgica (00217) 15 15
Sentidos
Comunicação verbal prejudicada (00051) 55 55
Deambulação prejudicada (00088) 53 53
Dor aguda (00132) 53 53
Líquidos, eletrólitos e equilíbrio acidobásico
Perfusão tissular periférica ineficaz (00204) 65 65
Volume de líquidos excessivo (00026) 31 31
Neurológico
Medo (00148) 35 35
Ansiedade (00146) 34 34
Risco de sentimento de impotência (00152) 27 27
Risco de confusão aguda (00173) 16 16
Nutrição
Sobrepeso (00233) 77 77
Obesidade (00232) 50 50
Eliminação
Risco de sangramento (00206) 100 100
Eliminação urinária prejudicada (00016) 21 21
Atividade e Repouso
Risco de função cardiovascular prejudicada (00239) 100 100
Risco de perfusão tissular cardíaca diminuída (00200) 85 85
Intolerância à atividade (00092) 57 57
Mobilidade física prejudicada (00085) 50 50

Por meio das alterações encontradas na população do estudo, foi possível conhecer e relacionar os achados fisiológicos/físico-fisiológicos de acordo com o Modelo de Roy, conforme demonstrado na Tabela 1.

Quando analisados os diagnósticos, observou-se que a necessidade de proteção foi o grupo que apresentou maior número de diagnósticos (8), seguido do neurológico (4), atividade e repouso (4), oxigenação (3), sentidos (3), líquidos, eletrólitos e equilíbrio acidobásico (2), nutrição (2) e eliminações (2). Apenas o processo complexo de função endócrina não apresentou diagnósticos, pois não foi contemplado no instrumento de coleta de dados. A discussão dos principais DE foi ampliada, relacionando-os às suas características definidoras, aos fatores relacionados e aos fatores de risco, conforme descrito na Tabela 2.

Tabela 2 Associação dos Diagnósticos de Enfermagem mais frequentemente presentes nos pacientes submetidos a procedimentos diagnósticos ou terapêuticos no Setor de Hemodinâmica - Santa Cruz do Sul, RS, Brasil, 2016. 

Diagnóstico de enfermagem Características definidoras % Fatores relacionados ou de risco %
Risco de infecção Procedimento invasivo 100
Risco de função cardiovascular prejudicada História de doença cardiovascular 100
Risco de sangramento Regime de tratamento 100
Risco de resposta adversa a meio de contraste com iodo Meio de contraste precipita evento adverso 90
Risco de perfusão tissular cardíaca diminuída Espasmo da artéria coronária 85
Deambulação prejudicada Capacidade prejudicada para percorrer as distâncias necessárias 16 Força muscular insuficiente 37
Mobilidade física prejudicada Movimentos lentos 16 Intolerância à atividade 34
Dor aguda Autorrelato da intensidade 03 Agente lesivo físico 29
Agente lesivo biológico 21
Débito cardíaco diminuído Pulsos periféricos diminuídos 21 Ritmo cardíaco alterado 25
Edema 14
Cor anormal da pele 10
Sobrepeso IMC elevado 53 Atividade física média diária é menor que a recomendada 24
Intolerância à atividade Dispneia 17 Fraqueza generalizada 16
Fadiga 16 Imobilidade 08
Perfusão tissular periférica ineficaz Pulsos periféricos diminuídos 21 Conhecimento deficiente dos fatores agravantes 14
Função motora alterada 16
Edema 14
Comunicação verbal prejudicada Dificuldade para compreender a comunicação 20 Distúrbios emocionais 13
Fala com dificuldade 09 Barreira física 05
Dificuldade na atenção seletiva 08

DISCUSSÃO

As doenças cardiovasculares têm sido a principal causa de morte e são responsáveis pela alta frequência de internações. Muito se tem avançado em relação ao tratamento das doenças coronarianas, e a abordagem percutânea configura-se como intervenção cada vez mais prevalente. Neste contexto, a assistência ao paciente é realizada por equipe multidisciplinar, e o enfermeiro desempenha um papel importante no cuidado, uma vez que é o profissional que assiste o paciente durante toda a sua internação hospitalar10.

O enfermeiro, ao priorizar a integralidade do cuidado a partir de uma visão holística do indivíduo, trata as respostas humanas a condições de saúde e processos de vida, ou uma vulnerabilidade a tal resposta, identificando desta forma problemas de saúde e estado de risco6. Pelas características encontradas na anamnese e no exame físico, identificam-se os indicadores diagnósticos que incluem características definidoras e fatores relacionados para compor os DE com foco no problema, bem como as vulnerabilidades, que indicam os diagnósticos de risco. Ressalta-se, assim, que a fase diagnóstica é a norteadora para a obtenção dos resultados sensíveis às intervenções de enfermagem.

