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Revista Brasileira de Entomologia

versão impressa ISSN 0085-5626versão On-line ISSN 1806-9665

Rev. Bras. entomol. v.50 n.1 São Paulo jan./mar. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0085-56262006000100013 

BIOLOGIA, ECOLOGIA E DIVERSIDADE

 

As borboletas (Lepidoptera, Papilionoidea) do Distrito Federal, Brasil

 

The butterflies (Lepidoptera, Papilionoidea) of the Distrito Federal, Brazil

 

 

Eduardo de Oliveira EmeryI; Keith S. Brown JrII; Carlos E. G. PinheiroIII

IDepartamento de Zoologia, Instituto de Biologia, Universidade de Brasília, UnB-Programa de pós-graduação em Biologia Animal, 70910-900 Brasília-DF, Brasil. eoemery@unb.br
IIMuseu de História Natural, Universidade Estadual de Campinas-Unicamp. Caixa Postal 6109, 13084-971 Campinas-SP, Brasil.
ksbrown@unicamp.br
IIIDepartamento de Zoologia, Instituto de Biologia, Universidade de Brasília-UnB, 70910-900 Brasília-DF, Brasil. cegp@unb.br

 

 


RESUMO

Neste estudo é apresentada uma listagem atualizada com 504 espécies e 506 subespécies de borboletas (Papilionoidea) observadas no Distrito Federal nas últimas quatro décadas, onde foram reunidos dados da bibliografia, de coletas pessoais e de várias coleções entomológicas; espécies com ocorrência apenas presumida não foram incluídas. Alguns aspectos relacionados à ocorrência de espécies ameaçadas e à conservação da fauna de borboletas no Distrito Federal são também discutidos.

Palavras-chave: Brasil central; cerrado; conservação; diversidade; Neotropical.


ABSTRACT

An updated list containing 504 species and 506 subspecies of butterflies (Papilionoidea) found in the Distrito Federal (central Brazil) in the last four decades is presented in this study, including data obtained in the literature, our personal collections, and several entomological collections recently visited, but not species with presumed distribution in the region. Some aspects concerning the occurrence of threatened species and the conservation of the butterfly fauna in the Distrito Federal are also discussed.

Keywords: Central Brazil; cerrado vegetation; conservation; diversity; Neotropical.


 

 

Situado na porção central do Planalto Central Brasileiro (15º30'-16º03' W e 47º18'-48º17' S; 750-1350 m altitude) o Distrito Federal ocupa uma área de aproximadamente 5.800 km2. O clima da região é caracterizado por uma estação quente e chuvosa, de outubro a abril e outra fria e seca, de maio a setembro, com temperatura média anual variando entre 18 e 22ºC e precipitação média anual de 1600 mm. Nesta região encontra-se uma grande diversidade de fisionomias de vegetação de cerrado, entre as quais podemos citar o cerrado sensu strictu, campos cerrados, cerradões, veredas, matas de galeria e extensões de florestas semidecíduas, também conhecidas como florestas mesofíticas, encontradas sobre os afloramentos de solos calcários ou nas baixadas próximas aos rios (Goodland 1971; Eiten 1972). Estas paisagens bastante heterogêneas se constituem nos habitats preferidos de uma enorme variedade de borboletas que aí encontram as condições necessárias para sua sobrevivência.

O primeiro estudo aprofundado sobre a fauna de borboletas do cerrado foi realizado por Brown & Mielke (1967a, b) que apresentaram uma listagem com aproximadamente 700 espécies de borboletas (Papilionoidea e Hesperioidea) em toda a região do cerrado, muitas delas encontradas no Distrito Federal. Estes autores também analisaram as relações faunísticas do cerrado com outros biomas brasileiros, indicando que a fauna do cerrado tem muitas espécies ou subespécies em comum com a mata atlântica (veja também Brown & Freitas 2000), a floresta amazônica, a caatinga e outros biomas que o cercam, além de um número relativamente grande de espécies com ampla distribuição geográfica. O número de espécies ou subespécies endêmicas do cerrado é pequeno (<6%).

Nestes últimos quarenta anos vários outros estudos envolvendo levantamentos da fauna de borboletas foram realizados no Distrito Federal (Pinheiro & Ortiz 1992; Diniz & Morais 1995, 1997). Neste período novas espécies e subespécies foram descritas e novas classificações envolvendo os diversos taxa de borboletas foram também propostas (Brown 1992; Tyler et al. 1994; Lamas 2004). Além disso, o Distrito Federal vem passando por um intenso processo de urbanização, pela implantação de atividades agrícolas e outras atividades econômicas que levam inexoravelmente à destruição do habitat natural. A necessidade de uma lista atualizada de espécies é, portanto, fundamental para a avaliação e o monitoramento da perda em biodiversidade de borboletas, bem como para o desenvolvimento de diferentes tipos de pesquisas envolvendo estes insetos.

Neste estudo foram reunidos dados da bibliografia, de coletas pessoais e outros compilados em coleções entomológicas para produzir uma listagem atualizada das espécies de borboletas (Papilionoidea) do Distrito Federal. Alguns aspectos relacionados à ocorrência de espécies ameaçadas e à conservação da fauna de borboletas são também discutidos.

