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Revista Brasileira de Entomologia

On-line version ISSN 1806-9665

Rev. Bras. entomol. vol.47 no.1 São Paulo  2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262003000100008 

Nova espécie de Anatrichobius Wenzel, 1966 (Diptera, Streblidae) do Brasil meridional1

 

 

Gustavo Graciolli

Laboratório de Biodiversidade e Biogeografia, Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná. Caixa Postal 19020, 81531-990 Curitiba-PR, Brasil. Endereço eletrônico: mingau@bio.ufpr.br

 

 


ABSTRACT

New species of Anatrichobius Wenzel, 1966 (Diptera, Streblidae) from Southern Brazil. Anatrichobius passosi sp. nov. collected on the vespertilionid bat Myotis nigricans, from southern Brazil is described. Habitus, gonopod and hipoproct are illustrated and a key for the species of Anatrichobius is given.

Keywords: Anatrichobius; ectoparasites, Myotis; new species; taxonomy.


 

 

INTRODUÇÃO

O gênero Anatrichobius foi erigido por WENZEL (in WENZEL et al. 1966) para abrigar uma espécie braquíptera de Streblidae, Anatrichobius scorzai, semelhante às espécies de Joblingia Dybas & Wenzel, 1947 e Aspidoptera Coquillett, 1899, e encontrada sobre morcegos do gênero Myotis Kaup, 1929. Anatrichobius scorzai Wenzel, 1966 foi registrada para Costa Rica, Honduras (WENZEL 1976; TIMM et al. 1989), Panamá, Colômbia, Venezuela, Peru (WENZEL et al. 1966) e Argentina (AUTINO et al. 1999; CLAPS et al. 2000; AUTINO & CLAPS 2001). WENZEL et al. (1966) já tinham conhecimento de uma espécie não descrita de Anatrichobius, proveniente do Brasil e Peru, em que o esternito VII era ausente nas fêmeas e o epiprocto abrigava de quatro a seis setas. Não foram feitos comentários sobre o macho.

Neste trabalho, uma nova espécie, com caracteres semelhantes à espécie acima citada, é descrita, com base em material coletado nos estados de São Paulo e Santa Catarina e depositado no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZSP) e na Coleção de Entomologia Pe. Jesus S. Moure, Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná (DZUP).

Mensurações do comprimento do corpo (CC), comprimento do tórax (CT), largura do tórax (LT), comprimento do fêmur III (CFIII), segundo WENZEL et al. (1966), foram feitas apenas em parátipos montados em lâminas.

Anatrichobius passosi sp. nov.
(Figs 1-5)

Cabeça. Em vista dorsal, mais longa que larga. Palpos mais longos que largos. Latero-vértices e lóbulos occipitais esclerotizados e distintos. Latero-vértice subquadrado, com uma seta anterior na margem interna, seis sobre o olho, três setas longas e 10 menores ao longo da margem posterior. Lóbulo occipital com 24 setas. Premento duas vezes mais longo do que largo. Olho elíptico, com sete a oito facetas.

Tórax. Mesonoto coberto de setas. Margem anterior do prescuto côncava. Sutura mesonotal longitudinal ultrapassando ou não a sutura transversal até o escutelo. Fissura notopleural esclerotizada e pigmentada. Mesopleura com setas tão ou mais longas que as do mesonoto. Setas ante-escutelares não diferenciadas. Escutelo com quatro macrossetas e quatro setas menores. Asas reduzidas e ovaladas, 1,5 vez mais longas que largas, com seis veias longitudinais cobertas de setas e uma transversal glabra; um parátipo com uma das asas apresentando uma veia transversal adicional, entre a terceira e quarta veias longitudinais, formando uma célula fechada. Pernas. Coxa I cuniforme, em vista lateral. Fêmures cobertos de macrosetas na face dorsal. Tíbias cobertas de setas, setas dorsais três a quatro vezes mais longas. Último tarsômero mais longo e mais largo que os anteriores (Fig. 1). Margem anterior do esterno expandido entre as coxas I. Lóbulo metasternal ausente (Fig. 2).