Neste estudo, o diagnóstico Risco de infecção foi predominante, tendo como fator de risco a realização de procedimentos invasivos com a mesma frequência estatística. Em outro estudo semelhante também se evidenciou predomínio desse diagnóstico em sua amostra, o que possivelmente se relaciona ao fato da submissão dos pacientes a procedimentos invasivos, de forma que a grande maioria deles em internação hospitalar apresentará risco para infecção, principalmente se submetidos a procedimento cirúrgico11.

Outro diagnóstico predominante foi o Risco de sangramento, definido como “vulnerabilidade à redução de volume de sangue que pode comprometer a saúde”6. Conforme estudo realizado em laboratório de hemodinâmica de um hospital universitário na Região Metropolitana do Rio Grande do Sul, Brasil, com pacientes submetidos a cateterismo cardíaco, “o sangramento no sítio de punção foi observado como a segunda complicação vascular”12. Outro estudo, realizado em 47 centros hospitalares, de todas as regiões federativas brasileiras, analisou a ocorrência de eventos cardiovasculares adversos em pacientes submetidos à angioplastia conforme a via de acesso arterial, e constatou sangramento grave em 1,1% da amostra, sem diferença estatística entre as vias radial e femoral13.

O diagnóstico Risco de função cardiovascular prejudicada é definido como “vulnerabilidade a causas internas ou externas que podem danificar um ou mais de um órgão vital ou o sistema circulatório”6. A identificação desse diagnóstico está relacionada com as alterações na função cardiovascular. Os resultados de um estudo realizado em unidade coronariana do hospital escola da Universidade Federal de São Paulo, com todos os pacientes hipertensos e grande parte com dislipidemia e diabetes, mostraram relação da síndrome coronariana aguda com os fatores de risco cardiovasculares14.

O diagnóstico Risco de resposta adversa a meio de contraste com iodo é definido como “vulnerabilidade a uma resposta nociva ou não intencional, associada a uso de meio de contraste com iodo, que pode ocorrer dentro de 7 dias após a injeção do meio de contraste, que pode comprometer a saúde”6. Estudo realizado em um hospital de ensino, em Curitiba - PR15, identificou os mesmos diagnósticos de enfermagem em pacientes submetidos a cateterismo cardíaco que os do presente estudo. Em outro estudo, realizado em hospitais franceses com pacientes que tiveram intervenções cardiovasculares guiadas por imagem exigindo administração de contraste, 3,1% das hospitalizações foram decorrentes de lesão renal aguda, a terceira causa de hospitalização16. Desta forma, destaca-se a importância da identificação deste risco para o estabelecimento de um plano de cuidados que vise à prevenção de complicações a que os pacientes estão expostos quando do uso de meio de contraste.

O diagnóstico Comunicação verbal prejudicada é definido como habilidade verbal diminuída, retardada ou ausente6, e no presente estudo teve como características definidoras dificuldade em compreender a comunicação, em falar e na atenção seletiva. Tais alterações podem ser em parte explicadas pela amostra predominantemente idosa, pois são alterações comuns a esta faixa etária. Este diagnóstico requer do enfermeiro um olhar atento para a elaboração de intervenções que promovam uma comunicação mais efetiva entre equipe e paciente, visto que o paciente nesta unidade receberá muitas orientações de cuidado, bem como precisará frequentemente comunicar à equipe suas queixas de saúde.

O débito cardíaco diminuído está entre os principais problemas adaptativos encontrados no estudo, e pode ser definido como “quantidade insuficiente de sangue bombeado pelo coração para atender às demandas metabólicas corporais”6. As características definidoras dos sinais e sintomas apresentados pelos pacientes foram cor anormal da pele, edema e pulsos periféricos diminuídos. Por isso, problemas cardiovasculares poderão alterar a função do miocárdio, repercutindo em alterações no débito cardíaco7.

O Risco de perfusão tissular cardíaca diminuída é definido como “vulnerabilidade a uma redução na circulação cardíaca (coronária) que pode comprometer a saúde”6, diagnóstico identificado a partir dos dados clínicos dos pacientes que apresentavam risco da interrupção do fluxo sanguíneo, como aqueles com infarto agudo do miocárdio, insuficiência coronariana e angina instável. O infarto agudo do miocárdio ocorre “em regiões inespecíficas do coração, sendo que a causa mais frequente está relacionada à interrupção do fluxo sanguíneo por estreitamento de uma artéria coronária”, que pode ocorrer pela obstrução da artéria por trombo, aterosclerose ou coágulo sanguíneo17.