 

MATERIAL E MÉTODOS

A listagem de espécies apresentada a seguir foi baseada nos levantamentos de fauna realizados por Brown & Mielke (1967a,b) nas florestas de Sobradinho e matas de galeria do Rio Sobradinho, Chapada da Contagem, região da Fercal, Brasília Country Clube, Jardim Zoológico de Brasília, Reserva Ecológica do Gama e Rio Maranhão, por Pinheiro & Ortiz (1992) na Estação Ecológica do Jardim Botânico, por Pinheiro et al. (1992) no Parque Nacional de Brasília, por Diniz & Morais (1995, 1997) na Fazenda Água Limpa (UnB), Reserva Ecológica do IBGE e Parque Nacional de Brasília, por Pinheiro & Emery (dados não pub.) na Estação Ecológica de Águas Emendadas, Fazenda Água Limpa, Reserva do Centro Olímpico (campus da UnB), Poço Azul, Vila Telebrasília, Reserva do IBGE, Reserva do CPAC (Embrapa) e em várias localidades na bacia do Rio Maranhão, além de dados obtidos nas coleções entomológicas da Universidade de Brasília, do IBGE, do Centro de Pesquisas Agropecuária do Cerrado (EMBRAPA) e da Coleção de Entomologia Pe. J. S. Moure, Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná. Espécies com distribuições geográficas presumidas ou encontradas apenas em regiões vizinhas ao Distrito Federal não foram incluídas.

A classificação adotada segue Tyler et al. (1994) para os Papilionidae e Lamas (2004) para os demais grupos de Papilionoidea.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Um total de 504 espécies e 506 subespécies de Papilionoidea foi registrado no Distrito Federal. A classificação adotada e o número de espécies encontrado em cada grupo taxonômico estão apresentados na Tabela I. A lista atualizada de espécies é apresentada na Tabela II. Este grande número de Papilionoidea demonstra claramente a grande riqueza de espécies desta região dos cerrados brasileiros. Entretanto, podemos esperar que o número de espécies que efetivamente ocorrem no Distrito Federal seja ainda maior, pois algumas regiões ainda não foram satisfatoriamente amostradas. Brown & Freitas (2000) estimam que o número de borboletas (Papilionoidea e Hesperioideia) no "Brasil central" deve chegar a 1.000. Podemos ainda esperar que novas espécies sejam adicionadas a esta lista com o avanço das pesquisas em taxonomia, especialmente nas famílias Hesperiidae, Lycaenidae, Riodinidae e Nymphalidae (Satyrinae).

 

 

 





 

Poucas espécies consideradas vulneráveis ou ameaçadas de extinção estão presentes nesta listagem (Tabela II). Entre elas merecem atenção especial: Parides burchellanus (Papilionidae, Troidini), que consta na lista de espécies ameaçadas da IUCN Red Data Book (Collins & Morris 1985), Magnastigma julia (Lycaenidae, Theclinae) e Agrias claudina godmani (Nymphalidae, Charaxinae), que constam do catálogo de espécies ameaçadas do Estado de Minas Gerais (Brown, Mielke & Casagrande 1988). Populações isoladas de Parides burchellanus e Agrias claudina godmani foram recentemente encontradas em diferentes locais do Distrito Federal. Populações de Magnastigma julia foram observadas na Estação Ecológica do Jardim Botânico, na Fazenda Água Limpa e na Reserva do IBGE.

O grande risco a que toda a fauna local de borboletas está exposta decorre da destruição e fragmentação dos seus habitats naturais. Cerca de 150 espécies desta fauna ainda não foi registrada em qualquer unidade de conservação do Distrito Federal, sendo que a maior parte destas espécies está concentrada nas florestas semidecíduas que ocorrem sobre solos calcários nas regiões de Sobradinho, Chapada da Contagem e Fercal, ou em matas de galeria associadas aos rios de médio e grande porte, dois ambientes que não estão representados nas reservas, estações e parques aí encontrados (Pinheiro 2006).

O fato de ocorrer em áreas protegidas, por si só, também não garante que determinada espécie esteja de fato protegida. Com o avanço da urbanização e da agricultura, muitas das unidades de conservação vêm sendo transformadas em "ilhas de vegetação", geograficamente isoladas de outras unidades. Os efeitos advindos do isolamento sobre as populações locais, como a interrupção do fluxo gênico, pode ser fatal para a grande maioria das espécies, além do estado precário de conservação das unidades (incêndios, caçadores clandestinos, animais domésticos, plantas invasoras, depósitos de lixo e diferentes agentes poluidores são comuns em várias unidades). Outras informações relacionadas à conservação da fauna de borboletas podem ser ainda encontradas em Brown (1991, 1992, 1996).

Agradecimentos. Somos gratos a Olaf H. H. Mielke e Mirna M. Casagrande pela obtenção de dados da Coleção Entomológica Pe. J. S. Moure, Departamento de Zoologia, Universidade Federal do Paraná; André V. L. Freitas, Paulo C. Motta, Ivone R. Diniz, Ronaldo B. Francini, Helena C. de Morais, Amabílio Camargo e Eurides Furtado pela colaboração na identificação de espécies e troca de idéias.

 

REFERÊNCIAS

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Recebido em 17/08/2005; aceito em 13/02/2006

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