Abdômen. Coberto de setas, com as dorsais mais longas que as laterais e ventrais. Fêmea: tergito VII ausente. Epiprocto curto, sub-retangular com seis macrossetas distais e três setas menores de cada lado (Fig. 1). Hipopígio delimitado por setas com metade do comprimento das setas ventrais do conetivo abdominal. Esternito VII dividido em dois escleritos cônicos, cada um com seis macrossetas e três a cinco setas menores (Fig. 2). Hipoprocto subcordiforme, margem posterior truncada com 10 setas (Fig. 3). Placa subanal com três setas. Macho: esternitos V e VI ausentes. Hipopígio piloso, formado pela fusão do sintergosternito VII+VIII e do tergito IX. Gonópodos retilíneos, estreitando-se a partir do terço distal, com três longas setas ventrais (Fig. 4).

 

 

Mensurações (mm). Macho (n=1): CC, 2,769; CT, 0,769; LT, 0,885; CFIII, 0,885. Fêmea (n=2): CC, 2,500-3,269; CT, 0,692-1,038; LT, 0,808-0,962; CFIII, 0,962.

Holótipo: fêmea, BRASIL, São Paulo: Capão Bonito, Parque Estadual de Intervales, Carmo (600 m) sobre Myotis nigricans (Schinz, 1821), F.C. Passos & A.C. Kim col., 22/I/2001 (DZUP). Parátipos: BRASIL, São Paulo: Capão Bonito, Parque Estadual de Intervales, Sede (900 m), 1 fêmea sobre M. nigricans, F. C. Passos col., 15/IV/1999; 1 macho (em lâmina) e 2 fêmeas, com os mesmos dados do holótipo (DZUP); Cananéia, Ilha do Cardoso, 1 macho sobre Myotis nigricans, S. Fazzolari-Corrêa col., 21/VII/1990 (MZSP). Santa Catarina: Seara, Nova Teutônia, 2 fêmeas (em lâmina), hospedeiro indeterminado, F. Plaumann col., 04/VII/1936 (MZSP) "Anatrichobius sp. n. RLW '69" [manuscrito].

Etimologia. O nome específico é uma homenagem ao Dr. Fernando C. Passos, do Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná.

 

Chave para identificação das espécies de Anatrichobius

1. Sutura mesonotal longitudinal ultrapassando a sutura transversal. Fissura notopleural esclerotizada e pigmentada. Fêmeas: tergito VII ausente e epiprocto curto, sub-retangular com seis macrossetas distais e seis laterais (Fig. 1). Machos: esternito V ausente e gonópodos com três setas longas ventrais (Fig. 4) ........................................ Anatrichobius passosi sp. nov.
Sutura mesonotal longitudinal, alcançando ou não a sutura transversal. Fissura notopleural membranosa. Fêmeas: tergito VII presente e epiprocto cordiforme com 10 a 12 setas. Machos: esternito V presente e gonópodos com duas setas longas ventrais ............. ............................. Anatrichobius scorzai Wenzel, 1966.

 

Discussão. Não foi possível examinar exemplares de Anatrichobius scorzai, no entanto, a análise dos trabalhos de WENZEL et al. (1966), GUERRERO (1995) e AUTINO et al. (1999) e de fotos disponíveis em página na rede mundial de computadores de Jeremy Miller e Marcos Tschapka, Batflies of La Selva (Diptera: Nycteribiidae, Streblidae), permitiu reconhecer os caracteres mencionados na chave e que distinguem Anatrichobius passosi sp. nov. de A. scorzai. Há algumas semelhanças entre A. passosi sp. nov. e Joblingia schimidti, como a sutura longitudinal que ultrapassa a sutura transversal, o esternito V ausente nos machos e gonópodos com três setas ventrais.