O diagnóstico Dor aguda foi identificado por queixas torácicas, quando os pacientes relatavam dor precordial ou retroesternal, e teve como fator relacionado o procedimento cirúrgico. A dor precordial e a ansiedade presentes nas síndromes isquêmicas miocárdicas geralmente causam hiperatividade do sistema nervoso simpático, podendo causar aumento do consumo de oxigênio no músculo cardíaco18.

O IMC elevado, reconhecido fator de risco para doenças cardiovasculares, foi evidenciado em grande proporção da amostra, e o diagnóstico de enfermagem Sobrepeso foi identificado nestes pacientes. Conforme estudo realizado para analisar as características clínicas de pacientes indianos com síndrome coronariana aguda, um número significativo dos pacientes era obeso e também apresentava valor dos lipídios anormais, triglicerídeos elevados, associados com tabagismo, hipertensão, diabetes, obesidade abdominal, estresse psicossocial, fatores esses que representam risco de infarto agudo do miocárdio19.

Com o intuito de prevenir um problema em potencial, a identificação dos principais DE nesta amostra possibilita que os enfermeiros lancem mão de intervenções para reduzir o impacto dos riscos, contribuindo assim para uma melhor adaptação dos pacientes9.

O Processo de Enfermagem permite ao enfermeiro organizar o trabalho profissional de forma dinâmica e sistemática, viabilizando o atendimento às reais necessidades de saúde dos pacientes. Além disto, trata-se de um processo que favorece a identificação da equipe necessária para a implementação do cuidado e inter-relaciona as suas ações, possibilitando ainda a identificação das necessidades de qualificação e aprimoramento7), (20.

Num estudo realizado em Fortaleza − CE9, que também buscou identificar “os diagnósticos de enfermagem em pacientes com adoecimento coronário atendidos em um Laboratório de Hemodinâmica, à luz do modo físico-fisiológico do modelo de adaptação de Roy”, os resultados foram semelhantes aos do presente estudo. Os principais diagnósticos, foram os de Risco de infecção e Risco de sangramento. No entanto, em decorrência de atualizações da NANDA-I, não foi possível identificar importantes diagnósticos com melhor acurácia para o perfil de pacientes, como o diagnóstico de Risco de função cardiovascular prejudicado (inserido em 2013) e o Risco de resposta adversa a meio de contraste com iodo (inserido em 2010-2013).

CONCLUSÃO

Com a realização deste estudo foi possível identificar as características sociodemográficas e clínicas, as características definidoras, os fatores de risco, os fatores relacionados e os diagnósticos de enfermagem, por meio dos problemas de adaptação do modo fisiológico. O reconhecimento dos DE facilita a ligação entre os principais problemas de adaptação e as intervenções de enfermagem.

A utilização do modelo de adaptação do modo fisiológico permitiu identificar 28 DE dos pacientes atendidos no setor de hemodinâmica, e foram considerados para a discussão 13 deles, os quais representaram os principais problemas adaptativos. Os mais frequentes foram os dos componentes proteção, neurológico e atividade e repouso, o que possibilitou um conhecimento aprofundado da situação de vulnerabilidade de saúde e doença durante os procedimentos. Assim, a enfermagem tem o papel crucial de identificar esses sinais e sintomas no atendimento para desenvolver um plano de cuidados que contemple as reais necessidades, de modo a tornar a assistência individualizada.

Com os resultados apresentados, será possível fazer o planejamento dos cuidados específicos aos pacientes submetidos a procedimentos invasivos em setor de hemodinâmica, assim como organizar a assistência de enfermagem visando à otimização do tempo da equipe e à melhora da qualidade do cuidado, reduzindo danos e riscos à saúde dos pacientes.

Na instituição onde o estudo foi feito, os enfermeiros não realizavam todas as etapas do Processo de Enfermagem, portanto, com a implementação desta pesquisa foi possível colaborar para o aperfeiçoamento dos profissionais da enfermagem, incentivando-os a realizar a Sistematização da Assistência de Enfermagem, com vistas à melhoria do cuidado.

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Recebido: 21 de Fevereiro de 2017; Aceito: 15 de Maio de 2018

Autor correspondente: Angela Antonia Sartori Rua Thomaz Flores, 1131, Apto 602 - Bairro Centro CEP 96810-078 - Santa Cruz do Sul, RS, Brasil Telefone: (55)96337914 ange.sartori@hotmail.com

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