Anatrichobius passosi foi encontrada somente sobre Myotis nigricans, enquanto A. scorzai tem sido encontrada sobre Myotis oxyotus (Peters, 1867) e Myotis keaysi J. A. Allen, 1914 (WENZEL 1976; GUERRERO 1995; AUTINO et al. 1999; CLAPS et al. 2000; AUTINO & CLAPS 2001). Há apenas três registros de A. scorzai sobre M. nigricans, sendo dois na Costa Rica (WENZEL 1976; TIMM et al. 1989) e um na Venezuela (GUERRERO 1995).

Em relação à distribuição, A. scorzai é encontrada em locais de altitude (620 a 1900 m) da América Central até o norte da Argentina (Tucumán), enquanto A. passosi sp. nov. ocorre em áreas subtropicais do sul da América do Sul (Fig. 5). Este padrão de distribuição é semelhante ao encontrado para as espécies de Trichobius Gervais, 1844 pertencentes ao grupo phyllostomae e talvez o mesmo venha a ser observado para Joblingia, atualmente um gênero monotípico e registrado somente em áreas de grande altitude na Guatemala e Panamá (GUERRERO 1995).

Agradecimentos. Ao CNPq, pela concessão da bolsa de estudos. À Dra. Eliana Cancelo pelo empréstimo do material depositado no MZSP. Ao Dr. Fernando C. Passos (BIOTASP-FAPESP 98/12556-1), pela coleta de exemplares provenientes do Parque Estadual de Intervales, São Paulo. Ao Dr. José Ricardo M. Mermudes e Dr. Luiz Gonzaga dos Santos-Neto pela leitura crítica do manuscrito. Ao Dr. Paulo Roberto Valle da Silva Pereira pela confecção das figuras 1 e 2.

 

REFERÊNCIAS

AUTINO, A. G.; G. L. CLAPS & R. M. BARQUEZ. 1999. Insectos ectoparasitos de murcielagos de las Yungas de la Argentina. Acta Zoologica Mexicana (nueva serie) 78: 119-169.        [ Links ]

AUTINO, A. G. & G. L. CLAPS. 2001 (2000). Catalogue of the ectoparasitic insects of the bats of Argentina. Insecta Mundi 14: 193-210.        [ Links ]

CLAPS, G. L.; A. G. AUTINO & R. M. BARQUEZ. 2000. Nuevos registros de Streblidae (Diptera) para la Argentina. Acta Zoologica Mexicana (nueva serie) 80: 241-243.        [ Links ]

GUERRERO, R. 1995. Catalogo de los Streblidae (Diptera: Pupipara) parasitos de murcielagos (Mammalia: Chiroptera) del Nuevo Mundo. V. Trichobiinae con alas reducidas o ausentes y miscelaneos. Boletín de Entomologia Venezolana, Nueva Serie, 10: 135-160.        [ Links ]

MILLER, J. & M. TSCHAPKA. Batflies of La Selva (Diptera: Nycteribiidae, Streblidae). www.sel.barc.usda.gov/Diptera/batfly/imdex.html> Acesso em 20/XI/2001.        [ Links ]

TIMM, R. M.; D. E. WILSON; B. L. CLAUSSON; R. K. LAVAL & C. S. VAUGHAN. 1989. Mammals of La Selva-Braulio Carrillo complex, Costa Rica. North American Fauna 75: 1-162.        [ Links ]

WENZEL, R. L. 1976. The streblid batflies of Venezuela (Diptera: Streblidae). Brigham Young University Science Bulletin, Biological Series 20: 1-177.        [ Links ]

WENZEL, R. L.; V. J. TIPTON & A. KIEWLICZ. 1966.The streblid batflies of Panama (Diptera: Calypterae: Streblidae), p. 405-675. In: R.L. WENZEL & V.J. TIPTON (eds.). Ectoparasites of Panama. Chicago, Field Museum of Natural History, xii+861p.        [ Links ]

 

 

Recebido em 20.II.2002
Aceito em 30.X.2002

 

 

1 Contribuição no 1391 do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná

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